Capítulo 37

Freya ouviu a sineta da bicicleta azul ressoar sinuosa. Coberto de pequenos e brilhantes floquinhos pelas roupas e cabelo, Hugo viera pedalando até ela. A neve caia fina e vagarosa naquela manhã.

- Acordou cedo, querido. - Ela notou, sacudindo superficialmente os flocos de neve do cabelo e da roupa do filho com os dedos - O café da manhã está na mesa.

- Oi, estou indo já! - Hugo animou-se, porém, tão logo parou para atendê-la, se ajeitou no banco e disparou veloz, dando mais uma volta pelo imenso jardim revestido de pedras. Só depois de contornar todo o espaço foi que ele retornou para junto da mãe.

A essa altura, a princesa de Asgard havia preferido sentar-se nos degraus da escadaria que levava ao jardim, ficando a observar o menino brincar, depois de meses em que ele pouquíssimo aparecera nos jardins, a deixar intocado o seu trenó num canto do quarto, pontuando silenciosamente a falta que a irmã lhe fazia em suas brincadeiras, assim como fazia a ela própria e a todos de Valhala.

E bastara um presente de aniversário dado pelo pai para o quadro começar a mudar. Justo Hugo, cujo destino precisou colocar Adelle em situação alarmante para que a ideia de conhecer o pai passasse a ser considerada por ele.

- Agora eu vou. - O lourinho disse, descendo do velocípede e o guiando pelas escadas, enquanto Freya se ergueu e o acompanhou. Caminharam por alguns minutos até chegarem à morada, devagar, conversando aleatoriamente, até haver um breve momento de quietude entre eles, onde a asgardiana viu a oportunidade de desabafar um singelo orgulho.

- Obrigada, Hugo. Você se saiu muito melhor do que eu poderia desejar...

Hugo fitou a mãe sem entender. Ela o mirava de volta sorridente.

- Obrigada pelo que?

- Por tudo. Eu, no alto da minha responsabilidade pela sua irmã, não tive coragem o suficiente. - Freya o abraçou pelos ombros enquanto caminhavam - E eu deveria ter tido, deveria ter tentado romper a barreira que me impedia de rever o seu pai, encarar o passado. Você fez isso; eu sei bem que também não tinha nenhum desejo de conhecê-lo, e mesmo assim ignorou suas próprias inseguranças e simplesmente foi buscá-lo.

- Sim... - O garoto louro concordou, pensativo - Mas muitas vezes ainda penso que a Delle quem deveria ter ido no meu lugar. Sempre foi o sonho dela buscar o nosso pai. Sair numa missão mundo afora até achar ele, ela tinha uma ideia muito aventureira de como conhecê-lo. - Hugo riu de leve - Teria sido muito melhor a Delle ter ido ao invés de mim, faria muito mais sentido.

- Por quê? - Freya estranhou tanto pessimismo - O fato de ter sido você tem tanto valor quanto. Vocês são irmãos, tudo o que fizerem será igualitário, pelo menos para mim.

Hugo apertou os lábios, vacilante, retraído com relação aos seus próprios sentimentos.

- Bom, é que... Quando eu o conheci, eu não sei se eu mereci que toda aquela situação acontecesse comigo. Hyoga sempre foi bom demais para mim, ele talvez... tivesse me visto como filho dele desde o primeiro dia que nos vimos. E eu me sentia estranho, quando ele me fazia carinho, quando era gentil e atencioso. Eu não queria me sentir estranho, eu queria aceitar como se fosse normal, como se fosse o maior sonho da minha vida receber esse afeto dele. - Hugo soltou a bicicleta e se voltou completamente a mãe, seus olhos verdes já espelhando a luz de forma intensa, úmidos. A mulher loura se abaixou a altura dele, mostrando-se ouvinte enquanto ele continuava - A Delle sempre reservou o espacinho para o Hyoga no coração dela, como se o conhecesse desde sempre. E eu, no máximo enxergava um pai em você, mamãe.

- E isso não deveria te afetar tanto, deveria?

O pequeno asgardiano encolheu os ombros, sem certeza do que dizer. Voltou a mirada para fora, para os jardins.

- Eu queria ter tido esse sonho também. Pois talvez eu tivesse tentado realizá-lo muito antes. Eu me magoei com o meu pai sem saber se deveria ou não, e isso me fez...

- Perder uma vida de convívio...

- É... - Hugo confirmou com desalento - Eu queria ter reservado um espacinho em mim também...

Freya lhe acarinhou as bochechas, e ali deixou um beijo.

- Não se culpe. As coisas tinham um propósito para acontecer dessa forma. Sabe, eu também tive muitos sentimentos confusos: eu amei um homem durante a minha vida quase toda, e as vezes eu penso que deveria ter sofrido mais por tê-lo perdido. - Freya foi quem encolheu os ombros desta vez, conformada - Mas na época em que o perdi, foi também quando conheci e me apaixonei pelo Hyoga. Quando os meus sentimentos mudaram, foi um sinal de que a minha vida por completo também estava mudando. Acho que o mesmo tem acontecido com você, sua vida está mudando.

- Está mesmo? - Hugo indagou com a voz esperançosa.

Freya assentiu, e direcionou um olhar sério, até um tanto preocupado.

- Você deixaria Hyoga ir embora, para que nunca mais o visse?

- Eu... - Hugo balbuciou, o coração um pouco mais agitado - Eu iria...

- Porque ele vai. - A mãe do garoto o interrompeu - Quero dizer, ele vai passar algum tempo no Japão, para tentar ver melhores soluções para Adelle. Não é definido quando vai voltar...

Freya conseguiu ver os ombros do menino murcharem de imediato, tal como os olhos grandes dele se escancaram incrédulos. Hugo então nada mais disse, seguiu guiando a bicicleta vagaroso e com os olhos soturnos para o chão, até chegarem à sala de jantar onde a mesa do café da manhã se encontrava posta.

"Ele me diria... ele não iria assim..." O garoto ponderava consigo, sem certeza.

Surpresos, deparam-se com Hyoga já a mesa, numa postura que demonstrava que ele os esperava para iniciar a refeição.

- Bom dia. - Desejou a ambos.

- Bom dia. Tão cedo em casa. - Observou a loura, correndo os dedos pelos ombros do homem enquanto passava por ele, em seguida sentando-se também na cabeceira da mesa, próxima a ele.

- Coisas da sua irmã. - Hyoga se colocou a explicar – Hilda chegou cedo no hospital, disse que era o dia dela de cuidar da sobrinha, que estava como saudades, e que eu deveria vir descansar e tudo mais...

- E Adelle está bem? - Freya tornou a perguntar.

- Está sim, claro. A sessão de quimio a esgotou menos ontem, está mais disposta, porém teve aqueles enjoos como sempre.

- Hyoga... - Sentado ao lado de Freya, Hugo o chamou com a voz um pouco fraca, tirando a atenção dele da mãe - Você vai embora para o Japão? Quando?

O rapaz russo franziu severamente as sobrancelhas, as íris azuis indo de um lado a outro.

- Eu... não vou embora não. - O homem indagou, contraindo o lábio inferior e evidenciando seu desentendimento - Onde ouviu isso?

Hugo também não entendeu. Encarou a mãe, que tentava barrar o riso com o dorso dos dedos. Freya puxou Hugo para junto de si, apertando-o ainda mais em um abraço.

- Era brincadeira, seu bobinho.

- O que? Brincadeira?! - Hugo postou um tom um tanto revoltado com o gracejo dela.

Sentimento este que no minuto seguinte mudou para alívio.

Hugo então acompanhou os pais nas risadas.

0000

O rio Neva era plácido, ou ao menos parecia naquele dia quente, mais do que o rio de uma grande cidade deveria parecer. Hyoga pensou na mãe, ela adoraria São Petersburgo com certeza, adoraria se sentar ali a margens das águas e escrever, sem sentir os efeitos nem tempo e nem do espaço.

O louro então contemplou o livro em suas mãos. Seu manuscrito, já perfeitamente impresso e formatado; melhor dizendo, o manuscrito de Natássia. Ergueu o olhar ao céu, refletindo sobre o que ela deveria pensar sobre sua atual jornada.

Havia pouco mais de um mês que estava na cidade, para visitar editoras. Na primeira semana tratou de imprimir o manuscrito, numa gráfica comum, de forma amadora. Visitou a Igrok, editora onde a tia de sua vizinha Erika era editora. "Fomos fisgados", eles disseram. "Será o Exupery russo", outros aclamaram, com exagero. Porém tanto potencial não pareceu mantê-los confiantes; queriam mexer em praticamente tudo - Pippa quase se tornou Pippo! -. Hyoga agradeceu imensamente à Alina pela chance, mas deixou a reunião com seu manuscrito debaixo do braço e nenhum acordo de publicação.

No início, pensou estar fazendo besteira. Muitos escritores dariam a vida por uma chance daquela, talvez até mesmo sua mãe; mas foi justamente por ela que negou. Queria toda a essência dela presente, queria que os leitores sentissem Natássia por entre as linhas. Suas memórias sobre ela já não eram tantas, deturpar o pouco que restou era simplesmente inconcebível.

Agora aguardava o horário de uma nova reunião, numa outra editora chamada Karenin Editora. Era menor que a Igrok, mas muito bem quista no mercado. Estava ansioso; ainda que a maior parte de seu desejo fosse realizar o sonho da mãe, Hyoga também fez daquele sonho um pouco seu, de seu próprio ser. Queria conversar com as pessoas, o máximo delas possível. Queria expor o que sentia para aqueles por quem tanto lutou para proteger - chegando a quase morrer diversas vezes -, e que mesmo assim sequer tinha ideia de quem eram. Mas gostaria que eles soubessem quem ele era, não negava que ser ouvido seria um acolhimento balsâmico.

Afinal, as pessoas da Terra foram as que lhe restaram.

Ainda tinha seus irmãos de coração, claro, e neles poderia confiar sempre e para sempre. Mas não era correto levar seus problemas a eles, agora que todos tinham sua vida própria: Saori e Seiya tocavam uma vida agitada – porém muito feliz - com a Fundação, uma filha pequena e o Santuário, que ainda tomava a tranquilidade da jovem Kido mesmo que os próprios deuses tivessem afastado Atena do ofício de protetora da Terra. Shun e June também tinham seus pequenos rebentos, e viviam em expedições pelo continente africano prestando serviços médicos. Ikki vivia pelo mundo, indo vez ou outra ver seu irmão, seus sobrinhos e Seika. Shiryu permaneceu pacato cuidando de Rozan com Shunrei e o pequeno menino que os adotaram, ou melhor, que os adotou. Todos eles tinham suas novas ocupações, escolhas que cabiam apenas a eles próprios, uma merecida vida pacífica para viver após as guerras, tinham seus pequenos dependentes. Por que Hyoga atrapalharia algo que ele entendia perfeitamente ser tão imaculado, tão precioso? Haviam dado sangue por isso.

Hyoga também dera seu sangue pelo mesmo destino, mas ele estava ali, sentado sozinho. Merecia também receber uma vida preciosa, não merecia? Por que haveria de querer publicar um livro para desabafar sentimentos que poderia desabar com uma família sua? Não entendia, por mais que pensasse e repensasse, o que poderia ter feito de errado para Deus ou os deuses não lhe permitirem uma vida como a de seus companheiros. Quem sabe se houvesse tido mais afinco em honrar Camus e se tornado o Cavaleiro inabalável que ele lhe projetava, esta situação não lhe corroeria como agora tanto corrói; talvez fosse esta a causa desta provável "punição".

E se for, Hyoga não teria outra opção senão acatar. Pois esta foi a única lição do mestre que não pôde aprender, não importasse o esforço que fizesse. O jovem russo se afeiçoava aos outros com uma facilidade extrema - mais do que gostaria as vezes -, afeição esta tamanha que seu coração não conseguia se desfazer das lembranças de quase cinco anos atrás, durante os seis ou sete dias em que esteve envolvido com a magnifica princesa das terras protegidas por Odin. Um sorriso triste se formou em seus lábios sem que pudesse controlar.

Ou quem sabe teriam todos eles, os deuses, novos planos? Hyoga orava que sim. Seria demais para ele pensar que tudo o que vivia agora fosse uma consequência, a dita punição, que tudo fosse o fim.

Saiu caminhando, sem tirar os olhos do Neva, e sem deixar de orar. Pediu a Deus que pelo menos o seu futuro refletisse aquela placidez.

0000

Seguia pelo corredor os sons repetitivos e abafados, vindo de teclas datilográficas. Freya identificou a sala da lareira ocupada por um escritor tão submerso em sua história que sequer havia lhe notado entrar. Hyoga saltou os olhos ao finalmente percebê-la sentar-se no carpete da sala, ao seu lado.

- Oi. - Ele cumprimentou - Desculpe, estava aí o tempo todo?

A moça negou com a cabeça.

- Acabei de entrar.

Hyoga assentiu com um sorriso simples. Então voltou a digitar, mirando-a de momento em momento. Freya havia ido se aconchegar na poltrona da sala, relaxada com os pés sobre o estofado, e ele percebeu que ela simplesmente o observava escrever, quieta e muito concentrada. Não esperava que isso parecesse interessante. Permaneceu redigindo por mais alguns minutos, parou e foi juntar-se a ela.

- O que havia de tão divertido em um homem digitando?

- O afinco. Você se mostra apaixonado ao escrever. - - Respondeu, certeira.

Hyoga não conseguiu deixar de encabular-se. Sorriu tímido, apanhou a mão dela com carinho.

- Apaixonado como?

- Muito apaixonado, como se houvesse um portal dentro dessa sua máquina, por entre as teclas que te transportasse para outro lugar. O que é curioso, pois não me lembro de você ter dito que gostava de escrever na época em que nos conhecemos.

- Pois é. Surgiu depois mesmo. - Hyoga se ajeitou na poltrona, ficando ainda mais próximo, e permitiu as pernas dela pousarem de forma cômoda por cima de seus joelhos - Minha mãe escrevia também, tinha o sonho de publicar. Depois que... enfim, minha família se foi, eu comecei a rememorar a minha mãe, as histórias que me recitava, inventadas da cabeça dela. Ouvir os resquícios da voz dela fazia eu me sentir consolado, e menos sozinho. E quando dei por mim, já tinha escrito um livro inteiro.

Freya perdeu o leve sorriso que levava.

- Sinto muito. - Lamentou, enigmática.

Hyoga a mirou desentendido, foi o bastante para a princesa continuar:

- Esses anos todos foram mais difíceis para você do que eu poderia pensar. Talvez isso explique as sensações inusitadas que o livro de Pippa sempre me causaram das vezes que o li.

- Sensações? O que você sentiu? - O homem se mostrava totalmente curioso.

- Bom, eu não sei ao certo... - Pensativa, Freya se empertigou, aproximando sua face da dele - Mas eu sempre senti uma aura de tristeza nesse livro, uma melancolia subliminar, tentando ser despistada pelo verde das montanhas e pela alegria de Pippa. Ela é muito saudosa, e solitária, embora não perceba. Foi nessa época que o escreveu?

- Foi sim. - Confirmou ele, atônito pela forma como foi decifrado pela jovem mulher - Foi nessa época; e sendo bem franco, eu não era o maior fã desse livro, justamente por me remeter tanto aqueles tempos, e por não aceitar que justo uma história da minha mãe tivesse ganho características deles. Eu sequer o tinha lido inteiro depois de publicado, até o dia em que li junto com Adelle, quando a conheci no hospital.

Freya deitou a cabeça no encosto da poltrona, e um sorriso débil ganhou forma em sua face. Tinha em mente o fato de nunca sequer ter lido O Jardim de Pippa para seus filhos, pois nunca havia conseguido. Sabia que ouviria a voz dele em todas aquelas linhas escritas, assim como sempre ouvia quando lia-o sozinha, e se enfraqueceria ainda mais.

- Foram tempos nebulosos, de fato. Para todos.

- Sem dúvida... - Hyoga murmurou, aproximando-se mais - E é tão bom não vivermos mais neles...

E não vivam realmente, ele reafirmava para si próprio. Pois tudo o que queria era ter estado com ela naquele período, tal como estava agora.

Hyoga beijou Freya e a enlaçou nos braços, com fervor, deleite e demora; este era o melhor método de mostrar a si mesmo de que vivia efetivamente a realidade.

Tal realidade que estalejou forte ao redor, fazendo-se evidente, praticamente uma epifania. Pois mesmo que já desconfiasse do envolvimento deles, testemunhá-lo de fato tinha impacto, e grande.

Em toda a sua vida, Hugo nunca havia visto sua mãe beijar um homem, nem sequer cortejar um. Mas agora a via sorrir abobada por entre os beijos intercalados que trocava com o Cavaleiro de Atena, dedilhava os cabelos dourados e o rosto enquanto se mostrava totalmente atenta a ele, como se o que Hyoga falasse tivesse a mais suma importância; os olhos dos dois brilhavam ardentes diante da luz da lareira, e o pai contemplava a mãe como quem avistava a própria Ygdrassill no verde de seus olhos. Se isso significava que se amavam, somente a divina Freya poderia responder com certeza, por isso Hugo fez uma pequena prece para a deusa provedora do amor, desejando que ela, além de olhar por eles, confirmasse sua suspeita.

O menino então afastou-se da fresta por entre as portas, de onde os assistira. Olhou brevemente para o envelope que trazia nas mãos, dado por sua tia Hilda para entregar a mãe, e deixou o corredor. Depois o entregaria, não iria atrapalhá-los.

0000

Freya jogou o agasalho de pele sobre os ombros da irmã, que tremia severamente. Fora uma longa e intensa madrugada em seu altar, em suas habituais orações para Odin, sem tempo definido para início ou encerramento.

Ajudou Hilda a caminhar até Valhala, embora a representando do Pai de Todos não se sentisse de todo exausta. Estava já muito acostumada a sua missão.

Algumas serventes do Palácio vieram em seguida, assim que as viram entrar na grande morada. A criada mais jovem estendeu uma xicara de chá para Hilda, que notou as mãos muito tremulas da garota.

- Skurd, está se sentindo bem? - Questionou serenamente a rainha de Asgard.

- Sim, senhora. Quer dizer, estou sentindo um aperto... - A suspirou fundo, mecanicamente, e o bule de chá que tinha em mãos foi ao chão repentinamente. Freya e uma das serventes ali presente a seguraram de imediato, assim que a viram pender para trás.

- Por Odin Skurd, o que você tem? - A criada mais velha perguntou assustada, vendo-a ao chão, amparada pela princesa.

- Não sei... - Skurd disse suspirante - Não estou bem...

- Levem-na ao quarto dela, por favor. - Hilda ordenou, preocupada - Tratem dela. Não a quero trabalhando por enquanto.

- Sim, senhorita Hilda. - Assentiram as criadas, amparando e levando sua colega.

(...)

- Odin, por favor... - Hilda lamuriava consigo, mirando as montanhas glaciais pelos vidros. O coração continuamente apertado, a ponto de explodir - O que está havendo? Por favor, diga-nos, pai.

A jovem Skurd havia passado pouco menos de dois anos em Valhala, servindo o Palácio, e por consequência a si própria, a Freya, e seus sobrinhos, mas frequentava o lugar desde muito criança, talvez antes de andar. Tinha dezenove anos e possuía uma delicadeza e dedicação ímpar. E agora tão precocemente, e tão repentinamente havia morrido.

Nas últimas semanas, muitos outros asgardianos vinham tendo o mesmo destino. Mesmo tendo sido inaugurado há pouco tempo, o Centro Médico de Asgard vinha tratando os doentes com eficiência, porém ainda não era o bastante. Não para Hilda e sua culpa dilacerante. Desde o confronto com os Cavaleiros de Atena, sua dedicação fora voltada a reparar sua negligência, e cuidou com afinco para que nunca mais houvesse o derretimento de uma lasca de geleira sequer.

Porém dedicara-se tanto que se esquecera que cuidar de seu povo também fazia parte de sua missão. A febre atacara-os e ela não soubera. E não soubera pois sequer se lembrava da última vez que havia visitado os vilarejos, estado com as pessoas, ouvido a elas.

Virou o olhar para a porta da habitação, e encontrou companheirismo nos olhos verdes da irmã, também ardidos de choro. Freya vinha calma até ela, trazendo-lhe uma fumegante xicara de chá.

- Seu cavalo está pronto. - A loura informou em baixo tom, entregando-lhe a xicara.

- Obrigada... - Hilda sussurrou, voltando a mirar as janelas enquanto sorvia a bebida devagar; feito com ervas e frutas doces, o chá viera bastante açucarado, bem do jeito que gostava. O coração perdeu uma fração de sua agonia, ninguém a conhecia como Freya.

Pousou a xícara vazia sobre a escrivaninha e sentou-se diante da mesma, pesadamente. Não havia como definir seu semblante com outra palavra que não fosse derrota. Levada por esta imagem, Freya abraçou sua irmã mais velha pelo pescoço e deitou sua cabeça sobre a dela. Assim permaneceram, por minutos indefinidos.

- Eu vou com você também, pode ser? – A loura ofereceu-se. Hilda a mirou com certo espanto.

- Me desculpe irmã, não... não acho uma boa ideia.

- Eu sei que não acha, mas vocês precisam de ajuda.

- Mas e se você for contagiada? – Hilda se levantou devagar – Eu não posso deixar, essa doença é mais grave do que imaginávamos.

Freya sabia dos riscos, e os temia imensamente. Mas lhe fagulhava se lembrar de que uma vez ela própria havia prometido aos deuses acompanhar sua irmã, ser seu braço direito, estar à disposição para tudo o que Hilda precisasse. Mas desde que dera à luz, pouquíssima atenção havia dado para qualquer coisa além de seus filhos; e pior, até o pai dos pequenos havia conquistado mais espaço em seus pensamentos do que seu povo, concluiu com culpa.

Era mais do que correto então zelar pelos que ainda possuía consigo, sua família. Portanto, não aceitaria mais prolongar tanto descaso.

- Toda ajuda é imprescindível nesses casos urgentes, e eu quero ajudar. Além de que eu mal tenho te acompanhado em suas orações para Odin. Estou em falta com você Hilda, eu e você sabemos disso.

Hilda fez um singelo afago na face da caçula, e apanhou com carinho uma de suas mãos.

- Sei o que você está sentindo... se sente responsável também. Mas eu realmente preciso que você fique, Freya. Não se trata de te proteger, não somente.

Freya não se convenceu, mas aceitou para não aborrece-la ainda mais.

- Certo, eu fico. Mas vou estar pronta caso precise de mim lá, pode ser? Eu já havia inclusive deixado um guarda e duas criadas prontos para cuidar dos gêmeos.

Hilda esboçou um sorriso fraco para a mulher mais moça.

- Está mais tranquila quanto a eles, não é?

- Não estou, na verdade. Eu ficaria sem dúvida morta de preocupação enquanto estivesse nas vilas. Mas Asgard precisa se reerguer logo, inclusive para que meus filhos continuem tendo onde viver.

- Pois é. E este é mais um motivo pelo qual você deve ficar aqui. Não se preocupe, vai dar tudo certo, não vou estar tão desamparada assim. A Fundação Graad também vai ajudar, estão enviando mais médicos.

As portas do escritório se abriram bruscas, seguidas de correria e gritinhos agitados. Hugo corria atrás de Adelle tentando pegá-la, enquanto riam alto. Atrás deles uma criada também corria atrás deles, numa falha tentativa de conte-los.

- Ei, que bagunça é essa, crianças? - Freya os repreendeu, e apanhou carinhosamente suas mãozinhas e trouxe para junto de si e de Hilda – Quietinhos, hein?

- Me desculpe, senhorita Freya. – A jovem servente lamuriou.

- Não Lisset, não tem problema. Pode deixá-los aqui comigo. Obrigada.

A criada assentiu respeitosamente e saiu em seguida. Hugo soltou a mão de sua mãe e foi até a tia, com os olhos brilhosos.

- Você vai sair para a vila, titia? Eu queria ir também. - O pedido da criança espantou mãe e tia, em razão da periculosidade de tal passeio.

- A tia vai sim, amor. Mas não posso te levar, desculpe. – Ela abaixou-se a sua altura, e afagou seus cabelos dourados.

- Mas a mamãe deixa. – O pequenino fitou Freya – Deixa, mamãe?

- Não, meu filho. Não dá. – A jovem princesa negou calmamente, mirando as duas crianças – As pessoas da vila estão doentes, se vocês forem, vão ficar também.

- Mas a tia Hilda também vai ficar se ela for. – Adelle pontuou, inocente, embora estivesse certa em parte.

- É verdade. – Freya concordou – Mas se vocês dois derem um beijo e um abraço bem apertado e demorado na tia Hilda, ela não vai ficar doente não. Odin vai protegê-la com o amor de vocês.

Adele então veio correndo até sua tia, e junto com o irmão, abraçaram Hilda pelo pescoço e encheram as maçãs dela de beijinhos.

Em seguida, sua irmã mais nova e seus sobrinhos foram com ela até a entrada de Valhala. Hilda subiu em seu cavalo branco, e partiu acompanhada por um bom número de guardas e aprendizes de guerreiro. Seguiu contemplando Freya, que lhe acenava; mesmo que ainda estivesse temerosa por seu povo, Hilda sentia-se mais leve agora. E reavivando em mente a teoria de que sua irmã mais nova tinha de fato uma missão própria, só sua, dada por Frigga.

0000

Naquele início de noite, os flocos de neve vieram demasiados espessos e grandes, o bastante para serem facilmente fatiados pela fina lâmina. Hugo rodopiava de um lado a outro, em movimentos velozes e bruscos, fazendo a espada silvar alto em contato o vento intenso.

Em outros tempos, já teria o censurado por ter resolvido treinar no jardim justo àquela hora, em meio àquela temperatura, ou andar de bicicleta tão cedo como o menino fizera esta manhã. Mas havia se tornado raro vê-lo tão ativo como naquele dia, praticando golpes, brincando ao ar livre, que não teve coragem de interromper. Os atos corajosos e maduros de Hugo transformaram o amor já abundante de Freya por ele numa fonte inesgotável, e fizeram-na se orgulhar imensamente dele; mas também desejava que a vida fosse tranquila para o filho. Hugo e Adelle ainda eram crianças, mesmo ambos tendo se mostrado extremante fortes, não deveriam passar pelo que passavam e terem as preocupações e medos que já tinham.

Sentou-se no chão, e aproveitando que ele não a percebera, ali permaneceu assistindo-o. Mas entre uma pirueta ou outra pelo espaço, não demorou para o garoto visualizar sua mãe.

Hugo parou suas práticas, embainhou sua espada e veio até Freya, um tanto desconcertado. Fora pego de surpresa.

- Não te vi aí, mamãe. Desculpe.

- Eu sei. Eu também decidi não te atrapalhar. – Sorridente, a princesa de Asgard se levantou e apanhou uma das mãos de Hugo, guiando-o para dentro. – Mas agora vamos entrar, está esfriando ainda mais.

O lourinho concordou, já satisfeito com seu treinamento. Mesmo assim, foram ambos caminhando pelos largos corredores do Palácio sem tirar os olhos das vidraças que exibiam a lenta queda da neve grossa.

- Você continua tão bom, muito ágil, mesmo tendo passado meses sem treinar.

- Nem estou. – Hugo disse veemente – Estou é bem lento. Senhor Bado acaba comigo quando voltar para Asgard.

- Nada que mais prática não resolva. Você ainda tem muito jeito sim. – Passando um braço pelos ombros do menino, Freya tentou lhe alentar. Hugo nada disse, embora expusesse que ainda não concordava. – Aliás, está tão animado hoje. Acordou cedo para pedalar, agora veio praticar com a espada.

O asgardiano deu os ombros.

- Estava passando tanto tempo no meu quarto que já me sentia sufocado lá dentro.

Apesar da indiferença exposta no tom dele, a jovem mãe conseguia perceber o abatimento, através de seus ombros levemente caídos, sua cabeça baixa e passos vagarosos; também havia pouca energia em seus olhos. Hugo nunca tivera amigos, apenas Adelle, e não a ter em seu cotidiano era obvio que impactaria no vigor dele. Freya soltou um suspiro longo e profundo, só agora sua superproteção havia dado seu preço.

Deixou um beijo ressentido na nuca dele.

- Por que não treina com seu pai? É melhor do que sozinho.

Hugo fitou a mãe com dúvidas expostas em suas sobrancelhas franzidas.

- Ele nunca me disse que sabia como brandir uma espada.

- Eu também não sei se ele sabe, na verdade. Acho que não, mas um Cavaleiro de Atena sem dúvida deve ter alguma outra coisa para ensinar. Além do mais, se ele não souber manejar, você o ensina.

Hugo bambeou a cabeça, achando graça na ideia. Mas nada disse, prosseguiu em silêncio. Até que Freya o quebrou outra vez.

- Aliás Hugo, a chefe das criadas me disse que você estava me procurando hoje cedo, que queria me entregar algo. O que era?

Hugo sentiu um estalo na mente. Havia esquecido completamente da correspondência dela.

- É uma carta que chegou. Eu vou pegar no meu quarto!

E saiu depressa, quase correndo. Freya tentou acompanhá-lo.

(...)

- Hyoga? – Freya bateu à porta da sala da lareira, onde Hyoga permanecera escrevendo. Ele a fitou curioso.

- Eu? – Ele avistou então que Hugo estava com ela. Ambos entraram na sala e vieram até ele. Freya se sentou ao seu lado ao mesmo tempo em que lhe estendera um envelope.

- A Fundação nos respondeu.

Pasmo, Hyoga o apanhou e passou os olhos apressadamente pelo verso do envelope:

Aos cuidados: Alexei Hyoga Yukida / Freya Hughberddatter

Graad Kidzukau - Divisão de Saúde e Laboratorial da Fundação Graad

- Vamos abrir, então. Chegou agora? – Ele indagou já rasgando o envelope.

- Não, chegou hoje cedo. – Hugo respondeu, sentando-se no carpete junto com eles – Desculpem, não sabia que era urgente.

- Não tem problema, filho. – Freya assegurou calmamente – Mas por que não nos trouxe quando chegou?

Hugo enrubesceu as maçãs ao lembrar-se de como havia encontrado os pais quando viera entregar a correspondência.

- É que vocês estavam meio ocupados... aqui na sala...

Hyoga e Freya só então entenderam, e fitaram-se com faces ainda mais avermelhadas do que a do menino.

- Bom, como eu disse, não tem problema. – Freya tentava dissipar aquele assunto - O que estão dizendo, Hyoga?

O protegido da constelação de Cisne então desdobrou a carta e iniciou a leitura.

- "...Confirmada a deferência do requerimento." - Hyoga então mirou a irmã de Hilda - Os documentos do requerimento estão de acordo, e já estão em contato com o Centro Médico de Asgard para tratar da transferência de Adelle. E depois disso damos andamento em tudo, na inclusão na fila, no reconhecimento da paternidade. Tudo, tudo.

- Que maravilha! – A asgardiana juntou animadamente as mãos diante do rosto, tão sorridente quanto o louro mais velho – E quando vai ser a transferência?

Só então os dois adultos repentinamente deram-se conta de que haviam deixado Hugo completamente avulso, uma vez que o menino louro os fitava como se falassem outra língua.

- Eu não devia estar aqui, devia mamãe?

- Ah, não Hugo, não tem problema. Íamos ter que te contar de qualquer forma. – Com as palavras da mãe, Hugo os fitou com atenção. Freya prosseguiu – Vamos precisar transferir Adelle de hospital.

- Para Oslo? – Hugo sugeriu. Sabia que ela e a tia haviam tentado isso uma vez.

- Não... – Hyoga respondeu com um pouco de cautela – Para Tóquio, ou Moscou.

0000

Àquela hora da manhã, já esperava ouvir as batidinhas na porta, leves e curtas, características de seus pequenos filhos. Se concentrou para ouvir qual deles batia.

- Mamãe? - Era Adelle, com voz manhosa de quem queria colo logo que acordava.

Freya não se levantou para abrir.

- Mamãe não pode agora, filha.

Sentou-se na cama com dificuldade. A tontura que sentiu na madrugada estava voltando agora cedo, e desta vez conseguiu identificar que uma forte dor de cabeça viera com ela; também sentia uma indisposição tremenda e os joelhos estavam doloridos. Estranhamente não fizera nenhuma atividade intensa para que estivessem assim.

E com poucos segundos sentada, o estômago revirou com violência. Levantou-se de uma vez e correu para o banheiro, o que só piorou o quadro. Teve tempo apenas de chegar à lixeira diante da porta, e despejou ali tudo o que havia comido no dia anterior. Vomitou muito, por longos minutos, até sentir a barriga dolorida e as pernas tremulas.

Na pia, bochechou um pouco de água, e depois caminhou vagarosamente até a porta do quarto, ainda sem destrancá-la. A cabeça estava girando, e agora notava a febre que lhe habitava a pele.

- Delle? Está aí ainda?

- Sim. Abre pra mim, mamãe. - A menina pediu com dengo.

- Meu amor... chama a tia Hilda por favor. A mamãe não está passando bem.

(...)

Mesmo para aquela que praticamente desconhecia a sensação de claustrofobia, o painel de vidro temperado ao lado da porta trancada lhe causava uma angústia inexplicável, dado o ar de prisão que trazia ao leito. Virou-se na cama para o outro lado, a fim de não encarar tal painel de novo, apenas para voltar sua visão para o vidro no minuto seguinte.

Freya desconfiara de sua condição desde o primeiro sintoma, mas a confirmação de que havia sido realmente afetada pela epidêmica febre lhe impactou com força abrupta. Pensou em seus filhos no mesmo instante que o diagnostico saiu, no quanto estes eram apegados e dependentes dela, e esteve certa das altas chances de terem sido contagiados também.

A princesa então pediu, quase implorando, à sua irmã mais velha que os levasse para exames assim que ela própria saiu de sua avaliação médica. Hilda não perdeu nem um minuto para atendê-la. E o olhar aflito direcionado ao painel de vidro era uma súplica que alguém viesse lhe informar logo se os seus pequenos haviam sido infectados.

Desviou mais uma vez a mirada da vidraça, levando os olhos ao teto do leito. Fechou-os, e orou a todos os deuses que não permitissem que as crianças tivessem a mesma sorte - ou a falta dela - que ela própria. Não demorou a encher os olhos de lágrimas e estas transbordarem, escorrendo pelas têmporas. Seria doloroso passar um período indeterminado longe deles, de Hilda e de sua casa, mas se seus gêmeos estivessem com a saúde intacta, esta já teria uma tranquilidade suficiente e meio caminho andado para sua própria recuperação.

Continuou orando, por um tempo que se pareceu com horas, mas que não soube precisar. Até que a doutora Korhonen apareceu do outro lado do painel e entrou em seguida. Ela não vestia o tradicional gibão de linho azul claro do Centro Médico asgardiano, mas um longo jaleco da mesma cor, de plástico grosso, tal como a máscara cirúrgica em seu rosto, igual à que a própria Freya estava usando; havia também o capuz elástico que cobria a cabeça e as luvas em suas mãos. A irmã de Hilda sentiu-se como se fosse a própria personificação da peste.

Freya tentou erguer-se da cama, mas recuou logo ao sentir uma dor pungente no final das costas. Voltou a se deitar por reflexo. A jovem doutora veio até ela depressa para acudir.

- Princesa Freya, está tudo bem? A dores retornaram?

A loura assentiu, sutil e devagar. Até este ato simples lhe causava dores no final do pescoço.

- Vou pedir que venham lhe dar uma nova dose de anti-inflamatório. - A médica decidiu ao mesmo tempo em que verificava o soro - Tem sentido náuseas ainda? Tontura?

- Apenas tontura.

- Correto. Tudo dentro do esperado. - A jovem clínica assegurou calmamente, desta vez lhe tocando a testa e o pescoço com o pulso descoberto, procurando sinais de febre - Com o tratamento adequado...

- Meus filhos estão bem, doutora? - Freya a interrompeu; sua aflição e condições físicas não lhe permitiam pensar muito em cordialidades - Já foram examinados?

- Ah, já sim senhorita. Estão com a Rainha Hilda, completamente saudáveis, os dois. Já não apresentavam nenhum sintoma quando chegaram, estavam bem ativos inclusive, então os examinamos apenas para ter certeza. Pode ficar sossegada quanto a isso, os pequenos estão ótimos.

Assim que a ouviu, o peso em seu corpo se dissipou subitâneo, e tamanho alívio a fez se esquecer durante um segundo das dores nas juntas e do isolamento. Freya sorriu largamente.

- Muito obrigada, doutora Korhonen. Agradeço muitíssimo.

A jovem clínica acenou em positivo ao agradecimento. Em seguida a mesma ajudou a enferma a se sentar recostada nos travesseiros, deixando-a mais confortável.

- Estarei à disposição para o que precisar, Princesa.

A moça virou-se para sair, mas foi chamada mais uma vez. Voltou-se novamente à acamada.

- Doutora... eu poderei ver a minha família? Isso será possível?

O semblante bem-disposto da doutora Korhonen perdeu seu vigor.

- Bem, senhorita Freya... apenas os médicos e enfermeiros possuem acesso ao isolamento, pois como bem sabe, é imprescindível preservar ao máximo tanto a população ainda sadia quanto os internados em tratamento, pois sua recuperação não pode ser comprometida. Com isso, as visitas dos parentes não poderão ocorrer, sinto muito.

Freya anuiu bem devagar, em razão da dor física e do ressentimento.

- Apenas os doutores, você diz, exclusivamente?

- Exato, senhorita. Apenas os doutores, infelizmente.

A irmã de Hilda engoliu em seco, baixando o olhar.

- Durante todo o tratamento?

A doutora assentiu em confirmação, vacilante, receosa pelo desgosto a tomar ainda mais as feições da princesa. Permaneceram em silencio por alguns segundos.

- Entendi. - Freya não ergueu os olhos, já com as lágrimas nas pálpebras, e a voz tremula de embargo. - Obrigada, doutora Korhoner.

A senhorita Korhoner anuiu mais uma vez, e caminhou vagarosamente até a porta em retirada. Virou-se mais bruscamente para a moça loura, que devagar, voltava a se deitar.

- A senhorita ainda pode escrever para sua irmã. - Explicou com a voz mais animada - Todos os enfermos do isolamento vêm fazendo isso: escrevem as cartas e nos entregam, e nós mesmos entregamos à família. Foi a melhor alternativa que todos nós encontramos de não afastar tanto os internados de seus entes.

A jovem mãe de Adelle e Hugo ergueu a cabeça para mulher de azul, que indicava a escrivaninha do quarto, logo abaixo do painel de vidro, a pouquíssimos metros do leito: sobre ela havia um maço de folhas e um copo com canetas e lápis, coisa que somente agora a asgardiana percebera.

Freya assentiu para ela, num sinal de ciência, trazendo na face um sorriso débil, mas repleto de gratidão. Ao finalmente se ver só no quarto, não teve forças para conter seu choro, de dor física e emocional. Estar indisposta para se recuperar não era uma opção, não era sequer algo pensável, mas assustava-se, não conseguia evitar. Seriam tempos tortuosos.

Aguardou com anseio pela vinda dos medicamentos para a dor. Precisava escrever para Hilda, o quanto antes.

0000

A neve vinha densa, caindo rápido. Em breve começaria a tempestear, era certo.

Ainda assim, a noite iluminada de neons verdes e rosas fazia-se tão atraente, que Freya permanecera ali, abstraída diante das janelas por incontáveis minutos. Desistira inclusive de fechar as cortinas.

Voltou a realidade quando ouviu as portas serem batidas. Hyoga entrou pelas frestas, já vestido com os moletons leves que sempre usava para dormir, e um longo roupão escuro por cima deles.

- Oi. - Disse, entrando ao quarto - Hugo me pediu para te entregar isto, quando fui desejar boa noite a ele.

Freya veio até ele, que lhe entregou uma pequena colher de prata, cujo cabo dela imitava o cabo de uma espada, com uma guarda-mão muito pequena, e cheio de forjas delicadas e ricas em sua extensão. O item era tão polido que poderia servir como um pequeno espelho.

- Minha colherinha de prata! Por Odin, procurei em toda parte. - A jovem exclamou, contente.

Hyoga sorriu por entre os lábios, numa tentativa de disfarçar uma fisgada de incômodo com tanta satisfação que ela expunha por ter a peça de volta, uma vez que quando apanhou o item, percebeu o nome gravado no verso do cabo: Hagen Helmirsson.

- Estava nas coisas de Hugo, então? Ando com a cabeça batendo na Bifrost... - Freya dizia consigo, ainda enlevada, enquanto analisava a peça. O homem louro apenas assentiu em resposta, atento ao ato dela de guardar a prataria muito cuidadosamente numa caixinha de joias dentro de sua penteadeira.

- É uma joia de família? - Perguntou ele, pergunta esta surgida depois de muita ponderação.

- Sim, é sim. - Freya sorriu ao falar, caminhando de volta até ele e sentando-se em sua cama - Foi meu pai quem forjou.

- Ah... imaginei. - Hyoga sorriu com mais vontade, num misto de alívio e nostalgia. As lembranças dos encontros no bosque despovoado de Asgard, há mais de dez anos atrás, surgiram afavelmente. E por todos aqueles anos, lutou para conservar na memória as maravilhosas conversas que tiveram ali; e em várias delas Freya falou do pai: um camponês forjador de armas brancas pesadas, mas que em secreto era um refinado artesão: havia feito delicadas pratarias, muitas joias, e soube depois que ele também havia esculpido cada uma das bonecas de porcelana que hoje são de Adelle. Chamava-se Hughberd, nome que o guerreiro de Atena apostava com toda certeza de que Freya havia se inspirado para nomear Hugo.

Ainda assim, o nome de Hagen na prata tão estimada pela jovem mulher continuava a causar-lhe uma mórbida curiosidade. Hyoga sentou-se ao lado dela na cama.

- Seu pai era um artista. - Elogiou, lisonjeando a loura - A colher também tem uma história, assim como a boneca ruiva que deu para Adelle?

- Ah tem sim. Quase tudo feito pelas mãos de Hughberd tem uma história. Essa colherinha fazia parte de um jogo de talheres que papai fez como presente de aniversário de casamento para o melhor amigo dele, Helmir Hallvorsson. Cada membro da família do senhor Helmir ganhou um conjunto de talheres de prata com um desenho próprio no cabo. Quando meu pai faleceu, ganhei uma das colherinhas de presente no meu aniversário, para me lembrar dele.

- Ganhou... do amigo de seu pai? - Hyoga perguntava com muito mais cautela do que a questão exigia.

- Não, ganhei de Hagen, que era filho dele. - Freya então soltou um riso caçoador - Era aqui que você queria chegar, não era Hyoga?

O russo sentiu o rosto queimar como brasa. Nunca havia se sentindo tão idiota em toda sua vida quanto agora.

- Você tem tantos ciúmes, mocinho... - Freya continuou, ainda com um sorriso recreativo na face, dando uma cutucada carinhosa na ponta do nariz dele - Mesmo isso te deixando tão fofo, não deveria ter.

- Ué, não deveria? Sempre ouvi que ciúmes são saudáveis, caso sejam inofensivos. - Hyoga reagiu, rindo de nervoso, sem saber muito bem como se defender.

- Os seus realmente são, mas ainda não é justo que os sinta.

- Ah não? E por que então? - Hyoga viu-se incrédulo com a declaração, e com a firmeza da mulher ao falar.

Freya negou firmemente com a cabeça em confirmação, muito resoluta em seu ponto. Mesmo sustentando o seu sorriso, os olhos verdes direcionavam lhe agora ainda mais obstinação.

- Querido, me perdoe por tanta franqueza, mas... você já teve até um filho com outra esposa, o fato de você achar que tem direito de sentir tantos ciúmes do meu antigo namorado soa, digamos... injusto.

O protegido de Cisne encheu a garganta de ar, que ali ficou, sem que houvesse uma palavra sequer que a refutasse. Estava sendo egoísta de fato, todos eles tinham o seu passado.

- Touché. - Resignou-se o siberiano. Agora mais sereno, apanhou uma das mãos de Freya carinhosamente - Não é bem ciúme, quero dizer, em parte é. Mas em outra parte, eu nunca superei cem por cento o que aconteceu naquela batalha.

- Hyoga... te marcou tanto assim? - A loira foi quem espantou-se desta vez.

- Pois é... Foi a primeira vez em que eu vi, bem diante de mim, que vencer uma luta não seria de fato uma vitória. Vocês dois se amavam, ele era seu protetor, tinham uma história de vida juntos; e eu tenho consciência que talvez ele não teria feito você sofrer como eu fiz. Não que eu não os ame e seja completamente grato a Deus por ter você e os nossos filhos agora, muito pelo contrário, porém todos esses dez anos separados... eu não sei, mas algo me diz que talvez você não passaria por tudo isso com Hagen. Mesmo que eu não soubesse de nada, eu não consigo evitar pensar que te abandonei... e eu tenho muito medo de que você pense o mesmo, que você concorde que seria melhor... com ele...

Freya esboçou um sorriso leve por entre os lábios, e uma luz confortante surgiu de suas íris de jade. A princesa de Asgard debruçou-se levemente e deixou um beijo doce e leve nos lábios do jovem louro. Em seguida voltou a mirá-lo fixamente.

- Para ser franca, eu de fato amei Hagen mesmo, e ainda amo muito. Ele era meu melhor amigo desde a infância, meu companheiro, também um amante incrível. Eu realmente me importava com ele, me preocupava e planejava viver um futuro ao seu lado, e eu sei que poderia ter sido feliz com ele também. Mas planejar é diferente de realmente enxergar, e de ansiar construir este futuro, como eu anseio você, Hyoga, de como eu de fato consigo me enxergar com você daqui para frente, e de como eu estou ansiosa de ver esse futuro surgir. Você não imagina como eu fiquei inquieta como uma criança apenas por pensar que você estava vindo para Asgard com Hugo, e o quanto eu temo te perder de novo; o quanto eu amo e agradeço à mãe Frigga todos os dias por ter dois filhos seus... eu ainda amo Hagen, ele para sempre terá seu espaço intocado no meu coração, mas é você quem é essencial para que tudo faça sentido, meu Odr. - Freya veio para perto, seus dedos finos acarinharam a franja de Hyoga para que em seguida, a jovem unisse sua fronte à dele, e seus braços envolvessem-no pelo pescoço - E você também foi meu protetor naquele dia, lembra? Na verdade, foi a única pessoa com quem eu pude contar, que confiou em mim naquele momento. Eu estava completamente sozinha aqui, até que vi uma nova chance para mim e para Asgard se personificar bem na minha frente quando entrei naquela cela.

O som da tempestade de neve lá fora foi o que se ouviu então. Arrebatado, Hyoga viu cada parte de sua alma refletida naquela confidencia; na forma como amou Eiri e recebeu seu amor, mas mesmo que a vida com ela lhe desse todos os indícios de que seria frutífera, Hyoga sempre ouvia um "chamado mudo" dentro de si próprio, o alertando que seu lugar genuíno estava fora dali, e convocando-lhe a busca-lo.

E estar ali, com Freya, Adelle e Hugo, lhe revelava que havia conseguido encontrá-lo finalmente. Asgard não se parecia tanto com sua amada terra natal por acaso; não havia outro lugar no mundo que fizesse Hyoga se sentir tão pertencente, tão parte dali, além da Sibéria. Foi em Asgard que esteve destinado a criar suas raízes.

Fechou os olhos, a fim de barrar suas lágrimas nas pálpebras, e beijou a asgardiana a sua frente com uma urgência avassaladora.

E Freya prolongou o beijo ao máximo, como se fosse dependente daqueles lábios finos e molhados. Prolongou-o até o beijo se transformar em caricias, até aquele beijo lhe fazer a camisola clara de algodão ser aberta e deslizar pelo corpo, até que mais nada houvesse sobre sua pele além da pele dele, até que surgissem gemidos e ofegos deleitosos trocados por entre as bocas unidas. Aquele beijo maravilhoso se prolongou por horas, por toda a noite adentro.

E após ambos atingirem o maior dos ápices de suas vidas, Freya riu brevemente consigo própria, ainda arfante.

- O que? - Hyoga cessou os beijos que deixava pelo pescoço e colo dela e a mirou, curioso com o riso inesperado.

- Nós dois... - Ela respondeu, brincando os fios da franja dele - De como somos irônicos, paradoxais. Tive tanto cuidado em questionar o seu ciúme porque esperava que uma discussão sobre relações passadas chegasse numa briga.

- Terminar na cama é muito melhor. - Hyoga riu então, melodioso, a beijando sutilmente nos lábios em seguida - Isso é o que eu mais gosto na nossa relação, o quanto ela é reversa.

Abraçaram-se e fecharam seus olhos, assim permanecendo, absortos no som da rigorosa tempestade, e no perfume da pele um do outro.