Essa é uma adaptação de uma fic homônima ABO/Sterek escrita em inglês, do autor astoryaboutwar.
Eu entrei em contato com o autor da fic original para avisá-lo sobre essa adaptação.
Se quiserem ler a fanfic que me deu inspiração para esta, segue o link da fanfic original (daquele jeito, porque o site não aceita links).
archiveofourown(ponto)org(barra)works(barra)748486?view_adult=true
Eu adaptei para Merthur e além disso adaptei a dinâmica ABO para algo "normal". XP Espero que agrade.
Advertências: Essa fanfic contém trechos que podem ser vistos como um relacionamento abusivo e abuso psicológico, muitos mal-entendidos, sexo explícito, uso recreativo de álcool e drogas e muita digressão. Se você não se sente a vontade com isso ou se isso possa te trazer algum mal ou desencadear algum gatilho emocional, por favor, não leia. No mais, espero que apreciem a leitura.
Hello, Heartbreaker
Merlin sabe que tem sorte. Ele tem um emprego estável e bem remunerado, um círculo de amigos leais até a morte, uma mãe amorosa, um lar acolhedor, mesmo que por vezes solitário… e, não menos importante, um cara bonito e gostoso ao alcance de uma chamada telefônica. Quer dizer, é muito mais do que muitas pessoas podem esperar, ele não deveria reclamar.
Não o entenda errado, ele não está. (Reclamando, é isso). É que em momentos como esse, quando Arthur sai de cima dele, dá um nó na camisinha antes de jogá-la no lixo, tira alguns lenços da mesa de cabeceira para se limpar, coloca os jeans e pressiona um beijo forte em seus lábios antes de sair pela porta da frente… bem, Merlin não pode deixar de querer mais.
Mas isso é tudo culpa de Merlin. Mais não faz parte do acordo entre eles. Arthur deixou isso bem claro desde o início. Um relacionamento estável, 2.4 filhos (mais provavelmente 1, se isso fosse uma hipótese real), uma cerca branca e um jardim não estavam nos planos, e se Merlin demonstrasse que era aquilo que queria de Arthur, ele poderia dizer adeus ao que tinham.
Merlin estava bem com isso. De verdade.
Ele era um paralegal de baixo nível na Pendragon & Associados e não tinha tempo para um relacionamento ou as armadilhas que os acompanhavam. Um Pau Amigo sólido sempre à disposição era exatamente o que ele precisava.
Mas quem é que ele está tentando enganar, afinal? É sobre Merlin que estamos falando e é claro que ele vai conseguir estragar as coisas de alguma forma.
Na verdade, não é culpa de ninguém além do próprio Merlin que em algum momento ao longo dos três anos em que eles se conhecem (no momento em que você viu Arthur pela primeira vez, uma voz insidiosa sussurra no fundo de sua mente), ele escorregou e se apaixonou por Arthur.
Bem, foi assim que as cartas foram dadas, foi a mão que ele recebeu. Merlin nunca foi bom em jogos ou teve a melhor das sortes. No final das contas, ele vai perder.
É inevitável.
.Merthur.
É a primeira grande festa da empresa que ele precisa participar e Merlin está fodidamente nervoso. Quer dizer, ele não conseguiu nem lidar com o ensino médio como uma pessoa normal, como alguém esperava que ele conseguisse interagir naqueles eventos? Com todos aqueles coquetéis sofisticados, a socialização desajeitada e conversas gerais? Como alguém esperava que conseguisse pronunciar mais do que três frases com coerência? Era um fato… ele seria massacrado.
Seu smoking coça e esquenta. O único consolo que ele tem é que Elena garantiu que ele estava gostoso. E é melhor que ele estivesse mesmo. Ela o fez gastar uma quantia obscena de dinheiro numa simples peça de roupa, então era melhor que valesse a pena.
Ele tira uma taça de champanhe de uma bandeja quando um dos garçons passa por ele. As palmas de suas mãos estão suadas e ele reza para que não escorregue e faça uma cena no meio do salão.
Ele está bem, ele está mais do que bem, com certeza pode fazer isso. Sem problemas. Merlin deseja que Elena estivesse ali, ela chutaria a bunda dele e diria para se recompor.
Não é de muita ajuda que o salão de eventos da Pendragon & Associados se pareça mais com um salão de baile de hotel de última geração. Mais sofisticado e glamouroso que qualquer outra coisa que Merlin já tenha visto. O que esses Pendragons querem mostrar, afinal? Não é como se as pessoas já não soubessem que eles são podres de ricos.
Eles estão no último andar do prédio da empresa, a vista da cidade movimentada abaixo é deslumbrante através dos painéis de vidro que margeiam os quatro lados da sala, com varandas em cada um deles. É aterrorizante o modo como todas as coisas corporativas de ultra-sucesso são intimidantes se você não está acostumado a elas. Merlin se recorda do primeiro dia de trabalho, quando até o elevador o intimidava. Porque um maldito elevador tinha que ter tantos botões no final das contas? Não bastavam os números dos andares?
Merlin regula sua respiração na tentativa de se acalmar, o champanhe há muito tempo morno em sua mão superaquecida. Primeiro passo, Emrys: encontre Lance. Lancelot acabou de se tornar um associado Junior na empresa, o que nunca deixa de fazer Merlin sentir-se em partes iguais, perplexo e orgulhoso. Perplexo não porque ele não acreditasse que Lancelot conseguiria qualquer coisa que quisesse, mas porque é incomum que alguém como Lance, que (como o próprio Merlin) veio do nada, chegue àquele patamar.
De qualquer forma, Lance prometeu encontrá-lo na festa, então é melhor que ele esteja ali, ou então, Deus lhe ajude, Merlin vai marchar até sua casa depois do evento e sufocá-lo com o travesseiro. Desculpe, Gwen, há uma prerrogativa de melhores amigos e tudo.
A sala em si está cheia como uma lata de sardinha. Ok, talvez seja um exagero, já que é um evento fechado, mas Merlin nunca fora um fã de eventos sociais. A questão é que Merlin não consegue dar mais de três passos sem entrar numa rodinha, onde as pessoas socializam com desenvoltura, principalmente porque ele não conhece quase ninguém ali.
Por isso, ele decide que a melhor opção é passear pela varanda ao redor da sala, e procurar por Lance dessa maneira. Ele desvia das pessoas, tentando não derramar o que provavelmente é um champanhe de várias centenas de dólares por pop antes de tropeçar no ar fresco da noite.
Merlin estuda atentamente a sala do seu ponto de vista da varanda, na esperança de vislumbrar os cachos majestosos de Lance. Ele acha que o reconhece, perto da mesa de bebidas, mas basta um segundo olhar para constatar que é Gwaine, um dos associados bonachão que insiste em fazer Merlin corar toda vez que o vê.
Gwaine é um cara legal, tirando sua propensão a fazer comentários inapropriados, e Merlin até poderia conversar com ele ali, para que não parecesse o antissocial com apenas um amigo que na verdade ele é. Mas Gwaine está conversando com um cara de quase dois metros de altura e isso é o suficiente para que Merlin desista da ideia.
Suspirando mal-humorado, Merlin vira a taça de champanhe em um único gole, colocando-a em uma das mesas altas, antes de virar-se para o outro lado da varanda.
Como ele sempre foi o retrato da elegância e graça, não é de se espantar que acaba colidindo com o que parece uma rocha. Seu ombro fica dolorido com o encontrão e logo depois ele registra um forte aperto em seu antebraço, impedindo-o de cair de bunda no chão.
Quando se recupera o suficiente, ele olha para cima e – uau, Jesus Cristo, quem no mundo é tão bonito? Os deuses devem odiá-lo. Ele deve ter afogado um milhão de gatinhos em sua vida passada ou algo assim, porque o loiro gostoso à sua frente está carrancudo para ele, como se Merlin fosse um pedaço de chiclete bastardo que ousa ficar preso no fundo de seus sapatos de couro italiano provavelmente feitos sob encomenda. O que, olá, rude!
"Desculpe." Merlin murmura, mortificado até a alma, mesmo que ele não tenha culpa no ocorrido. "Não te vi."
As sobrancelhas do Sr. McHottie arqueiam-se numa surpresa desdenhosa e Merlin só quer enfiar sua cabeça num buraco e nunca mais ver a luz do dia. O que ele quer que Merlin diga, afinal? Desculpe, deixe-me lamber seus sapatos italianos em súplica por meu pecado grave? Não que a visão mental não desperte interesse em Merlin, mas… bem… melhor não seguir por esse caminho tortuoso de ideias.
"Uh." Merlin gagueja, a imagem da inteligência e boa dicção. "Eu provavelmente deveria procurar meu amigo. Desculpe por isso de novo."
Só pra deixar claro, Merlin não foge para se esconder no banheiro masculino por uns bons quinze minutos, porque isso seria patético e inoportuno para… bem, qualquer um!
.Merthur.
Merlin fora dormir tarde na noite anterior. Ou seria dia? Madrugada, provavelmente seja o termo mais adequado. Ele demorara a conseguir dormir, perguntando-se porquê Arthur não retornava suas ligações há cinco dias. A verdade era que o herdeiro da Pendragon não fora visto por nenhum colega de trabalho nos últimos dias também. Mas Merlin não podia deixar de se perguntar se aquele gelo não seria por causa da estupidez que Merlin fizera na boate no último fim de semana.
Enfim… a questão é que ele ainda estava muito grogue quando o telefone tocou às quatro da manhã. Ele se atrapalha no quarto escuro para atender, acertando a testa no abajur em meio ao processo. Ele aperta a tela furiosamente para atender, quando vê a foto de contato de Gwaine aparecer.
"Gwaine." Ele solta um grunhido mal-humorado. "É melhor que você não esteja preso do lado de fora do seu apartamento de novo. Mesmo que dessa vez seja sexta-feira, não é desculpa. Como você pode estar bêba…?"
Merlin interrompe-se quando ouve um barulho de sirene ao fundo da ligação. Há um burburinho ao fundo, mas Merlin não consegue distinguir o que é dito.
"Pelo amor de Deus, não me diga que você foi preso." Merlin diz, sentando-se de rompante.
"Não, não fui." Gwaine diz e Merlin nota que o homem parece muito mais sóbrio do que em qualquer outro momento em que se falaram, inclusive durante o trabalho. "Ok. Eu não sei como dizer isso, então vou direto ao ponto. Você precisa vir até aqui. Arthur foi hospitalizado. Era por isso que ele estava ausente nos últimos dias no trabalho."
Merlin pode ouvir a reprimenda de Percy ao fundo, mas não consegue distinguir muito mais do que tato e seja gentil.
Merlin está a meio caminho do guarda-roupas antes que a frase seja completada, as palavras Arthur e hospitalizado ecoando em seus ouvidos.
"Gwaine, o que aconteceu? Ele está bem? Merda, merda, onde estão minhas calças?" Ele tropeça na cadeira ao lado da parede, aquela que ele e Arthur quase quebraram fazendo sexo uma vez, antes de buscar o interruptor de luz quase que desesperadamente.
"Está tudo bem, relaxe. Ele está bem agora." Gwaine assegura, mas Merlin acha que não consegue acreditar naquilo até que veja com seus próprios olhos. "Ele foi atropelado a caminho de casa no domingo, mas não se feriu muito. Seu pai e Morgana decidiram não fazer alarde sobre a situação, com receio de que os clientes ficassem inquietos. Afinal, ele é nosso principal advogado. Mas Leon não conseguiu esconder a verdade de nós por muito tempo."
"Gwaine, como ele está?" Merlin impacientou-se, não dando a mínima para o que Morgana ou Uther pensavam que era o melhor para Arthur. Gwaine nunca tagarelava. Nunca. Porque ele estaria tagarelando agora? Será que acontecera algo grave com Arthur e ele não queria dizer aquilo por telefone?
"É só que…"Gwaine interrompeu-se, parecendo engolir em seco.
"Gwaine." Merlin disse, mais enérgico.
"Ok, estou chegando lá!" Gwaine disse, em tom de desculpas. "Você está convivendo muito com ele, se está começando a ficar mandão desse…"
"Vá direto ao ponto, Gwaine." Merlin impacientou-se, tendo que apoiar o celular entre a orelha e o ombro para vestir as calças.
"Os médicos estão dizendo que Arthur tem amnésia retrógrada. Ele não se lembra de nada que aconteceu nos últimos quatro anos."
Merlin deixa-se cair na cama. Não como nos filmes, onde ele perde toda a ação do corpo, mas em câmera lenta, como se seu cérebro não conseguisse registrar suas ações com rapidez suficiente e seu corpo travasse a cada pequeno movimento.
"Quatro anos?" Merlin engasga, perdendo um pouco do fôlego. É mais uma afirmação que qualquer outra coisa. Sua mente cambaleia.
Do outro lado da linha, o silêncio cresce para proporções quase avassaladoras antes de Gwaine se dignar a quebrá-lo, pigarreando desajeitadamente.
"Sim, quatro anos. Olha, Merlin, eu sinto muito. Quer que eu e Percy te busque?"
Merlin não se lembra muito de sua jornada para o hospital. Ele deve ter desligado o telefone em algum momento, porque ele não está com Gwaine na linha quando chega lá. E se lembra vagamente de sair de um táxi, além de prometer a Gwaine que não dirigiria.
Ele pergunta pelo nome de Arthur na recepção e é direcionado para um dos quartos do terceiro andar. A recepcionista parece compadecida e Merlin não sabe se é por causa dos olhos lacrimosos de Merlin ou por experiência na profissão.
Merlin estava tão entorpecido que mal notou Gwaine, Percival e Leon conversando no final do corredor, mas ele tinha certeza de que não avistara Uther ou Morgana em lugar nenhum.
A porta do quarto de Arthur estava entreaberta, uma fina tira de luz escapando para o corredor escuro. E foi quando a realização caiu sobre Merlin. Ele não podia fazer isso. Ele tem que dar meia-volta e voltar para casa, porque, foda-se, o que ele estava pensando? Eles não eram namorados ou algo do tipo. Que direito ele tinha de aparecer ali e segurar a mão de Arthur? Eles nem amigos eram. Apenas transavam de vez em quando, apenas isso. E Arthur nem sequer conseguia se lembrar disso!
É uma triste prova da sorte de Merlin que a decisão seja tomada de suas mãos.
"Entre logo." A voz de Arthur late do lado de dentro da sala. "Posso ouvir sua respiração ofegante. É irritante."
Congelado por uma fração de segundos, Merlin respira fundo e força as pernas a se moverem. Ele sabe que Arthur sabe que está lá, mas bate levemente os nós dos dedos na porta antes de entrar de qualquer maneira, apenas para ser educado.
"Uh, oi." Ele murmura, uma vez que entra na sala. Merlin nem pode culpar a falta de coerência verbal a suas idiossincrasias no momento. A verdade é que está focado em coisas mais importantes.
Ele vasculha o local com os olhos. Arthur está reclinado na cama do hospital, com o jornal na mão e parecendo irritado. Ele não está ligado a nenhum aparelho ou monitor e de acordo com seu tio Gaius, isso é uma coisa boa – pacientes graves são monitorados o tempo todo. Isso alivia um pouco da tensão de Merlin. Arthur não responde à saudação além de uma única sobrancelha levantada.
"Você parece estar bem." Merlin divaga, as palavras saindo de sua boca em uma tentativa desesperada de preencher a crescente tensão na sala estéril. "Como você está se sentindo? Os médicos disseram…"
Arthur revira os olhos, acenando impacientemente para interromper a tentativa esfarrapada de Merlin de uma conversa desajeitada. Afinal, Merlin já disse isso, ele não é o melhor em diálogo descontraído e sociável.
"Quem é você?"
É a pergunta exata que Merlin temia. Como ele deveria responder a isso? Oi, sim, eu sou o cara com quem você anda transando há três anos? Sim, eu realmente não sei o que estou fazendo aqui, já que você provavelmente não faria o mesmo por mim se eu estivesse no seu lugar?
Claro. Soa magnífico.
"Eu sou um amigo." Merlin finalmente responde. "Do trabalho. Nós trabalhamos juntos. Sim. É isso."
Então, Merlin nunca foi o melhor dos mentirosos, processe-o. (Hah, entendeu? Processe-o. Arthur é advogado e Merlin trabalha num escritório de advocacia e – sim, ok, você provavelmente entendeu.)
"Um amigo." Arthur repete e é claro como o dia que ele não acredita em Merlin. De modo nenhum. "Do trabalho."
"Sim." Merlin se apressa em explicar. "Quer dizer, você é um advogado, como provavelmente sabe, e eu sou um paralegal na Pendragon & Associados, e antes que você possa ficar todo arrogante e mesquinho com o fato de ser um advogado experiente e provavelmente pensa que paralegais são pessoas que não conseguiram ingressar na faculdade de direito, deixe-me lembrá-lo que um, isso é uma suposição totalmente infundada e dois, eu sou muito bom no que faço e já salvei sua bunda de advogado mais vezes que posso contar porque cara, a pesquisa é a base número um nos casos vencedores." Ele respira fundo no final de seu discurso, corando quando percebe que Arthur o olha com uma mistura de perplexidade, aborrecimento e diversão.
"Eu não duvido disso." Arthur cantarola sem compromisso e Merlin não sabe exatamente do que ele está falando. "Então, amigo, eu realmente não sei o seu nome."
"Oh." Merlin se surpreende, percebendo tardiamente que se esqueceu completamente de se apresentar. Mas quem poderia culpá-lo? Não é como se houvesse um manual para esse tipo de situação. "Merlin. Merlin Emrys. E antes que você faça qualquer piadinha, minha mãe escolheu meu nome por causa do pássaro."
Arthur assente, um olhar pensativo nos olhos. É bastante aterrorizante, porque Merlin sabe que Arthur só tem esse olhar brilhante quando está prestes a fazer um comentário incisivo, preciso e perceptivo que derruba qualquer oponente, e agora esse olhar é direcionado a Merlin.
"Certo, Merlin." Arthur acentua a primeira sílaba de seu nome e aquilo faz com que haja um misto de reações em Merlin. Primeiro, como Arthur poderia fazer isso com tanta naturalidade como costumava fazer se não se lembra de nada? E Segundo, seu cérebro pode derreter sob o calor do olhar de Arthur.
É um pouco triste que Merlin não se lembre de Arthur ter feito tanto esforço para seduzi-lo por muito, muito tempo. Provavelmente, desde aquele primeiro encontro na festa da Pendragon. Quer dizer, Merlin é fácil quando se trata de Arthur e Arthur sabe muito bem disso, então por que se preocupar? Não é exatamente engenharia espacial. Merlin está ansioso para largar o que quer que esteja fazendo no segundo exato em que recebe um texto ou uma ligação de Arthur para uma foda rápida. E não, Merlin não está amargando esse fato, por que você acha isso?
Mas, de volta ao ponto.
"É interessante você afirmar que somos amigos," Arthur continua, sorrindo com todo seu rosto estupidamente bonito, suas pálpebras baixas sobre um olhar mortalmente quente. "Especialmente quando você entra aqui, vestindo uma das minhas camisetas."
Merlin tenta não chiar ao olhar para baixo, constatando que, sim, Arthur está certo, aquela era uma de suas camisetas – a verde que Arthur odeia, mas Merlin secretamente ama dormir com ela, porque não importa quantas vezes lave, sempre parece que há um resquício do cheiro de Arthur nela. Ele pensa que é assim que as borboletas se sentem antes de serem pregadas em um cartão, emolduradas e penduradas na parede.
"Ela não te servia mais e você resolveu passar para frente?"
O que, bem… é uma mentira deslavada! A camiseta ainda serve perfeitamente em Arthur, visto que cabem quase dois Merlins dentro dela. E Merlin pode ou não ter roubado a camiseta ou a mantido como refém – tudo depende de como a pessoa avalia a situação. Mas a questão é que Arthur já o vira vestindo-a e ele simplesmente não parecia se importar. Isso vale como uma doação, certo?
"Em vez de doar para um abrigo ou qualquer coisa do tipo eu resolvi doar para um amigo necessitado? Quão nobre da minha parte." Arthur fez pouco-caso.
"O quê?" Merlin gagueja, inteligentemente. "O que você quer dizer?"
Arthur bufa. "Ou aprenda a mentir melhor ou pare de fingir que não sabe do que estou falando. Sou um advogado, esqueceu?"
Merlin não está mentindo, certamente. Não é possível que Arthur não perceba isso. Ou, pelo menos, ele deveria perceber. Amigos é a melhor forma de definir o que eles tem sem soar vulgar.
"Sério, cara, eu não tenho ideia do que você está sugerindo. Nós não somos como…" Merlin bate as mãos num gesto destinado a abranger os corações, flores e açúcar que permeiam o relacionamento de Lance e Gwen, mas o mais provável é que acaba fazendo com que pareça um pássaro retardado. "Quer dizer, nós transamos feito coelhos, ocasionalmente." Merlin acrescenta a última palavra de modo a amenizar a baboseira que está dizendo. "Mas não é assim."
Uau, e o prêmio de maior incoerência vai para… sua mãe ficaria orgulhosa.
Há uma carranca que pisca no rosto de Arthur por um segundo antes de cair em sua expressão habitual de malícia e aquilo por si só deveria fazer com que Merlin fugisse. Imediatamente. Mas Merlin, o estúpido masoquista que é, fica.
"Ah." Arthur finalmente diz algo. "Entendi."
É surpreendente e um pouco doloroso ver Arthur assim, muito mais aberto do que ele já sequer pensou em estar com Merlin. É o Arthur que ele conheceu na noite da festa, sem a história compartilhada dos dois, que Merlin aprendeu mais por intermédio dos outros que qualquer coisa e Arthur provavelmente nunca se deu ao trabalho de conhecer.
A questão é que, não importa o que haja entre os dois no momento. Merlin não sabe o que aconteceu entre a noite da festa e o início do que quer que eles tenham se tornado. Mas ele sabe que o que aconteceu, tornou Arthur mais frio, insensível e indiferente. Ele não sabe o que deu errado – como eles se distanciaram ainda mais com o tempo.
Merlin sabe que na cama eles são uma combinação sincrônica perfeita, mas todo o resto é como um acidente de trânsito de proporções épicas. E o que mais dói é que Arthur às vezes nem parece notar isso, ou se importar.
Merlin esfrega a mão na nuca, deslocando o peso de um pé para o outro.
"Então, sim, eu só vim para ver como você estava. Você está bem?" Ele revisa sua pergunta mentalmente, percebendo o quão estúpida parece. "Quer dizer…" Ele se corrige rapidamente. "Você está bem, no nível que qualquer pessoa possa estar quando se tem quatro anos de sua memória faltando?"
Arthur concede a ele um olhar sardônico. "Idiota." Ele diz, mas é com o carinho habitual que ele sempre usa ao dizer aquilo, o que nunca deixa de aquecer o coração de Merlin. "O que você acha?"
"Ei! Eu achei que seria educado perguntar." Merlin retruca defensivamente.
Arthur sorri, mais malicioso ainda e parece prestes a dizer algo, mas Leon entra no quarto, interrompendo os dois.
"Merlin, você está aqui!" Ele exclama, parecendo aliviado. "Gwaine e Percy estão malucos atrás de você."
"Por quê?"Merlin franze o cenho, confuso.
"Eles estão tentando te ligar, mas você não atende o celular."
Merlin vasculha os bolsos, constatando que não está com seu celular.
"Devo ter deixado em casa na pressa de sair."
Assim ele espera, se tiver que procurar o motorista do táxi que pegou, por ser um idiota desatento, seus amigos jamais deixarão que ele escute o fim dessa história.
"Bem, é melhor eu ir acalmá-los, então."
Arthur move-se na cama de hospital, sufocando um gemido de dor. Ele parece querer dizer algo, mas um rápido olhar em direção a Leon faz com que desista. E Merlin, o idiota que é, sai em conformidade.
.Merthur.
"Lance." Merlin assobia ao telefone. "Onde diabos você está? Preciso de você imediatamente. Acho que ofendi mortalmente um serial killer."
É bom que o banheiro masculino esteja vazio, porque Merlin não aguentaria mais constrangimento naquela noite. Sua cota diária já foi cumprida, muito obrigado.
Os sons da festa estão a todo vapor fora do banheiro, servindo apenas para lembrá-lo que McHottie assassino ainda está lá fora em algum lugar.
Infelizmente para Merlin, Lance é um melhor amigo terrível. É isso, Merlin está revogando o selo de melhor amigo de Lance.
"Desculpe, desculpe." Lance pede em sua melhor voz manhosa, o que faz com que zero por cento das pessoas consiga ficar com raiva dele. O maldito sabe disso. "Ainda estou em casa. Você sabe como Gwen está nesses dias. Ela estava desejando pepino e pasta de amendoim. Sério, Merlin, você não tem ideia de como é difícil encontrar um mercado aberto há essa hora? E então ela comeu os dois juntos." O pobre Lance parece traumatizado para toda a vida.
Merlin simpatizaria totalmente com as angústias de Lance, mas agora ele está honestamente preocupado demais em tentar não provocar mais ninguém.
"Você é um imprestável." Merlin retruca. "Eu acabei de irritar um cara que pode ou não estar querendo conhecer meus órgãos por dentro agora."
"Oh." Responde Lance, finalmente parecendo dar atenção a verdadeira emergência no momento. "Quem?"
"Eu não sei." Merlin sussurra, abrindo a porta do banheiro masculino para olhar para fora. "Alto, loiro, meio bronzeado, gostoso pra caralho, olhos azuis que poderiam derreter diamante. Soa familiar?"
Merlin pode praticamente ouvir o espanto no silêncio de Lance. Merda. Quão fodido ele está?
"Não importa." Merlin suspira em seu telefone, saindo do banheiro masculino como um ninja.
"Arthur Pendragon." surge uma voz atrás dele e Merlin quase esmaga seu telefone – seu bebê, querido, caro demais para o salário que ele tem – em surpresa.
De onde diabos Sr. McHottie, ou melhor, Arthur, surgiu? Talvez Merlin tenha que rever seus conceitos sobre ninjas.
"O quê?" Merlin pergunta, mais por falta do que dizer.
Quanto Arthur ouviu da conversa? Será que o homem, que obviamente é da família Pendragon – ótimo, Merlin sempre pode contar com sua sorte, ou a falta dela – ouviu Merlin chamá-lo de serial killer. Em sua defesa, Merlin apenas insinuou que ele poderia ser um serial killer. É isso! Merlin estava perdendo seu emprego.
Arthur Pendragon estava de pé atrás dele, reclinando-se indolentemente contra a parede de mármore preto do corredor que leva aos banheiros, como se fosse o dono do lugar. O que, agora que Merlin parava para avaliar a situação, ele meio que era.
"Você disse que não sabia quem eu era, então eu estava me apresentando." Ele dá a Merlin um olhar lento, intenso e cheio de algo que Merlin não consegue distinguir bem o que seja. Merlin sente aquele olhar queimar sua pele, mesmo que esteja sob muitas camadas de alta-costura. Inferno, ele provavelmente está ridículo naquele terno e Pendragon só está olhando daquela maneira por quão ridículo ele acha que Merlin é. Ele mataria Elena na próxima vez que a visse. "Arthur Pendragon." Arthur repete, parecendo acreditar que Merlin precisa de ouvir aquilo duas vezes.
"Arthur." Merlin ecoa, meio ofegante, e assiste com fascínio quando o olhar de Arthur desce até os lábios antes de serpentear de volta para encontrar seus olhos. E uau, uau, é só ele ou está ficando mais quente aqui? Com certeza, deveriam chamar alguém da manutenção, para verificar o sistema de climatização, que falhou miseravelmente em cumprir seu papel.
Arthur se afasta da parede, aproximando-se de Merlin. E de repente, a parede às suas costas está muito próxima, pois não há espaço entre ele e o corpo sólido do loiro à sua frente. A mente de Merlin está em branco. E, certo… eu sei o que devem estar pensando agora, afinal, Merlin é o rei da falta de dicção. Mas a questão é que ele nunca, jamais, ficou sem palavras em sua mente. Muito pelo contrário, sua mente está sempre ligada, hiperativa e descontrolada. A única coisa que Merlin consegue fazer é sentir. O calor, que emana daquele corpo que deveria ser ilegal e aquele cheiro que faz com que Merlin queira lamber para saber se o gosto é tão incrível quanto.
"Não acredito que saiba o seu nome, garoto." Arthur ronrona, os olhos arregalados, e a maneira que ele diz garoto não é condescendente ou superior, nem em tom de comando, como alguns advogados costumam se dirigir a ele, achando que o cargo de Merlin é inferior, como se eles não precisassem nem sequer gravar o seu nome. Não, o modo como Arthur pronuncia aquela simples palavra é algo macio e caramelizado, como se Merlin fosse alguém que merecesse ser desejado.
"Merlin." Ele fornece, pressionando contra o mármore às suas costas, pois tem certeza de que se não se apoiar em algo, seus joelhos cederão. "Eu sou Merlin."
O canto do lábio de Arthur se levanta levemente revelando dentes levemente tortos, agora que Merlin está vendo de perto. E aquela pequena imperfeição em meio a tanta beleza é algo que deixa Merlin ainda mais sem fôlego.
"Olá, Merlin." Responde Arthur, sua voz grave e suave. E foda-se, Merlin nunca esteve tão excitado em sua vida. E Arthur sequer o está tocando, o maldito. Ele apenas paira ali, a centímetros de Merlin, com seu rosto perfeito e seu cheiro perfeito e até aqueles malditos dentes que fazem com que Merlin tenha que se conter para não ter uma ereção no meio de seu primeiro evento formal na nova empresa. Maldição! Arthur sequer falou cinco frases inteiras para ele.
"Arthur!" Uma voz feminina chama da sala principal do evento e o momento de carga elétrica entre eles é interrompido.
Merlin tem que se segurar para não choramingar, quando Arthur se afasta dele, se endireitando e voltando para a fonte da voz. Uma mulher alta, femme fatale, de cabelos escuros e um olhar azul de congelar até a alma de Merlin, caminha pelo corredor curto em seus Blahniks de 15 cm (o quê? Merlin pode não ter dinheiro, mas ele reconhece algo caro quando vê. E tudo bem, ele nem sabe se é realmente um Blahnik, é só um nome genérico que ele usa para designar um sapato feminino que provavelmente custa duas vezes o seu salário), nem um momento depois.
"Morgana." Arthur cumprimenta e oh.
Oh! Merlin é um idiota. Ele deveria saber que pessoas como Arthur não gostam de pessoas como Merlin. E a maneira como os olhos azuis marinho dessa mulher o perfuram como brocas de diamante, diz com todas as letras que Arthur não estava realmente dando em cima dele.
A decepção se instala no estômago de Merlin e a humilhação se equipara à mortificação anterior. Arthur provavelmente deu uma cantada nele para deixar sua namorada – Morgana – com ciúmes. Porque, ei, qual outro motivo ele teria?
Ótimo.
"Agravaine está perguntando para onde você foi, Arthur." Morgana afirma, mal se dignando a lançar meio olhar para Merlin. "Devemos ir falar com ele."
O restante do evento é um borrão. Ele se encolhe toda vez que seus olhos avistam Arthur no meio da multidão. Arthur nem uma vez olhou de volta, mas Morgana – que segura possessivamente o braço do loiro – parece que não faz outra coisa além de cravar os olhos frios em Merlin, durante todo o evento.
Merlin permanece apenas tempo suficiente para parecer que não está saindo na primeira oportunidade (não, ele não deixaria que Morgana percebesse que ela o intimidou), antes de fugir dali mais apressado do que um coelho. Já passa da meia-noite e alguns convidados já foram embora. Isso significa que Merlin não precisa desviar de muitas pessoas para pegar seu casaco. Ele entrega sua etiqueta numérica, tentando não se remexer enquanto o atendente se vira para pegar seu casaco. Há uma sensação incômoda de que alguém está com os olhos cravados em suas costas, mas ele não se atreve a virar e dar de cara com o olhar de Morgana novamente. Saia dignamente, Merlin repete como um mantra em sua mente.
Apenas quando o elevador alcança o trigésimo segundo andar, que Merlin percebe o pedaço de papel enfiado no bolso interno do casaco que definitivamente não estava lá antes. O papel, quando ele o pesca, é creme, pesado e liso da maneira que todo papel de boa qualidade é. Está em branco de um lado. Franzindo a testa, Merlin o vira, mordendo o interior da bochecha de surpresa quando vê "Arthur Pendragon, Advogado sênior, Pendragon & Associados", com detalhes de contato gravados em bronze enferrujado. Há um número rabiscado abaixo disso, escrito com uma letra dura e estranhamente elegante, seguido de um "Me ligue".
Merlin franze o cenho mais ainda. Que tipo de pessoa faz isso em vez de se apresentar adequadamente? Quando enfim chega em casa, Merlin ainda está revirando o papel em suas mãos, quando a resolução o atinge. Arthur Pendragon não estava tentando fazer ciúmes para a namorada. Ele estava tentando arrumar uma diversão aleatória.
Merlin amassa o pedaço de papel com fúria, seus passos ecoando alto pelas escadas até seu apartamento. Que tipo de idiota aquele cara acha que Merlin é?
Ele caminha decidido até a lixeira da cozinha, mas algo o obriga a desamassar o papel e salvar o número em seu celular, apenas quando está à frente da lixeira.
Foda-se, ele provavelmente vai para o inferno por isso.
.Merthur.
Não é segredo para Merlin que Morgana Pendragon não goste muito dele.
Ele não sabe, no entanto, o que motivou-a.
Mas, pelo menos, ela atira menos olhares atravessados para ele, desde a primeira vez que se viram. Há claramente um mal-entendido, pois Merlin tem certeza que ela acha que foi Merlin quem iniciou as coisas, naquela fatídica festa.
Quer dizer, o que ela pensa? Que Merlin seduziu Arthur para subir na escada social? Que ridículo! Basta olhar para Merlin para saber que isso é impossível. Que habilidades sedutoras Merlin poderia ter para seduzir qualquer um? Quanto mais Arthur!
Além disso, Merlin nem sabia quem Arthur era, na ocasião. E mesmo que tivesse alguma autoestima, ele teria que ter dobrado o tamanho de suas bolas para criar coragem de abordar qualquer pessoa.
A questão é que ele fica mais que surpreso quando Morgana Pendragon toca a campainha de seu pequeno apartamento no dia seguinte à sua visita a Arthur no hospital.
É um sábado, graças a Deus, mas isso também significa que Merlin ainda está na cama às 12:00, quando Morgana Pendragon decide aparecer e bater à porta de seu apartamento. O que também significa que Merlin responde à porta com o pior caso de hálito matinal e cabeleira bagunçada conhecido pelo homem, em nada mais do que a camiseta de Arthur e suas boxers dos ursinhos carinhosos. O que deixa toda a situação bem mais constrangedora do que ela deveria ser.
Realmente, não é de grande ajuda que Merlin não tenha adquirido o hábito de olhar através do olho mágico para verificar quem está batendo antes de abrir a porta, então o desdém que ele recebe no franzir de lábios de Morgana e no arquear de sobrancelha por sua aparência não é totalmente injustificado.
Entretanto, ela não é a pessoa mais amável e Merlin prefere dar a língua mentalmente para ela do que admitir suas falhas. O que a Srta. Perfeita, Sempre Fatal, saberia sobre os problemas dos meros mortais, afinal? É sábado, por cristo! E não importa o tanto que Uther e Morgana estimulem os associados a manterem-se ativos no final de semana, para eventuais emergências, Merlin merece uma folga!
"Então…?" Morgana pergunta, erguendo uma sobrancelha impaciente. Não ajuda nenhum pouco que Arthur costume fazer isso. Pois saber que Arthur não se lembra dele faz com que Merlin sinta mais falta de tudo. Quão patético é isso? "Você não vai me deixar entrar?"
Imaginando que ele não tem mais dignidade a perder, Merlin assente, uma mão subindo para coçar o estômago antes de ir para a cozinha para pegar uma xícara de café.
"Sirva uma para mim também." A voz de Morgana chama da sala e Merlin desconsidera totalmente o pedido.
Bem, ele desconsideraria, exceto que ele realmente gosta de suas bolas onde estão, obrigado.
Dez minutos depois, os dois estão mergulhados em seu sofá, o mais distante possível um do outro. Morgana não se deu ao trabalho de beber de seu café. Depois de cheirá-lo e fazer uma cara de desgosto, ela apenas repousou a xícara sobre a mesa de centro. Mas ela arranha carinhosamente o estofamento do encosto e Merlin esconde um sorriso atrás de sua própria xícara. Se Morgana sequer desconfiasse que Merlin encontrou aquele mesmo sofá abandonado na rua, ela provavelmente se recusaria a sentar nele.
E tudo bem, Merlin sabe que o gosto do seu café é péssimo, mas é a cafeína que importa. Seu sistema precisa disso. Ainda mais se tiver que lidar com Morgana num sábado. Morgana espera pacientemente que ele termine sua xícara de café, parecendo entender que Merlin precisa daquilo, se terão uma conversa lúcida.
"Então?" Merlin começa. "O que posso fazer por você?"
Por que Merlin tem certeza que Morgana não apareceu aqui para uma visita social. Merlin pode ver em seus olhos que ela tem algo em mente e não sairá dali enquanto não estiver satisfeita. Merlin tem que admitir, há uma razão por ela ser a Gerente dos associados da Pendragon & Associados e não Arthur. Ela herdou aquela frieza e calculismo de Uther que parecem passar desapercebidos em Arthur num primeiro contato. (Agravaine, por outro lado… Merlin não gosta de ficar muito tempo perto dele. Apesar de não ser um Pendragon, propriamente, o cara dá arrepios de maneiras totalmente diferentes.)
Morgana lança um olhar para a própria xícara, ainda sobre a mesa de centro, como se dissesse com isso que não beberia. Não que Merlin precisasse da dica, ele sabe que é café de baixa qualidade e tem gosto de merda, tudo bem.
Ela lança um olhar de nojo geral ao apartamento, antes de cruzar as pernas. E, ei! Passar tanto tempo com Elena o está afetando, pois ele sabe que são Jimmy Choos, não apenas um nome aleatório que Merlin está colocando aos sapatos. Morgana se arruma confortavelmente antes de se dignar a olhá-lo novamente.
"Então, Merlin." Ela começa. "Há quanto tempo você e meu irmão –" Um gesto com a mão é o suficiente para que Merlin interprete aquilo como transando como um casal de coelhos no cio.
É claro que ele desconfia do súbito interesse de Morgana, mas Merlin quer saber onde aquilo vai dar. "Três anos." Ele responde embalando sua caneca de café, mesmo que esteja vazia agora. É mais como uma medida preventiva, colocando algo entre ele e o inimigo. Talvez por isso ele tenha cruzado as pernas à frente do peito também. "Mas você já sabia disso."
Morgana contrai o lábio. "Sim, eu sabia." Ela admite. Não que Merlin precisasse daquela admissão, de qualquer jeito. "E certamente Arthur deixou claro que seu, ah, seu relacionamento não é um com a opção de um futuro." É formulado como uma pergunta, mas as palavras de Morgana são realmente mais uma declaração que qualquer coisa.
Ah, Merlin pensa, então é aqui que chegamos. "Ele deixou isso bem claro, sim, mas não vejo como isso seria da sua conta."
Unhas compridas e bem feitas batem sobre o tampo da mesa de centro. "Não." Ela concorda. "Você provavelmente não entende mesmo. Mas você não acha que três anos é tempo suficiente para se entediar com alguém? Procurar pastos mais verdes? Uma abordagem mais ecológica, talvez?"
Merlin não é advogado. Ele descobriu muito cedo que jamais se daria bem na frente de um júri, um cliente, muito menos num tribunal. Ele já disse antes que não é o melhor com as palavras, mas se tem uma coisa que ele odeia com todas as forças é aquele joguinho de palavras que Morgana e Arthur desempenham tão bem. Ele odeia esse jogo político e analítico.
"Você quer que eu termine com ele." Merlin afirma abruptamente, chegando direto ao ponto em questão.
Morgana torce o nariz, como se o simples comentário a desagradasse. "Isso certamente implica que vocês dois estavam num relacionamento comprometido e de longo prazo em primeiro lugar. O que nós dois sabemos que não é o caso, então não. Quero que você pare de ser a foda regular dele."
Com perfeita honestidade, Merlin não tem ideia do que ele fez com Morgana para que ela o odiasse tão intensamente. Suas interações nunca poderiam ser chamadas de amistosas, mas, pelo menos, sempre foram cordiais. Isso, no entanto, passa direto do reino da cordialidade para o território de… Inferno, isso é rude!
Ele endurece de raiva e pode sentir seu instinto querendo jogar o café intocado de Morgana na cara dela e ordená-la para sair. Provavelmente uma coisa muito estúpida a se fazer, pois Morgana pode ser uma mulher, mas Merlin não duvida nem por um segundo que ela poderia matar alguém com suas próprias unhas e sumir com o corpo.
"Não vejo porque eu deveria ouvi-la, não quando isso dificilmente é da sua conta." Merlin tenta, bravamente.
Morgana se reclina no sofá e Merlin sente inveja passageira de como ela pode transformar os móveis mais desagradáveis em seu trono pessoal.
"Não seja tolo, Merlin. Você acha que estou fazendo isso do nada? Arthur é meu irmão mais novo, ele me conta as coisas. Na verdade, ele tem intenção de acabar com essa aventura de vocês há meses. Estou apenas fazendo um favor aos dois e terminando as coisas por ele, já que isso não importa agora que ele nem se lembra quem você é."
É um soco no estômago que rouba toda a respiração dos pulmões de Merlin, evocando memórias vagas dos ataques de pânico que Merlin costumava ter no ensino médio, logo após a morte de seu pai.
"Meses?" Ele repete, todo orgulho morrendo dolorosamente.
De repente, a caneca em sua mão parece pesada demais, então ele a coloca na mesa de centro com um barulho alto. Deve ser uma prova de quão patético ele parece, porque algo no olhar de Morgana suaviza e ela desajeitadamente dá um tapinha na mão dele.
"Olha," Ela diz. "tenho certeza que Arthur gosta de você, mas certamente você está ciente de que nada poderia ter saído… bem, do que vocês tem. Ele precisa mais do que um garotinho mal saído das fraldas para ficar ao lado dele. Ele não é mais um adolescente experimentando os prazeres da vida."
Claro, Morgana, por que você não vai em frente e torce a faca logo de uma vez? Tudo bem, Merlin sempre foi masoquista de qualquer maneira.
Merlin não consegue encontrar o olhar dela. Em vez disso, ele olha cegamente para sua caneca de Star Wars – a caneca que Arthur costumava usar, quando raramente pegava no sono, em seu apartamento, após uma sessão de foda e um exaustivo dia de trabalho.
Há uma sensação quente e insistente na parte de trás de seus olhos, mas Merlin não quer pensar sobre isso, ou sucumbirá na frente de Morgana.
Após um momento prolongado, Morgana se levanta. "Estou indo." Ela diz, e Merlin até poderia dizer que sua voz é suave, não fosse a bomba que ela acabara de jogar em sua cabeça sem nenhuma delicadeza.
Merlin não se lembra de responder nada, nem mesmo de acenar em concordância. Mas ele deve ter feito uma das duas coisas, porque ele acorda no sofá, às sete da noite, a sala escura e seu coração, um músculo valente batendo dolorido no peito.
Ele já disse que sua vida é uma droga?
.Merthur.
Quando recebe sua primeira promoção na Pendragon, oito meses depois que tudo começou, a primeira pessoa que Merlin pensa em ligar depois de sua mãe é Arthur. É uma reação brusca que ele não pode evitar. Seu instinto arranhando sob a pele, desesperado pela aprovação do seu… Bem, eles não são nada, no final das contas.
Não é assim que as coisas funcionam entre eles e Merlin sabe disso, é claro. Então ele empurra aquela vontade com força para dentro do próprio peito. Então ele liga para Will em vez disso. Will pode ser um idiota na maior parte do tempo, mas ele ri e divaga com Merlin sobre seu recente sucesso. Cuidado, Will, eu vou subir tão rápido nessa cadeia corporativa que você não saberá o que o atingiu. Pendragon, Emrys & Associados chegando. Pensar nos sobrenomes deles lado a lado traz uma estranha reviravolta em Merlin, mas ele insiste em dizer para si mesmo que aquilo não é nada.
Will fica em êxtase com a notícia, tanto que convence Merlin a convidar os amigos a uma rodada de bebidas no The Rising Sun mais tarde naquela noite em comemoração. É reconfortante saber que algumas coisas nunca mudam, como sua amizade com Will, que apesar de ter tomado um caminho completamente diferente de Merlin, não deixa de estar ali por ele.
Eles se encontram às oito do lado de fora do bar que já virou o ponto de encontro deles. Will conseguiu ser liberado do plantão com Gaius, apesar de ter que fazer horário dobrado na semana seguinte e passa o braço por sobre o ombro de Merlin de modo orgulhoso, enquanto caminham em direção à mesa. Freya está agarrada ao outro braço de Merlin e os três sorriem como patetas.
Lance, Gwen, Elena, Gwaine, Percy, Elyan e até Mordred, o primo não tão afeiçoado de Merlin, que infelizmente é um dos associados da Pendragon, já estão ali.
"Quem convidou ele?" Freya sussurra em seu ouvido, ao que Merlin se limita a dar de ombros. Ele não deixaria que Mordred estragasse sua noite, como tantas vezes fizera no passado.
Em defesa de Mordred, ele não fora nada mais, nada menos do que cordial durante toda a noite. Talvez porque as fofocas na Pendragon andam como uma chama num caminho de pólvora e a maioria das pessoas saibam que ele e Arthur estão se pegando. Não é bem um segredo, mas muitas pessoas parecem achar que há mais do que realmente existe no relacionamento deles e Merlin tem certeza de que Mordred é um deles. Por que mais seu primo, que implicara com ele por toda a infância, pelos motivos mais idiotas do mundo, simplesmente deixaria de importuná-lo logo após entrarem na Pendragon?
A noite passa em um borrão de comida gordurosa, conversas altas, piadas internas e rodadas intermináveis de cerveja e tequila. Eles até convencem Gwen a virar algumas doses, Lance insistindo que eles tem leite bombeado o suficiente na geladeira para que Katie passe uns dias sem o peito da mãe. Quando o relógio bate às dez, Merlin está agradavelmente animado, para não dizer completamente bêbado.
Percy e Gwaine saem logo em seguida, gemendo sobre precedentes de sentenças, pesquisas de caso ou algo assim, Merlin não tem muita certeza. Ele está mais certo de que é uma desculpa esfarrapada para transarem a noite toda. Gwen e Lance vão logo em seguida, pois precisam pegar Katie na casa do pai de Gwen, mas insistem que Elyan continue e pegue um Uber mais tarde. Elyan ainda está na faculdade e Gwen nunca foi uma irmã superprotetora, de qualquer forma, mesmo que eles estejam morando juntos novamente.
Freya ameaça uma despedida, meia hora depois, dizendo que alguém tem que levar Will para casa, que já vomitou no banheiro e desmaiou há quase uma hora na cadeira do canto. Will nunca fora muito resistente com álcool. Elena, no entanto, diz que também precisa ir embora, pois precisa trabalhar cedo no design da nova coleção de sua chefe. Merlin a conhecera uma vez e sabe que Mithian não é uma mulher para se deixar nervosa.
No final, sobram Elyan, Mordred e Freya. E Merlin consegue até rir das histórias constrangedoras que Mordred começa a contar – a maioria causadas pelo próprio Mordred – sobre a infância deles. Nada daquilo é novidade para Freya, de qualquer forma, visto que ela estava presente na maioria delas e já ouvira as outras centenas de vezes. E Elyan não parece dar a mínima para Merlin ter vestido o antigo vestido de noiva de Hunith e dizer que se casaria com Henry Cavill, aos oito anos de idade.
Elyan vai ao banheiro masculino e Mordred se dirige ao bar para mais uma rodada. Merlin está longe de reclamar, já que Mordred está sendo simpático e feliz uma vez na vida. Outra coisa que ele está longe de reclamar é que ninguém deixou que ele pagasse por nada a noite toda. A noite está perfeita.
Então é só ele e Freya, o braço de Merlin pendurado amigavelmente sobre o ombro dela, enquanto ela lança para ele a piada habitual de que eles deveriam tentar novamente. Os dois caem na gargalhada com isso, ambos sabendo que o romance que tiveram na adolescência foi muito mais carência e amizade do que qualquer outra coisa.
Merlin ainda está sem ar de tanto rir, quando Arthur Pendragon entra no bar.
Ok, isso soa totalmente como uma daquelas piadas ruins, não é? Um loiro, alto, mal-humorado e pensativo entra num bar.
Realmente, não era o que Merlin estava esperando da noite. Ele nem sequer sonhara com Arthur pisando num bar tão simples quanto o The Rising Sun. O que diabos ele estava fazendo ali, de qualquer forma?
Os olhos de Arthur cravam imediatamente em Merlin no segundo em que ele entra, seu olhar se fixando no braço de Merlin, que ainda repousa no encosto atrás de Freya, e suas narinas dilatando e, uau, tudo bem, ele parece chateado.
Provavelmente é porque ele está um pouco mais do que tonto, mas Arthur parecer chateado com ele nessa situação está começando a deixar Merlin irritado. Essa não deveria ser uma noite de merda.
Merlin acabou de ser promovido, pelo amor de Deus. Tudo o que ele quer é absorver esse sentimento de conquista pessoal e crescimento na carreira, rolar nele e engarrafá-lo para que possa revivê-lo sempre. Ele não quer lidar com Arthur hoje à noite. Nuh-uh.
As sobrancelhas de Arthur estão no modo serial killer quando ele chega à mesa. Elyan, o idiota, ainda não está a vista e quem sabe o que Mordred está fazendo no bar, provavelmente flertando com um dos funcionários, já que não é necessário tanto tempo para fazer um maldito pedido. Não que Mordred fosse de grande ajuda, ele provavelmente irritaria Arthur ainda mais, o idiota que é.
"Merlin." Arthur rosna em saudação e Merlin assente em resposta, incerto de que consiga fazer mais do que isso. "Creio que não conheça sua amiga."
Em sua peculiar interação de dez segundos, estranhamente cheia de tensão, Freya conseguiu escapar de debaixo do braço de Merlin.
"Uh, oi, Arthur." Merlin engasga. "Essa é Freya." Ele oferece e consegue perceber o semblante de Arthur se fechando ainda mais, mesmo que Merlin não consiga decifrar o porquê em seu atual estado de embriaguez. "Ela trabalha com hotelaria e turismo aqui na cidade. E é minha amiga de infância. Sim. Freya, este é o Arthur. Arthur Pendragon!" Merlin se corrige rapidamente, tudo que ele não precisa é que Arthur ache que está falando sobre ele para seus amigos. "Arthur Pendragon, da Pendragon & Associados, como você provavelmente pode adivinhar pelo nome dele, já que…"
Merlin não sabe porque está tagarelando, mas Arthur parece feliz de tirá-lo de sua própria miséria.
"Merlin." Arthur diz, sorrindo – e Cristo, porra, esse é um sorriso aterrorizante que faz Merlin querer se mijar, ou talvez seja a bebida entrando em ação novamente – no que provavelmente é o caminho mais hostil e perigoso que um ser humano já conheceu. "Cale a boca."
"Certo." Merlin balbucia, sem realmente emitir som, antes de fechar a boca.
Claro que é nesse momento que Mordred decide voltar de onde quer que ele tenha desaparecido, porque Merlin sabe que não leva tanto tempo assim para alguém conseguir uma rodada no bar.
"Oh, ei, Arthur." Mordred cumprimenta e, certo, Merlin esqueceu que Arthur é superior direto de Mordred. O que é estranho, porque Mordred não é nada mais para Merlin do que seu primo irritante, que costumava sujar as calças de Merlin com lama e dizer que Merlin tinha se cagado, enquanto Arthur é, bem… Arthur. O maior advogado da empresa para qual ambos trabalham. Socialização desajeitada com ambos, num bar aleatório, não deveria estar sob os deveres de Arthur, deveria? Hã.
O álcool zumbindo em seu sistema o deixa bastante confuso.
"Estou levando Merlin para casa." Arthur diz a Mordred, puxando Merlin por um braço.
Merlin protesta vigorosamente. Exceto que agora ele está pressionado contra a longa e quente linha do corpo de Arthur e isso é incrível.
"Eu acho que não." Freya se levanta. "Eu disse para a mãe dele que o levaria embora."
"Não acho que ela vá se importar com quem o leve." Arthur rosna de volta. "Na verdade, acho que ela preferiria que alguém sóbrio o levasse para casa."
Merlin tem que concordar com Arthur nesse ponto. Ele tenta acompanhar a conversa, mas perde o controle, apanhado no delicioso perfume de Arthur e na tentativa de ficar de pé em seu estado sem desfalecer. Na maioria das vezes ele só quer se esfregar em Arthur como um animal no cio, sem vergonha ou pudor. Mas Merlin não está em condições de fazer nada disso no momento, Graças a Deus.
No final das contas, parece que Arthur vence a discussão, pois ele leva Merlin para seu Masserati conversível estupidamente brilhoso – Merlin diria que é um caso de supercompensação ter um carro tão chamativo e caro, se não soubesse por experiência própria que não é o caso – e o empurra com delicadeza para o banco do passageiro.
Merlin deve ter adormecido em algum momento, porque quando ele abre os olhos, estão estacionados na garagem subterrânea de Arthur. Oi?
"Casa?" Merlin deixa escapar.
E sim, o álcool sempre piora a eloquência já frágil de Merlin. Não é como se não soubesse que aquela não era a casa dele, mas já estivera ali tantas vezes, que às vezes parecia ser algo próximo disso.
A única resposta de Arthur é um rude "não" antes de sair do carro, contornando o capô para dar uma mão a Merlin, enquanto este sai, instável.
"Minha mãe?" Merlin consegue perguntar, se sentindo meio nauseado, enquanto Arthur o leva a caminho do elevador.
"Pedi para que Mordred a avisasse que você passaria a noite fora, não acho que seria a melhor primeira impressão levá-lo para casa assim."
Certo. Arthur jamais quereria manchar sua reputação dessa maneira, mesmo que não desse a mínima para o que Hunith pensava dele. E desde quando Arthur e Mordred são tão íntimos, afinal? Será que Arthur estava indo ao The Rising Sun encontrar com Mordred? Não. Melhor não ir por esse caminho.
Arthur o leva ao banco do elevador e Merlin tenta não se sentir julgado pelo… manobrista? Merlin não sabe ao certo o nome do cargo da pessoa que é responsável por apertar os botões dos andares. Na verdade, ele nem acha que aquilo deveria ser uma profissão. O que há com as pessoas podres de ricas? Elas não conseguem nem apertar o botão do próprio andar sem que seus dedos caiam?
Merlin cochila levemente no ombro de Arthur no caminho.
O apartamento de Arthur está escuro e quando eles chegam lá, Merlin percebe que Arthur o está carregando nos braços, mas não luta contra isso, sonolento do jeito que está. É o máximo que vai receber de suas fantasias mais bucólicas, de qualquer maneira.
Arthur vai direto para o quarto, depositando Merlin com delicadeza na cama e começando a retirar seus sapatos.
Como se um interruptor fosse acionado, todos os traços da sonolência induzida pelo álcool se dissipam quando Arthur começa a desabotoar suas calças. É pavloviano, na verdade, e Merlin tem tantas piadas correndo na mente agora que você não quer nem saber.
"Vamos lá, vamos lá." Ele geme, saindo de sua camiseta de Homem-Aranha com a estampa desbotada. "Você está muito devagar."
"Nós não vamos transar, Merlin." Arthur sentencia, pressionando o tronco de Merlin contra a cama e Merlin deixa se levar pelo entorpecimento brevemente.
"Por que não?" Merlin franze o cenho.
"Porque você está bêbado, idiota." Arthur diz, meio ranzinza demais para seus padrões.
"E daí?" Merlin insiste, se colocando sentado novamente. "Não seria a primeira vez."
Merlin está certo. Não seria a primeira vez. Mas geralmente ele não está tão bêbado assim.
Arthur se afasta dois passos, encarando Merlin e franzindo os lábios. Ok, Merlin sabe que o deixou mais irritado agora. Ele espera que Arthur o mande embora, mas ao invés disso, Arthur começa a tirar as próprias roupas.
Merlin provavelmente deveria se sentir mal por não ter um pingo de resistência contra o abdome esculpido de Arthur. Mas na verdade, ele não dá a mínima. O que é isso que todas os adolescentes estão dizendo atualmente? Sorry, not sorry?
Quando Arthur chega até Merlin, ele está completamente nu, enquanto Merlin ainda está brigando com a ideia de botões e zíperes e eles são o trabalho diabo. Ele ainda está com seus jeans e está lutando como o inferno com a braguilha.
Arthur bufa, pressionando a mão no peito de Merlin empurrando-o para baixo, para que possa despojar Merlin do resto de suas roupas. Merlin provavelmente não deveria achar Arthur despindo-o tão sexy quanto ele acha naquele momento, mas ei, culpe o álcool.
Jeans e boxers finalmente descartados – Merlin só espera que Arthur não tenha se desanimado com a estampa de arco-íris que Merlin escolhera para aquela noite, não é como se estivesse planejando qualquer ação –, Arthur sobe uma das pernas de Merlin e Merlin acha que a ação vai começar direto naquela vez. Mas como sempre, Arthur é um filho da puta ótimo na cama e deixa a ponta do nariz frio traçar uma linha delicada ao longo da pele interna e macia da coxa de Merlin.
Merlin, por outro lado, já está mais do que pronto para a ação e deixa suas pernas se separarem num convite sem vergonha. Arthur apenas paira lá por um momento, inalando o perfume de Eau de Merlin – e sim, isso poderia ser nojento após um longo dia de trabalho, mas Merlin tomou banho antes de ir ao bar com os amigos.
A verdade é que Merlin não daria a mínima se fosse outra pessoa fazendo aquilo. Ele diria até que o ato era terno, de um amante para outro. Mas como é Arthur, Merlin tem que se lembrar que aquilo é apenas mais um dos inúmeros fetiches de seu parceiro.
Mas então, Arthur o vira de joelhos em um único movimento, empurrando para cima da cama para que Merlin possa segurar-se na cabeceira.
As mãos de Arthur queimam como se fossem chamas, enquanto ele as corre pelo corpo de Merlin, pressionando-a contra o osso do quadril, acentuado na pele pálida de Merlin, antes de traçar uma linha até seu umbigo. Merlin sente o chupão vicioso na parte lateral do pescoço e depois outro na nuca e sabe que eles deixarão marcas, mas não poderia se importar menos.
Merlin está totalmente duro agora, o pau escorrendo abundantemente e negligenciado. Desde que Arthur conseguiu fazê-lo gozar sem se tocar, há três meses – quando Merlin estava muito chapado de maconha de uma noite de irresponsabilidades com Will – Merlin notou como Arthur preferia vê-lo gozar assim e, sempre que possível, Merlin cedia a isso. Não que Arthur tenha pedido. Nem sequer uma vez.
E era exatamente essa a questão. Arthur era sempre muito altruísta na cama. Mesmo que eles nunca tenham falado muito sobre isso, ele sabia ver o que mais excitava Merlin e colocar o prazer de Merlin acima do seu próprio na cama. Arthur era um tipo de amante raro e Merlin sabia que tinha tirado a sorte grande. Por isso, ele se empenhava ao máximo para estar à altura.
Mas às vezes, Merlin imagina como seria deixar Arthur totalmente incontrolável e na busca pelo próprio prazer. Não foi apenas uma vez que Merlin se perguntou se não faltava algo em si para Arthur não agir desesperado por alívio, como outros caras.
Assim, ele enrola os dedos na cabeceira esculpida da cama, onde várias marcas de unhas, cortesia de Merlin, residem.
"Vamos, Arthur." Ele geme, quase num lamento, mexendo a bunda o mais sedutoramente que consegue contra o pau de Arthur.
Não é como se eles tivessem passado da fase do constrangimento. Merlin se acha absurdamente ridículo fazendo aquele tipo de coisa. Ainda mais quando se tem um parceiro como Arthur que é como um deus do sexo e não precisa de esforço para ser sensual. Mas como Arthur sempre parece estimulado por qualquer coisa que Merlin faça, tem se tornado mais e mais fácil se deixar levar.
"Foda-se." Arthur sussurra atrás dele e é exatamente o que Merlin queria ouvir – mesmo que sempre tema estar sendo apenas ridículo antes que Arthur professe sua aprovação de alguma forma.
As mãos de Arthur deixam os quadris de Merlin para separar suas nádegas, mantendo-as abertas e simplesmente olha. Merlin sabe que seu rubor de vergonha é flagrante e ele se contorce no lugar. Arthur quase rosna para que Merlin fique parado. O que faz com que Merlin queira acatar a "ordem". Não é sempre que Arthur fica tão dominador assim, só aconteceram duas ou três vezes até agora, mas em todas ocasiões, Merlin atirou sua carga mais rápido do que um canhão e teve marcas em seu corpo deliciosamente dolorido por dias.
Arthur se inclina e coloca os dois polegares – Sim, Merlin sabe quais dedos são apenas pelo tato agora, processe-o – sobre o anel de músculos, inclinando-se ainda mais com o rosto em direção a Merlin.
Rimming é quase certamente garantido para reduzir Merlin a uma bagunça chorosa. Ele nunca conseguiu gozar assim – não que Arthur nunca tenha tentado – mas definitivamente é a parte das preliminares que Merlin mais adora.
Ele abaixa as mãos da cabeceira da cama, para segurá-las nos lençóis, miando nos travesseiros absurdamente macios e caros de Arthur com as provocantes lambidas em sua borda. Arthur, o bastardo, para assim que percebe que as mãos de Merlin deixaram a cabeceira da cama.
A mente embriagada de Merlin não entende o porquê imediatamente. Mas então ele se lembra. Arthur gosta de desfrutar daquilo de duas maneiras. A primeira é com Merlin empurrando sua cabeça mais fundo contra ele, fazendo com que Arthur fique com o queixo todo bagunçado de saliva e quase sufocando-o no processo, às vezes, até prendendo-o entre as coxas. E a segunda, é com Merlin totalmente aberto e entregue, como se o cu de Merlin fosse um banquete a la carte e Arthur fosse o filho da puta mais sortudo do mundo em poder desfrutar dele.
"Coloque as mãos de volta." Arthur rosna, meio ofegante, e Merlin luta para seguir seu comando, enquanto Arthur envolve as coxas de Merlin com os braços, dando um puxão na base para empinar o quadril de Merlin ainda mais. Merlin quase choraminga com a repreensão implícita nas palavras. Arthur não volta sua atenção ao trabalho até que as duas mãos de Merlin estejam firmemente de volta à cabeceira. Merlin secretamente adora quando Arthur se deixa levar assim.
As coxas de Merlin estão tremendo no momento em que Arthur coloca um dedo nele, a língua ainda passeando ao redor do dedo, enquanto lá dentro, o mesmo tenta localizar sua próstata como um míssil que procura calor.
Merlin morde um dos travesseiros para abafar um gemido de prazer e Arthur remove o dedo em punição, antes que Merlin se lembre que uma vez, logo no início de tudo, Arthur confessou, bêbado de prazer, que o que ele mais gostava era de ouvi-lo perdido em prazer. Desviar o rosto do travesseiro para que seus sons não sejam mais sufocados faz com que o dedo de Arthur volte a empurrar dentro dele e os dois compartilham um sorriso travesso.
Merlin uma vez comentara que entendia o apelo por trás da franquia de cinquenta tons de cinza, quando Arthur zombara de uma cliente que não tão secretamente fantasiava sobre o estereótipo. Merlin deveria saber que aquilo fora um erro de principiante, pois Arthur parecia decidido a superar Christian Grey na cama. Merlin não entendia o porquê daquilo, não era segredo para ninguém que Jamie Dornan não era sua fantasia número um.
Merlin sabe que Arthur adora isso, deixá-lo louco e selvagem de prazer. Mas mesmo assim, as preliminares desta noite são muito mais longas do que o habitual. Merlin lamenta com frequência uma ladainha de por favor, por favor e mais até quase ficar rouco. Em certo ponto, ele nem sabe o que está pedindo mais. Mas quando Arthur desliza um travesseiro sob o quadril de Merlin, ele se lembra do que está faltando.
"Por favor, o quê?" Dois dedos de Arthur contornam sua próstata cruelmente, a ponta do polegar traçando a borda do buraco de Merlin em círculos leves.
Merlin choraminga. Cristo, ele tem certeza que Arthur vai deixá-lo louco.
"Por favor, me foda." ele suspira, as palavras saindo meio arrastadas em seu constrangimento. Arthur nunca o fez dizer aquilo antes.
Debruçado sobre ele, mantendo os dois dedos bombeando vagarosamente dentro e fora de Merlin, Arthur arrasta a ponta de seu pênis sobre o vinco da bunda de Merlin. Beliscando sua orelha com os dentes. A voz de Arthur é grave e carregada de promessas sombrias. "Não posso te ouvir."
"Por favor, me foda!" Merlin engasga, um pouco mais alto e cego de desejo de necessidade e de Arthur.
Arthur desliza os dedos para fora da bunda de Merlin.
"Bom." Ele diz. "Mas só porque você pediu direito."
O que Merlin sabe que é uma mentira deslavada. Arthur faria qualquer coisa que Merlin pedisse. Da maneira certa ou não. Pelo menos na cama.
Ele desliza um segundo travesseiro sob Merlin e, ok, isso é novo. Merlin não pode deixar de se sentir apreensivo quando Arthur força seus quadris para cima, abrindo as pernas de Merlin mais obscenamente.
"Vou te foder com tanta força que você não se lembrará do nome de ninguém além do meu."
E nesse momento, Merlin acha que eles deveriam ter uma palavra de segurança. Pois ele tem certeza que Arthur vai enfiar seu pau de uma vez nele e isso não será prazeroso. Mas Merlin não sabe como deve responder a isso. Se negar, Arthur irá deixá-lo de vez?
"Isso é uma promessa?" Ele respira, por fim. Certo de que Arthur vai acabar com tudo que eles têm, tratando Merlin como um simples objeto. Mas não consegue se impedir a tempo. Como ele poderia negar algo a Arthur?
Arthur morde a nuca de Merlin. Não é apenas um chupão dessa vez, ele tem certeza que as marcas dos dentes de Arthur ficarão lá por alguns dias. Mas aquilo não é tão doloroso quanto Merlin poderia imaginar.
Uma das mãos abre as nádegas de Merlin novamente, enquanto a outra tateia o criado-mudo em busca de preservativos. Certo, Merlin estava se esquecendo disso. Sorte a deles que um dos dois está sóbrio.
Quando Merlin vira a cabeça para o lado e vê que Arthur também pegou lubrificante, ele respira aliviado. Ele jamais deveria ter desconfiado que Arthur o machucaria de alguma forma. Arthur sempre fora mais preocupado com seu bem-estar físico na cama, de qualquer forma. Arthur não acreditava no prazer unilateral e não precisava dizer aquilo para que Merlin soubesse.
Quando Arthur entra nele, lenta, mas uniformemente, Merlin sente como se fosse a primeira vez de novo. É tão avassalador e Merlin por vezes se pergunta se vai se acostumar com aquela sensação extasiante algum dia. Se algum dia, sexo com Arthur passará a ser algo banal e não parecer um encontro entre almas.
Parece que Arthur está tão fundo dentro dele, que Merlin seria incapaz de tirá-lo totalmente de seu sistema, mesmo que tentasse. Mesmo que quisesse.
Mas Arthur não cumpre sua promessa de imediato. Ele faz movimentos suaves e sinuosos do quadril e os olhos de Merlin lacrimejam, não de dor, mas de felicidade. Porque aquilo, aquela devoção e carinho que Arthur demonstra na cama, mesmo quando é o mais bruto possível – para os padrões de Arthur Pendragon, ele não é Christian Grey, afinal de contas, Graças ao bom Deus – é o mais perto que Merlin se sentirá de ser amado por Arthur de volta. Então Merlin tomará tudo que conseguir.
A partir de então, é um empurrão familiar, impulso e fricção que Merlin já está tão acostumado. Merlin sabe muito bem que há um lamento agudo e perpétuo em segundo plano – antes que perceba que é ele, mas está tão longe perdido no êxtase, que nem se importa.
E Arthur não estava brincando. Ele nunca fodeu Merlin tão duro ou forte como naquele dia. E Merlin se perguntou algumas vezes como Arthur poderia ter todo aquele preparo físico, ou como Merlin conseguia aguentar aquilo e mais, sentir prazer nisso!
Eles já haviam mudado de posição umas quatro vezes, toda vez que um dos dois começava a sentir um membro adormecer. Merlin agora cavalgava Arthur, as pernas coladas uma de cada lado do tronco do loiro e Céus! Aquela era sua segunda posição preferida.
Quando Merlin por fim achou que não conseguiria aguentar mais, sabe-se lá quanto tempo depois, os dedos de Arthur desceram por suas costas, agarrando os quadris de Merlin com uma das mãos e brincando com sua borda com a outra. Merlin não consegue se segurar e goza por todo peito de Arthur.
Ele desmaia metaforicamente por alguns segundos, cansado demais para continuar se movimentando.
Quando recobra a consciência, Merlin volta a se movimentar, embora muito mais lento do que antes, suas pernas queixando-se do esforço. Arthur o puxa e o beija apaixonadamente, antes de virá-lo na cama.
Merlin está bem com isso. Ele vai deixar que Arthur termine também, afinal, nada mais merecido depois do orgasmo colossal que Arthur o proporcionou.
Mas para surpresa de Merlin, Arthur se retira de dentro dele, antes de se desfazer da camisinha. Merlin franze o cenho, questionador, mas Arthur apenas o beija em silêncio, enquanto esfrega sua ereção no vinco da virilha de Merlin e Merlin agradece internamente que se depilou ontem.
Quando Arthur enfim chega ao seu próprio clímax, é com um rugido e Merlin tem um espasmo pós-orgasmo com aquilo, seu próprio membro tentando dar sinais de vida, corajosamente. Arthur se inclina e suga marcas por toda sua garganta e Merlin está mais do que certo de que terá que usar um de seus muitos lenços nas próximas semanas, pois sua pele é uma evidência clara da indecência dos dois.
Após o orgasmo, Arthur é sempre muito carinhoso e se inclina para apertar e abraçá-lo. Merlin sempre imagina que é assim que Arthur trataria alguém que ele ama e se pergunta por que não poderia ser ele o alvo desse afeto.
É uma parte de Arthur que Merlin admira e inconscientemente – ou talvez não tão inconscientemente assim – cobiça.
Depois de se afastar, Arthur coloca Merlin numa posição mais confortável, colando a curva de um corpo ao outro, meio deitado sobre Merlin. Ele pressiona pequenos beijos na têmpora de Merlin e Merlin se inclina para um beijo suave, quente úmido e lento.
"Você é perfeito." Arthur murmura na concha do ouvido de Merlin e Merlin não pode impedir-se de querer mais. Como todas as vezes.
Merlin impiedosamente empurra esses sentimentos para longe e enterra o rosto no pescoço de Arthur, para que Arthur não possa ver as lágrimas que escorrem. Ele diz para si mesmo que está satisfeito. Insiste que é muito mais que algumas pessoas conseguem.
E promete para si mesmo que um dia ele acreditará naquilo.
Ele ouve algo antes de pegar no sono, mas está tão distante, que não consegue distinguir as palavras.
.Merthur.
"Arthur foi meu primeiro." Merlin declara, sabendo que sua mãe não precisa daquela declaração.
Hunith assente, perfeitamente compassiva e compreensiva. Às vezes, Merlin é tão grato por tê-la em sua vida – ela é a única pessoa que não o julga ou censura pelo que faz, pelo que fez, enfim, pelo que decidiu fazer.
"Eu sei, meu filho." Ela caminha em direção ao sofá, puxando Merlin para que ele deite em seu colo. "Seu primeiro parceiro é algo que você nunca esquecerá e é algo que você manterá num lugar especial em seu coração. Mais do que isso, ele foi seu primeiro amor." Às vezes Merlin se pergunta se tanta sabedoria vem de sua profissão como psicóloga ou de ter perdido o marido ainda tão jovem. "E isso não está errado. Tenho orgulho de você por ter seu primeiro relacionamento de verdade e todos os altos e baixos que vieram com ele."
"Se pelo menos tivesse sido um relacionamento de verdade." Merlin bufa.
"Isso não é verdade, Merlin." O tom de Hunith é fervoroso como poucas vezes Merlin ouviu na vida. "Não importa como Arthur, Morgana ou qualquer outra pessoa o defina. Era um relacionamento para você e você o amou. Isso é o que deve contar. É o que deve levar consigo e aproveitar no seu amadurecimento."
"A pior parte," Merlin começa, já não conseguindo conter as lágrimas. "é que eu sabia que isso estava por vir. Sempre havia algo – algo muito finito sobre o nosso relacionamento. Eu sabia que ele tinha uma imagem a manter e eu jamais seria mais do que isso, diversão. Entende o que quero dizer? Sempre havia um final à vista, um futuro para ele que não me incluía. E eu sabia disso. Mas então por que eu não conseguia e ainda não consigo parar de vê-lo no meu futuro?"
O que Merlin mais odeia é isso. Ser reduzido a essa bagunça de coração partido. Um total clichê das comédias românticas dos anos 90. A diferença é que o final feliz não virá para ele.
Merlin se recusa a se tornar esse estereótipo de gay frágil, emocional, carente e choroso. Ou mesmo acreditar que é assim. Mas foi o que aconteceu no final das contas, não é mesmo?
Hunith não diz nada, deixando o silêncio preencher o espaço confortável entre eles. Sua mão acaricia levemente seus cabelos e Merlin se deixa levar pelo choro. É como dizem, o choro é o melhor remédio para curar a alma.
"Eu acho…" Merlin se engasga, lutando contra a queimação atrás das pálpebras. É isso! Ele já chorou. Agora é hora de seguir em frente. Não é surpresa de que isso também não dá certo e ele volta a chorar. "Eu acho que o amo."
Hunith não diz nada. Ela continua acariciando seus cabelos e deixa que Merlin chore livremente.
A verdade é que Merlin nunca dissera aquilo em voz alta. Hunith já dissera aquilo para Merlin várias vezes, assim como Freya e Will. Todos seus amigos já haviam falado isso uma vez ou outra e até Mordred já insinuara aquilo, agora que ele e Merlin estavam mais próximos. Mas era a primeira vez que Merlin admitia para alguém, no lugar de negar ferrenhamente como normalmente fazia.
É um dia ensolarado e brilhante do lado de fora. O céu está azul, sem nenhuma nuvem e acolhedor.
Merlin acha aquilo tudo totalmente odioso.
.Merthur.
Está claro desde o início que Will não aprova o que Merlin está fazendo.
"Isso não é uma boa ideia, cara." Will diz, direto como sempre, quando Merlin está calçando o sapato para sair. "Eu amo você e tudo, mas não acho que você consiga lidar com toda essa coisa de sexo sem compromisso. Além disso, ele é seu chefe!"
"Ele não é meu chefe, Will." Merlin girou os olhos. "Eu presto um serviço para a firma da qual ele é um dos herdeiros. Mas ele ainda não é dono de nada."
"Ele tem parte das ações, Merlin." Will rebate. Quando foi que Will se tornara tão perspicaz, afinal? "Isso faz dele um dos seus chefes. Não se faça de burro. Você é um maldito gênio."
Merlin ignora aquilo, ele sabe que se der ouvidos a Will acabará dando para trás.
"Além disso, a maneira como você disse que ele agia nessa festa? Arrepiante. Red flag, my friend, red flag."
"Will." Merlin bufa, irritado. Não é como se o próprio Merlin já não tivesse abordado todos aqueles tópicos internamente. "Pare, por favor. Vou ficar bem. Ele vai me pegar, finalmente vou transar, conseguir uma ótima foda com um cara loucamente gostoso e ter direito de me gabar sobre isso. O que há para se preocupar?"
"Eu apenas me preocupo com você." Will termina, parecendo impotente.
Merlin diria que não tem nada pra se preocupar, mas ele sabe que não é verdade. Por sorte, é nessa hora que Arthur bate em sua porta.
Arthur está usando uma camiseta de linho com três botões que faz Merlin literalmente babar, quando Merlin atende a porta. Arthur está com uma carranca e Merlin não acha que ter ele e Will na mesma sala possa ser producente para qualquer coisa, então ele se despede rapidamente de Will, antes sair.
Arthur está silencioso quando descem as escadas e Merlin fica cada vez mais apreensivo à medida que entram no carro e Arthur só responde de forma monossilábica.
"Então… pra onde vamos?" Merlin pergunta, esfregando as mãos suadas nervosamente.
"Minha casa?" Arthur dá de ombros e Merlin engole em seco.
"Ótimo." Merlin diz, tentando soar excitado. Ele não deveria ter esperado um encontro, de qualquer forma.
Ele continua torcendo as mãos nervosamente, mas Arthur está muito concentrado no trânsito para perceber.
Tudo vai dar certo. Tudo vai dar certo. Merlin continua repetindo para si mesmo.
Famosas últimas palavras.
.Merthur.
Faz duas semanas desde o acidente de Arthur, quando Merlin recebe uma ligação de um número desconhecido em seu ramal.
"Olá?" Ele responde, cauteloso em relação aos operadores de telemarketing.
"Emrys?" A voz distintamente feminina do outro lado da linha pergunta. "Merlin Emrys?"
"Sim, quem é?"
"Sou Vivian Blake, a nova assistente pessoal do Sr. Pendragon. Fui instruída pela Srta. Pendragon a solicitar que você remova todos os seus pertences pessoais do apartamento dele nesta sexta-feira. O cartão-chave será deixado com o porteiro."
Hoje é quinta-feira.
Merlin não sabe o que dizer em resposta a isso, então responde afirmativamente e termina a ligação, deslizando pela parede para descansar a cabeça nos joelhos. Sabe que está sendo ridiculamente exagerado; não é como se tivesse tantas coisas no apartamento de Arthur e ele finalmente aceitou que o que quer que eles tiveram, agora está acabado.
Não foi difícil evitar Morgana ou Arthur. Eles trabalham no mesmo prédio, com certeza, mas não é como se os dois maiores advogados da empresa solicitassem os serviços de Merlin diretamente. Não, na maioria das vezes os paralegais passam as informações de suas pesquisas para os advogados juniores que se reportam aos advogados superiores. É como uma cadeia alimentar e Merlin está definitivamente na base da pirâmide.
Os Pendragons estão escondidos no quadragésimo quarto andar, enquanto Merlin e outros empurradores de papel como ele são jogados nos andares vinte para baixo. De qualquer maneira, Morgana fez uma viagem de negócios para São Francisco, para supervisionar o contrato de um dos maiores acordos da empresa, sobre a fusão de uma multinacional, e Merlin agradece que não correrá o risco de ver o rosto dela nem nos elevadores pelas próximas semanas.
Merlin respira fundo. São sete da noite de uma quinta-feira, o que significa que Arthur, com amnésia ou não, está na academia e estará ocupado nas próximas duas horas. Merlin pode entrar e sair de seu apartamento num piscar de olhos.
Ele se força a ir. É como uma ferida, ele racionaliza. Só precisa cauterizar e ficará bem, não importa o quanto doa. Provavelmente Will e Gaius diriam que isso nem sempre resolve as coisas, mas Merlin não é médico, afinal.
Merlin pega um Uber para o prédio de Arthur. E é quase irônico que seja o primeiro lugar na sua lista de favoritos. Antes mesmo de sua própria casa! Merlin tem que se lembrar que o endereço da sua casa está listado como "Casa" para que não se sinta um completo fracasso.
Mas é um soco forte no estômago quando o porteiro o reconhece.
"Olá, Sr. Emrys. Está aqui para ver o Sr. Pendragon? Receio que ele tenha acabado de sair." O porteiro cumprimenta, solícito, e Merlin amaldiçoa que o prédio de Arthur tenha funcionários tão eficientes que saibam a fisionomia até dos convidados.
Mas a verdade é que aquilo é culpa de Merlin também. Ninguém mandou ele ser tão simpático.
"Ele me avisou, George." Merlin inventa uma desculpa qualquer. "Acho que tem um cartão-chave aí para mim?"
George não parece acreditar na desculpa, mas provavelmente, ele já deve estar a par da situação, pois desliza o cartão para Merlin e não comenta nada. Um poço de discrição, certamente.
Ele sobe pelo elevador de serviço para que não tenham que lidar com mais nenhum funcionário, mas percebe que aquilo foi um erro, quando se lembra que ele e Arthur quase transaram naquele elevador uma vez, afoitos e bêbados demais para esperar chegar ao seu andar.
Merlin traça o cromo e o aço do elevador, afogando-se em autoflagelação, agora que o elevador já está a meio caminho do destino. Não é como se ele pudesse fazer muita coisa.
Quando sai ao corredor da cobertura, ele permanece por um instante ali, parado no meio do carpete marrom escuro, respirando o cheiro de pinheiro que é tão exclusivo da equipe de limpeza do prédio, que Merlin nem percebe que fechou os olhos até que as luzes se apaguem.
Cristo, ele é patético.
Ele pega duas caixas do armário de suprimentos comum antes de entrar no apartamento de Arthur com um toque no cartão-chave. Ele para por um segundo, olhando para o cartão e a porta à sua frente. Arthur não precisa de um cartão, muito menos Morgana, ou Uther. Todos eles têm suas digitais cadastradas para acessar seu apartamento ao bel-prazer. Chega a ser humilhante que Merlin nunca tenha recebido nem mesmo um cartão-chave para que pudesse ser só dele. Ele estivera no apartamento de Arthur muito mais vezes do que Uther ou Morgana nos últimos três anos, mas é claro que Arthur não desejaria ser interrompido por Merlin caso estivesse com outra pessoa… na cama.
Merlin para e se encosta na porta quando ela se fecha ao entrar. Ele faz um balanço mental do que precisa recolher. A verdade é que ele quer memorizar cada canto daquele lugar, mesmo que seja o apartamento mais impessoal que Merlin já tenha visto. Ele nunca mais estará aqui; ele merece essa pequena indulgência.
O apartamento está escuro, então Merlin acende as luzes da sala, iluminando as linhas limpas e minimalistas e as cores sólidas e ricas dos poucos móveis e objetos de decoração. A verdade é essa, ele e Arthur são absurdamente incompatíveis. Merlin colocaria toda a sistemática de Arthur de pernas pro ar se um dia vivessem juntos. O que nunca aconteceria, obviamente.
Ele caminha até a cozinha espaçosa, passando a mão contra o granito frio do balcão do bar, fechando os olhos enquanto a lembrança do único café da manhã que fizera ali vem à mente.
Arthur parecia desconfortável e analítico naquela manhã, após a bebedeira da promoção de Merlin, como se esperasse algo. Merlin não entendia o porquê. Ele não se lembrava de quase nada da noite anterior. Com exceção de flashes mal colocados, que não serviam bem para formar uma memória concreta. Merlin temeu por dias que tivesse feito algo errado ou dito algo errado. Mas uma semana depois, as coisas voltaram ao normal. Se Merlin soubesse que aquela seria a única vez que tomaria café da manhã com Arthur, ele teria aproveitado melhor a ocasião.
Merlin volta para recuperar as caixas vazias e se dirige para o quarto principal. Ele não se preocupa em acender as luzes, não quando conhece esse quarto como a palma da mão. Suas roupas estão jogadas numa pilha no canto do closet de Arthur e isso é mais uma facada de humilhação. Suas camisetas gráficas, com frases cômicas e até algumas boxers estão amontoadas a esmo. É isso, Merlin não merecia nem uma gaveta.
Ele não dobra as roupas, agora querendo ficar ali o mínimo de tempo necessário. Apenas as joga na caixa de papelão, tentando limpar de sua mente o significado daquelas roupas amontoadas.
Ele vai até o banheiro e recolhe as poucas coisas que deixou por ali. Recusando-se terminantemente a olhar para o chuveiro ou a banheira. Ele e Arthur passaram tantos momento quase amorosos ali, que Merlin não sabe se conseguiria suportar isso.
É uma escolha pouco inteligente a de não apagar as luzes ao voltar para o quarto, já que ele inevitavelmente se depara com a cama à sua frente. Ele é atraído como se uma força magnética o puxasse para ela. Notas fracas de seu perfume, da sua última visita, ainda permanecem. Merlin conta nos dedos, tentando lembrar de quando foi. Foi um dia antes do acidente de Arthur, isso significa que… doze dias? Merlin sacode a cabeça. Ele deve estar enganado, mesmo que tivesse passado quase uma semana no hospital, Arthur jamais deixaria que sua diarista deixasse uma tarefa dessa passar batido assim. Fresco do jeito que era? Há!
Surpreendentemente, Merlin não chora. Ele provavelmente já chorou tudo que tinha para chorar com sua mãe, no domingo anterior. Mas está tão perdido em pensamentos e reflexões, sobre a última vez, todos seus últimos momentos com Arthur, que ele não ouve o som de acesso na porta da frente ou os passos no corredor.
Então, quando Merlin se levanta, recolhendo suas caixas, e se vira para sair do quarto, ele não espera ver Arthur encostado na moldura da porta, olhos acompanhando cada passo de Merlin.
Merlin não grita de surpresa. Não! Ele solta um som muito viril, se recuperando do choque com a mão pressionada contra o peito enquanto seu coração bate num ritmo furioso. Arthur, o bastardo, está sorrindo.
"Você me assustou, idiota." Merlin recrimina em saudação. "Não deveria estar na academia? Hoje é quinta-feira."
Arthur levanta as sobrancelhas, parecendo surpreso e Merlin percebe – Oh, sim, ele não me conhece, então isso deve ser estranho para ele.
"Fui instruído a ir com calma nas primeiras semanas." Arthur faz uma careta. "Ordens do médico."
Merlin sabe que Arthur odeia inatividade e improdutividade e sabe que as horas dele também foram reduzidas na firma, para sua recuperação.
"Bando de estraga prazeres." Merlin estremece em simpatia. Eles ficam assim por um longo momento embaraçoso antes de Merlin limpar a garganta. "Eu vou pegar minhas coisas na sala de estar." Ele dá alguns passos à frente, esperando que Arthur se mova do lugar, mas Arthur está plantado no caminho, expressão ilegível e braços dobrados sobre o peito.
"Merlin." Arthur diz e Merlin não acha que seja necessário uma resposta, parece mais que Arthur está apenas dizendo seu nome para ver como se sente em sua língua. "Eu não me perguntei sobre quem eram as coisas espalhadas pela minha casa que obviamente não são minhas. Sabia que deveriam pertencer ao pirralho de maravilhosos olhos azuis que me visitou no hospital, então estava esperando até que você resolvesse me visitar de novo algum dia. Mas isso não me responde uma coisa." Merlin engole em seco, em pânico sobre o que Arthur poderia dizer. "Por que você está levando tudo embora?"
É apenas Merlin ou o ar na sala foi totalmente aspirado nos últimos cinco segundos?
"Bem." Merlin respira fundo, tentando não se deixar levar. Ele sabe que Arthur sabe ser sedutor, ainda mais quando acha que precisa ser. E esse Arthur, não sabe que Merlin é completamente apaixonado por ele, então nada mais natural do que jogar com todas as armas. "Eu apenas… você sabe, achei que não deveria ficar rondando por aí, quando você precisa de espaço para…" Ele acena com uma mão na direção de Arthur. "recuperar sua memória e tudo mais."
Arthur se afasta da moldura da porta, pressionando Merlin contra parede, já que Merlin dá dois passos atrás em reflexo. Droga, Arthur realmente precisa parar de fazer isso nos primeiros encontros deles. Embora, em defesa de Arthur, dessa vez ele esperou a segunda vez que se viram para fazê-lo, mas agora Merlin suspeita que na primeira vez ele não fizera porque estava numa cama de hospital.
Enjaulando o corpo de Merlin com os braços, ele se inclina pecaminosamente e sussurra na orelha de Merlin. "Você é um mentiroso horrível." A respiração se espalhando calorosamente contra a pele sensível do ouvido de Merlin é injusta demais.
"Sério." Merlin engole em seco, ele vira a cabeça e fecha os olhos enquanto apoia uma mão no peito de Arthur para mantê-lo longe. O que, parando para pensar, talvez não tenha sido a melhor das ideias, o peitoral de Arthur sempre foi um dos seus pontos mais fracos. "Você não me quer por perto e eu provavelmente deveria ir agora, então –"
Arthur recua a cabeça um pouco para poder premiar Merlin com toda a intensidade de seu olhar.
"Não me diga o que eu quero ou não." Arthur sussurra de um modo que provavelmente não deveria soar tão sexy para Merlin, já que parece uma ameaça.
"Ei." Merlin protesta fracamente. "Quanta gros –"
Os lábios de Arthur pressionam com força os dele, cortando sua frase. Isso está se tornando um padrão totalmente irritante. Mas Merlin não está reclamando, exatamente, não quando a língua sondadora de Arthur perseguem seus lábios, lambendo e saboreando como se Merlin fosse a última porção de ambrosia.
Merlin geme. Ele admite que é fraco. Qual é? Não é como se fosse conhecido por seu autocontrole. Autocontrole era o segundo nome de Arthur e o loiro não parece dar a mínima para isso no momento também.
A caixa de coisas, ainda meio presa entre os dois, cai no chão, e Merlin mal registra o baque que ela faz, apenas registrando, pelo canto do olho, que seu desodorante rolou para o outro lado do corredor.
Sua mãos, traidoras, são as que cobrem a mandíbula e o cabelo de Arthur, emaranhando-se um pouco mais do que o normal nos fios, agora que Arthur está atrasado para seu corte quinzenal.
Longe de parecer incomodado, Arthur solta um som de aprovação, segurando as coxas de Merlin para que suas pernas possam envolver a cintura do loiro. Certo, eles já fizeram isso. Merlin sabe que podem totalmente foder numa parede. Mas o médico não havia dito para Arthur ir devagar?
"Amigos, hein!?" Arthur diz entre beijos exigentes, o que provavelmente transformará o cérebro de Merlin em mingau.
Mas quando Merlin para e o significado das palavras chegam a ele, o desejo em seu estômago se torna gelo. Que porra ele está fazendo? Arthur, seu Arthur, o Arthur que pode se lembrar e não está confuso, não quereria isso. Pelo amor de Deus, ele estava tentando dispensá-lo por meses. Isso por si só é prova suficiente de que ele não apreciaria Merlin aproveitando seu lapso de memória para entrar em suas calças e voltar às boas graças com ele. Ou seja lá o que diabos Merlin estivesse pensando em participar nessa ação improvisada.
"Não." Merlin suspira, puxando seu corpo, lábios e mãos para longe de Arthur. "Não Arthur, não posso fazer isso, não está certo."
Esse ato deveria conceder um prêmio a Merlin, com certeza. Ele está ali, empoleirado no colo de Arthur e está negando o que mais quer, pelo bem da pessoa que ele ama. Isso deveria significar algo, certo?
Arthur recua, mas, mesmo assim, seu rosto ainda está a centímetros do de Merlin.
"O quê?" Ele bufa, abaixando a mão e segurando a ereção de Merlin através do jeans. "Não parece que haja um problema."
Os quadris de Merlin fazem um impulso em reflexo, perseguindo o calor e a fricção da mão de Arthur. Com os corpos totalmente colados e a mão de Arthur ainda lá, é óbvio que o idiota consegue sentir isso, e o sorriso em seu rosto deixa mais do que claro que sim, ele está mais do que ciente da situação.
As pupilas de Arthur estão tão dilatadas, que Merlin considera que ele esteja tendo um AVC no momento. Mas o movimento que Arthur faz em sua direção, a fim de agarrar-se a seus lábios novamente, revela que o cérebro de Arthur está mais do que funcional, muito obrigado.
Freneticamente, Merlin espalma uma mão no peito de Arthur, para impedi-lo. Ele aproveita-se da surpresa do outro para se remexer até que Arthur não possa fazer outra coisa, a não ser deixá-lo ficar de pé novamente.
"Não, Arthur, estou falando sério. Não podemos."
"Você não quer?" Arthur parece ao mesmo tempo confuso e ferido.
Céus! Por que ele tinha que tornar as coisas tão difíceis para Merlin?
"Eu quero, mas esse não é o ponto." Ele completa, quando Arthur ameaça avançar novamente. "Sei que você acha que quer isso agora, mas acredite em mim, ok? Você realmente não quer e se eu transar com você, quando recuperar suas memórias – o que eu acredito totalmente ser possível – você só vai me odiar e estou cem por cento seguro de dizer que não me sinto bem com isso." Cristo! Ele está balbuciando novamente? "Além disso, isso não é algo que você precise no momento. O que você precisa é de descanso, relaxar e trabalhar para se lembrar das coisas."
"Posso trabalhar para me lembrar de você." Arthur sussurra, malicioso.
Ok, Sr. Pendragon, agora você só está jogando sujo.
"Volte a ler aquele livro que estava lendo. Aquele sobre flamingos ou o que quer que seja que você não conseguia desgrudar os olhos."
"Não faço ideia do que você está falando." O sorriso de Arthur é sardônico.
"Que seja!" Merlin bufa, impaciente. "A questão é que você e eu." Ele faz um gesto vago em direção aos dois. "Não é uma boa ideia."
Durante todo o discurso, a ereção de Merlin não diminuiu nenhum pouco. Traidora. A única resposta de Arthur é pressionar ainda mais, inclinando-se para cheirar o pescoço de Merlin. Contra sua vontade, Merlin se vê inclinando a cabeça para trás, para permitir mais acesso a Arthur. Seu corpo ondulando em reflexo a uma memória não tão antiga, moldando-se às formas duras do tórax de Arthur.
Arthur, por sua vez, parece bem interessado em deixar um enorme chupão na garganta de Merlin. Merlin pode sentir uma ondulação diferente na parte de trás da cabeça de Arthur, quando emaranha novamente as mãos nos fios sedosos. Provavelmente onde ele bateu a cabeça no acidente.
Mas tudo que passa pela mente de Merlin é…
Morgana está fora da cidade.
Arthur o quer agora, ele ainda o quer.
E Merlin quer isso. Ele merece isso. Não é algo tão grande, afinal de contas. Não é como se alguém estivesse sendo forçado a algo que não queira.
Foda-se.
Com um grunhido do fundo da garganta, Merlin empurra Arthur, que, pego de surpresa, dá um passo atrás, antes de Merlin praticamente atacá-lo, selando suas bocas.
Merlin queria poder dizer que eles caminham até a cama, mas a verdade é que eles tropeçam um no outro, arrancando as roupas de maneira afoita, sem se preocupar onde elas vão parar. Arthur está um pouco suado e a linha grossa e dura de seu pau está descansando na palma de Merlin em pouco tempo.
Merlin sente vontade de chupar Arthur, com mais força do que jamais sentiu antes. Ele quer provar o sabor amargo e salgado que poucas vezes provou antes. Reduzir Arthur a uma bagunça trêmula de prazer, como Arthur sempre faz com ele. Como se algo em seu interior dissesse Agora, por enquanto, eu sou seu dono, não se esqueça disso.
Merlin espera um protesto quando empurra Arthur para se deitar na cama, colocando-se de joelhos entre suas pernas, mas tudo que Arthur consegue fazer é encará-lo com expectativa.
"Você não prec –"
"Cala a boca." Merlin sentencia e Arthur engole em seco.
Ele sabe que não precisa fazer aquilo. Arthur nunca exige isso dele, mas não é como se Merlin se sentisse obrigado a nada. Ele quer aquilo. Quer se sentir pelo menos uma vez no comando, como se tivesse controle de algo em sua vida.
"Porra, sim." Arthur range os dentes, separando as pernas para dar mais acesso a Merlin.
Merlin se concentra. Esse é o momento do troco. Se essa será a última vez que ficarão juntos, ele deixará uma lembrança que Arthur nunca mais esquecerá, com amnésia ou não. Ele começa devagar, lambendo uma longa faixa do pênis, da base até o prepúcio, sem parar de encarar Arthur por um segundo. Quando ele chega ao prepúcio, finge momentaneamente que sugará a glande, mas para com um sorriso sacana e repete o processo em ambas laterais.
Arthur está vidrado em cada movimento de Merlin, segurando sua respiração. E é isso mesmo que Merlin deseja. Ele brinca com o orifício da uretra por alguns segundos, antes de abocanhar apenas a glande. Arthur geme, soltando sua respiração e deixa sua cabeça cair na cama, parecendo desistir do autocontrole.
Arthur faz alguns movimentos sinuosos do quadril, mas Merlin segura a base de seu pênis entre o polegar e o indicador, pressionando o quadril de Arthur para baixo. Arthur lança um olhar para ele, frustrado, mas Merlin continua a sugar apenas a glande, explorando a pele sensível por debaixo do prepúcio com a língua, deixando a saliva acumular em sua boca.
Ele toma mais e mais profundidade, na medida em que o deslizar do pênis para o fundo da garganta é facilitado com o excesso de saliva. Merlin tem que parar por alguns segundos, quando a ponta da ereção de Arthur atinge sua garganta.
Merlin lambe a própria mão, distribuindo a saliva por todo o eixo de Arthur, antes de retomar sua tarefa. A esse ponto, Arthur já está segurando sua respiração novamente e Merlin percebe que ele está prestes a gozar.
Talvez seja por isso que Arthur não o deixa chupar por muito tempo antes. Arthur sempre parece meio descontrolado com aquilo. E Merlin sabe que é egoismo, que Arthur gosta de proporcionar mais prazer do que receber, mas no momento, ele não poderia se importar menos.
Ele traça a veia na parte inferior do pênis com a língua, enquanto continua sugando mais e mais de Arthur. Merlin nunca se considerou muito bom naquilo. Ele sempre engasga com o movimento. Mas hoje, ele está determinado a engolir todo o membro de Arthur.
É revigorante o modo como ele sente os batimentos cardíacos de Arthur através da pulsação de sangue no pênis rígido. Merlin roça os dentes levemente sobre a glande, antes de descer toda a extensão em um movimento longo. Ele faz movimentos de deglutição quando sente que Arthur está totalmente dentro dele e Arthur agarra os lençóis como uma âncora.
Arthur traça um movimento com o dorso dos dedos ao longo da bochecha de Merlin, antes de acariciar seus cabelos suavemente. Merlin agarra a mão de Arthur, obrigado-o a emaranhar os dedos em seus fios indisciplinados.
"Merlin." Arthur geme em resposta, parecendo muito perdido no processo.
Arthur está tremendo na cama, exatamente como Merlin queria. Ele parece se segurar para não empurrar demais contra a garganta de Merlin. Merlin percebe que ele está com medo de machucá-lo e isso é só mais um prego no caixão de Merlin quando ele se dá conta de que Arthur não sabe que já fizeram isso antes.
A mão que antes segurava o quadril de Arthur, move-se em direção a curva de seu traseiro, estimulando Arthur a movimentar-se para frente. Não é tão fácil quanto Merlin supunha, pois Arthur parece decidido a não se mover por vontade própria, mas Merlin é persuasivo com os movimentos de sua língua.
"Cristo." Ele ouve Arthur gemer, quando os quadris do loiro finalmente começam a se mover, seu pau deslizando para dentro e fora da boca de Merlin.
É tanta saliva e líquido seminal, que é inevitável que o pênis escape da boca de Merlin algumas vezes. Eles não tiraram todas as roupas, o que significa que o pênis de Merlin ainda está intocado dentro de seus jeans, turgido e reclamando por atenção. Mas aquele momento não é sobre ele. E então, finalmente ele entende o que dá tanto prazer a Arthur em foder sua bunda com a língua. Não é tanto sobre o processo em si, nem em fazê-lo chegar ao fim, mas sobre a sensação de poder que dar prazer a alguém lhe causa.
A mão de Arthur agarra seus cabelos e Merlin acha que finalmente fez Arthur perder o controle, até perceber que Arthur está tentando retirar sua boca de seu pau.
"Merlin, pare, ou eu vou…"
Merlin faz um som de desagrado, empurrando a mão de Arthur. Ele está decidido naquela noite. E não há Arthur autoritário que possa dissuadi-lo disso.
Não muitos segundos depois, Arthur geme estrangulado, e Merlin sente a pulsação familiar em torno dos lábios, indicando que ele está gozando, antes de sentir o gosto amargo em sua boca. Sem pudor, ele engole tudo.
Em algum momento no meio disso, ele subiu na cama com Arthur. Seu quadril pressionando o colchão entre as pernas de Arthur, a fim de buscar algum atrito.
Quando Arthur se recupera de seu êxtase, Merlin está fazendo um ótimo trabalho envergonhando-se a si mesmo, esfregando-se desavergonhadamente na coxa de Arthur. Roupas e tudo.
Arthur franze o cenho. "Eu sou passivo?"
A pergunta pega Merlin de surpresa e ele engasga com uma risada.
"O quê? Não!" Merlin não pode esconder seu sorriso. "Por que você acha isso?"
"Você parecia tão autoconfiante no que estava fazendo." Arthur admite, corando. "Eu estava meio apreensivo aqui que esse fosse o momento em que você me pediria para virar."
"Não tem necessidade de apreensão." Merlin sorri, tranquilizador. Sua ereção já esquecida em suas calças. "Sou um passivo muito satisfeito, não se preocupe."
É engraçado que eles nunca tenham realmente conversado sobre isso. Merlin percebeu, desde o primeiro dia, que Arthur não estava confortável com a possibilidade de dar o cu. Ele se retesava quando Merlin meramente tocava suas nádegas sem algo mais do que uma cueca. Hunith provavelmente teria muito a dizer sobre o assunto, mas Merlin não quer pensar sobre sua mãe no momento.
Mas é algo revelador sobre como as coisas mudaram com aquele acidente. Arthur nunca fora muito falante e Merlin se acomodou a isso. Mas agora, Arthur estava tão mais aberto, que Merlin tinha que se estapear mentalmente para não se deixar levar.
"Venha aqui." Arthur sussurra, puxando Merlin para cima de si e desabotoando suas calças, antes de enfiar a mão desavergonhadamente na cueca de Merlin. "Você deveria ter deixado eu parar, então. Agora sou imprestável para você pelas próximas horas."
Merlin sabia que isso não era verdade. Ele já fizera Arthur gozar quatro vezes seguidas, com pequenos intervalos, certa vez. Mas ele não discutiria aquilo no momento.
"Tudo bem." Merlin geme em meio às carícias de Arthur, enterrando seu rosto nos pequenos fios loiros do tórax de Arthur.
Ele está perto. Tão perto que será vergonhoso até.
Arthur agarra suas pernas, fazendo-o montar em seu colo, sua mão áspera agarrando o pênis de Merlin, que está sensível demais àquele ponto. A mão de Merlin agarra o ombro de Arthur, precisando se segurar em algo para que não venha rápido demais. Ele pressiona os lábios um contra o outro, contendo um gemido, antes que Arthur o beije freneticamente, aumentando o ritmo de suas estocadas.
"Abra os olhos." Arthur rosna, e uau, tudo bem, Merlin nem percebeu que tinha fechado os olhos. "Olhe para mim." continua ele, e Merlin é incapaz de fazer algo que não seja acatar. "Quero ver seus olhos quando você gozar pela primeira vez."
Aquilo é demais para Merlin, porque foram essas exatas palavras que Arthur usou na primeira vez deles. Isso, somado ao olhar intenso de Arthur, carregado de uma luxúria desenfreada, é o suficiente para que Merlin perca o controle. Ele goza tão forte, que um pouco de sêmen atinge seu próprio queixo e ele tem certeza que aquele canto mais brilhoso no rosto de Arthur não é suor.
Mais tarde, quando ele volta ao seu bom-senso, agora saciado, completamente feliz e suado, Merlin acha que provavelmente exista um lugar especial no inferno para pessoas como ele.
.Merthur.
Passaram-se cinco meses desde que Arthur e Merlin começaram sua – sua coisa, por falta de termo melhor, quando Hunith está na cidade novamente.
Hunith trabalha com palestras motivacionais por todo o país. Não aquelas bregas em que os palestrantes só estão ali para tirar dinheiro do público e usar frases de efeito que não ajudam em nada. Suas palestras são mais voltadas para as escolas de ensino médio, sendo os adolescentes a área de atuação preferida por muitos anos dela, e Hunith tenta abordar as coisas de maneira mais dinâmica do que apenas uma palestra motivacional. Resumidamente, Merlin morre de orgulho da mãe.
Talvez seja por isso que Merlin queria desesperadamente convidar Arthur para conhecê-la. Não é uma boa ideia, definitivamente, e até Will, o rei da falta de bom-senso parece saber disso.
"Cara, não existe algo como 'vamos lá em casa conhecer minha mãe como um amigo', quando vocês nem amigos são." diz ele, procurando algo em sua mochila. "Apenas largue o osso."
Will é realmente o amigo mais incrível que ele poderia ter. Ele joga na cara de Merlin constantemente que Merlin está 124% irremediavelmente apaixonado por Arthur, isso é certo. Mas ele não é mesquinho sobre isso e diz "eu te avisei", como a maioria das pessoas fariam.
"Mas eu convidei Lance, Gwen e Freya também." Merlin insiste. "Não seria como se eu quisesse apresentá-lo individualmente."
"Você quer dizer que convidou três pessoas – quatro, contando comigo – que conhecem sua mãe desde a infância ou adolescência para um almoço no domingo." Will, sentencia, como se a frase por si só fosse digna de efeito. Definitivamente não é para Merlin, que fique claro. "E Arthur, que você conhece há menos de duas semanas…"
"Cinco meses." Merlin corrige.
"…e não é nada mais do que o seu fuckbuddy." Will conclui, ignorando-o
"Então… eu não deveria convidá-lo?" Merlin pergunta, em nível de esclarecimento, porque ei, Will às vezes conseguia ser bem evasivo sobre as coisas.
"Pela última vez, não. Não, não e não."
"Ok, ok. Não tem necessidade de ficar todo irritado."
Freya chega minutos depois, a fim de dar uma carona para Will, que passara a noite ali porque era mais perto do trabalho. E, para desprazer de Merlin, ela concorda com Will a respeito do tal convite.
Nas próximas semanas, alguns rosto somam-se a opinião comum. Lance e Gwen apenas riem da questão de Merlin, como se achassem que fosse piada, antes de perceberem que não é, e gentilmente dizê-lo que não é uma boa ideia, mas o apoiariam, caso Merlin decidisse fazer aquilo. Elyan parece mais interessado do porque não foi convidado para o tal almoço, o que faz com que ele, Gwaine e Percival acabem sendo convidados também, visto que Gwaine ficou mortalmente chateado por não ter sido considerado para o evento. Mordred que, Deus sabe como, descobriu que sua mãe estaria na cidade, se autoconvida para o almoço com apenas um "devo levar alguma coisa?"
A questão é que, no final das contas, muito mais pessoas do que Merlin planejava inicialmente foram convidadas, mas nenhuma delas é a que ele tanto queria.
Bem. O problema é que Merlin não é chamado de persistente por nada, então ele dispara uma mensagem rápida para garantir que Arthur esteja em casa e esteja livre, antes de pegar um Uber até sua casa. Do modo como ele vê, ele pode fazer algumas perguntas sutis, sondar o terreno, ver como Arthur se sente sobre o assunto e, caso não seja uma opção, ele pode apenas dizer que foi divagação pós-coito.
O quê? Merlin pode ser sutil quando quer, não importa o que seus amigos digam sobre isso. Não é porque ele se declarou para Freya no meio do refeitório, no ensino médio, com oito pares de olhos cravados neles, que ele não possa fazer as coisas direito, uma vez na vida.
Quando ele chega ao apartamento de Arthur, Merlin está arrependido de seu texto impulsivo. Arthur deixou bem claro desde o início que eles não estavam juntos, não estavam num relacionamento, não havia vínculos, filhos e domesticidade num futuro. Muito menos um futuro próximo.
Ele está pensando em dar meia-volta, quando a porta da frente do apartamento de Arthur se abre. Arthur está com um sorriso predatório nos lábios. "Você demorou demais." Arthur diz, agarrando a frente da camiseta de Doctor Who de Merlin, puxando-o para o apartamento.
Mais tarde, quando ambos estão ofegantes, suados e sujos, Merlin acha difícil ver por que ele não deveria apenas perguntar. No pain, no gain, não é o que as pessoas dizem?
Ele chega ao ponto de abrir a boca para falar, mas Arthur o empurra com o pé para o chão, ordenando que ele vá se limpar, antes de arruinar o couro do seu majestoso sofá, onde haviam caído em frenesi sexual.
É então que Merlin percebe a mala estacionada na porta da frente.
"Você vai viajar?" Ele pergunta, puxando alguns lenços de papel da caixa que Arthur deixa na sala para emergências, limpando superficialmente todo o lubrificante e sêmen antes de ir para o banheiro.
"Viagem de negócios." Arthur resmunga, parecendo contrariado. "Não estarei na cidade nas próximas duas semanas."
O coração de Merlin afunda em seu estômago. Foi melhor mesmo ele não ter dito nada. Ele caminha para a cozinha para se desfazer dos papéis na lixeira, para que Arthur não perceba seu desconforto. A questão é que Arthur estará fora da cidade quando eles completarem seis meses do que quer que seja aquilo. E Merlin pode ou não ter planejado um jantar em casa. Nada muito glamouroso, mas mais do que eles costumavam fazer. O máximo que eles já haviam feito era pedir comida para entrega, quando os dois estavam com fome, após uma sessão de foda.
Bem, é bom que sua mãe esteja em casa no final de semana, pois ela certamente saberá o que fazer com a comida que Merlin comprou para a ocasião.
"Ok." Ele responde, quando retorna à sala. "Legal. Acho que te vejo quando voltar, então."
"Você não vai tomar um banho?" Arthur pergunta, quando Merlin começa a vestir sua roupa.
"Eu tomo em casa." Merlin diz, mais áspero do que deseja. Tudo que ele quer é voltar para sua casa e deitar em sua cama.
Arthur assente, parecendo desinteressado, já distraído com um e-mail ou outro em seu iPad. Merlin lança um último olhar para Arthur e sai.
.Merthur.
Morgana vai matá-lo.
É uma contagem regressiva de doze dias até que ela retorne de sua viagem, e mesmo que Merlin tenha tentado, ele não conseguiu resistir a Arthur nesses dias que passaram. A verdade é que eles praticamente moram na casa um do outro agora, transando mais do que coelhos, talvez.
Ele está na cozinha, preparando um chá de gengibre, pois uma gripe infernal o atacou, quando lhe ocorre que ele deveria avisar Arthur para não vir hoje. Arthur está trabalhando em algum caso de suma importância e provavelmente ficará aliviado de ter uma ou duas noites de descanso.
Pelo lado positivo, ele não precisa se preocupar com o trabalho – Merlin quase nunca tira dias de folga, então o RH da Pendragon & Associados foi bastante solícito com seu atestado de três dias, mesmo que pareça que ele está tirando um final de semana prolongado, já que hoje é quarta-feira.
Arthur não atende o celular nas duas primeiras tentativas de Merlin, mas ele consegue na terceira. "Pendragon." Arthur late do outro lado da linha, como uma saudação.
"Ei, Arthur, oi." Merlin diz, sentindo-se subitamente inseguro com tudo isso.
"O que foi, Merlin? Vivian diz que você não para de ligar."
Ah, sim. Vivian. A nova assistente de Arthur. Loira, pequena, seios fartos, rosto de supermodelo e gostosa pra caralho. Porque pensar em Vivian e Arthur absolutamente faz com que Merlin se sinta melhor. Principalmente quando ele está com todo seu corpo fervendo e dolorido pela febre alta, sentindo-se imprestável.
O fato de que Arthur deixou seu celular com a assistente também significa que ele está numa reunião extra-importante, apenas aquele tipo de reunião onde ele não leva nada que possa tirar sua atenção, para mostrar ao cliente como o caso tem seu foco total.
"Desculpe, desculpe." Merlin se atrapalha. "É que estou com febre e só liguei para dizer que você não precisa vir hoje. Estou uma bagunça, de qualquer forma."
Não é a imagem que ele quer causar, mas vai ter que servir, uma vez que a febre não parece deixá-lo pensar racionalmente.
"Você está com febre?" Merlin pode ouvir a tensão zunindo pela linha. "Você está no hospital?"
"Não." Merlin diz, caminhando preguiçosamente até seu sofá, que parece estar do outro lado do universo. "É apenas uma gripe. Mas o médico me prescreveu três dias de atestado, de qualquer forma. E várias drogas que acho que estão começando a fazer efeito."
Não tem tanta graça assim, mas Merlin ri de si mesmo. Arthur, por outro lado, parece ranzinza com a interrupção desnecessária. Merlin deveria apenas ter deixado uma mensagem.
"Ok." Arthur desliga, sem nem se despedir.
Se Merlin estivesse em seu perfeito juízo agora, ele ficaria irritado com a falta de educação de Arthur, mas, felizmente, para Arthur, Merlin está muito sonolento para se importar.
Ele dirige-se ao armário do banheiro para se certificar de tomar a próxima dose dos remédios prescritos, antes de voltar para seu confortável local no sofá, ligando a televisão numa reprise aleatória de Doctor Who.
Merlin não sabe quando exatamente adormece, mas acorda com o som da campainha. Ele bate os dedos sobre o celular, indicando que já passa das oito da noite, antes de caminhar até a porta.
Lembra-se que Merlin disse sobre o seu péssimo hábito de abrir a porta sem checar o olho mágico antes? Ele tem que mudar isso. Imediatamente.
Pois é assim que Merlin recebe Arthur, suado, desengrenhado, provavelmente fedendo, porque não se deu ao trabalho de passar desodorante hoje, já que não sairia de casa, ah… e não vamos esquecer da secreção esverdeada escorrendo por seu nariz de dez em dez segundos.
Arthur, por sua vez, é a definição do sex appeal em pessoa. Ele está com a roupa ligeiramente amarrotada e o cabelo levemente desgrenhado, várias sacolas da loja de conveniência da esquina e algumas outras embalagens que Merlin não consegue identificar. Mas Deus, ele ainda é a fantasia número um dos sonhos mais tórridos de Merlin.
"O que –" Merlin diz, fazendo uma pausa para engolir a secreção que teima em escorrer por sua garganta. "O que você está fazendo aqui?"
Arthur passa por ele, entrando em seu apartamento sem ser convidado, lançando um breve olhar em direção ao quarto de Merlin, antes que sua expressão mude, como se algo dentro dele tivesse se acalmado.
"Vim te fazer companhia." Arthur responde, indo direto para a cozinha.
O coração de Merlin bate de maneira irregular, na aparente familiaridade de Arthur com sua cozinha. Principalmente porque Arthur nunca pisou os pés nela antes.
"Eu disse que não precisava vir?" Merlin diz, esfregando a nuca, antes de cruzar os braços sobre o peito. Seu odor parecendo muito mais forte agora que Arthur estava ali, do que quando pegou no sono no sofá.
"Você quer que eu vá embora?" Arthur para de desembrulhar as muitas sacolas que trouxe e Merlin pode ver o que parece ser frango assado, de um dos restaurantes favoritos de Merlin.
"Você me trouxe comida?" Merlin ecoa, odiando como sua voz sai pequena e quase esperançosa.
Arthur trouxe comida e está ali para cuidar de Merlin, não para fazer sexo. Isso é o que namorados fazem, não é mesmo?
Arthur lança um olhar incrédulo para ele, como se dissesse: uau, você tem uma percepção incrível, não é?
"Sim." Arthur resmunga, continuando sua tarefa em desfazer as embalagens. "Por que você não toma um banho enquanto eu preparo tudo isso?" Ele sugere.
E ok, Merlin está mesmo precisando de um banho, mas não precisava fazer alarde sobre isso.
"Você nem sabe cozinhar." É a réplica que Merlin dá, muito inteligentemente, na sua humilde opinião.
"Colocar comidas em pratos não é exatamente como física quântica, Merlin." Arthur revira os olhos. "O que foi? Você não parece confortável. Quer que eu vá embora e te deixe descansar?" Ele pergunta e há algo estranho em seu tom, reservado e defensivo.
"Não, não." Merlin assegura. Ele morde o lábio inferior, porque isso é errado, isso é tirar vantagem de alguém que não sabe o que está fazendo. Isso é tão injusto com Arthur. "Eu vou tomar um banho."
A cena que acabou de acontecer em sua cozinha é tão surreal, que nem sequer havia passado pelas fantasias de Merlin antes. E olha que ele já havia fantasiado com Arthur em inúmeras situações domésticas. Mas jamais poderia imaginar aquilo.
Durante o banho, Merlin tem que empurrar a voz em sua mente – que está gemendo e engrandecendo todas as qualidades magníficas de Arthur, tanto as antigas, quanto as recém-descobertas – para o fundo, até que se torne um som indistinto que ele não pode decifrar exatamente.
Deus, o cheiro da comida é maravilhoso, quando ele retorna à cozinha. Ver Arthur servindo uma taça de vinho para cada um deles não melhora a situação. É como o jantar que uma vez Merlin planejou e aquilo faz com que algo se quebre dentro de Merlin.
"Você está chorando?" Arthur pergunta, tirando Merlin de sua lembrança.
"É apenas alergia." Merlin esfrega o nariz, fungando, o que parece convencer Arthur.
Arthur assente e Merlin o segue até o sofá da sala. Arthur levando seus pratos e Merlin as taças. Eles passam a refeição ali, com Merlin praticamente amontoado no colo de Arthur, enquanto assistem a alguns episódios de Unbreakable Kimmy Schmidt, que Merlin sabe que o Arthur atual nunca assistiu, mas não tem tanta certeza sobre o Arthur antes do acidente.
O ápice da noite, é quando Arthur pega parte do frango em seu prato com os próprios dedos e coloca sobre os lábios de Merlin. Merlin engole em seco e abre a boca para aceitar, mas é então que Arthur avança para colocar seus lábios ao alcance de Merlin, em vez do frango.
"Vou te passar gripe." Merlin resmunga, virando o rosto.
"Sou resistente e na minha última consulta com o médico ele disse que todas minhas vacinas estão em dia." Arthur faz pouco-caso.
"Idiota." Merlin resmunga, antes de beijá-lo.
Eles não transam naquela noite, mas é algo que Merlin não pode reclamar, visto como está cansado. Mas Arthur ainda passa a noite.
Merlin adormece com os braços de Arthur em volta de sua cintura, o cheiro de Arthur após o banho impregnado nos lençóis. E Deus, Merlin deseja que pudesse viver isso para sempre.
.Merthur.
A primeira vez que Merlin vê Arthur depois de Arthur voltar de sua viagem de negócios, é na segunda-feira após o final de semana catastrófico em que ele se deixou arrastar por Freya e Will – e um Mordred muito mais relutante do que Merlin, porque eles precisavam de mais um para formar um time – para um jogo infernal de paintball.
Não o leve a mal, Merlin gosta de paintball. Os quatro costumavam jogar sempre, no início da adolescência. Mas fazia quase dez anos que nenhum deles se aventurava no esporte e eles descobriram da maneira mais amarga, que adultos são muito mais competitivos do que crianças.
No final, Merlin está todo dolorido e com marcas por todo o corpo. Afinal, a roupa de proteção não impede que os hematomas de impacto surjam.
A questão é que Merlin está exausto e esgotado e acha que pode ter pego um pouco de insolação, durante o jogo. Ele definitivamente não deveria estar no trabalho, mas não é como se pudesse se dar ao luxo, num trabalho tão recente.
Ele está na sala de arquivos – escolhendo julgamentos dos anos 1990, sobre um grande caso que foi reaberto recentemente e que a firma está quase toda trabalhando em cima. Tão absorto e cansado, que mal registra Arthur se sentar na cadeira ao lado dele.
"Ei, você voltou." Merlin cumprimenta, sem tirar os olhos da pasta na frente dele. Não é nem de longe interessante, mas Merlin tem certeza de que se tirar os olhos das palavras por um segundo, eles fecharão e Merlin sucumbirá aos braços de Morfeu. "Como foi sua viagem?" Ele continua, só para não perder a noção da realidade e entrar em coma consciente, se é que isso é uma coisa.
Ele só sabe que Arthur não responde por um período anormalmente longo quando vira a página e lembra que não está sozinho. Obrigado, cérebro. Levantando os olhos do livro de casos, ele se vira para Arthur, em meio a um bocejo.
Ele ainda está no meio do dito bocejo, quando percebe que Arthur parece… furioso. Não há outra palavra para definir a expressão dele.
"Hum… ei." Ele recua na cadeira, sem saber o que foi que morreu na bunda de Arthur para fazer com que ele parecesse tão zangado.
"Andou indo à praia, Merlin?" Arthur range os dentes.
"Hum, não?" Merlin franze o cenho e o que era para ser uma afirmação, sai muito mais como uma pergunta.
"Andou saindo com alguém nesses últimos dias?" Arthur pergunta, com um sorriso que não alcança os lábios. "Você parece mais… corado." Ele completa, lançando um olhar assassino em direção ao pescoço de Merlin.
Merlin pode notar pelo canto do olho que eles estão começando a atrair atenção.
"Oh, certo." Merlin abana a mão. "Will, Freya, Mordred… pessoas estúpidas, ideias estúpidas, sabe como dizem."
"Não, eu não sei." As narinas de Arthur estão tão dilatadas que Merlin tem certeza de que pode colocar uma azeitona em uma delas.
Intrigado, Merlin inclina a cabeça, sem saber para onde esta conversa está indo.
"Mas me diga, você se divertiu?" Arthur pergunta com uma nota de sarcasmo que não passa despercebida por Merlin. "Seus amigos parecem bem… interessantes." Ele faz um movimento com o queixo em direção a Merlin, como se isso significasse algo para ele.
"Você quer conhecê-los?" Merlin franze o cenho, sabendo que Arthur não quer conhecê-los. Arthur não quer saber de nada da vida pessoal de Merlin e provavelmente só veio descontar suas frustrações em cima dele, sabe-se lá Deus porquê.
"Não!" A resposta de Arthur é curta e cortante. "Não quero." Ele reafirma, empurrando a cadeira para trás e ficando de pé, caminhando até a entrada da sala de arquivos em seguida.
A porta fecha atrás dele antes que Merlin consiga processar as palavras de Arthur. Gili e Daegal – dois dos colegas de trabalho de Merlin – cochicham algo entre risadinhas.
"Huh." Ele murmura para si mesmo. "Esquisito."
Todos os livros de caso concordam com ele.
.Merthur.
Merlin acorda pegando fogo.
Não literalmente, é claro, mas o sangue corre em suas veias e parece que está entrando em ebulição por dentro. O calor faz com que ele fique tonto e sua visão fique turva.
"Arthur." ele empurra o corpo de Arthur para longe, que parece uma fornalha.
Arthur resmunga, sonolento, antes de levantar sua cabeça do travesseiro, parecendo agitado.
"Cristo, Merlin, você está ardendo em febre." Ele resmunga, já se levantando da cama. "Vamos, vou te levar ao hospital."
"Não quero." Merlin sabe que está sendo imaturo, mas também sabe que não é pra tanto, é apenas uma gripe.
"Estou falando sério, Merlin." Arthur retruca, jogando as calças de moletom de Merlin em sua cara. "Levanta logo essa bunda daí."
"Eu também estou." Merlin pestaneja. "Já fui ao médico, ok? Se quer falar com ele, basta ligar. Ele é meu tio." Ele completa, estendendo sua mão a procura do telefone.
É mais difícil achar o contato de Gaius com a cabeça girando e com sono, mas ele passa o telefone para Arthur e o deixa se ocupar, antes de caminhar até o banheiro.
Ele liga o chuveiro na água fria, após tomar um antitérmico e deixar as roupas suadas ali mesmo, no chão do banheiro. Ele odeia isso, mas sabe que a água vai abaixar sua temperatura. Antes de sair do chuveiro, no entanto, ele liga a água quente, há limite para tortura, afinal.
Quando volta ao quarto, Arthur está sentado na beirada da cama, parecendo amuado. Merlin não sabe o que aconteceu no meio tempo em que foi e voltou do banheiro, mas Gaius não poderia ter dado uma bronca em Arthur, poderia? Eles sequer se conhecem.
"Ei, o que foi?" Merlin pergunta, erguendo o queixo de Arthur, para que olhe para ele. Merlin ainda está enrolado em sua toalha, mas pouco se importa, Arthur já o viu nu, não é como se tivesse algo a esconder.
"Me desculpa." Arthur soa apologético. "Não queria gritar com você."
Merlin franze o cenho. Aquilo foi uma briga? Eles estão discutindo a relação agora? Em que mundo paralelo Merlin está, afinal?
A questão é que Merlin não sabe o que fazer. Ele não faz a mínima ideia do que poderia dizer para Arthur. Então decide fazer a única coisa que sabe.
"Acho que tem maneiras melhores de você pedir desculpa." Ele diz, empurrando Arthur na cama e montando seu colo.
"Merlin, você está doente." Arthur tenta desvencilhar Merlin de si.
"Não pareceu importante para você quando era você quem estava se recuperando de um acidente de trânsito." Merlin ironizou.
É inebriante como Merlin pode ficar excitado rapidamente perto de Arthur. Basta alguns apertos, alguns beijos e um pouco de movimento dos quadris, e ele já está totalmente duro, seus quadris empurrando por vontade própria e – ei, onde foi parar sua toalha?
Arthur não parece muito recomposto também. Se a mancha escura em sua cueca quer dizer algo, é que o sonho antes de Merlin o acordar deve ter sido muito agradável.
"Já que teremos que trocar os lençóis de qualquer jeito, por que não usá-los direito?" Merlin brinca, puxando Arthur em direção a si, rolando na cama, para que invertam as posições.
Arthur se afasta um pouco, retirando a camiseta, antes de retornar para Merlin, beijando-o com volúpia. Um rápido olhar em direção à cueca de Arthur, confirma que, sim, há uma tenda enorme ali, obrigado.
E então – então…
Há Arthur em todos os lugares, de uma só vez, pressionando o máximo de pele possível na carne nua de Merlin. Merlin choraminga, porque aquilo é adorável, é tudo de bom, mas ao mesmo tempo, não é suficiente.
Levantando os quadris, ele abre as pernas o máximo que consegue e empurra cegamente em busca de algum atrito, usando seus pés como alavancas nas coxas de Arthur, para posicionar seu traseiro no lugar exato em que ele quer se encaixar.
É constrangedor, e Merlin vira a cabeça tentando reprimir os sons ridículos que está fazendo.
"Ei, ei." Arthur segura seu rosto em sua direção. "Nada disso. Você é lindo assim." Ele escova o nariz sobre a pele do pescoço de Merlin, antes de lamber o lóbulo da orelha.
Merlin não quer esperar. Ele precisa disso. Agora. Ele precisa da queimadura, do atrito, do alongamento impossível que sempre sente, da sensação de conclusão, quando Arthur finalmente goza. Tentando puxar Arthur para frente, ele bate os dentes, em meio a um beijo longo, molhado e imundo.
Arthur se afasta, mas Merlin o agarra, impedindo-o.
"Camisinhas, Merlin." Arthur sussurra, parecendo quase tão afetado quanto Merlin.
Merlin olha para baixo, antes de dizer algo realmente estúpido, que fará com que Arthur saia correndo.
"Eles fizeram exames no hospital?" Merlin pergunta e quando Arthur não parece entender o que ele quer dizer, ele esclarece. "Pra saber se você tinha alguma DST."
"Ah!" Arthur arregala os olhos. "Sim, eles fizeram."
"E…?" Merlin pergunta, vendo que Arthur não saiu correndo, apesar de parecer apreensivo.
"Negativo." Arthur sussurra, como se aquilo fosse um segredo. O que, de certa forma, é. "E você?"
O peito de Merlin se esquenta diante daquela pergunta. Eles realmente farão aquilo? Incerto de que possa dizer algo, Merlin apenas balança a cabeça.
"O que isso deveria significar?" Arthur parece ao mesmo tempo confuso e divertido.
"Que se você quiser, nós podemos…"
Arthur não parece precisar de uma segunda orientação. Ele inclina o quadril de Merlin para cima, colocando-o em sua linha de visão, antes de começar a devorá-lo com a boca. Não é o rimming mais suave que Arthur já fez, ele parece meio desesperado. Mas não é como se Merlin estivesse se importando com isso.
Ele deixa Arthur trabalhar nele, com lábios, língua, saliva e dedos, apenas o suficiente para saber que está pronto.
"Venha, venha." Merlin exige, mudando os quadris de posição, enquanto sente seus músculos queixarem-se por causa da febre recente.
"Lubrifi…" Arthur começa a desvencilhar-se novamente, mas Merlin puxa sua cueca para baixo num movimento afoito.
"Não vamos precisar hoje." Merlin quase rosna de volta.
Arthur arqueia uma sobrancelha, parecendo divertido e chocado.
É um alívio, são todos anjos do céu cantando em coro, quando Arthur pressiona sobre ele. E Merlin está tão relaxado, aberto e ansioso, que Arthur entra nele quase que com facilidade.
Merlin está sufocando pequenas sílabas de palavras ininteligíveis que soam mais como uma sequência de ahs e ohs escandalosa que fariam muitos atores pornôs enrubescerem. E a única coisa que ele consegue pensar é por que não fizeram isso antes.
Arthur é imenso dentro dele e todas as vezes que Merlin tenta se dedilhar, quando Arthur não está por perto, simplesmente não consegue ter o mesmo efeito.
Mãos, pernas e lábios estão em todos os lugares e Merlin sabe que esse é provavelmente o sexo mais desajeitado que já tiveram, mas Céus! É perfeito!
Suas pernas estão presas à cintura de Arthur, os tornozelos cruzados o mantendo preso. Merlin está perto agora, arremessando-se naquele prazer irracional. Ele também tem certeza de que está produzindo sons que nem sabia que eram vocalmente possíveis de serem produzidos por seres humanos.
Quando ele goza, é quase doloroso, de tão intenso que é. Arthur estava com a respiração entrecortada até então e ele eleva o corpo um pouco, segurando os quadris de Merlin e dando impulsos vigorosos quase como se não fosse conseguir sair de dentro de Merlin.
Merlin sempre achou que aquilo seria doloroso e exaustivo. Arthur nunca continuou metendo depois de Merlin ter acabado de gozar, mas as investidas de Arthur, sobre a próstata muito sensível de Merlin, faz com que Merlin sinta aquela pressão familiar em seu púbis e Merlin sufoca um gemido, quando goza pela segunda vez.
Arthur parece chocado com aquilo, mas ele não tem muito tempo para assimilar o que está acontecendo, porque o canal de Merlin está contraindo sobre o pênis de Arthur e logo em seguida é Arthur quem está sufocando um gemido, empurrando seus quadris com força contra Merlin.
Arthur se aproxima, apoiando um braço no colchão de maneira trôpega, o que Merlin agradece, pois seu corpo ainda está bastante dolorido. Arthur vira o nariz para os cabelos suados na têmpora de Merlin e Merlin pode sentir as pequenas pulsações do membro de Arthur. Cristo, ele ainda está gozando?
Dez minutos depois, Arthur faz uma série de movimentos que Merlin não acha que está levando a lugar nenhum, até perceber que ele estava rearranjando os dois numa posição mais confortável. O pênis de Arthur há muito já está flácido contra a coxa de Merlin. Merlin, por sua vez, está fodido demais para se mover muito, apenas deixando Arthur guiá-lo.
"Acho que não consigo trocar os lençóis." Arthur ri.
"Não importa." Merlin agarra-se a ele, caindo no sono imediatamente.
Merlin acorda, algum tempo depois, e demora para perceber o porquê. Arthur não está na cama e de repente Merlin sente o pânico o atingir.
Ele senta na cama, a respiração afoita, quando Arthur entra no quarto com uma banana nas mãos.
Arthur descasca a banana lenta e metodicamente, tirando as fibras que teimam em agarrar-se aos seus dedos.
"Você tem que comer algo." Arthur diz e só então Merlin percebe que o sol já se levantou do lado de fora e Arthur já está vestido para o trabalho.
Ocorre a Merlin que ele deve estar muito longe na cadeia de paixão, para ser tão fascinado como a maneira com que Arthur descasca uma banana. Ele se senta ao lado de Merlin e coloca a casca da banana sobre a calça – pouco se importando se ela deixará uma mancha –, antes de começar a quebrá-la em seções, alimentando-as na boca de Merlin e pontuando cada uma com um longo beijo.
Merlin não sabe o que pensar daquilo. O que aquilo deveria significar. Mas a culpa e aversão se agitam no estômago.
"Eu volto à noite." Arthur diz, antes de beijá-lo novamente e sair do quarto, levando a casca da banana.
Seus dias de atestado passam assim. Comida, sexo e companhia. Arthur por muitas vezes dando de comer ou beber na boca de Merlin, o que é bem mais sensual do que Merlin jamais poderia imaginar. O sexo nos outros dias é diferente, no entanto. Não é algo desesperado, mas algo lento e demorado, com preliminares absurdamente longas e Merlin se pergunta como Arthur está conseguindo ir trabalhar, quando Merlin não consegue fazer mais do que dormir o dia inteiro.
São três dias de algo que ele sempre sonhou em ter com Arthur. Algo que vai além do sexo. Mas isso deixa Merlin enjoado, toda vez que pensa sobre o assunto. Arthur – seu Arthur, aquele com sua memória completa – não faria nada daquilo. Ele odiaria Merlin por reduzi-lo àquilo.
Mas a pior parte é que Merlin não consegue nem se arrepender.
.Merthur.
"Você não tem nada a oferecer." Morgana diz e Merlin pensa que isso não é verdade. Ele tem muito a oferecer. Ok, talvez seja apenas seu amor que ele tenha a oferecer, mas, ainda assim, é algo. Não, o único problema aqui é que o que ele tem a oferecer a Arthur não é o suficiente e ele sabe disso.
Eles estão numa das festas chiques que os Pendragons adoram dar, convidando todos que conhecem à enorme propriedade da família para tomar drinques e jantar. Morgana havia caminhado até ele, quando Merlin ficou sozinho – malditos amigos de merda –, seu vestido preto esvoaçando em seu caminhar demonstrando que ela não estava para brincadeiras. Os dedos longos dela estavam enrolados em torno de uma taça de vinho, as unhas combinando com o líquido de maneira quase sincrônica, parecendo ainda mais ameaçadores e cruéis.
Gwaine foi buscar um pouco de vinho, deixando Merlin para cuidar de si mesmo. Ele odeia essas festas – ele não é convidado porque é o namorado de Arthur, só está aqui porque é um dos funcionários da firma e Uther Pendragon acha importante esse tipo de socialização de merda.
"Ok." Merlin diz simplesmente, não querendo dar mais motivos para que Morgana continue falando. "Com licença, eu tenho que procurar alguém." Merlin vira para sair dali, mas ela o puxa de volta com um aperto contundente. Atordoado, Merlin só pode olhar para ela sem causar uma cena.
"Ok?" Ela parece furiosa. "Ok? Eu digo tudo isso e a única coisa que você tem a dizer em sua defesa é isso? Escute, seu pequeno…"
"Está tudo bem aqui?" Merlin nunca ficou tão agradecido por ouvir a voz de Arthur. Morgana imediatamente retrai a mão do pulso de Merlin, sua expressão suavizando, tão diferente do olhar de desprezo que ela sempre lança a Merlin.
"É claro, Arthur." ela garante, os olhos fixos em Merlin, como se o desafiasse a discordar. Não que Merlin seja burro o suficiente para isso. "Apenas tendo uma conversa muito… esclarecedora com o nosso Merlin aqui." O modo como ela diz nosso é condescendente, como se Merlin não fosse mais que uma criança. O que pode até ser verdade, mas esse não é o ponto em questão. "Bem, é isso então. Ótima conversa, Emrys." Ela se vira e desaparece de volta no meio dos outros convidados.
Quando Merlin arrisca um olhar para Arthur, há uma profunda carranca em seu rosto. "O que foi isso?" Ele pergunta e Merlin dá de ombros.
"Nada para se preocupar. Você conhece sua irmã."
Arthur o estuda por um longo momento, antes que alguém o chame e Merlin é deixado sozinho novamente.
Está tudo bem, ele está acostumado.
.Merthur.
A única vez que eles saem juntos, é na noite antes do acidente de Arthur.
Ou bem, não é exatamente como se eles tivessem saído juntos. É mais uma reunião entre pessoas conhecidas. É o aniversário de Gwaine e o aniversariante convida todos os amigos para uma festa fechada numa boate bastante badalada do centro de Londres – confie em Gwaine para lotar uma casa de eventos com um evento privado. Merlin duvida que Arthur aparecerá, pois aquele ambiente simplesmente não combina com ele, mas é com choque que Merlin vê o loiro entrar na boate, com uma maldita jaqueta de couro.
Bem, Merlin não deveria ficar tão surpreso assim, Arthur e Gwaine são amigos de longa data – por mais que Merlin não consiga entender o que os dois tenham em comum, além de terem feito faculdade juntos – e obviamente Arthur compareceria.
O humor de Merlin azeda quando ele vê uma das associadas da Pendragon e colega de turma de ambos agarrar-se ao braço de Arthur. Sophia qualquer coisa. Enfim, não interessa. Mas Arthur parece bastante interessado, na maneira que sorri para ela.
Merlin vira três doses de tequila seguidas no bar, ignorando os olhares de pena de Lance e Gwen.
"Eu não me importo." Ele dá de ombros e os dois amigos não dizem nada, os anjos que são.
Ele se perde em meio a uma dança desengonçada entre Gwaine e Percy, dez minutos depois, onde ele é o recheio de um sanduíche extremamente desproporcional. As três tequilas que ele tomou já foram direto para o seu cérebro e, depois de já ter bebido alguns drinks mais cedo, naquela noite, parece muito inteligente da sua parte aceitar o convite de Will para acender um baseado.
Uma coisa que vocês tem que entender, é que Will, antes de entrar para o curso de medicina, era um maconheiro muito apaixonado. Agora, entretanto, quando tem que se manter sóbrio a maior parte do tempo, ele reserva poucos momentos a apreciação do seu nirvana. O que o deixa muito poético e filosófico, a medida que enrola o baseado.
Freya, que parece sentir o cheiro de maconha de longe, surge ao seu lado, sabe-se lá Deus de onde, pois ele tinha certeza de que ela tinha dito que não poderia comparecer. Não que importe muito, Merlin não está tão sóbrio para considerar isso.
É nesse momento em que Merlin vê pelo canto do olho os cabelos de Arthur. Ele está caminhando para fora da área reservada aos fumantes e Merlin se pergunta o que ele estava fazendo ali, já que Arthur odeia cigarros. De maconha ou não.
Um baseado se tornam dois, que se tornam três. E quando Merlin percebe, ele tem que voltar ao bar para beber água, pois está morrendo de sede.
Lance parece já saber do que Merlin precisa, pois estende uma garrafa de água para ele, quando Merlin retorna ao bar. Gwen está dançando com… espere, Morgana?
Merlin franze o cenho, confuso, lançando um olhar interrogativo para Lance, ao que Lance dá de ombros, parecendo tão perdido quanto.
E é isso! A gota d'água naquela noite para Merlin. Ele aperta seus olhos para a multidão, tentando encontrar Arthur, porque valha-me Deus, é agora ou nunca.
Ele passa por Gili se agarrando com uma das garotas do RH e logo depois se encontra numa rodinha com Mordred, Kara, a amiga de infância deles recém-encontrada e antiga paixão de Mordred – agora namorada oficial – e Freya e Will, que devem ter terminado seu baseado e voltado para a festa. Eles entram numa conversa que nem faz muito sentido para Merlin, com a mente entorpecida pelas múltiplas drogas em seu sistema e é fácil para ele esquecer o seu propósito inicial.
"Gwaine tem que ser o cara mais amigável de todos os tempos." Merlin diz, ao ver Gwaine dançando com Elena, Isolde e Morgause – a prima aterrorizante de Arthur que consegue ser pior do que Morgana –, Tristan e Cenred – namorado e marido respectivamente de Isolde e Morgause – não parecem incomodados, dançando numa rodinha com um outro cara que Merlin acha que se chama Valiant. "Quem falta ele convidar? Uther Pendragon?"
"Na verdade, ele convidou." Mordred diz e Merlin se engasga com sua água. "Ele sempre convida, pelo que eu entendi. A única pessoa que não é convidada é Agravaine e Gwaine não costuma esconder o desprezo que tem pelo homem no escritório."
Merlin franze o cenho, diante daquela revelação absurda, mas com a entrada dos Pendragons a força em sua mente, ele se lembra de seu objetivo inicial.
"Eu… vou ao banheiro." Ele anuncia de repente e sabe que não engana absolutamente ninguém.
Ele caminha a esmo, tentando encontrar a cabeça estúpida de Arthur no meio da multidão, até que descobre um espaço aberto do lado oposto ao fumódromo que ele nem sabia que existia.
E lá, encostado na parede, com Sophia quase empoleirada em seu colo, enquanto se esfrega em seu corpo e o beija indecorosamente, está ninguém mais ninguém menos do que Arthur.
Merlin fica em choque com a cena. O local está praticamente vazio, sendo que as pessoas saem mais para fumar e conversar do que qualquer outra coisa, então costumam usar o outro lado da boate – ou era o que Merlin imaginava. Só há mais dois casais além de Arthur e Sophia ali, parecendo tão comprometidos quanto os dois em suas próprias tarefas.
Merlin deveria ter voltado para dentro. Ele deveria ter saído no momento em que viu o que estava acontecendo. Mas, como o idiota que é, ele congela tempo suficiente para que Arthur o veja.
Ok, idiota, agora é a hora de fugir. Ele diz para si mesmo e se vira de uma vez, batendo a testa em cheio na porta que havia se fechado às suas costas. Céus, isso vai virar um galo.
Como se não fosse humilhação suficiente para um dia, Arthur chama por ele, enquanto Merlin volta para dentro da boate, entrando de cara na primeira rodinha que encontra e percebendo que é a mesma rodinha dos seus amigos de infância. Por que ele parece ter dado toda uma volta na boate até achar o maldito lugar em que Arthur estava, afinal?
"Eu acho que estou passando mal." Merlin diz.
"Merlin, eu já te avisei que você não funciona com álcool e maconha juntos." Mordred gira os olhos.
"E eu bati minha cabeça." Merlin esfrega o calombo que já começa a se formar em sua testa.
As coisas não estão fazendo nenhum sentido mais, porque Arthur para ao seu lado, um segundo depois.
"Podemos conversar?" Ele parece agitado.
"Não, Arthur." A cabeça de Merlin zombe. "Eu acho que vou vomitar." Ele anuncia para ninguém em específico.
"Vamos lá para fora." Arthur sugere, apontando em direção à saída de onde acabaram de vir e segurando o braço de Merlin. "Vai ser melhor se você respirar um pouco de ar fresco."
Merlin solta uma risada sarcástica e puxa seu braço de volta com pouca delicadeza.
"O último lugar na terra em que eu quero estar é lá. Muito menos com…" Merlin tem certeza que a próxima palavra que ele diria seria você, mas ele tem que levar uma mão a boca, a outra agarrando o braço de Will, num movimento que somente um amigo de longa data com histórico de muitas aventuras irresponsáveis envolvendo álcool, entre outras drogas, consegue entender.
Will não demora nem dois segundos para arrastá-lo até o banheiro mais próximo e o resto da noite se perde em um borrão. Merlin tem certeza de que ele vomita o conteúdo de quase oito refeições, antes de achar que vai conseguir sair do banheiro sem vomitar por todo chão da boate – mas Will afirma, no outro dia, que não foi tanto assim.
Arthur tenta falar com ele quando ele sai do banheiro, parecendo ter esperado ali o tempo todo, mas Merlin não quer saber de Arthur chegando perto dele. Ele está fedendo a vômito, pois um ou outro jato não acertou exatamente o local que deveria e tudo que ele não precisa agora é que Arthur o associe ao cheiro de vômito.
"Agora não, Pendragon." Will rosna para Arthur e Arthur parece entender a deixa.
Eles se sentam perto do bar, numa mesa alta que Freya e Kara parecem ter conseguido para eles e logo Mordred vem carregado de comida e água.
Vez ou outra, um ou outro amigo aparece para perguntar se Merlin está bem e Merlin apenas acena, afirmativamente. Ele não fala mais nada durante a noite, notando que Arthur é o único que não veio falar com ele. Sophia desapareceu da festa, mas Merlin ainda consegue ver Arthur do outro lado da pista, discutindo algo com Morgana, enquanto toma uma dose de Whisky atrás da outra, como se tomasse coragem para fazer algo.
O que quer que fosse, Merlin jamais descobre, pois é no outro dia que Arthur sofre seu acidente. Mas, depois da revelação de Morgana, com o recente affair de Arthur e Sophia e tudo mais, é óbvio que ele estava prestes a terminar com Merlin e só não fez aquilo naquela mesma noite pelo vexame que Merlin deu.
Ele imagina que, quando Arthur recuperar suas memórias, as coisas terminarão bem piores do que se tivesse terminado tudo naquele dia. Se tivesse acabado tudo antes de Merlin conhecer esse outro lado de Arthur, Merlin teria aceitado e superado tudo. Sim, ele teria.
Cale a boca, ele não está mentindo para si mesmo.
.Merthur.
Gwaine liga na manhã do quarto dia, quando Merlin finalmente consegue convencer Arthur de que sim, ele ficará bem sozinho e não, ele não está ferido, cansado ou muito dolorido ou o que for, então Arthur pode voltar para seu próprio apartamento e ter uma boa noite (manhã?) de sono, já que ele parece estar precisando.
Não que Arthur não tente convencê-lo de que ele dormiria melhor ao lado de Merlin, mas Merlin duvida muito disso. Tudo que eles não tem feito nos últimos dias é dormir e Arthur está com olheiras mais escuras do que couro.
"Cara, o que foi?" Ele faz malabarismos com o telefone entre a curva do pescoço e o ombro, pegando a jarra de leite da geladeira e um biscoito da vasilha sobre o balcão da cozinha – que Arthur abasteceu na última noite, dizendo que ele precisava de algo para comer, como se não tivesse entulhado a geladeira de Merlin com comida suficiente para duas semanas, nos últimos dias.
"O quê? Desse jeito você me ofende, Merlin." Gwaine faz seu drama habitual. "Um cara não pode ligar para sua pessoa favorita no mundo apenas para conversar?"
"Sim claro." Merlin revira os olhos. "E meu nome é Percival… er… eu não acho que saiba o sobrenome dele."
"É Portman, mas isso não vem ao caso." Gwaine faz pouco-caso. "Você sabe que são diferentes tipos de favoritismo, entre você e ele, não sabe?"
"Que seja, Gwaine. Vá direto ao ponto. Estou morto de sono." E aquilo era a mais pura verdade. Arthur pode ter dado os dias de descanso para Merlin nos últimos dias, mas as noites foram bastante agitadas.
"Fiquei sabendo que você pegou uma gripe. Queria saber se está tudo bem…" Gwaine se interrompe, como se houvesse mais a ser dito, mas ele tivesse desistido no meio do caminho.
Tomando o leite direto da caixa e dando uma enorme mordida no biscoito, Merlin estreita os olhos, desconfiado. "E quem teria dito isso?"
Não é como se Merlin tivesse avisado mais alguém que estava doente. Superprotetores como alguns de seus amigos eram, não duvidava que eles fizessem escalas para cuidar dele.
"Bem… posso ter encontrado Arthur no corredor ontem pela manhã." Gwaine admite. "Ele parecia bastante bem-humorado."
"E o que tem?" Merlin dá de ombros, mesmo que Gwaine não consiga vê-lo.
"Merlin, cara, você sabe que eu me preocupo com você." Gwaine parece pesaroso em ter que acabar com a diversão de Merlin. "Eu sei que você gosta dele, e ele é um bom amigo, apesar de ser muito fechado. Mas a questão é: vale a pena, realmente?"
"Está tudo bem, não há com o que se preocupar." Merlin garante. Ele pousa a caixa de leite, olhando fixamente para a bancada antes de reunir coragem para contar a verdade a Gwaine. "Nós estamos terminando. Ou terminamos, não sei, é complicado. De qualquer forma, não vamos ficar juntos por muito mais tempo."
Se algo vale de tudo isso, é que alguém conseguiu deixar Gwaine sem palavras, uma vez na vida.
"Cara, isso é uma merda. Sinto muito." Gwaine diz, longos segundos depois. "Eu realmente achei que as coisas dariam certo para vocês no final."
"Não era pra ser." Merlin suspira, resignado.
Ele praticamente pode ouvir a carranca de Gwaine. "Eu não entendo. O que é tão complicado? Arthur fez alguma coisa? Você precisa que eu coloque algum sentido naquela cabeça dura dele? Sei que ele é meu chefe e tudo, mas não seria a primeira vez. Você apenas precisa dar seu consentimento e eu entro em ação."
Merlin sorri, sem muito sentimento. É bom saber que Gwaine é um bom amigo – perpetuamente confuso e uma enorme bagunça na maior parte do tempo – mas mesmo assim, um bom amigo.
"Estou bem. É que… quero dizer, ainda não terminamos, mas Morgana veio até mim na semana passada e deixou escapar que Arthur está tentando terminar as coisas entre nós há meses."
"O quê?" Gwaine soa furioso. "E o idiota teve que mandar a própria irmã fazer o trabalho sujo por ele?"
"Gwaine, você se esqueceu que ele não se lembra?" Merlin diz, sentando-se numa das cadeiras da cozinha.
"Ah, certo." Gwaine franze o cenho. "É estranho imaginar isso, porque pra mim ele não mudou nada."
As palavras de Gwaine fazem com que Merlin se sinta ainda mais culpado. Porque o Arthur de antes do acidente e de depois são pessoas completamente diferentes para ele e Merlin acha que talvez seja sua culpa que tudo seja a bagunça que é agora.
"Gwaine." Ele sussurra em voz baixa. "Acho que estraguei tudo. Deveria ter ido até a casa de Arthur para pegar minhas coisas na quinta-feira passada e acabei dormindo com ele. Ele não se lembra de mim. Ele vai me odiar quando recuperar suas memórias."
"Mas por quê?" Gwaine parece confuso. "Foi apenas uma coisa de uma noite. Vocês dormiram juntos e acabou. Como uma despedida. Ele entenderá. Além disso, vamos lá cara, você lembra como ele era no início e…"
Merlin morde o lábio, mantendo o silêncio.
"Merlin…" A realização parece chegar a Gwaine. "Não! Ah, vamos lá, cara, me diga que foi uma só vez. Foi, não foi?"
Merlin permanece quieto.
"Não, claro que não." Gwaine protesta. "Vocês passaram a última semana fodendo como coelhos como costumam fazer. Sério, Merlin, eu gosto de sexo, mas vocês dois estão em outro nível e…"
"Gwaine, agora não é o momento para sermões."
Gwaine solta um assobio baixo, seguido de uma longa expiração.
"Merlin, se até eu consigo enxergar, você não acha que exista algo muito disfuncional nessa relação de vocês?"
"Sei, sei." Merlin admite. "Deus, porra, como eu sei!"
É uma prova do quão madura se tornou sua amizade com Gwaine nos últimos anos, que eles passam praticamente dez minutos em silêncio. E se Merlin chora um pouco, bem, isso não é da conta de ninguém. E se alguém perguntar a Gwaine, ele vai dizer que não sabe do que a pessoa está falando.
.Merthur.
A merda atinge o ventilador dois dias depois.
Morgana deve voltar no outro dia, então todo escritório está em frenesi, com todos tentando apressar o trabalho que estavam adiando enquanto a Srta. Punho de Ferro estava fora. Não é de grande ajuda que Merlin tirou três dias de licença na semana anterior e tudo que ele não precisa é que Morgana crave seus olhos em Merlin, seja lá por que motivo for.
Ele só esteve com Arthur depois de sua sessão de sexo febril – literalmente! Haha – uma vez. Aparecendo para um jantar rápido a pedido de Arthur e só isso. Arthur se desculpou, ao informar Merlin que teria que passar a noite estudando a papelada que Morgana havia lhe enviado sobre a fusão.
Isso foi surreal. Arthur parecia quase culpado por não ter poupado tempo para dar uma boa foda a Merlin, dando um beijo na bochecha de Merlin. Na bochecha dele. Como se Merlin fosse uma princesa da Disney ou algo assim.
É algo que eles nunca fizeram antes. A coisa do jantar. Não que o primeiro dia de febre tenha contado, pois eles acabaram transando no meio da madrugada. A coisa é que Arthur nunca convidou Merlin – ou vice-versa – apenas para jantar, conversar e fazer companhia um ao outro.
Parecia tão doméstico, os dois na cozinha de Arthur preparando uma refeição. Arthur até colocara um avental – coisa que Merlin jamais acreditaria, se não tivesse visto com seus próprios olhos – e o ajudara a picar os legumes, já que ele era totalmente imprestável diante de um fogão.
Por isso, Merlin não estava esperando a convocação para o escritório de Arthur logo depois do almoço, quando a firma ainda é letárgica e a taxa de trabalho é quase nula. Ele recebe uma ligação em seu telefone comercial, o toque estridente sacudindo-o de seu cochilo, depois de ter jogado dezenas de rodadas de paciência em seu computador.
"Sim?" Ele responde, antes de lembrar que ele está trabalhando, não é profissional atender uma ligação assim. "Quero dizer, olá, Emrys falando, Pendragon & Associados. Em que posso ajudar?" Não é perfeito, mas ninguém pode dizer que ele não se esforçou para corrigir seu erro.
É Vivian do outro lado da linha. Ela parece mais confusa do que qualquer coisa e Merlin realmente deseja que ele a deteste, mas ela é tão parecida com Elena que Merlin meio que se vê esperando que elas nunca, nunca se encontrem – o que é bem improvável, visto a propensão de Gwaine a fazer novos amigos e apresentá-los aos antigos –, porque elas poderiam absolutamente dominar o mundo.
Mas a questão é que ela está sempre ao lado de Arthur agora e Merlin nunca foi a pessoa mais segura do mundo. Não ajuda muito que Merlin tenha visto ela fazer Arthur sorrir, uma vez, na semana passada. Arthur e sorrisos são como bolas de neve e o inferno; geralmente é impossível que o primeiro esteja na presença do segundo. Merlin está – sim, ele é totalmente maduro o suficiente para admitir – Merlin está com ciúmes. Não é grande coisa, afinal de contas.
"Merlin." Ela começa. "Preste bastante atenção, sei que você está à deriva." Porra, a mulher é boa. "Arthur quer vê-lo em seu escritório imediatamente."
Merlin para de girar a caneta que pegou.
"O quê? Agora? Ele disse o porquê?" Algo parece errado. Os instintos de Merlin estão loucos, berrando ALERTA VERMELHO, ABORTAR MISSÃO em caps lock por todo o seu cérebro.
"Não." Vivian diz. "Mas eu traria meu traseiro aqui o mais rápido que pudesse se fosse você. Ele parece furioso."
Deve ser assim que as pessoas se sentem no dia de um julgamento. Merlin deixa cair a caneta na mesa, antes de se despedir de Vivian e desligar. Ele pega o blazer nas costas de sua cadeira giratória. Ele deveria colocá-lo? É demais? Ele nunca veste seu blazer, a menos que tenha obrigatoriamente que usá-lo – o que, visto seu status na empresa, é nunca.
Merlin decide trazê-lo, por precaução. Não faz mal estar preparado. Ele nunca foi um escoteiro, mas pode se apoiar totalmente na filosofia deles. Faz todo sentido. Correndo para o saguão do elevador, ele tenta não parecer como alguém que está tendo um surto interno. Suas mãos estão suando em baldes, então ele as limpa nas calças e ignora o olhar de desdém que um dos advogados esperando o elevador ao seu lado o envia. Queria ver como ele lidaria com as notícias em seu lugar, Sr. Judgy Mcjudgerson. Quando Merlin aperta o botão do andar dos Pendragons, no entanto, o homem solta um bufo ainda mais desdenhoso e Merlin não consegue se segurar.
"Algum problema?" Merlin pergunta, semicerrando os olhos.
"Nada." Ele dá de ombros, olhando Merlin de cima a baixo. "Eu ouvi falar de você. Quem não ouviu, não é mesmo? Só achei que Pendragon teria mais bom gosto."
"Bem, sorte a minha que não é o caso, não é mesmo?" Merlin devolve no mesmo tom, mas por dentro ele está borbulhando de raiva.
Quando o elevador chega ao quadragésimo andar, Merlin sai, praticamente tremendo. Ele esteve roendo as unhas com tanta força desde que o idiota saiu do elevador, que terá sorte se voltar a ter cutículas em algum momento da sua vida. Supondo que ele sobreviva ao que Arthur convocou-o ao seu escritório, é claro.
Vivian indica a porta do escritório do canto – não que Merlin precisasse disso, ele e Arthur já haviam até transado no dito escritório, antes, durante e depois da reforma naquele andar – desinteressadamente, digitando em seu computador com sua eficiência habitual aterrorizante. "Ele está esperando por você." Ela diz, voltando-se para o trabalho.
Merlin respira fundo, subitamente grato pelo escritório de Arthur ser a prova de som, de modo que ninguém possa estar a par das reuniões privadas. Ele vira a maçaneta da porta de mogno e entra.
Arthur está sentado atrás de sua mesa em sua cadeira de couro com espaldar alto, digitando no computador. As janelas de vidro até o chão sempre foram magníficas para Merlin, que só tem uma pequena janela de frente seu pequeno cubículo, mas agora elas só servem para ser intimidantes. O toque das teclas cessa, mergulhando a sala em um silêncio mortal.
"Sente-se." Ordena Arthur, apontando para as cadeiras de visitantes colocadas diante de sua mesa sem tirar os olhos do computador. Merlin atravessa a sala e cai em uma delas.
"Ah, então, Vivian disse que você queria me ver? Se é sobre o caso de Edwin Muirden, tenho que dizer que passei para frente quando adoeci e é Gili quem…"
"Cale a boca." Arthur sussurra e não é nada como as brincadeira e provocações que Arthur atira em Merlin para fazê-lo ficar quieto. Isso – é venenoso, carregado de fúria e raiva. A boca de Merlin se fecha com um clique audível.
"Que porra…" Arthur estremesse, quando se vira finalmente para Merlin. Ele parece que está se controlando muito para não gritar. "de brincadeira você estava fazendo? Você achou divertido me fazer de idiota, Merlin?"
Merlin luta para acompanhar a conversa. "O que –" ele começa a se defender, antes que a realidade o acerte. Ele empalidece, engolindo em seco. "Você se lembrou."
Suas palavras parecem desencadear um turbilhão em Arthur.
"Sim, eu lembrei!" Arthur empurra sua cadeira para trás violentamente, ficando em pé. A cadeira rodopia e ricocheteia no vidro atrás dele, antes de cair de lado. Seus punhos estão cerrados sobre a mesa agora, e Merlin pode ver os nós dos dedos brancos, tamanha a pressão que Arthur está empregando. É isso! Merlin vai levar um soco.
Arthur respira fundo algumas vezes e isso parece acalmá-lo um pouco.
"Foi divertido, Merlin?" Ele continua, com um tom menos selvagem, mais como se buscasse uma resposta. "Brincar de casinha comigo assim? Como o namoradinho perfeito?"
Merlin aperta os joelhos, seus dedos juntando o tecido e torcendo-o em rugas horríveis. A culpa e o desgosto que se acumularam nele por dias parecem entrar em ebulição agora, agitando-se dentro dele e fazendo-o se sentir nauseado.
"Não, eu –" Ele começa a explicar, a fazer alguma coisa, mas Arthur o interrompe.
"Não há nada" Arthur sussurra, nojo pingando em sua voz. "que você possa dizer que eu queira ouvir. Saia."
Merlin se levanta. "Arthur, eu apenas –"
"Saia!" Arthur ruge e dá um soco na mesa, que abre um corte em seu dedo médio. Merlin está tremendo visivelmente agora. "Saia." Ele repete, parecendo mais calmo. "Eu nunca mais quero ver você." Arthur volta para sua cadeira, colocando-a de pé novamente e voltando-se para o computador, como se Merlin já tivesse sido esquecido.
Pernas trêmulas, Merlin faz seu caminho instável para a porta.
"E Merlin." Arthur chama e Merlin odeia a si mesmo, odeia o modo como seu coração miserável eleva a frequência, esperançoso. "Você está demitido. Limpe sua mesa até às 17h de hoje ou chamarei a segurança para fazer isso por você."
Ele está entorpecido no momento em que passa por Vivian, mas a realidade o atinge no elevador, seu coração quebrado e irrecuperável.
Merlin respira fundo, pois não quer que ninguém o veja chorando.
Às três da tarde, ele está em casa, despejando sua caixa de pertences ao lado da porta da frente enquanto se dirige para o sofá para se sentar na escuridão. Às quatro, ele abre o computador e começa a procurar por uma passagem.
Às dez, ele está desembarcando no aeroporto de Newcastle, correndo para os braços de sua mãe, que o espera na plataforma de desembarque. Às onze, sua mãe acaricia seus fios de cabelo como fizera duas semanas atrás. Mas dessa vez eles ficam em silêncio.
Merlin enterra o rosto no colo de sua mãe, deixando as lágrimas escorrerem finalmente, feliz por ele ainda tê-la, por ela sempre estar ao seu lado. E Merlin deve dizer isso em voz alta, porque Hunith se inclina e o abraça com força, dizendo que ela não vai a lugar nenhum por um longo tempo.
É uma noite longa, irregular e tortuosa, num dia irado e cruel.
.Merthur.
Merlin demora duas semanas para conseguir voltar. Voltar para o apartamento que o lembra de Arthur em cada segundo. Aparentemente. Hunith fez bem a contenção de danos, pois nenhum dos seus amigos está louco ou furioso por ter desligado o celular e não dado notícia nos últimos catorze dias.
Pelo contrário, Elena o apanha no aeroporto e Gwaine e Percival se juntam a ela para passar aquela primeira noite com ele. Gwaine está falando sobre rescisão ilegal e processo legal, mas Merlin não quer saber de nada disso.
Ele conversou com Hunith por longas horas, no outro dia pela manhã, após uma palestra de sua mãe no centro comunitário de uma igreja local. E no final, ele chegou à conclusão de que só queria esquecer. Superar. E que a melhor maneira de fazer aquilo era se desvinculando de qualquer coisa que o ligasse a Arthur. Então, um processo era tudo que ele não queria. Além disso, Arthur provavelmente venceria o maldito processo, então não há porque lutar.
O restante de seus amigos o visitam ao longo da semana, mas na maior parte do tempo, Merlin fica sozinho na sala, sentado no sofá com a TV desligada – ele tentou assistir algo, mas a cada 20 minutos uma propaganda do Arsenal surgia na TV e Merlin se lembrava que aquele era o time favorito de Arthur e ele tinha até uma estúpida bola autografada por toda a equipe de 2017, na qual eles levaram um título qualquer que Merlin não se importava em lembrar –, apático e entorpecido.
A verdade era essa, tudo doía, mas Merlin acostumou-se com a dor e não era como se ele pudesse se esconder pelo resto da sua vida em seu quarto.
"Arthur parece um lixo." Gwaine diz na sexta-feira, rompendo o voto de silêncio que todos parecem ter feito, sobre não falar sobre Arthur.
Merlin aprecia a tentativa, no entanto. Ele sabe que isso não é verdade. Arthur nunca se apaixonou por Merlin, ele não estava de coração partido ou devastado e provavelmente está apenas sobrecarregado e se dirigindo ao limite, como de costume. Ele diz isso a Gwaine.
"Não, cara." Gwaine insiste, as sobrancelhas franzidas. "Eu o conheço há quase trinta anos e sei do que estou falando."
"Trinta anos?" Merlin franze o cenho, confuso. "Achei que tivessem se conhecido na faculdade."
"Não." É a vez de Gwaine franzir o cenho. "Meu pai e o pai dele são amigos desde a faculdade."
Merlin balbucia momentaneamente, sem emitir sons. O que aquilo deveria significar? Que Gwaine sempre tomaria partido de Arthur? Então o que ele estava fazendo aqui? Limpando a sujeira que Arthur fez?
"Ele não faz a barba há mais de uma semana." Gwaine insiste. "E não corta o cabelo desde o acidente."
"Talvez Sophia o prefira assim." Merlin rebate, azedo.
"Sophia? O que ela tem a ver com Arthur?"
"Gwaine, o que você está fazendo?" Merlin começa a ficar irritado.
"Eu acho que a separação de vocês realmente mexeu com ele." O tom de Gwaine é como se pedisse desculpas pelo que estava dizendo. "Ele realmente parece uma merda."
"E isso muda algo?" Merlin impacienta-se. "Ele me deu um pé na bunda, Gwaine, E me demitiu. Simplesmente porque eu… eu nem sei mais o que fiz de tão errado. Nós tínhamos um acordo, tudo bem, mas não é como se eu tivesse forçado ele a fazer nada. Ele fez porque quis. Além do mais, se ele sente algo, remorso, que seja, ele não falaria algo para você?"
"Arthur não é assim." Gwaine dá de ombros. "Ele nunca foi de se abrir. Nem mesmo comigo ou com Leon. A única pessoa a quem ele dá ouvidos é Morgana. Sempre foi assim, os dois contra o mundo."
"Ótimo." Merlin bufa. "A víbora que me odeia. Que tal irmos até a casa dela e perguntar se Arthur se arrepende de ter me demitido. Tenho certeza que ela será de grande ajuda." Ele ironiza.
Gwaine não parece mais propenso à ideia do que Merlin. Morgana não tem muitos admiradores na firma além de Arthur, Morgause e Leon.
"Gili jura que o viu no décimo nono andar, de frente para o cubículo que você costumava ocupar." Gwaine parece desesperado.
Merlin sorri. A intenção de Gwaine é boa. Mas Merlin sabe que não há fundamento por trás de nada daquilo. Além disso, Gili jura que o refrigerador de água está possuído. Merlin não daria muita atenção àquilo.
"Sim. Mas…" Gwaine se interrompe, parecendo derrotado. "Isso é uma droga."
"Eu sei. Eu sei." Merlin dá leves tapinhas em suas costas e se pergunta quem está consolando quem.
"Cara, vamos lá." Gwaine se coloca de pé. "Coloque sua roupa mais bonita. Hoje é sexta-feira, vamos sair e te embebedar. O álcool resolve tudo."
Merlin concorda. Afinal, não é como se ele tivesse algo a perder.
.Merthur.
Tem um homem na frente de Merlin, sua língua está enfiada em sua boca e é nojento. O cheiro, o gosto. Tudo está errado e Merlin só quer que ele saia.
Alguém puxa o homem de volta e Merlin pode finalmente respirar. Sua cabeça está latejando e o chão está girando. Quantos shots ele tomou mesmo? Oito? Doze? Merlin não sabe quantos, mas está sentindo cada um deles ameaçar voltar por sua garganta agora.
Há uma briga acontecendo a menos de um metro e meio dele, o simpático estranho e aquele homem esquisito que o empurrou contra a parede do banheiro masculino estão trocando socos como se suas vidas dependessem disso. Alguém está chamando pelo segurança e uau, andar é uma coisa difícil de dominar, não é mesmo?
Gwaine vem correndo e fala com o segurança ou algo assim, porque no minuto seguinte eles estão ao ar livre. O ar frio da noite atingindo sua pele faz maravilhas para Merlin. Gwaine ainda está conversando com outra pessoa, mas Merlin não pode se importar em abrir os olhos. Ele está muito confortável encostado a esse poste de luz, sim, senhor. Ele dá dois tapinhas no poste e um selinho estralado, ouvindo a queixa de alguém às suas costas, mas pouco se importa. O mundo é um lugar cruel e tudo o que ele precisa é deste poste de luz, mmhmm.
Uma mão envolve sua cintura para puxá-lo para longe de seu novo melhor amigo. Merlin protesta com um grunhido meio ininteligível, ele tem que admitir. A pessoa que o puxa, dá uma reprimenda em Merlin, que ele não pode realmente entender, mas o tom faz o recado. Merlin se afasta de seu novo melhor amigo com relutância e é persuadido a encostar-se a um corpo quente, todos os músculos duros, pele macia e cheiro incrível. É quase como se ele –
Não. Não!
Merlin abre os olhos com esforço, para encontrar os zangados de Arthur. Ele tenta se afastar do calor do corpo de Arthur, mas Arthur ainda o pressiona contra si. Merlin está irado. Que direito Arthur tem de estar ali ou de abraçar Merlin? Mas Arthur não parece querer deixá-lo ir.
"-bora." Merlin murmura, empurrando Arthur para longe de si e voltando a se apoiar no poste, antes de vomitar muito próximo de seus próprios sapatos. Merda. Ele tem certeza de que esse será outro episódio de vômito e roupas imprestáveis no outro dia.
Gwaine está dizendo algo em tom urgente, se Merlin apenas pudesse entender o que ele está dizendo –
Provavelmente ele deve estar dizendo para Merlin se segurar direito, por que no instante seguinte Merlin cai de bunda no chão e realmente, realmente dói. É horrível, além de pegajoso e quando Merlin olha para baixo ele percebe que caiu na poça de seu próprio vômito. Ótimo.
Gwaine se agacha ao lado dele, a voz baixa e suave.
"Venha, me deixe ajudá-lo." Ele levanta Merlin com mais facilidade do que deveria e quando Merlin olha para o outro lado, percebe que Arthur está o ajudando também.
Merlin tenta se esquivar novamente, mas acaba apenas acertando a mão suja de vômito na cara de Arthur o que arranca uma risada de Gwaine.
"Karma." Gwaine zomba e Merlin ri bobamente.
"Cala a boca." Arthur ruge e Merlin se encolhe na direção de Gwaine. "Me desculpe, eu não estava –"
"Gwaine, me leva para casa, por favor." Merlin pede, pois sabe que vai acabar chorando de novo, como no dia em que tudo aconteceu. E ele quer estar bem longe de Arthur quando isso acontecer.
"Claro." Gwaine assente. "Só vamos comprar uma água aqui para podermos te limpar um pouco, o que acha?"
Eles chegaram a uma espécie de quiosque que tem de frente para a boate onde estavam e Merlin é deixado aos cuidados de Arthur, enquanto Gwaine vai comprar a água.
"Merlin, eu –" Arthur começa a dizer, mas Merlin o interrompe.
"Arthur, não!" Ele recobrou um pouco da sobriedade depois do vômito – bem pouco, de fato –, o suficiente para distinguir as coisas, mas não o suficiente para ter aquela conversa. "Só fica parado para que eu não caia de novo."
Arthur parece resignado. Merlin agradece internamente, ele não saberia o que fazer se Arthur insistisse. Gwaine retorna com o que parecem dezenas de garrafas de água, mas na verdade são apenas cinco.
Ele entrega uma a Arthur, para que o loiro possa limpar a bagunça que Merlin fizera e usa duas para tirar o excesso de vômito da bunda e do braço esquerdo de Merlin. A água está gelada e Merlin começa a tremer na noite fria. Gwaine abre as duas últimas garrafas e entrega uma a Merlin para que ele beba, enquanto bebe da outra. Merlin não está exatamente limpo, mas não é como se pudesse reclamar. Pelo menos não está mais grudando.
"Ei, Dragon." Gwaine usa o estúpido apelido que começou a chamá-lo desde que descobriu seu fascínio por dragões e Merlin sorri bobamente para ele. "O loirinho idiota quer falar com você, então ele se ofereceu para levá-lo de volta, está tudo bem?"
Merlin tenta sacudir a cabeça, mas mesmo esse movimento é demais para ele lidar com sabe-se lá quantas doses em seu sistema. Gwaine suspira.
"Olha, sei que ele tem sido o maior dos idiotas, e ele absolutamente, absolutamente não te merece –" essa parte parece que não é destinada a Merlin. "– mas acho que você realmente deveria ouvi-lo, mesmo que seja para colocar um ponto final em tudo."
"Gwaine." Merlin pode ouvir a voz mal-humorada de Arthur às suas costas.
"O quê, Princesa? Você quem estragou tudo." Gwaine rebate e Merlin sente-se agradecido que alguém tenha coragem de dizer isso na cara de Arthur.
Um silêncio tenso se instala e Merlin não quer se virar e ver a carranca de Arthur. Se a cara de desdém de Gwaine serve de parâmetro, então não deve ser grande coisa.
"O que você me diz, Merlin?" Gwaine pergunta, finalmente.
Merlin assente um pouco, mentalmente processando as palavras de Gwaine no ritmo de uma lesma. Ele entendeu a essência de tudo e acha que está bem com isso. No final das contas, Merlin sabe que ainda quer ouvir o que Arthur tem a dizer e uma parte muito idiota de seu coração ainda tem esperança.
"Ok, amigo, vamos lá." Merlin é puxado mais na vertical por Gwaine, que o ajuda a chegar ao carro de Arthur, que Merlin não havia percebido estar estacionado a cerca de cinco passos de distância.
Arthur forra o banco do passageiro com a própria jaqueta, mas logo antes de se sentar, Merlin é dominado pelo pânico. "E se –" Ele aperta a mão de Gwaine, que está meio apoiado na porta do passageiro.
"Merlin, confie em mim." Gwaine o tranquiliza. "Ficará tudo bem. Basta ouvi-lo e não tome nenhuma decisão se não estiver pronto, ok?"
Merlin assente, como uma criança. No estado em que está, o álcool já fez estragos demais em seu sistema, então ele não pode fazer muito mais do que concordar, de qualquer forma. Ele se acomoda no banco do passageiro do Masserati, enquanto Arthur entra em silêncio ao seu lado.
"Podemos ir para sua casa?" Merlin pergunta, a voz baixa e um pouco arrastada.
O sentimento está lá, no entanto. Ele não quer mais aquela lembrança e o estúpido perfume de Arthur, que parece se impregnar em todos os cantos de sua casa. Não se isso acabará mal, com Merlin mais uma vez tendo que recolher seus pedaços. Ele não quer outro lembrete de tudo que não pode ter.
"Sim." Arthur diz, e provavelmente é a quantidade absurda de álcool que ingeriu que faz Merlin pensar assim, mas Arthur parece estranhamente moderado. Ok, estranho.
A viagem para o apartamento de Arthur é tranquila. Nenhum deles fala, e Merlin está focado em tentar não deixar as vistas passando por eles sobrecarregarem seus sentidos já encharcados de álcool. Arthur o leva para o chuveiro quando eles pisam no apartamento.
"Você está fedendo." Ele diz, e Merlin diria para ele se foder, exceto que não é mesquinho, é mais como uma declaração de fato, então Merlin tira a roupa para entrar no chuveiro.
Ele cheira a vômito, de qualquer forma e não é como se isso o estivesse agradando.
"Sua escova ainda está aqui." Arthur aponta vagamente para a pia, parecendo meio perdido. Ele embola as roupas de Merlin nas mãos, tomando cuidado para não se sujar, e sai.
Arthur está sentado no sofá quando Merlin termina seu banho. Seu cabelo está molhado e ele trocou de roupas também. Merlin está muito mais sóbrio do que quando chegaram ali.
"Eu deixei algumas roupas sobre a cama." Arthur franze o cenho, quando percebe que Merlin ainda está de toalha.
"Sim, eu as vi." Merlin solta um som de indiferença. "Eu não quero usar nada seu." Ele esclarece, pois Arthur não parece entender a deixa.
"Você poderia ter dito." Arthur parece mais perdido do que há pouco, no banheiro. "Suas roupas ainda estão no meu closet e eu…"
"Também não quero usá-las." Merlin cruza os braços, sabendo que está fazendo birra como uma criança. "Doe-as, jogue fora, coloque fogo, eu não me importo."
"Certo." Arthur soa impotente, a cabeça baixa.
Merlin tem certeza que eles ficarão ali, em silêncio, até que a máquina termine a limpeza de sua roupa, mas para surpresa de Merlin, Arthur se abre primeiro, talvez pela primeira vez na vida.
"Suas paredes são muito finas." Ele murmura, num tom quase inaudível, que Merlin tem que se inclinar um pouco para frente para ouvir.
"O quê?" Merlin não pode impedir-se de pergunta. Afinal, que porra de frase é aquela.
"Suas paredes." Arthur repete. "Dá pra ouvir quase tudo que você fala dentro do seu apartamento do corredor."
Merlin sabe disso. Will inúmeras vezes já anunciou isso, quando por vezes Merlin se masturbou no sofá da sala.
"Onde você quer chegar com isso, Pendragon?" A decisão de usar o sobrenome do loiro é de última hora, mas o efeito é revigorante. Merlin pode ver as rugas que se formam na testa de Arthur.
"Eu cheguei ao seu prédio um pouco mais cedo do que você imaginou, na noite do nosso primeiro encontro." Arthur anuncia.
"Nós nunca tivemos um encontro." Merlin despeja, amargo. Porque essa é a verdade. "Apenas sexo, sem compromisso. Você deixou claro que era a única coisa que queria de mim, desde o começo."
"Isso não é verdade." Arthur range os dentes. "Eu planejei levá-lo até um dos melhores restaurantes de Londres, naquele dia. Fiz a reserva com uma semana de antecedência e solicitei que não fosse um dos dias de folga do chef principal. Eu queria que a noite fosse perfeita. Nem estava esperando por sexo naquele dia."
"Corta essa, Arthur." Merlin cospe as palavras. "Você me trouxe direto para sua casa."
"Sim." Arthur admite. "Por que eu estava com raiva. Eu escutei sua conversa com seu amigo, William, naquela noite. O modo como você disse que só queria transar com um cara gostoso e poder se gabar disso."
Merlin não sabe o que é mais estranho: ver alguém além de Gaius chamando Will de William ou as palavras de Arthur.
E bem… Merlin não se lembra bem do que disse naquela noite, mas Merlin se lembra que tinha certeza que Arthur só queria sexo dele. Então, é bem provável que ele tenha dito algo do tipo para Will.
"Esse não é o ponto." Arthur coça a testa, parecendo cansado e só então Merlin percebe que ele realmente está com a barba por fazer e o cabelo muito mais comprido que o normal, como Gwaine havia dito. "Eu falei com Morgana há dois dias, porque havia algumas coisas que simplesmente não pareciam se encaixar. Ela nunca gostou de você, você sabe."
"Bem, isso é uma novidade." Merlin bufa.
"Você não é tão fácil de ler quanto gosta de pensar, sabia?" Arthur continua, como se não tivesse ouvido seu comentário sarcástico. "Morgana," Ele faz uma pausa, suspirando. "ela sempre foi muito superprotetora comigo, desde criança. Talvez ela tenha tomado para si o papel de mãe, já que… você sabe."
Merlin sabia, ele sabia muito bem. Mas naquele momento, ele se recusava a sentir compaixão pelo garotinho órfão que ele sabia que Arthur fora um dia – e que no fundo Merlin sabia que ele nunca deixaria de ser.
"A questão é que ela sempre pensou que você não estava interessado em mim – em nós."
"Que besteira." Merlin gira os olhos.
E era, de fato, uma besteira sem tamanhos. Qualquer um com olhos poderia perceber que, desde o primeiro momento, Merlin estava de quatro por Arthur – metaforicamente falando, afinal, Arthur já sabia que Merlin estava muito confortável em ficar de quatro para ele em outros sentidos.
"Essa não é realmente a maneira correta de expressar as coisas." Arthur esfrega uma mão sobre o rosto. "Ela sempre pensou que eu estava muito mais interessado em você do que o contrário e que você gostava de mim, mas nada mais. Ela me disse isso no início e eu pude ver isso com clareza nas primeiras semanas. Você sempre me manteve afastado de seus amigos, da sua família… mesmo que tenhamos amigos em comum, você nunca sequer pensou em me convidar para beber com vocês, mesmo que eu soubesse que vocês se encontravam quase semanalmente."
Ok, lembram-se da realidade paralela, Merlin tem certeza de que foi sugado por um vórtex no caminho até a casa de Arthur, porque… quem diabos é esse Arthur?
"Então eu disse que deixaria você se acostumar comigo, até tentar algo." Arthur engole em seco. "E talvez esse tenha sido meu erro. Ou meu erro tenha sido não ter te levado naquele primeiro encontro. Não foi apenas uma vez que eu analisei todos os passos para tentar descobrir." Arthur suspira e Merlin percebe, em choque, que os olhos de Arthur estão marejados. "Lembro que houve um final de semana – não lembro há quanto tempo estávamos juntos, mas já fazia um bom tempo –, e sua mãe estava vindo visitá-lo. Não foi a primeira vez, mas daquela vez, você fez questão de chamar seus amigos para um almoço no domingo. Até Percival, que você mal conhecia." Arthur parece amargo ao dizer aquilo. "Todo mundo foi convidado, menos eu. E eu tive que ouvir Gwaine comentando com Mordred como seria divertido e eu apenas fiquei esperando, eu estava quase me autoconvidando, para ir com você, mas naquele momento, ficou óbvio para mim que você não me queria na sua vida dessa forma. Afinal, você convidou até Mordred e você nem gostava dele na época."
"Você sabe que ele é meu primo, certo?" Merlin não pode impedir-se de perguntar.
"O – sério?" Arthur franze o cenho, parecendo pego de surpresa.
Merlin se limita em assentir e ele até riria da cara estúpida que Arthur está fazendo agora, como se algo finalmente tivesse encaixado em seu cérebro, não fosse a tensão que permeia a sala.
"Eu sou tão estúpido." Arthur esfrega a mão pelo rosto novamente. Merlin concordaria com aquilo, se não soubesse que ele era quase tão estúpido quanto o outro. "Então eu marquei aquela maldita viagem para ocupar minha cabeça." Ele continua, parecendo mais recomposto. "Eu esperava que quando voltasse, saberia me controlar melhor, mas então eu me deparo com aquele maldito chupão no seu pescoço e…"
"O quê?" Merlin irrita-se. Porque aquilo era uma mentira.
"Não se faça de sonso, Merlin." Arthur range os dentes. "Você saiu com sua ex-namorada naquele final de semana, você mesmo admitiu."
"Freya?" Merlin está confuso. "Como você sabe que ela é minha ex?"
"Você esqueceu que Gwaine fala pelos cotovelos?" Arthur bufa, parecendo irritado. "E tudo bem, nós não tínhamos nada exclusivo, nunca tivemos. Mas não é como se eu não quisesse."
Merlin está chocado demais para dizer qualquer coisa.
"Depois disso, depois de todos esses sinais," Arthur continua e ele parece estar determinado a dizer tudo que tem para dizer, então Merlin o deixa. "eu disse para mim mesmo que esqueceria, que lidaria com isso. Nós tínhamos um ótimo relacionamento físico e você era meu, majoritariamente, visto que nos víamos quase todos os dias. Então eu estava decidido a não estragar as coisas. Se isso era o máximo que eu teria de você, não abriria mão tão fácil assim."
"As coisas pareceram se ajeitar e eu acabei me acomodando com a situação, mas então houve o aniversário de Gwaine e eu pude perceber que você também estava com ciúmes de mim naquela noite. E eu não pude parar de pensar que as coisas poderiam finalmente avançar, não importa o quanto Morgana tenha me dito que eu estava cometendo um erro."
Arthur retira uma caixinha de dentro do bolso da calça. Ele abre e olha para o conteúdo, antes de rir com pouca graça e mostrar para Merlin. O coração de Merlin treme no peito, bate alto e insuportavelmente irregular. É uma aliança. Uma aliança muito mais feminina do que Merlin estaria confortável, mas, mesmo assim, é a porra de uma aliança.
"Tirei o anel da minha mãe do cofre da família." Arthur anuncia e aquela informação é o que derruba todas as barreiras de Merlin. "Eu estava indo até sua casa para te pedir em casamento, naquele domingo. Mas estava tão nervoso que você pudesse não aceitar, que acabei atravessando a rua sem olhar para onde ia. Quando acordei, não conseguia me lembrar de nada. Não conseguia me lembrar de você. Mas eu sabia que você era a pessoa perfeita para mim e eu queria você de qualquer maneira."
Arthur fecha a caixa rapidamente, quase como se tivesse se arrependido de abri-la. "Então eu lembrei. E me senti enganado. Era como se você só estivesse zombando de mim e brincando com o pobre garoto rico. Eu só preciso saber, Merlin –"
"Eu te amo." Merlin deixa escapar, as palavras saindo antes que possa detê-las. Ele está confuso como o inferno, magoado, eufórico e irritado, mas nunca esteve tão certo de algo em sua vida. "E eu te amei praticamente desde o primeiro momento. Eu não – não sei como você pode ter sido tão estúpido para não notar. Estou apaixonado por você desde que você me assustou naquela maldita festa. E Morgana…" Merlin range os dentes, porque, sim, ele e Arthur têm muita culpa de as coisas terem se tornado essa maldita confusão, mas Morgana nem deveria ter se metido, para começo de conversa. "não sabe nada sobre nós ou sobre mim e estou inacreditavelmente zangado por você ter acreditado nela em vez do que nós tínhamos."
"Tínhamos?" Arthur sussurra, quase sem voz.
Merlin não sabe o que responder. Ele realmente não sabe se eles chegaram num ponto sem retorno, depois das últimas semanas.
"Merlin." Arthur se move da poltrona que estava, se ajoelhando de frente para ele. "Por favor, me perdoe. Eu nunca mais vou falar com Morgana e…"
"Ela é sua chefe, Arthur." Merlin o corta. "Além de sua irmã."
"Eu vou sair da empresa." Arthur parece desesperado. "Posso abrir minha própria firma, ou prestar consultoria. Dinheiro não é problema. Eu até posso…"
"Se você oferecer dinheiro para mim, Arthur, ou qualquer coisa do tipo, pode ter certeza que vou sair por aquela porta e você nunca mais vai me ver." Arthur engole em seco e Merlin está certo de que Arthur estava prestes a fazer algo do tipo. "E não quero ficar entre você e sua irmã. Ela é uma idiota, mas você a ama e sei que ela também te ama. Não quero interferir nisso."
"Esqueça Morgana, então." Arthur pede, afoito. "Você não terá que lidar com ela nunca mais. Eu prometo. Deixei bem claro que se ela tentasse interferir no meu relacionamento com você de novo, eu não teria mais uma irmã."
"Mas a questão não é só essa, Arthur." Merlin olha para baixo e, quando foi que Arthur agarrou suas mãos?
"Eu aceito o que você quiser, Merlin." Arthur está quase implorando agora e Merlin tem que dizer que a cena não é bonita. "Vou conter o meu ciúme e se você quiser ficar com outras pessoas, bem…" Ele engole em seco, parecendo relutante em dizer aquilo. "Vou ter que engolir meu orgulho e aceitar, não é mesmo? Porque eu prefiro te ter na minha vida, uma parte de você, que seja, do que não ter nada. Eu preciso de você."
"Arthur." Merlin chama, para que Arthur pare de dizer idiotices. "Primeiro, você é um idiota por pensar que eu fiquei com alguém além de você nos últimos três anos."
"Mas –" Arthur começa a protestar, mas Merlin o corta.
"Freya é minha amiga, Arthur." Merlin segura o rosto do loiro entre suas mãos, decidido a colocar um pouco de bom-senso em sua cabeça dura. "Nós namoramos no ensino médio, há muito tempo atrás. Um namoro totalmente inocente e que ambos percebemos que era só amizade, no final das contas. Naquele final de semana, fomos jogar paintball, e se Freya deixou alguma marca no meu pescoço, foi com uma arma de pressão de tinta, não com a boca."
Arthur gagueja, parecendo confuso.
"Você não acredita em mim?" Merlin fecha a cara, irritado.
"Acredito. Acredito" Arthur apressa-se em dizer, segurando as mãos de Merlin com mais força, como se tivesse medo que ele escapasse.
"Então escuta o que eu vou dizer e fica calado." Merlin diz em tom autoritário. "Você foi meu primeiro, se isso é tão importante assim para você. Meu único, não que seja muito difícil de acreditar."
Há uma inspiração aguda de Arthur e ele abre a boca para falar antes de Merlin balançar a cabeça abruptamente, cortando-o.
"Eu apenas – nunca acreditei que poderia ficar com você dessa forma – quero dizer, você já se olhou no espelho? Você é perfeito e eu sou, bem, eu."
"Você é perfeito." Arthur sussurra, colando suas testas. "Eu te disse isso milhares de vezes. Todas as noites em que íamos para a cama. Como você pode ainda duvidar disso?"
"Eu sempre achei que você estava falando sobre sexo." Merlin dá de ombros e sente algo úmido em sua bochecha. Céus, Arthur está chorando. É isso! Merlin vai morrer de Parada Cardiorrespiratória. "Eu não agi como agi porque estava zombando de você ou qualquer idiotice que você possa parecer acreditar. Eu me culpei porque achava que estava me aproveitando do seu estado para ter aquilo que eu mais desejava, mesmo que não fosse o que você quisesse. Eu só queria ter um gostinho de como poderia ser, mesmo que fosse uma única vez."
"Merlin, por que parece que você ainda está terminando tudo comigo?" Arthur se afasta um pouco, lágrimas escorrendo abertamente por seu rosto.
Isso não é justo. Não é nada justo. Merlin deveria estar jogando pedras, em Arthur, não sentir pena dele. Mas é que esse Arthur, o seu Arthur, que se lembra de todos os momentos com Merlin, é ainda melhor do que o Arthur com amnésia.
"Arthur, me escuta." Merlin respira fundo, entrelaçando os dedos aos de Arthur. "Eu poderia entender tudo isso. Você passou por um trauma enorme. Mas nada disso justifica o modo como você me tratou, Arthur. Eu me senti como lixo. Você me demitiu, Arthur. Sendo que eu não merecia isso! Mesmo se eu tivesse feito o que você pensou."
"Eu te contrato de volta." Arthur ofegou. "Te dou uma promoção."
Merlin fecha a cara no exato momento em que Arthur percebe o quão errado foram suas palavras.
"Esqueça o que eu acabei de dizer, por favor." Arthur implora. "Jamais vou propor algo do tipo de novo."
"Como posso confiar em você de novo, Arthur?" Merlin engasga. Ele quer dar outra chance a Arthur, mas como ele pode, depois de tudo que aconteceu. "Você pode me dar alguma garantia de que amanhã você não vai me magoar novamente?"
"Não." Arthur soa derrotado. "Mas por favor, Merlin, me dê outra chance. Eu não posso dizer que não vou cometer outros erros, ou os mesmos. Mas por favor, Merlin, por tudo que é sagrado para você, deixe eu tentar fazer as coisas direito dessa vez."
Merlin respira fundo. Percebeu que havia se decidido muito tempo antes do discurso de Arthur. Ele só queria ouvir Arthur para saber o que esperar.
"Eu te amo tanto que às vezes dói." Merlin segura o rosto de Arthur entre suas mãos novamente.
Arthur encontra seus lábios em menos de um segundo, mãos subindo por seu tronco e passando pelos cabelos úmidos. Seu corpo cobre o de Merlin no sofá, a longa linha de músculos pressionada solidamente contra Merlin. Parece que o mundo se endireitou novamente.
Merlin afasta os lábios dos de Arthur, apesar do som infeliz de protesto que Arthur emite. "Espere, espere." Ele diz, e Arthur congela em cima dele, o corpo ficando rígido. A mão de Merlin imediatamente levanta a mandíbula de Arthur num gesto suave, esfregando a palma contra a barba por fazer. "Eu vou te dar uma segunda chance." Ele garante e os músculos de Arthur relaxam visivelmente. "Mas vamos fazer as coisas da maneira certa dessa vez. Então, nada de sexo."
Arthur parece chocado por um segundo, antes de engolir em seco e se afastar.
"Eu te amo." Ele diz, como se precisasse dizer aquilo, ou sufocaria.
O coração de Merlin se agita como um pássaro enjaulado no peito, o som irregular e selvagem. Tão feliz.
E Merlin, pela primeira vez, acredita na esperança tola.
"Sete encontros." Merlin diz, de repente. A ideia começando a se formar em sua mente. "Teremos sete encontros de verdade antes de você ter qualquer tipo de diversão."
"Ótimo." Arthur parece decidido. "A semana tem sete dias." Ele sorri malicioso, mas Merlin gira os olhos.
"Não, Arthur." Merlin estala a língua. "Sete encontros. Um por semana."
"O q – Merlin!"
"É pegar ou largar, Arthur."
"Eu pego." Arthur quase grita em resposta. "Qualquer coisa que você disser."
"E eu não vou voltar para a Pendragon." Merlin cruza os braços frente ao peito.
"Mas Merlin…"
"Não, Arthur." Merlin diz, irredutível. "Se nós quisermos que isso dê certo dessa vez, eu preciso arrumar um emprego que não envolva você ou sua família sendo meus patrões."
"Tudo bem." Arthur soa resignado. "Mas pelo menos me deixe ajudá-lo a encontrar um novo emprego. É o mínimo que posso fazer, depois de toda essa bagunça."
Merlin assente. Sabendo o quanto Arthur deve estar se martirizando por aquilo.
Eles passam o restante da noite conversando e Merlin não consegue resistir, deixando Arthur roubar um beijo ou outro. Eles dormem na cama de Arthur naquela noit primeira noite que passam juntos e realmente não fazem sexo.
Quando acordam no outro dia, Merlin ainda não pode acreditar no que aconteceu na noite anterior. Ele se vira para Arthur, que o estava encarando enquanto dormia. Ele pensa em chamá-lo de esquisito, ou qualquer outra coisa, mas acaba dizendo algo completamente diferente.
"Sabe, eu teria dito sim, se você tivesse me pedido em casamento naquele dia. Mesmo que o anel da sua mãe seja totalmente inapropriado para mim."
Merlin não impede Arthur de beijá-lo dessa vez. Quer dizer, vocês podem culpá-lo? É bom que ele dê algo pelo que Arthur possa lutar.
.Merthur.
A próxima vez que Merlin vê Morgana, há um anel de noivado no dedo dele – que sim, é o anel da mãe de Arthur, mas Merlin fez algumas alterações nele – e um braço quente em volta de sua cintura. Também é na noite do noivado dos dois.
Merlin engole em seco com a aproximação de Morgana, mas aquela é a noite de Merlin e Arthur. Ele não deixará que Morgana estrague isso.
Ela quase flutua até eles, adorável e perigosa como sempre. Há um brilho em seus olhos, totalmente diferente do habitual, e Merlin acha que pode ser respeito, mas ele não pode dizer com certeza.
"Não vou pedir desculpas." Ela se direciona para Merlin. "Tinha minhas crenças e fiz o que achava melhor, pensando no bem do meu irmãozinho."
"Morgana." Arthur quase rosna em aviso, aumentando a tensão entre eles. Mas Merlin está preparado para isso, se há algo que as últimas seis semanas serviram, foi para aumentar a autoconfiança de Merlin.
Merlin aperta mais o braço de Arthur contra sua cintura e isso parece relaxá-lo. Arthur não perdoou inteiramente Morgana por sua interferência. Merlin acha que ele nunca fará isso, não completamente. Mas Merlin quer que Arthur perceba que não é por ele que está fazendo isso. Que Merlin jamais exigiria isso dele.
"Tudo bem, Morgana." Merlin assente. "Desculpas aceitas." Ele não pode se impedir de provocar.
Morgana meio que dá um sorrisinho de lado e Merlin está chocado demais para seu cérebro processar aquilo.
"Vamos lá, Arthur." Ela lança um olhar rápido para Arthur. "Você viu? Até ele consegue me perdoar."
"Morgana, agora não é o momento." Arthur range os dentes.
Morgana bufa, mas se vira novamente para Merlin.
"Então, Merlin?" Ela diz, sem rodeios, parecendo voltar ao seu ar de negócios. "Meu irmão está sendo muito mole em abordar um assunto importante com você, então acho que terei que fazer eu mesma."
"Morgana!" Arthur se exalta.
"Quando vocês se casarem…" Ela continua, inabalada. "Seria contraproducente que o marido de um dos nossos melhores advogados trabalhasse numa firma rival a nossa, não acha?"
Merlin está chocado demais para dizer qualquer coisa, mas o olhar assassino de Arthur parece fazer com que Morgana recue um passo.
"Tudo bem." Ela gira os olhos. "Falaremos sobre isso em outro momento."
Ela vira as costas para os dois, mas lança um por cima do ombro antes de dar um passo, entretanto.
"De qualquer forma, parabéns. Estou feliz por vocês dois."
Ela pega um canapé da bandeja de um garçom e uma taça de vinho de outra, como se os empregados estivessem conectados mentalmente a ela para estarem próximos toda vez que ela necessitasse se servir. Merlin está sem palavras ao vê-la se afastar.
"Eu juro que você não precisa fazer nada disso, Merlin…" Arthur começa a dizer, mas Merlin o interrompe.
"Arthur." Merlin engasga. "Acho que Morgana foi legal comigo."
A expressão de Arthur é irônica e um tanto aliviada. "Saboreie enquanto durar. Não será algo frequente."
Merlin sorri, enquanto olha para os convidados, todos felizes e parecendo se divertir. Do lado direito, sua mãe sorri para ele, enquanto conversa com Uther. Ela definitivamente não se tornou fã de Arthur da noite para o dia, mas ela, mais do que ninguém, aceita as decisões de Merlin. É de grande ajuda que Arthur é a pessoa mais charmosa do mundo e conquistaria até a mais fria das pessoas, se quisesse.
"Sabe de uma coisa?" Merlin se vira para Arthur, colocando as mãos em volta do pescoço dele.
"O quê?" O sorriso no rosto de Arthur é tão bobo que Merlin poderia beijá-lo a noite inteira e é exatamente isso que está decidido a fazer.
"Esse é, tecnicamente, nosso sétimo encontro." Merlin diz maliciosamente, arqueando as sobrancelhas de modo conspiratório.
É verdade. Arthur tentou persuadi-lo a ir para cama no sexto encontro, quando fez a proposta, mas Merlin estava decidido a dar trabalho ao loiro.
"Você está falando sério?" Arthur arregala os olhos, parecendo uma criança de sete anos na manhã de natal.
"A não ser que você queira esperar até o casamento." Merlin diz, com falsa inocência.
"Não seja idiota." Arthur meio ri, meio bufa.
Nem mesmo três minutos depois, eles estão na espaçosa cama, no quarto de Arthur, na mansão dos Pendragon. E cara, é o melhor sexo da vida de Merlin. Pelo menos até agora. Nunca se sabe o que o futuro aguarda, não é mesmo?
FIM
