Disclaimer: Fairy Tail, bem como os seus respectivos personagens, não me pertence, e sim a Hiro Mashima. Posto esta fic apenas por diversão e entretenimento, e sem nenhuma intenção de lucrar algo com isso.

Esclarecimento: Esta história também não é de minha autoria, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Patricia Wilson, que foi publicado na série de romances "Julia Cartão-Postal", da editora Nova Cultural (edição 40, publicada no Brasil em 1996).


DISFARCE IRRESISTÍVEL

Capítulo 1

Juvia estava tirando a blusa quando Lyon entrou em seu quarto.

- Adivinhe ! - ele exclamou enquanto Juvia se apressava a esconder os seios e a fulminá-lo com seus olhos azuis.

- Já adivinhei. Você esqueceu o número de seu quarto e resolveu entrar no meu para saber se por acaso eu me lembro !

- Escute - Lyon continuou sem se incomodar com o comentário - Vim lhe trazer uma notícia que a fará cair de costas ! O professor está de partida para outra expedição.

A expressão de Juvia mudou instantaneamente. Ela não estava mais aborrecida. Agora estava ansiosa.

- Conte-me tudo. Para ele ter escondido o fato de mim, deve ser algo perigoso - ela se deteve e balançou a cabeça - Meu tio não pode ter feito planos tão importantes às minhas costas. Uma expedição leva meses para ser organizada e tio Robert não conseguiria guardar segredo por um período tão longo.

- O que estou lhe dizendo é a pura verdade, Juvia - Lyon insistiu - A notícia já foi divulgada. Passei a manhã inteira tentando cercar o professor para conseguir mais detalhes, mas você o conhece e sabe como ele é um mestre em escapar das pessoas. Resolvi abordá-lo, então, após a aula. Sabe o que ele fez ? No meio da exposição olhou para o alto, estalou os dedos e saiu. Ninguém mais o viu na universidade.

Ela não duvidava das palavras de Lyon. O professor Robert Lockser era um homem excêntrico e dado a atitudes bizarras. Havia ocasiões em que olhava para os amigos como se não os conhecesse, em outras se dirigia a estranhos e tratava-os com afeto e cordialidade como se os conhecesse de longa data. Não fosse por sua genialidade, ele já teria sido convidado a se aposentar. Todos o conheciam e respeitavam. Seus alunos o adoravam e não hesitavam em acobertar seus lapsos. Juvia tinha certeza de que o desaparecimento daquela manhã seria justificado como das outras vezes.

Ela era a primeira da lista dos fãs e o conhecia melhor do que ninguém. O professor Robert Lockser era seu tio e fora ele, ajudado por sua governanta Melanie, quem a criara.

Nos últimos tempos, contudo, parecia ser ela quem o estava criando. Não que ele estivesse senil. Tio Robert continuava tão esperto e inteligente quanto sempre fora. Apenas não via mais razão para se prender às convenções. Aos sessenta anos, era um homem forte e saudável. No campo intelectual, era um dos maiores especialistas em civilizações antigas da América do Sul.

Quando surgia seu interesse, contudo, tio Robert abandonava o que estivesse fazendo para perseguir seu desafio. Esse era o grande problema. Dentro dos velhos muros da universidade, ele estava seguro. Fora, ele poderia correr perigo.

- Preciso detê-lo - Juvia decidiu - Ele é bem capaz de cair num precipício, afundar num lago ou coisa pior. Para onde pretende ir ?

- Para a Bolívia. A partida está marcada para daqui a duas semanas.

Lyon mencionou o local como se isso o divertisse, mas Juvia ficou horrorizada.

- Bolívia ! Não posso permitir !

- Ora, Juvia, seu tio é um dos homens mais espertos do mundo. Por que o trata como se fosse um incapaz ?

- Porque não é seguro deixá-lo livre - ela respondeu, ofendida - Nem sequer por um dia. Ele pode ser o homem mais esperto do mundo, mas não sabe lidar com a vida.

- Deixe seu tio em paz ! - Lyon caçoou - Você está parecendo a "mamãe gansa".

- Eu não posso permitir que ele viaje sozinho. Amo-o demais para me arriscar a perdê-lo.

- Não há nada que você possa fazer. Sinto muito. A expedição está marcada.

Juvia franziu o cenho e pôs-se a andar de um lado para outro, sem se importar com o olhar irônico de Lyon. Ela estava estudando Medicina e era uma das melhores de sua turma.

- Irei com ele - Juvia anunciou subitamente.

- Você é tão maluca quanto seu tio - Lyon declarou - Está estudando Medicina, não Arqueologia ou Geografia.

- Você me deu uma boa idéia. Todas as expedições precisam contar com um médico. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. Eu irei com tio Robert e vigiarei seus passos.

- Eu quero ir com ele ! - Lyon protestou - Por que acha que o persegui a manhã inteira ? Se ainda há lugar para um na expedição, quem irá sou eu. Afinal, sou aluno dele.

- Reze para terem sobrado dois lugares, então, pois se só houver um, irei eu.

- Isso não é jeito de tratar seu namorado - Lyon reclamou.

- Você é meu amigo, não meu namorado. Há uma grande diferença.

- Prometo que cuidarei dele - Lyon tentou um último recurso.

- Impossível. Ninguém consegue cuidar de tio Robert, exceto eu. Meu tio é um homem muito difícil.

Assim dizendo, Juvia saiu do quarto e bateu a porta, dando a conversa por encerrada. Lyon ficou parado, cogitando o que fazer. O professor não era a única pessoa difícil naquela família. Deveria ser um mal comum.

Ele tentou seguir Juvia pelos corredores, mas já sabia que a batalha estava perdida. Quando Juvia dispunha-se a algo, o melhor era concordar de uma vez e se render.

O professor Lockser olhou surpreso para o furacão de cabelos e olhos azuis que invadiu sua sala.

- O que houve, minha criança ?

- Não posso permitir que vá à Bolívia sozinho - Juvia respondeu sem preâmbulos.

- Eu não irei - ele garantiu, com uma expressão divertida - A expedição é composta de vários membros.

Ele notou a seriedade com que a sobrinha o fitava e sorriu. Juvia não fazia ideia do quanto era bonita. Seus cabelos pareciam um manto de safiras que lhe chegava quase à cintura. Já tivera a oportunidade de vê-la de avental branco, cabelos presos e estetoscópio pendurado no pescoço. Não fazia diferença. Sua sobrinha havia herdado a beleza suave da mãe com seus olhos de safira. A beleza da mãe e o gênio do pai.

- Por que não me contou ? - ela interrogou-o.

- Não lhe contei sobre a Bolívia ? - Robert Lockser indagou, genuinamente surpreso - Eu me lembro da conversa com detalhes. Foi durante o jantar, há algumas semanas.

- Você conversou, provavelmente, com alguma outra mulher - ela respondeu com olhar de censura - Eu não teria concordado com a ideia e você sabe disso.

- Eu estava certo de que você havia concordado. De qual quer modo, está tudo pronto e custou uma fábula. E tarde demais para desistir do projeto.

Por um instante, Juvia pensou ter visto um brilho de malícia nos olhos dele, mas descartou a suspeita de imediato. Seu tio jamais tentaria enganá-la. Era inocente demais para isso.

- Irei com você - ela afirmou.

- Impossível - ele retrucou com um gesto categórico - Não é trabalho para mulheres.

- Eu sou quase uma médica !

- Nós já temos um médico na equipe - o tio argumentou, com ar de satisfação.

- Nesse caso, serei obrigada a cancelar o projeto, tio Robert. Você sabe que é perigoso. Gosto demais de você e tenho medo do que possa lhe acontecer. Se não me obedecer, sou capaz de informar a universidade que você não está mais em condições de fazer parte de expedições.

Um largo sorriso se estampou no rosto do professor.

- A expedição é particular, não tem nada a ver com a universidade. Dessa vez, você está de mãos atadas. Terá de confiar em meu instinto de sobrevivência.

Juvia suspirou, frustrada.

- Pedirei ao líder da expedição que me deixe ir.

- Ele não admite mulheres em suas expedições. Não há nenhuma na equipe.

Momentaneamente vencida, Juvia se levantou, deu um beijo no rosto do tio e saiu da sala. O professor deu vazão ao riso. Sua sobrinha adorada estava se transformando numa carcereira. Estava na hora de se preocupar mais em arrumar um namorado.

Por falar nisso, quem era aquele rapaz que tentara atrair sua atenção durante a aula ? Oh, sim, Vastia ! Ele vinha acompanhando Juvia com freqüência. Talvez pudesse convidá-lo para participar da expedição. Sempre havia lugar para um bom estudante. E ele poderia cuidar de Juvia quando chegassem à Bolívia, pois não havia dúvida de que a sobrinha o seguiria de uma forma ou de outra !


Duas semanas depois, Juvia sentou-se entre tio Robert e Lyon no vôo para La Paz. Fora difícil persuadir o tio a levá-la, mas acabara conseguindo. Melhor assim. Dessa maneira poderia vigiá-lo desde o início da viagem.

Lyon estava feliz porque o professor o convidara para se juntar à equipe. Tão logo sua posição ficara acertada, ajudara Juvia a colocar seu plano em prática.

Se era verdade que o único empecilho quanto a presença dela na expedição era sua condição de mulher, ela resolveu o problema sem a menor dificuldade. Disfarçou-se de homem.

Lyon e seu tio queriam que ela cortasse os cabelos, mas o sacrifício lhe pareceu demasiado grande. Em vez de cortá-los, ela os esconderia sob um boné.

Quando o avião se aproximou de La Paz, Juvia se levantou para trocar de roupa. Quando saiu do toalete, precisou se esforçar para não rir diante do olhar assombrado dos passageiros.

Entrara de vestido e cabelos soltos e saíra de calça e camisa cáqui, um relógio bem masculino no pulso e os cabelos presos sob um boné vermelho de beisebol.

Lyon fez um sinal de aprovação ao vê-la, mas o tio pareceu em dúvida.

A verdade era que nenhum dos dois se importaria caso o líder inimigo de mulheres a mandasse de volta no minuto em que a visse. Mas ela não cederia sem luta e seus companheiros sabiam disso. Portanto, até certo ponto, ela podia confiar em suas opiniões.

- O que acham ?

- Parece um jovem afeminado - Lyon respondeu - O problema é que nenhum garoto no mundo tem um rosto como o seu.

- Não sei. Existem jovens tribais realmente lindos. Mas eu estou inclinado a concordar com Lyon - disse o tio - Você não passará no teste.

- Nesse caso, eu ficarei doente até o último instante.

- Outro empecilho. O líder pode proibir sua viagem, mesmo sem vê-la, e não poderemos culpá-lo. Melhor seguirmos com o plano original. Talvez ele não repare em você.

Foi a vez de Lyon parecer cético. Juvia era bonita demais. Sua pele era perfeita e os olhos azuis eram emoldurados por cílios longos, escuros e espessos. Apesar de ser alta, ela tinha um corpo suave e feminino. As roupas estavam escondendo-o, ele admitia, mas o rosto não poderia ser disfarçado.

Lyon sentiu pena de Juvia. Tinha certeza de que ela seria enviada de volta no primeiro avião. A pobre Juvia ficaria muito preocupada, embora ele não entendesse o porquê de seus cuidados. Quanto mais conhecia o professor, mais errada ela lhe parecia quanto a pensar que o tio não era capaz de cuidar de si próprio. O professor Lockser era um homem muito competente.

- Acha que teremos de vestir trajes formais para o jantar desta noite ? - ela perguntou ao tio, ansiosa. Só naquele instante havia se dado conta de que não pensara nesses termos.

- Oh, não - O tio tranquilizou-a - O hotel fica longe da cidade e é muito simples. Podemos chamá-lo de ponto de partida para quem quer explorar os Andes. Além disso, só ficaremos hospedados lá por uma noite. E Gray estará tão ocupado que não terá tempo para examinar as roupas do pessoal.

Apesar das palavras do tio, Juvia não ficou sossegada. Não conhecia o tal homem. O tio falara a seu respeito apenas em termos profissionais. Ela não fazia ideia de quem era e da razão pela qual ele havia sido o escolhido para liderar a expedição no lugar do professor. Tudo o que sabia era que Gray se reservava ao direito irracional de proibir mulheres em sua equipe, e isso era o bastante para se tornar antipático aos seus olhos.

Quanto às roupas, ela havia trazido dois vestidos para o caso de seu disfarce não conseguir convencê-lo, e ser obrigada a voltar para casa. Mas estavam guardados no fundo da mala e ela esperava deixá-los no hotel. Só os exibiria quando a expedição chegasse ao fim. Seria uma glória. Ela faria questão de desfilar com eles diante do sr. Gray. Mal podia esperar para desferir esse golpe em seu ego e marcar a vitória das mulheres !

Por enquanto, ela estava segura dentro da calça cáqui folgada e da blusa que conseguia esconder totalmente os seios firmes e altos. Precisava apenas se lembrar de manter o rosto abaixado.

A entrada do hotel não era ampla nem elegante. Exausta da viagem, ela respirou aliviada ao constatar que não havia um comitê de boas-vindas. O lugar parecia ter saído dos filmes do Velho Oeste. Formalidade era a última coisa que poderia esperar.

- Ah ! É o professor Lockser e sua comitiva ! - saudou o gerente ao vê-los com suas mochilas e equipamentos - Devo informá-lo de que os demais componentes de sua equipe já se encontram no hotel. Eles me pediram para avisá-lo de que uma reunião está marcada para as sete horas - o gerente deu um passo e apertou vigorosamente a mão de seu tio - É um grande prazer tê-lo outra vez conosco, professor.

- Você já esteve aqui antes ? - Juvia perguntou, espantada, enquanto subiam para seus quartos num elevador velho e lento.

- Várias vezes - respondeu o tio - Você acha que consigo estudar os lugares sem visitá-los ?

- Mas também recentemente ? O homem parece se lembrar muito bem de você.

- Claro que sim, minha querida. Estive aqui há aproximadamente quatro meses.

Juvia fez o cálculo. Fora logo após o Natal, quando o tio desaparecera misteriosamente por três semanas e voltara com um brilho estranho nos olhos. Ela não podia ter imaginado. Na época, acontecera uma conferência na Holanda.

A atmosfera tornou-se pesada com o mau humor de Juvia, mas o tio não pareceu se importar. E ela procurou não dar asas à imaginação e sofrer quando não havia mais jeito. Talvez ele tivesse vindo à Bolívia apenas para encontrar o tal Gray e discutir sobre a expedição que só agora estava acontecendo.

Ela ainda não havia parado de tecer conjecturas sobre a viagem secreta, quando os ponteiros do relógio marcaram sete horas.

Fora dos muros da universidade, seu tio parecia muito diferente. Estava começando a recear que não seria tão fácil lidar com ele agora. Robert Lockser era um homem importante em seu meio. Não podia ridicularizá-lo tentando lhe dar ordens diante de outras pessoas. Estava determinada a vigiá-lo de perto, apenas, e garantir a sua própria paz de espírito.

Juvia olhou-se ao espelho enquanto prendia os cabelos no alto da cabeça. Estaria sendo egoísta ? Era esse o motivo de sua presença ali ? O fato de não querer se sentir culpada caso algo acontecesse ao tio ? Ele estava acostumado a viajar e sempre voltava para casa saudável e feliz. Por que, de repente, ela resolvera tratá-lo como um velho decrépito ?

Juvia ajeitou o boné sobre a cabeça. Estava tensa. Havia conseguido acompanhar o tio como queria. Se poderia ou não continuar a seu lado, dependeria de um homem chamado Gray.

Ela olhou-se mais uma vez e afofou a blusa ao redor da cintura. Numa hora como essa, preferiria ter seios pequenos. Talvez devesse achatá-los com uma faixa de tecido bem apertada. Por outro lado, o recurso poderia ser muito desconfortável, especialmente se tivessem de caminhar durante dias a fio. Não sabia se contariam com algum tipo de transporte. Seu tio fora vago nesse aspecto e em muitos outros. Estava começando a cogitar se ele não estava se divertindo à sua custa, ou tentando lhe ensinar uma lição.

Por sorte, não precisou descer sozinha. Lyon e seu tio bateram à porta de seu quarto, naquele instante.

Na sala, ela não teve tempo de sentir medo pois o tio começou imediatamente com as apresentações.

- Este é Elfman Strauss. Ele já trabalhou conosco antes e é um excelente fotógrafo - Em seguida, o professor se virou para Lyon e para ela. - Este é Lyon Vastia, um de meus alunos, e este é meu sobrinho, Matthew. Matthew está estudando Medicina. Poderá nos ser útil.

Elfman Strauss apertou as mãos com naturalidade. Juvia respirou fundo. Podia considerar aquele instante como uma preliminar ao teste. Olhou para Lyon e baixou a cabeça. Ele estava mais nervoso do que ela.

Quem parecia completamente à vontade era seu tio Robert. Não sabia que ele era capaz de uma interpretação tão boa.

Elfman Strauss era um homem bonito. Parecia adepto dos esportes e do Sol, a julgar pelos músculos e pela pele bronzeada.

O mais importante era que ele estava impressionado demais com seu tio para prestar atenção nela e em sua aparência. Era um alívio sentir-se salva.

Por pouco tempo.

- Gray ! - seu tio exclamou com grande satisfação no momento em que um homem entrou na sala.

Juvia olhou na direção da porta e sentiu como se o chão estivesse fugindo sob seus pés. Não havia parado para pensar por muito tempo no homem que havia se determinado a enganar. Sua antipatia por ele fora tão instintiva que não se importara em tentar imaginar sua aparência. Ele a pegou completamente de surpresa. Depois de conhecê-lo, tinha certeza de que não conseguiria passar no teste.

Por enquanto ela ainda era apenas mais uma na multidão. Ele só tinha olhos para seu tio. Uma onda de raiva invadiu-a, Ele não tinha o direito de expulsá-la. Seu tio era a pessoa mais importante da equipe. Não fosse pela fama de seu tio, ninguém teria financiado a viagem.

Virou-se para Lyon à procura de apoio, mas ele, como os outros, estava com a atenção voltada para o recém-chegado. Juvia olhou novamente para ele. Gray era muito alto. A seu lado, seu tio parecia pouco mais do que um anão. Seu rosto era moreno e um pouco bronzeado. Seus cabelos e olhos eram negros e a boca firme e obstinada.

Ao vê-la, ele pareceu franzir o cenho. Por sorte, seu tio entrou rapidamente em ação.

- Eu trouxe dois novatos - ele disse - Este é Lyon Vastia, um ótimo aluno meu, e este é meu sobrinho Matthew, estudante de Medicina. Poderá nos ser útil.

- Possivelmente - concordou o homem com os olhos fixos em Juvia. E ela não estava tendo sucesso em manter a cabeça abaixada, como pretendia. De repente, a postura lhe pareceu tímida e feminina demais - Você usa o mesmo sobrenome que seu tio ? Também se chama Lockser ?

Juvia engoliu em seco e tentou responder com voz grave.

- Sim.

- Este é Gray Fullbuster, Matthew - seu tio intercedeu ao vê-la em apuros.

Estava explicado o motivo de ele ter cabelos tão negros e pele tão morena. Apesar de não apresentar sotaque, Gray era boliviano, e não inglês, como ela pensara inicialmente.

- Minha mãe é inglesa - Gray observou, como se tivesse lido sua mente - Meu pai é boliviano. Seja bem-vindo ao meu país, dr. Lockser - ele disse com uma ironia que não passou despercebida aos ouvidos de Juvia.

- Ainda não sou formado - ela murmurou, tentando evitar encará-lo.

- Não tenho dúvidas de que conseguirá.

Com essas palavras, Gray Fullbuster dispensou-a. Foi um alívio. Mais um minuto sob aquele olhar astuto e ela teria confessado quem era. Seu tio deveria conhecê-lo muito bem. Era raro ele chamar as pessoas pelo primeiro nome.

Mais tarde, todos se sentaram e Gray Fullbuster se dirigiu ao grupo.

- Fiquem à vontade. Neste momento, o professor Lockser os colocará a par sobre o andamento da expedição. Como sabem, nós procuramos fazê-la pequena devido à necessidade de mantermos nossos progressos em segredo, e como vocês são habilidosos em vários campos, não foi preciso chamar outras pessoas. Os carregadores irão ao nosso encontro quando estivermos próximos das montanhas e mais protegidos contra os espiões. A escalada será dura em certos trechos. Espero que os novos elementos do grupo estejam cientes disso. Apenas uma coisa nos falta: tempo. Assim, não poderemos nos atrasar por causa de problemas pessoais. Aquele que não conseguir nos acompanhar, deverá retornar sozinho.

Era óbvio que Gray Fullbuster estava se dirigindo a ela. Em seus olhos havia dúvidas de que fosse capaz de seguir os outros.

- Eu conseguirei - disse ela, sem acreditar em seus ouvidos.

- Não duvido - Gray Fullbuster respondeu com um sorriso - Seu tio não o teria trazido se não acreditasse em sua capacidade. Os jovens têm muita resistência. Eu também fui um. De qualquer modo, caso necessite retornar ao hotel e ao aeroporto de La Paz, lembre-se de que terá de encontrar sozinho o caminho de volta.

Soava mais como uma ameaça do que como um incentivo, e Juvia agradeceu quando o tio começou a falar. Ele não tinha a menor dificuldade em discursar, especialmente sobre seu tema preferido. Segundos depois, o grupo parecia estar em transe. Até mesmo o sarcástico Gray Fullbuster.

Ele tinha mãos fortes, dedos longos e unhas bem delineadas, Juvia notou. As feições exóticas eram explicáveis. Ele era sul-americano, provavelmente descendente de espanhóis ou de índios.

Os cabelos negros e espessos eram indicativos dessa herança. Os olhos negros, nem tanto. Eram bonitos, mas poderiam ser menos duros.

Ele deveria ser uma pessoa muito importante. Apesar de ser seu tio quem estava discursando, a atitude de Gray Fullbuster era de um líder em todos os sentidos.

- Como a maioria de vocês sabe - dizia o seu tio -, La Paz fica à beira de um altiplano, uma série de vales, montanhas e planícies, formado pelos Andes. À medida que subirem as montanhas, vocês sentirão extremo cansaço. É normal. O ar é rarefeito. Portanto, mesmo aqueles que estão acostumados ao lugar, devem ir devagar.

- Uma civilização importante viveu nesta parte do mundo no passado e construiu grandes edificações e monumentos. Os Aymaras a iniciaram e os Incas a consolidaram por volta do século XI. A chegada dos espanhóis foi a grande responsável por sua destruição. Com a descoberta da prata, a colonização espanhola tornou-se cada vez mais dominante até sufocar o sistema social daquele povo que se viu obrigado a se afastar e a procurar terras mais altas e inférteis onde se instalarem.

Robert Lockser fez uma pausa.

- Nós pretendemos chegar exatamente a esse lugar. Sou de opinião que ainda existem ruínas a serem descobertas no alto das montanhas e o sr. Fullbuster concorda comigo. Acreditamos que os bens mais preciosos e as relíquias ligadas à religião foram escondidas em lugares de difícil acesso. É verdade que já estivemos antes nessa região e que já a exploramos, mas nunca nos aprofundamos no trabalho como pretendemos fazer agora. Há boatos de que outros pesquisadores estão interessados no local. Não podemos permitir que obtenham sucesso quando foi nosso o esforço e a dedicação durante tantos anos. Por essa razão, esperamos chegar lá primeiro e em sigilo. E é por esse motivo, em especial, que o sr. Fullbuster está financiando a expedição.

Juvia não conseguiu ouvir mais nada. Gray Fullbuster era o líder do grupo porque o estava financiando. O dinheiro lhe dera o direito de ditar as regras. Olhou-o de esguelha. Sim, ele parecia ser um homem rico e poderoso. Havia uma aura de força e dinamismo ao seu redor. Não por causa do dinheiro, mas por seu porte atlético e determinação.

Se ele descobrisse que era mulher, ela estaria perdida. Todas as súplicas do mundo não o fariam mudar de idéia.

Ele olhou em sua direção naquele momento e ela se apressou a virar para o outro lado e iniciar uma conversa com Lyon.

- Acalme-se - ele murmurou - Você conseguiu. O homem não percebeu nada. Sua única preocupação é a viagem. Vai dar tudo certo.

Talvez Lyon estivesse certo. Gray Fullbuster, afinal de contas, vira seu rosto e aceitara a palavra de seu tio. Por que, então, continuava tão tensa e insegura ? Por causa da ameaça de que seria obrigada a voltar sozinha e enfrentar todos os perigos que encontrasse pelo caminho, se não conseguisse acompanhar o grupo ?


P. S.: Bem, essa está sendo a minha sexta adaptação, e desta vez em um fandom diferente. As minhas outras cinco adaptações foram com o fandom de Naruto, e desta vez decidi adaptar uma história usando o de Fairy Tail. Espero que vocês gostem dela.

P. S. 2: Nos vemos no Capítulo 2.