Disclaimer: Jogos Vorazes, bem como os seus respectivos personagens, não me pertence, e sim a Suzanne Collins. Posto esta fic apenas por diversão e entretenimento, e sem nenhuma intenção de lucrar algo com isso.
Esclarecimento: Esta história também não é de minha autoria, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Yvonne Whittal, que foi publicado na série de romances "Julia Especial de Férias", da editora Nova Cultural (edição 22, publicada no Brasil em 1992).
SEDUÇÃO AO AMANHECER
Capítulo 1
Katniss Everdeen apoiou-se com mais firmeza ao encosto de um dos assentos quando o Boeing trepidou ao atravessar o espesso manto de nuvens em direção ao Aeroporto Internacional Jan Smuts, em Johannesburgo, África do Sul. Andando com cautela, percorreu devagar o restante do caminho até seu lugar, onde se sentou ao lado do padrinho e, com dedos trêmulos, ajustou o cinto de segurança.
Haymitch Abernathy correu os olhos escuros e atentos pelo rosto da afilhada e admirou os cabelos negros, o elegante conjunto de saia e blazer creme sobre a blusa de seda verde, cuja gola desabotoada revelava uma corrente de pérolas no pescoço. Katniss projetava uma imagem de mulher sofisticada, com suas feições clássicas, os cachos sedosos presos num rabo-de-cavalo estilizado; a maneira profissional como se vestia parecia contribuir ainda mais para sua feminilidade, mas não era em nada disso que Haymitch pensava enquanto examinava o perfil delicado da afilhada.
- Você está pálida, Katniss - observou ele, com uma ruga de preocupação na testa - Não está se sentindo bem ?
Ela retorceu os lábios recém-maquiados e respondeu, evitando o olhar perscrutador do padrinho.
- Acho que comi alguma coisa que não me fez bem.
Haymitch aceitou a explicação com um murmúrio de compreensão; Katniss, no entanto, não dissera a verdade ao padrinho. Não vinha se sentindo bem havia já algumas semanas, mas nunca experimentara nada parecido com aquilo. A repentina e inesperada taquicardia precipitava uma ansiedade desconfortável, e ela quase desmaiara naquela manhã, pouco antes do início da cerimônia de inauguração de mais uma filial da Everdeen's, em Bloemfontein. Fora uma experiência pavorosa, que Katniss esperava que nunca mais se repetisse. Mas a sensação ocorrera novamente, poucos minutos antes, no espaço confinado do toalete, enquanto lavava as mãos e retocava o batom. Dessa vez, entretanto, ela ficara com uma nauseante dor de cabeça e uma estranha sensação de exaustão física.
Era o mês de outubro, começo da primavera no hemisfério sul, e as nuvens que se aglomeravam no céu prenunciavam chuva quando o Boeing aterrissou, alguns minutos depois. A brisa que soprava do lado de fora trouxe um pouco de cor de volta ao rosto de Katniss, enquanto os passageiros do vôo caminhavam rapidamente para o edifício do aeroporto. Não fazia frio, contudo, por alguma razão obscura, ela tremia incontrolavelmente e seus dedos agarravam a alça da pasta com força exagerada, sem que ela tomasse consciência do fato.
Sentia-se absurdamente tensa enquanto esperavam pelas malas junto à esteira, no congestionado saguão de desembarque, e foi somente quando se sentaram no confortável interior do Mercedes dirigido por motorista que seus nervos começaram a relaxar.
Mal o carro arrancou, Katniss pegou o receptor do telefone e digitou um número, sob o olhar desaprovador do padrinho. Ela preferiu ignorá-lo, procurando concentrar-se na voz clara e firme de Effie Trinket, do outro lado da linha.
- Estamos a caminho da loja, Effie - informou Katniss à sua secretária com um leve tom de autoridade na voz - Diga a Finnick Odair que quero vê-lo em meu escritório assim que chegar. Esteja lá, também, Effie. Quero ser imediatamente informada de tudo o que aconteceu durante a minha ausência.
Katniss terminou a conversação tão abruptamente quanto a iniciara e recostou-se no assento. Com um sorriso desenhado nos lábios suaves, arriscou um olhar para o homem que a fitava ao seu lado.
- Por que será que tenho a impressão, ultimamente, que meus atos não são inteiramente aprovados por você ? - ela indagou com delicadeza.
Os olhos escuros de Haymitch encontraram os dela com um misto de desaprovação e preocupação.
- Esta reunião com Finnick e Effie podia esperar até amanhã, Katniss. Não aprovo a maneira inflexível como você vem procedendo consigo mesma ultimamente.
As sobrancelhas de Katniss ergueram-se sobre um par de olhos francos, marcados pelo estresse.
- Eu sou o que você fez de mim, Haymitch, e você sabe tão bem quanto eu que o trabalho que precede a inauguração de uma filial da Everdeen's não é nada, comparado ao que vem depois, para garantir o sucesso do empreendimento.
- Sei muito bem qual é a carga de trabalho envolvida num projeto como esse, mas também me preocupo com você - o padrinho suspirou e segurou a mão fria da afilhada, aquecendo-a entre as suas - Sei que você vai continuar trabalhando além de seus limites e isto é absolutamente desnecessário, quando tem a seu serviço um jovem e talentoso assistente como Finnick Odair. Ele está mais do que preparado para arcar com parte da responsabilidade, se você lhe desse a oportunidade.
Katniss era obrigada a concordar. Finnick Odair era apenas um pouco mais velho do que ela e fora trabalhar na Everdeen's assim que se formara na faculdade. Era ambicioso, empreendedor e totalmente capaz de assumir uma parcela da carga de trabalho de Katniss. Ela, entretanto, continuava a resguardar sua posição obstinadamente, receosa de que, se abrisse mão de algumas tarefas, acabasse por perder o controle, sem a estabilidade que julgava necessária.
- A Everdeen's é a minha vida e eu adoro o meu trabalho - ela defendeu-se.
- Você tem vinte e sete anos, minha querida, e nos últimos seis tem se dedicado de corpo e alma a transformar em realidade o que seu pai sonhou para a Everdeen''s - lembrou Haymitch, sério - O que tem feito é louvável, e eu sou o primeiro a reconhecer isso. Você, Katniss Everdeen, conquistou a aclamação do país inteiro como a ilustre presidente da cadeia de lojas Everdeen's. Tornou-se conhecida, seu nome é sinônimo de última moda e bom gosto na indústria de confecção, e são poucos os jornais e revistas que não trazem alguma referência ou fotografia sua, ultimamente. Mas onde está a Katniss Everdeen mulher !
A pergunta de Haymitch tocou em um ponto sensível e ela virou o rosto para fora, olhando distraidamente para o tráfego movimentado da cidade.
- Acho o meu trabalho gratificante e compensador.
- Não estou falando de sua vida profissional. Estou falando de sua vida particular, você sabe disso - repreendeu o padrinho, ignorando a nota de frieza que detectara na voz da afilhada.
- Minha vida profissional e particular são uma só.
- É exatamente isso o que estou tentando lhe mostrar ! - explodiu Haymitch, baixando a voz para que o motorista não escutasse - Você está tão envolvida com o trabalho que se esqueceu de si mesma como mulher. Você precisa de um homem em sua vida, Katniss. E, se o casamento não faz parte de seus planos para o futuro, sugiro que parta para algum tipo de envolvimento amoroso, de vez em quando.
Um sorriso bem-humorado desenhou-se na boca bem-feita e delicada de Katniss, mas o risinho suave que lhe escapou dos lábios rosados continha um toque de amargura, quando ela virou-se para encarar o homem que era não apenas seu padrinho, mas também mentor e conselheiro, além de chefe da contabilidade da Everdeen's.
- Nunca me casarei novamente - ela declarou com firmeza - E não tenho tempo nem inclinação para um envolvimento, amoroso ou de qualquer outro tipo.
Haymitch suspirou, exasperado, mas o bom senso lhe dizia que era inútil prosseguir com o assunto, naquele momento. Mergulharam num silêncio meditativo que nenhum dos dois tentou interromper durante o restante do percurso até a matriz da Everdeen's, no centro da cidade.
O escritório de Katniss, no décimo andar de um moderno e luxuoso edifício empresarial, era um aposento espaçoso, com paredes revestidas de madeira e uma ampla janela com vista para o fórum municipal. Apesar do sistema de ar condicionado, que proporcionava uma temperatura agradável no interior do escritório, Katniss sentia constantes calafrios pelo corpo, sentada atrás da enorme escrivaninha de mogno. Seu olhar acompanhou preguiçosamente os movimentos de Haymitch, enquanto ele se dirigia à estante embutida na parede e servia-se de um drinque.
O padrinho tivera toda a razão ao afirmar que a reunião poderia ter esperado até o dia seguinte. Durante a última hora estivera escutando atentamente, fizera anotações e comentários sobre tudo o que Effie Trinket e Finnick Odair haviam lhe relatado. Naquele momento, contudo, voltava a experimentar a estranha e desagradável onda de ansiedade e a desconfortável aceleração do pulso que por duas vezes já quase a levara a perder os sentidos.
- Chegou um telex da fábrica, em Cape Town - dizia Effie Trinket, inconsciente da silenciosa e desesperada batalha que Katniss travava contra as trevas que ameaçavam engolfá-la - Mandaram avisar que haverá uma demora de dois meses para a entrega da seda que encomendamos do Oriente e o costureiro está tendo ataques porque acha que não conseguirá aprontar a tempo a coleção de outono.
Finnick Odair olhou para Effie, que inclinou a cabeça em assentimento, antes de passar uma pasta por sobre a escrivaninha.
- Consegui comprar um considerável número de peças de seda nacional - ele anunciou - Está tudo aí arquivado e tenho certeza de que você concordará que vai nos ajudar a prosseguir com o trabalho de confecção até que seja despachada a encomenda original.
- Fez bem, Finnick - aprovou Katniss, umedecendo os lábios ressecados com a ponta da língua enquanto consultava o delicado relógio de ouro em seu pulso.
Passava das cinco horas e repentinamente o som distante e abafado do tráfego na rua pareceu encher-lhe os ouvidos, fazendo sua cabeça latejar. Olhou para a secretária sob as pálpebras pesadas.
- Pode ir, Effie. Desculpe por prendê-la aqui até esta hora - Effie Trinket era uma mulher de quarenta e poucos anos e, depois de trabalhar durante cinco anos como secretária de Katniss, já se acostumara a ficar além do horário no escritório. Os pedidos de desculpas de Katniss eram sempre sinceros e Effie normalmente os aceitava com um sorriso gracioso e bem-humorado; dessa vez, no entanto, sua expressão estava séria quando se levantou da cadeira. Desejou boa-noite a Haymitch e a Finnick e, ao passar por trás da cadeira de Katniss, parou por um segundo e murmurou baixinho:
- Se me permite, srta. Everdeen, a senhorita me parece doente. Talvez seja aconselhável ir para casa mais cedo, nos próximos dias.
Effie Trinket não esperava uma resposta ao seu comentário, nem a chefe lhe deu qualquer resposta enquanto recostava-se na cadeira e observava-a sair e fechar a porta, firme e silenciosamente. Ao contrário, Katniss fechou os olhos por um momento, refletindo sobre a inutilidade do conselho de Effie. Se voltar para casa mais cedo resolvesse alguma coisa...
Chovia fortemente do lado de fora e ela observou os pesados pingos de chuva escorrendo pelas vidraças, antes de voltar a atenção para Haymitch e Finnick. Os dois homens estavam envolvidos numa animada discussão, mas ela conseguia captar apenas fragmentos da conversa, que girava em torno da instalação do sistema de computadores na nova filial da Everdeen's. As vozes iam e vinham como numa ligação telefônica ruim e, quando finalmente as feições dos dois homens começaram a ficar distorcidas à frente de seus olhos, ela pôs-se de pé abruptamente, numa tentativa de combater o mal-estar.
Foi à última coisa de que se lembrou quando abriu os olhos para encontrar-se deitada no sofá de couro e contemplar o rosto ansioso de Finnick Odair observando-a atentamente.
- O que aconteceu ? - ela balbuciou com esforço, consciente da voz firme e baixa do padrinho ao telefone. Ergueu o corpo, apenas para tomar a afundar no sofá, com uma mão no estômago revolto e a outra na cabeça estonteada - Oh... sinto-me péssima...
- Você desmaiou - explicou Finnick, num tom de voz baixo e tranqüilizador - O dr. Abernathy está telefonando para o médico.
Ela sentiu o estômago contrair-se.
- Não preciso de um médico ! - protestou.
- Você pode achar que não, mas assim mesmo vai consultar um - anunciou Haymitch, autoritário, desligando o telefone e aproximando-se do sofá, com o blazer de Katniss nas mãos - Peeta está à nossa espera, portanto não temos tempo a perder.
- Isso é hora de ir ao médico ? - teimou ela, irritada, agarrando a borda do sofá e sentando-se lentamente - E quem é Peeta ?
- Peeta Mellark é um excelente médico. O pai dele foi um grande amigo meu - o padrinho olhou para o rosto pálido e furioso dela - Você vai de boa vontade, ou terei de arrastá-la comigo ?
Finnick Odair olhou para padrinho e afilhada, que se fuzilavam com o olhar, numa batalha silenciosa. Levou um punho fechado à boca e pigarreou discretamente.
- Tenho alguns assuntos para resolver em minha sala - ele desculpou-se - Hum... boa noite e... estimo suas melhoras, Katniss.
Katniss acenou, sentindo a garganta seca demais para falar. Haymitch olhou-o com um sorriso.
- Obrigado pela ajuda, Finnick.
Finnick Odair retribuiu o aceno e saiu do escritório, depois de lançar um último olhar preocupado na direção de Katniss.
Ela não queria ir ao médico... não ainda. Não estava preparada e não era justo que Haymitch a pressionasse daquela forma.
- Eu estou bem, agora - afirmou - Não...
- Por favor, Katniss - interrompeu o padrinho - Faça isso por mim. Estou preocupado com você, e não é de hoje. Eu ficaria mais tranqüilo se Peeta a examinasse.
- Você se preocupa demais - resmungou ela, enfiando os braços nas mangas do blazer que o padrinho segurava para ela.
A esposa de Haymitch morrera ainda jovem, e Katniss era para o padrinho a filha que ele nunca tivera. Preocupava-se com ela como se fosse um pai verdadeiro e ela amava-o como se assim fosse.
O consultório ficava a poucos quarteirões de distância do prédio da Everdeen's, e Haymitch insistiu em dirigir a Mercedes verde-escuro dela.
- Não vou arriscar a vê-la desmaiar em cima do volante - ele explicou - Depois de deixá-la em casa, tomarei um táxi.
Ela não discutiu dessa vez. A cabeça doía-lhe e ela sentia uma fadiga extrema.
Havia poucas luzes acesas no edifício, onde a maioria das salas funcionavam como consultórios médicos. Haymitch deixou o carro no estacionamento anexo, por onde havia passagem para o prédio sem ser preciso sair à rua. Enfim, era uma conveniência, num momento como aquele, quando chovia a cântaros.
O consultório do dr. Peeta Mellark ficava no quinto andar e o inconfundível cheiro de antissépticos penetrou as narinas de Katniss assim que entraram na sala de espera, decorada com mesas de vidro e metal e confortáveis poltronas de couro. Uma mulher de cabelos escuros levantou-se de trás da mesa de recepção e veio ao encontro de ambos.
- O dr. Mellark me pediu que a mandasse entrar assim que chegasse, srta. Everdeen - anunciou, com um sorriso amável.
Katniss arriscou um olhar para o padrinho, que lhe acenou com um gesto de cabeça, tranqüilizador.
- Vou esperar aqui - disse ele, com um olhar carinhoso para a afilhada.
Ela concordou em silêncio e deixou-se conduzir para a sala fortemente iluminada do consultório. Lá, um homem de cabelos loiros e jaleco branco contemplava, de pé, de trás de sua mesa, as luzes da cidade, através da janela.
Peeta Mellark virou-se antes que a enfermeira anunciasse a presença de Katniss e suas feições fecharam-se numa espécie de máscara impassível, a costumeira expressão com que os médicos recebem seus pacientes.
- Obrigado, Christine - ele agradeceu, dispensando a enfermeira.
A voz dele era grave e aveludada e, embora suave e agradável, continha um tom inequívoco de autoridade. A enfermeira retirou-se, fechando silenciosamente a porta atrás de si.
Por um momento, o médico submeteu Katniss a uma fria avaliação, antes de fazer um gesto convidativo com a mão, indicando uma das cadeiras do outro lado da mesa.
- Sente-se, por favor, srta. Everdeen.
Peeta Mellark esperou até que Katniss estivesse sentada para fazer o mesmo.
"Ele parece mais um atleta, ou um artista de cinema, do que um médico", pensou ela, distraidamente. Reparando nos ombros largos e na graciosidade máscula com que Peeta Mellark se movimentava, ela torceu os dedos nervosamente sobre o colo, enquanto ele abria uma ficha sobre a mesa e apertava o pino da caneta.
- Quantos anos tem, srta. Everdeen ?
- Vinte e sete - respondeu ela, apertando os lábios. Peeta Mellark fazia suas anotações.
- Já desmaiou alguma vez, antes ? - continuou ele, sem tirar os olhos do papel.
- Não, nunca.
- Já sentiu o mesmo tipo de mal-estar em outras ocasiões ? - ele ergueu os olhos quando Katniss não respondeu - Já ?
- Sim, duas vezes - confessou ela, relutante.
- Lembra-se de quando isso aconteceu ?
- A primeira vez foi esta manhã, durante a inauguração da loja em Bloemfontein. E a segunda foi à tarde, no avião, quando eu voltava para cá.
O médico levantou as sobrancelhas, surpreso.
- Então, todos os distúrbios ocorreram num mesmo dia ?
- Sim.
Peeta Mellark não era, certamente, o homem mais bonito que Katniss já vira, mas havia alguma coisa no rosto, nos olhos penetrantes, na boca firme e sensual, que fazia seu estômago contrair-se. O cabelo loiro e bem-cortado lhe dava um ar atraente, quase juvenil. Katniss calculou que tivesse entre trinta e cinco e quarenta anos de idade.
Depois de uma série de perguntas rotineiras, ele pôs-se de pé e gesticulou na direção de um cubículo protegido por um biombo, a um canto do aposento.
- Tire sua roupa e vista um avental da pilha sobre a prateleira - ordenou ele, caminhando em direção à porta - Chamarei a srta. Rogers para auxiliá-la.
Ela entrou no cubículo quando a porta se fechou atrás do dr. Mellark. Chegou a ouvir as exclamações efusivas dos dois homens na antessala, cumprimentando-se. A srta. Rogers apareceu poucos segundos depois para ajudá-la a despir-se. Apesar do ar aquecido no interior do consultório, a pele de Katniss estava arrepiada quando estendeu os braços para vestir o avental clínico descartável que a srta. Rogers segurava para ela.
- Pode se deitar - a srta. Rogers ajudou Katniss a subir para a mesa de exame e estendeu-lhe um cobertor sobre as pernas - Agora, relaxe, que o dr. Mellark já vem.
Com aquelas palavras, que soavam extremamente incongruentes para Katniss, a enfermeira desapareceu por detrás do biombo, para ressurgir pouco depois, acompanhando o dr. Mellark.
O exame a que ele a submeteu não poderia ter sido mais minucioso. Em nenhum momento o médico deixou transparecer qualquer indício de qual poderia ser o diagnóstico, escondendo-se atrás de sua impassível máscara profissional.
- Tem encontrado dificuldade para dormir, ultimamente ? - ele perguntou meia hora mais tarde, quando ela já estava inteiramente vestida e sentada, fitando-o do outro lado da mesa.
- Sim - confessou ela, recordando as muitas noites de insônia que vinha enfrentando nas últimas semanas.
A caneta do dr. Mellark moveu-se rapidamente sobre o bloco, e ela notou que ele lhe prescrevia apenas um medicamento. Em seguida, arrancou a folha e entregou-a a Katniss.
- Este remédio deverá ajudá-la a relaxar e a dormir melhor. Quero que volte aqui amanhã de manhã para fazer alguns exames. O laboratório é aqui mesmo no edifício e a srta. Rogers a encaminhará.
- O que o senhor acha que eu tenho ? - indagou ela, com uma ponta de apreensão.
- Os únicos sintomas revelados pelo exame clínico são os de estresse - explicou Peeta, com um sorriso afável - Mais detalhes eu só poderei lhe dar depois de ver o resultado das análises.
- Esses exames são demorados ? Eu tenho compromissos inadiáveis, amanhã, e não posso me ausentar do escritório durante muito tempo - Peeta Mellark acenou a cabeça, compreensivo.
- Vou pedir um check-up completo. Se chegar às oito horas, estará livre antes do meio-dia. Espero ter os resultados às cinco e meia da tarde.
Katniss conteve-se para não fazer uma careta. Suspirou e levantou-se.
- Obrigada, doutor - ela murmurou, sentindo-se estranhamente embaraçada, enquanto ele a conduzia até a porta.
Haymitch aproximou-se para despedir-se de Peeta, porém não fez nenhuma pergunta. O médico, por sua vez, limitou-se a dizer apenas que submeteria Katniss a alguns exames, no dia seguinte. Depois de apertar a mão de Haymitch, virou-se para ela.
- Boa noite, srta. Everdeen.
Por um instante, os olhares de ambos se encontraram, e Katniss notou como ele tinha olhos bonitos. De um tom de azul profundo, eram penetrantes e expressivos, emoldurados por cílios longos e escuros. Pela primeira vez, em muitos anos, sentiu um embaraçoso rubor cobrir-lhe o rosto.
- Boa noite, dr. Mellark - ela retribuiu, timidamente.
Os lábios dele se curvaram ligeiramente e ela seria capaz de jurar que detectara uma sombra de ironia na expressão do médico. Seu rosto ainda queimava quando entrou no elevador, seguida pelo padrinho, mas não foi antes de chegarem ao subsolo que seu padrinho falou, longe de ouvidos curiosos.
- O que Peeta disse ? - perguntou ele, ansioso.
- Receitou comprimidos para dormir - informou Katniss - Disse que estou com estresse. Tenho de voltar amanhã de manhã para fazer um check-up. Ele me dará o resultado no final da tarde.
Haymitch abriu a porta do carro para Katniss antes de dar a volta e sentar-se ao volante.
- O que você achou de Peeta ? - perguntou ele, ao subir a rampa da garagem para a rua.
Assim que o carro alcançou a área descoberta, o pára-brisas ficou salpicado de pingos de chuva, refletindo as luzes da rua e dos automóveis como prismas. Era plena hora do rush, o ruído das buzinas e da chuva em nada contribuía para acalmar os nervos de Katniss, que suspirou resignada. Alerta, olhou de soslaio para o homem ao seu lado; conhecia bem o padrinho para saber que havia outras intenções por trás daquela pergunta aparentemente inocente.
- Ele é bastante atencioso. E minucioso, também. Não deixa passar nada.
- Está falando dele como homem ou como médico ?
- Como médico, claro.
Haymitch não disse mais nada e eles fizeram o restante do percurso em silêncio. Antes de levar Katniss para casa, o padrinho parou numa farmácia para comprar os comprimidos prescritos por Peeta. O edifício onde ela morava era um luxuoso condomínio residencial construído no centro de um jardim arborizado, perto do centro cívico. Foi com alívio que ela entrou na sala acarpetada do apartamento e tirou os sapatos, jogando-os a um canto. Uma das coisas que ela mais gostava era voltar para casa, e aquele fora um dia particularmente exaustivo. Ligou o aquecedor elétrico e deixou-se afundar no sofá. As noites de outubro ainda eram bastante frias e o que mais queria naquele momento era tomar um banho quente e enfiar-se debaixo das cobertas.
Haymitch deixou a mala de Katniss no hall e seguiu-a até a sala.
- Sente-se melhor ? - indagou, apoiando as mãos no encosto de uma poltrona.
Ela fechou os olhos e massageou as têmporas com as pontas dos dedos.
- Sim - garantiu - Apenas uma ligeira dor de cabeça, mais nada. Logo vai passar.
- Bem... - Haymitch suspirou e deu uma palmadinha no encosto da poltrona - Vamos dar por encerradas as atividades. O dia de amanhã não será mais fácil que o de hoje.
- Não quer telefonar para o táxi ? - ofereceu Katniss.
- Não há necessidade. A essa hora não será difícil pegar um - depois de fazê-la prometer que telefonaria assim que chegasse ao escritório no dia seguinte, depois dos exames, e de comprometer-se a avisar Effie que ela só chegaria na hora do almoço e que os compromissos da manhã deveriam ser adiados, Haymitch beijou paternalmente o rosto da afilhada.
- Boa noite, Haymitch - murmurou ela, retribuindo o beijo - Obrigada.
- Não precisa me agradecer - volveu ele, com um olhar malicioso - Eu sempre quis que você e Peeta se conhecessem, mas nunca surgia uma oportunidade.
- Ora, vá embora, seu chato ! - ralhou ela, bem-humorada, empurrando o padrinho para dentro do elevador.
Haymitch acenou, sorrindo, e Katniss, depois de fechar a porta, encostou-se a ela por um momento, pensativa. Era bom estar em casa novamente, refletiu, e olhou à sua volta, apreciando o aposento decorado em tons de verde-água, creme e dourado. A diarista com certeza teria deixado alguma coisa pronta na geladeira, que ela só precisaria aquecer no forno microondas, mas não sentia fome. No máximo, um copo de leite com achocolatado e uns biscoitos, depois que tomasse banho.
Ela pegou a mala e os sapatos e levou-os para o quarto. Uma hora mais tarde estava encolhida sob o acolchoado macio da cama de casal, escutando o ruído abafado do tráfego embaixo, na rua. Tomara um dos comprimidos que o dr. Mellark receitara e estava torcendo para que fizesse efeito. Ela não se lembrava da última vez que tivera uma noite decente de sono.
"Os únicos sintomas revelados pelo exame clínico são os de estresse...". As palavras do dr. Mellark ecoaram em sua mente.
Estresse ! Grande novidade ! Ela aprendera a conviver com o estresse como um companheiro constante nos últimos seis anos. Por que somente agora esse mal começara a afetá-la daquela forma ? Lembrou-se dos testes que faria no dia seguinte e imaginou quais seriam os resultados.
- Oh, droga ! - ela murmurou, virando-se na cama e mudando o travesseiro de posição - Aquela pílula não vai funcionar !
Esse foi o seu último pensamento naquela noite. Quase que imediatamente, ela começou a sentir as pálpebras pesadas e uma suave ardência nos olhos, até que o sono a invadiu por completo. Pela primeira vez em várias semanas, foi o intermitente bip do despertador que a acordou na manhã seguinte.
P. S.: Bem, eu estou começando aqui a minha sétima adaptação, e a primeira com o fandom de Jogos Vorazes.
P. S. 2: Nos vemos no Capítulo 2.
