Harry olhava pela última vez para a casa onde havia sido criado, enquanto terminava de reunir os seus pertences e Edwiges. Era um sentimento estranho observar aquele lugar que trazia tantas lembranças e saber que nunca mais retornaria. Era a despedida definitiva. Questionou a coruja se queria também dizer adeus e recebeu como resposta a sua total indiferença... ela não sentiria falta de um ambiente que trouxe mais sofrimento do que felicidade ao seu dono. Imerso em pensamentos e recordações, foi retirado dos seus devaneios por um barulho repentino, acompanhado de vultos que passavam levemente, ao passo que, a Desilusão começava a se esvair. Hagrid foi o primeiro a se destacar, retirando o capacete e o óculos de proteção, deixando-os presos ao guidão da sua motocicleta. A sua volta, pessoas estavam desmontando de vassouras e, em dois casos, desmontavam de Testrálios. Vendo quem eram, o menino correu para o meio deles, abraçando cada um. Mesmo que fizesse pouco tempo entre aquele momento e a última vez que haviam se visto, sentia saudades e se alegrava em vê-los novamente.
- Tudo pronto, Harry, para irmos? - perguntou o meio gigante já recolocando o capacete na cabeça.
- Claro, óbvio! Só não esperava que tantos viessem aqui – respondeu olhando o seu entorno.
- Decidimos vir em bando para te tirar dessa casa – ressoou a voz de Sirius com um som de quem estava sorrindo de felicidade. Pois, esperou anos para tirar o afilhado daquela residência horrível e habitada por gente detestável.
- Creio que não podemos resolver a nossa vida no meio da rua, não acham? Melhor entrarmos para tratar do plano antes de partirmos – inquiriu Lupin que se mostrava completamente preocupado com a segurança daquela operação. Não ter mais a presença de Moody, entre eles, era uma perda irreparável e os colocava em risco por não saber de onde o perigo os espreitava.
Harry concordou e os convidou a acompanhá-lo. Todos adentraram na cozinha em meio a risos e conversas, aproveitando para puxarem cadeiras, sentarem na bancada ou recostarem-se nos armários e aparelhos domésticos do cômodo. O bruxo de olhos claros olhava cada um, Hermione e Nymphadora com suas pequenas barrigas já aparecendo; Ronny mais alto do que ele recordava; Fred e George animados e com um sorriso no rosto, Bill com as cicatrizes cada vez mais aparentes e os cabelos maiores, ao lado da esposa, Fleur; senhor Weasley, Sirius, Lupin, Shacklebolt, Hagrid e Draco. O coração do menino-que-sobreviveu, batia apressado, se sentia feliz e queria, novamente, abraça-los sem exceção.
- Quim, pensei que você estava cuidando do Primeiro Ministro, pelo menos foi o que eu vi na tv... – falou, enquanto distribuía copos com água, suco, refrigerante, cerveja aos visitantes.
- Certamente, ele sobreviverá sem mim por uma noite. Você é mais importante – respondeu para Harry, fazendo um gesto de agradecimento.
- Ei, Harry... adivinhe quem escolhemos como padrinho do pequeno Teddy? – Dora esboçava um profundo contentamento naquelas palavras, se arrumando mais um pouco sobre a máquina de lavar, para ficar confortável.
- Não faço ideia... – a olhou sem entender muito bem o que estava tentando mencionar, enquanto, ela acariciava a própria barriga.
- É você, né, bobão! Bem que a Mione me disse que, às vezes, era meio lerdo para entender as dicas – riu abertamente.
- Nessas horas, é que eu me lembro bem que você é irmã do Snape! – sorriu e foi em direção a moça de cabelos cor de rosa para abraça-la.
- Muito obrigado! Eu... eu não sei como agradecer. Mas, quero que você e o Remus tenham certeza de que fico muito honrado com esse convite – prosseguiu indo em direção a Lupin que estendia a mão para ele.
- Você padrinho do meu filho e, eu, escolhido para ser de um dos que a Mione espera. O outro será o Draco, por escolha do Severus – Harry arregalou os olhos com a notícia e o abraçou para felicita-lo.
- É uma grande felicidade receber um convite como esse! – expondo todo o seu orgulho naquelas palavras.
- Realmente, estou muito alegre e orgulhoso por você e a Dora terem me convidado... muito obrigado mesmo! Muitos aqui sabem que são a família que eu tenho – ao dizer isso, mostrou o quanto estava emocionado.
Antes que o menino se dirigisse a amiga, o bruxo de cabelos castanho-claro, o impediu manifestando que era importante que todos se apressassem. O plano inicial havia sido abandonado e não existia meios de transporta-lo por meios mágicos porque Harry ainda era menor de idade. Isso era um dos fatores principais que impossibilitava todas as tentativas pensadas, pelo fato de que elas acarretariam no seu rastreamento pelo Ministério e, consequentemente, os Comensais da Morte iriam encontra-lo. Sirius aproveitou a deixa para explicar que, se esperassem o instante em que ele atingisse a maior idade, toda a proteção dada por Lilian estaria perdida e o Aquele-que-não-deve ser nomeado, iria diretamente lá para assassiná-lo. O mesmo aconteceria no minuto em que atravessasse a porta e não considerasse mais aquela casa como sua moradia.
- O que faremos, então? – perguntou pensativo, enrugando a testa.
- Vamos voar, Harry! É o único método que nos restou e é indetectável, por não depender de magia. Iremos de vassouras, testrálios e na minha antiga moto, que agora pertence ao Hagrid – Sirius argumentou já se levantando, ao mesmo tempo, Shacklebolt expressava alguns outros pontos a respeito do plano:
- Depois dessa noite, não haverá mais volta, o encanto estará quebrado e Você-sabe-quem não tem conhecimento que vamos te remover daqui. Deixamos uma falsa pista ecoar pelo Ministério, eles pensam que você não sairá dessa casa até a magia de proteção ser desfeita. Contudo, temos em mente com quem estamos lidando... o que nos leva a não ter muita certeza se ele descobrira ou não a verdade. É tudo muito vago e vamos tatear a mais completa escuridão hoje.
- Harry, tenha claro que podem existir Comensais da Morte patrulhando cada centímetro do céu por toda essa área. Esse perigo iminente, nos obrigou a providenciarmos proteções para uma dúzia de casas em que você poderia ficar escondido – finalizou Sirius, vendo que o afilhado não estava totalmente confiante no plano, mas, que concordava com ele mesmo observando o quão arriscado seria colocar tudo aquilo em prática.
- Você será levado para a Toca – enfatizou Lupin, o fitando, como se tentasse passar convicção no que tange ao que seria feito.
- Ótimo... mas, não seria estranho e meio óbvio o nosso destino, quando quatorze de nós estarão indo rumo à Toca? – questionou Harry.
- Ah, sim! Claro, você tem razão... não iremos os quatorze juntos para a Toca. Existirão sete Potters voando através dos céus essa noite. Cada um deles com um companheiro, os pares indo para casas diferentes. Depois, evidentemente, nos reuniremos na casa dos Weasley – argumentou Shacklebolt, retirando uma garrafa que parecia estar cheia de lama.
- Vocês não vão fazer isso! É um absurdo... sem essa! – falou quase gritando.
- Eu avisei que ele teria um ataque quando compreendesse o plano – manifestou Hermione que, até então, se mantivera em silêncio prestando atenção a todo o assunto e em cada uma das pessoas que estava naquela cozinha.
- Não estou tentou um ataque! Não me lembro de você ser tão irresponsável, Mione! Até onde eu saiba, você e a Dora estão grávidas... não quero que se arrisquem dessa maneira. O mesmo serve para os outros, vocês podem morrer por minha causa. Isso é ridículo – contra-argumentou.
- Ah, tá bom, Harry. Não será a primeira vez para nenhum de nós aqui com a Poção Polissuco. A Dora não vai precisar beber nenhuma gota – falou Ronny.
- Ela até pode ser que não, mas, a Mione, sim. E se fizer mal? E se prejudicar os bebês? Alguém aqui tem conhecimento profundo dos efeitos em crianças que estão em formação? – afirmou descontente.
- Está tudo bem, aí? Você é, de fato, Harry James Potter? Fico aterrorizado de que o filho do Pontas tenha adotado um discurso no melhor estilo de Severus Snape, o Ranhoso! – Sirius olhou para ele sorrindo pela brincadeira que acabara de fazer. Não queria vê-lo tão nervoso antes de entrar, praticamente, em um campo de batalha.
- Harry, ninguém aqui quer morrer e, muito menos, que os filhos da Mione nasçam com a sua cara! Já basta que eles são filhos do Snape e que Merlin os proteja de não ter aquele nariz! Imagina se vierem com essa sua aparência de bobo?! Coitados, não obterão nenhuma chance! – disse Fred com um sorriso zombeteiro, porém, Harry não riu. Estava suficientemente contrariado com tudo aquilo para achar graça de qualquer coisa naquele momento.
- Ah, calem a boca! Eu li em um livro de poções que não terá nenhum efeito colateral nos bebês. Eles estão bem seguros quanto aos impactos da Polissuco – a castanha se manifestou enfurecida, cruzando os braços decidida a não prestar mais atenção ao que discutiam. Sabia que acabaria perdendo, a qualquer momento, a paciência com alguns deles e estava convicta de que seria capaz de encaixotar alguém ao menor sinal de gracejo.
O desacordo se acirrou quando Harry exteriorizou toda a sua relutância em colaborar. Começaram gritos, ameaças, birras, suplicas e todo o tipo de coisa para convencê-lo do que fariam... em oposição, Hermione olhava para o lado de fora da casa. Refletia no tamanho da loucura em estar contente com a simples possibilidade de que no meio da batalha veria Snape novamente. Seu coração se apertou de saudades pelas semanas que estava longe dele, sem ter notícias, nem ouvir a sua voz ou sentir o cheiro que a enfeitiçava. Era torturante se apegar a esperanças injustificáveis de que o teria, mesmo que por alguns instantes furtivos, diante de si, altivo e arrogante... com aquele olhar tão cheio de significados que, invadiam e revelavam o coração dele. Entretanto, sua forma de mirar os outros, passava apenas desprezo como se a humanidade inteira lhe fosse infinitamente inferior. Ela sorriu com essa ilusão, aquele homem de cabelos negros e olhos de ônix, não era o príncipe dos contos de fada, contudo, seria eternamente o maior mistério a ser explorado... significava o perigo e o desafio, que lhe incendiavam os pensamentos. A castanha estava certa de que, dentro do seu peito, verdadeiras ondas de eletricidade lhe cortavam os músculos, como se um vulcão estivesse ativado e, por todo o seu corpo, um mar de lava incandescente corresse por suas veias no lugar do sangue. Esse era o efeito que aquele bruxo soturno e rabugento lhe causava, fosse por pensamento ou quando a invadia, vigoroso e apaixonado.
Como se saísse de um transe, decidiu respirar fundo e focar na adversidade que se apresentava, na introjeção de ódio e prudência que a manteriam sã e salva. Tinha certeza de que não era uma donzela indefesa, estava convicta do quanto era sábia e corajosa para se sair bem e enfrentar o seu primeiro grande combate... se houvesse. Foi, então, que recordou da voz dele, afirmando que para se defender, jamais abandonasse a ideia de que o avesso encarniçado do assassínio, era o mais completo esforço da noite para conseguir manter a morte fora do seu ciclo de existência. Era isso que teria que fazer, ser forte, sobreviver... mostrar, não só a Snape, porém a todos, que no meio de um mar tão agitado com ondas revoltas, ela era uma guerreira autônoma e livre. Nada poderia impedi-la de executar tudo o que considerasse certo e seguir em frente, para o seu destino.
Ao retornar a sua atenção ao que acontecia naquela cozinha, percebeu que Harry estava desconcertado arrancando um punhado do próprio cabelo. Algo lhe dizia que alguém devia ter perdido a paciência e dado alguns berros, para que tomasse juízo. Contudo, pouco importava quem ou o que ocorreu. Notou que ele jogava os fios dentro da poção, e, o líquido, começara a se modificar, adquirindo uma tonalidade dourada e brilhante.
- Certo, então. Todos os falsos Potters, se dirijam até aqui e fiquem alinhados – ordenou Shacklebolt, que permaneceu com o mesmo tom de voz para dar as demais coordenadas do plano, esclarecendo pontos que poderiam ainda gerar algum tipo de dúvida:
- Como sabem, qualquer Comensal da Morte terá a intenção de capturar Harry, todavia, não cogitará sob qualquer hipótese mata-lo. Estão impedidos pelo desejo de Você-sabe-quem de o assassinar pessoalmente, não delegando isso a quem quer que seja. Entretanto, vocês que estão na condição de protetores, devem ter muito claro em suas mentes que são um alvo em potencial e podem ser mortos no primeiro erro que cometerem. Entenderam?
Todos assentiram em silêncio, esticando as mãos para agarrarem os copos com a poção e beberem simultaneamente. Não poderia existir qualquer diferença de tempo, porque, qualquer falha, decretaria o aniquilamento de muitos. Ronny, Hermione, Fred, George, Fleur e Draco ingeriram o líquido, se engasgando e fazendo caretas de nojo à proporção que entrava em suas gargantas. Os meninos Weasley tremiam e se contorciam, Draco dava chutes no ar se debatendo no chão, Hermione e Fleur pareciam sentir dores horríveis lhes atravessando por dentro como lâminas afiadas. Lupin e Sirius foram auxiliar o bruxo de vestes africanas a pegar as roupas, óculos e bagagens que estavam dentro dos sacos. Harry olhava para aquela meia dúzia idêntica a ele e se considerava perdido em um episódio de Arquivo X, ou algum tipo de filme de terror B, como A cidade dos amaldiçoados. Principalmente, quando viu todos se despindo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Nesse instante, refletiu consigo que trocar de roupa era normal... o problema estava no surrealismo que aquela cena trazia. Já vestidos, os seis falsos Harry, pegaram as respectivas bagagens e gaiolas com corujas brancas empalhadas se enfileirando.
- Ótimo. Estão todos prontos? Alguma dúvida? – questionou, fazendo com que todos o encarassem e ele prosseguisse com a organização:
- Os pares serão os seguintes: Sirius Black viajará com Draco Malfoy na vassoura, conforme ele mesmo me solicitou; Arthur e Fred Weasley seguem juntos; Remus Lupin e George Weasley devem proteger um ao outro; Bill e Fleur Weasley, seguirão no testrálio, como foi pedido; embora a sua prima tenha me requisitado o direito de leva-la, Hermione Snape irá comigo; e, por fim, Nymphadora Lupin e Ronald Weasley formam a última dupla – ao concluir, virou-se para cada um atestando que todos haviam entendido e já estavam ao lado dos seus pares.
- Você vai comigo, Harry. Tudo bem? – perguntou Hagrid um pouco ansioso.
- Claro, está ótimo! Tenho certeza de que fará o seu melhor e dará tudo certo – falou não tendo muita certeza do que dizia, mas, precisava passar segurança ao amigo meio gigante.
- Em teoria, pensamos que os Comensais da Morte, vão concluir que esteja em uma vassoura. Provavelmente com o Lupin ou com o Black... pelo histórico de amizade que eles possuem com os seus pais – argumentou como se ouvisse todos os pensamentos do menino de olhos claros, garantindo que as informações passadas por Snape a Voldemort, atestariam esse fato. Certamente, os Comensais atacariam, primeiro, aqueles que estivessem acompanhados por estes respectivos bruxos, antes de voltarem a atenção para os demais.
- Agora vamos. Andem! – enfatizou Shacklebolt.
Por todos os lados, vassouras estavam alçando voo. Hermione e Fleur foram auxiliadas a subirem, cada uma, em um testrálio. Harry se acomodava no carrinho preso à lateral da moto, sentindo-se extremamente humilhado por se encontrar naquela situação ridícula. Parecia uma criança indefesa e incapaz sentado ali... todos os outros apresentavam ter alguma autonomia na sua locomoção. O motor rugiu como um dragão enfurecido, em meio ao silêncio da noite, e, o menino, pode ouvir do alto a risada do seu padrinho com relação ao barulho que o veículo fazia. Pensou no quanto Sirius estava radiante com toda aquela aventura que se descortinava à frente de seus olhos. Em segundos, todos estavam no ar, cortando os céus rapidamente, indo cada vez mais alto e depressa. Era como se cenas de um videoclipe psicodélico, de paisagens alucinantes, passasse diante de si. Suas pernas doíam amassadas naquele carrinho mínimo. Edwiges piava desgostosa por não aproveitar da liberdade do voo... tudo ficou estranho e confuso. Mais do que de repente, surgiram cerca de trinta figuras encapuzadas, com máscaras que escondiam as suas identidades, avançando contra eles. Raios verdes e vermelhos se cruzavam e colidiam por todos os lados, parecendo fogos de artifício. Havia gritos e palavras de ordem, feitiços sendo lançados. Sem saber de onde ou como veio, um feixe de luz esverdeado acertou a coruja e ela caiu morta. Harry bradou de dor e seu lamento se misturou ao impulso da moto. Sua infância e inocência jaziam ao lado dela. Era como se uma nova vida, muito mais sombria e mórbida, aparecesse a partir dali. Sua mente girava, o que ocorrera com Edwiges decorreria com os outros e o terror começou a dominar cada célula do seu corpo. Ao se virar, viu vultos se movendo, luzes se entrecruzando, pares de pessoas se afastando e sendo perseguidas. Por todos os lados, os homens de preto ficavam mais próximos, obrigando Hagrid a disparar através do cerco. Queria voltar para os seus amigos e ajuda-los, mas não podia. Se sentia impotente diante de toda aquela situação. Quantos mais morreriam por sua causa?
Imediatamente, quatro Comensais se aproximaram de modo ameaçador e agressivo. Como proteção, Hagrid, apertou o botão verde colocado na moto e uma parede sólida se formou no ar atingindo um deles. Harry se defendia lançando feitiços estuporantes, que se chocavam com maldições imperdoáveis e outras não identificadas. Logo, o outro botão foi acionado, de coloração roxa, gerando chamas de dragão que saiam do cano de descarga da moto. Isso fez com que a mesma adquirisse uma velocidade absurda, como se combustível espacial tivesse sido injetado ali, e, o som do metal começando a se romper ecoou alarmante nos ouvidos.
- Está tudo bem, Harry. Não se preocupe! – berrou com o corpo mais afastado do guidão. O carrinho, neste ponto, já evidenciava estar desgovernado.
- Hagrid, tranquilo! Eu arrumo isso sozinho. Reparo! – disse tentando passar um ar de tranquilidade perante o caos instaurado. Algo lhe afirmava que se Voldemort não obtivesse êxito, aquela moto descontrolada o mataria. Porém, antes que pudesse ter tempo de organizar um pouco os seus pensamentos, surgiu um barulho ensurdecedor. Harry se viu voando para frente, sendo impulsionado sem rumo à escuridão em queda livre. Tentando não se desesperar, apontou a varinha e fez o carrinho levitar completamente desestabilizado... sem conseguir recuperar o controle, novos feitiços foram lançados contra ele impiedosamente.
- Impedimenta! – gritou atingindo um Comensal bem no meio do peito, fazendo com que o homem ficasse perdido e quase se chocasse com um dos seus companheiros. Foi, então, que Harry sentiu que novamente caia e procurava se defender de algum jeito evocando feitiços e os jogando a esmo.
Em outro ponto da batalha, Snape viu a irmã passar por ele com um Potter na garupa da vassoura e se enfureceu com a irresponsabilidade em se envolver com aquilo. Não entendia por qual motivo ela saíra de casa e estava se arriscando no meio de tantos que seriam premiados se a matassem ali mesmo. Seus pensamentos eram de esquartejar vivo o seu cunhado, pela sua incapacidade de proteger a própria esposa e o filho que viria... mas, foi interrompido, justamente, ao enxergar Lupin com outro Potter e um Comensal da Morte apontando a varinha para atingi-lo. Sem pensar muito e nem traçar grandes táticas de combate, os seguiu mirando na mão do mascarado.
- Sectumsempra – por algum motivo, desviou o feitiço acertando a orelha do caroneiro da vassoura. Foi tudo muito rápido, o de cabelos castanho claro reconheceu o que os tinha de coloração preta e se assustou. Como se estivesse indo ataca-lo, se aproximou apontando a varinha, fazendo com que Snape imitasse o gesto ao se encararem.
- O que faz aqui, Severus? – questionou ao mesmo tempo em que lançava um feitiço qualquer para ser desviado.
- Tenho que manter o meu disfarce. Creio que ficará difícil tendo você me convidando para dançar aqui, lobo! – respondeu sarcástico, fazendo o mesmo, para que aqueles que vissem de longe pensassem que estavam duelando. Com isso, prosseguiu:
- Gostaria de saber o quão frouxo e incompetente é para que a Nymphadora esteja aqui?!
- Sou marido e não dono dela. Não posso prendê-la dentro de casa... nem você conseguiu, cunhado! – continuou com a mesma postura de enfrentamento, no mesmo instante que, o Potter gemia de dor.
- Quem é esse? – perguntou Snape.
- É o George, seu imbecil! Você acertou a orelha dele... – falou contrariado se afastando, mas antes enfatizou:
- Sua esposa está aqui também. O Quim está a protegendo.
- Ah, merda! Mas que caralho, Hermione, o que veio fazer aqui?! – gritou bufando de raiva como se ela estivesse o ouvindo. Não bastava ter a convicção de que seria vítima de uma força da natureza chamada Molly Weasley, ainda era obrigado a lidar com duas lunáticas que estavam pouco se importando com os próprios filhos para proteger um barbado. Começava a cogitar a possibilidade de que a insanidade era um traço forte entre as mulheres da família Black, não caberia outra explicação plausível a tamanha irresponsabilidade e suma competência em se enfiar em confusões. Se desesperava, por não saber exatamente como proceder, devia proteger as duas. Mas, como? Respirou o mais fundo que pode e tomou a decisão de rastrear a castanha pelo Elo, sentindo que estava indo em uma direção oposta à que se encontrava.
- Hermione, diga ao Kingsley, que eu estou indo atrás de você – começou uma tentativa de conversa com ela.
- Não vou fazer isso, Severus. Como sabe que eu estou com ele? – retorquiu, iniciando uma discussão, mantendo a atenção no que ocorria a sua volta.
- Remus me disse, mas não importa! Vou tirar você daqui e levar para um local seguro.
- O que faz aqui? – Snape sentiu a voz dela ecoar na sua mente com um tom de insegurança.
- Fui mandado junto aos outros. Como você mesma disse, minha cara, eu sou apenas um Comensal da Morte imundo. Entretanto, quando vi a Dora, percebi que algo estava errado... simples assim.
- Nada é tão elementar...
- O que quer que eu diga, Hermione? Que você se enfiou nesse tumulto, mesmo sabendo que está grávida? Que é uma irresponsável ao fazer isso? Que eu não quero nem pensar o tipo de merda que foi feita para se meter aqui? Quero que me responda como você ousa questionar as minhas intenções! Sua... petulante! – Hermione percebeu que ele estava à beira de perder a paciência.
- Não banque o preocupado. Você pouco se importou com os seus filhos quando me disse uma série de absurdos! Grosso... babaca sem coração! Porque mente tanto?
- Sempre fui sincero com você, Hermione, até o dia em que, brilhantemente, preferiu ouvir frases falsas e se apegar a elas. Não é minha culpa o fato de que é cética e age feito uma desmiolada.
- Não vou discutir com você... sua atitude me mostrou muito bem que não se preocupa comigo e com as crianças!
- Pare de cagar pela boca, menina tola! Me responda se já está perto de estar em segurança...
- Sim, estou. Afinal, alguém está empenhado em me deixar assim e, pasmem, não é você!
- Também não é o seu amado cabeça de fósforo!
- Como?
- Acha que eu não sei, Hermione? Você se enfiou na casa dele! Só Salazar está informado do que deve estar acontecendo. Agora isso... retribuindo a sua pergunta, porque mente tanto? Porque não admite que o quer? Facilite para você mesma! Me diga que não quer as crianças, mas não as coloque em risco.
- Severus... você não afirmou isso! Não se atreva nunca mais a duvidar da minha honra ou dos meus sentimentos. Você é um porco bastardo e se não tiver nada de importante para me dizer... adeus, seu idiota!
- Merlin, essa mulher ainda vai me enlouquecer! Nem que eu tenha que ir até o inferno para resolver isso e ver se ela está bem, o farei. Não passa de hoje! – afirmou alto como se estivesse convencendo a si mesmo.
Harry sentiu que alguém o agarrava pelas vestes e lhe colocava sentado na moto. Sem conseguir regular os seus pensamentos, apontou a varinha para o carrinho e o fez explodir no ar. Sentiu mais por ter feito isso com o corpo de Edwiges, que jamais receberia um sepultamento digno, do que em relação ao Comensal atingido e jogado para fora da vassoura. Começava a compreender que perdia um pouco da empatia perante alguns inimigos e não se sentia culpado por estar se defendendo, mesmo que isso custasse a vida daqueles que o queriam morto. Sem se dar conta, acabou cometendo um erro que auxiliou no seu reconhecimento e perdeu as poucas certezas que lhe restavam... só queria sair vivo dali. A moto baixou um pouco e, em uma fração de segundos, duas maldições quase o acertaram. O Lorde das Trevas, agora, estava voando como fumaça ao vento, sem vassoura, tampouco testrálio, ou qualquer coisa que o valesse para segurá-lo no ar. Era uma cena horripilante aquela imagem branca, como um espectro maligno de rosto ofídico e olhar assassino, deslizando pelo ar com tanta facilidade. Hagrid jogou a moto em um mergulho cego no abismo da escuridão, enquanto, Harry lançava uma série de feitiços contra às trevas da noite. Um estrondo surgiu, o veículo estava fora de controle soltando faíscas e indo de encontro ao nada... tudo ocorria freneticamente. O meio gigante saltou contra um Comensal e ambos submergiram na imensidão desconhecida, o menino tentava segurar a moto com os seus joelhos e ouvia os sussurros da morte próximos aos seus ouvidos... seus olhos se fecharam e a sua varinha agiu por conta própria, soltando uma espécie de fogo dourado. Um grito de fúria ressoou e Voldemort desapareceu.
Pouco depois, Harry tombou em um poço de lama, a moto estava destruída e, Hagrid, desacordado no chão. Com o barulho, correram para o lado de fora da Toca, Molly e Ginny, que estavam ansiosas pela chegada deles ali. Ao perceberem que estavam machucados, os auxiliaram, curando cortes, recuperando ossos e dentes quebrados. Ao observá-las tão apreensivas, começava a se expandir pelo seu corpo um misto de dor, medo e culpa. Respondia todas as perguntas possíveis e imagináveis para assegurar a sua verdadeira identidade, como também, o que acontecera durante a batalha. Percebendo que era o único que havia chegado, se desesperou e se agarrava com todas as forças em modos de explicar o injustificável.
- Ainda bem que você está a salvo – disse a ruiva mais velha o abraçando e o menino-que-sobreviveu teve certeza de que não merecia aquele gesto de carinho.
- Você tem um conhaque, Molly? Seria apenas para fins medicinais... e você, Ginny, como está aquele menino loiro sorridente? – perguntou Hagrid, um pouco agitado, tentando afastar os maus pensamentos ao mencionar Scorpius. As duas fizeram um gesto para que eles as acompanhassem. A menina ruiva falava para o meio gigante que pegaria o bebê no quarto para que o visse, já a sua mãe, por outro lado, parecia querer esconder o rosto e as lágrimas que lutavam para sair.
- Ronny e Dora deviam ter chegado antes de vocês. Mas, eles perderam a Chave de Portal... ela voltou sem eles – disse apontando para uma lata de óleo enferrujada e continuou entregando a garrafa de conhaque para Hagrid que já estava entretido com o pequeno menino que ria feliz alheio a tudo:
- Já aquele tênis velho, era para ter trazido Arthur e Fred... vocês dois eram os terceiros. Se tudo ocorrer bem, George e Remus estarão aqui em um minuto.
- Mãe, vem aqui, rápido! – gritou Ginny, mostrando um local, relativamente próximo, onde uma luz surgiu no meio da escuridão. Ali apareceram Lupin e George que caíram juntos no chão. O bruxo de cabelos castanho claro, logo, se levantou e agarrou o rapaz com força e, assim, o levou desacordado e coberto de sangue até o gramado da residência. Ali recebeu a ajuda de Harry para leva-lo para dentro da casa. Foi como se o tempo parasse... a menina não respirava olhando atônita para o irmão, o estômago do menino estava revirado diante daquela cena. Lavado de uma cor escarlate que pintava o pescoço e parte do rosto, o rapaz ruivo estava sem uma orelha. Lupin pegou Harry pelo braço o arrastando para a cozinha, apontando a varinha contra o seu pescoço, ignorando completamente o que Hagrid lhe falava:
- Me responda, qual a criatura estava no canto da minha sala quanto Harry Potter a visitou pela primeira vez em Hogwarts? – questionou ríspido, dando umas sacudidas no bruxo mais jovem.
- Ah, eu... era um Grindylow no tanque, certo? – retorquiu sem ter muita convicção. No entanto, sentiu que estava liberto e Lupin se encostava no armário da cozinha, com uma expressão alarmada.
- Me desculpe! Eu tinha que ter certeza de que era você. Neste instante, todo o cuidado é pouco... alguém sabia do plano e nos traiu – falou passando a mão pelos cabelos tentando pôr as ideias no lugar.
- Ora... ninguém da Ordem denunciaria o meu transporte esta noite! – disse, tentando convencer a si mesmo o quão aquela ideia de que existiria um ser insidioso entre eles era repulsiva. Jamais acreditaria que alguém dali era também um Comensal da Morte.
- Voldemort só sabia que era, realmente, eu... porque teve certeza de que eu estaria com o Hagrid – afirmou.
- Como?! Ele alcançou vocês? O que houve? Como escaparam? – questionou aterrorizado, obtendo como resposta um relato de todos os fatos até chegar ao instante em que tentou desarmar Stan Shunpike e foi repreendido por Lupin que, estava pasmo com a burrice de usar um feitiço, presenciado por tantos Comensais no Torneio Tribruxo, em um confronto na frente dos mesmos. Ao término da conversa, decidiu vagar um pouco pelo jardim, percebendo dois vultos se aproximando. Era Hermione e Shacklebolt, com expressões cansadas, mas bem. Os homens apontaram as varinhas um para o outro e se questionaram, entrando rapidamente em acordo. Teriam que descobrir quem era o traidor... A castanha, enquanto eles conversavam, acariciava o arranhão que adquiriu em algum momento da batalha. Pouco importava quando, mais uma vez, ela e Snape tinham discutido por um motivo bobo e acabaram se ofendendo. Não compreendia os motivos que estavam levando a brigarem tanto. Inegavelmente o amava, queria abraçá-lo com todas as forças, fazer amor com ele novamente... contudo, parecia que o universo estava conspirando contra todos os seus desejos. Só voltou a sua atenção ao que ocorria no seu entorno, quando escutou Lupin relatando que George perdera uma orelha e que o responsável era, justamente, o seu bruxo de cabelos pretos.
- Porque o Severus fez isso, Remus? – questionou.
- Hermione... ele não estava apontando para nós. Não se preocupe! Creio que o Severus tentou impedir algum feitiço ou alguém prestes a nos atacar. Não sei exatamente o que houve, ele pode ter perdido a concentração... é estranho porque o Sectumsempra sempre foi uma especialidade dele. O fato concreto e que posso garantir, agora, é que ele acabou acertando o George – respondeu respirando fundo.
- Ele me disse que virá aqui... nós discutimos feio pelo Elo e dissemos coisas horríveis um ao outro - falou com a voz saindo fraca, quase como um sussurro.
- A Molly vai destroça-lo quando o ver e o melhor é que ninguém se meta – garantiu.
