...
Daqui alguns minutos vou me casar.
Isso deveria ser uma notícia feliz, mas não, não era.
- Eu achava que esse vestido iria ficar horrível, mas na real, você está linda Haru. - essa era Bianchi, sempre muito sincera.
O vestido era talvez a única coisa que pude escolher, já que todo o resto me foi imposto.
- Obrigada, eu acho... - respondi olhando Bianchi através do espelho a minha frente. Eu realmente estava bonita. Meu vestido era um dos famosos vestidos de noiva curtos, não muito cheio de babados, era simples, o destaque era o grande laço nas costas com fitas que iam até o chão. Eu queria que o laço fosse rosa pra combinar com meus sapatos, mas Bianchi dispensou antes que eu pudesse pedir isso.
- Estranhamente... - ela segurou meus ombros e encontrou meus olhos no espelho - Acho que meu irmão vai gostar.
- Humpf, eu duvido. - arrumei meu cabelo solto, ele estava acompanhado por um tiara de pequenas flores cor de rosa e um véu. Minha maquiagem era leve, e eu mesma havia feito. Eu dificilmente gostava da maquiagem feita por outras pessoas, sempre ficava muito carregada e eu parecia esquisita. Não eu fosse muito bonita...
- Pode parar por aí, mocinha.
Bianchi me virou para ela e apertou meu nariz, me fazendo chiar.
- O que eu fiz?
- Se diminuiu, eu sei que fez.
Ela pode ler mentes também?
- Eu não fiz... Só estava pensando que não sou muito bonita, não tipo você.
Pelo seu olhar, parecia que eu tinha vindo de outro planeta.
- Haru, para com isso. Você é linda do seu próprio jeito, foca nisso e não se preocupe com o resto.
Sorri para ela, poderia tentar seu conselho.
- Meninas! - a porta abriu devagar e um corpo pequeno se esgueirou para dentro da sala.
- Ah! Haru você está maravilhosa! - Kyoko sorriu para mim, estava muito mais feliz do que eu, com certeza. Seu sorriso sempre sincero.
Eu sorri de volta, tentando meu melhor para parecer bem. Por mais que a inveja vazasse pelo meu corpo, Kyoko era uma das únicas pessoas das quais eu não conseguia sentir raiva.
Mesmo que ela tivesse se casado com o homem que eu amava, e mesmo que ele a amasse de volta, mesmo que eles parecessem o casal mais feliz do mundo. Mesmo assim, eu não podia sentir raiva dela, pois em nenhum momento ela me tratou mal, nenhuma vez ela deixou de me ajudar e ser minha amiga, nenhuma única vez ela deixou de sorrir para mim.
Eu chego a pensar que ela é incapaz de sentir algo ruim. Kyoko era pura e simples, acredito sim que ela foi a melhor escolha para Tsuna, mesmo que isso me deixe triste.
Enquanto que eu sou alguém que sente e não controla, simplesmente sente com toda a força. Eu estava disposta a dar todo o amor que sinto para Tsuna.
Mas não aconteceu e não me arrependo de nada.
Talvez eu só precise encontrar outra pessoa para dar esse amor. Mas agora já era tarde, e eu iria me casar.
E definitivamente não com um homem que eu amava, mas sim com um que irritava a merda fora de mim. Era esse homem que me esperava no altar.
Hayato Gokudera.
Nada poderia ser pior. Tá, poderia sim, poderia ser um homem completamente estranho. Ou Hibari. Tá, ele é lindo de morrer, mas ainda assim me assusta um pouco.
- Você está pronta, querida? - Kyoko me perguntou, quase abrindo a porta.
Respirei fundo. Pronta não. Determinada. Determinada a salvar minha família, mesmo que isso significasse ser uma refém e talvez infeliz para sempre.
- Vamos.
...
Toda a cerimônia como que num piscar de olhos. Achei que conseguiria lidar com isso, afinal, já enfrentava esse destino a semanas, achava que tinha chorado o suficiente para uma vida, mas aparentemente não.
Assim que meus pés tocaram o tapete vermelho, meus olhos se encheram de lágrimas e eu me forcei em segurá- las, simplesmente ignorando todos ao meu redor. Não sorria, mas também não fazia cara de desgosto.
Estava impassível, assim como meu noivo.
Gokudera não era nenhuma novidade, seu cabelo claro estava despenteado como sempre e usando um terno como sempre. Seu rosto não demonstrava nada e seus olhos estavam em mim por toda a caminhada. Tranquei meu olhar com o seu e ignorei todo o burburinho da Igreja. A maioria sobre meu vestido.
Meu pai segurava meu braço de maneira frouxa, mas dane-se, eu não falava com ele há semanas, de qualquer forma. Ele certamente deve estar sorrindo para todos, passando a falsa imagem de que tudo estava bem.
Mas não estava.
Eu ouvi todas as palavras que o padre disse, mas não entendi nenhuma delas. Eu olhava para Gokudera tentando decifrar alguma coisa, mas suas feições eram sérias.
- Eu aceito. - nós dissemos cada um em sua vez. Talvez as palavras mais difíceis de minha vida.
Estava feito, estávamos casados. A aliança era fria contra o meu dedo e ironicamente se encaixava perfeitamente. E de repente meu coração queria saltar pela boca.
O beijo.
Eu tinha esquecido completamente.
Eu sinceramente achei que Gokudera iria dispensar isso, dar um jeito de ir embora, sair correndo. Até eu sentir uma de suas mãos em meu pescoço e a outra em segurando meu queijo delicadamente. Procurei seus olhos em desespero, mas não havia nada lá para ver. E então aconteceu meu primeiro beijo.
Caramba, era meu primeiro beijo mesmo!
Seus lábios eram quentes e macios contra os meus, a mão no meu pescoço me impediu de me afastar quando senti o leve escovar de sua língua em meus lábios.
E assim como veio, se foi.
A tradição pedia que eu abraçasse os padrinhos, e eu fiz, nem mesmk reconhecendo o que eu estava fazendo ou quem estava abraçando. Não fui eu quem os escolhi, de qualquer forma. E entao estávamos sozinhos dentro do carro, com exceção do motorista é claro. Mas sozinhos.
- Jesus. - ele disse simplesmente assim que começamos a nos mover - Eu não aguentava mais.
Eu resmunguei um som sem sentido. Nem eu, mas não precisa me dizer isso.
- Não finja que você queria estar lá ainda. - ele afrouxou a gravata - E que porra de vestido é esse?
Então Bianchi estava errada.
- O vestido que eu escolhi. Qual o problema com ele afinal?
Gokudera olhou pra mim descrente, encarando o vestido. Eu permaneci firme, mas quando seu olhar chegou às minhas pernas nuas, ele se virou de repente. O silêncio desconfortável chegou finalmente, olhei para fora do carro tentando naturalizar essa situação, mas era impossível. A minha volta a cidade estava a toda, nem mesmo se preocupando meu meu destino e eu.
- Para onde vamos afinal?
Ele não olhou pra mim quando respondeu.
- Para a nossa casa.
Lá fora a noite começava a surgir.
Oh. A noite de núpcias.
...
