Disclaimer: Fairy Tail, bem como os seus respectivos personagens, não me pertence, e sim a Hiro Mashima. Posto esta fic apenas por diversão e entretenimento, e sem nenhuma intenção de lucrar algo com isso.

Esclarecimento: Esta história também não é de minha autoria, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Quinn Wilder, que foi publicado na série de romances "Sabrina", da editora Nova Cultural (edição 719, publicada no Brasil em 1992).


MEU AMOR EM PERIGO

Capítulo 1

Problemas !

Um homem como aquele era sinal de problemas, pensou Lucy Heartfilia ao abrir a porta da biblioteca. Alto e bem vestido, usando um terno cinza cujo corte perfeito realçava as linhas dos ombros fortes e imponentes, era um tipo digno de atenção. O tecido era de excelente qualidade, mas roupas caras eram comuns em Redwoods, Califórnia, onde morava seu pai. Então, por que aquela sensação de perigo em forma de arrepios ? Problemas...

Embora não tivesse produzido um único som ao entrar, ele se virou no mesmo instante e a encarou com os olhos negros, olhos que lembravam nuvens carregadas de uma tarde fria de inverno.

- Oh, Lucy, aí está você !

A exclamação do pai obrigou-a a voltar-se para ele. Estava sentado atrás da mesa de trabalho e mantinha uma expressão inocente e angelical, que possuía um significado bastante conhecido: problemas !

Lucy jogou os cabelos lisos e dourados para trás e ergueu o queixo, assumindo um ar desafiante. O que será que ele pretendia ? E qual a relação entre as intenções do pai e a presença daquele homem alto e atraente ?

Alguma coisa não parecia verdadeira no visitante. Talvez as roupas caras... era como se pretendesse ocultar a força e a agressividade naturais sob uma aparência civilizada, mas a tentativa não era bem-súcedida. Embora ele permanecesse imóvel desde o primeiro instante, era fácil notar que se tratava de um homem ágil, de habilidade atlética e força física, o que não combinava em nada com as companhias habituais do pai. Até mesmo os empregados possuíam aquela palidez típica dos escritórios e o físico magro e pouco musculoso, que faziam lembrar mesas escuras e lâmpadas fluorescentes. Esse homem era bronzeado, colorido pela permanente exposição ao Sol e ao vento.

O rosto era tão poderoso quanto o corpo, mas de uma maneira pouco convidativa. Os traços eram impassíveis. Não sorria nem se mostrava carrancudo e, mesmo assim, dava a impressão de frieza. Os olhos brilhavam como o gelo no alto das montanhas, e eram os únicos a negarem a impassividade disciplinada dos músculos do rosto. Eram observadores, duros e frios. Problemas !

Não era o homem de negócios que os trajes e os cabelos, cor-de-rosa e bem cortados, poderiam sugerir. Certamente não pertencia ao quadro de funcionários da empresa do pai.

- Minha filha, esse cavalheiro é um membro do governo...

Cavalheiro ? Bem, o termo era usado há muitos séculos sem que as pessoas tivessem a preocupação de utilizá-lo apenas no sentido mais correto. Mas... o governo ? Ele não se parecia com um representante do poder, nem com os agentes secretos que se costuma ver nas telas dos cinemas. E também não se parecia em nada com um policial. Não. Se fosse um policial já estaria sorrindo. Lucy olhou-o de soslaio e descobriu que ele a observava de maneira direta.

- Ele é da Polícia Federal - explicou o pai, usando um tom de voz solene e com evidente intenção de impressioná-la ou intimidá-la.

No entanto, rebelde como sempre, a filha decidiu que não mostraria nenhuma das reações esperadas.

- E daí ? - perguntou ela, notando que o policial mostrava-se surpreso com sua frieza. Satisfeita, marcou um ponto para si mesma no placar, perguntando-se por que sentia tanta necessidade de enfrentar um homem que nem conhecia. Talvez fosse pelo perigo que pressentia à sua volta. Esperava estar enganada, mas podia quase sentir o cheiro de batalha no ar.

- Ele veio por causa daquelas cartas - prosseguiu o pai.

- As cartas ! - exclamou, notando que a sensação de perigo tornava-se mais intensa.

- Sei que são ridículas e infantis, mas estamos trabalhando num projeto do governo, o Plano Hammond, e existe a remota possibilidade de que essas cartas tenham sido enviadas por alguma organização terrorista. Nós precisamos de proteção.

- Nós ? Está falando da fábrica, não é ?

- Não, estou me referindo a nós dois. Eu e você. Parece que os terroristas querem usá-la para chegar a Hammond e...

- Ah, pelo amor de Deus ! - ela explodiu, encarando o pai com expressão furiosa. Seria esse o último movimento do jogo de xadrez iniciado há dois anos, quando proclamou a própria independência e saiu de casa ? O pai odiava o fato de não poder controlá-la. Seria capaz de arquitetar uma situação tão absurda só para manter os olhos sobre a filha ? Suspeitava que sim, embora não pudesse acusá-lo sem provas concretas diante de um oficial da Policia Federal. Bastaria levantar a suspeita para que o agente o prendesse imediatamente e, apesar de irritar-se com as maneiras autoritárias e o hábito de tentar interferir em sua vida, ela não gostaria de vê-lo metido em encrencas. Mesmo que merecesse... ela respirou fundo. Agora a brincadeira estava indo longe demais. Já imaginava que alguma coisa aconteceria depois da última discussão, quando se recusara a dar o seu novo endereço ao pai, mas não pensava em nada tão sério - Eu gostaria de ver as cartas - pediu.

O sr. Heartfilia suspirou, antes de responder.

- Não acho que seja necessário. São muito vulgares, grosseiras - a pausa serviu para aumentar ainda mais as suspeitas de Lucy - Enquanto isso, você estará sempre acompanhada por um segurança, vinte e quatro horas por dia, pelo menos até esclarecermos tudo isso.

Bem, aí estava. Problemas !

Ela deu um passo na direção do pai e falou em voz baixa, tentando demonstrar um mínimo de educação na presença de um estranho.

- Se está pensando que vou andar com esse grandalhão grudado em meus calcanhares, está completamente enganado - informou, dando uma rápida olhada para o policial que permanecia no mesmo lugar de antes. O rosto também continuava inexpressivo.

- Lucy, por favor...

- Não me venha com "por favor", papai ! - ela exclamou, baixando a voz ainda mais - Acha que vou me deixar encurralar dessa maneira ? Eu sabia que estava preparando uma das suas, desde que saí do adorável chalé que você transformou em fortaleza !

- Eu só estava pensando em protegê-la...

- Com grades de ferro nas janelas ? E um guarda de segurança ? Pois eu quero viver uma vida normal e estou prevenindo: se pretende fazer parte dessa vida, é melhor desistir de uma vez por todas de seus planos maquiavélicos !

- Isso não é nenhum plano - negou o pai, tentando esconder o prazer que sentia com a situação.

- Eu quero uma vida normal ! - ela insistiu, esquecendo-se de manter o tom educado.

- Você é uma Heartfilia ! Como um Heartfilia pode pensar em ter uma vida comum ? Lembra-se do que aconteceu ao pobre tio Terence ?

- Ah, pelo amor de Deus ! Não vai contar essa história outra vez, vai ?

- Desculpem-me - a voz tranqüila possuía um tom inconfundível de aborrecimento. Lucy sentiu-se um pouco embaraçada ao descobrir que os olhos negros estavam fixos em seu rosto, e não no do pai, como esperava. Como aquele sujeito se atrevia a fitá-la como se estivesse causando problemas, quando era óbvio que a confusão toda era culpa de seu pai ? - Eu recebi ordens que incluem o seu nome, srta. Heartfilia. Se quiser, pode discutir com seu pai pelas próximas três horas e pode até convencê-lo, mas eu ainda terei de cumprir as ordens recebidas. A menos que meu chefe mude de idéia, o que é pouco provável, vai ter de conviver comigo por um bom tempo.

- É isso mesmo, querida - concordou o pai com um sorriso vitorioso.

Vencida, Lucy teve de contentar-se em lançar um olhar carregado de fúria para o sr. Heartfilia. Na verdade, não acreditava que o problema fosse sério o bastante para interferir em sua vida pessoal e, especialmente, em sua liberdade. Havia uma pequena possibilidade de que o pai não tivesse planejado tudo aquilo, mas era óbvio que ele sentia uma imensa satisfação por ter uma nova oportunidade de controlá-la. Bem, a batalha ainda não havia terminado.

Lucy encarou o policial que acabava de invadir sua vida e sentiu-se ainda mais irritada. Como ele se atrevia a ficar ali parado, com aquele ar de aborrecimento e tédio, quando as conquistas de anos de luta pela liberdade e o direito a uma vida normal caíam por terra ?

- Isso é um desperdício do dinheiro dos contribuintes - comentou ela - Ter um segurança pessoal, um agente do governo atrás de mim o dia todo, é no mínimo ridículo !

Ela não sabia muito bem que tipo de reação esperava provocar. Irritação, desaprovação, simpatia... qualquer coisa, desde que alterasse a impassividade daquele rosto de pedra !

No entanto, ele se limitou a observá-la com frieza, sem demonstrar o menor interesse pelos inconvenientes que sua presença causava.

- Sim, senhora - ele respondeu com educação.

Se já não gostava dele antes de ter falado, agora o apreciava menos ainda.

Encarou-o com ar superior e desafiante e teve a impressão de perceber um brilho de humor naqueles olhos frios.

- O que quer dizer com sim, senhora ? - ela perguntou.

- Nada em especial. Talvez você queira enviar uma reclamação para o Congresso...

O tom de voz, exceto por uma pequena ponta de ironia, não mudou em nada. Frio e desinteressado, como se estivesse dizendo ao empregado de um estacionamento que trouxesse o carro.

Lucy sentiu que sua irritação crescia e atingia um ponto muito próximo do ódio. O homem era um descarado ! Por um instante ela quase se deixou levar pelo impulso infantil de chutar a canela dele, mas forçou-se a conter o desejo e a erguer o queixo. Olhou para o pai com ar contrariado, virou-se e se dirigiu para a saída. Estava muito longe de render-se, apesar da certeza absoluta de ter perdido a primeira etapa da briga.

- Vamos, o que está esperando ? - perguntou, virando-se para encarar o agente. Pelo menos podia manter a ilusão de ter o controle da situação. E, o que era melhor, teve o prazer de ver uma faísca de raiva naqueles olhos frios. Então ele não era um super-homem durante o tempo todo ! Não ! Só durante uma boa parte dele...

Passou pela porta e deu mais alguns passos, mas mãos fortes e imperiosas impediram que continuasse, obrigando-a a virar-se. Furiosa, levantou a cabeça e assumiu um ar desafiante, quase ameaçador.

- Não ponha as mãos em mim ! - ela avisou, sem deixar de encará-lo.

Por um momento a mão permaneceu onde estava, aquecendo seu ombro. O tempo suficiente para fazê-la entender que estava quase em pânico. Não podia obrigá-lo a manter-se afastado, a não tocá-la ! Viu toda a força daquele homem estampada nos olhos frios, negros e profundos... e, no instante seguinte, a mão afastou-se.

- Vamos deixar as coisas bem claras - disse ele com voz calma, porém firme - Eu tenho um trabalho a fazer e vou fazê-lo. Será muito mais fácil para nós dois se você cooperar.

- Tenho certeza de que você pode se dar muito bem sem a minha cooperação. E, já que falou em esclarecer as coisas, quero que saiba que não estou acostumada a ser tratada desta maneira petulante.

- Desculpe - ele pediu, sem perturbar-se - Só pensei que um pouco de bom humor poderia reduzir a tensão dessa situação desagradável. Não vou repetir a tentativa, srta. Heartfilia.

- Se aquele comentário sobre reclamar ao Congresso é sua idéia de humor, espero que não tente nunca mais !

- E não vou mesmo. E também não vou permitir que me trate como seu cão de guarda novamente, entendeu ? - ele informou. A voz era tranqüila, controlada e suave, mas os olhos demonstravam o quanto podia tornar-se perigoso - Nunca mais use aquele tom de voz comigo !

- Quem disse que você pode me dizer que tom de voz devo usar ? Já tenho problemas suficientes, sem ter de me preocupar com sua sensibilidade !

- Muito bem... eu só me dirijo a você com educação e formalidade. E você pode falar comigo como bem entender.

Podia ler em seus olhos que ele a via como uma dessas garotas ricas e fúteis, que tratam a todos como se fossem empregados. Nada podia estar mais distante da realidade, mas ela não tinha a menor intenção de corrigi-lo. Que ele pensasse o que quisesse.

- É você quem tem um trabalho a fazer - respondeu, encolhendo os ombros com indiferença.

- E vou fazê-lo. E você, srta. Heartfilia, não vai tornar a minha tarefa desagradável – afirmou ele, com segurança.

- Ora, por favor, diga-me, o que vai fazer se eu não concordar ? - perguntou ela, num tom irônico. Viu que ele estava aproximando-se e teve vontade de afastar-se, mas permaneceu onde estava e obrigou-se a fitá-lo com ar confiante. Perplexa, compreendeu que, pela segunda vez em poucos minutos, voltava a sentir toda a força e a energia que emanavam daquele homem estranho. Não saberia dizer no que consistia o perigo, mas estava certa de que ele existia - Se voltar a colocar as mãos em mim, vou fazer de tudo para que perca o emprego ! - ameaçou, torcendo para que o tom de autoridade o intimidasse.

- As coisas não funcionam assim nesse tipo de trabalho, senhorita. E quanto a pôr as mãos em você, o tempo em que uma boa surra poderia ter resultados positivos já está bem longe. De qualquer forma, sua vida pode depender de ter de tocá-la no lugar certo e na hora certa. Não tente medir forças comigo, srta. Heartfilia. Você não vai vencer, e eu não tenho paciência para esse tipo de jogo - e fitou seus lábios com uma expressão quase divertida - E eu não costumo lidar com mulheres difíceis usando violência...

Incapaz de conter-se, Lucy arregalou os olhos. Fitou-o com ar incrédulo, lutando para olhar para qualquer ponto daquele rosto, menos para os lábios. No entanto, era como se não pudesse desviar a atenção daquela boca. Firme, decidida... um arrepio percorreu-lhe o corpo, assustando-a. Forçou-se a fitá-lo nos olhos e viu um brilho divertido, como se tivessem a capacidade de enxergar através da sofisticação fingida e ensaiada e desvendar uma inocência que não hesitaria em usar contra ela mesma.

- Detesto homens que ficam proclamando suas proezas com as mulheres, como se isso pudesse conferir-lhes algum tipo de poder - acusou-o.

- Acho que não sei bem do que está falando...

- Se tentar me beijar, eu... eu quebro o seu nariz !

- Beijá-la ? - perguntou ele, arregalando os olhos e assumindo uma expressão divertida que a fez sentir-se tola - Não me lembro de ter dito alguma coisa nesse sentido. Não me recordo sequer de ter usado a palavra beijo...

Lucy sentiu que suas faces ficavam quentes e vermelhas.

- Você acabou de dizer que não costuma usar violência para lidar com mulheres difíceis - explicou, envergonhada.

- E é verdade. Mas não consigo perceber que tipo de lógica você usou para concluir que eu costumo beijá-las.

E agora, o que poderia fazer ? Acusá-lo de estar olhando para os seus lábios ?

Ela jogou os cabelos para trás e perguntou:

- Então, como costuma lidar com mulheres como eu ?

Ele encolheu os ombros com evidente falta de interesse.

- Se insistir em dificultar as coisas para mim, vai acabar descobrindo. Mas não é o que vai fazer, é ?

Ela apoiou as mãos nos quadris e desafiou:

- É melhor não apostar nisso !

- Ouça, eu estou apenas fazendo o meu trabalho. Não tenho mais escolhas do que você a respeito desse assunto.

Não era nada agradável ouvi-lo dizer que não tinha escolha. Pensando bem, nada naquele homem era agradável. No entanto, deixá-lo saber o que pensava não lhe traria nenhuma vantagem. Se queria vencê-lo, e era exatamente o que pretendia, então teria de mantê-lo relaxado e confiante. Precisava fazer os sinais de alerta desaparecerem daqueles olhos. Estava tomando o caminho errado ao demonstrar tanta hostilidade, e agora era hora de retroceder.

- Acho que não temos de ficar brigando – disse ela, fingindo um suspiro suave e decidindo não cometer o engano de tomá-lo por bobo.

No entanto, a afirmação só serviu para aumentar as suspeitas do agente do governo. Os lábios contraíram-se e os olhos estreitaram-se, demonstrando desconfiança. O fato de notar o quanto seria difícil convencê-lo de suas boas intenções deixou-a irritada. Não queria um segurança. Trabalhava duro, e há muito tempo, para conseguir um estilo de vida que começava a aproximar-se do normal. E não queria perder o que conquistara com tanto esforço.

- Acho que não ouvi seu nome – disse ela, forçando-se a manter o tom de voz controlado. Ele ainda estava em estado de alerta. As várias aulas de teatro ainda não bastavam para enganá-lo. Tinha o tipo de olhar que parecia ir além das palavras, das ações, como se procurasse pelos segredos da alma de alguém.

Exceto pelos olhos, a expressão era calma e fria.

- Dragneel.

- Esse é o seu nome ? - perguntou ela, trocando o ar ingênuo pelo papel da mulher charmosa e sedutora, a jovem sofisticada que o pai gostaria que fosse.

- Não, é o meu sobrenome.

- E não tem um nome ?

- é claro que tenho - respondeu ele, sem dar a resposta que Lucy esperava.

Era quase ofensivo. No entanto, lembrou-se que demonstrar hostilidade só serviria para prejudicá-la. Afinal, ele não poderia atingi-la, a menos que mostrasse quem era na verdade, coisa que não pretendia fazer. Poucas pessoas do círculo de relações do pai possuíam esse privilégio, o direito de conhecer Lucy como ela realmente era:: quieta, sensível, pensativa...

- Você nunca sorri ? – perguntou ela, continuando o jogo de sedução.

- Às vezes, sim - mas não sorriu.

- Isso não vai ser muito divertido, não é ?

- Não, não vai.

A insinuação de que seria ainda menos divertido para ele deixou-a irritada, mas ela conseguiu conter-se e não demonstrar. Mergulhou no papel que representava com dedicação ainda maior.

- Bem, já que vamos ter de ficar grudados, será que você não poderia tentar ao menos ser agradável ?

- Eu não sou pago para ser agradável. Lamento muito, mas não passo de um grandalhão, como você mesma disse.

- Ah, você ouviu - ela comentou, compreendendo a razão de tanta agressividade. Mesmo assim, não estava disposta a perdoar.

- É claro que ouvi.

- Desculpe se feri seus sentimentos - pediu. Estava sendo sincera, embora duvidasse que ele possuísse sentimentos. Na verdade, estava mais interessada em conquistar a confiança daquele homem... confiança que trairia, fugindo de suas garras no momento mais apropriado.

- Você não feriu meus sentimentos. Só poderia me ferir se eu me importasse com o que pensa de mim. Como não me importo...

Lá estava. Desde o primeiro instante, ela sabia que seria difícil. Não gostava daquele homem e sabia que também não era apreciada por ele. A antipatia logo se transformou em raiva, e agora tinha certeza absoluta de que, pela primeira vez na vida, sentia ódio por alguém. Então, por que se incomodava ao perceber que ele retribuía esse sentimento ?

- Bem - disse ela, com um sorriso -, se você não se importa comigo, que diferença faz se alguém me seqüestrar, ou me bater, ou assaltar minha casa, ou seja lá o que está pensando que pode acontecer ?

Ele encolheu os ombros, como se estivesse diante de uma garotinha mimada e difícil que teria de suportar por alguns dólares a mais em sua conta bancária.

- Faz muita diferença - explicou - Isso vai refletir a minha capacidade profissional. Se eu deixar alguma coisa acontecer a você, terei de admitir que não sou tão competente quanto imagino. E eu sou competente.

Se ela fosse um saco de batatas, ele a guardaria com a mesma dedicação !

- Muito bem, eu não vou prejudicar o seu trabalho - disse ela, insistindo na tentativa de conquistar-lhe a confiança.

- Ótimo. Se possível, eu gostaria de ver a casa. E também vou ter de fazer algumas perguntas sobre os seus amigos e conhecidos. Depois disso, vou procurar incomodar o mínimo que puder. Na maior parte do tempo, você não vai nem notar que eu estou por perto.

Como poderia não notar ? Como alguém seria capaz de esquecer que aquele homem estava por perto ? Observou os ombros fortes, a expressão do rosto, o brilho dos olhos... não, seria quase impossível não notá-lo.

Ela não tinha a menor intenção de facilitar as coisas para ele, atendendo a todas as solicitações de imediato. Teria de fazê-lo acreditar que cooperaria sempre que pudesse, e que só não o ajudaria quando as circunstâncias não permitissem... o que, é claro, ocorreria com certa freqüência.

- Será que a visita à casa pode esperar ? - ela perguntou com um sorriso gentil - Ou quem sabe um dos empregados possa acompanhá-lo... estou com uma tremenda dor de cabeça e gostaria de ir me deitar um pouco.

Dragneel concordou com a cabeça, levando-a a sentir-se invadida por uma onda de satisfação. Seria mais fácil do que imaginava. Virou-se e dirigiu-se ao quarto. Só percebeu que era seguida quando chegou à porta.

- Eu entro primeiro - informou o segurança, estendendo o braço para impedi-la de passar.

- Oh, é verdade - respondeu Lucy, afastando-se um pouco. Dragneel entrou no quarto seguido por ela, que parou no meio do aposento, cruzou os braços e perguntou com ironia: - Nada de bicho-papão ?

Não obteve resposta. Apenas um olhar breve e carregado de desprezo, antes que ele seguisse examinando cada recanto do espaço tão particular e íntimo. Sentindo-se invadida, Lucy compreendeu que o velho urso de pelúcia sobre a cama e a coleção de romances na estante poderiam dizer mais coisas sobre si mesma do que gostaria de divulgar.

Dragneel dirigiu-se à janela, olhou para fora com atenção e fechou-a com o trinco de segurança. Em seguida foi até as portas francesas que davam acesso ao balcão e verificou a fechadura.

- Mantenha a janela e a porta fechadas - ele instruiu.

-E se eu quiser tomar ar fresco ? - ela perguntou de maneira instintiva, censurando-se ao compreender que estava traindo suas intenções de fuga.

- Se quiser tomar ar, basta me dizer. Eu mandarei um dos rapazes ficar sob a janela.

Isso já seria demais. Não queria ninguém embaixo da janela, espionando a sua privacidade.

- Não vai ser necessário - respondeu ela, forçando-se a ser gentil - Foi só uma idéia boba.

Sem responder, Dragneel virou-se e caminhou em direção à porta. Quando Lucy já começava a respirar aliviada, vislumbrando a possibilidade de algumas horas de tranqüilidade e solidão, ele se virou.

- Se em algum momento de loucura eu decidir beijá-la - disse ele, com um tom frio -, garanto que você não vai nem pensar em quebrar o meu nariz.

E saiu, fechando a porta atrás de si com suavidade.

Por um momento, Lucy permaneceu em silêncio, imóvel. A ausência súbita de Dragneel a fez compreender o quanto ele a incomodava.

De repente, soube exatamente o que devia fazer e sentiu-se aturdida pela audácia do que pretendia realizar. Em silêncio, ela dirigiu-se às portas francesas que Dragneel havia trancado e abriu-as. Deslizou para o balcão, saltou a grade e, em seguida, com um prazer quase infantil, prendeu a saia no meio das pernas e começou a descer, utilizando o pilar de suporte como escada improvisada. Com as pernas enroscadas nele, foi escorregando devagar até atingir o chão, como já havia feito dezenas de vezes antes.

Se ela permitisse que um homem como Dragneel assumisse o controle, se o deixasse dar a última palavra, problemas seria um termo ameno para o que teria de enfrentar depois.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 2.