Suas varinhas foram entregues quatro dias depois. Hermione pegou a dela da caixa, aliviada por encontrá-la quente e cedendo ao seu toque. Ron havia lhe dado a varinha de Bellatrix para praticar, e parecia boba, pesada e de alguma forma malévola em suas mãos. Mas, por mais prazer que ela tivesse uma varinha própria novamente, a visão de Bill com uma pilha de caixas nos braços dele fez seu peito se sentir frio e apertado. Eles estavam indo para Gringotes.
Eles não disseram nada a Bill e Fleur, a não ser que estavam indo embora e queriam se despedir e depois deixá-los em privacidade. Bill deu a eles um olhar longo e medido antes de assentir. Ele e Fleur pareciam ostentar uma estranha mistura de alívio e pavor.
- Você ficará bem? - Fleur perguntou, pegando os braços de Hermione e beijando-a brevemente em cada bochecha.
- Tanto quanto nós podemos estar, - disse Hermione.
- E você entrará em contato conosco quando tiver feito... o que precisa fazer? - Disse Bill. Ele apertou a mão de Harry e abraçou seu irmão.
- Assim que pudermos, - Harry assegurou.
- Eu não gosto disso, - disse Bill. - Parece errado, deixar você voltar lá para fora.
- Você sabe que temos que ir, - disse Ron. - É para-
- Dumbledore, sim, eu sei, - disse Bill. - Ainda…
Griphook ficou assistindo a cena do canto da cozinha. Seus olhos encapuzados eram ilegíveis.
Houve outra rodada de abraços e tranqüilizações antes que Bill e Fleur se virassem e saíssem da sala. Hermione os observou subindo as escadas, a mão de Fleur enfiadas na de Bill. Como prometido, eles não olharam para trás. Por alguma razão, apesar de terem pedido privacidade, ficou arrepiada vê-los ir embora. Isso a fez se sentir como se estivessem sendo deixados para morrer.
- Prontos? - Harry perguntou.
Hermione tocou sua bolsa. Estava pendurada por cima do ombro, debaixo das vestes, que ela havia encantado para ser vários tamanhos maiores para acomodar a altura de Bellatrix. No momento, ela sabia que parecia uma criança brincando de vestir as roupas da mãe, e era difícil não se sentir pequena e fraca enquanto se preparava para calçar os sapatos de Bellatrix. Ela pegou um frasco de poção Polissuco da bolsa e colocou sobre mesa da cozinha.
Houve uma grande discordância sobre o que fazer com Ron. Eles certamente não poderiam deixá-lo para trás, mas ele não caberia sob a Capa da Invisibilidade com Harry e Griphook, e ele usar a Polissuco para passar como outro Comensal da Morte parecia chamar problemas. Já seria difícil o suficiente passar por Bellatrix Lestrange. No final, eles concordaram que Hermione usaria um feitiço de disfarce para ele, e se alguém perguntasse, o identificariam como um bruxo estrangeiro que simpatizava com o regime do Lorde das Trevas.
Ela apontou a varinha para ele.
- Dissimulo Adversus!
Harry ficou boquiaberto com Ron e interiormente, Hermione fez uma careta. Os cabelos de Ron tinham se tornado compridos e castanhos, e seu nariz estava curto e arrebitado. Ele estava profundamente bronzeado, como se todas as suas sardas tivessem se unido; ele era baixo e... havia algo nele que a lembrava um hipogrifo... de algo remendado em partes díspares.
- O quê? - Ron disse.
- Nada. Funcionará. Agora, Harry, acho que você e Griphook devem ficar prontos.
Harry se abaixou e deixou o duende subir em suas costas. Griphook passou os braços em volta do pescoço de Harry e entrelaçou os dedos longos na garganta de Harry. Hermione jogou a Capa da Invisibilidade sobre eles.
Não havia mais nada a ser feito; não havia como adiar nem mais um momento. Ela abriu o frasco de Polissuco e colocou o pedaço de cabelo de Bellatrix Lestrange. A poção sibilou e borbulhou, ficando um roxo tão profundo que era quase preto.
Hermione olhou para a poção insossa por um momento antes de lançar um olhar derrotado para os meninos e beber.
Doeu, embora não tanto quanto no segundo ano em que ela se transformou acidentalmente em um gato. Mas, ainda assim, havia uma espécie... alongamento... de seu corpo, que parecia artificial, quase profano. E como ela estava diante deles, era estranho ver a resposta visceral de Ron à sua nova forma. Ele deu um passo tropeço para trás e gaguejou por um momento antes de dizer.
- Muito bem, Hermione. Você parece perfeita. Assim como ela.
Ficou claro que ele não queria pegar a mão dela para aparatar, mas ela o encarou e agarrou seu pulso. Eles precisavam se mexer ou corriam o risco de ficar paralisados pelo medo.
- Harry, agarre-se. Aqui vamos nós.
Eles aterrissaram no Caldeirão Furado, e o olhar que ela tinha visto no rosto de Ron ecoou ao seu redor. Tom, o velho barman, parecia querer se abaixar e desaparecer.
- Bom dia, senhora Lestrange, - ele sussurrou.
Hermione assentiu secamente, mas por dentro estava com medo. Quando eles deixassem o lugar escuro e fechado, quando ela tivesse que falar, ela conseguiria? Tudo parecia bastante lógico em Shell Cottage. Ela tomaria a poção e isso enganaria os duendes de Gringotes. Mas agora parecia ridículo, na melhor das hipóteses. Ninguém seria enganado. Como que para confirmar seus medos, o barman a encarou com curiosidade.
Ela levantou a varinha pesada e desconhecida e bateu nos tijolos do lado de fora do bar, respirando pesadamente enquanto se afastavam, deixando nada além de espaço aberto. Ela se virou quando eles atravessaram o arco. Isso foi tolice; ainda havia tempo para voltar à Shell Cottage. Ela simplesmente não podia fazer isso; não havia como ela ser essa pessoa.
Mas Ron a agarrou pelo braço e a guiou com força.
- Tarde demais, - disse ele, baixinho.
Pois eles foram vistos. Havia pessoas lá fora, pessoas fazendo compras, e a mente de Hermione dificilmente poderia processar a idéia. Em algum lugar lá dentro, ela devia saber que o mundo continuara, que as pessoas continuavam precisando de roupões e ingredientes de poções, comida e companhia, mas parecia insondável que houvesse pessoas no Beco Diagonal vivendo, apesar de tudo o que estava acontecendo.
Várias pessoas entraram rapidamente nas lojas quando ela e Ron se aproximaram, mas havia outros que vieram em sua direção, as mãos estendidas em súplica.
- Meus filhos! - Gritou um homem em roupas esfarrapadas, o olho esquerdo coberto por uma bandagem sangrenta. - Onde estão meus filhos? O que ele fez com eles? Você sabe!
Chegara o momento. Enquanto o homem se arrastava em direção a ela, Hermione levantou a cabeça e empurrou seus pensamentos, dela mesma, profundamente abaixo da superfície de sua mente. Meu marido está diante de Voldemort, e ele não tem medo, pensou ela, antes de sacar a varinha e explodir o homem com um Estupefaça. Ron parecia horrorizado, mas ela se recusou a pensar nisso. Esse era o seu papel, e ela o faria. Ela faria isso porque eles não tinham mais escolha, e ela não seria capturada no meio do Beco Diagonal nessa brilhante manhã de primavera. Eles haviam chegado longe demais para fracassarem agora. Ela varreu suas vestes em um grande floreio, enquanto passeava delicadamente sobre o lugar onde o homem estivera, como se ela não pudesse suportar pisar no chão que havia sido tão manchado.
Ela caminhou em direção ao enorme prédio de mármore que se erguia sobre o resto do Beco Diagonal. Ela teve a mais estranha sensação, quando começou a subir os degraus até as portas de bronze de Gringotes, de que estava realmente se tornando outra pessoa. Sua intimidação desapareceu e ela se aproximou da altura total de Bellatrix. As sobrancelhas dela se ergueram sutilmente, e suas feições atraíram um olhar de desprezo silencioso. Era assim que ele fazia? Ela pensou. Havia mais de um Snape?
Ao se aproximarem das pesadas portas do banco, dois magos avançaram, brandindo os dectetores das trevas, brancos e finos, Probity Probes. Griphook os avisara dos guardas, e Hermione não vacilou enquanto caminhava em direção a eles, confiando em Harry para confundi-los, como haviam planejado.
- Um momento, senhora, - disse um guarda quando ela passou por ele.
Confie. Confie, ela pensou.
- Mas você acabou de fazer isso! - Disse ela, fixando o guarda com um olhar malévolo.
Ele se retirou imediatamente, parecendo confuso.
Hermione foi até o balcão comprido onde vários duendes estavam sentados, rabiscando em grandes livros, pesando moedas em balanças de latão e examinando pedras preciosas através de óculos. Ela nunca tinha estado naquele balcão antes. Cada vez que ela e seus pais tinham ido a Gringotes, eles faziam fila na janela à esquerda, com uma grande placa anunciando a taxa de câmbio do dia entre Galeão e Libra. Mas ela havia passado por isso com Harry e Ron e foi até o balcão.
- Madame Lestrange! - Exclamou o duende diante deles. - Como posso te ajudar, hoje?
Havia algo na maneira como o duende a olhava - não estava muito alarmado ou surpreso, mas algo frio e cintilante em seus olhos - que dizia a ela que eles já sabiam. Gringotes já havia sido informado do roubo da chave e da varinha de Bellatrix. O que foi mais difícil para Hermione naquele momento foi permanecer calma. Ela não tinha vontade de correr; não havia como escapar agora que haviam começado, mas ela desejava tirar sua própria varinha - sua varinha boa e receptiva - por baixo das vestes de Bellatrix e atordoar os duendes. Não que ela não confiasse em Harry e Ron... mas era difícil esperar a ajuda chegar.
- Gostaria de entrar no meu cofre, - disse ela imperiosamente, como se nada fora do comum estivesse acontecendo. Harry poderia confundir todos eles? Ele percebeu o que estava acontecendo?
Quando o duende pediu sua varinha como identificação, ela protestou, mas não conseguia pensar no que fazer, exceto entregá-la. Quanto mais tempo a troca ocorresse de maneira amigável mais tempo eles poderiam evitar uma guerra aberta. Ficar presa em Gringotts... o pensamento a horrorizou. Ela supôs que apenas Azkaban era mais seguro.
Depois de um momento, o duende devolveu a varinha de Bellatrix.
- E sua chave? - Ele disse.
Hermione pegou a chave de onde ela a pendurara no pescoço. Era imaginação dela, ou o duende se surpreendeu um pouco? Ela estendeu a pequena chave de ouro.
- Muito bem. Tudo parece estar em ordem - ele disse e se levantou rapidamente. – Eu escoltarei você mesmo.
Hermione olhou para a fila de duendes no balcão. Eles não estavam encarando, não fizeram nenhum movimento para detê-la ou Ron, e ela se perguntou o que Harry havia lançado. O feitiço Confundus, ou algum tipo de azaração perturbadora? Talvez uma combinação... Pare, ela pensou bruscamente. Seja o que for, está funcionando.
O duende os conduziu por uma porta fora do salão principal e entrou em um pequeno túnel úmido. Ele assobiou e um pequeno carrinho apareceu. Ela e Ron entraram, tentando não deixar um buraco óbvio entre eles para Harry, mas o duende olhou curiosamente para o espaço vazio e a bruxa e o mago que estavam sentados contra as laterais do carrinho. Então, tão de repente quanto notara, parecia esquecê-lo novamente e assobiava mais uma vez, desta vez uma melodia alta e prolongada.
Hermione reconheceu isso pelo planejamento com Griphook. Não era o apito de perigo. Ele assobiara para o nível mais profundo de Gringotts, vinte quilômetros abaixo de Londres, onde as famílias mais velhas mantinham seu ouro. Por enquanto, ele acreditava.
O carrinho disparou abruptamente para fora da porta, levando-os cada vez mais fundo em Gringotts, girando através de passagens impossivelmente estreitas, e de repente revirando. Hermione agarrou a borda do carrinho e segurou-a firmemente. Bem abaixo do cobertor grosso de sua oclumência, um punho frio de terror apertou seu estômago. Não havia como memorizar o caminho que estavam seguindo; eles estavam indo rápido demais. O mapa seria tudo o que eles precisariam para guiar sua fuga se o duende os descobrisse. O mapa e Griphook, seu criador. Mais uma vez, Hermione sentiu o desconforto enlouquecedor de estar completamente à mercê de outra pessoa.
O ar ficou frio e úmido, e as paredes de pedra pingavam umidade. A própria escuridão parecia se abater sobre eles enquanto se moviam para as passagens labirínticas finais que marcavam o fim dos túneis de Gringotes. Os fogos que queimavam das arandelas nas paredes pareciam roubados de calor e luz, como se soubessem que eram apenas convidados neste mundo subterrâneo. Finalmente, o carrinho parou do lado de fora de um dos últimos cofres.
Hermione pegou a chave mais uma vez, e o duende saiu do carrinho e pressionou a palma da mão contra a porta do cofre de Lestrange; a madeira derreteu obedientemente. Então, ele se retirou para o carrinho, deixando-os na privacidade da câmara.
Hermione lutou para manter seus pensamentos abaixo da superfície, para não reagir ao conteúdo do cofre. Pois ela nunca tinha visto nada comparável à riqueza dos Lestranges. Havia enormes colinas de moedas de ouro, pilhas de pedras preciosas, móveis antigos e claramente encantados. Hermione viu o que parecia ser um cavaleiro envolto em armadura dourada, espadas, louça pesada de prata, frascos de jóias contendo todos os tipos de poções cintilantes, até um crânio ainda usando uma coroa.
- Não toquem em nada! - Harry gritou, quando Ron pegou um galeão e depois gritou, soltando-o. Uma chuva de moedas caiu de sua mão, e ele apertou o punho e o segurou contra o peito. - Você sabe o que nos disseram! Tudo o que você toca queima e se multiplica!
O cofre, apesar de enorme, parecia pequeno demais, encolhido pelos acres de ouro que continha, e agora Hermione tinha medo de dar um passo, pois parecia muito provável que tudo viesse caindo na direção deles, e eles seriam enterrados em montanhas de tesouros em chamas. Ela ficou enraizada no local, examinando os montes reluzentes em busca de qualquer coisa que pudesse carregar o brasão da Hufflepuff ou da Ravenclaw. Ron acendeu sua varinha e lentamente delineou a luz sobre o ouro. O braço de Harry emergiu de debaixo da capa e se juntou a ele, adicionando a luz fraca de sua varinha na escuridão do cofre.
- Lá, - Harry sussurrou, seu feixe de luz pousando em um pequena taça dourada que estava descansando em uma prateleira alta na parede sul. - É isso aí.
Não havia como obtê-lo, exceto passar por cima das moedas que estavam entre eles e o copo. Accio não funcionaria; Griphook havia explicado que, uma vez que entrassem no túnel, não seriam mais capazes de conjurar Feitiços de Invocação. Houve um silêncio enquanto eles consideravam sua situação.
- Eu sou o mais alto, - Ron disse, finalmente. - Eu não tenho que ir longe. Lá em cima eu alcanço.
- Mas suas mãos, - disse Hermione. - Depois que você toca-
- Nós sempre soubemos que isso aconteceria, - disse Ron. - Eu posso aguentar.
- Chegue perto da saída, Hermione, - disse Harry. - Quando ele pisar no ouro, haverá uma avalanche de moedas chegando, e eu não quero que você afunde. Teremos que nos mover rapidamente; há-
- Mas e você?
- Alguém vai ter que ficar e garantir que Ron possa sair. Aqui, você pega... el ... e isso - ele disse, puxando a capa sobre sua cabeça.
- Não! Não quero que você fique descoberto - ela disse, olhando para a entrada do cofre. - Quando você sair, ele verá.
- E se você não usar a capa, ele será visto! Não o deixarei queimado ou exposto por nos ajudar.
Harry se abaixou e o duende, ainda envolto na capa da invisibilidade, deslizou de suas costas, tornando-o completamente visível.
- Hum, se você não se importa em esperar no túnel?
Não houve resposta, e Hermione não podia ver para onde o duende tinha ido. Isso não parecia certo. A qualquer momento, Griphook poderia sinalizar para o outro duende, e eles poderiam disparar no carrinho, levando com eles todas as informações necessárias para sair, pegando a capa.
- Ele não vai embora, Hermione. Ele quer a espada - Harry disse, parecendo ler o desconforto dela.
A espada. Para manter a barganha, teriam que matar o Horcrux rapidamente, para que pudessem entregar a espada. Ela enfiou a mão sob as volumosas vestes e a tirou da bolsa.
- Ron, veja se você consegue alcançar com isso - ela disse. - Então talvez você não se queime demais. - Ela entregou o que parecia ser a última da sua proteção neste lugar escuro e sufocante.
- Vá, Hermione, - Harry disse, e ela relutantemente deu um passo em direção à porta.
Ron subiu a pilha de ouro, e Hermione observou, paralisada, enquanto seus pés deslizavam e deslizavam sob as chuvas das moedas. Harry deu alguns tropeços para trás quando os discos de fogo começaram a cascatear no ar, irradiando um calor que rapidamente encheu o cofre. Ron se atrapalhou e caiu de joelhos, assobiando quando o metal derretido cobriu suas mãos, e ele começou a afundar - ele estava de joelhos agora-
- Ron! - Ela gritou. Harry começou a levantar a pilha em sua direção, mas seu movimento apenas aumentou a fúria do feitiço Gemino, e ele também começou a afundar.
O suor escorria por seu corpo sob as roupas pesadas. O cofre estava se enchendo com o cheiro de carne carbonizada e cabelos escaldantes. Ela estava a segundos de alcançar o ouro ela mesma, apesar de que o que isso teria de bom ela não tinha ideia. Mas o calor opressivo a nublava seu pensamento - toda a compostura que ela tinha quando Bellatrix Lestrange estava desaparecendo, e um único pensamento continuava rugindo em sua mente: queimado e enterrado vivo. Queimado e enterrado vivo. As moedas pareciam ter se tornado quase uma coisa viva, uma enorme fera de boca de fogo determinada a consumi-las.
E então Ron fez enorme explosão de força, puxando-se acima da sucção, estalando por entre as moedas brilhantes e pulando em direção à prateleira que continha a taça. Ele empurrou a espada para a frente e enganchou a taça ordenadamente pela alça e rapidamente começou a descer o monte, agarrando Harry pelos cabelos e arrastando-o pela onda crescente de ouro.
Quando a onda pareceu subir, vindo em sua direção com uma velocidade furiosa, Hermione se virou e saiu correndo do cofre para o túnel escuro, tropeçando em suas vestes enquanto corria, pegando-as nos punhos e avançando, seus gritos ecoando. Ela se sentiu marcada por círculos de fogo quando moedas errantes dispararam do cofre e fizeram contato com os ombros, o pescoço, as pontas dos dedos enquanto ela os afastava freneticamente. Harry e Ron saíram do cofre, se levantando, dançando loucamente, sacudindo as moedas da pele. Eles saltaram para longe enquanto o ouro os perseguia, ainda se multiplicando onde tocavam seus sapatos, abrindo buracos através do couro. Os três correram pela trilha, afastando-se do tesouro encantado até ficarem livres do metal amaldiçoado.
- Mate-o! - Hermione gritou, desatenta agora de quem poderia estar assistindo, apenas querendo, precisando que tudo isso tivesse um propósito, tivesse algum motivo para os rostos desfigurados de seus amigos diante dela.
- Hermione - o Polissuco - Ron gritou.
- Eu não ligo! Faça!
Ron enfiou a espada nas mãos de Harry e ele deslizou a taça da lâmina, prendendo-a contra a parede de pedra do túnel. Erguendo a espada acima da cabeça, ele pareceu se preparar e depois a mergulhou no cálice de ouro. Um grito horrível rasgou o ar, alto demais na proximidade do túnel, e parecia espiralar cada vez mais alto, saltando e ricocheteando nas paredes até Hermione pensar que sua cabeça estouraria. Ela caiu de joelhos, apertando as orelhas, e viu como uma substância negra doentia subia da taça cortada. Ele rodopiou como fumaça pesada no ar, e ela tirou as mãos dos ouvidos para colocar sobre a boca. Algo no fundo dizia que ela não devia respirar aquilo.
Quando se dissipou, ela olhou para os meninos, com a pele arroxeada e crua, de aparência derretida, as vestes um pouco mais do que pedaços de pano esfarrapados, e ela começou a mexer nas suas vestes muito grandes.
- Venha aqui... Ditamno... deixe-me ajudar, - ela ofegou.
Mas tudo o que Harry disse foi.
- Griphook! Onde está o Griphook?
Hermione se virou e olhou de volta para os destroços do túnel, o monte de tesouros fumegantes e uma certeza horrível surgiu como adrenalina em seu sangue.
- O carrinho, - ela sussurrou. - O carrinho se foi.
Ron se aproximou dela.
- Você não acha que ele-
- Não! - Harry disse. - Ele não faria. Ele não nos deixou aqui. Talvez ele esteja enterrado, talvez...
Harry voltou para o ouro, e Hermione agarrou seu braço, liberando-o rapidamente quando ele sibilou de dor.
- Harry, pare - você não pode! Se ele estiver lá embaixo, você só vai piorar, mais pesado, mais quente-
Mas o duende tirou a capa enquanto caminhava facilmente sobre o ouro falso em direção a eles.
- Griphook! - Hermione gritou em alívio. - Graças a Deus. Você está bem? O que aconteceu?
- Eu estou bem. Minha pele não é tão... suscetível... como a sua. Quanto ao que aconteceu, acho que ele sabia mesmo antes do ouro começar a se replicar - Griphook disse em sua voz áspera e gutural, e Hermione achou difícil seu tom de leitura. - A Maldição Imperius não foi lançada com força suficiente. E vocês disseram o nome um do outro.
A Maldição Imperius? Ela se virou para Harry, espantada, e ainda assim, por que ela deveria se surpreender? Ela mesma havia estuporado um homem no Beco Diagonal por nenhuma razão melhor do que ter sido Bellatrix Lestrange.
- Obrigado por ficar, - disse Harry, e ele estendeu o punho da espada para Griphook, mas Griphook balançou a cabeça.
- Eu não posso carregá-la pelos túneis. Vou ter que confiar em você um pouco mais.
- Quanto tempo vai demorar até eles virem atrás de nós? - Hermione perguntou. A perda do carrinho fez sua mente girar pelas longas e escuras passagens de Gringotts. Seus pés coçavam para correr.
- Vem atrás de vocês?
- Sim, há quanto tempo ele foi embora? A segurança de Gringotts virá primeiro ou ele chamará imediatamente o Ministério? Existe algum lugar onde possamos nos esconder?
- Granger - Griphook disse inescrutável. - Eles não enviarão ninguém atrás de você.
- O que você quer dizer? Você disse que ele sabia... que ele percebeu...
- Bogrod reconheceu seu engano, sim, mas ele não estará mandando os guardas atrás de você. Cuide de suas feridas. Há tempo.
- Você quer dizer que eles estão nos ajudando? - Ron perguntou.
- Claro que não. Nenhum grupo de bsegurançaserá enviado porque não é política da Gringotts perseguir ladrões. Eles assumem que você passeará pelos túneis até morrer. Então, tudo o que você roubou será recuperado e devolvido ao cofre apropriado. Nenhum roubo terá ocorrido, pois nenhum tesouro saiu do prédio. Os duendes de Gringotes levam sua reputação muito a sério. Não seria bom anunciar violações de segurança.
Eles assumem que você passeará pelos túneis até morrer.
- Mas você sabe, sim? Você sabe como sair?
- Eu sei o caminho através dos túneis. Mas todos eles levam ao salão principal, Srta. Granger. Não há outras saídas. Cuide de suas feridas.
Hermione acenou com a varinha para remover o disfarce de Ron. Quando suas feições voltaram ao normal, ele parecia pior, como se isso fosse possível. As queimaduras pareciam concentradas na metade inferior de seu rosto e pescoço, e Hermione sabia que ela deveria trabalhar rapidamente para impedir que ele ficasse com cicatrizes. Com os dedos trêmulos, ela retirou da bolsa os estoques reabastecidos de ditamno e começou a manchar o líquido viscoso sobre as queimaduras de Harry e Ron. Por um tempo, os únicos sons foram o assobio mesclado do ditamno sobre a carne crua e o suspiro agudo dos meninos enquanto ela trabalhava. Griphook ficou ao lado deles e observou, sem dizer nada. Quando terminou, consertou as vestes o melhor que pôde com a varinha e recuou.
- Deixe-me fazer em você, Hermione, - Harry disse, e ela tirou as roupas, revelando suas próprias feridas. A ditamno doía, mas a dor era amenizada pelos dedos gentis de Harry. Surpreendeu-a como se sentia confortada por simplesmente ser tocada com cuidado.
- Tudo bem? - Ele disse finalmente.
- Sim, - ela disse e pegou a garrafa de ditamno. Era difícil dizer no escuro da passagem, mas parecia que a garrafa estava quase vazia. Ela esperava que eles não precisassem mais disso antes do final, enquanto a colocava de volta na segurança da bolsa junto com a chave e a varinha de Bellatrix. Ela encurtou as vestes, fortalecida pelo sentimento de sua própria varinha na mão.
- E agora? - Ron disse.
- Agora vamos subir, - respondeu Griphook.
- Você não pode chamar o carrinho de volta?
- Ele não me atenderia, - disse Griphook, e se era tristeza ou censura em sua voz, Hermione não sabia dizer, mas de repente ela ficou impressionada com a idéia de que ele era tão pária de seu próprio mundo quanto eles.
O duende passou por eles e começou a mancar pelos os trilhos. Harry, Ron e Hermione os seguiram, mas foi frustrante se mover tão lentamente. A pista era levemente inclinada e reta por vários quilômetros, e houve muitas vezes que ela desejou se oferecer ao Griphook para carregá-lo para que eles pudessem atravessar os túneis mais rapidamente, mas cada vez que ela olhava para ele, via que ele era estranho. O rosto enrugado foi definido com uma espécie de determinação proibitiva. Ela se perguntou o que estava lhe custando fazer isso, quebrar o código de seu povo, e não ousou ofendê-lo.
- Griphook, - Harry disse enquanto caminhavam.
- Sim?
- Eu sei que você disse que é política de Gringotts não perseguir ladrões.
- Sim.
- E não quero parecer que penso muito em mim ou de qualquer coisa...
- Mas você é Harry Potter. E você não se pergunta se eles não estão entrando em contato com os Comensais da Morte enquanto vagamos no escuro?
- Sim.
Pelo que vi, deduzo que você destruiu algo que pertencia ao Lorde das Trevas, algo de valor para ele, e por esse motivo, você acha que ele será avisado. Não é assim. Os duendes de Gringotts não sabem nem se importam com o tesouro no cofre de Lestrange. Não corremos riscos em uma guerra bruxa. O que cuidamos é a segurança do nosso banco. Enquanto você estiver aqui em baixo, nenhum tesouro foi roubado e nenhum alarme será disparado.
- Mas antes do meu primeiro ano - o primeiro dia em que visitei Gringotts -
- Você está se referindo à tentativa de assalto ao cofre 713. - O rosto de Griphook estava torcido de raiva.
- Sim - a pedra filosofal-
A pista avançava diante deles, e Griphook virou pelo túnel esquerdo, ganhando velocidade ao virar a esquina.
- O cofre estava vazio na época, - o duende rosnou.
- Eu sei, mas estava no jornal. Então certamente alguém...
- Sempre há uma grande atividade nos cofres antes de primeiro de setembro, - cuspiu Griphook. - O ladrão teve sorte de ter sido encontrado vivo. Aconteceu que os Malfoy visitaram o cofre naquele dia e o encontraram vagando, desorientado, dentro do túnel. Eles o trouxeram à superfície em seu carrinho. Ele foi liberado para Dumbledore como cortesia. Uma cortesia que ele pagou ao informar ao Profeta Diário.
Não havia como errar o tom de Griphook. O duende podia não estar ao lado de Voldemort, mas ele certamente não amava Dumbledore.
- Ele foi libertado para... Dumbledore sabia? - Harry exclamou. - Ele sabia que era Quirrell? Então por que-
- Eu nunca fui capaz de entender o funcionamento para uma uma escola para crianças, mas
O caminho que eles estavam percorrendo parou abruptamente, e Hermione se perguntou se eles não teriam se perdido afinal. Ela esperava que houvesse uma curva à frente que ela não pudesse ver, mas agora que ela estava lá, parecia não haver caminho a seguir.
Mas Griphook aproximou-se do muro sem parar e pareceu começar a subir ao lado dele. Hermione viu que ele havia agarrado os travessões da pista e as estava subindo como se fosse uma escada. Uma a uma, ela, Harry e Ron começaram a subir atrás dele. Ninguém falou enquanto subiam a pista. A escalada foi fácil no começo, mas com o passar do tempo, Hermione começou a lutar, e quando o caminho voltou ao normal, seus braços e panturrilhas pareciam queimar como o ouro a queimava, e ela estava quase chorando.
Griphook virou à direita tão acentuadamente que era quase uma inversão de marcha, e os três adolescentes a seguiram. Aqui, o túnel continuava a subir, mas a inclinação era gradual, de modo que eles bufaram apenas um pouco enquanto subiam no escuro.
A voz de Harry quebrou o silêncio mais uma vez.
- Griphook, - disse ele. - Novamente, não pretendo parecer ingrato, mas... por que você nos ajudou? Se você não se importa com a guerra, ok. Se a reputação do banco é...
O duende não olhou para trás, mas continuou a marchar pelos trilhos. Hermione pensou que ele devia estar se endurecendo - seus passos eram espasmódicos e descoordenados, e sua voz estava baixa e cansada quando ele respondeu. Quantos anos tem o Griphook? Ela imaginou.
- Por que eu te ajudei? - Griphook disse, mas era menos uma pergunta do que uma declaração. - Porque, no porão da Mansão Malfoy, você me salvou primeiro. Você poderia ter me deixado lá, ou enviado o elfo de volta para me pegar uma vez que sua própria segurança estivesse garantida, mas você me enviou primeiro à segurança. Eu lhe devo uma dívida vitalícia.
Eles caminharam em silêncio. Gradualmente, o ar parecia se tornar menos denso, e a respiração de Hermione diminuiu um pouco. Eles estavam caminhando por várias horas e, no entanto, não pareciam estar mais perto da superfície. Ela pensou no mapa que Griphook havia desenhado para eles. Se ele os tivesse deixado, se tivesse retornado ao salão principal no carrinho com Bogrod, eles teriam conseguido encontrar a saída? Uma dívida vitalícia. Os bruxos usavam o termo com frquência, mas ela não tinha uma idéia real do que uma coisa poderia significar. Era realmente um feitiço ou um senso de honra criado no tutano do osso? Ela devia sua vida a Snape, ou ele a ela? O incidente com o troll a deixou para sempre em dívida com Harry ou Godric's Hollow igualou a pontuação? Quem poderia dizer onde o amor começou e terminou, onde a lealdade foi substituída pela magia?
- E no cofre, - disse Griphook em voz baixa, retomando a conversa como se nunca tivesse terminado, pois ele escolheu uma faixa que se desviou para a esquerda - você me levou em segurança; você não me revelou como traidor. Você nunca disse meu nome.
O caminho começou a subir bruscamente novamente, embora nunca tenha ficado na vertical como antes. Eles escalaram até Hermione ter certeza de que ela não poderia ir mais longe, e ela perguntou se eles poderiam parar e descansar.
- Caminhamos por horas, - disse Griphook. - Não devemos parar. Se você descansar, seus músculos darão cãibra e ficarão duros, você não poderá continuar. Não demora muito. Nós superamos os dragões.
Outra hora já tinha passado. "Não muito tempo" aparentemente significava algo diferente para os duendes do que para os bruxos. Hermione sentiu seus músculos tremendo sob a pele. As bolhas haviam se levantado e estourado há muito tempo, e ela já havia se acostumado com a dor e a sensação pegajosa de suas meias dentro de seus tênis. De fato, a dor e o cansaço, pareciam se fundir em um único zumbido afinado dentro dela. A escuridão, o ar ao seu redor - tudo vibrava com a mesma nota incessante.
Griphook voltou subitamente.
- Um Patrono. Precisamos de um patrono.
Hermione olhou para cima. Ela não sabia que estava olhando para os pés, observando-os subir e descer diante dela... por quanto tempo? Quantos quilômetros? Era como se ela tivesse entrado em uma espécie de catatonia - embalada pelos movimentos automáticos de seu corpo, sua busca sem sentido de luz e espaço. Ela olhou para os meninos e ficou surpresa ao ver o rosto de Ron manchado de lágrimas.
- O que - Ron?
- Um Patrono! - Griphook disse novamente, e Hermione levantou a varinha, mas ela não conseguia convencer a lontra a existir. Ela se virou para Harry. Certamente, Harry podia produzir o patrono... o dele era sempre tão forte e claro... mas Harry também parecia estar balançando a varinha sem frutos.
- Expecto Patronum! Expecto Patronum!
- Rapidamente agora! Estamos nos aproximando da superfície. Eles lançaram o Desespero!
Ron não levantou o rosto ou a varinha, e o rosto de Harry se contraiu com esforço.
- Expecto Patronum!
Hermione se voltou para dentro de si mesma, abaixo dos escudos que colocara para encarnar a persona de Bellatrix Lestrange, abaixo da dor e da escuridão do túnel, até onde ela mantinha as poucas verdades duras que a ancoravam ao mundo.
- Expecto Patronum!
Surgiu dela como se tivesse de alguma forma exalado sua alma. A luz explodiu de sua varinha e um grande falcão subiu ao túnel, tão grande na proximidade que as pontas das asas pareciam roçar as paredes úmidas de pedra. O poder do feitiço parecia iluminá-la por dentro. Ela podia sentir o elo entre ela e o pássaro em cada célula, cada batida do seu
- Hermione - o que é isso?
- Eu - eu não sei.
- Granger, mantenha seu patrono firme por um momento. Sr. Potter, Sr. Weasley, fiquem por trás disso. Os duendes lançaram um feitiço de seu próprio punho. Ele pretende sugar a esperança, confundir e a mente, afastá-los da saída ao mesmo tempo em que a aproxima. Estamos muito perto agora.
Hermione podia sentir os olhos de Harry enquanto o grupo avançava em um amontoado atrás do falcão prateado, mas ela manteve os olhos no patrono. Quando alcançaram a pesada porta externa do túnel, Griphook fez um gesto para ela parar.
- Eu não acho que eles estarão esperando vocês - entre os túneis e o Desespero, eles acham que vocês estão mortos. Então vocês terão o benefício da surpresa. No entanto, não pensem que, por serem sem varinha, os duendes não vão lutar com vocês. Eles farão tudo o que estiver ao seu alcance para impedir que vocês saiam de Gringotts. Vocês terão que ser rápidos e implacáveis
- E você? - Harry perguntou.
- Não se preocupe comigo. Duendes... se eles têm a escolha entre lutar com você e comigo, eles escolherão vocês.
- Griphook, devo perguntar mais uma coisa.
Griphook olhou para Harry cautelosamente.
- Quanto ao que escapou... os Lestranges precisarão ser notificados.
Griphook parecia mortalmente ofendido. Ele balançou sua cabeça.
- Eu não posso fazer isso. O banco, como já disse, não denunciamos violações-
- Você deve! Você-Sabe-Quem deve perceber o que foi tirado dele. Griphook, por favor.
- Minha dívida com você foi paga, Harry Potter! Eu quebrei o código do meu povo. Não me peça para desonrá-los.
- O Lorde das Trevas não mostrará honra ao seu povo. Se ele vencer, ele arrancará o banco do seu alcance e saqueará seu conteúdo. Ele o banirá para as florestas como os centauros; ele roubará seus artefatos e os chamará dele.
Griphook olhou por um longo tempo para a espada na mão de Harry.
- Nossos artefatos, - disse ele.
Hermione queria parar com aquilo. O rosto do duende assumiu uma tonalidade doentia e esverdeada. Eles o pressionaram demais, o fizeram levá-los por quilômetros intermináveis de trilhos. Claramente, ele estava exausto, derrotado, e ainda assim pediram que ele deixasse de lado suas lealdades mais profundas...
- Pegue a espada - ele disse finalmente. - Pegue a espada e verifique se eles a veem. Eles terão que relatar sua perda.
- Obrigado, Griphook, - disse Hermione, mas ele balançou a cabeça e sussurrou.
- Agora a dívida está revertida. Você me deve.
Ela assentiu.
- Mantenha o patrono. Isso pode confundi-los - ele disse, e Harry levantou a varinha e abriu a porta.
O grande falcão os precedeu no salão principal de Gringotts, batendo suas asas gigantescas. Hermione sentiu naqueles poucos segundos fugazes como se nunca tivesse visto tanto espaço; o teto parecia subir aos céus. Mas sua atenção foi rapidamente redirecionada para os duendes que estavam se espalhando por trás do balcão comprido, correndo na direção deles, os rostos retorcidos com raiva, os dentes à mostra.
- Corra! - Harry gritou.
Ela partiu para as pesadas portas de bronze no final do corredor, mas enquanto corria para lá começou um som ensurdecedor - um som rangendo e rangendo - que parecia abalar o prédio inteiro. As paredes começaram a deslizar juntas como se estivessem nos corredores. Por um momento, ela teve um vislumbre da liberdade, uma fatia escura da noite escura quando a porta caiu, pouco antes de as lajes se encontrarem e se estabelecerem juntas. Uma longa e vermelha costura de magia brilhou entre as paredes por um momento e depois desapareceu, deixando nada além de uma extensão suave de mármore branco. Não havia saída.
Ela parou e se virou, observando, boquiaberta, enquanto duendes pareciam entrar no salão principal de todas as portas ao longo do corredor. Por uma fração de segundo, ela reconheceu Griphook quando ele se fundiu com seu povo, mas logo ele ficou indistinguível, outro rosto torcido e raivoso entre a multidão de duendes que os perseguiam.
Eles foram rapidamente cercados. As costas de Hermione estavam pressionadas contra o ombro de Harry, e ela podia sentir o cotovelo de Ron cavando ao seu lado. Ela disparou raios de Estupeçaca de sua varinha, a luz vermelha dançando e se conectando, mas os duendes caídos não impediram aqueles que ainda estavam pressionando cada vez mais. Parecia o momento de serem totalmente absorvidos.
A mente de Hermione ficou curiosamente vazia enquanto ela lutava. O medo tornou-se simplesmente um fato, enquanto ela lançava feitiço após feitiço. Ela podia ouvir os sons explosivos de magia vindos das varinhas dos meninos, o estrondo de feitiços que haviam escapado e ricocheteado no chão, o silenciamento de um Estupefaça que encontrou sua marca. Mas, apesar de toda a determinação deles, os duendes atacaram com uma ferocidade que ela pensou que rivalizava com a sua. Um se jogou para frente e a agarrou, derrubando-a no chão de mármore. Ela podia sentir os afiados dentes afiados afundando em seu ombro, mas então houve um flash de luz vermelha e o duende foi explodido de lado. O patrono de Hermione havia mergulhado entre ela e o inimigo que gritava, fazendo-os recuarem momentaneamente, e Ron pegou a mão dela e a levantou.
- Que porra é essa? - Ele ofegou. - Sem saída! Fodam-se todos eles! - Ele voltou para a multidão. - Estupefaça! Estupefaça!
Hermione virou-se, procurando por Harry. Ele brandia a espada de Gryffindor em um arco selvagem e alto, e os duendes dançavam para longe, mas não antes de um grito agudo surgir acima do barulho, e ela viu sangue escuro respingando no mármore branco.
- NÃO! - Harry berrou. - Não, eu não quis! Apenas volte! Voltem!
Isso pareceu levar os duendes a um frenesi, e suas vozes atingiram um tom furioso.
- Ladrões! Assassinos! Pare eles!
Harry estava sendo submerso na multidão de duendes rosnando. Hermione podia ver mechas de cabelo dele quando ele caiu. Ela correu de volta para a briga enquanto Ron jogava os duendes de lado com sua varinha e punhos, levantando e jogando-os, tentando recuperar Harry. De repente, os duendes se espalharam. Hermione olhou em volta para o seu patrono, certa de que ele deveria ter aberto um caminho através da batalha mais uma vez, mas voava acima deles, batendo as asas pesadas no teto abobadado.
O chão tremeu embaixo dela. Os duendes conversavam e zombavam na língua deles. Eles se retiraram para um grande círculo ao redor de Harry, Ron e ela mesma. Foi estranho; eles não pareciam estar perto de libertar seus prisioneiros, e ainda assim o círculo se alargou quando os duendes se afastaram ainda mais. Eles pareciam prontos para correr à menor provocação.
Então, de repente, o mundo inteiro foi abalado pelo som. Um rugido tão alto que parecia pulsar na cabeça de Hermione emergiu das entranhas de Gringotts, e ela entendeu. Eles libertaram os dragões.
O edifício parecia se agitar e assentar. Hermione quase podia sentir as bestas gigantescas quando elas se afastaram das cavernas abaixo do solo, esmagando os túneis, sacudindo as fundações de Gringotts. Um medo brilhante e afiado cortou a falsa calma da mente de Hermione. Eles destruiriam seu próprio banco antes que nos deixassem escapar, ela pensou.
Os duendes estavam pressionados contra as paredes agora. Eles claramente esperavam que os dragões atravessassem o chão no centro do corredor. Hermione pegou a mão de Harry e começou a puxá-lo do meio da sala.
- Dragões, - ela balbuciou. - Dragões vindo... direto pelo chão... Temos que fugir... Vamos lá! - Mas Harry parecia enraizado no local. Ele estava olhando para os duendes com horror doentio.
- As paredes.
- O quê?
- As paredes. O prédio vai cair ao nosso redor.
Hermione seguiu seu olhar. Harry não estava olhando para os duendes, afinal, mas para grandes rachaduras que começaram a surgir no mármore. Chuveiros de poeira e pedra caíram do teto. Os ruídos de trituração começaram a ultrapassar até o rugido dos dragões.
- Nós seremos enterrados, - ele sussurrou.
Nesse momento, um enorme abismo se abriu no centro do corredor. Hermione pulou para trás, arrastando Harry com ela. Ron estava na parede oposta, onde a porta estava, e ela correu em sua direção, olhando por cima do ombro para a besta emergindo do poço.
O som era indescritível. Sem as camadas de pedra para abafá-lo, o rugido encheu o salão e o transformou em uma enorme câmara de eco. Hermione bateu as mãos nos ouvidos, mas parecia que ela podia sentir a vibração do ar nas mãos, no rosto. Ela gritou, mas não conseguiu ouvir sua própria voz.
Uma cauda pontiaguda emergiu, batendo contra o chão liso, arrancando pedaços de mármore. O dragão voltou para o corredor através do buraco que havia feito. Hermione podia ver suas asas de couro e a curva de sua coluna quando subiu. Uma enorme bola de fogo rolou pelo chão como gasolina flamejante, e os duendes fugiram dela, amontoados do outro lado da sala. Hermione parecia não conseguir desviar o olhar.
De repente, ela sentiu Ron batendo em seu braço e virou-se para ele, mas não conseguiu ouvir as palavras que ele gritava. Ele apontou para cima e ela viu seu próprio patrono balançando através de uma fenda na parede. Bom, ela pensou loucamente. Salve a si mesmo. Ela encolheu os ombros para Ron e voltou-se para o dragão, mas ele não deixou de sacudi-la. Ele estava apontando freneticamente para a parede onde o patrono havia desaparecido, quase pulando para cima e para baixo em sua excitação furiosa.
Hermione tentou se concentrar nele, mas o dragão rugiu novamente, enviando fogo lambendo a parede pelo balcão de câmbio. Mas desta vez, em vez de se dissipar, o fogo encontrou combustível e consumiu os sinais que haviam sido mágicos na parede, movendo-se para o balcão, pegando discos e cadeiras, pilhas de libras - qualquer coisa que pudesse encontrar - em sua fome.
Ron agarrou seus ombros e a virou fisicamente em sua direção.
- FORA, - ele murmurou exageradamente. Ele apontou novamente para onde o patrono havia desaparecido. - FORA!
O dragão ficou de pé cambaleando, agora totalmente emergido de suas câmaras abaixo do chão. A cabeça balançou no pescoço gigantesco e parecia procurar, por si só, uma saída. Pelo canto do olho, Hermione viu Harry mirar a fera com sua varinha. Ela não pôde ouvir as palavras que ele disse, mas o dragão recuou, enfurecido. Um de seus olhos ficou opaco e leitoso. A Maldição da Conjuntivite. Rugiu novamente, e o fogo passou por eles, chamuscando as bainhas das vestes de Hermione.
Meio cego, o dragão se lançou furiosamente em direção à parede do banco e colidiu com ela. O edifício tremeu sob seus pés, e o guincho de pedra sobre pedra perfurou o barulho. Ron agarrou o braço dela mais uma vez e se inclinou, gritando em seu ouvido no topo de seus pulmões.
- Ajude!
Ron estava apontando sua varinha para a parede atrás deles, a parede contra a qual o dragão lutava, a parede que dava para a rua. Ela não conseguia ler o feitiço nos lábios dele, mas viu a luz vermelha se conectar à parede e arrancar um pedaço de pedra.
O fogo que começara nos balcões ainda se agitava e crescia. O calor aumentou no salão principal e a fumaça negra e espessa rodopiou no alto. Se eles não saíssem logo, sufocariam. Tossindo e sufocando, Hermione levantou a varinha e juntou-se a Ron na tentativa de atravessar a grossa parede externa de Gringotts.
- Defodio! Deprimo! Defodio! - Ela correu de um lado para o outro, explodindo e arrancando com sua varinha até ver o céu noturno além. - Defodio! Diffindo!
Ron desapareceu por um momento e depois voltou para o lado dela, arrastando Harry atrás dele. O dragão, enlouquecido pelas luzes piscantes e chuvas de pedra, atacou a parede, balançando sua cauda enorme e espalhando duendes para a esquerda e para a direita.
Pedaços enormes de rocha voaram pelo ar quando Gringotts começou a desmoronar de verdade. Hermione se abaixou e dançou para evitá-las enquanto tentava empurrar Harry e Ron através da parede em ruínas.
- Vá! Vá! - ela gritou e correu atrás deles. Ela tropeçou nos degraus que levavam ao Beco Diagonal, e seus joelhos dobraram embaixo dela, sofrendo o impacto de cada passo quando ela caiu.
- Hermione!
Quando eles invadiram, Hermione esperava ver multidões esperando para prendê-los, e ela teve o pensamento selvagem de que eles não precisavam ter levado a espada de Gryffindor- certamente, o Ministério já estava a caminho. Mas as lojas ao redor de Gringotts estavam vazias e escuras, fechadas para a noite, como se todos estivessem com pressa de voltar à segurança de suas casas. Harry estava correndo em sua direção, as mãos de Ron seguravam firmemente as dele, e ele a agarrou e começou a girar no local. Ela assistiu o dragão se debater e as hordas de duendes gritando derretendo enquanto se moviam juntos na escuridão que os apertavam.
Eles desaparataram em um monte em um campo aberto ao lado de um lago. Luar no refletido na água. O silêncio e a quietude do ambiente ao redor pareciam loucura no rosto do coração palpitante dela e adrenalina crescente.
- Estamos... estamos todos vivos? - Ela sussurrou.
Ron sentou-se, desembaraçando-se da pilha de membros, mas Harry não se mexeu.
- Harry! - Hermione disse, puxando a perna esquerda para fora de seu corpo pesado. Harry!
O rosto de Harry estava tenso e apertado, com os olhos fechados. Quando Hermione começou a abrir suas vestes, procurando a fonte de sua lesão, sua cabeça rolou de um lado para o outro.
- Harry ! Harry! - Ron gritou, sacudindo-o.
- O que eles levaram?
Não foi a voz de Harry que surgiu entre seus lábios, mas o som alto e frio de Voldemort, e o sangue de Hermione pareceu parar em suas veias. Ela e Ron congelaram, como se Voldemort pudesse olhar através dos olhos de Harry e vê-los.
Harry gritou, um grito repentino de raiva na voz de outra pessoa, e Hermione agarrou o braço de Ron.
- O que deveríamos fazer?
- Acho que esperamos.
Os minutos se prolongaram quando Hermione olhou ansiosamente para o rosto de Harry. Finalmente, seus olhos se abriram.
- Hogwarts, - disse ele, sua voz grossa e sufocada. - É em Hogwarts. Ele sabe. Ele foi verificar os outros. Não há muito tempo.
- O que é isso? - Ron perguntou.
- Não sei. Ele não pensou nisso. Mas ele vai fazer isso por último. Ele acha que é mais seguro por causa de Snape.
Ninguém se mexeu.
- Temos de ir! Harry, vamos lá, levante-se - disse Ron.
- Espere! - Hermione disse. - Precisamos descobrir como entrar.
Não havia tempo, tempo para pesnar algo para os meninos. Eles viram o patrono; ela não poderia voltar atrás, e se eles montassem tudo agora, teria que ficar tudo bem. Seria apenas necessário. Porque só havia uma pessoa que poderia ajudá-los a entrar em Hogwarts.
Ela passou a bolsa por sobre a cabeça e tirou dela o retrato de Phineas Nigellus Black.
- Diretor Black! Diretor Black, por favor!
- Granger, que surpresa - disse Black, suavemente, enquanto metade dele entrava no retrato. - E com o seu decoro habitual, eu vejo.
- Diretor Black, não há tempo para isso. Eu preciso falar com o Diretor. Isto é uma emergência.
- Receio que o diretor tenha desistido, - disse ele, e ela não sabia dizer se ele estava dando um ataque de piti ou se Snape estava realmente fora do escritório.
- Por favor, Diretor. Estamos trabalhando sob as ordens de Dumbledore - há algo que precisamos em Hogwarts e precisamos entrar imediatamente.
- Sinto muito, senhorita Granger, - começou Black, mas ele foi interrompido pela voz de Dumbledore, baixa e firme, mas impossível de ignorar.
- Ah, sim, - disse Dumbledore. - Eu pensei que poderia haver uma aqui, embora eu nunca pude encontrá-la. Eu sempre suspeitei que ele desistiu quando veio me pedir um emprego. Mas não importa. Granger, o caminho para Hogwarts, é através de um retrato de minha irmã no Hog's Head Inn. Acredito que a levará para a Sala Precisa.
- Professor Dumbledore, - Harry sussurrou. Seus olhos eram redondos e vidrados ao luar. Ele parecia despedaçado.
- Harry, meu garoto. É bom ouvir sua voz. Mas tenha pressa! O tempo é curto. Estou certo de que teremos tempo de sobra para conversar quando sua tarefa estiver concluída. Ah, e certifique-se de aparatar diretamente no Hog's Head Inn. Acredito que exista um toque de recolher.
- Obrigado, Professor Dumbledore,- disse Hermione, lutando para manter a voz firme. - Obrigado, Diretor Black.
Ela enfiou o retrato de volta na bolsa. Onde estava Snape? Ela precisava ouvir a voz dele tanto quanto precisava saber o caminho para a escola. Ele sabia que ela estava indo? Ela bateu a varinha na palma da mão, atingindo o aro dourado invisível.
A caminho de Hogwarts.
Hermione sentiu como se estivesse em transe quando Harry a conduziu sob a capa da invisibilidade. Eles estavam voltando para casa.
A caminho de Hogwarts, ela pensou. E eles giraram.
oooOOoooOOooo
N/T.: Olá! Esta daqui saiu sem atraso. Beijos para Ravrna (é em SL que o ffnet está nos boicotando; por que será? É bom dizer SSHG para ele saber quem manda aqui e que boicote não tem vez!). Desculpem os erros e nos vemos em PP.
