TRÊS ANOS E SETE MESES DEPOIS

Ser chefe de fato tem seus privilégios, por exemplo: sair mais cedo neste dia mais que especial.

Há exatos três anos, Selena e eu oficializamos a nossa união na presença de nossos familiares e amigos mais próximos com uma íntima, paradisíaca, romântica e emocionante cerimônia em uma praia caribenha de areia branca e água turquesa. E hoje, 10 de abril de 2024, comemoramos nossas "bodas de trigo" como diz a minha mãe.

- Que adorável, Dem... – Taylor observa encantada o pingente em formato de pezinho de bebê.

- Maddie me ajudou a escolher, ela disse que esse é o menos cafona.

É primavera e a minha irmã está de férias da faculdade, por isso ontem tirei o dia de folga, aproveitei que Selena estava ocupada na galeria que ela abriu com sua amiga Jennifer e arrastei Madison para uma joalheria.

- Pessoas apaixonadas são cafonas mesmo e eu sou a prova viva disso. – Cara declara recebendo outra batata-frita na boca. – O colar é lindo, aliás. – Ela acrescenta mastigando.

- Verdade... – Taylor me entrega o estojo de joias. – Sel vai adorar.

Sorrio comigo mesma ao guardar o presente na bolsa.

- Vocês vão fazer algo de especial para comemorar? – Amber pergunta, mas posso ver que ela está mais interessada em alimentar a namorada do que em meus planos com a minha esposa esta noite.

Abro um sorriso com a cena que se passa diante meus olhos. Estamos as quatro em uma mesa do refeitório pouco movimentado do hospital, e Cara e Amber estão praticamente grudadas enquanto comem trocando sorrisos. As duas estão namorando há quase dois anos, elas estão felizes e bastante envolvidas uma pela outra. E nossa, é tão bom vê-las assim, ver Amber assim; tão apaixonada e correspondida. Eu estou tão feliz por elas. Lembro como se fosse ontem, Amber de volta à cidade após um tempo longe, segredando para mim que estava se apaixonando por Cara, mas temia que fosse tarde demais. Por sorte não era, e hoje elas estão assim, sem conseguir tirar as mãos uma da outra.

- Vamos sair para jantar... – Checo o meu relógio. – Inclusive já vou indo, ainda preciso comprar umas flores, sabem como é... – Sorrio entusiasmada e levanto segurando minha barriga proeminente. – Vejo vocês amanhã!

(...)

É cinco horas da tarde e o sol ainda brilha com todo o seu esplendor. Paro em um semáforo e olho para o buquê de rosas vermelhas no banco do carona, um sorriso estica meus lábios, meus olhos se fecham e por um breve momento me permito embalar pela voz de Ray LaMontagne tocando no rádio ao encostar a cabeça no banco do carro.

Eu simplesmente amo essa sensação inenarrável de não ver a hora de chegar em casa e ver Selena. Às vezes ela me busca no hospital quando sai da galeria e jantamos em algum restaurante. Mas tem noites em que chego um pouco tarde, e quando não a encontro dormindo com a televisão ligada, me deparo com ela concentrada em seu estúdio fazendo o que ama e apenas a observo pensando no quão sortuda sou. A nossa vida de casadas vem sendo incrível e nós estamos mais que felizes e na expectativa para a chegada de nossa primeira filha que cresce em minha barriga.

Vejo o sinal ficar verde e prossigo meu percurso para a casa na qual moramos com os nossos três cachorros. Sim, Baylor ganhou dois novos irmãos, digo, três novos irmãos, se você contar a gata rajada que aparece sempre atrás de um pouco de comida e carinho. Selena a nomeou de Nala e aos pouquinhos nós estamos tentando adotá-la. Devagar a nossa família está crescendo.

Estaciono ao lado do Tesla na garagem sombreada pelas árvores florescendo, pego minha bolsa, as flores e saio do carro. Os cachorros comemoram serelepes a minha chegada e me acompanham até os degraus de madeira acoplados na parede. Na curva da escada, sorrio para a fotografia emoldurada; Sel e eu, ambas de branco, sorrindo no meio do beijo sob o arco rústico decorado com flores. Na foto tirada após os votos, seus cabelos estonteantes estão cacheados e enfeitados com uma tiara de flores enquanto os meus estão trançados nas laterais. Há várias fotos desse dia memorável, mas essa é a nossa favorita.

Ouço a voz melodiosa de Selena no segundo andar. Passo pelo estúdio vazio e me aproximo da porta semiaberta do quarto em processo de montagem, uma plaquinha escrito "Amanda" decora a madeira. Escolhemos o nome logo no primeiro trimestre e revelamos sobre a gestação compartilhada para a nossa família somente no Dia de Ação de Graças aqui em casa há cinco meses. Foi muito comovente e engraçado, nossos pais caíram no choro — especialmente Brian — enquanto o resto da família literalmente gritava de felicidade.

Decidimos tentar engravidar por meio de FIV em maio do ano passado. Eu estava no auge dos meus trinta e sete anos e Selena prestes a completar trinta e menos atarefada na galeria. Nós tínhamos acabado de retornar de uma viagem revigorante — passamos o mês de abril viajando, escalando montanhas, conhecendo novas culturas e celebramos o nosso segundo ano de casamento em Amsterdã.

Estávamos no Texas comemorando o Dia das Mães e eu me recordo de estar conversando com a minha irmã mais velha e notar Selena me lançar um olhar sorridente e sugestivo enquanto brincava com o nosso sobrinho Noah, um olhar que dizia: "estou pronta se você estiver". E meu Deus, eu estava pronta há meses! Só não contei a ela porque Selena estava extremamente focada no trabalho.

Empurro a porta, mas Selena não percebe a minha presença. Encosto no batente e admiro a mulher totalmente concentrada na mistura de tintas que ela cria na paleta em sua mão enquanto cantarola para si mesma. Na parede a sua frente, um leãozinho quase todo pintado. Sorrio placidamente com a mão na barriga.

Entendam, uma mãe comum simplesmente compraria algum papel de parede bonito para o quarto de sua bebê, mas como podem ver, minha esposa não é comum, ela é extraordinária, a pessoa mais talentosa que conheço e não há dúvidas de que Selena será uma mãe incrível.

Ela é o meu amor, minha amiga, minha companheira, minha fortaleza e eu sou grata todos os dias pela sua existência. Como também sou grata pela sua doçura nestes últimos meses em relação aos meus hormônios elevados; pela sua paciência quando estou de mau humor; pela sua proteção e acalentos quando estou apreensiva; pela sua solicitude ao me preparar vitamina de abacate no meio da madrugada; pelos seus toques prazerosos quando estou com a excitação à flor da pele, sou grata por tê-la em minha vida e não há nada que eu não ame em Selena. Quer dizer, exceto sua velha mania de largar as roupas e os sapatos espalhados pelos cômodos.

Suspiro, embevecida, apreciando o pescoço livre dos cabelos cortados há pouco tempo presos em um coque despretensioso. Molho os lábios lentamente e os mordo, descendo os olhos pela pele bronzeada e exposta graças ao simples top preto sob a jardineira jeans de cavas amplas manchada de tinta. Selena resmunga alguma coisa, estala o pescoço e abre aquele sorriso perfeito e exclusivo para mim quando finalmente me vê.

- Chegou cedo! – Os airpods são removidos dos ouvidos e os olhos castanhos caem para o buquê na minha mão. – Flores para mim?

- Bem, é o nosso aniversário, então... – Sorrio com a língua entre os dentes vendo a paleta e o pincel sendo deixados no banquinho.

Como de costume, os lábios carinhosos se conectam com os meus e em seguida com a minha barriga sobre o tecido da blusa.

- São lindas amor. – Ela inala o perfume das rosas ao segurá-las. – Obrigada.

Nossos lábios se encontram de novo e eu seguro a nuca raspada, acolhendo a língua suave em minha boca. Partimos o beijo um minuto depois e apenas sorrimos com as testas encostadas.

- Hay ligou mais cedo e nos convidou para jantar amanhã. Nick vai cozinhar.

Faço uma careta de espanto aspirando o ar através dos dentes.

- Então é melhor comermos alguma coisa antes de irmos.

Selena ri tocando a gola do meu casaco.

- Você é tão má. – Outro beijo é plantado nos meus lábios. – Adoro.

- Eu tenho mais uma coisa para te dar... – Retiro da bolsa o estojo de veludo enquanto ela me olha curiosa. – É um colar... – O abro risonhamente e revelo o cordão delicado de ouro com o pingente de pezinho decorado com uma única pedrinha de diamante rosa. – Eu comprei para nós duas e já estou usando o meu. – Mostro o colar em meu pescoço que até então estava sob a minha blusa. – Não é fofo?

Os dedos manchados de tinta tocam o pingente enquanto os olhos encantados admiram o presente.

- É lindo, Dem...

- É...

- Combina com as nossas alianças. – Selena repara. – É perfeito.

- Me deixa colocar em você. – Peço abrindo o pequeno fecho.

Selena vira de costas e solta um leve suspiro.

- Amor... eu fiquei aqui pintando e nem vi a hora passar...

- Tudo bem, linda. – Prendo o colar em seu pescoço, colo os lábios em seu trapézio e mordo carinhosamente sua pele. – Sabia que você fica absurdamente gostosa manchada de tinta? – Falo rouca, sentindo seu cheiro viciante.

Um riso escapa do nariz de Selena que volta a ficar de frente para mim, exibindo o presente. Tombo a cabeça de lado, admirando a mulher com a joia.

- Sério, Dem. Amanhã eu faço questão de te presentar, okay?

- Okay. – Mordo o lábio. – Mas enquanto amanhã não chega... – Brinco maliciosamente com a lateral da calcinha a mostra. – Que tal você me dar uma coisinha agora?

- Te dou tudo que você quiser.

E em meio a beijos e sorrisos apaixonados, nós rumamos para o nosso quarto e fechamos a porta.


É isso amadxs, acabou... goodbye :)