Desde pequeno Sanji estava acostumado com os holofotes. Seu pai insistia em levar os quadrigêmeos para campanhas publicitárias e os quatro acabaram recebendo fama e dinheiro o suficiente para deixar a família rica. Para a infelicidade de Judge, e felicidade de Sanji, seus pais se separaram quando só tinha dez anos e o loiro se livrou daquele ambiente tóxico e abusivo em que vivia.
O jovem loirinho gostava muito de chamar atenção, amava quando as pessoas o elogiavam e diziam o quanto gostavam de ver suas fotos, com isso ele pediu para sua mãe deixar que continuasse naquele emprego. Entre os quadrigêmeos e a irmã mais velha, Sanji foi o único que seguiu carreira dali em diante.
Por ser muito sociável, se recusava a estudar em casa, então durante toda sua vida escolar esteve em uma escola particular com muitos amigos ao redor. Amigos que hoje em dia já não existiam mais. Dois anos após o divórcio, sua mãe começou a namorar com um cozinheiro de merda, e não demorou para os dois se casarem. Zeff, seu novo pai, nos anos que se seguiram agiu mais como seu pai do que seu pai biológico, então era esse velhote azedo que era o único a ser chamado de pai por ele. Com mais idade, ele jurou que nunca mais iria olhar na cara daquele infeliz que tornou sua vida um inferno.
Desde criança Sanji amava cozinhar e depois que conheceu Zeff seu amor aumentou ainda mais. Ele muitas vezes, mesmo bem pequeno, ajudou no restaurante e era sua vida quando recebia um raro elogio do velho, deixando-o completamente bobo e feliz. Com o incentivo do Chef, decidiu entrar em uma universidade de gastronomia para se especializar e em um ano se formaria. Isso não o fez abandonar o emprego de modelo.
Era normal que a fama subisse à cabeça e levasse pessoas famosas até as drogas, felizmente não foi o caso do loirinho. Porém, cigarro sempre foi um vício para ele. Lembrava-se da surra que levou na primeira vez que Judge o viu fumando, e aquilo foi o maior motivo para sua mãe abandonar aquele homem. Sanji chegou a sangrar e tinha marcas do cinto em seu corpo até hoje. Não eram boas memórias, e ele não precisava mais se preocupar com aquele homem, ele não existia mais, estava morto para ele.
Seu vício acabou trazendo problemas para dentro de casa. Sua mãe sempre teve uma saúde frágil devido a uma doença desconhecida. Era desesperador que mesmo com todo o dinheiro do mundo, aquelas notas não valiam de nada para salvá-la. Para piorar, na última consulta o médico disse que se ele não parasse de fumar, poderia causar sérios problemas para sua mãe, chegando até a matá-la. Com culpa na consciência, Sanji parou. Ou melhor, ele conseguiu parar por dois dias seguidos, o que era um recorde visto que fumava mais de um maço inteiro por dia, no terceiro dia ele enlouqueceu e procurou desesperadamente seus cigarros, fumando vários em sequência. Óbvio que isso foi bem longe de sua mãe, mas o cheiro ficava nele, era inevitável. Sora se tornava fumante passiva por sua culpa e ele não conseguia aguentar aquilo.
Decidido a parar, ele procurou ajuda na internet, encontrando um grupo de apoio que se reunia semanalmente em um lugar perto de onde morava. Era perfeito. E lá estava ele na frente daquele prédio estranhamente discreto para sua primeira tentativa real de parar de fumar sem volta.
Sentia-se deslocado ali, não se encaixava, não pertencia àquele lugar. Queria dar meia volta e fingir que nunca entrara em um local cheio de gente doida como aquele. Não era um drogado, apenas fumava cigarros, agora isso era ilegal? Qual o problema? Por que tinha que se submeter a um lugar tão suspeito?
Apagando todo e qualquer tipo de pensamento que tentava convencê-lo a fazer a coisa errada, Sanji respirou fundo e abriu a porta. Os olhares do grupo se direcionaram para ele e aquilo não o incomodava, estava acostumado a ser o centro das atenções. Surpreendente, não eram olhares que o julgavam, ou condenavam, pareciam acolhedores. Sentiu-se bem-vindo, então sorriu como o anjo que era.
— Desculpe o atraso, eu estava em negação... — Ele disse sincero e se aproximou da rodinha de pessoas sentadas, ocupando uma cadeira vazia que estava destinada a ele. Avisara antes que compareceria, então era normal ter um lugar vago.
Já não era sem tempo. Zoro tinha acabado de se sentar após dar sua contribuição para a reunião daquela semana e já tinha começado a imaginar se havia colocado uma cadeira a mais à toa naquela noite. Ele era um homem forte de meia-idade, o corpo marcado por milhares de cicatrizes e os cabelos tingidos de verde se misturando aos fios prateados. Frequentava este grupo há bastante tempo e o informaram no dia anterior de que um jovem havia ligado a respeito do programa. A secretária estava excessivamente empolgada e não parou de falar sobre o rapaz, falando de como foi atencioso e simpático e a chamou de mademoiselle o tempo todo, o que fez Zoro revirar os olhos e se arrepender instantaneamente de ter aceitado cumprir algumas tarefas como veterano do grupo. Lidar com aquela mulher certamente era uma delas.
Como o bom adolescente de 19 anos curioso que era, Sanji passou o olhar por cada uma das figuras ali. Não era um grupo muito grande, devia ter pouco mais de dez membros e cada um com sua peculiaridade. Havia duas ou três mulheres que chamaram sua atenção e ele sorriu para elas, elegante e galante. Alguns homens pareciam mais desgastados que outros, quase como se estivessem sofrendo por estar ali, o que provavelmente estavam mesmo. Ele estava. Tinha conseguido ficar mais dois dias sem fumar e aquele era o terceiro, da última vez desistiu no terceiro e suas mãos trêmulas indicavam que o limite já havia ultrapassado. Mas ele tentaria, por sua mãe tentaria e conseguiria, porque não era fraco e amava sua mãe mais que tudo.
Zoro observou o jovem inquieto em sua cadeira, passando os olhos interessados por cada um dos membros, absorvendo os discursos concentrado, como se estivesse numa aula de uma matéria particularmente importante. Era um tanto adorável. Ele parecia ser jovem o suficiente para ainda estar na escola, não tinha nem três fios de barba no rosto harmonioso e seu único olho visível, absurdamente azul, focando no ex-viciado em remédios para dormir que discursava no momento, tinha um brilho puro e ingênuo.
Ele tentou adivinhar mentalmente qual era o vício do rapaz antes que ele se levantasse para se apresentar, como tinha costume de fazer com todos que chegavam ali, apenas para passar o tempo entre o falatório dos companheiros. Mas era tão ridiculamente óbvio, que nem tinha graça. Dedos levemente amarelados nas pontas, crises de tosses nos poucos minutos que estava ali, a boca inquieta como se estivesse precisando de algo... Não precisava ter mais que dois neurônios para saber que o garoto era um fumante compulsivo.
Sanji prestou atenção aos relatos dos outros e sempre que terminavam todos aplaudiam o esforço da pessoa. Quando chegou sua vez, ele contou tudo relacionado ao vício também, omitindo partes que achava muito pesadas, como as marcas horríveis em seu corpo que o faziam chorar todos os dias ao tirar a roupa para tomar banho e sua infância fodida. Era o suficiente, o que eles precisavam saber era que ele necessitava parar de fumar por sua mãe. Achou que alguns poderiam considerar sua história fraca e insignificante, especialmente levando em consideração o quão pesado os relatos de outros eram, chegando até ao ponto de um já ter assassinado uma pessoa.
Zoro, por exemplo, escutava meio desinteressadamente o discurso do pirralho. Primeiras vezes eram sempre tão ensaiadas e maquiadas que ele sinceramente não tinha muita paciência para isso. Com o tempo o rapaz iria ficar mais confortável para contar o que realmente o incomodava, realmente confiar neles. Ou apenas iria desistir e nunca mais aparecer no grupo, como Zoro já vira acontecer incontáveis vezes. Fosse como fosse, nada daquilo despertava muito o interesse de Zoro.
Já era muita coisa ele estar escutando, visto que não era raro que dormisse durante as reuniões. Não que alguém do grupo realmente se importasse com isso, todos já estavam bastante acostumados com ele àquela altura. Era quase um patrimônio das reuniões, sendo o membro mais velho e com mais tempo de grupo. Aquele loiro tinha menos idade que a primeira ficha de Zoro. Isso significava que antes que aquele rapaz sequer sonhasse em nascer Zoro já havia começado a tentar parar de beber.
Pelo menos aquele garoto parecia estar ali de bom grado, o que com certeza não fora seu caso. Lembrou vagamente de quando tinha 19 anos e digamos que em sua primeira reunião ele estava um tanto quanto relutante quando comparado ao jovem na sua frente. Na verdade, eles não se pareciam nem um pouco. Aquele pirralho provavelmente vinha de uma boa família, parecia excessivamente pretensioso e educadinho. Zoro duvidava muito que tivessem sido amigos em sua juventude.
Ele parecia confortável, como se contar sua vida inteira para vários estranhos fosse algo facílimo, embora Zoro tivesse certeza de que não estava contando realmente sua vida inteira. Na impressão dele era como se o moleque falasse palavras vindas de um roteiro bem ensaiado, falas decoradas e cuidadosamente ditas. Tudo exceto suas mãos. Elas tremiam escancaradamente, contrastando com a fachada eloquente que ele tentava montar. O rapaz pareceu notar isso e enfiou as duas nos bolsos traseiros, não tendo nenhum na parte da frente da roupa.
Entretanto, ele permaneceu surpreendente calmo, sua expressão nunca falhando e seu ar de cortesia agradecendo os aplausos no final da apresentação era impecável. Tinha sido o último, então, naturalmente, após alguns avisos finais, todos se levantaram e começaram a se dispersar em direção à mesa onde havia café e algumas bolachas. Alguns pararam para cumprimentar Sanji no caminho, embora Zoro não pudesse ouvir o que diziam, e o homem de cabelos verdes apenas continuou sentado por um tempo de braços cruzados.
Como a ótima pessoa sociável que Sanji era, após todos contarem suas histórias, ele começou a conversar com cada um, para saber mais das pessoas. Já sabia o nome de todos, com exceção de um... O cara mais velho, claramente anti social que passou a sessão inteira o observando como se estivesse o julgando, achando sua história patética e mínima comparada com a dos outros. Aquele homem era bizarro, ele tinha um cabelo verde horrível e um péssimo gosto para roupas e sapatos. Se aquele cara preferia ficar sentado ao invés de ir cumprimentar o novato, que fosse, não era ele que se daria ao trabalho de falar com aquele macaco velho.
Sem se importar com o velhote que deveria ser tão velho quanto Zeff, Sanji continuou seu teatrinho de sociabilidade, sendo até mesmo reconhecido por alguns... Mais especificamente pelas damas. Após a confraternização, o loiro se dirigiu para fora daquela sala. Suas mãos ainda tremiam loucamente e, vez por outra, ele ainda procurava involuntariamente com a mão trêmula o maço de cigarros que não estava lá. A cafeína ajudava bastante a esquecer o vício do cigarro, o sabor do café era amargo e até que substituía bem, mas se aquilo virasse outro vício de nada adiantaria. O lado colateral disso era que havia tomado tanto café que sua garganta estava amarga, precisava de água.
No meio do corredor vazio que dava para a saída, ele viu um bebedouro e resolveu tomar um copo para se livrar daquele gosto ruim. Então bebeu um copo... Dois... Três... A cada um ele começava a tossir sem controle e tomava mais água para tentar não deixar sua garganta seca. A vontade de fumar era absurda, sentia dores de cabeça o tempo todo e tentava fingir que estava tudo bem, mas não estava. Sua ansiedade apenas piorava a cada segundo. Queria fumar para acalmar-se e não podia. Aquilo era uma tortura. Se parar de fumar causava aquelas coisas, não seria o correto ele continuar fumando?
Quando estava no quarto copo de água suas mãos tremiam tanto que ele derrubou sem querer o copo de plástico e segurou a garganta, tendo a sensação de que seus pulmões estavam tentando sair pela sua boca. Ele apertou a garganta, como se aquilo fosse o suficiente para que a crise acabasse, mas nada parecia ter algum efeito. Seu coração estava a mil, sentia dor e não estava conseguindo puxar mais o ar, era agoniante. Pensou em pedir ajuda e a única coisa que conseguiu foi derrubar seu celular. Não conseguia respirar e parecia que aqueles eram os últimos segundos de sua vida.
E de fato, foram os últimos segundos, ele sentiu a visão embaçar por um instante e no seguinte o ar voltava a preencher seus pulmões como se fosse mágica. Ao recuperar a visão, viu o velho esquisito muito próximo, invadindo seu espaço pessoal e... Seus lábios. O loiro teve que piscar várias vezes para entender o que estava acontecendo... Aquele homem estava o... Beijando? Fez uma expressão de desgosto e empurrou o outro, olhando indignado para a cara de tacho dele. Quem diabos ele achava que era para sair beijando as pessoas que nem conhecia assim? O loiro não reparou, mas sua tosse havia parado e estava conseguindo respirar normalmente outra vez.
