Aquela madrugada acabou sendo mais longa do que todos esperavam que fosse. Com os preparativos para abandonar a casa, todos se despediram uns dos outros, pois teriam que se separar. Hermione decidiu ir com Ginny e Draco para a Toca, Luna voltaria para a residência dos Lovegood, Narcissa à Mansão Malfoy, Harry já estava com os Dursley, e, Sirius iria embora com Lupin. Antes de partir, a loira puxou a sobrinha para perto de si e revelou que precisava fazer um feitiço elaborado para proteger os bebês. A castanha ficou olhando para ela um tempo, tentando assimilar o motivo de tudo aquilo e apenas ouviu como resposta que era necessário. Com isso, ela assentiu e Narcissa começou a sussurrar:
- Nos vapores da aurora, os ventos se banham por gotas de incenso. Nas horas mais sombrias, raspam gotas de incenso que fazem a lua desaparecer sob uma espessa fumaça que a transcende. Tão pálida, que desmaia sob as estrelas, com seus beijos de sangue cobrem toda a sua pele. A noite retorna, reverte e dissipa os nevoeiros que atrapalham a visão. Agitando as águas do seu oitavo sentido, a cada badalar que anuncia o espectro de tempo. São dois que ativam e fecham a passagem. Então, a boca se abre, cheia de ar e saliva, com a fome eterna de uma alma viva e há luta para manter o seu sangue quente correndo por suas veias. Seja forte, nada acaba com eles e, quando menos esperar, aqueles que menos espera serão capazes de reabrir a caçada para se alimentar daquelas suas feridas. Entre gramas, céus e sepulturas, tantos e tantos de sangue negro te protegem sem que saibam seu nome ou datas. São eles que afastam os gritos tão claros das almas condenadas que te perseguem à noite. É sangue do meu sangue, meu peito dói e lamenta pelo seu sofrimento, meu coração bate devagar e meu castelo se rompe perante o seu terror. Sangue do meu sangue, eu te dou e invoco mais um pouco de vida. Quando ninguém acreditar, mesmo que as maiores atrocidades te cerquem, veja que estarei ao seu lado, curando as suas pequenas cicatrizes e preservando a sua esperança. Não há como se libertar, perto do pântano e da promessa sufocada, até que o sangue jorre e manche as estrelas. Será, então, que aquele que é sangue do seu sangue, voltará e, será digno do seu tormento de amor e sonhos constantes.
- Obrigada. Isso foi... fantástico. Eu não conhecia esse feitiço... – disse Hermione pensativa.
- Certamente, não. É um feitiço muito antigo que remete a tempos imemoriais da casa dos Black. Minhas irmãs nunca se interessaram por ele e outros tantos que as mulheres da nossa família deveriam saber – deu de ombros.
- Eu só não entendi uma coisa – a menina fez um semblante interrogativo.
- Pergunte à vontade – sorriu.
- Quando evocou "Não há como se libertar, perto do pântano e da promessa sufocada, até que o sangue jorre e manche as estralas. Será, então, que aquele que é sangue do seu sangue, voltará e, será digno do seu tormento de amor e sonhos constantes", o que significa exatamente? – questionou refletindo aquelas palavras.
- Que o Severus, no momento em que é pai dos seus filhos, se torna sangue do seu sangue. Afinal, carrega duas crianças que são a mistura de vocês dois, há muito do sangue dele aí dentro. Além de que, quando precisar, ele irá te salvar. Agora, devo ir e não conte nem ao seu pai que eu fiz isso. Sirius sempre odiou os feitiços da família por considera-los todos magia negra – se despediu, dando às costas para Hermione, aparantando.
Os dias foram passando com as tentativas de Ronny se aproximar da castanha e convencê-la de que era muito melhor do que Snape, os preparativos da Ordem da Fênix de retirar o menino-que-sobreviveu da casa dos tios antes do seu aniversário de 17 anos e, também, o casamento de Ginny e Draco, já que este não necessitava mais da autorização dos pais para selar o enlace. Molly passou esse tempo elogiando o loiro, principalmente, quando recebia a visita de Narcissa. Sempre enfatizava o quão maravilhada estava com o fato dele ser tão bem-educado. Ressaltava, para quem quisesse ouvir, que mesmo já tendo um filho, o menino seguiu as regras impostas por ela no convívio da casa e só entrava no quarto de Ginny para auxiliá-la com o bebê. Em uma dessas conversas, Hermione, que estava com um olhar perdido mirando o horizonte, decidiu prestar atenção no assunto das duas mulheres.
-... Narcissa, você sabe, ainda lembro do dia em que atravessou a nossa porta com o seu filho ainda bebê nos braços e com a Nymphadora pela mão, dizendo que Dumbledore havia te mandado aqui. Você não era muito mais do que uma jovem, de 20 anos, perdida. Quem diria que, justamente, o seu menininho ia casar com a minha filha! – falava a senhora de cabelos ruivos.
- É verdade... ironias do destino! Quando cheguei aqui, não sabia o que fazer naquele momento. Lucius entrara em casa dizendo que o Sevie estava preso, que ninguém sabia ao certo quanto tempo ele ficaria em Askaban. Eu só pensava na minha sobrinha, ainda tão pequena, sozinha naquela casa. Não fazia ideia de como agir. Simplesmente, peguei o Draco e saí para buscar ajuda - a loira estava pensativa enquanto lembrava daquele dia e continuou:
- A única pessoa que me ocorreu foi Dumbledore, que me fez prometer auxilio à Ordem... o que eu não tive como negar. Precisava ajudar o meu amigo e não podia deixar a minha florzinha abandonada. Então, ele me ordenou que eu deveria vir para cá e falar com vocês para que ela ficasse aqui. Foi a primeira vez que eu entrei em uma casa que poderia ser chamada de lar... – sorriu triste em meio ao desabafo.
- Arthur estava no julgamento dele. Me disse que viu no Severus apenas um menino apavorado, muito magro, cheio de medo pelo o que poderia acontecer... que estava muito longe de ser o Comensal da Morte que descreviam. Assim que terminou e ele recebeu a absolvição, Arthur o trouxe para cá – falou segurando a mão da outra mulher, dando seguimento ao seu relato:
- Você deveria ter visto como foi a chegada dele aqui procurando a irmã... era praticamente uma criança tímida e assustada, lutando para não a perder. Eu acabei ficando com dó do desespero dele, meu instinto materno falou mais alto e disse que o melhor era ficar aqui alguns dias. Menti que era o mais correto para a Dora, afirmei o quanto ela já estava acostumada a brincar com os meninos e acabaria sentido falta de conviver com outras crianças. O Severus, mesmo contrariado, aceitou e ficou agarrado a ela por todo esse tempo. Sempre muito quieto, muito educado e prestativo... ele me dava a impressão de que estava tentando agradecer de alguma forma o que tínhamos feito – concluiu Molly pensativa.
- É que o Sevie também não teve um lar... é estranho eu dizer isso. Mas, mesmo sendo rica, nunca tive uma família ou um lugar no mundo de fato. Com ele, aconteceu algo semelhante, mas, em um contexto de extrema pobreza. Se eu comparasse a vida dele com a que ele viu aqui, foi como se estivesse entrando em uma mansão, com pessoas que, realmente, o queriam perto – Narcissa encheu os olhos de lágrimas.
- Era tão ruim assim? – perguntou a ruiva incrédula.
- Muito pior. O pai dele era um sujeito horrível. Sujo e asqueroso em todos os sentidos... espancava a esposa e o único filho, fez com que o Sevie assistisse a própria mãe ser estuprada várias vezes. Você sabe que a Dora é fruto da violência que o canalha do Tobias cometeu contra a minha irmã... e, por pior que isso tenha sido, incrivelmente, foi a existência dela que proporcionou ao meu amigo uma família – secava os olhos, enquanto as lágrimas insistiam em acompanhar as suas palavras.
- Sabe o que mais me machuca? É que ele não encontrou pessoas como vocês quando ainda era uma criança. Meus pais poderiam tê-lo ajudado, Dumbledore o protegido... ninguém o fez. O Sevie foi criado feito um animal acuado a todo o instante. Fosse porque o xingavam ou pelo fato de que decidiam bater nele, sem qualquer motivo. Nunca deram uma oportunidade dele mostrar o quanto era bom! Lembro do dia em que fui com ele e Dumbledore para que todos da Ordem da Fênix vissem quem era o espião, você não tem ideia das coisas absurdas que disseram! O único que não o ofendeu foi o Lupin, porque no que dependesse do Sirius e do Moody, ele voltaria naquela mesma hora para a prisão e receberia o beijo dos dementadores – respirou fundo, sentindo que Molly ainda segurava firme a sua mão.
- Ainda bem que o Arthur e eu demos a ele uma chance, então. Vi o quanto ele mudou com o tempo, indo do menino assustado ao homem frio, ouvi muitas vezes meus filhos reclamando dele... particularmente, no lugar do Severus, teria puxado as orelhas de cada um, principalmente, de Fred e George, que são tiranos! Porém, me recordo da sua presença, no meio dos meninos quando ainda eles pequenos. o quanto brincava com eles e ria quando faziam alguma bobagem, o Bill era o predileto por ser mais velho. Também lembro dele segurando a Ginny no colo e falando à Dora que ela tinha uma amiga. Logo ela que, depois, ele fez o possível para que aqueles animais não atacassem – agora era a ruiva que chorava emocionada.
- Mesmo que não tivesse a conhecido quando bebê, jamais ele permitiria que a machucassem - Narcissa falou com um ar confiante.
Como elas estavam absortas na conversa, Hermione acompanhava atentamente tudo o que diziam sem que as atenções se voltassem para a sua presença ali. Era interessante escutar o que outras pessoas pensavam sobre o seu Severus Snape e tentar compreender os pontos que, tão bravamente, aquele homem de olhos de ônix lhe escondia. Por algum tempo, a castanha se perdeu novamente nos seus pensamentos, sentia saudades dele a ponto do seu coração apertar e doer. Queria que estivesse ali, que a apertasse em seus braços e prometesse que tudo ia ficar bem... mesmo que não fosse verdade. Ao retomar a consciência do seu entorno, percebeu que as mulheres continuavam muito concentradas falando a respeito de algum desdobramento da mesma questão.
- Eu não entendo, Narcissa... o que levou a briga dos dois? – Molly já estava de pé pegando ingredientes para o chá.
- Ah, ele é obstinado a ser infeliz... o Lupin já deve ter contado a vocês que a Mione foi a única namorada que o Sevie teve durante toda a vida. Aliás, primeira namorada e com quem ele deixou de ser virgem – a loira abriu um meio sorriso ao dizer isso.
- Não me diga que ele esperou se apaixonar para que acontecesse?! – levou as mãos ao rosto admirada.
- Sim, ele esperou! Bom, meu filho também o fez... o importante é que, por debaixo daquela máscara, se encontra um homem romântico e inseguro – fez um gesto de negação com a cabeça antes de dar prosseguimento:
- Quanto ao que quer saber... aquele teimoso decidiu que o melhor era afasta-la. Disse uma série de absurdos, inclusive que sempre sonhou em dormir comigo.
- A Mione acreditou? Não creio... se o Severus tivesse interesse por você, houve oportunidades de sobra durante todos esses anos. Ele praticamente foi o pai do Draco, já que o Malfoy sempre tratou mal e desmereceu o menino – olhava para a Narcissa com um ar descrente em relação àquelas palavras.
- Pois então, Sevie usou o meu nome para descrever tudo o que viveu com ela. Se deixar guiar pelos seus instintos mais primitivos, provar do mais profundo prazer, passar umas horas de sexo intenso, realizando cada uma das suas fantasias. Também usou o nome da Lillian, para manifestar o amor que sente pela Mione. De tudo o que falou, a única coisa verídica é que se arrepende de ter sido o responsável pelo relato da profecia e o Harry ter ficado órfão. Contudo, por ciúmes ou por uma autoestima baixa, ela acreditou no que a Bella disse e, daí, já viu... ele mentiu descaradamente e tudo foi aceito como verdade – antes que terminasse de a frase, Hermione se meteu no assunto.
- Eu era ou sou a mulher que ele definiu como a dos sonhos dele? – olhou para Narcissa desconfiada.
- Sim, você mesma! Não conheço outra que se enquadre no que o Severus afirma como "que mulher"! E, sinceramente, Hermione... você tem mais da Bellatrix do que admite. A teimosia, a obstinação, o ciúme, a beleza, a inteligência, a coragem, um gênio briguento e indomável e, é claro, todo esse cabelo revoltado. Entretanto, queria muito que tivesse puxado a autoconfiança também. Pois, se algum dia tivesse se olhado mesmo no espelho, jamais acreditaria tão facilmente no que ele declarou – respondeu calmamente a observando.
- Mas... – tentou argumentar sendo interrompida por Molly, que estendeu a ela uma xícara.
- Você deve, em algum momento, ter parado de sonhar com ele olhando para a janela e se concentrado no que conversávamos. Então, um homem como o Severus, é difícil de ser encontrado e muito fácil de ser perdido. Pelo fato de que ele acredita profundamente que não merece ser feliz. Se prestou bem atenção, Hermione, você foi a única namorada e a primeira mulher que ele teve na vida. Se estivéssemos falando de um homem que procura apenas diversão, ele não teria esperado namorar com alguém... faria o caminho mais fácil de ir atrás de uma prostituta – falou em tom maternal, vendo que a castanha enchia os olhos de lágrimas.
- Claro que isso não o abstém de levar uns tapas pelo o que te disse e a maneira como se expressou... ou melhor, jogue alguma azaração nele. Assim, o Severus arruma tempo para pensar na besteira que fez – argumentou Narcissa observando o próprio chá antes de olhar para a sobrinha, que se mantinha de cabeça baixa.
No mesmo momento, na mansão Malfoy, Snape passava as informações quanto à transferência de Harry antes do dia do seu aniversário de 17 anos. Após uma discussão quanto às notícias díspares que surgiram, o assassinato de Charith Burbage e a mesma ter servido de alimento para Nagini, Bellatrix aproveitou para, mais uma vez, tentar prejudicar o mestre em Poções. Principalmente, depois de Voldemort ter se referido ao fato da sua sobrinha ter casado com um lobisomem.
- Milorde, isso é culpa do Severo que nos garantiu que ela estava morta - disse com um sorriso nos lábios.
- Já falamos a respeito disso, Bella. Vários Comensais, mesmo que isso não seja costume, manifestaram que era possível um equívoco... a aberração poderia estar com a pulsação baixa e, certamente, ele não sujaria mais as mãos estudando se estava morta ou viva! Não vejo aqui ninguém que o faria, nem mesmo você! Alguém deve tê-la encontrado... – estava articulando o seu argumento com um aterrorizante olhar do mais puro ódio, quando ela quase o interrompeu:
- Mas, milorde...
- Como ousa me atrapalhar? Isso já foi tratado e Severus já foi punido. O que quer mais? – a encarou fixamente esperando que respondesse qual o seu objetivo.
- Não tento, me perdoe... no entanto, não é a primeira e única falha dele. Creio que não tenha contado ao senhor que é amante da filha que eu tive com o Sirius – falou de cabeça baixa, quase como em reverência, tentando esconder o sorriso que teimava em aparecer.
- Ora... não me diga... temos um segredo aqui?! – sibilou se virando para o homem.
- Ela mente, milorde! – argumentou com um semblante vazio de expressões.
- Não, ela não o faz – Malfoy se envolveu e prosseguiu ao ver que obtivera permissão:
- A Hermione Black, ou Granger, ou Geavet... o que seja, foi sua namorada no passado, Severus. Como uma viajante do tempo, ela sumiu e reapareceu. Isso nos leva a crer que estejam juntos novamente.
- Severus, pensei que fosse fiel a mim! Contudo, faz sentido o que estão relatando... nunca o vi tão desleixado, desnorteado e soturno. Arriscaria a afirmar que tenho diante de mim um homem apaixonado – sorriu enfatizando cada palavra maleficamente.
- Ela está grávida, milorde – Bella rapidamente sublinhou e ficou olhando fixamente para onde Snape estava sentado.
- Isso é que é uma notícia interessante para nos alegrar. Severus será pai e, obviamente, não me negará a criança para que seja preparada como um novo ou nova Comensal da Morte. Não é mesmo? – os olhos ofídicos não desviavam do homem de cabelos negros.
- Não milorde... – manteve os pensamentos desfocados e livres de sentimentos.
- Tenho certeza de que irá casar com ela e trazê-la para nós – continuou o Lorde das Trevas.
- Claro... como o senhor desejar. Tudo para melhor servi-lo – Snape se contorcia por dentro. Queria matar um a um dos que estavam ali presentes... se deixava dominar pelo ódio e pelo medo do que pensavam em fazer com a sua rainha.
- Se ela não quiser vir... mate-a! Na verdade, agora pouco importa, tenho mais atração pela criança e como posso treiná-la – ao ouvir isso, os olhos de ônix chisparam a raiva, mas o homem apenas assentiu. Teria que pensar em algo, urgentemente, para que ela ficasse segura e longe de todo aquele horror. Precisava salvá-la, necessitava de um plano e de ajuda. Começava a se ver desesperado.
- Ótimo! Viu Bella, seu amado Severus, pouco se importa com a sua filha. Se desejar, pode ajudá-lo na tarefa de arrastá-la para cá – os dois se olharam diabolicamente e trocaram sorrisos cúmplices quanto ao que pretendiam executar. Agora não era apenas Harry Potter o foco de total interesse do Lorde das Trevas...
