Depois de alguns meses, morar com Sanji havia se demonstrado não ser péssimo. Na verdade, quando Zoro tirava um pouco de honestidade do peito, facilmente pensava que não era nada mal. Ele tinha comida todos os dias. Comida de verdade, quer dizer, não a congelada que costumava consumir. Comida deliciosa. Era tão boa que achava que poderia se alimentar só com seu cheiro. E a casa inteira parecia cheirar bem melhor agora, não só graças à comida. Também parecia bem mais arrumada do que a sua jamais fora. Não porque Sanji limpasse sozinho, longe disso, "Não sou sua empregada, seu maldito" o loiro sempre fazia questão de lembrá-lo antes ou depois de um carinhoso chute no queixo. A casa parecia mais limpa simplesmente porque ele só se importava em ajeitar as coisas pelo outro. Como se a sua própria casa pudesse ficar do jeito que fosse, mas a casa deles não.
Sanji trazia organização e calmaria consigo em cada gesto, mas Zoro acabou descobrindo um tanto quanto dolorosamente que o homem era menos pacato do que pensava. Apesar de instigar tranquilidade o loiro concomitantemente era a criatura mais irritante do universo, não dava trégua por um segundo, batia cabeça com ele por tudo. E, mesmo assim, não podia deixar de pensar em como tinha conseguido viver tanto tempo sem isso. Por quanto tempo tudo foi tão sem graça e monótono? Será que não notava?
Porque tudo aquilo era o que dava vida à sua rotina, apesar de ser tão familiar que Zoro jurava que era assim que vivia desde que nasceu. Comer a melhor comida do mundo inteiro todos os dias. Sentir o cheiro delicioso de um loiro que passava a maior parte do dia aninhado em seus braços. Ser abusado 24h por dia pelo puto pervertido. Depois da patrulha noturna, chegar em casa quase que cronometradamente ao mesmo tempo que o loiro que trabalhava a noite inteira no restaurante. Irem dormir quando amanhecia e serem as pessoas com o horário mais trocado do mundo. Mas tudo bem, porque era sincronizado. Assim como tudo sobre eles.
Ele tinha certeza de que se encontrasse com seus amigos eles achariam que Zoro começou a fumar, de tão entranhado que estava o cheiro daquele veneno em toda parte. Dividia o mesmo armário com o cozinheiro e as mesmas roupas, mesmo as que nem cabiam nele. Os fios loiros, que caíam com intensidade absurda, já eram maioria comparados aos verdes sobre suas camisas e lençóis. Zoro, que sempre tivera plena certeza de quem era, estava tão imerso em outrem que não saberia mais dizer onde ele terminava e Sanji começava.
Ao se beijarem no escuro, com uma pálida e tênue lua como testemunha, ele bebia seu próprio gosto da boca de Sanji e oferecia ao cozinheiro o gosto dele em seus lábios tumescidos. O corpo moreno se entrelaçava no corpo pálido perfeitamente e Zoro sabia que não havia um milímetro de si mesmo que não pertencia a Sanji.
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