Resumo: um acontecimento trágico leva Harry a tirar uma licença do Quartel General dos Aurores e ele acaba aceitando lecionar em Hogwarts por um ano, enquanto decide o que fazer da vida. Além de ter que aprender a lidar com um bando de adolescentes impressionados com sua fama, ele também tem que aprender a lidar com a drástica mudança de comportamento de seu antigo nêmesis, Draco Malfoy, que leciona Poções na escola há alguns anos. O problema é que Harry nunca foi muito bom em se conformar com as coisas e ele logo resolve investigar o motivo por trás dessa mudança, ainda que Malfoy esteja determinado a mantê-lo a distância.
Avisos: slowwwww burn, depressão. Esta fic se passa antes do Epílogo, mas não segue todos os acontecimentos do cânon. Harry e Ginny não chegaram a se casar.
Notas: o título da fic foi inspirado na música Maps do Maroon 5. Comecei a escrever esta fic faz pelo menos seis anos! Sou eternamente assombrada por coisas inacabadas, então, depois de muitas idas e vindas, finalmente consegui concluir para postar. Espero que gostem!
Disclaimer: os personagens são da JK. A imagem da capa é de chouette-e, você pode visualizar a galeria com outras fanarts no Deviantart.
Following to you
Harry entrou correndo no Caldeirão Furado para fugir da chuva de verão que começava a engrossar. Assim que entrou, trombou com uma bruxa idosa e atarracada.
"Sinto muito," ele se desculpou e já estava se desviando da velha senhora quando ela agarrou seu braço com as duas mãos.
"Harry Potter!" a bruxa exclamou e Harry gemeu internamente. "Meu jovem, que bom que encontrei você," disse ela, com tanta familiaridade que Harry teve que olhar mais uma vez para a mulher só para ter certeza de que não a conhecia de algum lugar. Porém, a bruxa continuou a falar, alheia à confusão de seu interlocutor. "Não paro de pensar naquelas duas pobres garotas dos Stothers. Meu Deus, que tragédia! Não me admira que você esteja tão arrasado a ponto de querer dar as costas a tudo aquilo, pobrezinho. Mas não se culpe tanto, querido. Você é tão jovem pra carregar todo esse peso nas costas..."
Não pela primeira vez naquele dia, Harry se perguntou se teria sido uma sábia decisão sair de casa. Ainda mais para ir a um lugar tão público como o Caldeirão Furado. Não fosse o pedido um tanto incomum de Neville, Harry teria preferido evitar multidões durante toda aquela semana.
Apesar disso, Harry sabia que as intenções da velha bruxa provavelmente eram as melhores e planejava dizer seu agradecimento, entretanto se viu com um grande nó na garganta. Já estava acostumado com as pessoas tratando-o como um velho conhecido, comentando sobre coisas que haviam lido no Profeta a seu respeito como se ele mesmo lhes tivesse confidenciado. Porém, as palavras daquela senhora tocaram uma ferida recente e tudo que Harry se encontrou capaz de fazer foi acenar afirmativamente, desviando os olhos daquele rosto bondoso, que expressava tanta piedade que chegava a oprimir.
"Não tome nenhuma decisão precipitada, meu filho," a velha bruxa continuou e Harry puxou o braço um tanto bruscamente, incapaz de aguentar mais uma palavra sequer de condolência. Precisava escapar dela o mais rapidamente possível. As pessoas já estavam começando a parar para encarar e as coisas poderiam fugir do seu controle rapidamente.
"Ah, claro, er... Obrigado..." Harry começou e respirou aliviado quando avistou Neville acenando para ele com um pano de prato detrás do balcão. "Sinto muito, mas tenho que ir..."
"Ninguém está culpando você, querido..." a senhora ainda disse, elevando a voz, porém Harry se afastou antes que pudesse escutar o resto da frase graças ao barulho do pub movimentado.
"Por aqui," Neville acenou para um canto mais afastado e Harry ocupou uma mesa vazia, tomando cuidado de ficar de costas para a porta e para os demais fregueses. Quando Neville finalmente se juntou a ele, depois de tirar o avental, Harry já havia recuperado um pouco do seu autocontrole. "E aí, cara? Sinto muito, as coisas estão mais caóticas que o normal neste horário. Vai comer alguma coisa?" ele perguntou enquanto servia duas xícaras de chá.
"Não, obrigado..." Harry aceitou seu chá puro e sentiu-se relaxar lentamente a cada pequeno gole. "Como está Hannah?"
"Ótima, ótima. Trabalhando bastante, como sempre," Neville falou antes de tomar todo o conteúdo da sua xícara num único gole. Harry se encolheu, imaginando se o amigo não teria queimado a garganta, mas ele parecia mais preocupado em olhar ao redor do que com a temperatura da sua bebida.
"Não imaginei que você estivesse colocando a mão na massa por aqui. Não tem aulas para preparar?" Harry perguntou.
Neville encolheu os ombros, parecendo ainda um pouco agitado. Dentro de apenas três semanas ele iniciaria seu segundo ano como professor de Herbologia em Hogwarts.
"Hannah e eu aproveitamos as férias de verão para dar férias para os empregados, o que acaba nessa correria toda. Mas, para dizer a verdade, gosto dessa mudança de ares. Prefiro isso a ficar sem ter o que fazer enquanto Hannah se acaba de trabalhar. Tocar um negócio próprio não é nada fácil, mas você já sabe disso, com a loja e tudo o mais..."
A maneira com que Neville parecia olhar com crescente ansiedade em direção à porta fez com que Harry ficasse nervoso novamente.
"Então..." Harry resolveu ir direto ao assunto. "O que você tinha de tão urgente para me dizer?"
"Como?" Neville perguntou, ainda sem encará-lo.
"Neville... Tem alguma coisa errada...?" Harry fez menção de se virar para ver se estava acontecendo alguma coisa às suas costas, porém Neville segurou seu braço rapidamente, encarando-o nos olhos pela primeira vez desde que Harry chegara.
"Harry, me prometa que não vai ficar zangado comigo."
Harry franziu o cenho.
"Zangado? Por que eu ficaria..."
"Prometa também que vai pensar com carinho antes de dar uma resposta. E lembre-se que, o que quer que aconteça, as minhas intenções foram as melhores, está bem?" ele falou rapidamente e então se levantou de repente, olhando para um ponto atrás de Harry e sorrindo com evidente nervosismo. "Prof.ª McGonagall! Que prazer revê-la..."
Harry arqueou ainda mais as sobrancelhas ao se virar e observou enquanto Minerva McGonagall caminhava na direção de ambos, com seu ar severo e os lábios perpetuamente franzidos.
"Longbotton, nada de formalidades por aqui. Potter, não precisa se levantar. É bom vê-los novamente, embora eu desejasse que as circunstâncias fossem melhores."
Harry observou, confuso, enquanto Neville providenciava uma terceira xícara de chá - McGonagall também recusou algo além da bebida - e oferecia a cadeira que acabara de desocupar para que a diretora se sentasse.
Foi então que Harry desconfiou do motivo de toda aquela agitação e encarou o amigo com irritação.
"Sinto muito, mas vou ter que deixá-los por um momento," Neville falou, mais uma vez evitando encará-lo nos olhos. "Se precisarem de algo é só chamar" ele saiu apressado, antes que Harry pudesse transmitir sua insatisfação.
"Não seja duro com ele, Potter," McGonagall falou, tomando o cuidado de suavizar um pouco a expressão. "Garanto que, se alguém tem culpa nisso, esse alguém sou eu."
"Se precisava tanto falar comigo, por que não me procurou?" Harry cruzou os braços em frente ao corpo.
"Bem, desconfiei que você me evitaria, de outra forma," McGonagall respondeu, sarcástica, e deu tempo para que Harry negasse. Quando ficou claro que ele não diria nada, a diretora continuou, num tom mais urgente. "Sinto muito por ter que recorrer a essas artimanhas, Potter, mas eu realmente não tenho sequer um minuto a perder. Preciso que você reconsidere minha proposta."
"Eu já disse que..."
"Potter, por favor, escute tudo que tenho a dizer," McGonagall interrompeu-o, daquela vez demonstrando uma ansiedade incomum. "Quando procurei por você no começo da semana, ainda tinha algumas cartas na manga. Agora eu garanto que você é minha última esperança. O ano letivo começa em três semanas e estou..." ela tirou os óculos e esfregou os olhos, suspirando. Quando voltou a encará-lo, parecia ter envelhecido mais alguns anos. "Eu ia dizer desesperada, mas a verdade é que já não tenho forças nem mesmo para isso. Se você não aceitar, eu mesma terei que dar um jeito de dirigir a escola e lecionar ao mesmo tempo, porque não tenho mais a quem recorrer."
Harry susteve o olhar da ex-professora pelo tempo que conseguiu, porém acabou suspirando e passando as mãos pelos cabelos.
"Isso não é justo, sabia?" desabafou, irritado pela maneira como McGonagall despejava mais aquele problema em suas costas e, ao mesmo tempo, culpado pela própria relutância.
Já fazia algum tempo que a diretora o convidava anualmente para lecionar Defesa Contra as Artes das Trevas em Hogwarts. No entanto, apesar de lembrar com carinho da época em que ensinava os demais colegas na Armada de Dumbledore em seu quinto ano, Harry não gostava da ideia de ter que encarar uma multidão de rostos jovens deslumbrados com sua fama. As pessoas não pareciam enxergar o problema pela sua ótica quando tentava explicar o porquê de sua relutância. Além disso, Harry jamais pensou que seria capaz de deixar seu posto no Quartel General para lecionar. Ele costumava gostar do que fazia, sentia-se satisfeito, sentia-se útil. Era como se estivesse fazendo o que nascera para fazer: proteger, ajudar, lutar pela justiça. Jamais imaginaria que pudesse questionar sua escolha e, no entanto...
No entanto, na última segunda-feira Harry havia entregado seu pedido de afastamento do cargo, depois de um longo fim de semana de ponderações. Sua intenção, a princípio, fora de pedir exoneração do cargo, mas Hermione o havia convencido a pedir uma licença provisória de um ano, para o caso de mudar de ideia. Harry sinceramente não acreditava que mudaria sua decisão, mas não podia discutir sobre a sabedoria do conselho da amiga.
Não tinha ilusões de que a notícia não acabaria se espalhando. Depois de praticamente uma vida inteira sob os holofotes, Harry já não era nada ingênuo aquele respeito. Porém, não esperava que, no dia seguinte, a notícia já sairia na primeira página do Profeta. Naquele mesmo dia, McGonagall procurou-o mais uma vez e, como sempre, Harry negou terminantemente.
Harry tinha toda intenção de negar novamente, mas já não podia mais se agarrar à desculpa de ter um emprego satisfatório do qual não pretendia abrir mão. E McGonagall não estava facilitando as coisas para ele. Uma coisa era negar uma oferta de emprego, outra totalmente diferente era negar um pedido de um amigo necessitado. A ex-professora de Transfiguração jamais admitiria, mas Harry sabia que ela não teria condições de lecionar e dirigir a escola ao mesmo tempo, mesmo se fosse muitos anos mais jovem.
McGonagall suspirou e sua voz se tornou tão amena que era quase difícil reconhecê-la.
"Você não é obrigado a aceitar, Potter. Não é problema seu. E, honestamente, se você não aceitar, vou dar um jeito. As coisas vão acabar se arranjando, mais cedo ou mais tarde." Ela provou seu chá, fazendo uma careta em seguida. Acenou a varinha e uma fumaça levantou-se de sua xícara antes que ela tomasse um pequeno gole. "Mas, se existe a mínima possibilidade de você aceitar, peço que reconsidere. Queria ter mais tempo para oferecer a você, mas preciso de uma resposta até o final do dia."
"Não existe mesmo nenhuma possibilidade de a Prof.ª Wigmore se recuperar?" Harry perguntou, praticamente implorando por uma resposta afirmativa. Florence Wigmore havia assumido o cargo de professora de Defesa Contra as Artes das Trevas desde que Hogwarts fora reaberta, onze anos atrás. Ela tinha perdido o marido na guerra e, apesar de sofrer crises de ansiedade, seu tratamento a mantinha sob controle. No entanto, nos últimos anos ela vinha sofrendo de Síndrome do Pânico e suas crises cada vez mais frequentes a faziam se afastar por períodos gradativamente mais longos durante o ano letivo. "Talvez dentro de alguns meses o tratamento faça efeito e..."
"Potter..." McGonagall o interrompeu. "Ainda que Florence me implorasse para voltar a lecionar em três meses com uma carta do próprio Medibruxo Chefe do St. Mungus atestando sua recuperação, eu seria obrigada a recusar. Faz muito tempo que ela precisa se tratar e para isso ela tem que se afastar de uma vez! Não sei nem mesmo se ela seria capaz de voltar dentro de um ano, mas pelo menos até lá eu posso conseguir outro substituto. Agora, com tão pouco tempo..."
"E como é que eu poderia – caso estivesse propenso a aceitar sua oferta, claro – me preparar em tão pouco tempo?"
"Quanto à preparação do conteúdo das aulas, posso ajudá-lo, sem sombra de dúvidas. Mas quanto à sua preparação enquanto professor... Ah, Harry..." McGonagall sorriu, seus olhos brilhantes pareciam muito menores sem os óculos, que ela ainda segurava numa das mãos enquanto gesticulava. "Nós dois sabemos que não existe pessoa mais preparada que você."
Harry sentiu o rosto esquentar levemente e baixou os olhos para as mãos. Confie em Minerva McGonagall para fazê-lo se sentir envergonhado com um simples elogio. Ultimamente, muito poucas pessoas tinham aquele tipo de efeito sobre ele.
"Bem," McGonagall recolocou os óculos e terminou de tomar seu chá, "de qualquer modo, você não precisa me responder agora. Contate-me via Flu esta noite, qualquer que seja sua resposta. Estarei em meu escritório, em Hogwarts."
Ela se despediu e Harry enterrou o rosto nas mãos, desolado. Minerva McGonagall era uma boa amiga, além de uma pessoa maravilhosa. Mas também era muito competente no que fazia e ela sem dúvida sabia que sua estratégia atingira o propósito. O mínimo que Harry poderia fazer no momento era reconsiderar.
.oOo.
"E então?" Ron perguntou assim que Hermione terminou de servir chá com biscoitos. "Você vai aceitar ou não?"
"Ron, não o pressione," Hermione falou, se acomodando ao lado do esposo. Eles haviam se sentado na sala de estar do casal após o jantar e Rose, que brincava no tapete com algumas bonecas, já começava a bocejar. Hugo, que acabara de completar dois meses de idade, já estava dormindo tranquilamente em seu berço havia algum tempo.
"Mas ele tem que dar a resposta ainda hoje e já passa das oito horas da noite..."
"Ele tem razão." Harry suspirou, encarando a superfície turva da sua caneca de chá como se pudesse encontrar a resposta nas breves ondulações do líquido. "Não deveria ser tão difícil assim, deveria? Afinal, não tenho nada a perder agora."
"Você já tinha pensado no que faria daqui para frente?" Hermione perguntou.
"Na verdade, não," Harry admitiu. "A única coisa que conseguia pensar era no que eu não queria fazer. E garanto que lecionar estava entre elas." Harry soou amargo até mesmo para seus próprios ouvidos.
"Bem, tem sempre a loja!" Ron falou, animado. "George e eu bem que poderíamos fazer uso de uma ajuda, sabe como é..."
Harry levantou as sobrancelhas e resolveu tomar um gole de chá para evitar ter que responder. Também não se sentia tentado pela perspectiva de trabalhar na loja das Gemialidades Weasley, apesar de continuar participando como sócio.
"Mas o que há de tão ruim em lecionar, Harry?" Hermione perguntou e Harry revirou os olhos.
"Você sabe o que há de ruim, Mione..."
"Todos aqueles pirralhos..." Ron estremeceu, solidário.
"Mas você se dá tão bem com crianças..." Hermione ponderou.
"Não é por isso..." Harry atalhou. "Já é difícil lidar com a minha fama tentando passar despercebido. Imagine se eu me colocar voluntariamente à frente de um bando de adolescentes que aprenderam a pensar em mim como uma celebridade..."
"Você é uma celebridade," Ron apontou.
"... assumindo coisas sobre mim que pensam que sabem, só porque leram no jornal ou num livro de História da Magia ou numa merda de biografia não autorizada..."
"Não estou dizendo que será fácil, no começo," Hermione concedeu. "Aliás, nós três sabemos muito bem que nada é fácil para você. Ron e eu temos alguma notoriedade, mas você é quem tem que passar por todas as bênçãos e maldições da fama."
"Mais maldições que bênçãos," Harry falou, ao mesmo tempo em que Ron abriu a boca – provavelmente para dizer o contrário – e tornou a fechá-la.
"O começo nunca é fácil. Foi assim no Quartel General também, não foi?" Hermione perguntou, mas Harry achou desnecessário responder. "Tem sempre aqueles que o idolatram e aqueles que o desprezam. Mas as pessoas dificilmente ignoram você, Harry. E isso é uma boa qualidade num professor. Tenho certeza que, com o tempo, você vai conquistar a confiança e o respeito dos alunos. Por mais que não goste, você nasceu para isso. Para ser um líder!"
Harry fez uma careta. Ainda que detestasse admitir, as palavras de Hermione faziam todo sentido. Uma pessoa precisava estar preparada para ouvir algumas verdades antes de pedir conselhos para Hermione Weasley.
Harry foi poupado de ter que responder quando a lareira explodiu em chamas verdes e a cabeça de Neville apareceu.
"Ron, Mione... ah, Harry!" Ele pareceu aliviado, apesar de não totalmente. "Seu elfo me avisou que eu poderia encontrá-lo aqui. Não vi você sair do Caldeirão, queria ter conversado com você antes..."
"Está tudo bem, Neville," Harry o tranquilizou, cansado demais para discutir, e aquilo fez com que Neville terminasse de relaxar a tensão dos seus ombros.
"Ainda bem... Achei que você não iria mais querer falar comigo depois dessa..."
"Não se preocupe," Harry garantiu, deixando transparecer um pouco da sua mágoa. "Já estou acostumado com as pessoas me apunhalando pelas costas."
"Ele só está provocando você, Nev," Hermione interveio quando os olhos de Neville se esbugalharam. "Não quer terminar de chegar um pouco?"
"Ah, não, obrigado." Neville passou a mão pelos cabelos, parecendo cansado. "Ainda tenho muito que fazer, com a proximidade das aulas e..." ele se calou de repente. "Mas posso ajudar você, se você quiser, Harry. Não é nada muito complicado. Isto é, se é que você vai aceitar a proposta, claro..."
Harry deu de ombros.
"Não é como se eu tivesse escolha, aparentemente."
"Ah, Harry, não diga uma coisa dessas. Você sabe que pode dizer não a qualquer momento," Neville apressou-se em dizer. "Mas as coisas estão realmente complicadas para o lado de McGonagall. Quero dizer, ela não pode prejudicar todo um ano letivo por causa de uma matéria. Mas tenho certeza que você não se arrependeria, caso aceitasse. Ainda sou novo nisso tudo, mas um ano foi suficiente para que eu tivesse certeza de que fiz a escolha certa. Fiquei muito deprimido no QG, você sabe... Depois de toda a guerra, eu precisava de um descanso de tanta maldade, tanto ódio..." Neville engoliu em seco, seus olhos se perdendo num ponto além das pessoas presentes na sala.
Harry sabia muito bem o que Neville queria dizer. Ele fora um Auror, como Harry, até um ano atrás, quando resolveu largar tudo para lecionar sua matéria preferida em Hogwarts. Para ele, a oferta de McGonagall foi mais que suficiente para que abandonasse tudo aquilo. Harry olhou para Ron e encontrou a mesma compreensão nos olhos do amigo. O ruivo também havia sido Auror por um período ainda mais curto, antes de decidir ajudar George com os negócios.
"Ensinar é diferente, mas não tanto," Neville continuou, depois de sacudir a cabeça para afastar os fantasmas do passado. "Você sabe, porque já esteve lá. É como se estivéssemos tentando prevenir, ao invés de remediar. Dando armas para as pessoas lutarem por si mesmas, ao invés de esperarem ser salvas." De repente, seus olhos começaram a brilhar.
"Mas como você consegue lidar com... você sabe... as perguntas, as especulações...?" Harry não se conteve em perguntar.
"Ah, eventualmente, eles se acostumam com a gente. E, sabe de uma coisa? No final, quando a gente percebe o respeito nos olhos deles..." Ele pareceu subitamente envergonhado da própria empolgação, mas acabou dando de ombros. "Faz a gente se sentir bem, sabe? Essas crianças precisam de bons exemplos, e porque não se espelharem em nós?"
"Tudo bem, eu aceito... Quando é que eu começo?" Ron falou, comicamente resignado, fazendo com que Harry sorrisse, ainda que contrariado.
"Você não vai se arrepender se aceitar, Harry," Neville garantiu. "Hagrid ficaria encantado. Ei, não é este ano que Teddy começa?"
"Sim." Harry franziu as sobrancelhas. Não sabia se aquilo seria bom ou ruim. O garoto o tinha como o mais próximo de um pai e aquilo já era responsabilidade suficiente. Às vezes, Harry sentia falta de poder mimá-lo como um padrinho deveria mimar o afilhado.
"Ele ficaria ainda mais encantado que Hagrid!" Neville pareceu empolgado novamente. "De qualquer maneira, eu também iria gostar muito de ter sua companhia por aqui. Hannah nunca pode se ausentar da Enfermaria e, tirando Penélope, os outros professores são todos tão mais velhos... E vocês sabem que Hannah não gosta que eu fique de conversa com Penélope, qualquer que seja o motivo. Bem, tem Malfoy também, claro, mas ele não conta..."
"Malfoy?" Harry ficou alerta, num instante. "Como assim?"
"Vocês não sabiam que ele está dando aulas de Poções?" Neville perguntou, o cenho franzido em confusão.
"Claro que sim," Ron falou, estranhando a dúvida de Harry. "Saiu no Profeta Diário, lembra?"
"Eu não costumo ler o Profeta, lembra?" Harry falou, surpreso por seus amigos nunca terem mencionado aquilo para ele. E talvez um pouco irritado. Na verdade, Harry lia o Profeta de vez em quando, mas costumava pular algumas páginas inteiras quando se deparava com algum assunto que lhe envolvesse, ainda que remotamente.
"Já faz alguns anos." Hermione franziu o cenho. "Confesso que nem me lembrava mais."
"Sim, ele está lá desde que Slughorn se aposentou, cerca de seis anos atrás," Neville confirmou.
"Como ele está se virando?" foi Ron quem perguntou, antes que Harry o fizesse. "Aposto como favorece a Sonserina sempre que possível, como Snape."
"Não que eu tenha reparado," Neville pareceu vasculhar a própria mente, por um momento, acabando por desistir. "É um tipo calado agora, para dizer a verdade."
"Ah, essa eu pagaria para ver," Ron falou, parecendo se divertir com a perspectiva de um Draco Malfoy humilhado. "Sempre se escondendo por trás da sombra do pai. Aposto como agora ele bem que gostaria de mudar o próprio sobrenome."
"Ron!" Hermione o repreendeu. "Draco já pagou muito caro pelos próprios erros. Além disso, nós todos amadurecemos desde aquela época."
"Sim, mas a diferença é que nós escolhemos o lado do bem desde o início," Ron não se conteve. Ele encolheu os ombros diante do olhar carrancudo de Hermione. "É a mais pura verdade, oras!"
"Acho que Hermione tem razão. Ele definitivamente não tem mais a pompa de antigamente," Neville concordou. "Mas continua com a mesma cara de fuinha de sempre. E os alunos morrem de medo dele."
"E Barry Ryan?" Ron pareceu se lembrar, de repente. "Você nunca nos contou nada sobre ele. Como ele é pessoalmente?"
Barry Ryan, o ex-goleiro do Time Nacional de Quadribol da Irlanda, era o novo professor de Voo e Treinador de Quadribol. Madame Hooch se aposentara havia dois anos e, coincidentemente, o irlandês acabara de anunciar seu afastamento do time, após uma lesão grave na coluna que o teria deixado paraplégico, não fossem os recursos da medibruxaria. Ainda assim, ele declarou que já não se movia mais com a mesma agilidade e que preferia deixar o time para não prejudicar seus colegas. McGonnagal não perdeu tempo, acionou alguns contatos e logo em seguida a vaga estava reposta.
"Ele é um cara legal," Neville encolheu os ombros. "Hannah não gosta muito de conversar com ele. Ela diz que ele não sabe falar de mais nada além de quadribol, mas isso já era de se esperar. Afinal, é o que ele fez durante a vida toda!"
"Você pode pegar um autógrafo dele para mim?" Ron perguntou, animado, ignorando os protestos da esposa. "E diga que ele tem desconto na nossa loja!"
Sabiamente, Neville se absteve de prometer atender a qualquer um dos pedidos respondendo a um conveniente chamado de Hannah, que não chegou a ser ouvido pelos demais.
"Bem, eu adoraria ficar jogando conversa fora, mas realmente tenho muita coisa para fazer ainda."
Harry se despediu do amigo distraidamente. Acompanhara muito pouco da última parte da conversa, perdido em seus próprios pensamentos, tentando imaginar aquele Draco Malfoy – o calado e austero novo professor de Poções – e falhando. Colocou a xícara vazia na mesa de centro e se levantou, sacudindo um pouco de farelo de biscoito das vestes.
"Acho que também já vou indo. Tenho que falar com McGonagall antes que fique tarde."
"E o que você pretende dizer a ela?" Ron perguntou, também se levantando. Hermione o encarou com a mesma expectativa que o esposo.
"Vou dizer que aceito. Mas só por um ano."
Depois de proferir aquelas palavras, Harry percebeu que já havia tomado sua decisão desde o pedido de McGonagall naquela mesma manhã, apesar de relutar em admitir. Harry não conseguiria dizer não a ela quando sabia que era sua última esperança. Além do mais, preferia mil vezes ter algo para ocupar a cabeça durante aquele ano do que ficar ocioso, sem nada mais para fazer além de revisitar o passado.
Sem dúvida, havia a instituição de caridade, St. Hedwig¹, que Harry fundara para ajudar aos órfãos e às vítimas da guerra, porém havia muito tempo que tinha passado a direção para as mãos de pessoas competentes que tocavam as atividades com louvor. Tudo que Harry fazia, ultimamente, era mostrar sua ilustre figura em alguma publicidade em prol da causa, para angariar fundos. Mas até isso acontecia cada vez com menos frequência.
Hermione sorriu e Ron assentiu, um pouco surpreso.
"Bem, acho que vamos nos ver muito pouco durante o próximo ano, então, cara."
"Vocês irão me visitar em Hogsmeade, não irão?"
"Claro," Hermione concordou ao mesmo tempo em que Ron dizia "Pode apostar que sim," de um jeito um tanto misterioso.
"Não deixem de levar as crianças," Harry falou, se abaixando para dar um beijo em sua afilhada, que adormecera apoiada num bichinho de pelúcia.
"Ei, Harry," Hermione tocou seu braço suavemente antes que Harry jogasse Pó de Flu na lareira. Ron havia saído da sala, carregando a filha adormecida nos braços. "Você está bem? Tem certeza que pode lidar com isso agora?"
"Vai ser melhor assim," Harry assegurou, colocando a mão brevemente sobre a da amiga, que sorriu.
"Tenho certeza que sim. Mas você sabe que pode contar comigo para o que precisar, não sabe?"
"Obrigado, Mione." Harry jogou o pó na lareira e pulou nas chamas esverdeadas com a certeza de que havia tomado a decisão certa, ainda que temesse suas consequências.
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¹ A instituição foi nomeada em homenagem a Hedwig. Santa Hedwig de Andechs ou Santa Hedwig da Silésia (1174-1243) é considerada a padroeira dos órfãos. A JK menciona que o nome é retirado do livro História da Magia, mas não fala qual é o personagem, então imagino que seja uma referência à santa.
