Os ponteiros do relógio, marcavam quase dez horas da noite, naquele anoitecer morno de julho. Do lado de fora, ainda fãs e fotógrafos se amontoavam aguardando para o final daquela premier exclusiva ao elenco e direção de Harry Potter e Relíquias da Morte (Part. 2). Dentro da sala, Emma Watson assistia atenta ao filme, buscando ao máximo não prestar atenção no homem de cabelos grisalhos que sentara ao seu lado esquerdo. Seu coração batia descompassado ao som vibrante do áudio e dos seus pensamentos que se chocavam. Esperaria o final da exibição e falaria o que imaginava… após muito ponderar, aquela era a sua melhor chance. Não deixaria que a oportunidade passasse, não dessa vez. Principalmente, que tudo aquilo a inquietava profundamente.
Mais uma vez, voltou seus olhos em direção a ele. O nervosismo dominava cada partícula do seu corpo e o medo de que fosse descoberta a aterrorizava. Instintivamente, virou-se para trás buscando se alguém a observava, dada a sensação de que era vigiava era latente. Seus movimentos disfarçavam o que queria descobrir, fingindo somente se ajeitar na poltrona macia. Não conseguindo detectar quem reparava nos seus gestos, retornou a sua atenção às cenas. Mais ao fundo, alguém sorria comprovando as suas suspeitas. Como era de se esperar a personalidade astuta de Helen McCrory, reparou nos pormenores posturais da jovem e os olhares furtivos que lançava em direção a Alan Rickman. Sua mente analisou cada ponto até começar a cogitar o que de tão interessante se passava na cabeça de uma menina de 20 anos ao lado de um homem tão atraente.
Mantendo um sorriso ardiloso, como se já planejasse algo, sentiu que seu marido Damian Lewis a questionava a respeito do que estava acontecendo. Com um simples gesto, garantiu que era uma vaga lembrança de um erro de gravação e recuperou o semblante sério e evasivo. Imediatamente, prestou atenção ao telão para as cenas finais, assim como a mais nova. A sensação de dever cumprido, acalentou o coração de Emma… que ainda saltava pela ânsia de conhecer qual seria a resposta para a pergunta não feita. Os créditos finais passavam um a um, arrancando aplausos de reconhecimento daqueles que participaram de toda a franquia, assim como, lágrimas dos olhos dos que cresceram aos olhos do mundo. A jovem abraçava os amigos, quase seus irmãos, em seu choro emocionado. Ao receber os cumprimentos de Alan, suas pernas falharam, diante da proximidade dos corpos e o soar da gargalhada rouca que ele dava após ser parabenizado por mais uma atuação brilhante.
O homem viu que os olhos de Helen brilharam sugestivamente, enquanto bebia uma taça de champagne e ria de algo que Helena Bonham Carter dizia. Ao notar que ela fitada por ele, sorriu e ergueu a taça como se brindasse a ele, dando uma leve piscada com um dos olhos. O semblante mudou examinando qual a mensagem lhe fora passada. Os dois se entendiam apenas com pequenas nuances, que a todos passariam desapercebidas, porém, que para ambos era uma linguagem que expunha absolutamente toda a intimidade existente. Aproveitando que Damian se distanciava e Helen ficara ali sozinha, se aproximou para cumprimentá-la formalmente, num pedido mudo para que contasse tudo de uma só vez:
- O que está havendo? - perguntou, em meio a um sussurro olhando discretamente para os dois lados, para que apenas ela notasse.
- Ora Alan, o mesmo de sempre - sorriu maliciosamente o encarando - Você sempre arrasa os corações e mexe com os hormônios das mulheres mais novas.
- O que quer dizer? - se manteve questionador, segundo o olhar dela em direção ao grupo de jovens que conversava animadamente. Percebendo o silêncio que tocava os lábios dele, decidiu continuar comentando tranquilamente:
- Amor, o que eu estou tentando falar é que a nossa festa particular terá que começar um pouco mais tarde hoje - levou lentamente a mão ao peito dele, como se limpasse algo que estava ali
- Creio que, um dia talvez, eu convide a senhorita Watson para trocar algumas ideias e, quem sabe, ensinar a ser mais discreta na arte da conquista - suspirou manifestando toda a graça que achava na inocência aparente da mais nova - Ela parece ser bem madura em alguns aspectos e, tão imatura, em outros tantos.
- Eu, sinceramente, ainda não compreendo onde quer chegar - argumentou com um semblante de duvida, levando uma das mãos à cintura dela, para colocá-la ainda mais próxima.
- Meu bem… até o final desse diálogo entenderá muito bem o que eu estou sugerindo - deu uma piscadela e sorriu alisando o peito dele. Alan pensou em dizer algo, contudo, foi interrompido com a chegada de Damian que a puxou para si. O olhar vitorioso e sorridente com o qual era cumprimentado o fez retribuir cordialmente e, logo, franzir o cenho. Detestava aquele idiota…
- Se me derem licença… eu irei cumprimentar a Helena e o Burton - fez um breve aceno com a cabeça se afastando e deixando o casal para trás. Damian riu, como se tivesse ganho um troféu, ao mesmo tempo que Helen encarou Alan significativamente rumando para conversar com a colega.
Caminhando, passou pelo grupo de jovens animados e, antes que conseguisse alcançar a outra ponta do salão, uma voz feminina pediu que expectasse. Emma estava rubra e sua boca aparentava nervosismo pela forma que mordia o lábio, em meio a um sorriso ansioso.
- Eu… eu gostaria de lhe falar. Se puder me dar alguns minutos, é claro, senhor Rickman - falou lutando para que a sua voz não falhasse ou fosse tomada por algum tipo de covardia.
- Claro que posso, senhorita Watson - assentiu, colocando as duas mãos dentro dos bolsos, voltando o corpo totalmente em direção a ela. Seu olhar mostrava clara curiosidade e expectativa pelo o que ouviria de tão importante para gerar tamanha exasperação.
- Infelizmente, teria de ser a sós… se não se importar. É algo pessoal - ergueu, minimamente, os lábios mostrando o quão nervosa já estava.
- De acordo. A senhorita poderia me aguardar em uma das mesas, ao fundo, enquanto eu cumprimento Helena e ao marido? - questionou recebendo um aceno de concordância. Baixando a cabeça, se encaminhou ao local indicado ao mesmo tempo que o mais velho voltava a refazer ao trajeto e encontrava aos antigos conhecidos.
Helen seguiu observando a jovem, prestando máximo de atenção nos ombros tensos e no olhar impaciente, enquanto a mesma conversava com Alan. Sua postura se atenuou um pouco mais, após a indicação de um lugar em que deveria esperá-lo para concluir o tema. Acompanhando os passos indecisos da menina, que analisava onde e como sentar, ou o tamborilar dos dedos no tampo da mesa… suas certezas ficavam mais claras quanto ao que viria. O melhor era que aquele assunto não fosse tratado naquele ambiente em que tantos olhos e ouvidos poderiam ser informados de algo tão privado. Aproveitando que o marido flutuava em diálogos obsoletos e fúteis, tentando a todo custo se promover, escapou do grupo que se aproximava e rumou em direção a Emma. Sentando na cadeira oposta, viu o semblante de surpresa e temeroso quando, finalmente, reparava que havia alguém ali a sua frente.
- Espero que não se incomode, querida - sorriu com os olhos fixos na jovem, examinando as suas reações/
- Claro que não… fique à vontade, senhora McCrory - Emma retirou a mão de cima da mesa e ficou brincando, nervosamente, com os dedos tentando disfarçar a busca que fazia ao homem.
- Na verdade, eu gostaria muito de falar com você, por um segundo que seja, antes da sua companhia aparecer - comentou seguindo com os olhos na mesma direção que a mais nova, verificando onde estava a quem tanto desejava. Ao garantir que ainda estava às gargalhadas com Tim Burton, retornou a sua atenção para a menina que já a encarava confusa.
- Pois, não - começou Emma recuperando a voz, pois temia ter sido descoberta e tudo ser colocado a perder.
- Vejo que tem algo muito relevante para tratar com o Alan - os olhos cintilaram maliciosamente para Emma que corara violentamente com a mirada que recebera - Não negue, por favor. Eu sou bastante perceptiva quanto a assuntos de grande complexidade. Creio que necessite de um local mais calmo e com poucas pessoas - vendo que a assustara, prosseguiu:
- Imaginei que poderia se juntar a nós em um happy hour após a cerimônia… claro se aceitar. Estou convicta de que a sua companhia será bastante apreciada e, principalmente, que o Alan não irá reclamar da sua presença. Ele é bem aberto a possibilidades - manteve o sorriso picante no rosto.
- Senhora McCrory, eu agradeço o convite. No entanto, acredito que o meu assunto com o senhor Rickman não necessita de tamanho incômodo - assegurou tímida.
- Querida, não será inconveniente de maneira alguma. Além disso, me chame por Helen - pestanejou tomando uma outra taça, fazendo com que Emma sorrisse docemente para a mulher. Notou sinceridade nas suas palavras e estava disposta a dar prosseguimento, quando Alan se aproximou das duas:
- Vejo que encontrou uma companheira perfeita, senhorita - fez um gesto cortes direcionado as duas que o olharam encantadas - E então, do que se trata o tema de tamanha importância? - questionou a jovem. Antes que ela dissesse algo, Helen se pôs de pé, levando a mão ao peito do homem, o acariciando discretamente com um olhar provocativo.
- Nossa querida Emma se unirá a nós esta noite para a pequena festa que planejamos - respondeu inocentemente mexendo nos botões, erguendo brevemente os olhos e recebendo em troca o levantar de sobrancelhas que tanto adorava. Sentindo que ele a agarrava, possessivamente pela cintura, suspirou baixinho. Inegavelmente, já estava cuidando de tudo.
- Se já decidiu, não me oponho - sussurrou próximo ao ouvido da mulher, que roçou os lábios no seu queixo antes de se afastar. Aquela cena, deixou Emma excitada, imaginando como seria se estivesse no lugar da outra. Teria que procurar coragem suficiente para expressar o seu pedido.
Os dois se afastaram, seguindo em direção aos demais que o chamavam, a deixando sozinha. Olhando para os seus sapatos, tentando aliviar a tensão nervosa e sexual que experimentava diante de tudo aquilo, retornou a sua atenção ao que sucedia no seu entorno… seu coração pulsava se chocando contra a caixa torácica, a ponto de seus ombros enrijecerem. Alan conversava com Michael Gambom, enquanto a mão ainda estava pousada na cintura da mulher, que retribuía o contato o acariciando com a ponta dos dedos. Antes que começasse a ponderar o tipo de relação dos dois, Daniel Radcliffe chegou sorrindo com um copo na mão.
- Emma! - a chamou efusivamente - Matthew e eu planejamos fazer uma pequena festa depois daqui. Você vai? - perguntou abraçando a amiga.
- Oh, não… eu sinto muito - fez uma expressão chateada - Infelizmente, já marquei outra… coisa com a Helen. Você sabe o quanto eu gosto de me aprimorar em tudo e ela é uma excelente atriz - enfatizou, deixando claro que se tratava de algo profissional, para evitar que se interessassem em comparecer.
- Convite feito e aberto, se quiser aparecer! - argumentou ainda animado e sem se dar por vencido. Ela sorriu abertamente, pensando nas maluquices que ocorreriam naquela festa e como as comemorações dele sempre acabavam. Embora quisesse muito ir naquele dia, para rir das palhaçadas que fariam e das coisas que seriam contadas, como um jeito de aliviar toda a tensão, aquele não era o momento. Precisava se agarrar a força que novamente surgira para, finalmente, se impor e revelar o que desejava.
- Se der tempo, passarei por lá - confirmou, recebendo um beijo na testa como despedida. Daniel retornou ao grupo, onde ouviu alguma coisa e comemorou indo com eles para outra direção. Se sentindo liberta da aflição, foi conversar amenidades com Bonnie Wright até o final da festa e rir um pouco dos comentários que eram feitos pela mesma. Aquele era um bom término de uma era importante na sua vida.
Na saída, fotógrafos a cegavam com centenas de flashes. Sorria e fazia poses para as imagens que seriam postadas em inúmeros tabloides. Abraçava Bonnie e Tom Felton, acenava para os fãs… outros atores já tomavam a frente quando uma BMW azul marinho passou cortando para sair o mais rápido possível de lá. Foi então que se deu conta do óbvio, não fazia a menor ideia de como chegar à residência de Alan e não teria coragem de pedir para que Helen a auxiliasse. Principalmente, porque a mesma estava acompanhada pelo marido e, tal solicitação, poderia acarretar em uma discussão desnecessária.
- Querida, vamos? - perguntou a mulher, que a segurava pela cintura, sussurrando ao seu ouvido. Aquilo era uma resposta para as suas lamentações ocultas. Helen a soltou e foi em direção a Damian, alegando que precisaria acompanhar a jovem que não se sentia bem. Além disso, ressaltava que poderia passar a noite a ajudando, e, consequentemente, não deveria esperá-la acordado. O semblante dele ficou contrariado, como se tentasse contra argumentar algo sobre o fato, sendo ignorado pela esposa. Emma esperou alguns instantes ao lado dela, até uma mercedes vermelha parar. O frentista abriu a porta, entregando a chave para a mais velha. Imediatamente, as duas adentraram no veículo e seguiram para o seu destino tão conhecido pela condutora.
- Emma, eu não entendo quais motivos para tamanha tensão… é apenas uma pequena reunião entre amigos, menina! Não vejo porque está tão preocupada - riu sem tirar os olhos da rua, quebrando o silêncio que se estabelecera entre as duas.
- Há quanto tempo o conhece? Aliás… que são amigos? - perguntou um pouco insegura com a atenção voltada para a janela.
- Desde 1987, quando eu o vi encenando Ligações Perigosas… mas, não nos falamos. Eu era apenas uma estudante de 19 anos, em um curso de teatro pequeno, ainda cheia de pretensões quanto à carreira de atriz - comentou tranquilamente - Alan já era um ator conhecido e elogiadíssimo pela crítica, que já havia ensinado para muitos as artes cênicas. Antes que a quietude voltasse, continuou:
- Respondendo o seu questionamento, só fui conhecê-lo pessoalmente nas gravações de Enigma do Príncipe e ficamos amigos - seus olhos brilharam com a recordação.
- Desculpe, eu juro que não quero ser invasiva ou desrespeitosa… porém, o jeito que se tratam parece bem mais do que isso e… - antes que concluísse foi interrompida pela mão de Helen que pousara na sua coxa esquerda.
- Emma, pessoas não se relacionam com aqueles aos quais não gostam ou se sentem desconfortáveis ao estar perto - expôs dando um leve aperto na jovem. Tal gesto, fez com que a menina analisasse cada palavra e se certificasse de que escolhera a pessoa certa para as suas sandices. Então, acalmou os músculos deixando que o corpo encostasse na poltrona do carro e aproveitasse o final do trajeto.
