Um ano. Esse era o tempo que havia se passado e, desde aquele dia, Milo de Escorpião fazia a mesma coisa, como se fosse um ritual. E talvez fosse. Seus dias se resumiam a ficar em seu quarto sentado em uma poltrona de couro preto, segurando o porta-retrato com a foto de seu casamento com Luísa. De seus olhos azuis-esverdeados grossas lágrimas rolavam pelo seu rosto, que agora estava mais emagrecido. Às vezes, se perguntava como ainda conseguia chorar, como ainda possuía lágrimas, mas a dor parecia aumentar cada dia mais.

Fitou novamente a foto em suas mãos e, no mesmo instante, sentiu um aperto enorme em seu peito e uma dor imensa na alma ao lembrar de tudo o que tinha acontecido naquele último ano, quando sua amada Amazona havia saído em uma missão e não mais retornou. Nos meses que se sucederam a este acontecimento, ele, Aldebaran, alguns outros dourados e até os prateados, haviam procurado por ela em cada canto do mundo, mas simplesmente não conseguiram descobrir nada a respeito de onde a prateada poderia estar e o que tinha acontecido com ela. Seu cosmo havia desaparecido por completo. Os funcionários da Fundação Graad, à pedido de Athena, trabalharam incansavelmente atrás de qualquer vestígio de Luísa, mas nada foi encontrado.

Depois de seis meses com as buscas encerradas, precisaram dizer ao escorpiano e ao taurino que a Amazona não mais retornaria, que eles, deveriam aceitar por mais difícil que fosse. E, desde então, uma briga interna se formou em Milo, sua razão gritava que ele deveria aceitar essa realidade, mas seu coração dizia que ela estava viva. Mas onde? E por que ela não pedia ajuda? Por que seu cosmo havia desaparecido? Ele não sabia explicar aquela sensação, ele só sentia.

O dourado tentou se recompor, sabia que em breve algum de seus irmãos de armas iria lhe visitar e não queria que o visse assim. O grego sabia que esse tormento era igualmente doloroso para eles. Mesmo ele sabendo que não conseguia esconder sua tristeza, já que sua tristeza era palpável. A Amazona de águia também costumava visitá-lo, pois ela sentia-se culpada pelo sumiço da amiga e não ter conseguido ajudá-la, mas Milo e Aldebaran tentavam fazê-la mudar de ideia. Afinal, a culpa foi de quem as atacou.

Mesmo tentando desviar seus pensamentos, era inevitável o escorpiano não lembrar-se das últimas horas que esteve com sua amada antes dela sair em missão.

"Estou retornando para casa após mais um dia de treinamento. Estou cansada, mas tudo o que quero é tomar um banho e ficar com a Lu, mesmo estando casado há alguns anos, cada hora longe dela, a saudade me consome. É incrível como essa mulher sempre teve o melhor de mim e minha máscara de imutabilidade sempre sumiu perto dela. E eu sou completamente louco por ela.

Assim que entro em escorpião vou logo procurando por ela, mas estranho não encontrá-la. Pergunto à Aquiles, servo de escorpião, e ele me diz que Luísa havia sido chamada ao Templo do Grande Mestre. Ali naquele momento senti um arrepio percorrer todo meu corpo e uma sensação ruim no peito, mas resolvi ignorar. Agradeci ao Aquiles e fui tomar meu banho, quando saio do banheiro encontro Luisa parada olhando pela janela e pensativa. Sorri e caminhei até ela abraçando-a por trás.

- Oi, meu amor! Como foi seu dia? - perguntei e depositei um beijo no topo da cabeça dela.

- Foi normal como sempre.

Eu sorri com sua resposta porque ela sempre diz isso, mesmo que seu dia tenha sido péssimo.

- Athena me chamou mais cedo - ela começou a falar e virou para mim - Pediu para eu e Marin irmos averiguar alguns eventos que estão ocorrendo. Partimos amanhã cedo.

Novamente senti aquele aperto no peito, mas ignorei para não preocupá-la. Deveria ser só alguma cisma minha.

- Que eventos?

Ela desviou o olhar franzindo o cenho e mordeu o lábio inferior. Essa reação é típica de quando está nervosa ou receosa.

- Athena não nos passou muitas informações. Apenas disse que sentiu a presença de um cosmo hostil e por isso pediu para irmos averiguar.

- Cosmo hostil? - perguntei incrédulo, já que estamos vivendo em Paz.

- Sim! - ela soltou o abraço e franziu mais o rosto demonstrando toda sua preocupação. - Será que algum Deus não aceitou esse Tratado de Paz? Será que teremos que viver em guerra sempre?

Senti a voz dela embargar e ela abraçou o seu corpo. Me aproximei e a abracei sendo retribuído por ela.

- Impossível Lu, pelo que Athena nos passou, se algum Deus desrespeitar o Tratado, Zeus não será nem um pouco benevolente. Não deve ser nada importante.- Falei para tranquilizá-la apesar de que eu mesmo duvidava das minhas palavras.

Ficamos abraçados e em silêncio mais algum tempo até que ela foi tomar o banho dela. Enquanto isso fiquei refletindo sobre as palavras dela. Será alguma nova ameaça? Não! Não pode ser. Ao ouvir ela retornando, respirei fundo para acalmar meus pensamentos. Pensei pedir à Athena para ir nessa missão, mas se fizesse isso, iria magoá-la, tenho certeza. Não duvido da capacidade dela, afinal o poder de um guerreiro de Athena não está em sua patente e sim no cosmo. Tampouco acho que ela por ser mulher é menos capaz, mas apenas quero protegê-la. Só de imaginar ela ferida, meu coração sangra. Céus! O que vou fazer?

Naquela noite nos amamos com uma ânsia sem precedente. Parecia nossa primeira vez. Ela me olha de uma maneira que parece querer memorizar cada parte minha. Seus beijos são mais apaixonados que nunca. Depois de nos satisfazermos, ela me olha e diz:

- Eu te amo, nunca se esqueça disso! - ela sussurrou, antes de me dar um beijo e se aconchegar em meu peito para dormir.

- Eu também amo você!

Naquela noite não consegui dormir. Fiquei a admirando em seu sono. Quando percebo os primeiros raios de sol entrar pela janela, começo a passar a mão por suas costas fazendo sua pele se arrepiar e a depositar beijos em seu rosto para acordá-la. Aos poucos ela pisca os olhos e depois seus olhos azuis fixam nos meus parecendo enxergar dentro da minha alma. Olhos que por anos ansiei em ver em meus sonhos mais secretos por estarem escondidos sob aquela máscara e por isso agora não canso de admirar. Eles transmitem amor, mistério, intensidade, doçura, sinceridade. Olhos que contém um brilho único.

- Bom dia! - ela falou abrindo um sorriso, mas sinto que está nervosa.

- Bom dia! - respondi, mas dessa vez não ignorei aquela sensação de angústia no meu peito. - Luísa, vou falar com Athena e vou com vocês nessa missão.

Ela fechou a cara e me fuzilou com o olhar, sentando na cama.

- Está duvidando da minha capacidade, Cavaleiro de Escorpião?

Pronto, sabia que isso a deixaria brava, estava nítido em seu sarcasmo, mas não me importei porque sei que essa irritação toda iria passar logo. Ela apesar de ser mais descontraída não era muito diferente de mim. Somos tão parecidos e tão diferentes ao mesmo tempo.

- Você sabe que não é isso. Nunca duvidei de você, mas não conseguirei ficar sossegado aqui enquanto você pode estar lutando com um inimigo.

Após algum tempo me analisando e em silêncio, ela levantou indo ao banheiro, voltando uns minutos depois já com um semblante mais relaxado.

- Não precisa ficar preocupado. - ela sorriu - Acho que isso tudo é apenas receio porque depois de tudo o que passamos, qualquer coisinha vira uma tempestade num copo d'água. Não há de ser nada importante e logo estarei de volta.

- É, você tem razão. - resolvi concordar porque se eu insistisse poderíamos acabar discutindo.

A observei colocar sua roupa de treino - um collant preto e as meias roxas –. Me vesti também e saímos. Iria acompanhá-la até o portão do Santuário. Descemos até Leão e Marin já estava a esperando. Enquanto elas conversavam alguma coisa relativo a missão percebi que Aiolia estava tão apreensivo quanto eu, mas resolvi não tocar no assunto e após algum tempo seguimos descendo e voltamos a parar em Touro onde Aldebaran também já a esperava. Esses dois eram muito unidos, como eles diziam: Não tiveram oportunidade de ser irmãos de sangue, mas eram do coração.

- Se cuide, pequena. – ele disse enquanto a abraçava.

- Eu sempre me cuido Dê. - ela falou e deu uma piscada arrancando um sorriso dele.

Quando íamos sair D. Maria, serva de Touro, chamou por Luísa, que abriu um largo sorriso e vi seus olhos brilharem de satisfação ao ver o bolo de chocolate nas mãos da senhora. Nunca vi alguém gostar mais de doce do que minha amada, principalmente chocolate.

– Ah, D. Maria, a senhora é mesmo um anjo - ela disse antes de pegar uma fatia e comer com gosto, arrancando um riso de todos nós.

Depois de conversarmos mais um pouco saímos e quando chegamos nos portões do Santuário ela me abraçou forte e naquele momento pensei em não soltá-la, mas o fiz mesmo relutante. E então as duas partiram.

Eu, Aiolia e Aldebaran ficamos observando as duas sumirem de nossas vistas e voltamos para nossos Templos."

E aquele havia sido o último momento de Milo e Luísa. Se o grego soubesse que a brasileira não mais retornaria, jamais teria desfeito aquele último abraço e isso de certa forma o fazia se sentir culpado por ter ignorado todos os avisos que indiretamente sua consciência havia dado. Ele voltou novamente seus olhos para o porta-retrato, pensando se realmente deveria deixá-la ir e desistir dela. Nesse momento, seus pensamentos foram interrompidos por Mu que o chamava com urgência até a o Templo de Áries. Naquele momento, soube que era algo relacionado com Luísa. Sem mais esperar, correu o máximo que pôde até o primeiro Templo e lá encontrou o ariano e Aldebaran juntamente com um soldado raso e um homem de meia idade que Milo conhecia muito bem. Era um dos funcionários da Fundação, encarregado de procurar por sua amada e isso o deixou apreensivo.

– O que aconteceu? – o escorpiano tratou logo de perguntar. Se fosse algo relacionado com sua esposa queria logo saber.

- Desculpe senhores - o homem de meia idade começou a falar com um semblante sério. – Mas há pouco recebemos uma ligação do hospital da Fundação nos informando que encontraram a Amazona Luísa. - o homem falou de uma vez só.

Os três dourados se entreolharam arregalando os olhos instantaneamente.

- Como é que é? - Milo perguntou, sentindo o coração martelando na garganta.

- A encontraram hoje pela manhã. Eles não deram muitos detalhes, apenas pediram que fossem até lá.

Milo e Aldebaran se abraçaram aliviados com a notícia não conseguindo conter a emoção.

- E como ela está? - Mu quem pergunta agora.

- Não tenho muitas notícias porque assim que soube vim correndo avisá-los, mas parece que ela está bem na medida do possível.

– Na medida do possível!? – Mu perguntou percebendo a reação dos amigos.

– Como eu disse, não tenho muitas informações.

- Certo! - o taurino falou e se virou para o ariano - Avise Athena e os outros, por favor?

Mu assentiu e viu os amigos saírem apressados com o homem. O turbilhão de emoções era perceptível neles. Medo, alívio, angústia por não saber mais detalhes sobre o estado de uma pessoa tão querida para eles. E assim que sumiram de sua vista ele avisou aos demais e Athena através do cosmo o que havia acontecido.