Prontos para o capítulo 46?

Boa leitura!


CAPÍTULO XLVI – A Verdadeira Força

"Aposto que planejou tudo isso, seu velho egoísta. Sabia que eu tentaria te impedir de fazer essa loucura, por isso me mandou até a arena para ajudar Aldebaram com o treinamento dos aprendizes", pensou Dohko de Libra fitando a caixa trancada com o selo de Athena. "Uma vez você me pediu que cuidasse da sua família quando não estivesse mais aqui. A verdade é que se quer sei como vou dar a notícia a sua esposa. Ah Shion... Meu velho amigo...", o pensamento do libriano mergulhou em profunda tristeza. Sentia-se em pedaços, mas sabia que precisava demostrar serenidade diante dos cavaleiros e da inconsolável jovem deusa. Limpou a lágrima que brotou de seu olho e se aproximou de Saori Kido.

- Shun, use suas correntes para puxar o Shion de volta! – pediu Athena indo ao encontro do santo de Andrômeda. – A corrente de Andrômeda pode atravessar dimensões. Lance-as quando eu romper o selo...

- Senhorita Saori, é seguro fazer isso...? – indagou o irmão de Ikki.

- Não podemos deixar o Shion preso com o Kairos! – exclamou Athena – Temos que fazer alguma coisa.

- A corrente também libertaria Kairos, - disse Shiryu de Dragão – Ele é o irmão mais novo de Cronos, um dos deuses com a capacidade de manipular o tempo. As lendas dizem que enlouqueceu depois de ser expulso do Olimpo pelo irmão. Precisamos encontrar outra forma de libertar o Shion...

- Não há outra forma. – falou Dohko de Libra. – O poder dos selos que Shion usou durarão centenas de anos. Os selos foram fortalecidos por emanações de cosmos de várias reencarnações de Athena, nem mesmo a Athena desta época poderia rompe-los sozinha.

As palavras de Dohko foram um balde de água fria nas esperanças de Saori. Ela caiu de joelhos. Dohko a segurou pelos ombros. Os olhares tristes de ambos se encontraram. Athena viu toda a dor do cavaleiro que acabara de perder seu grande amigo e apesar disso, procurava manter sua postura sábia, já que era agora a única referência para os cavaleiros presentes. Embora soubesse que ninguém jamais substituiria Shion, agradecia aos deuses por ter Dohko de Libra naquele momento tão doloroso.

Os outros cavaleiros de ouro chegaram ao terraço e foram até Athena oferecer apoio. Kanon trouxe Saga desacordado em seus braços. Aiolos de Sagitário ajudou a colocar Saga sentado no chão com as costas apoiadas numa coluna partida.

- Ele perdeu muito sangue? – quis saber Sagitário.

- O suficiente para reparar várias armaduras. – Kanon respondeu. – Lutou sem a menor condição física.

- Não morreu graças a você, eu presumo. A explosão de seus cosmos foi tão intensa que pude sentir fora da barreira dimensional. – disse Aiolos em tom ameno, pois sabia da grande admiração que Kanon tinha pelo irmão gêmeo, embora o general jamais fosse capaz de admitir.

- Aiolos, ele vai ficar bem? – Kanon perguntou.

- Ele precisa de uma transfusão de sangue e cosmo urgente.

- Eu posso...

- Não. Você está exausto depois da luta. Deixe-o comigo e com os médicos do Santuário. – pediu Aiolos.

Kanon agradeceu Sagitário com uma batida de leve em seu ombro. Realmente sentia-se baqueado. Lutar sem armadura era algo terrível, extenuava demais o corpo. Além disso, não gostaria de estar por perto quando Saga acordasse, não queria enfrentar sua ira por ter omitido que ele estava na mira de ser o receptáculo de Ares, o deus da guerra. Aproximou-se calmo e silenciosamente do grupo que conversava com Athena.

- Senhorita, eu sei que é difícil, mas precisa ser forte. – disse Dohko de Libra – Todos nós a partir de agora. Shion se sacrificou para impedir que os deuses da aliança cobrassem a vida de Athena, ao mesmo tempo eliminou a principal ameaça contra o Santuário, o deus Kairos, e por fim, protegeu sua família.

- Como esses deuses poderiam cobrar a vida de Athena, mestre Dohko? – indagou Seiya de Pégaso.

- Os deuses da aliança ajudaram Athena a reviver os cavaleiros mortos durante a última guerra santa sob algumas condições, uma delas era que nenhum cavaleiro poderia traí-la novamente. – revelou Libra – Esses mesmos deuses exigiram que Shion eliminasse uma jovem descendente de um clã muito antigo inimigo declarado dos deuses. Essa jovem é aprendiz desse Santuário e filha de Shion. Evidentemente, Shion não pôde realizar a exigência, tornando-se assim um traidor de Athena, já que os fundadores do clã que citei, se rebelaram contra os deuses no passado causando grande estrago no Olimpo. Os deuses da aliança não toleravam a presença da garota no Santuário. Eles enfraqueceram os santos de ouro para pressionar Shion. Entregar a própria vida na luta contra Kairos, foi o meio encontrado por Shion para livrar Athena e os cavaleiros das exigências dos deuses.

Kanon foi o único que não ficou chocado ao ouvir as revelações de Dohko. Seu principal sentimento era raiva e tédio, por saber que estivera certo o tempo todo. A presença de Jim causara toda aquela confusão, na verdade enquanto ela vivesse, os deuses prosseguiriam Athena. "Voce se sacrificou por nada, Patriarca", desdenhou em pensamento. Fechou o punho com força. De repente não sentia mais cansaço, apenas determinação para fazer o que precisava ser feito e que ninguém tinha coragem. Sorrateiramente deixou o terraço do templo de Athena e se dirigiu a casa de Virgem. Usou portais dimensionais para chegar mais rápido.

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Erik usou a bainha da espada seladora de deuses como apoio para ficar de pé. A vista demorou a se estabilizar, uma forte dor de cabeça o levou a tocar a testa com a mão, seus dedos retornaram manchados de sangue.

- Foi um esplendido ataque, Jim, mas esse ainda não é o verdadeiro poder. – disse observando seu próprio sangue. Um sorriso satisfeito surgiu em seus lábios finos. – Falta pouco para sua previsão se tornar realidade. Sinto que em breve nos encontraremos, mãe.

Respirou fundo e começou a caminhar, sabendo que Jim o encontraria a qualquer momento e eles lutariam até a morte. Os batimentos de seu coração frio aceleravam ante a expectativa da batalha. Parou quando um redemoinho negro surgiu no céu. Deu um passo para trás em seguida tocou o cabo da espada, desistindo de saca-la no segundo seguinte. Não havia a menor necessidade de desperdiçar cosmo com um ser tão desprezível. Melhor se poupar para Jim.

Youma despencou do redemoinho gemendo e praguejando. Metade de seu corpo estava coberto de selos. O receptáculo de Kairos parecia ter recebido um banho de ácido, tamanha era a deformação que exibia.

- Onde você estava, maldito? – indagou Youma – Você e a garota?! Vamos a traga até mim. Preciso da gota de sangue que escondi no corpo dela...

- Espectro estúpido, esqueceu-se que já usou a gota de seu sangue imundo? – relembrou Erik, com impaciência. – Não há mais escapatória para você.

- Faça alguma coisa, leve-me para longe da caixa! – berrou Youma, o corpo sendo corroído pelo poder dos selos de Athena colados aos restos do seu corpo – Deve-me ajudar, somos aliados!

- Eu acho que não. – disse Erik – Você serviu apenas para fazer com que minha irmã nascesse no futuro e assim ficasse mais forte. Nya previu tudo isso. Eu só preciso ficar aqui parado vendo você ser derrotado em dor e agonia. Ah Youma, nem em meus mais belos sonhos imaginei algo assim.

Youma gritou ao ter mais partes de seu corpo sugado pelo poder dos selos de Athena. Atrás de si, Kairos também sofria. Sua loucura o levou a gargalhar em meio a tortura.

- Você é igual a ela... – disse em meio as risadas insanas – Nya... Ela não passava de uma bruxa. Malditos sejam os Hanzo, a raça mais traiçoeira já criada pelos deuses. Não merecem viver... eu devia ter matado vocês dois quando recuperei meus poderes divinos, assim como matei a Nya.

- Um deus desprezível como você jamais poderia matar minha mãe. – disse Erik seriamente.

- O que disse?! – exclamou Youma, arregalando os olhos negros – Nya era sua...

- Sim. Sou filho de Nya e Aspros de Gêmeos, o cavaleiro cuja alma você brincou. – disse Erik abrindo um sorriso perverso. Usou a bainha da Seladora de Deuses para erguer a cabeça pendente do decaído deus – Olhe para mim, quero ver bem o seu rosto enquanto sofre e percebe sua enorme burrice. Espero que não tenha esquecido o rosto de Nya e não esqueça o meu. Não pense que está seguro na prisão divina que será jogado em breve. Nós, os Hanzo, ainda podemos acha-lo e destruí-lo. Nenhum deus está fora de nossa mira. Sua destruição apenas foi adiada, Kairos.

Com um grito raivoso, Kairos e seu receptáculo foram sugados de volta para o redemoinho negro cercado pelos selos de Athena, sob o olhar satisfeito de seu antigo aliado.

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Jim foi a primeira a sentir o desaparecimento do cosmo de Shion. Despertou violentamente, gritando e chorando. Soube no segundo seguinte que abrira os olhos o que tinha acontecido. Chorou compulsivamente, segurando os joelhos contra o dorso, a cabeça comprimida, quase sem ar pela grande pressão que a dor imprimia contra si mesma.

Então lembrou do sonho que tivera segundos antes de acordar. Viu Shion caindo e ser engolindo pela escuridão, carregado por inúmeros fios vermelhos. Era uma característica de seu clã possuir uma forte ligação cósmica com entes familiares, de modo que ela sabia que seu pai se fora. Um vento frio bagunçou seus cabelos e os de Shaka que jazia ao seu lado, então percebeu que segurava firme a mão de Shaka, como se quisesse desesperadamente que ele apertasse sua mão de volta. Olhou para o ferimento horrível no peito de seu antigo mestre e percebeu que isso jamais aconteceria de novo.

Levantou com dificuldade, a dor na mão machucada era algo insuportável. Ela se quer conseguia mexer os dedos, os ossos estavam curvados para dentro, dolorosamente fechados como uma garra deformada. Tentou colocar os dedos no lugar, mas a dor a desencorajou. Viu novamente Shaka caído, o peito aberto por um golpe dado por ela. Não foi capaz de segurar outro grito de horror. Gritou até a garganta arder, em seguida tornou a chorar. Primeiro Shaka, agora Shion. A Casa de Virgem estava destruída, não sobrara nada, só desespero.

Chorou por longos minutos, sem ter a menor noção do tempo, fitando os olhos fechados de Shaka. Ele parecia tão sereno, como se meditasse deitado. Aproximou-se de seu antigo mestre, até que as lágrimas brilhantes gotejaram sobre a face de Virgem. Beijou seus lábios uma última vez. O contato com o homem que amava a acalmou por um momento, anestesiou-a na verdade.

- Eu vou consertar as coisas. – sussurrou para Shaka - Eu vou impedi-los. Vou vingar vocês... Eu prometo.

- Vejam só que cena romântica entre mestre e discípula. – disse uma voz carregada de escárnio – Chego a ficar comovido.

Jim levantou seus olhos vermelhos de lágrimas e viu Kanon entre os escombros da Casa de Virgem. Resolveu não responder a provocação, deu as costas para sair do que restou da sexta casa.

- Não pense que vou deixar você fugir depois de causar tanta confusão – Kanon falou, segurando o braço de Jim. Ela o encarou, o ódio fez seus olhos brilharem violeta. A poderosa manifestação fez Kanon solta-la – Finalmente o monstro mostrou sua verdadeira face.

- Deixe-me ir. Vou consertar tudo isso. – Jim pediu.

- Você? – Kanon rebateu, em seguida riu – Por acaso isso é alguma piada? Meu irmão quase morreu, Shion se fora, pelo que vejo você matou o Shaka. Quase partiu o próprio punho quando o atacou. Parte do Santuário está destruída, como você sozinha vai consertar essa merda toda?

- Você não entende...

- Ah, eu entendo sim. – Kanon cuspiu – Sei o que fez, sei o que você é na verdade. Sei que os deuses te querem morta, acho até que eles têm razão. – a resposta de Jim foi a queima de seu cosmo. Fúria e dor resplandeciam junto com seu poder, gerando uma gelada áurea violeta em volta de seu corpo ferido, o chão começou a tremer. Kanon observou o fenômeno com interesse. – Muito bem. Mostre o que você é de verdade, uma aberração tão maligna quanto seu irmão. E por falar nele, onde se meteu? Está querendo correr para os braços dele? – Kanon provocou, também queimando seu cosmo. – Se eu acabar com você agora, ele vai aparecer para se vingar. Então acabo com ele também.

De repente, Jim percebeu a armadilha que estava caindo entregando-se a fúria. Era tudo o que Kanon queria. Então baixou seu cosmo.

- Não quero lutar. Não quero machucar mais ninguém. – disse para Kanon – Só me deixe ir.

Kanon não desistiu da luta. Avançou para atacar Jim que não se defendeu. O punho do general teria atingido a jovem se Lucy não tivesse pulado na frente e abraçado Jim. Kanon berrou de dor ao sentir seu cosmo queimar a mão por ter parado antes do alvo. Se tivesse usando armadura, não tinha se ferido.

- O que está fazendo aqui, Lucy Renard? – indagou Jim, tentando se desvencilhar do abraço firme da amiga.

- Salvando você. – Lucy respondeu. – Sei que não fez nada disso por querer, sei que não matou o Shaka. Você não é um monstro, Jim!

- Sai daí, garota! – Kanon berrou.

- Não! Se quiser matar a Jim, vai ter que me matar primeiro! – Lucy devolveu, apertando o corpo da amiga.

- Lu, ta me sufocando... – disse Jim, tentando se soltar. Desta vez, Lucy se deu conta que estava tirando ar da melhor amiga e a libertou, mas não saiu da frente dela.

- Diabos... – Kanon reclamou, encarando as duas garotas sem saber o que fazer.

Subitamente o espaço em volta deles escureceu e foi tomado por uma poderosa e sinistra energia. Um portal dimensional surgiu entre as duas garotas e o general marina. Máscara da Morte de Câncer desceu do portal negro que o trouxe do Sekishik. A armadura de Câncer cobria seu corpo e brilhava intensamente. Lucy era a pessoa mais surpresa entre os presentes com aquela entrada tão providencial.

- Melhor não avançar, se não quiser perder sua alma, Kanon. – Câncer alertou.

- Sei que você só se importa com sua garota. – disse Kanon – Portanto leve-a daqui. Cuidarei da aberração sozinho.

- Não vou a lugar algum sem a Jim! – exclamou Lucy, voltando a se agarrar a melhor amiga. – Mask, que bom veio, e que bom que está melhor...

- O Sekishik me fortaleceu me dando mais tempo de vida apesar da maldição que os deuses jogaram sobre mim – Câncer contou – A armadura de Câncer só me aceitou de volta quando eu decidi sair do mundo dos mortos para te proteger, Lucy. – a discípula de Afrodite ficou corada. – Melhor fugirem rápido, não tenho muito tempo.

- Sua perda de cosmo não tem nada a ver com maldição divina. – disse Kanon – É a presença dessa garota aqui no Santuário que amaldiçoa os cavaleiros. – e apontou para Jim atrás de Lucy. – Ela é culpada de tudo. A existência dela representa um perigo para todos nós. Se não fosse por ela, Shion não teria se sacrificado e o Shaka ainda estaria vivo!

- Segura tua onda, Kanon. – advertiu Máscara da Morte, cruzando os braços sobre o peito. – Você está em menor número.

Kanon não lhe deu ouvidos, no entanto só conseguiu dar um passo a frente. Seu rosto tenso parou um centímetro antes da Muralha de Cristal de Mú de Áries. Por pouco não foi severamente machucado pela barreira de Mú. O cavaleiro de Áries, surgiu em seguida.

- Kanon, você sempre foi um homem inteligente, mas agora parece que não está pensando antes de agir. – disse Mú, se colocando ao lado de Máscara da Morte.

- Vocês não entendem! – Kanon berrou – Se continuarmos protegendo essa garota a vida de Athena continuará ameaçada pelos deuses. Eles não vão nos deixar em paz até que ela morra. Poseidon me disse que os Hanzo são perigosos demais para ficarem vivos...

- Não recebemos ordens de Poseidon, somos cavaleiros de Athena. – Mú cortou. – Jim não é nossa inimiga.

- Mú, ela matou o Shaka...

- A alma do Shaka ainda não caiu no Sekishik – interveio Máscara da Morte – Acreditem, eu saberia se tivesse caído. Um espírito como o do Shaka desce causando um grande estardalhaço. Portanto, ele ainda não morreu. Mas tem grandes chances de vestir o paletó de madeira se ficarmos aqui discutindo em vez de ajuda-lo.

Então Mú desfez a Muralha de Cristal e correu até Shaka. Máscara continuou diante de Kanon, protegendo as garotas. Mú usou seu cosmo, preocupando-se primeiro em estancar a hemorragia causada pelo ferimento profundo no peito.

- Você ouviu isso, Ji, o Shaka está vivo. – disse Lucy alegremente. – Ji?

Ela não respondia, apenas olhava para Mú curando Shaka, não conseguia ver ou ouvir nada além disso. Fechou os olhos, sentindo o corpo mais leve.

- Jim! Acorda! – exclamou Lucy chacoalhando a melhor amiga.

- Precisamos chamar Aiolos, ele tem o cosmo de cura mais poderoso...– exclamou de repente.

- Eu já chamei por cosmo telepatia, não se preocupe – disse Lucy abraçando Jim apertado – Você já sabe que o Shion...? – Jim murmurou que sim em resposta – Oh, eu sinto muito. – sussurrou no ouvido da amiga. As duas ficaram unidas por um tempo, então Lucy reparou a mão machucada de Jim – Minha nossa, precisamos ver isso.

- Eu estou bem. Você precisa ajudar o Mú enquanto o Aiolos não chega...

- Não vou sair de perto de você. – disse Lucy e fitou Kanon com o canto do olho.

Ele ainda estava parado diante de Máscara da Morte. Jim entendeu o recado da amiga e deixou que ela cuidasse de sua mão ferida.

- Vou precisar das duas mãos em breve. – Jim deixou escapar.

- Do que está falando? – Lucy indagou, sem interromper o processo de cura.

- Lucy, eu preciso ir.

- Ir para onde? O que está pensando em fazer?

Jim suspirou resignada, vendo que não se livraria de Lucy tão fácil.

- Preciso encontrar meu irmão.

- Ficou maluca?!

- Eu sou a única pessoa que pode rastrear seu cosmo. Não quero que ninguém mais se machuque. Você tem que me deixar ir.

- Não vou deixar você ir sozinha. – falou Lucy, com firmeza.

- Lucy...

- Não importa o que diga ou faça, vou com você. Não vou deixar você. – Lucy disparou – Assim que ver o maldito do seu irmão eu chamo os cavaleiros usando cosmo telepatia e será o fim dele. Acredite, eu treinei bastante, posso contactar ajuda até de outro continente. Você não precisa lutar com ele sozinha.

Jim relaxou os ombros.

- Ok. Parece um bom plano.

No momento em que Aiolos de Sagitário aterrissou agitando suas asas douradas, Jim viu uma boa oportunidade para escapar, pois a chegada do santo alado chamara a atenção de todos, inclusive de Kanon e Máscara da Morte. Usou teletransporte para sumir da casa de Virgem enquanto Aiolos usava seu cosmo curativo no ferimento de Shaka. Minutos depois, o cosmo vital do homem mais próximo de deus voltou a brilhar alimentado pelos cosmos de Mú e Aiolos. Shaka abriu os olhos assustados, chamando por sua discípula, agarrando-se ao braço de Aiolos com ansiedade.

- Shaka, respire... Isso... – pediu Aiolos. – Vai ficar tudo bem, ela está bem.

- Não deixe que ela vá atrás dele... de novo... – Shaka sussurrou e voltou a desmaiar.

Aiolos e Mú trocaram um olhar preocupado. Kanon olhou para trás e foi o primeiro a perceber a ausência das duas garotas.

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Uma voz distante e se aproximou lentamente, nada além de um sussurro flutuando como uma respiração suave, ganhando notas sensuais conforme a canção progredia. Conseguia sentir seu toque gentil, dedos delicados que acariciavam seus cabelos e seu rosto. Conseguia ouvi-la mais perto agora e que voz doce ela tinha.

Poderia ouvi-la pela eternidade. Então lembrou que morrera na batalha. Uma ninfa o encontrou e cuidou dele nos campos elísios. Os deuses o perdoaram, os deuses lhe deram o descanso eterno. Sentia que respirava. Estava vivo, mas como? Como sobreviveu a Caixa de Pandora e aos selos de Athena? Seria aquela uma ilusão de Kairos? A moça continuou cantando para ele, e sua bela voz sussurrante o acalmou. Segundos depois percebeu que reconhecia aquela voz.

Despertou assim que a canção terminou, como se a música fosse a fonte de seu sono. Seus olhos esbarraram com os olhos verdes da mulher mais misteriosa que já encontrou em sua longa existência. A mãe verdadeira de Jim, Nya. Ela sorriu para ele. Shion ficou um longo tempo olhando aquele rosto cuja beleza antiga tanto o encantou no passado. Então deu-se conta que tinha a cabeça apoiada no colo de Nya e levantou acanhado.

- Bem vindo de volta, Shion. – disse Nya em tom alegre.

Não reconhecia aquela dimensão. O espaço se desfazia, as cores se misturavam originando tons estranhos, fragmentos de objetos flutuavam em volta deles. Levantou e caminhou cautelosamente, temendo que seus passos destruíssem o frágil chão onde pisava. Nya o observava sorridente, acompanhando cada movimento do lemuriano com seus olhos verdes encantadores. Então Shion foi até ela, perguntando-se se aquele lugar era real, se Nya era real. Estendeu as mãos para toca-la. Nya tocou seus dedos, seus olhos gentis pareciam cantar para ele, trazendo a tona as lembranças do primeiro encontro, da noite em que Jim foi gerada.

- O que é esse lugar? E como vim parar aqui? – indagou Shion. – A última coisa que me lembro é de ser sugado junto com Kairos. – os cabelos vermelhos de Nya lhe trouxeram uma segunda lembrança – Havia um fio vermelho em maio ao caos... era você? Mas se eu estou aqui, Kairos...

- Essa dimensão foi especialmente criada para mim. E não se preocupe, Kairos continua preso. – respondeu Nya - Eu te trouxe para cá no último segundo, antes da caixa se fechar. Digamos que não é a primeira vez que escapo de Youma. Eu não deixaria que nada de mal acontecesse ao pai da minha filha.

- Nya, me perdoe. – Shion pediu, fechando os olhos – Não fui capaz de proteger nossa filha.

- Você foi um pai maravilhoso, Shion. Deu tudo o que ela precisava. Todo o poder que ela precisava. – os olhos de Nya ganharam um brilho verde sombrio. – Agora ela cresceu, não precisa mais de você, nem de mim. Jim está pronta para cumprir seu destino.

- Destino? Do que está falando?

- Você verá, meu nobre Shion. Espero te encontrar de novo em breve. Um novo mundo sem deuses está prestes a nascer. Você, Jim e eu, ainda podemos ser uma família feliz. Eu nunca vi esse destino, mas podemos tornar esse sonho realidade. Ah podemos sim... – a expressão de Nya se suavizou. Uma lágrima brilhante correu por seu rosto emocionado.

O longo manto verde oliva de Nya começou a flutuar conforme ela se movia. Shion percebeu suas lágrimas brilhantes e ficou fascinado, se viu preso aquela imagem fluida. Nya o beijou no rosto, sem que ele tivesse forças para impedi-la. Após o beijo, Shion sentiu seus sentidos falharem, como se fosse alvo de um feitiço sonífero. A imagem de Nya fora substituída por imagens do Santuário. Vio ao longe a deusa Athena chorando e os cavaleiros em volta dela com ares tristes, derrotados. Sentiu que perdia a consciência a medida que caia na direção de seus amigos, levado pelos terríveis fios vermelhos que se misturavam aos cabelos de Nya.

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Jim e Lucy apareceram numa praia deserta do Santuário após o teletransporte. O intenso vento marinho agitava as roupas e os cabelos das jovens. Lucy olhou em volta e avistou as ondas se chocando contra a gigantesca falésia onde ficava a antiga prisão do Cabo Sunion. Aquele lugar possuía histórias terríveis envolvendo os gêmeos Saga e Kanon, fora a fama, tudo parecia tranquilo.

- Tem certeza que ele está aqui? – a discípula de Afrodite perguntou, impaciente para usar cosmo telepatia.

Jim demorou a responder. Ela meditava de olhos fechados.

- Ele está se escondendo, mas eu posso sentir seu cosmo, seu desejo de vingança... – Jim finalmente respondeu, após abrir sua mirada. De repente, algo cortou o ar voando na direção das duas – Lucy, cuidado!

O aviso saiu tarde demais. Por um momento Jim pensou que o golpe viria em sua direção, mas quando viu Lucy caindo e sangrando, entendeu que não era o alvo. Com uma velocidade inalcançável, Erik atingira Lucy com sua espada. Jim gritou, virando a cabeça, vendo sua melhor amiga ser jogada longe pela força do golpe. Correu até ela, suas mãos pressionavam o ferimento no peito de Lucy, mas a hemorragia não cessava. Lucy arfava, com o grande traço de sangue no peito. Percebeu aterrorizada que ela não tinha muito tempo. Precisava de uma boa dose de cosmo curativo logo, mas ela não era capaz de curar, por mais que tentasse. Era uma característica de sua raça, seu irmão avisara, o cosmo dos Hanzo só servia para destruição. O sangue de Lucy molhava a área da praia, e os braços de Jim.

- Lucy, Lucy... – Jim gemia – Eu não posso ajudar. Você consegue chamar ajuda? Chame o Afrodite.

- Fuja... – Lucy sussurrou, perdendo as forças, seus olhos azuis se fecharam lentamente.

- Não, não, não! Não posso te deixar aqui. – gritou Jim, agarrando o rosto da bela amiga – Aguente firme, a ajuda vai chegar. Lucy? Lucy! Não. Não... – agarrou-se ao corpo da sueca, embalando-a como se ela fosse sua filha. Não sentia mais o cosmo de Lucy, nem sua respiração. Sua melhor amiga se fora. Por um momento o dor da perda nublou sua mente, ela só conseguia chorar e embalar o corpo. – Não devia ter de deixado vir... A culpa é minha.

Jim olhou o rosto ensanguentado de Lucy e lembrou primeiro dia que se viram na fila, Lucy chegando a arena e sendo admirada por todos, no modo afetado que ela ria, como ela sempre reclamava de seu cabelo seco e nunca deixou de protege-la. Era mais que uma amiga, era uma irmã... Lucy Renard era linda por fora e por dentro. O que faria sem ela? Jim se perguntava. Precisava dela assim como precisava de Shaka e de Shion. Fechou os olhos, uma última lágrima brilhante deslizou por seu rosto. Assaltada pela loucura desesperada, gritou explodindo seu cosmo. A fúria gelada tomou conta da praia, congelando tudo num raio de vários metros, em seguida explodiu, transformando tudo o que tinha tocado numa chuva de estilhaços de gelo.

Quando Jim voltou a si, não era mais a mesma. Seu poder e sua aparência haviam se transformado. Sua expressão estava fria como aço e seu cosmo estava furioso. Seus olhos abandonaram o castanho escuro e se tornaram violeta. Um cosmo maligno se levantou atrás dela. Jim colocou Lucy na areia e ficou de pé, então olhou para trás e viu o irmão segurando a espada manchada com o sangue puro de Lucy. O cosmo dele ardia em volta de seu corpo, seus olhos prateados brilhavam intensamente. Ele parecia um demônio da noite, um demônio que tirara a vida de Lucy. Um demônio prestes a ser mandado de volta para o inferno, pensou Jim fechando firmemente o punho.

Erik estancou ao ver a fúria nos olhos da irmã.

- Ai está. Finalmente. – disse, sorrindo extasiado – Então eu só precisava matar essa garota para seu verdadeiro poder despertar?

- Você... – sussurrou Jim, ódio e fúria borbulhando em seu rosto – Você é um monstro. Lucy era minha amiga... era inocente. Por que mata-la?

- Ela só atrapalharia nossa luta. Você não precisava dela. Não precisa de amigos. É da sua família que você precisa, sua verdadeira família... – colocou-se em posição de ataque com a espada atravessada na frente do rosto oriental - Pode vir, irmãzinha. – incitou.

Jim explodiu seu furioso cosmo novamente, desta vez uma explosão controlada. Seus longos cabelos se agitaram e se ergueram, a areia, as rochas, a vegetação, tudo se desfazia ao serem tocados pelo poder invisível de Jim. Ela não queria mais congelar, queria destruir. Pulverizar tudo que estivesse em seu caminho. Avançou na direção de Erik, vendo cada pessoa querida que perdera por causa dele, sua família brasileira, seu pai, por causa dele ferira Shaka gravemente e agora ele matara Lucy diante de seus olhos. O rosto de todos eles indo e vindo sem parar, piorando ainda mais sua raiva, seu desejo de vingança. Transformou-se numa flecha de cosmo e voou na direção de seu adversário. Erik foi rápido o suficiente para contra atacar, mas o poder dele foi facilmente engolido pelo de Jim. Porém, no segundo final antes das cosmos energias se chocarem, Jim desapareceu.

Erik olhou em torno a procura da irmã e todo o seu poder, inicialmente confuso, em seguida olhou para trás e viu o punho de Jim, rodeado por seu incrível cosmo. Foi atingido em cheio. Ele cambaleou, segurando firme a espada. Mal os pés de Jim tocaram o chão, ela desapareceu de novo e reapareceu no lado oposto, onde o irmão não marcara sua defesa. Desta vez o atingiu com um chute. E repetiu esse ataque mortal mais três vezes, sempre rápida como um raio, devastadora, certeira e furiosa. Não havia chance para defesa, não com aquela rapidez e força bruta. No último ataque de Jim, Erik perdera sua espada em seguida caiu de bruços. Suas roupas de samurai estavam rasgadas, havia ferimentos e sangue por todo o seu corpo. A cabeça fora duramente atingida, o sangue escorria sobre seus olhos.

Com muito custo ele conseguiu se virar de barriga para cima, tossindo grande quantidade de sangue. A ilusão que o fazia ter aparência asiática caiu, desnudando sua verdadeira forma: o preto e liso dos cabelos deu lugar ao loiro ondulado. Os olhos negros e puxados, se abriram azuis e cristalinos. Ele arfou e viu Jim se aproximar, ela se ajoelhou ao seu lado, ele se viu arruinado e a beira da morte nos olhos violeta e frios dela. O poder supremo ainda estava em volta dela e agitava seus longos cabelos castanhos, dando-lhe uma aparência divina. "Que bela visão", Erik pensou.

Jim atraiu a espada Seladora de Deuses para sua mão usando telecinese. Erik riu ao ver a irmã finalmente empunhando a Seladora de Deuses por vontade própria. O poder da arma crescia exponencialmente alimentado pelo cosmo de Jim. A filha de Nya brandiu a espada colocando a lâmina a poucos centímetros do pescoço de Erik.

- Eu finalmente cumpri meu destino. Você está pronta. – disse Erik em voz baixa – Eu só queria que nossa mãe te visse agora.

- Ela verá. – Jim respondeu.

Os irmãos se encaram pela última vez. Então Jim afastou a ponta da espada do pescoço de Erik. O sorriso dele se contraiu, então ele fechou os olhos e respirou pela última vez. Jim passou mais de um minuto olhando a face morta do irmão, conjeturando suas estranhas palavras finais. Sabia que os cavaleiros logo apareceriam naquela praia, atraídos pelas explosões de cosmo. Precisava agir rápido. Ficou de pé e fechou os olhos, golpeando o ar logo em seguida com a Seladora de Deuses. Um portal dimensional abriu-se para ela, confirmando o que ela pressentia: assim como o irmão, ela dominava os portais e podia atravessar as dimensões. Agora ela sabia exatamente onde iria. Fez o corpo de Erik flutuar até o portal. A passagem luminosa se fechou assim que os irmãos passaram.


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