Snape esfregou os olhos enquanto esperava os guardas abrirem sua cela, já podia sentir o ar gélido dos dementadores se aproximando e respirou fundo, abrindo finalmente os olhos e se concentrando no que sabia que estaria por vir. Como da outra vez, iriam algemá-lo e, por meio de uma chave de portal, levá-lo ao Ministério da Magia.
Foi outro longo julgamento, no qual Minerva Mcgonagall havia perdido sua paciência e posto suas garras de Grifinória a pronto para defender Snape das injúrias que tentavam proferir contra ele. Aquele era, definitivamente, e sem tentativas de esconder, um julgamento que estava sendo extremamente manipulado pelos juízes. Se a raiva de Minerva Mcgonagall havia contado a seu favor ou não, não havia como dizer, mas ao fim de quatro longas horas, ele era um homem livre novamente.
Minerva e Harry Potter estavam lá e vieram, de certa forma comemorar e ao mesmo tempo se desculpar novamente por tudo que ele estava passando. A então recém empossada diretora de Hogwarts lhe informava que havia inúmeros jornalistas do lado de fora do Ministério, atentos para uma tentativa de aproximação dele e de Harry Potter, mas Snape ouvia o que a bruxa falava como se fosse uma voz distante, sua mente estava em outro lugar e em outras pessoas.
- Minerva, - Snape a interrompeu com delicadeza. - nós podemos conversar depois. Eu quero, e preciso, ir para casa.
Minerva olhou para ele com os olhos instantaneamente arregalados.
- É claro, Severus, que cabeça a minha - Minerva pôs a mão no ombro dele. - descanse, e então voltaremos a falar sobre Hogwarts, e sobre o futuro. Teremos tempo.
- Eu agradeço muito pelo que fizeram por mim nessa defesa. - Snape dirigiu um olhar fraterno a ambos - Ainda acho que não era preocupação de vocês, e mesmo assim se envolveram nessa jornada. Até breve.
Snape deu as costas para os dois e para a sala de tribunal praticamente vazia, alguns júris ainda arrumavam suas coisas nas cadeiras ao alto, outros conversavam, mas a platéia que o queria em Azkaban para sempre já havia dispersado. Snape caminhou até um corredor vazio e enviou um patrono à Melvina, avisando que estava indo para a sua casa, não queria chegar sem avisar nada, pois tinha receio de assustá-la. Ele notou que ela estava muito sensível e que até mesmo a sua própria presença não foi o suficiente para fazê-la se sentir segura.
Foi até um banheiro próximo enquanto esperava alguns minutos antes de aparatar em sua casa. Não se sentia muito bem para aparatar, talvez fosse apenas o cansaço ou talvez fosse o efeito prolongado dos dementadores, mas sentia que daria conta de aparatar até a Rua da Fiação, sua força era alimentada pela vontade de ver Melvina e Anthony. Era tentar ou ter de sair pelo Ministério que, segundo Minerva, estava rodeado de jornalistas. Respirou fundo e em segundos seu corpo nauseado estava parado em um dos becos perto da conhecida rua deserta. A passos largos foi se aproximando da porta, fazendo a madeira ranger com o movimento de abertura ao identificar seu proprietário.
Snape adentrou a sua sala forrada de livros no mesmo momento em que Melvina descia as escadas, com sua varinha empunhada na mão e os olhos mostrando-se momentaneamente assustados nos segundos que precederam a identificação de Snape. Ele permaneceu parado na sala que havia abrigado muitas conversas engajadas entre os mestres de poções. Olharam-se por alguns segundos, com alívio estampado nos seus rostos, e então Melvina guardou a varinha e desceu as escadas lentamente, indo ao encontro de Snape. Ele abriu os braços, receoso de que ela não aceitasse seu abraço, mas aos poucos Melvina se aconchegou e repousou o rosto no ombro dele. Snape podia sentir como ela estava tensa, e ficou imóvel, sentindo o cheiro do cabelo dela perto do seu rosto, o cheiro dos livros na sua sala, deixando-se inebriar pela felicidade que brotava aos poucos dentro de si.
- Estou muito feliz em vê-la. - Snape quebrou o silêncio que havia protagonizado seu abraço de retorno, sua voz mostrava-se levemente rouca. Melvina se soltou aos poucos, seus ombros encolhidos fazendo-a transparecer sua fragilidade emocional, seus braços cruzados como se ela continuasse o abraço em si mesma, procurando alguma forma de segurança.
- Eu também, - ela sorriu fracamente - estou imensamente feliz que você está livre. Você está bem?
- Sim. - Snape sorriu diante da preocupação dela.
- Seu ferimento está completamente curado? Minerva disse que quando você foi levado ainda estava em processo de recuperação…
- Está tudo bem. - Severo respondeu, num tom acalentador. - Estou mais longe do perigo do que estive nas últimas semanas. Talvez nos últimos anos.
Melvina apenas acenou com a cabeça. Sentia-se incapaz de ser ela mesma, sentia-se violada e extremamente cansada de lidar com os pesadelos que atormentavam sua mente. Não queria que Snape se sentisse mal, apenas não se sentia bem para abraçá-lo e beijá-lo como ela sabia que faria, não fosse seu estado de transtorno mental. Ela estava ferida, de um jeito que a aparência nem sempre consegue transmitir.
- Anthony está dormindo. - ela falou de repente, indo em direção às escadas, fazendo sinal para que Severo a seguisse. - Eu transfigurei um berço para ele no quarto.
- Ótimo, - Snape respondeu feliz - estamos com pouco espaço aqui, não é?
Snape mantinha uma distância pequena de Melvina, que virou-se ao chegar no topo da escada, esperando por ele.
- Ele não precisa de muito agora. Também achei que me sentiria melhor com ele o mais perto possível.
- Entendo, - Snape entrou no quarto e começou a chorar quando viu seu filho dormindo tranquilamente no quarto semi-iluminado. Sobre o berço, pendia o presente que ele havia feito para seu pequeno, o caldeirão com ervas. A visão de seu filho seguro e confortável o fez soluçar, lembrou de alguns momentos em que pensou que o pior teria acontecido com ele e Melvina. Seu coração estava acelerado e o peito doía enquanto as lágrimas rolavam pelo seu rosto e pingavam nas vestes. Sentiu a mão de Melvina gentilmente lhe apertar o ombro e virou para ver que ela também tinha os olhos cheios de lágrimas.
- Eu não sei o que faria da minha vida sem vocês. - Snape tinha a voz embargada.
- Ele está pedindo por você o tempo todo. - Melvina fungou e riu, limpando as lágrimas - Talvez seja melhor acordá-lo para que ele consiga matar a saudade.
- Deixe-o dormir, - Snape olhou mais uma vez para a criança em sono profundo. - tenho saudades de você para matar enquanto ele está dormindo. Melvina sorriu, mas sentia que seu corpo gostaria de ficar chorando por horas a fio. Uma lágrima insistente rolou pelo canto interno do seu rosto, alcançando sua boca antes que pudesse detê-la com a manga da blusa.
- O que foi? - Snape quase sussurrou, sua voz transmitia toda a sua preocupação.
- Eu não estou bem, Severo. - Ela se rendeu às lágrimas e em pouco tempo estava soluçando, seus braços apertados contra o próprio corpo. - Eu sinto como se meu mundo está prestes a desabar novamente, o tempo todo, é muita coisa pra guardar aqui dentro. - ela colocou a mão espalmada sobre o peito, seus olhos desviando do olhar de Snape.
- Eu quero ajudar você. - Snape procurou o olhar dela. - Aos poucos, do nosso jeito. - ela concordou com a cabeça, um movimento quase imperceptível. - Nossa vida apenas começou com o fim dessa guerra, Melvina.
- Eu estou cansada, - ela apontou para a cama - não dormi quase nada durante essa noite e ainda estou tomando remédio para dor.
Snape apenas acenou com a cabeça.
- Já que estamos ambos cansados, sugiro que a gente deite um pouco e você durma enquanto eu fico de olho no Anthony. - Melvina não respondeu mas começou a desarrumar a cama e deitou-se no seu antigo lado da cama. Já vestia uma roupa confortável, quente e comprida demais para aquela época do ano, segundo a percepção de Severo quando a viu, deduziu que ela estava escondendo possíveis marcas que ainda restavam no seu corpo, e algumas que nunca mais a deixariam.
Snape deixou-a por um momento enquanto ia ao closet a fim de vestir um de seus pijamas. Colocou um novo curativo adesivo para cobrir sua cicatriz e rumou em direção da cama. Melvina estava deitada, de barriga para cima, com uma bolsa térmica sobre seu abdômen. Deitou-se ao seu lado, levou um dos braços atrás da cabeça enquanto sentia a sensação prazerosa de ter seu corpo confortado pela cama macia e quente, depois de todos aqueles dias em Azkaban. Olhou para Melvina, os olhos dela não desviavam do berço de Anthony. Snape queria aconchegá-la em seus braços e dizer que tudo ia ficar bem, mas ele, de todas as pessoas, sabia muito bem que frases superficiais de conforto como essas são conseguem confortar a dor que é profunda. Ele sentia que o sofrimento fez de Melvina uma pessoa quieta e arredia, havia se tornado um pouco do que ele era antes de tê-la como esposa.
Note: Olá, leitores. Mudanças está de volta. :)
