Obs.: [ironia] Betagem? O que é isso? [/ironia]
Resumo: Fiquei encarando o caminho de terra que me levaria para Rush Valley, mais uma vez não tive coragem de me expressar para a Winry. Era mesmo um covarde.
A dona de FMA é a genial Hiromu Arawaka.
- - x - -
Another Point of View
A primeira vez que vi Winry foi logo que ela passou pelo portal de Rush Valley. Ela estava encantada com a vista daquela cidade e todos os modelos e mecânicos de automail dispersos por todos os lugares. Não pude deixar de reparar também nos dois figurões que a acompanhavam alguns passos atrás: um adolescente baixinho e um cara numa – desnecessária - armadura.
Depois daquele dia, fiquei sabendo que o Sr. Garfiel havia contratado uma nova aprendiz, uma mecânica de uma cidade do interior do Leste. Os rumores diziam que ela era fantástica, que estava na cidade aperfeiçoando seus conhecimentos e atendia todos os clientes com gentileza.
Decidi então fazer uma nova prótese do meu braço com ela, e qual foi minha surpresa quando cheguei na oficina do Sr. Garfiel e encontrei a bela moça loira que havia visto entrar na cidade noutro dia.
- Olá! Eu sou Winry Rockbell! Sou nova por aqui. – disse ela sorrindo para mim e estendendo a mão.
- Oi! Sou o Jeremy. Estou aqui para fazer um novo braço – respondi estendendo minha mão de automail e apertando a dela.
E foi assim que conheci Winry Rockbell.
- - x - -
Passaram algumas semanas, quando num dia ensolarado ouvi explosões e pessoas correndo por toda Rush Valley. Acompanhei a multidão para saber o que estava acontecendo e fiquei sabendo que a cidade havia sido destruída por dois alquimistas. Rumores diziam que eram dois irmãos, sendo um deles um Alquimista do Estado.
- São os irmãos Elric! – um cara grande falou perto de mim.
- Você está falando do alquimista de aço, Edward Elric? – um mecânico questionou-o.
- Ele mesmo!
- Agora entendo o porquê o Führer o chamou de "do aço".
- Sim... Afinal o cara anda de armadura! Esses Cães do Exército são todos esquisitos...
Deixei de escutar a conversa fiada dos dois homens, porém não pude deixar de me questionar se esses tais de irmãos Elric não eram os caras estranhos que estavam acompanhando a senhorita Winry no dia que ela chegou a cidade.
No dia seguinte decidi dar uma passada na oficina só para ver se estava tudo bem com ela, e quando cheguei lá não a encontrei.
- A senhorita Rockbell foi fazer uma visita para uma família de amigos na Central. – informou-me o Sr. Garfiel – Ela e os irmãos Elric saíram hoje de manhã.
E foi assim que os irmãos Elric levaram Winry para longe pela primeira vez.
- - x - -
Demoraram dias até a minha mecânica voltar para Rush Valley. Foi necessário fazer uma grande ligação para uma estalagem do Exercito pedindo para ela voltar, pois diversos automails estavam precisando de reparo. O meu era um deles.
Revê-la, para mim, foi como ver um arco-iris após uma tempestade. E então entendi que estava me apaixonando pela Winry.
Aquele dia ela me atendeu cordial como sempre, porém parecia avoada e distante. Não pude deixar de pensar que a culpa da repentina mudança dela fosse aqueles tais de Elric.
Assim como a grande maioria da população de Amestris não via com bons olhos os militares e os Alquimistas do Estado, principalmente após a guerra de extermínio de Ishval, eu também não gostava do Exército. E principalmente agora, gostava menos ainda desses Cães.
- - x - -
Era só mais um dia normal, estava indo fazer mais uma de minhas visitas semanais à Winry. Após o retorno dela à cidade, eu havia decido me aproximar dela. Tinha uma profunda admiração pela moça, porém não tinha coragem para me declarar.
Posso dizer que havíamos nos tornados amigos. Nada mais que isso, afinal parecia que havia uma barreira invisível imposta por ela que impedia uma aproximação maior. Por ora, eu me contentava com isso.
Parei no meio da rua quando vi um carro do Exército Amestrino e alguns militares frente à oficina do Sr. Garfiel. Fiquei observando de longe eles saírem da oficina levando Winry consigo. Minhas pernas fincaram no chão e não consegui fazer nada, a não ser ver o carro sumir rua abaixo levando minha mecânica para não sei onde.
Quando consegui me mover novamente, saí correndo em direção à oficina e encontrei o Sr. Garfiel limpando as lágrimas em um pequeno lenço.
- O que aconteceu? – perguntei desesperado – Para onde eles levaram a Winry?
- Disseram que o Alquimista de Aço está com problemas no automail, e levaram a senhorita Winry para o Norte – contou o Sr. Garfiel entre as lágrimas.
- Para o Norte?
- Sim, Muralha do Monte de Briggs. – neste momento o Sr. Garfiel assoou o nariz no pequeno lenço – Pobre Edward, não sabe o que pode acontecer com o automail no frio do Norte.
E foi assim que Edward Elric levou a Winry para longe de mim pela segunda vez.
- - x - -
Não podia acreditar estar à frente daquela placa – Automails Rockbell. Tantos meses se passaram desde a última vez que vi minha mecânica. Desde aquele dia em que ela saiu escoltada pelos militares e sumido do mapa... Tanta coisa tinha acontecido.
Dias atrás visitei o Sr. Garfiel e ele me disse que a Winry tinha ligado, informando que estava trabalhando novamente na oficina da família junto à avó. Disse também que havia demorado a dar sinais de vida, pois o Golpe de Estado atrapalhou os planos, porém como a vida estava voltando ao normal, ela estava oficialmente reabrindo a Automails Rockbell em Resembool.
Não pensei duas vezes e agendei um horário com ela para uma revisão completa no meu braço. Contei os dias até finalmente entrar no trem rumo a Resembool, não podia acreditar que finalmente iria revê-la.
Toquei a campainha e após alguns minutos ela apareceu e me abriu a porta. – Jeremy! Que bom revê-lo! – ela me deu espaço para entrar e me mostrou o caminho para a oficina que ficava no porão da casa.
Não pude deixar de perceber que ela estava mais radiante que nunca, parecia mais leve e madura.
A consulta transcorria normalmente, trocávamos poucas palavras e só sobre coisas casuais, como por exemplo, como estavam alguns dos antigos clientes dela, e algumas fofocas rotineiras sobre Rush Valley.
Foi então que ouvimos alguns passos no andar de cima – Ed! – Gritou Winry em direção à porta.
Os passos se aproximaram e na porta apareceu um jovem de cabelos longos e loiros. Não poderia ser! Era a primeira vez que encava o famoso Edward Elric. Cerrei os dentes e o ouvi perguntar – Como você sabia que era eu?
Winry revirou os olhos e respondeu encarando-o – Se não quiser ser descoberto, sugiro não andar descalço, afinal apenas uma pessoa dentro desta casa tem uma perna de automail...
- Certo, certo... – cortou ele – Diga o que você quer, sua nerd de automail.
- Tivemos um pequeno incidente com uma cadeira ontem, o qual você já está sabendo, pode conserta-la?
O tal Ed suspirou e encostou-se ao batente da porta – Winry, já faz meses que eu avisei que não posso mais usar alq...
- A caixa de ferramentas está na garagem. – disse ela calmamente retornando a trabalhar no meu braço.
- Calma aí! – exclamou o loiro – Você quer que eu faça isso manualmente?
Winry suspirou e sem encara-lo ela respondeu – Sim... Você tem que começar com alguma coisa. E outra, estou com agenda cheia hoje, se não eu mesma faria esse conserto.
- Você pode pedir pro Al. – o homem entrou no quarto, parou perto nós e pude reparar que havia uma feia cicatriz no ombro direito dele.
- O Al está se recuperando ainda, não quero forçar nada a ele. – Winry finalmente encarou Edward – Ed, você foi o mais novo Alquimista do Estado e é muito inteligente, consertar uma cadeira é tarefa de criança... Agora para de choramingar e vai fazer o que eu pedi, pois tenho que terminar esse reparo, e daqui meia hora tenho outra consulta.
O homem ficou olhando perplexo para a Winry até quando deu meia volta e saiu do quarto dizendo – Você é impossível, mulher!
Rindo baixinho ela me olhou e disse – Desculpe por isso, mas homens são bem infantis quando querem...
Ficamos alguns minutos em silencio até que finamente tive coragem para perguntar: - Ele mora aqui com você?
- Quem? O Ed? – ela então pegou uma estopa e começou a limpar e meu braço de automail, indicando que o serviço havia terminado – Sim, ele e o irmão moram comigo e com minha avó. É uma longa história...
- Não! - a interrompi – Você não me deve nenhuma explicação, é só que... Foi uma surpresa encontra-lo aqui. É estranho, só isso...
Ela me encarou com as faces rubras e com os olhos bem abertos – Oh! O Ed é meu amigo de infância... Eu... – então ela levantou abruptamente e me sorrindo disse – Eu já terminei.
Me sentindo ridículo, levantei da maca devagar e vesti a camisa. Ela arrumava as ferramentas e limpava algumas manchas de óleo da bancada, ainda segurando o pedaço de estopa sujo em uma das mãos ela virou em minha direção com um sorriso – Espero que nossa próxima consulta não demore tanto assim, como disse ao Sr. Garfiel esse Golpe de Estado atrasou meus planos, mas aos poucos estou voltando às atividades.
- Pode deixar! Apesar de ser uma longa viagem de Rush Valley até aqui, todo esforço vale a pena – disse com um sorriso forçado e paguei-lhe pelo ótimo serviço.
- Hey, Win! – ouvimos outra voz masculina a chamar, deveria ser o segundo irmão Elric. Quando ele apareceu, pude reparar que ele havia deixado de usar aquela armadura ridícula, ele era mais alto que o outro Elric, porém também loiro e, oposto ao irmão, tinha feições afáveis, apesar de parecer um pouco doente.
- Bom dia, Al! Como está se sentindo?
- Um pouco melhor a cada dia!
- Al, conheça o Jeremy. – disse Winry nos apresentando – Ele é um dos meus mais fiéis clientes de Rush Valley. Foi um bom amigo durante o tempo que passei naquela cidade.
- Olá, Jeremy! – Al me estendeu a mão e eu a apertei – Obrigado por ter cuidado da Winry quando ela estava em Rush Valley.
- Ah! Que isso... – antes que toda essa situação ficasse mais constrangedora para mim, me despedi de ambos – Bem, não quero tomar mais do seu tempo Winry. Foi um prazer revê-la. Voltarei daqui uns meses para mais uma revisão.
Winry me acompanhou até a porta e apertamos as mãos – Até a próxima!
Ouvi a porta se fechar atrás de mim, suspirei e desci os degraus da pequena escada da entrada. Fiquei encarando o caminho de terra que me levaria para Rush Valley, mais uma vez não tive coragem de me expressar para a Winry. Era mesmo um covarde.
Percebi que logo ao lado o tal de Ed brigava com uma cadeira e uns pedaços de madeira, era uma visão patética, ver o tão famoso Alquimista do Aço xingando por não conseguir reforçar os pés de uma simples cadeira. Não conseguia entender o motivo da Winry – tão doce e gentil – ter amizade de anos com alguém tão... Tão irritadiço e hostil, afinal ele a havia chamado de Nerd de automail, francamente!
- ALPHONSE! – ouvi Winry gritar dentro da casa acompanhada de uma alta risada que deduzi ser do outro Elric.
Encarei assustado a porta da casa dos Rockbell – ou dos Elric, seja lá de quem era – e percebi que Ed havia parado de brigar com a cadeira e também encarava a porta, parecia assustado, porém ele balançou a cabeça, suspirou e me encarou. Fiquei sem saber o que dizer e com um aceno me despedi.
- - x - -
Sempre que possível eu fazia uma visita para minha mecânica. Era sempre bom revê-la, apesar das horas de viagem entre Rush Valley e Resembool. Muitos conhecidos meus falavam que era um absurdo viajar tanto assim para fazer reparos num automail sendo que eu morava na capital dos automails.
Nunca disse para ninguém que os motivos de continuar tendo Winry Rockbell como minha mecânica era devido a uma paixão platônica infundada. Toda vez que subia no trem prometia a mim mesmo que aquele seria o dia que iria me declarar, mesmo que levasse um fora. Porém, toda vez que ela abria a porta, toda coragem sumia, e a única coisa que fazia era tentar aproveitar os poucos minutos ao lado dela.
Apertei a campainha dos Rockbell e logo Winry abriu porta, como de costume. Segui-a até chegar ao quarto onde ela atendia os clientes e percebi que ela estava quieta. Não só ela como toda a casa parecia silenciosa – A casa parece vazia – disse por fim.
- Sim, Ed e Al voltaram para a vida de viagens – ela me disse com um sorriso triste enquanto sentava ao meu lado com algumas ferramentas – aqueles dois realmente se sentem bem aborrecidos quando ficam parados em um único lugar. Partiram semana passada.
- Eles foram pra muito longe? – questionei enquanto Winry iniciava a inspeção no meu automail, percebi que o olhar dela estava distante.
- Al foi pra Xing, estudar a Alquimia daquele país com uma amiga. – ela riu baixinho e complementou – Diz o Ed que até o fim da viagem aqueles dois deixarão de ser "só amigos".
- Entendo...
- E o Ed foi para oeste. – e essa foi a única coisa ela disse.
Ficamos em silencio durante o resto da consulta, os únicos barulhos eram os das ferramentas em contato com o metal do automail.
- Terminei! – falou ela por fim enquanto passava uma estopa no meu braço mecânico. – Hoje os reparos foram bem fáceis de fazer, você está cuidando dele muito bem, Jeremy. Adoraria que alguns clientes fossem assim também.
Levantei devagar e a vi arrumar a bancada, como sempre fazia ao fim das consultas. Enquanto ela ainda estava de costas tomei coragem e puxei o ar bem fundo - Eu acho que esses irmãos não fazem bem pra você, Winry!
Ela parou o que estava fazendo, endireitou as costas e ficou assim uns minutos, que foi o tempo suficiente para a coragem ir embora, porém agora já não poderia voltar atrás e fingir que nada havia acontecido. Fiquei parado e sem respirar, e levei um susto quando ela virou e me encarou.
- O que você quer dizer com isso?
- Ora! – Senti minhas pernas bambearem, porém inspirei fundo mais uma vez a aproveitei o momento – Dá pra ver claramente que estes irmãos são apenas encrenca! Eles te tiraram de Rush Valley duas vezes, sem se importar com seus clientes. Eles moram na sua casa, e isso é bizarro por si só! E você se preocupa com eles, principalmente com o tal de Edward. Eu até entendo, afinal ele é um alquimista bem famoso não é mesmo...?
- Já terminou? – Winry me interrompeu e nos seus olhos brilhava algo que nunca havia visto nela: raiva. – Se você saiu de Rush Valley só pra dizer que sou uma "maria-alquimista", ou sei lá o que, já pode retornar...
- Não é isso! – senti o rosto paralisar e comecei a me sentir gelado. – E-eu gosto muito de você Winry, por isso não acho justo toda esta situação.
- Qual situação?
- Aquele Edward Elric não é digno de sua adoração, você é tão meiga e gentil...
- Ah! Já entendi! – disse Winry cruzando os braços e se encostando à bancada – E você é digno da minha adoração, Jeremy?
- Bem... – Senti a boca seca. Winry me encarava enfadonha, novamente me senti patético, porém já havia chegado até ali – Como disse gosto muito de você. Faz anos que sou apaixonado por você Winry!
O silencio se apoderou do aposento, porém a mulher a minha frente não deixou de me encarar. Quando ia abrir a boca para me desculpar por tudo, ela disse – O reparo de hoje está terminado. Se quiser continuar vindo aqui, irei te atender como qualquer outro cliente, porém acho totalmente desnecessária toda a viagem que você faz para consultas de rotina – ela deu de ombros – Francamente, Jeremy, você mora em Rush Valley!
Confirmei com a cabeça e sai em direção à porta principal da casa sem dizer uma única palavra.
- Outra coisa: – ela complementou enquanto eu saia da casa – não me lembro de nenhuma vez que "dei a entender" que queria algo a mais com você. Sempre deixei bem claro que você era um cliente fiel, e eu apreciei a sua amizade durante minha estadia em Rush Valley. Adeus, Jeremy.
A porta se fechou a minha frente com um estalido seco. Fiquei encarando a madeira durante vários minutos, um latido de cachorro me tirou do transe que estava, suspirando desci os degraus da graciosa casa dos Rockbell, e cabisbaixo segui rumo a Rush Valley mais uma vez.
- - x - -
Havia passado quase dois anos desde a minha ultima – e desastrosa – consulta na Automails Rockbell. Desde aquele dia, quando sai do trem já em Rush Valley prometi a mim mesmo que não iria retornar àquela oficina.
Fui a diversos mecânicos, inclusive no Sr. Garfiel, mas nenhum deles fez um trabalho tão bom e competente quanto ao que a Winry fazia. Cada vez que saia de uma oficina a decepção só aumentava. Se não tivesse sido tão idiota, estaria ainda indo a Resembool de tempos em tempos para fazer os devidos ajustes no meu braço.
Demorou meses para que finalmente reunisse coragem para pegar o telefone e ligar para a Automails Rockbell. Tinha decorado todo um texto, para me explicar e – óbvio – pedir desculpas pelo meu comportamento babaca anos atrás.
O telefone foi atendido no segundo toque – Alô – uma voz masculina conhecida atendeu, pensei nesta hora que aquele era o meu fim.
- G-gostaria de agendar um horário c-com o Automails Rockbell – consegui gaguejar enquanto suava frio.
- Um minuto – o homem me respondeu – Winry, tem uma cara que quer agendar um horário – ouvi umas vozes ao fundo, mas não identifiquei o que estavam falando – Olá! Você poderia ligar daqui meia hora? A Winry não pode atender agora...
- Oh! Sem problema – respondi resignado.
Coloquei o telefone no gancho e suspirei. Maldito karma! Fiquei enfrente ao telefone, encarando meu relógio de pulso passar os minutos. Nunca meia hora demorou tanto para passar.
Conforme orientado, após a torturante espera, peguei o telefone e disquei novamente o número da oficina – Automails Rockbell! – uma voz alegre me atendeu.
Engolindo seco respondi baixinho – Winry?
- Sim, é ela.
- Winry, aqui é o Jeremy de Rush Valley, gostaria de agendar um horário. Já passei por diversos mecânicos aqui na cidade, mas nenhum deles foi tão bom quanto você! – disse tudo de uma vez só, para não dar tempo de ela me interromper.
- Ok! – ela disse simplesmente e ouvi-a pegar alguma coisa do outro lado da linha, imaginei que fosse a agenda – Preferência por alguma data?
- - x - -
E aqui estava eu novamente, parado frente a essa porta após uma longa viagem. Meus músculos pareciam terem virado pedras, pois não se mexiam e com uma força desnecessária apertei a campainha tendo a total certeza de que sou um completo idiota.
Meti as mãos nos bolsos enquanto tentava não sentir pena de mim mesmo, neste momento a porta se abriu, quando levantei meus olhos me vi frente ao famoso Edward Elric. Ele definitivamente tinha estatura mediana e ainda mantinha os cabelos ridiculamente longos, porém dava pra perceber que havia amadurecido, os olhos pareciam bem mais sábios. – Jeremy, certo?! – ele me disse abrindo espaço para eu entrar – Winry logo vai te atender, ocorreu uma consulta complicada hoje de manhã o que a atrasou em alguns minutos.
Entrei na acolhedora casa – Caso queira se sentar, sinta-se a vontade – disse Edward estendendo a mão para um sofá enquanto ele sentava numa poltrona próxima a janela e retornava a leitura de um velho livro com uns signos estranhos na capa, "maldito alquimista" pensei enquanto sentava no sofá oferecido por ele.
Nos minutos que seguiram, me pus a reparar na sala daquela casa. Havia livros empilhados próximos à poltrona que Edward utilizava, além de alguns papeis rabiscados no parapeito da janela. Toda sala era adornada de fotografias, sejam penduradas nas paredes ou em porta-retratos dispersos pela estante que ficava do outro lado da sala.
Consegui identificar alguns dos personagens daquelas fotos que estavam mais próximas de mim, e obviamente que a maioria delas eram protagonizadas pela Winry e os irmãos Elric. Eram fotos deles crianças brincando no quintal, ou deles adolescentes pousando bem desajeitadamente frente a casa, tinha até foto do irmão mais novo vestindo aquela armadura ridícula. Esses irmãos Elric devem ser bem problemáticos... Mas algo em particular me chamou mais a atenção: Em uma das fotos dava para perceber claramente que o Edward tinha um braço de automail, porém das vezes que o tinha visto, ele tinha braços "normais".
Olhei de relance para o alquimista sentado a alguns metros de distancia, só para ter certeza que não havia me enganado, e como havia suspeitado ambos os braços do homem eram de carne o osso, nenhum automail. Enquanto pensava que nada mais fazia sentido com esses irmãos Elric, ouvi Winry me chamar – Jeremy! – levantei rapidamente e a olhei, estava encantadora como sempre - Desculpa o atraso, mas hoje de manhã tive um cliente bem complicado, que me fez atrasar todos os meus outros horários – disse ela encarando o homem a nossa frente. Edward apenas deu de ombros enquanto sorria marotamente para o livro que lia.
- Me acompanhe – disse ela gentilmente, como fazia com todo cliente.
- Aliás, Winry, se você não se sentir bem me chame... – Finalmente Edward disse despregando os olhos do livro.
- Já disse que estou bem, Ed! Pode voltar a ler esse seu livro chato. – disse ela.
Quando finalmente entrei no familiar quarto, antes dela começar a fazer as inspeções no meu braço eu disse – Eu lhe devo desculpas, Winry!
Ela me encarou e com um sorriso maternal me disse – Se te faz sentir melhor: Está desculpado. Agora deita nessa maca para vermos os estragos que aqueles mecânicos de Rush Valley fizeram no meu automail!
- Você não está mais brava comigo? – questionei
- Se estivesse brava com você, realmente acredita que estaria aqui agora? Lembre-se: você apenas veio nesta consulta porque eu agendei esse horário.
- Mas... – tentei recomeçar.
- Veja Jeremy – ela me interrompeu – você foi sim um babaca, e eu fiquei muito chateada com toda aquela situação desnecessária que você nos colocou. Mas como falei, você foi um bom amigo em Rush Valley e é um cliente fiel. Para ter agendado essa consulta depois de tanto tempo, é por que realmente estava precisando. Agora, caso você tenha vindo com outras intenções, talvez não tenha mais uma futura consulta.
Apenas encarei-a assustado
- Sim – continuou ela - afinal, não posso garantir que você consiga passar por aquela sala e sair vivo dela. – disse ela por fim com um sorriso diabolicamente angelical.
A consulta transcorreu normalmente, com conversas vazias sobre fofocas de pessoas conhecidas e de lembranças daqueles dias que vivemos em Rush Valley – apesar de tudo, aqueles foram bons tempos! Não faria nada de diferente... – disse ela parando alguns poucos minutos – Desculpa, além de atrasada, estou me sentindo muito sonolenta nestes dias.
- Sem problemas, caso queira descansar um pouco – falei enquanto ela bocejava brevemente, foi então que reparei na aliança que descansava na mão esquerda dela. Não tive coragem de perguntar sobre ela e mantive meu olhar fixo no teto do quarto.
- Terminei! – falou ela depois de um tempo, já passando a estopa no meu braço de metal – Porém se quiser já deixar marcada a próxima consulta, acredito que será melhor. Afinal trabalharei apenas pelos próximos cinco meses. Depois não sei quando voltarei...
- Ah! – exclamei triste – Tudo bem...
- Não precisa se preocupar, – ela continuou a falar enquanto arrumava algumas coisas na bancada e pegava a agenda com os horários de atendimento – apenas estou fazendo desta forma porque não sei quanto tempo o bebê vai demandar... Mas pretendo voltar ao trabalho aos poucos. De qualquer forma, fique tranquilo, que entrarei em contato assim que possível...
Ela continuou a tagarelar sobre os horários disponíveis, porém minha mente apenas conseguiu absorver até ela falar sobre o bebê. Era muita informações para um único dia.
- E então, Jeremy, posso já agendar sua consulta pra daqui quatro meses? – perguntou ela me encarando animada.
- Bebê? – Essa foi a única coisa que consegui falar enquanto encarava ela atordoado. Winry, percebendo toda a confusão estampada no meu rosto, apenas riu.
- Acho que me esqueci de te informar algumas coisas – disse ela estendendo a mão esquerda mostrando a aliança que havia reparado a pouco – me casei faz um pouco mais de um ano, e agora estou grávida do nosso primeiro filho.
- Uau! Parabéns! – falei por fim ainda atordoado – Tanto pelo casamento quanto pelo bebê!
- Obrigada! – ela falou feliz – Ed e eu estamos muito felizes, óbvio que com medo e ansiosos também... Mas acima de tudo: Felizes!
- Pode deixar agendado pra daqui quatro meses. – respondi simploriamente. Percebi então aquilo que sempre esteve a minha frente, mas nunca quis realmente enxergar, mesmo após todos esses anos. Entre eu e o grande Edward Elric, eu nunca tive chance, ele sempre esteve um passo (uma maratona inteira) a minha frente.
Suspirei enquanto Winry se debruçava na bancada anotando a minha próxima consulta na agenda. Ela continuava falando alguma coisa sobre Rush Valley, mas não prestei atenção no que ela dizia, meus olhos varreram o quarto iluminado e reparei que nele também havia um quadro de fotos.
Assim como as espalhadas na sala, no quadro tinha fotos dela em diversos momentos e idades, tinha fotos da avó, uma senhora baixinha que havia conhecido em uma das minhas viagens até Resembool, e também tinha algumas fotografias de algumas pessoas que eu não conhecia. Obviamente que havia diversas fotos dos Elric: Edward e seu misterioso braço de automail, a armadura bizarra, o tal do Alphonse com uma aparência doentia... Tinha também uma foto dele em um cenário exótico, provavelmente em Xing. Porém, nenhuma delas me chamou tanto a atenção quanto à fotografia disposta bem no cento do quadro: nela estava Winry, radiante em um vestido de noiva, e ao lado dela, Edward sorrindo. Maldito alquimista.
Winry me acompanhou ate a saída enquanto ditava o discurso dos bons cuidados com o automail. Apenas me deixei escutar, já não queria pensar em nada. Quando chegamos à sala, ainda sentado na poltrona perto a janela, porém agora com outro livro em mãos, estava Edward. Quando ele nos viu chegando, fechou o livro e nos encarou.
- Tudo certo? – perguntou ele passando o olhar de mim para a Winry. Não sabia se neste momento sentia raiva ou se saía correndo rumo à porta principal. Mais uma vez estava numa situação constrangedora dentro daquela casa.
- Sim, claro! – respondeu Winry simplesmente.
- Que bom – disse o homem com um sorriso.
Suspirei e disse por fim – Por hoje é só! Winry, obrigada pela consulta. Até daqui uns meses – me despedi da mecânica e acenei com a cabeça para Edward que me acompanhava com o olhar. Ele acenou de volta e retornou a leitura daquele livro velho.
Winry abriu a porta - Tchau, Jeremy. Dê lembranças minha a todos em Rush Valley! – falou ela um pouco antes de fecha-la atrás de mim.
Suspirei e me vi novamente frente à casa dos Rockbell, ou Elric, sei lá... Nada fazia sentido naquele lugar! Um menino que usava armadura, braços de automail que voltavam a ser de carne e osso. Balancei a cabeça e desci as escadinhas rumo à estrada que me levaria de volta a Rush Valley.
E durante todo o percurso para casa, fui pensando: Malditos alquimistas! E malditos mecânicos de automail!
- - x - -
N/A: Espero que Jeremy ache alguém legal para ele algum dia! (ou não)
Maluquice que surgiu durante a quarentena, a ideia inicial era ter alguns pontos da história contados por uma pessoa não envolvida nos acontecimentos principais de FMA, e eis que surge o Jeremy!
Outro ponto que queria abordar nessa história é aquele clichezão da pessoa aleatória se declarar para outra, só que essa já estar em um relacionamento. Então, esse relacionamento contado pelo ponto de vista desta pessoa aleatória.
Queria também que fosse uma fic com mais comédia, porém comédia é difícil de fazer 'migos!
Aah! E se alguém quiser saber o que o Al com a Winry conversaram naquela hora, só é comentar pedindo, que escrevo uma drabble contando tu-di-nho
No fim, até eu me surpreendi com essa fic. Acho que foi a primeira vez que permiti um personagem me levar... E acho que gostei do resultado. HAHAH
Se você gostou também, deixa um review.
E se não gostou, deixa review também!
