Não é o capítulo final mas é um capítulo super hiper mega decisivo.
BOA LEITURA
CAPÍTULO XLVII – A Visão de Nya
Afrodite e Máscara da Morte foram os primeiros a chegar à praia do Cabo Sunion em resposta ao pedido de socorro feito por Lucy. Peixes e Câncer olharam em volta espantados com o estrago do ambiente, sinais de que ali ocorrera uma luta feroz. O que não fora destruído, estava congelado, até a temperatura naquela praia estava mais fria e também haviam pequenas distorções dimensionais, sob a forma de pequenos raios de luz flutuando no ar. Efeitos que demorariam bastante tempo para passar. Quem quer que tenha lutado ali, possuía um poder imenso, conjeturou Afrodite.
- Alguém escapou para outra dimensão. – Máscara da Morte avisou, era acostumado a abrir portais dimensionais para o Sekishik.
Afrodite continuou andando, perscrutando o ambiente com olhos atentos. Foi o primeiro a avistar Lucy, deitada em meio a uma poça de sangue.
- Carlo... – disse Peixes, a imagem da discípula sozinha e ferida na praia causou-lhe um choque tão grande que ele ficou paralisado.
Máscara experimentou igual terror, mas ao menos conseguiu correr até ela. A corrida de Câncer, pareceu acordar Afrodite que o seguiu em velocidade menor, implorando aos deuses durante o trajeto que não tivessem chegado tarde demais. Máscara caiu sobre Lucy, agarrou-a firme, ao mesmo tempo tomando cuidado para não piorar seus ferimentos. A jovem não esboçou nenhuma reação.
- Quem fez isso?! – perguntou Máscara da Morte, pensou na hora em chamar Aiolos e seu grande poder curativo, mas o centauro estava ocupado salvando a pele de Shaka e mesmo se viesse imediatamente não adiantaria pois Lucy parecia... Não queria acreditar! Em seguida deu um berro feroz – O maldito vai saber o que é tortura. Vou separar a cabeça de seu corpo lentamente... - Máscara da Morte rangeu os dentes selvagemente, então chorou, emitindo gemidos roucos, desesperados. Ele chamava por Lucy sem parar, abraçado ao corpo da aprendiza. Então levantou a cabeça e olhou para Afrodite com olhos vermelhos flamejantes – Destruirei todo o Sekishik se for preciso, mas não permitirei que a alma dela caia no buraco da morte.
- E mesmo assim ela continuaria morta – disse Afrodite, enquanto retirava delicadamente Lucy dos braços do italiano e a colocava de novo deitada na areia. – Só há uma maneira de salva-la.
- Qual?! Fala logo, porra! – exclamou Máscara da Morte.
- Há uma lenda envolvendo as rosas da casa de peixes, - começou Afrodite. - Dizem que elas possuem poderes regenerativos injetando grande quantidade de veneno no corpo ferido. As rosas imortais da casa de Peixes poderiam salvar Lucy, mas ela seria como uma rosa de meu jardim se sobrevivesse ao processo. Mortal ao simples toque. Como sempre vivi ao lado das rosas, meu corpo adquiriu a imunidade contra o veneno, portanto, eu seria o único ser que poderia toca-la.
Máscara da Morte de Câncer refletiu brevemente as palavras de Afrodite, em seguida olhou para Lucy de decisão já tomada.
- Podemos chegar mais rápido à Peixes pegando um atalho pelo Sekishik. – e com um movimento rápido da mão, abriu um grande portal para o mundo dos mortos.
- Carlo, ouviu bem o que eu acabei de dizer? – indagou Afrodite – Se ela sobreviver a todo o veneno que vai ser exposta, não poderá mais ser tocada por ninguém além de mim. Não se importa de perde-la para sempre?
- Mas é claro que eu me importo, cacete! – respondeu Máscara da Morte – Mas se essa é a única forma de salva-la, eu aceito. Ao menos terei a certeza que você a fará feliz. E eu espero que faça mesmo, pro seu próprio bem.
Afrodite de Peixes soltou o ar dos pulmões, um sorriso triste surgiu em seus lábios pintados em seguida desapareceu. Seus olhos emocionados viram máscara a Morte colocar Lucy nos braços, beijar sua testa salpicada de sangue e sussurrar: "tudo vai ficar bem". Naquele momento reconheceu todo o valor do turrão cavaleiro de Câncer e se arrependeu de todas as manipulações que fizera contra ele. Talvez ele fosse aquele que mais amasse Lucy, pois estava disposto a tudo para salvar a vida dela. "grande homem.", pensou melancólico.
Atravessaram as dimensões do Sekishik e em poucos segundos estavam na décima segunda casa. Máscara colocou Lucy nos braços de Afrodite. Em seguida Afrodite deitou Lucy no seu maior e mais belo canteiro de rosas, uma extensa área coberta de incontáveis rosas de todas as cores que cresciam na Casa de Peixes desde eras mitológicas, era o Jardim das Rosas Imortais. Ao receber Lucy, as rosas se iluminaram e a cobriram lentamente, os finos ramos espinhentos envolveram-na centímetro a centímetro, até que o corpo da jovem desapareceu em meio as rosas.
###
Aneta fechou os olhos ao sentir o toque suave de Alexia em sua testa. O remédio que tomara a fizera recuperar lentamente as forças, mas Aneta não sentia a menor vontade de sair da cama. Acariciou o ventre demoradamente, desejando acordar daquele pesadelo. Um momento estava brincando com Beliam no quarto, no outro recebia a notícia que o Santuário fora invadido por um deus capaz de controlar o tempo e Shion...
- Tem certeza que está melhor? – perguntou Alexia sentada ao lado da cama.
- Agora não tenho mais certeza de nada. – respondeu Aneta com uma voz opaca. Lentamente virou a cabeça e fitou sua amiga – Deve ir. Shura precisa de você.
Uma abatida Athena entrou no aposento acompanhada de Dohko de Libra.
- Pode ir Alexia, eu ficarei com ela. – disse a deusa.
Assim que Alexia deixou o quarto, Aneta desatou a chorar, sendo confortada mais uma vez por Saori. A deusa permitiu que a viúva de Shion chorasse em seu ombro por um tempo. Dohko seguiu o mesmo caminho que Alexia, Beliam em seus braços parecia bastante calmo, dirigindo um olhar contemplativo para as áreas destruídas do templo de Athena. Lembrava totalmente o temperamento do pai que sempre se mantinha calmo em situações de crise, tal como um verdadeiro líder.
Beliam pediu para descer de seu braço quando chegaram a sala do mestre. Correu animado ao encontro do elmo dourado de Patriarca, bateu nele com seu brinquedo algumas vezes, rindo sem parar. O coração enlutado de Dohko de Libra se abrandou diante da cena carregada de ternura. Não teve como não imaginar Beliam mais velho usando aquele elmo, se o futuro assim permitisse.
- Mas ainda falta muito. – disse e suspirou resignado.
Tomou Belian nos braços e preparou-se para deixar a sala do mestre destruída quando sentiu um cosmo familiar brilhar. O sinal era semelhante a uma estrela se extinguindo, espalhando sua brilhante matéria pelo cosmo, não chegava a toca-lo, era como se passasse por ele, vindo de alguma região muito distante. Vindo de outra dimensão. Fitou o rosto risonho do filho de Shion.
- Não posso estar enganado, não posso. – disse para a criança em seus braços.
Correu para o terraço do templo de Athena, o vento forte o fez instintivamente amparar a cabeça de Beliam contra seu ombro. O menino esperneou para descer de seus braços, repetindo 'papai, papai'. Confuso, Dohko olhou em volta, sabendo que algo aconteceria, surpreso por Belian também saber. O filho de Shion era realmente precoce. Segurou a mão do lemuriano para que ele não saísse de perto de si e esperou.
Segundos depois um raio de luz dividiu o espaço, fios vermelhos finíssimos soltaram Shion dos caminhos interdimensionais para o Santuário. Ele caiu sentado aos pés da grande estátua de Athena. Dohko não foi capaz de ver os fios, já que não possuía a forte ligação familiar que só os Hanzo possuíam. Tudo o que ele viu foi o corpo de Shion flutuar até a estátua, pousar como quem usa paraquedas. Beliam disparou até o pai quando a mão de Dohko se abriu involuntariamente.
- Papai! – exclamou o lemuriano agarrando-se ao pescoço de Shion.
Shion despertou com o abraço e segurou o filho contra o corpo levado pela a emoção do reencontro que jamais pensou que aconteceria. Levantou e foi até Dohko de Libra. Sentia-se confuso e sabia que era por conta da travessia dimensional pela qual passara.
- Eu devia dar um soco no meio dessa sua cara bicentenária. – brincou Libra. – Nos deu um baita susto. – recebeu Beliam dos braços do pai. – Shion, como conseguiu escapar?
- A última coisa que me lembro é de estar com Nya, a mãe da Jim. Ela estava muito estranha. Falou algo sobre o destino da Jim... Dohko, estou com um péssimo pressentimento, preciso ver minha filha.
- Sinto muito, Shion - disse Dohko pondo a mão no ombro do amigo - A Jim desapareceu pouco depois de você ter sido sugado.
###
A febre consumiu as energias de Shaka por longas na Casa de Áries sendo cuidado por seu fiel seguidor, o monge Kamal, e por uma silenciosa Haranni, já que sua casa de Virgem fora completamente destruída durante a invasão. Aiolos fora chamado mais uma vez para emanar seu cosmo curativo na ferida e assim aliviar o sofrimento do indiano. Após o trabalho, Sagitário examinou Shaka e o deixou dormindo. Kamal o interceptou na porta do aposento.
- Como ele estar? – o monge quis saber.
- O ferimento ainda não fechou completamente, por isso a febre persistente. – Aiolos respondeu – Contudo a fase crítica já passou. Continue ministrando os remédios, logo a febre vai passar.
- Oh, que os deuses o abençoem, santo de Sagitário!
Após reverenciar Aiolos, Kamal partiu para o quarto onde Shaka descansava munido de toalhas, ataduras e remédios para limpar o ferimento de seu mentor. Aiolos foi ter com Haranni:
- Ele continua chamando por Jim em seus delírios. – revelou Aiolos em tom de preocupação - Ainda não temos sinal dela?
- Infelizmente não. – a indiana respondeu.
- Ao que parece Shaka só vai sossegar quando Jim aparecer. Chame-me se precisar de alguma coisa, Haranni.
Após a saída de Aiolos, jovem se postou na porta do aposento e ficou vendo de longe os cuidados de Kamal, seu pai de criação, para com Shaka, seu ex-noivo. Via toda a tristeza e preocupação do monge, ansiava por confortá-lo, mas como ainda não tinham voltado a se falar, ficou em seu lugar, calada, esperando pacientemente ser chamada. Haranni sofria com toda a rejeição de Kamal, as palavras proferidas por ele quando assumiu seu amor por Mú ainda lhe doíam no coração.
- Preciso de mais ataduras! – a voz autoritária de Kamal a empurrou para fora da nuvem de pensamento que havia se metido.
- Sim, senhor. – Haranni baixou a cabeça e foi até a cozinha atender a solicitação.
As outras seguidoras de Shaka estavam na cozinha tomando chá. Perceberam que Haranni chorava.
- Ele te tratou mal de novo? – indagou Ramanuja, afagando as costas de Haranni.
- Não. Ele só pediu mais ataduras. – respondeu Haranni, em seguida emitiu um suspiro triste. – Mal olha meu rosto. Parece que nunca vai me perdoar.
- Você não fez nada para ser perdoada. – disse Ramanuja – Kamal sabe disso, apenas não quer dá o braço a torcer.
- Nunca pensei que Kamal fosse tão orgulhoso. – disse a outra monja e tomou um gole de chá. – Descanse, Haranni, nós vamos ajudar Kamal agora.
###
Primeiro o grande canteiro de Rosas Imortais de Peixes se abriu lentamente, revelando o corpo de Lucy, as rosas que a cobriam se despetalaram e pétalas vermelhas foram levadas pelo vento, atraindo a atenção de Afrodite. Novas rosas vermelhas nasceram abrindo-se em absurda velocidade e suas pétalas carregavam o brilho das gotas de orvalho. Afrodite notou que o perfume daquelas rosas era completamente novo, mais sensual, carregavam o cheiro de Lucy Renard. Os galhos espinhentos das roseiras deslizaram pelo corpo de Lucy, liberando pouco a pouco seus membros, quando finalmente a soltaram, ela abriu os olhos. Respirou fundo e olhou em volta ainda deitada sob sua cama de rosas. O mundo lhe pareceu diferente, ela percebia os cheiros a longa distância e sabia quando cada rosa iria nascer naquele belo jardim, no entanto, estas novas percepções não lhe causaram nenhum assombro, pois era como se sempre as tivesse. Levantou e percebeu-se que estava nua e que dormira em meio as rosas. Afrodite estava diante dela e a contemplava com olhos maravilhados, como se olhasse para uma deusa recém-nascida.
- Bem vinda de volta, minha querida. Como se sente? – perguntou Afrodite.
- Parece que dormi cem anos, nunca me senti tão descansada. – respondeu Lucy, acariciando sua cama de rosas.
Sua mão encontrou a de Afrodite de Peixes. Ele a segurou gentilmente e beijou os nós dos dedos como um pretendente amoroso. Lucy abriu um sorriso lascivo sem perceber. Ainda não sabia o quanto estava diferente. As rosas a curaram e a fizeram mais bela, mais sedutora. Aquele sorriso e aqueles lábios naturalmente pintados de vermelhos eram capazes de seduzir qualquer criatura, mortal ou divina. Afrodite mal se continha diante dela.
- Mestre, porque estou no jardim? – perguntou Lucy – A última coisa que lembro é de estar na praia com a Jim... O que aconteceu com ela?
- Não sabemos. – respondeu Afrodite, ajudando Lucy a ficar de pé, em seguida cobriu-a com sua capa – Quanto a você... Lucy, temos muito o que conversar sobre sua nova condição.
- Nova condição...? – perguntou Lucy sem entender.
- Você foi exposta por um longo período as rosas imortais, as rosas mais venenosas do jardim de Peixes. – explicou Afrodite – Seu sangue agora é venenoso, assim como as rosas... – segurou o rosto da discípula carinhosamente – Meu amor, quando te encontramos era tarde demais. As rosas te trouxeram de volta a vida.
Lucy fechou os olhos e lembrou quando chegou a praia, Jim estava ao seu lado, o golpe deferido contra ela pelo inimigo, o desespero de Jim quando a viu ferida. Nunca sentiu tanto medo em toda sua vida. Em meio a isso chamou ajuda, não para ela, mas para Jim. Alguém precisava impedir Jim de lutar sozinha contra o cruel Hanzo. Sabia que morreria antes de perder a consciência. Então vieram sonhos com rosas belíssimas. Era única num universo de rosas, que nasciam e cresciam através dela, as raízes finas brotando de suas veias abertas... Afastou-se bruscamente de Afrodite.
- Disse que meu sangue se tornou venenoso? – indagou preocupada. - Não quero machucar as pessoas. – disse Lucy com tristeza. Pensou em Mask e Erika, nunca mais poderia toca-los? – Eu quero protege-las. Para isso desejo ser amazona de Athena, para proteger aqueles que amo e todos que precisam.
- Eu sei, querida – sussurrou Afrodite abraçando Lucy – Tudo isso é novo para mim também. Prometo que tudo ficará bem.
O olhar de Afrodite transparecia preocupação. Lucy sentiu as rosas se agitarem ao seu redor, conseguia ver as partículas de perfume se espalhando pelo ar, tocar sua pele, sussurrar em seu ouvido "tudo vai ficar bem". As rosas faziam parte dela agora, como uma extensão de seu corpo, por isso podia ouvi-las. Afrodite notou a contemplação da aluna. Também sentia a agitação das rosas, mas para ele era uma sensação diferente. Uma vasta e pura melancolia. "O que eu fiz?", questionou-se.
###
O rosto do irmão estava sereno, era como se estivesse descansando e não tinha cometido muitos crimes, tirado a vida de inocentes, incluindo Lucy, mas mata-lo não lhe trouxe nenhuma satisfação. Na verdade, Jim se sentia pior do que antes da luta. Havia um buraco no lugar de seu coração, um buraco que só se aprofundaria ao longo do tempo, absorvendo parte de sua alma a medida que crescia. Jim fechou os olhos, concentrou-se em sua missão, na mão que segurava firme a espada Seladora de Deuses, todo seu ser podia tremer, menos aquela mão.
Fixou-se no objetivo, no fio vermelho que a ligava a mãe. Conseguia visualiza-lo nitidamente em meio aos emaranhados de caminhos de luz que interligavam as infinitas dimensões. Em determinados momentos precisou reforçar a bolha de cosmo que a protegia do caos dimensional, cada vez que fazia isso, sentia a excitação de Nya, seu chamado ficava mais alto. A medida que avançava, sentia que as vias dimensionais a puxavam para a mãe. Os fios vermelhos se espalharam por toda parte, então soube que estava perto. Só precisava de um esforço semelhante a abrir uma porta... Subtamente sua visão foi tomada por uma luz intensa, segundos depois estava no bosque opaco, onde colunas gregas destruídas despontavam em meio a canteiros de flores e sua mãe estava ao fundo, em volta por seu amplo manto verde oliva. O cabelo ruivo caindo ondulado do capuz, os mais belos olhos verdes a fitavam com ternura. Aquela mulher em nada lembrava a triste jovem que encontrou no passado. Nya estava radiante, nítida, mais viva e poderosa do que nunca.
Calmamente e sem tirar os olhos da mãe verdadeira, Jim fez o corpo do irmão flutuar até acomoda-lo deitado diante dela. Nya deu apenas uma rápida olhada para o rosto de Erik em seguida tornou a fitar Jim.
- Não consegue chorar diante de seu filho morto. – disse Jim, o tom de voz era como uma lança apontada – Que espécie de mãe é você?
- Por que eu choraria quando apenas sinto orgulho? – Nya rebateu – Erik sabia que morreria quando a irmã despertasse seu verdadeiro poder. Ele cumpriu seu destino. O destino que eu vi. – abriu um sorriso caloroso e avançou – Filha, eu sabia que viria...
- Não se aproxime de mim! – exclamou Jim, brandindo a Seladora de Deuses contra Nya – Eu quero a verdade, mãe!
- Minha filha, calma... – pediu Nya, carinhosamente – Sei que passou por momentos terríveis...
- Porque mentiu para mim? Porque mentiu para nós? Porque fingir a própria morte duas vezes, o que queria com tudo isso?
- Não é óbvio, Jim? Tornar vocês dois, meus amados filhos, mais fortes. – Nya respondeu. – O bebê passarinho é empurrado pela mãe para fora do ninho para aprender a voar, porque se ele não aprender não sobreviverá na floresta. Erik estava ficando mole, apegado demais a mim. – falou Nya andando em volta do cadáver do filho. Abaixou-se a acariciou sua face com a ponta do dedo indicador – Ele precisava desempenhar seu papel de forma plena, caso contrário você não chegaria onde chegou. Minha morte despertou a determinação e os sentimentos de que ele precisava para sua jornada.
- Ódio e vingança, você quer dizer. – rebateu Jim com desprezo – Você o transformou num assassino de inocentes.
- Tudo o que o Erik fez não é nada comparado ao o que os deuses fizeram a nossa família! – Nya exclamou – Você não tem ideia do que passamos, Jim, de toda a perseguição que sofremos no passado, não tem ideia do que é não se sentir segura em nenhum lugar. Quanto a você, eu precisava que visse do que os deuses eram capazes, já que não estava presente durante a perseguição. E não foi de todo mentira, os deuses realmente me aprisionaram, só que consegui escapar.
Jim fechou os olhos. Conseguia ler os anos de dor no coração da mãe e sentiu pena, anos passados ao lado do filho mais velho que ela tirara a vida. Uma lágrima brilhante escapou de seu olho, a mão que não segurava a espada tremeu, mas a mão que a segurava mantinha-se firme. Respirou fundo e perguntou:
- Como conseguiu escapar?
- Jim, vamos deixar isso de lado por um momento. – disse Nya, afavelmente – Estou tão feliz em te ver...
- Responde! – Jim gritou, a voz estridente abalou a dimensão em volta delas. O efeito devastador foi percebido por Nya – Chega de mentiras, chega de ilusões. Quero saber toda a verdade. Desde o começo.
- Tudo bem. – Nya respirou fundo – Você terá todas as respostas e seu sei que ao final me entenderá e toda a confusão que está sentindo vai passar. Vou partir do princípio: fui a única sobrevivente da revolta dos Hanzo contra os deuses. Fugi por vários anos, sempre sozinha, como medo. Uma noite as donzelas do oráculo de Delfos me encontraram e me acolheram. O tempo naquele lugar despertou minha visão do futuro. No começo eu tive medo, pois sempre via morte e solidão. Até que eu te vi. Você, Jim. A membro de nosso clã mais poderosa, minha filha. O poder que poria fim a dominação divina. Depois dessa visão tudo o que fiz foi calcar o caminho para seu nascimento. O pai de Erik chegou até mim por acaso, mas assim que o vi, soube que ele tinha as habilidades necessárias para meus propósitos. Já o seu pai, Shion, foi escolhido a dedo. A união das duas raças mais poderosas, Lemurianos e Hanzo, originou a mais poderosa arma contra os deuses. Uma filha, a minha visão, minha esperança. Engravidei de você em meio a guerra santa do século XVIII e fiz com que nascesse no futuro com a ajuda de Kairos. Esse salto temporal de gerações te tornou mais forte, em contra partida retardou o crescimento dos seus poderes. Confesso que não esperava por esse efeito colateral, nem seu irmão. Deve ter sido desagradável para você saber que portava uma gota do sangue nojento de Kairos em seu corpo, mas foi um mal necessário minha filha. Foi o que ele exigiu para realizar meu desejo...
- Essa parte eu já sei. Erik me mostrou. – Jim cortou – Quero saber como conseguiu escapar da prisão dos deuses.
Nya abriu um sorriso esperto.
- Tudo o que fiz foi chorar. O ferimento causado por Youma e o fato de ter acabo de dar a luz me enfraqueceu, por conta disso não pude ir muito longe. Os lacaios dos deuses da aliança me encontraram e me levaram para o Olimpo. Minhas lágrimas mudaram minha sentença de morte para prisão perpétua – ela olhou em volta. – Você deve conhecer o poder de nossas lágrimas brilhantes. Primeiro controlei os deuses que me julgaram, depois os carcereiros e fiz com que a prisão absorvesse os cosmos deles em vez do meu. Foi assim que sobrevivi, Jim. Tudo o que fiz foi por nosso clã, nosso sangue, nossa espécie, por você... – olhou para a espada na mão de Jim – Agora nós finalmente temos a chance de eliminar aqueles que tanto nos fizeram mal.
- Então espera que eu invada o Olimpo e destrua cada deus com esta espada sozinha? Simples assim?! – Jim questionou.
- Terá a ajuda dos cavaleiros quando matar Athena. – Nya profetizou – Eles acharão que foram os Deuses da Aliança e marcharão contra o Olimpo. – foi até a filha – Sei que gosta de Athena, mas ela é uma deusa, filha de Zeus, aquele que ordenou nossa criação nos laboratórios do Olimpo e depois permitiu que nos tornemos escravos. Você já tem a Seladora de Deuses, Jim. Estamos tão perto. Não se preocupe, aprenderá comigo tudo o que precisa saber. Serei sua mestra daqui para frente. Não tenha medo do seu destino. Os deuses acharam que podiam nos eliminar para sempre, agora sentirão o peso da nossa vingança.
Lentamente os olhos de Jim foram de encontro a espada em suas mãos e para o rosto da mãe verdadeira. A naturalidade com que a ela dizia aquele plano diabólico era espantosa. Uma nova lágrima brilhante despencou de seu olho, seguida de outra.
- Você é um monstro. – Jim sussurrou – Não serei seu instrumento de vingança. Não sou como você, não sou como Erik. Isso tem que ter um fim.
Tentou se afastar da mãe, mas ela segurou firme seu braço.
- Não ouse das as costas para mim, mocinha! – falou Nya, com autoridade – Eu fiz você, cada parte, cada célula. Construí seus poderes para esse propósito. Vingança. Muitos foram sacrificados para que você tivesse esse poder, agora você diz que prefere defender Athena? Tem meu sangue em suas veias, o sangue de seus antepassados que foram escravizados pelos deuses por séculos e quando finalmente conseguimos escapar fomos perseguidos. Os deuses fizeram de tudo para nos extinguir e eles não vão parar. Só há um meio de impedir isso: destruindo todos os deuses. Você nasceu para isso. Não negue seu destino, Jim. Não negue o que você é.
As palavras duras de Nya fizeram Jim cair num choro descontrolado como uma criança pequena que foi reprendida pela mãe pela primeira vez. A medida que ela chorava, Nya mudou sua expressão de severa para carinhosa, arrependida por ter sito tão dura com a filha.
- Mãe, perdão... – ela sussurrou entre os soluços.
- Oh, minha querida... – disse Nya tomando as filhas nos braços – Não chore, tudo ficará bem. Eu prometo. Não fique assim. Sua mãe está aqui. Vou te proteger e ensinar tudo o que precisa. Porque não passamos um tempo juntas? Sei que não se voltará contra mim, minha filha querida, minha esperança... – sua voz desapareceu quando sentiu o golpe em seu ventre. Olhou para baixo e viu a Seladora de Deuses cravada em seu corpo.
Jim fez mais força e atravessou o corpo da mãe com a espada longa, puxando-a para fora longo em seguida. Sangue jorrou da ferida manchando o manto verde oliva de Nya. Ela cambaleou e caiu ao lado do corpo de Erik, seus olhos verdes incrédulos fixos no rosto da filha.
- Minha visão... – sussurrou Nya antes de fechar os olhos para sempre.
A espada caiu a mão de Jim, em seguida ela caiu de joelhos. Queria correr para abraçar a mãe, mas não tinha forças, só conseguia chorar, o coração ardendo, pressionando contra o peito, tirando-lhe o ar. Jamais esqueceria o último olhar da mãe verdadeira. Kanon estava certo. Ela era uma aberração, um monstro.
- Perdão, mãe. – era só o que conseguia dizer.
Gritou e explodiu seu cosmo, lançado uma pluma furiosa que se espalhou por toda dimensão paralela, criando uma poderosa barreira, selando-a complemente das outras dimensões. Ninguém jamais encontraria aqueles corpos, nem aqueles corpos pereceriam, já que dentro daquela dimensão tudo o tempo corria mais devagar. E quem sabe um dia ela teria coragem de voltar a tumba que criara para sua família... Não. Jamais teria coragem. Não era digna de chorar diante dos parentes mortos por suas mãos, mesmo que eles fossem malignos, eles a amavam. E ela os matara. Quando finalmente seu cosmo baixou, já se encontrava longe da tumba, flutuando acima dos corpos da mãe e do irmão, bem protegida por uma bolha de cosmo protetora. A medida que se afastava, sentiu que parte irrecuperável de sua alma se perdera, morrera junto com sua família verdadeira. Nada seria como antes. Estava sozinha. Seu espírito jamais encontraria paz, nem lugar que pudesse chamar de lar.
Viu de longe a Seladora de Deuses abandonada em meio ao que restou da dimensão de Nya. Atraiu a arma até sua mão machucada e trêmula usando telecinese. No momento em que agarrou o cabo da espada mitológica a mão parou de tremer. Estava passando sobre o universo paralelo cuja linha temporal levara Hades a vencer a guerra santa e destruir completamente o santuário. Comovida, chegou a conclusão que a visão da mãe não estava totalmente equivocada, ela realmente usaria a Seladora de Deuses.
Mais informações na Luna Del Rey Fics página no facebook.
