Disclaimer: Harry Potter não me pertence e tudo que vocês reconhecem pertence a J.K. Rowling
Chapter Forty Four – Epilogue
(Epílogo)
Lily colocou a bebida quente sobre a mesa antes de se sentar. Ela aproximou a caneca de si, desfrutando o conforto de seu calor. O tempo ainda estava quente, já que era final de agosto, mas o frio que ela sentia não tinha nada a ver com o clima. Tinha mais a ver com o assunto da discussão.
James tomou um gole da bebida. Já era bem tarde da noite, mas os dois adultos não conseguiam dormir. Estavam acordados, sentados na cozinha, discutindo o que acontecera nos últimos dias.
Fazia três dias que Rodolphus fora descoberto como o impostor do Príncipe das Trevas. Desde então, o único assunto discutido era ele. Lily estava começando a desejar que essa discussão terminasse e, depois de hoje, ansiava por isso. Hoje, Rodolphus Lestrange, Cole Bailey, ou como queira chamá-lo, tinha sido enterrado.
Ela não tinha comparecido ao funeral. Lily se remexeu desconfortavelmente com isso. Sempre tentou ser uma pessoa compreensiva. Sempre tentou ver o bem nos outros. No entanto, o homem que fora enterrado hoje era alguém que planejara prejudicar seus dois filhos. Ele era responsável por tudo que passaram no ano anterior e pelo sofrimento silencioso de Harry, que ainda estava viciado em poções para dormir. A abstinência ainda lhe causava muito desconforto e dor. Mas ele nunca disse uma palavra a ninguém. Lily sabia que o vício provavelmente duraria pelo menos mais um ano. Vício em poção não era algo que se pode superar rápida ou facilmente. O único responsável pelos problemas de saúde de Harry era Rodolphus. Ele era a pessoa por trás do vício.
Rodolphus também planejava machucar Damien. Ele ameaçou sua vida. Lily sabia que era horrível pensar isso de alguém, mas estava feliz por ele ter morrido. Se tivesse sobrevivido, ela estaria temendo constantemente pela vida dos filhos.
"Nós fizemos a coisa certa, não é?" perguntou ela em voz alta.
James desviou o olhar de sua bebida e esfregou os olhos cansados.
"Acho que sim," respondeu ele.
Ele pensava a mesma coisa que Lily. Não sentia nem um pouco a morte dele. Rodolphus ameaçara seus filhos, se ele não tivesse morrido, James provavelmente o teria matado. Não havia como comparecer ao funeral. Sabia que sua esposa se sentia culpada, mas ele não. Por que deveria? O homem era a razão de Harry sofrer tanto.
Harry, James sentiu seu coração pular novamente ao pensar nele.
"Harry já está em casa?" perguntou ele, olhando para o relógio trouxa que Lily insistiu em ter.
"Não, ainda não," respondeu ela, tentando não parecer muito preocupada.
James soltou um suspiro. Harry ainda estava lá. James não conseguia entendê-lo nessas situações.
"Eu ainda não consigo acreditar que ele foi ao funeral," falou James. "Depois de tudo que esse homem fez, Harry ainda compareceu ao funeral! Eu simplesmente não o entendo."
Lily tomou outro gole do líquido escaldante e quente. Ela concordava com o marido neste ponto. Harry comparecer ao funeral de Rodolphus era difícil de entender. Mas ele não era o único. Pelo que soube, Sirius, Remus e Tonks também estavam lá e surpreendentemente, Narcissa e Lucius apareceram. Lucius estava sob glamour, já que outras pessoas estavam presentes. Narcissa e Sirius disseram que, independentemente do que aconteceu, Rodolphus ainda era esposo de Bella e eles sentiam que era importante para Bella que comparecessem ao funeral. Remus e Tonks foram por Harry, e Lucius, bem, ele foi com o único propósito de assistir ao homem que feriu seu filho ser enterrado a sete palmos do chão. A única coisa que lamentou foi não conseguir se vingar dele antes que morresse.
"Acho que foi muito corajoso Narcissa comparecer. Só em pensar que Rodolphus planejava machucar meus filhos me faz odiá-lo tanto, e o filho dela ainda está internado por causa dele. Eu nunca pensei que ela teria forças para ir ao funeral," comentou Lily.
"Eu sei, mas acho que no caso de Narcissa é mais complicado que isso. Rodolphus costumava ter um ótimo relacionamento com ela e com Draco. Lucius nos disse que Narcissa e Bella eram muito próximas. Elas deixaram Andromeda de lado por ter fugido com Ted, então as duas irmãs ficaram muito próximas. Bella gostava muito de Narcissa e do único sobrinho, Draco. Rodolphus gostava daqueles que Bella gostava. Consigo entender que mesmo que ele tenha machucado Draco, Narcissa provavelmente sentiu necessidade de fazer o certo por sua irmã. Ela só foi pelo bem do relacionamento que costumava ter com Rodolphus e em memória da irmã," explicou James.
"Mas que bom que Draco esteja bem agora. É estranho que ele tenha acordado logo após a morte de Rodolphus, não acha?" disse Lily, genuinamente aliviada que o rapaz tivesse acordado do coma. Ela temia que ele não voltasse, isso destruiria Harry.
"Eu não acho que foi uma coincidência. Acho que ele tinha feito alguma coisa, algum tipo de feitiço de ligação para que Draco não acordasse, a menos que ele, Rodolphus, morresse," disse James desconfiado.
Lily piscou para ele em confusão.
"Você acha mesmo isso?" perguntou ela.
"Ele era uma pessoa cruel. Eu não duvido que fizesse algo assim," disse James.
Lily não tinha certeza. Estava certa de que era apenas uma coincidência.
"Bem, independentemente, estou muito feliz que ele esteja bem. Mas ele vai ficar no hospital até que se recupere. Eu acho que agora que está fora do coma, Harry vai visitá-lo todos os dias," disse Lily, tentando pensar no futuro próximo.
"Sim, acho que sim," concordou James. "Não é como se Harry tivesse mais o que fazer."
Era verdade. Com James, Lily e Damien indo para Hogwarts em poucos dias, Harry ficaria sozinho. Ele não mencionara o que queria fazer quanto a escolher uma carreira, e com todo esse negócio do impostor acontecendo, James não conseguiu falar com ele sobre seu futuro.
No dia anterior, James comentou casualmente que talvez Harry devesse ir com eles para Hogwarts, até que decidisse o que queria fazer. Harry respondeu lançando um olhar irritado para o pai e saindo do quarto. Damien terminou o assunto dizendo: "Acho que isso é um não, pai."
"Eu não gosto da ideia de Harry ficar sozinho, especialmente depois do que aconteceu," disse James, esvaziando a xícara e pousando-a sobre a mesa.
"Eu sei, também não gosto disso. Não é que não ache que ele possa se cuidar. Eu sei que pode, ano passado ele estava fugindo de todos e Merlin sabe com quão pouco ele sobreviveu." Lily parou, sentindo o estômago apertar dolorosamente ao pensar que Harry vivia sem dinheiro e com fome. "Mas quero que ele fique com o resto da família."
James acenou com a cabeça em concordância, mas não aconteceria. Harry jamais voltaria a Hogwarts.
"Harry vai descobrir o que quer fazer da vida. Dê tempo a ele, Lily," respondeu James.
Lily desviou o olhar. Ela sabia que ele estava certo. Harry que escolheria o que queria fazer, e se quisesse ficar sozinho na Mansão Potter, sem fazer nada, então essa seria sua escolha. Ela se perguntava o que ele faria o dia todo. Ficaria muito entediado sozinho. Se ele soubesse no que queria trabalhar, poderia começar o treinamento necessário. Mas esse era o problema. Harry não disse nada sobre o que gostaria de fazer depois de Hogwarts. Ela sabia quais eram seus planos há alguns anos, mas felizmente haviam mudado. Agora que Harry não planejava se tornar o próximo Lorde das Trevas, tinha todas as escolhas de carreira diante dele.
Ela sabia que Ron Weasley estava começando seu treinamento para curandeiro nas próximas semanas. Harry era bom, mas sabia que não gostaria de ser curandeiro. Ele não tinha paciência para ensinar, então tornar-se professor estava fora de questão. Ele não era tão entusiasmado com quadribol quanto seu pai ou irmão, então não se tornaria um jogador profissional.
Seus olhos esmeralda pousaram no jornal que Sirius trouxera naquela manhã e as manchetes a fizeram sorrir. Ela pegou o jornal e olhou para James, um sorriso torto no rosto.
"Sabe, o cargo de ministro está em disputa. Não acha que Harry seria um grande ministro da Magia?" perguntou ela.
James olhou para ela duas vezes antes de ver o sorriso e perceber que a esposa estava sendo sarcástica.
"Ah, sim, definitivamente!" James entrou na brincadeira. "Posso imaginar isso agora." Ele fechou os olhos e fez uma careta.
"O que você vê?" perguntou Lily.
"Caos. Completo pandemônio," disse James sem abrir os olhos.
Lily riu antes de golpear o braço dele com o papel.
"Ei! É do meu filho que está falando!" reclamou ela de brincadeira. "Ele seria um grande ministro. Completamente... revolucionário," adicionou ela.
James sorriu também.
"Tem razão! Bem, é uma pena que outro ministro já tenha sido eleito," disse ele, apontando para o jornal nas mãos dela, com um falso suspiro.
Lily olhou para as manchetes de novo, encarando o rosto sorridente do novo ministro da Magia.
"Amos Diggory, eleito novo ministro da Magia." Lily leu a manchete. "Eu não o conheço. Mas acho que fui professora do filho dele, Cedric Diggory, um menino muito legal," comentou Lily com um sorriso.
"Eu conheço Amos. Ele era oficial do ministério, trabalhou para o Departamento de Regulamentação e Controle de Criaturas Mágicas," disse James. "Ele é bacana. Fanático por quadribol, mas apoia a Bulgária," disse James, fazendo uma careta de brincadeira. "Ele só fala no time e no filho. Tem muito orgulho dele."
Lily sorriu com isso. Ela olhou para o homem que sorria e acenava para os fotógrafos. Seu sorriso vacilou e ela olhou para James com uma pitada de medo.
"James, ele, quer dizer, Amos, não vai... o... o Ministério não vai culpar Harry pela morte de Rodolphus, não é?" perguntou ela novamente. Lily ouvira a resposta muitas vezes antes, mas não conseguia parar de se preocupar.
"Lily, eu te disse. Não foi culpa de Harry. Quando Sirius e os outros levaram Rodolphus a St. Mungo's, ele estava em uma condição bastante estável. Os curandeiros emitiram um relatório de que ele se recuperaria completamente. Mas algo deu errado depois disso. Os curandeiros não conseguiram responder por que ele morreu. Eles disseram que era como se ele tivesse simplesmente decidido parar de viver. Foi tudo muito repentino, mas disseram que não tinha nada a ver com os ferimentos."
Lily assentiu novamente e tomou outro gole. Não queria que Harry fosse responsabilizado por mais problemas. Seu filho já enfrentara o suficiente.
"Acha que Harry se culpa?" perguntou ela.
Com isso, James olhou para ela e a resposta estava clara em seus olhos.
"Ele se culpa por muitas coisas que não são culpa dele. Acho que isso é outra para adicionar à lista," disse ele com tristeza.
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Harry sentou-se no chão frio, com os olhos fixos na sepultura recém cavada diante dele. Era algo estranho, o túmulo de Rodolphus Lestrange foi cavado há oito anos e hoje ele foi enterrado. Harry sugeriu que fosse enterrado no túmulo marcado para ele, ao lado do túmulo de Bella. Parecia a coisa certa a fazer.
Harry sentiu o ar frio bater em seu rosto. Todos tinham ido embora, ele era o único que restara ali. O rapaz não sabia como se sentia com a morte de Rodolphus. Era obviamente culpa sua, não importava o que os curandeiros dissessem. O problema era que não sabia mais o que sentir. Os últimos dias se passaram sem que Harry percebesse. As verdades que vira pesavam sobre ele mais do que nunca. Saber que Bella fora morta ainda fazia suas entranhas queimarem de raiva. Uma parte dele sabia que essa raiva não era justificada. Bella morreu, ela se foi. Restou só sua casca vazia que Rodolphus atacara. Mas até isso fazia a ira se espalhar por ele. Se ela ainda estivesse ali, Harry poderia vê-la, fingir que ela estava com ele. Acreditava que poderia ter encontrado uma maneira de trazê-la de volta. Embora impossível, poderia ter sido feito. A magia não conhecia limites, certo?
Harry olhou para o céu noturno e expirou. Estava cansado e ansioso para voltar para casa e dormir. Não sofreu mais pesadelos e sabia que não sofreria mais com isso. Voldemort nunca mais assombraria seus sonhos porque, aparentemente, o bruxo nunca quis assombrá-lo. Ele estava tentando alcançá-lo, ou melhor, Tom Riddle, a parte de Voldemort que permanecia humana, estava tentando alcançar Harry.
O rapaz nunca contou a ninguém sobre o sonho no qual encontrou Tom Riddle no Reino de Ojesed. Seu pai e todos os outros pensavam que ele ouvira a conversa deles e Harry estava contente em deixá-los pensar assim. Não acreditariam nele mesmo. Ele agora sabia que a única maneira de Bella ter passado a informação sobre a verdadeira identidade de Rodolphus era lhe dando suas memórias. Não havia como fazer isso a menos que ela o encontrasse em um Reino que existia entre os dois mundos, entre os vivos e os mortos.
Sua conexão com Voldemort era mais forte do que ele imaginava, e foi por isso que viu algumas memórias dele disfarçadas de sonhos. A conversa com Bella sobre Rodolphus e o ataque que custou a liberdade do Comensal foram passados a Harry por Voldemort.
A única coisa positiva de tudo isso era a paz que Harry sentia quando pensava em Voldemort. Sua culpa já não o atormentava, e não importava quão difícil fosse ver Bella de novo e ver partes de sua vida das quais nunca soube antes, isso lhe deu um estranho tipo de conforto. Mas ver Bella e Voldemort novamente também fez Harry sentir mais saudades deles.
Harry só saiu de suas reflexões quando sentiu alguém se sentar ao lado dele no chão frio. Uma mão quente escorregou na sua e o rapaz sabia quem era sem sequer olhar. Podia reconhecer aquele toque em qualquer lugar.
"Não precisava vir, Ginny," disse ele baixinho.
O corpo quente da garota encostou-se no dele e Harry quase podia sentir o calor percorrê-lo, aquecendo-o e confortando-o da maneira que só a presença dela era capaz.
"Eu queria te ver," respondeu ela no mesmo tom.
Harry virou a cabeça para encará-la. Seus olhos castanhos estavam fixos nele e a ruiva estava sentada ao seu lado, os braços em volta dos seus, segurando a mão dele com firmeza. Harry amava o jeito que ela conseguia consolá-lo enquanto o abraçava, como se buscasse conforto para si. Ele relaxou e olhou para o céu noturno, ciente de que era tarde da noite.
"Você veio sozinha?" indagou ele após alguns minutos.
Ginny levantou a cabeça do ombro de Harry para responder.
"Sim, eu queria te ver, ver como estava após o funeral. Mas quando falei com Damien, ele me disse que você ainda não tinha voltado. Eu queria te ver, então decidi vir."
Harry sorriu e olhou para ela.
"Está fazendo bom uso da sua capacidade de aparatar, então?" brincou ele.
Ginny agora tinha dezessete anos e recentemente fizera o teste e passara. Desde então, estava aparatando para todo canto, muito parecida com seus irmãos mais velhos.
"Só para as viagens importantes," brincou ela em resposta, dando um leve aperto na mão dele.
O sorriso de Harry sumiu e ele olhou para as duas sepulturas adiante.
"Não precisava fazer isso... quer dizer, depois do que ele tentou fazer com você. Não deveria ter vindo," disse Harry.
Ginny olhou para o túmulo e conteve o arrepio. Jamais poderia esquecer quão perto chegou de morrer naquela noite, Rodolphus a atacou na Torre de Astronomia. Ela agora entendia o significado das palavras que foram friamente sibiladas para ela. 'Porque isso iria destruí-lo!' Rodolphus a atacou porque sabia que Harry a amava. Ele queria que Harry perdesse quem amava, assim como ele perdera a mulher que amou: Bella.
"Você está aqui. Ele fez coisas piores com você," disse Ginny.
Harry acenou com a cabeça, mas não disse nada. Era difícil explicar por que estava ali. Não era por Rodolphus, mas mais por Bella. Vendo suas lembranças, ele sabia que ela ainda o amava, amava-o até o dia da sua morte. Harry entendia seus sentimentos. Quando se ama alguém, não importa o que descubra sobre a pessoa, esse amor nunca morrerá. Independentemente.
Eles ficaram no frio por mais alguns minutos. Harry podia sentir os pequenos arrepios da garota ao seu lado. Ele se levantou, fazendo Ginny ficar de pé também.
"Vamos, vou te levar para casa," disse Harry, passando um braço ao redor dela.
Eles se afastaram das duas sepulturas, olhando para trás só uma vez. Harry ainda estava com o braço em volta de Ginny e a puxou para mais perto enquanto olhava para os túmulos de Bella e Rodolphus.
"Ginny, eu sei que não digo isso com frequência e nem ajo assim na maior parte do tempo, mas..." Harry parou para poder olhar direito para ela. "Eu te amo, sabe disso, não é?"
Ginny sorriu ao ver o rosto de Harry e se inclinou para beijá-lo levemente.
"Eu sei. Eu também te amo."
Harry capturou seus lábios em um beijo de verdade e permitiu-se se perder nele. Suas mãos se envolveram em seu cabelo ruivo, puxando-o suavemente. As mãos de Ginny também estavam em seus cabelos bagunçados e ela correspondia ao beijo apaixonado com tanto vigor quanto podia.
Quando terminaram o beijo, Ginny o olhava com uma expressão muito satisfeita. Ela passou os braços ao redor dele e colocou a cabeça ao lado de seu peito. Harry também passou os braços em volta dela e a abraçou como se ela fosse uma preciosa fonte de vida. Foi assim que Harry aparatou para A Toca, com Ginny ainda aconchegada em seu peito.
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Harry desceu para o café da manhã com Damien no encalço, resmungando sonolentamente por ter sido acordado 'cedo demais.'
"Como pode ser cedo demais?" perguntou Harry, achando graça.
"O que eu te fiz? Por que está me punindo? Preciso dormir, Harry. Preciso mesmo," disse Damien, tentando esfregar o sono dos olhos.
Harry sorriu, mas continuou descendo as escadas.
"Você vai para Hogwarts em alguns dias e então não poderá treinar. Tem que treinar o máximo que puder antes de ir," explicou Harry calmamente.
Damien lançou-lhe um olhar irritado.
"Se estou indo em alguns dias, então por que não pode simplesmente me deixar em paz a partir de agora?" indagou o menino.
Harry apenas riu e abriu a porta da cozinha. Esperava que estivesse vazia, já que era bem cedo. Assim, ficou muito surpreso ao encontrar três pessoas sentadas à mesa. Harry ficou na porta, os olhos fixos nas três pessoas sentadas diante dele. James e Lily não foram uma surpresa. Era a terceira pessoa sentada calmamente, como se estivesse no café da manhã da Mansão Potter todos os dias.
Damien veio por trás de Harry e também viu o convidado.
"Professor Dumbledore?"
O bruxo de cabelos prateados olhou para os dois garotos Potter através dos seus óculos de meia lua.
"Bom dia, Damien, Harry," cumprimentou o bruxo.
Damien o encarou. O diretor nunca o chamara pelo primeiro nome. Era sempre "Sr. Potter." Harry não respondeu à saudação, mas continuou a encará-lo.
Damien cutucou o irmão para que saísse da porta e essa foi a única razão pela qual Harry entrou. Ele tentou ignorar a presença de Dumbledore, esperando que tivesse vindo falar com seus pais e que partisse em breve. Mas parecia que a sorte não estava do seu lado hoje, já que Dumbledore não fez nenhuma menção de sair.
"Harry, Professor Dumbledore quer dar uma palavrinha rápida com você," informou-lhe Lily.
Harry não disse nada e foi até a geladeira para pegar uma bebida.
"Bem, parece que estão ocupados, então vou voltar para..." Damien começou a dizer enquanto se dirigia à porta para sair.
"Você não vai fazer nada disso. Vá lá pra fora e comece. Eu chego em alguns minutos," instruiu Harry.
"Mas, e o café da manhã..." começou Damien, mas depois fechou a boca depressa com o olhar que o irmão lhe enviou. Harry não estava a fim de ser incomodado.
Resmungando alguma coisa sobre ser forçado a treinar com o estômago vazio, Damien saiu para o campo de treinamento para começar seus exercícios de aquecimento.
Harry fez questão de preparar lentamente seu suco de frutas matinal antes de chegar à mesa. Ele sentou-se, tomando sua bebida e olhando para Dumbledore com aborrecimento.
James e Lily se levantaram da mesa para deixá-los a sós. James lançou um olhar engraçado para o filho ao sair. Era quase como se estivesse implorando para que fosse civilizado. Harry esboçou um sorrisinho em resposta.
Dumbledore não disse nada até que ele e Harry fossem os únicos sentados à mesa da cozinha. Ele acabara de abrir a boca para falar quando o rapaz o interrompeu.
"Eu não estou a fim de ouvir nada que tenha a dizer, Dumbledore."
Não havia malícia em sua voz; estava só externando seus sentimentos. Seus olhos estavam fixos no rosto de Dumbledore enquanto falava.
O velho diretor de Hogwarts não respondeu, mas permaneceu sentado diante dele. Durante longos minutos, nenhum dos dois disse nada. Harry se recusou a demonstrar o quanto a presença do outro bruxo o incomodava. Finalmente, Dumbledore se inclinou para a frente, enfiou a mão nas vestes e tirou um envelope oficial. A familiar tinta verde adornava a frente do envelope, indicando que a carta tinha algo a ver com Hogwarts. Harry pôde ler seu nome claramente antes que Dumbledore lhe entregasse.
Sem dizer uma palavra, Harry pegou o envelope e o abriu. Ele puxou o pergaminho e olhou para Dumbledore com surpresa. O rapaz olhou de volta para o pergaminho e leu, querendo ter certeza de que o que estava lendo era verdade.
"O que é isso?" perguntou Harry depois de ler a carta duas vezes. Seus olhos esmeralda brilhavam de raiva, dando-lhe uma aparência surreal.
"É um convite para que se junte à equipe de Hogwarts," explicou Dumbledore com simplicidade. "Tem sido reconhecido e abordado que alguns aspectos do currículo escolar estão longe de ser perfeitos. Uma das principais áreas é a técnica de duelos. Como diretor, tenho a função de nomear a pessoa mais adequada para o cargo. Eu não poderia pensar em ninguém além de você."
Harry não conseguiu dizer uma palavra e continuou a encarar o homem, em estado de choque.
"Antes que recuse o trabalho, por favor, deixe-me explicar," disse Dumbledore depressa. "A função é ensinar uma nova matéria acrescida à grade curricular. A melhor maneira de descrever é que está entre o clube de duelos e a aula de Defesa contra as Artes das Trevas. Essa aula será para todos, do primeiro ao sétimo ano. É provável que não seja apresentada até o próximo ano letivo, pois é necessária muita preparação. Estou lhe convidando para ir a Hogwarts elaborar a metodologia. O que será ensinado e o que será deixado de lado estará sob seu controle. O objetivo da aula é aprender a duelar de forma eficiente. Foi por isso que pensei em você. Suas habilidades de duelo já são lendárias. Se ensinasse à próxima geração de bruxos e bruxas, você os estaria preparando para lidar com o que o futuro trouxer."
Dumbledore podia ver a expressão de Harry escurecer consideravelmente. Sua mandíbula estava tão apertada que o bruxo tinha certeza de que estava doendo.
"Você quer que eu ensine os outros a duelarem?" perguntou Harry baixinho.
"Sim, eu quero," respondeu Dumbledore, inclinando a cabeça ligeiramente.
"Isso é uma afronta!" disse Harry, prendendo o diretor na cadeira com seu olhar gélido. "Você quer que eu passe os ensinamentos de Voldemort aos outros? É isso que está me pedindo?"
"Eu sei o que está pensando..." começou Dumbledore.
"Confie em mim, você não tem ideia!" sibilou Harry com raiva. "Eu nunca tive a infelicidade de encontrar alguém tão hipócrita quanto você! Você passou décadas da sua vida caçando Voldemort! Formou grupos para se opor a ele! Manipulou pessoas para ajudá-lo! E depois de tudo isso, tem a audácia de pegar os ensinamentos dele e passá-los aos outros? Você é patético!" Os olhos de Harry brilhavam para o bruxo mais velho.
Dumbledore manteve-se calmo e não o interrompeu. Só quando Harry terminou sua resposta furiosa, o bruxo falou.
"Eu me opus a Voldemort, mas nunca questionei ou ridicularizei suas habilidades. Ele era um bruxo muito poderoso. Não há dúvida sobre isso. O problema era para o que ele usava seu poder."
Os olhos de Harry escureceram e ele cerrou as mãos em punhos.
"Você ainda está falando sobre certo e errado? Antes de apontar o dedo para Voldemort, por que não olha para si mesmo? Não há diferença entre você e ele. Você é tão impiedoso quanto ele," disse-lhe Harry.
Dumbledore baixou a cabeça e por um momento Harry pensou ter visto um olhar de culpa e remorso em seu rosto.
"Não vou me defender. Eu sei que houve momentos em que agi de maneiras semelhantes a Voldemort. Mas não são as nossas ações que nos definem, são as nossas intenções."
Os olhos azuis como a noite de Dumbledore perfuraram os esmeralda de Harry. No meio de outras emoções, o rapaz podia ver claramente culpa, remorso e mágoa. Nesse ponto, Harry sabia que Dumbledore confessaria alguma coisa. Ele estava certo.
"Eu sei que não vai acreditar que eu fiz o que eu tinha que fazer pelo bem maior, mas vou te dizer de qualquer maneira. Para te mostrar que, embora as minhas ações e as de Voldemort sejam semelhantes, nossas intenções não eram."
Harry estava intrigado, tanto que não se opôs. Dumbledore respirou fundo, seu rosto mostrando sua forma frágil e sua velhice.
"Alguns dias após a morte de Voldemort, tomei medidas para garantir a segurança daqueles envolvidos na emboscada contra ele. Eu sabia que os sobreviventes da batalha final tentariam se vingar. Sei que não tenho como provar isso, mas, com a concordância de Severus, extraí algumas de suas memórias."
Harry podia ouvir um rugido distante em seus ouvidos. Sua raiva cresceu dentro do peito ao ponto de doer fisicamente. Não era que sentisse qualquer coisa por Severus Snape. Não o conhecia tão bem para se importar com ele. Mas o homem o ajudara, ajudara a proteger Damien na Mansão Riddle. Ele morreu na mão de Rodolphus por ajudar os outros a resgatar Harry.
E Dumbledore extraíra suas memórias. Assim como Voldemort extraíra as de Harry. Dumbledore estava dizendo que Snape tinha concordado, mas não havia como provar isso. Snape estava morto. Ele não podia voltar para confirmar aquilo.
"Eu queria proteger Draco e Damien..."
As palavras tiraram Harry de seu devaneio.
"...com a permissão de Severus, fiz um feitiço complicado que permitiu que o envolvimento de Draco e Damien em seu resgate fosse removido de sua memória. Essa foi minha maneira de garantir a segurança dos garotos. Eu não queria que ninguém os perseguisse em uma tentativa de vingança." Aqui, a voz do lendário bruxo vacilou. "Temo que nem isso tenha sido suficiente para salvar Draco. Rodolphus descobriu e o atacou. Como ele descobriu, eu não sei. Penso que a maioria de suas informações sobre o que aconteceu com Voldemort e Bellatrix foi tirada de Snape quando ele... quando ele estava morrendo. Mas como ele soube do envolvimento de Draco e Damien, eu não sei."
Harry se lembrou de como Draco se gabara de seu envolvimento em levar os aurores à casa de Voldemort para Nott na Sala Precisa. Nott deve ter contado a Rodolphus antes de ele o matar. Harry sempre se perguntou por que a mídia nunca comentou sobre o envolvimento de Draco e Damien na queda de Voldemort. Sempre achou que era porque o Ministério não queria admitir que tinham usado dois bruxos menores de idade como isca para chegar ao bruxo. Nunca pensou que fosse por causa de Dumbledore. Isso porque ele havia removido as evidências de Snape.
"Então, veja, Harry, eu fiz algo muito semelhante ao que Voldemort fez com você. Eu manipulei as memórias de outra pessoa, mas ao passo em que Voldemort fez isso para controlar você, eu fiz para proteger vidas inocentes. Nossas ações são as mesmas, mas nossas intenções são muito diferentes."
Harry estava irritado demais para falar. Não cairia nas palavras distorcidas de Dumbledore. Ele era tão manipulador e cruel quanto Voldemort.
"Você não mudou nada," acusou Harry com os dentes cerrados. "Acha que dizendo isso vai me fazer acreditar que está certo? Que não há problema em cometer crimes pelos quais outros são punidos, se é pelo bem maior? Não funciona assim, Dumbledore. Não é tão fácil assim!" vociferou Harry.
Dumbledore deu um sorriso triste e o encarou.
"Ah, se ao menos fosse fácil," disse ele baixinho. "Harry, eu sei o que pensa de mim. Eu sei que ainda me considera um inimigo assim como quando foi capturado pela Ordem da primeira vez. Posso entender sua relutância em confiar em mim." As palavras de Dumbledore ecoaram em torno do rapaz. "Eu sei que não consegue confiar em mim. Só peço que me dê o benefício da dúvida. Não estou lhe oferecendo este emprego para que possa te controlar de qualquer forma. Se aceitar, não estará trabalhando para mim. Você controlará o que é ensinado e de que maneira é ensinado."
Harry se acalmou um pouco com as palavras dele e levou alguns minutos para observar o bruxo com atenção. Poderia sentir que ele foi sincero em suas palavras, mas para alguém como Harry, que sofrera abuso de confiança repetidamente, as palavras sinceras de Dumbledore não tinham nenhum peso.
"Por mais gentil que sua oferta seja, terei que recusar," disse Harry, seu tom afiado e incisivo. "Não posso trabalhar com alguém como você. Foi minha obrigação com meus pais que me fez retornar a Hogwarts este ano. Eu jamais voltaria voluntariamente a um lugar no qual você está."
Harry levantou-se devagar e olhou para o velho bruxo.
"Eu já deixei meu irmão esperando demais. Pode ir embora." Com isso, Harry caminhou em direção à porta.
"Eu não sou seu inimigo, Harry," disse Dumbledore baixinho.
Harry parou na porta. Ele se virou para olhar para o diretor.
"Eu sei," sussurrou ele, "mas também não é meu amigo."
Harry deixou Dumbledore sentado sozinho à mesa para ir se juntar ao irmão e à família do lado de fora sob o sol brilhante, para passar o máximo de tempo que pudesse com eles antes que todos o deixassem para voltar a Hogwarts.
Fim.
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N/A: Eu tinha planejado um final diferente, mas devido à sequência, tive que alterar. O que acharam? Por favor, comentem e me falem. A sequência logo será postada.
N/T: Pessoal, finalmente terminei a segunda parte da trilogia. Vou trabalhar na terceira agora. Bjs e obrigada!
