De: Beatriz Alvares e Mariana Gurgel.

Ela ouvia vários sons, por toda parte, em todo lugar, lugares diferentes, tão diferentes de seu lar. Diferentes como os sons, sons que ela nunca ouviu, de lugares e coisas que ela nunca viu.

Um tic de tranca de uma mala (ela nunca tinha viajado, nunca tinha saído de sua cidade, claro que não tinha). O apito agudo de um trem. O som de passos apressados. O som de um motor de um carro.

Sons em toda parte, sons que anunciavam mudanças, como a maré do mar que sempre estava em movimento, nunca a mesma de antes.

E ela estava a quilômetros do mar.

Mais precisamente, agora, ela estava em uma estrada cercada por terra seca, plantas sedentas por água, e muita poeira. Havia meses que aquela terra não via chuva. Apenas sol, calor e mais calor.

Um lugar muito diferente de seu lar, sim. E com certeza não o lugar ideal para ela.

E ela não sabia ainda, mas não muito longe, estava a fazenda que seria agora seu lar. Naquela fazenda fica uma casa antiga que pertence a senhora Catarine, onde ela abrigava crianças órfãs que não tinham onde se abrigar fazia mais de dez anos.

E nessa fazenda vive Pedro, um dos órfãos. Pedro está a apenas um ano de distância de sua liberdade, pois ao completar dezoito anos poderá finalmente deixar aquele lugar, seguir sua vida, arranjar um emprego, talvez viajar pelo mundo. O que ele iria fazer era incerto, mas tinha certeza que nada o impediria de seguir seus sonhos.

Mas enquanto esse dia não chegava, ele permanecia em seu quarto, como sempre fazia nas tardes tediosas e calorentas daquele lugar, fazendo o que mais gostava: desenhar. E estava tão concentrado em sua arte que nem percebeu o amigo, Bernardo, abrir a porta e se aproximar dele. Por isso, ele se assusta quando sente uma mão em seu ombro.

— Cara! Você se assusta muito fácil. — Bernardo diz rindo.

— Se você não fosse meu melhor amigo, meteria um murro em sua cara! — Pedro responde com a cara fechada.

— E como sou seu amigo, tenho a obrigação de te tirar desse quarto para descermos para a recepção do novo, ou nova, integrante deste inferno! — Bernardo diz.

— Você só completa dezoito mês que vem, Catarine deveria esperar até colocar outro desabrigado aqui! — reclama o outro garoto.

— Você só tá com raiva porque estou indo em bora, mas a amizade não vai acabar, cara! — Bernardo diz enquanto Pedro guarda seu caderno de desenho debaixo do travesseiro.

— Tô cansado desse lugar! — diz Pedro.

— Se anime, talvez seja uma garota dessa vez!

— Se for igual as Frescuretes, muito obrigado mas vou recusar.

— Tudo bem, você já tá me estressando, levanta agora essa bunda daí!

Bufando, Pedro sai do quarto e desce com Bernardo as escadas até o térreo, para então saírem na varanda em frente a casa onde todos já estavam reunidos. O grupinho das Frescuretes estava reunido na escada, onde as garotas estavam sentadas e sussurrando umas com as outras. Os garotos estavam apoiados na balaustrada, jogando pedras para ver quem causava mais poeira na terra laranja. E a dona da casa, Catarine, estava ao pé da escada, a postura ereta como sempre.

O grupo das Frescuretes é formado pelas quatro garotas do orfanato: Esme, Fabiana, Lídia e Lúcia. Esme tem 9 anos e é a mais nova, tem o cabelo castanho escuro cacheado, pele morena e olhos castanhos quase pretos. Fabiana era um pouco mais velha que Esme, apenas três anos a mais, e tem a pele parda, cabelo preto liso e olhos azuis acinzentados tão penetrantes que assustavam Pedro. E por último as gêmeas Lídia e Lúcia, as mais velhas entre as garotas, com 16 anos. As duas são idênticas, com a pele clara, cabelo cheio de cachos loiros e olhos verdes.

Bernardo as chamava de Cachinhos Dourados 1 e 2.

O resto dos órfãos eram garotos. Apesar de Pedro e Bernardo terem ambos 17 anos, Bernardo toma a dianteira por ter nascido seis meses antes do amigo. Mas mesmo não sendo o mais velho, Pedro se achava, em sua própria opinião, o mais esperto dali. Pedro é alto, com cabelo preto e bem cheio, moreno e de olhos negros como a noite. Bernardo não ficava muito rápido trás em comparação a altura do amigo, e tem o cabelo loiro da cor da areia, que combinam com seus olhos da cor de caramelo. Os outros dois garotos são Eddie e Bill, com respectivos 7 e 8 anos de idade. Eles são os mais jovens, mas também os que mais aprontam. Eddie é baixo, tem cabelo castanho, olho esverdeados e pele parda. Bill é um pouco mais alto, tem o cabelo raspado e também tem os olhos esverdeados e tem a pele bem mais bronzeada.

Já Catarine é alta, e ela sempre mantem o cabelo negro e um coque bem alto, na tentativa de esconder os fios grisalhos. E mesmo com todos esses anos vivem ali de baixo do sol, ela é pálida como um cadáver. Seus olhos azuis frios só adicionam a essa imagem.

Pedro repara que dona Catarina não parava de olhar para o relógio em seu pulso.

— Onde está aquele imprestável? — ela murmura.

— Doma Catarine, pode nos dizer se quem estava vindo morar aqui é uma garota dessa vez?

— Não seja curioso Bernardo. Logo saberá!

— Espero que seja, não aguento mais garotos de mente infantil! — diz Lúcia com o nariz torcido.

— E nós não aguentamos mais garotas magricela de narizes empinados!

— Calados seus moleques! Eles estão chegando. — Catarine repreende, e então murmura — Finalmente.

Não muito longe se via na estrada a caminhonete velha de Jonney, o único empregado de Catarine. Ao estacionar na frente da casa, o carro levanta uma nuvem de poeira que cobre impede a visão de todos. Eles ouvem o som de duas portas rangendo ao abrir e o som das duas batidas ao serem fechadas de novo. Lentamente a poeira abaixa, revelando Jonney e uma garota. Bernardo ouve Lídia dizer "eu disse!" para a irmã, mas ele não dá atenção.

A garota nova não era comum — pelo menos não sua aparência. Ela era a garota mais bela que Pedro já viu. E mesmo ali naquele deserto de lugar, ela parecia ter saído de uma pintura.

Sua pele é branca como uma folha de papel, seu cabelo longo e ondulado de um tom de castanho claro, cai sobre seus ombros como uma cascata, emoldurando seu delicado rosto. Seus olhos são uma mistura de azul e verde e olhavam com curiosidade por toda a fachada da casa, até recair sobre eles.

Rabugento como sempre Jonney pega a mala da garota da parte de trás da caminhonete e a entrega para ela com grosseria, tirando a atenção dela de nós.

Abobados mais do que nunca, os meninos a encaravam como se ela fosse um anjo caído do céu.

Por outro lado, as meninas olham com ar de julgamento, tentando descobrir se ganhariam uma amiga ou inimiga.

Já dona Catarine, olhava para Jonney com raiva.

— Por que demorou tanto?! — ela pergunta.

— Já disse para a senhora, a caminhonete está precisando de reparo, e se a senhora não quer pagar, o jeito é ir de vagar.

— Não podemos gastar dinheiro com isso, seu idiota! — ela diz e se vira para as crianças — Agora, para informação de todos vocês, está é Romelle. Ela é muda, mas espero que a tratem normalmente!

Todos acenam com a cabeça em concordância.

— Você dormirá no quarto das gêmeas, querida. Espero que não tenha nenhum problema. — dona Catarina diz, olhando entre as gêmeas e Romelle, com um olhar que garantia, com certeza, que não havia problema algum.

Então Eddie e Bill descem a pequena escada da varanda tropeçando um no outro, e se eles estivessem em um desenho animado, teriam estrelas nos olhos, tanta era a admiração pela nova garota.

— Deixa que eu leve isso pro seu quarto! — diz Eddie, sorrindo.

— Não, deixa que eu levo! — fala Bill, empurrando o outro para o lado.

Bernardo também desce a escada e segura os dois pelas golas de suas blusas.

— É melhor não deixar seus pertences nas mãos desses dois pirralhos, senhorita. Eles vão acabar estragando tudo.

— Ei! — é a resposta indignada dos dois mais jovens.

— Meninos! Deixem de gracinha. — repreende dona Catarine — Pedro, venha aqui.

Os dois pequenos lançam um olhar irritado para Pedro, que apenas sorri para eles.

— Já que você é o único maduro aqui, leve as coisas de Romelle para o quarto e aproveite para mostrar a casa.

Pedro estende a mão na direção de Romelle, que sorri e entrega a mala para ele. Ele, já com estrelas nos olhos, consegue apenas sorrir de volta. Temia que se abrisse a boca dissesse alguma besteira e acabasse com a primeira impressão que ela teria dele. Indicando a porta com acabeça, Pedro guia a novata, enquanto dona Catarina manda os outros procurarem mais o que fazer.

O olhar sonhador da garota corria tranquilamente pela casa, como se aquele lugar fosse algum tipo de reino mágico que ela nunca havia imaginado existir. É isso fez Pedro imaginar o que ela via de tão especial naquela casa velha. Ele a achava meio estranha, mas não era cego: tinha que admitir que era muito bela e meiga, mesmo que não falasse nada.

— Bom, aqui é a sala de estar. — Pedro diz esticando os braços para indicar ao redor da sala.

— Temos até TV com cor! Esse é um dos únicos benefícios que a megera nós dá.

O olhar curioso de Romelle sai da TV para Pedro, como se o que ele dissesse fosse a coisa mais incrível do mundo. A garota não desvia o olhar, olhando para Pedro com aqueles olhos intensos, e isso deixa ele um pouco incomodado, então ele tenta ignorar isso e continua o tour.

Seguindo para cozinha, ela continuou a admirá-lo, apenas desviando o olhar quando alguma outra coisa chamava sua atenção, e assim foi durante todo o percurso pela casa, até chegarem no quarto em que ela permaneceria. Romelle olha através da janela, observando a a parte de trás da fazenda onde havia um celeiro.

— Você quer ir lá? — Pedro pergunta.

Romelle olha para Pedro sorrindo e acena com a cabeça. Pedro não entendia todo esse interesse, mas a leva até lá mesmo assim. O lugar não era nada de mais, apenas uma velha construção com cinco cercados para cavalos (dos quais apenas dois eram ocupados), uma grande pilha e feno, e mais escondido no canto um grande tonel que estava vazio. Romelle se aproxima deste último é o examina com curiosidade.

— Esse tonel era para da guardar água pros animais que tínhamos antes, mas com a crise da seca Catarine não pôde manter todos, e por isso sobraram apenas esses dois cavalos.

Romelle acena com a cabeça, e se vira para sair do celeiro, Pedro a seguindo. Do lado de fora, ela fixa o olhar no horizonte, e pela primeira vez, Pedro vê tristeza no olhar da garota.

— O que foi? — ele pergunta.

O olhar que ela lhe lançou era tão profundo, que por um momento Pedro pensou que ela iria falar algo. Mas seu olha triste recai novamente sobre o horizonte. Ao vê-la assim Pedro se sentia mal. Acabara de conhecer Romelle, mas sentia uma necessidade de tirar aquele olhar triste de seu rosto.

— Você gostaria de ver um coisa? — ele pergunta.

Ainda tristonha ela acena com a cabeça, e eles voltampara dentro da casa, seguindo até o quarto de Pedro (e Bernardo). Ele vai até sua cama e retira de debaixo dela um caderno e o entrega para Romelle.

Ela o encara por uma instantes curiosa, e então o abre, e se maravilha com desenhos ali. Ela observa um belo pássaro vermelho, um Leão, e uma enorme árvore de raízes aquáticas. Era tão belo que ela se senta na cama e fica ali admirando a arte de Pedro.

— Não são muito bons, mas dá pro gasto. Você gostou deste? Se quiser pode ficar.

O tão esperado sorriso nasce novamente no rosto dela. Pedro conta para a garota sobre os desenhos, e eles ficam ali por mais algum tempo. E mesmo que não falasse, seus olhos brilhavam e Pedro se sentia bem por ter alguém que realmente se interessava por seus desenhos.

A noite já havia caído e os dois permaneciam no quarto, e isso logo começou a incomodar Catarine, e ela logo estava na porta do quarto mandando os dois descerem para o jantar. Ao chegarem na sala de jantar a mesa já estava posta e os outros já estavam sentados. Bernardo esfrega as mãos ansioso.

— Maravilha, o que teremos hoje? — pergunta Bernardo quando Pedro se senta ao seu lado.

— Muito engraçado. — Pedro diz revirando os olhos — Você sabe muito bem que o jantar vai ser o mesmo de sempre.

— Só achei que com nossa nova amiga aqui teríamos algo diferente! — responde o outro, jogando as mãos para o ar, tentando expressar o quanto estava decepcionado só com o olhar.

Nesse momento Catarine chega com uma panela cheia de um líquido alaranjado. O sorriso de Bernardo cai.

— Se hoje fosse meu último dia nesta terra, e essa fosse minha última refeição... — Bernardo faz uma cara emocionada, quase constipada e continua a dizer - Então que minhas últimas palavras sejam: EBA, SOPA DE NOVO!

Romelle se senta ao lado de Pedro, mas durante todo o jantar não tocou no na comida uma vez se quer. Ela apenas encarava o prato com certo pavor nos olhos, e isso chamou atenção de todos na mesa, incluindo a de Catarine.

— Coma menina, o que está esperando? — a mulher diz em um tom exasperado.

Romelle não se moveu continuou a encarar o prato.

— Ei? Eu disse para comer!

— Não precisa gritar com ela, talvez não esteja com fome! — Pedro diz.

— Não estou gritando Pedro! — Catarine diz, e então se vira para Romelle — E se realmente não quer comer menina, então já pode ir se deitar!

De cabeça baixa Romelle se retira, mas Pedro pode ver a expressão abatida da garota. Aquela situação toda foi muito estranha. O que perturbou tanto Romelle ao ponto de que impedisse que ela tomasse a sopa? Tudo bem que a sopa frutos do mar de Catarine não é a melhor coisa do mundo, mas dá para comer.

Pedro pensa sobre aquilo o jantar inteiro. Talvez a garota fosse alérgica? Ou talvez tivesse alguma história envolvendo frutos do mar que trazia memórias tristes para a garota? Talvez algo sobre a família dela? Ou então ela simplesmente não gostava de frutos do mar? Mas isso não explicava a expressão de pavor de Romelle.

Quando todos se retiravam da mesa, Bernardo se aproxima dele, tão inquieto sobre o assunto quanto o próprio Pedro.

— Cara! Essa garota nova é muito bonita, mas é um pouco maluquinha! — diz Bernardo quando os dois faziam o caminho para o quarto que dividiam.

— O que está falando? — Pedro pergunta.

Bernardo olha incrédulo para Pedro.

— A qual é!? Não vai me disser que não achou ela um pouco doida?

— Ela é um pouco estranha sim, talvez, mas só por que não comeu a sopa horrível de Catarine não significa que ela é doida! — Pedro diz, sentindo uma necessidade estranha de defender a garota.

Bernardo lança um olhar de pena para Pedro, e coloca uma mão no ombro do amigo, balançando a cabeça com tristeza.

— Ah, meu amigo. A paixão realmente te cega, não é mesmo? — Bernardo diz.

Pedro sente sua bochechas aquecerem, e pela risada de Bernardo ele sabe que elas estavam vermelhas como um tomate.

— Cala boca idiota! Podem estar ouvindo. — Pedro diz tentando socar o amigo, mas ele devia com facilidade e corre para entrar no quarto, abrindo a porta num supetão e fazendo uma voz mais aguda ele imita Pedro.

— Cala boca idiota! Podem estar ouvindo. — Bernardo diz fazendo gestos com as mãos que só faziam sentido para ele.

Só faltava Bernardo cair no chão de tanto rir. Pedro não tem escolha se não seguir o amigo para dentro do quarto e fechar a porta na esperança de que Catarine não ouvisse nada.

- Ah! Eu não posso acreditar, Pedro a pedra finalmente foi amolecido! Só espero que isso tudo não tire sua cabeça do lugar, se não você estará cometendo o maior erro de sua vida, meu caro amigo! — Bernardo diz, mais uma vez colocando uma mão no ombro de Pedro, só que dessa vez para se equilibrar depois de sua crise de risos.

Pedro o empurra, e encara o amigo. Sua paciência para lidar com essa situação já havia acabado.

— Faça-me um favor caro amigo, sim? Cale a boca e vá dormir! — Pedro diz encarando Bernardo, e naquele momento, se olhares pudessem matar, Bernardo já estaria a sete palmos de baixo da terra.

Inalterado pelo humor do amigo, Bernardo sorri como se não tivesse problema algum no mundo, e se joga em sua cama.

— Tá bem! Mas não vá beijar o travesseiro quando estiver sonhado com ela!

Neste instante Pedro pega seu travesseiro e o arremessa em Bernardo, que desvia com facilidade, ainda rindo.

Horas depois, enquanto Bernardo dormia como uma pedra, Pedro ainda estava acordado, pensado em Romelle. Ele estava deitado olhando para o teto, contemplando seus sentimentos e falhando em obter algum sentido deles, quando ele ouve um barulho vindo do corredor.

Como ele não conseguiria dormir tão cedo, ele decide ir investigar, quando abre a porta se surpreende ao ver Romelle, vestida com uma camisola longa e branca, segurando uma vela em uma mão e na outra um balde cheio de água, e uma toalha. Ela continua caminhando até sumir de vista, e se Pedro não soubesse melhor, ele acharia que ele havia acabado de ver um fantasma.

Pedro sabia que ele não devia seguir a garota. Ele provavelmente acabaria encrencado, e ele não queria enfrentar a fúria de Catarine logo de manhã. Mas mesmo assim, ele a seguiu. Seguiu Romelle como uma sombra, tentando ser invisível e não fazer som algum.

A garota não pareceu perceber a presença dele, e Pedro se sentiu culpado por estar espionando ela assim. Ele deveria voltar. Dê meia volta agora, Pedro. Volte. Agora.

E Pedro estava quase ouvindo a voz de sua consciência quando Romelle sai pela porta dos fundos da cozinha, e vai em direção ao celeiro. Ele paro na porta por um momento, apenas a acompanhado com o olhar. Ele realmente não queria se intrometer na vida dela. Ela era legal, com certeza não estaria fazendo nada de errado, certo? Mas as palavras que Bernardo havia dito mais cedo ressoam em sua cabeça.

Pedro não estava apaixonado, e não iria deixar que um rostinho bonito o enganasse. Ele não sabia nada da garota, e nessas condições, nesse contexto, Pedro não conseguia imaginar um cenário em que tudo isso não fosse suspeito. O que a garota nova estaria fazendo indo para o celeiro no meio da madrugada com um balde cheio de água e uma toalha?

(e, ok, Pedro conseguia imaginar que talvez ela estivesse indo lá para se banhar, mas isso fazia com que suas bochechas ficassem ainda mais vermelhas, e não, não deixava de suspeito)

Com a mente decidida, Pedro corre até o celeiro. Ele estava decido em descobrir o que a garota escondia, pelo bem de todos. Ela podia ser uma assassina, sabe se lá! Ele tinha que descobrir.

Pedro abre lentamente a porta para fazer o mínimo de barulho e assim que seus olhos recaíram sobre a cena diante dele, ele não acreditou no que via. Romelle estava sentada em um grande toco de madeira velho, molhando o que deveriam ser pernas, mas que no lugar estava uma longa e belíssima cauda de sereia, da cor de uma esmeralda.

Esquecendo totalmente de fazer silêncio, Pedro solta um grito meio estrangulado, e assusta Romelle, que fica paralisada e ainda mais pálida.

— Pe... Pe...dro! — ela fala com uma voz tão fraca que o garoto chega a pensar que ele apenas imaginou a palavra.

(talvez ele esteja imaginando tudo isso, talvez ele ainda esteja no seu quarto sonhando)

— Você é uma sereia!? — Pedro exclama, e tampa a boca assim que percebe o quão alto aquilo foi e que ele poderia chamar a atenção dos outros — E... e você fala?

— Por favor! Não fale tão alto! — Romelle implora olhando nervosa para a porta ainda meio aberta.

Pedro apenas caminha até ela, ainda meio inseguro, confuso e abobado pela beleza da criatura diante dele.

— Isso é incrível! — ele diz num tom mais ameno — Mas como isso é possível?

Pedro se ajoelha ao lado dela, admirando a cauda. Ele percebe que ela se afasta dele, com medo.

— Se... se você falar mais baixo eu... eu e-explico.

— Desculpe, é que isso...

Romelle tampou a boca de Pedro com a mão para que ele parasse de tagarelar.

— Sou uma sereia, sim, e vim para terra dos humanos faz alguns anos para conhecer a cultura que sempre me fascinou. As danças, as músicas, as pessoas... — ela olha para Pedro com os olhos brilhando, e um sorriso tímido. Pedro sentiu naquele momento, aquele aperto no coração dele. Ele sentiu aquele sentimento de antes se expandir, e ele sabia...

Ah, ele realmente estava apaixonado.

Droga.

— Mas como veio parar aqui? Pelo jeito que fala, você queria conhecer as coisas boas da... da cultura da terra – uh, é tão estranho dizer isso – e aqui não tem nada disso. Muito pelo contrário. Não tem nada de Belo aqui.

A não ser por você. Ele pensa, mas é claro que ele não diz isso em voz alta.

A expressão de Romelle se entristece um pouco.

— Eu era muito cautelosa, sempre voltava para casa, o mar, depois de explorar por algumas horas. Mas minha curiosidade era cada vez maior, então cada vez mais fui me afastando do mar até que estava muito longe e não pude mais voltar. Me mantenho escondida de todos, e finjo ser muda por ter medo que me obriguem a revelar quem sou, o que eu sou.

— E por que está se molhando se tem que esconder?

— Eu não sobrevivo muito tempo sem água. — Romelle explica, e Pedro devia ter imaginado isso.

— E qualquer líquido te transforma?

— Sim.

— Por isso não jantou hoje? Por medo de se molhar com a sopa? Mas isso não é meio estúpido? Se você derramar só um pouco não pode ser tão ruim assim, não é? — o olhar que Romelle lança em sua direção é resposta o suficiente — Uh, tudo bem, desculpe. Mas continuar assim você não vai aguentar, precisa comer.

— Estou ciente disso, mas já aceitei meu destino, esse é meu castigo por ter me afastado do mar.

Pedro teria discutido isso, mas a expressão e o tom de Romelle não deixava espaço para discussão. Então ele escolhe mudar de assunto.

— Mal consigo acreditar que isso é verdade, sereias existem!

Romelle olha pare ele séria.

— Pedro, tem que me prometer que não irá contar para ninguém!

— Eu prometo. — ele diz sem hesitar, e Romelle olha para ele em dúvida.

— Estou confiando em sua palavra. — ela diz finalmente.

— Mas como você volta... Volta a ter pernas?

Romelle sorri e pega a toalha ao seu lado e começa a secar a cauda, e aos poucos suas escamas iam de contraindo e em instantes ali estavam suas pernas.

Para Romelle, Pedro parecia um peixe com os olhos esbugalhados e a boca se abrindo e fechando, como se quisesse dizer algo mas não conseguisse. Romelle tinha que admitir que era fofo, e que a alegrava poder finalmente falar com alguém.

Os dois acabam conversaram por muito tempo depois disso, mas chega um ponto da noite em que ambos estavam quase desmaiando de sono, e eles voltam para seus respectivos quartos o mais silenciosamente possível.

No dia seguinte, Pedro foi cercado pelos outros garotos quando estava sentado debaixo da sombra da maior árvore da fazenda, enquanto desenhava.

— Pedrinho, Pedrinho nos conte seu segredo, como conseguiu a garota perfeita?

— Eu não consegui nada Eddy! — Pedro responde de cara fechada.

— A qual é! Ela é a mais linda de todas aqui e ainda é muda. Como conseguiu que ela ficasse caidinha por você? — Pergunta um outro garoto.

— Não sei de onde tirou essa ideia idiota. — Pedro responde, olhando feio para cada um deles.

— É simples, ela não tira os olhos de você o dia inteiro!

Todos os rapazes – incluindo Pedro – olham na direção da varanda onde as garotas estavam reunidas conversando, e ao ver Pedro olhar para ela, Romelle sorri e acena para ele. Pedro pode sentir suas bochechas ficarem vermelhas, e sente também os olhares acusadores dos outros garotos.

Mas o que o grupo de garotos não sabia era que Romelle só estava tão focada em Pedro porque ela queria garantir que ele não contasse o segredo dela.

Ela tinha sido cautelosa por todo esse tempo, como pôde deixar isso acontecer? Será que foi uma boa ideia ter contado tudo á ele? Pedro cumpriria a promessa? Mas ela não tinha escolha agora, ele já a tinha visto em sua forma natural, então o que lhe restava era confiar nele.

Mas isso não queria dizer que ela não iria ficar na cola dele o dia inteiro, pronta para interferir caso ele tentasse dizer um a sobre ela.

Então ali estava ela, acenando para o garoto a quem havia confiado seu grande segredo, sentada na sombra da varanda da casa junto com as outras garotas.

— Romelle? — alguém a chama, a tirando de seu devaneio — Onde está com essa sua cabecinha, ein? No mundo da lua?

— Não acha que ela vai responder, não é Fabiana? — diz outra garota, sem ao menos olha na direção de Romelle.

— Eu sei que ela não pode falar, Lucy! Só queria saber por que ela não para de olhar Pedro.

— Ora, não se faça de tonta, está na cara que se gostam.

Para Romelle era estranho ver as duas garotas conversarem sobre ela come se ela nem estivesse presente, e ela achava isso muita falta de educação. E mais, ela não queria que aquelas garotas criassem intrigas sobre ela ou Pedro. Oras, que ideia mais ridícula! Romelle não gostava de Pedro, e Pedro com certeza não gostava de Romelle. Ela não conhecia o garoto! E por mais bonito e charmoso Pedro fosse, por mais que Romelle sentisse que pudesse confiar em Pedro, ela não gostava dele. Não do jeito que aquelas garotas estavam insinuado.

E mesmo negando com a cabeça – porque não, Romelle com certeza não gostava de Pedro – as duas garotas a ignoraram e mudaram de assunto.

Depois, naquela tarde, quando Romelle estava em seu quarto admirando o horizonte pela janela (ela não cansava de se surpreender como um lugar poderia ser tão seco, tão diferente de seu lar), Pedro surge eufórico, sorrindo como se tivesse acabado de achar um grande tesouro.

Ele confere se não havia ninguém no corredor ouvindo e se aproxima dela.

— Romelle, você pode me encontrar no celeiro depois que todos estiverem dormindo? Apenas acene com a cabeça se sim ou não.

Mesmo um pouco insegura ela concorda, e passa o resto da tarde pensando no que Pedro pretendia com aquilo.

No jantar Romelle teve mais uma complicação.

— Qual é o problema agora menina? Coma logo! — Catarine manda, lançando mais um olhar irritado para a garota.

— Deixe-a em paz! Não pode obriga-la a comer!

Catarine olha para Pedro com fúria nos olhos.

— Não grite comigo garoto!

— Ele não fez nada, Catarine! — Bernardo tenta ajudar o amigo, mas Catarine não estava com paciência.

— Não o defenda, Bernardo! Os três ficarão sem jantar, vão se deitar, agora!

Os três olham espantados para Catarine, mas não tem nenhuma outra opção a não ser se levantar da mesa.

Tudo isso só fez Romelle se sentir culpada. Agora além de ficar sem comer, ela também havia feito duas outras pessoas passar o resto da noite com fome.

E a sua ansiedade só aumentava a cada segundo que se passava e a hora dela se encontrar com Pedro chegava.

Quando já era hora, ela se levanta com cautela e desce até os fundos da casa. Quando chega no celeiro, ela se depara com Pedro parado de pé e segurando uma trouxa.

— O que você precisa falar de tão importante comigo? — ela pergunta.

— Olha... sei que não deve confiar muito em mim, mas você é pessoa mais incrível que eu já conheci! Eu quero o seu bem, então quero te ajudar...

— Pedro, você não precisa.

— ...Mas eu quero te ver bem, é importante pra mim.

— E como você me ajudaria? — ela pergunta se aproximando.

Pedro abre um sorriso enorme e aponta para o tonel atrás dele.

— Com isso!

Romelle não havia notado até Pedro lhe mostrar, mas o tonel que até ontem estava tão seco quanto lá fora, agora estava cheio de água. Ao vê-lo Romelle sente um aperto no coração tão forte, que ela não consegue conter um grunhido.

A água lhe chamava.

Mas Pedro ainda não tinha terminado, pois ele se ajoelha no chão ao lado do tonel e coloca a trouxa no chão para poder colocar as mãos na água.

— E é água salgada! Eu também coloquei sal para se parecer mais com mar! — ele diz entusiasmado.

— Eu... eu nem sei o que dizer. — Romelle fala, porque era essa a verdade. Ela não esperava que o garoto fosse tão longe só para ajudar ela.

— Não precisa dizer nada! Ah! E eu trouxe comida também, direto do estoque secreto de Catarine! — ele diz abrindo a trouxa no chão. Ele pega um biscoito e entrega para Romelle.

A garota aceita, e por um breve momento suas mãos se tocam, e isso foi o bastante para lançar faíscas por todo seu corpo.

Romelle retrai sua mão rapidamente, e come o biscoito numa só mordida. Ela decide não pensar muito no caso, e decide aproveitar o pouco tempo que tem na água.

Para a surpresa de Pedro, ela começa a se despir ali mesmo, na frente dele. O garoto faz um som estrangulado e rapidamente se vira na direção contrária.

Ele ouve o som da água quando Romelle entra no tonel, e ele limpa a garganta.

— Eu vou deixar você mais a vontade. — ele diz indo embora.

— Não vá!

Pedro se vira, surpreso e acanhado, mas por sorte os longos cabelos de Romelle cobriam seus seios.

— Tem certeza que me quer aqui?

— Claro, não vou conseguir comer tudo isso sozinha! — a garota diz com um sorriso.

Pedro fica feliz de ouvir isso, já que lá no fundo ele queria ficar ali com ela. Poder conhecer Romelle mais.

E foi assim que se seguiram as noites para os dois. Noite pós noite eles se encontravam no celeiro, e com o passar dos dias acabaram se conhecendo melhor, e uma forte amizade crescia, e por mais que os dois negassem, um sentimento novo também nascia ali.

Mas esses encontros constantes levantavam suspeitas.

Fabiana, que já estava incomodada pelo fato dos dois estarem sempre juntos, uma noite decidiu ficar a espreita de Romelle, e ao vê-la sair escondida a seguiu.

Naquela noite Pedro havia pedido que Romelle comece antes de entrar no tonel, pois tinha uma surpresa para ela. Então quando estavam sentados sobre o feno, comendo um pão com recheio de mussarela, Pedro pegou seu caderno de desenho e arrancou uma página, que ele entregou para a garota.

— Pra você!

Romelle ficou tão maravilhada que mal conseguiu falar. Era um desenho seu em sua forma se de sereia, e ela estava sentada na beirada de uma janela, contemplando as estrelas.

— É tão lindo, é como você me vê? — ela pergunta num sussurro.

— Não, você é mais bela que isso. — Pedro diz sorrindo — Eu não consigo captar toda a sua beleza só em um desenho.

Levantando o olhar até encontrar o dele, Romelle sentia um grande frio na barriga, mas era uma sessão boa.

Mas algo os interrompe, e Fabiana bate na porta freneticamente. Os dois se levantam de um pulo.

— Abram essa porta agora!

— O que vamos fazer?

— Fique tranquila, você não está transformada então não há motivo pra temer!

— Eu sei que estão aí, abram logo!

Pedro se endireita e abre a porta, e como um furacão, Fabiana entra.

— Eu sabia! Sabia que os dois estavam escondidos aqui! E... estão roubando!?

Fabiana grita ao ver a comida, e Romelle e Pedro se entreolham.

— Estão roubando do estoque! Catarine vai ficar sabendo disso!

— Fabiana, nos podemos explicar...

— Nem tente Pedro, estou indo contar a ela agora!

Fabiana sai batendo os pés, deixando Pedro e Romelle para trás sem reação. Não demorou muito e Catarine chegou ao celeiro com Fabiana atrás, claramente enfurecida.

— Não disse, senhora!? Estão roubando de você!

Catarine não fala nada, e apenas olha a comida por uns instantes. Então ela volta seu olhar frio para Pedro.

— Catarine eu...

O estalo do tapa que Catarine dá em Pedro foi tão inesperado que Romelle tem que cobrir a boca para abafar qualquer som de surpresa que pudesse sair. Fabiana, ainda na porta, sorri.

— DONA Catarine! — a mulher corrige — Você vai me chamar de dona Catarine, pois eu sou sua dona e você me deve respeito, seu verme!

Pedro a olha com puro ódio nos olhos.

Catarine então se vira para Romelle.

— E você, sua miserável, achou que podia roubar de mim, mas vai descobrir que isso tem um preço caro!

— O que a senhora vai fazer com eles? — Fabiana pergunta, e Catarine parece ter esquecido que ela estava lá.

Ela olha para Fabiana como quem olha para uma formiga em que acabou de pisar.

— Não é de sua conta! Mas por hora os dois ficarão trancados em seus quartos sem poder sair, nem para comer, já que andam se alimentando tão bem!

Todos os quatro voltam para dentro da casa, e Catarine cumpriu o que disse. Por dias eles ficaram trancados sem comida, e só recebiam um pouco de água para garantir que não desmaiassem ou morressem.

Mas quem levou o pior impacto foi Romelle, que não podia passar muito tempo sem água. Sua pele estava ressecada, e suas energias estavam se esgotando cada vez mais rápido.

Ela estava morrendo.

E mesmo que Pedro não pudesse ver ela, ele sabia disso. O garoto passava cada dia mais preocupado com Romelle, pois temia que o pior fosse acontecer. Ele tinha que libertá-la.

Na sexta noite de sua prisão, Bernardo entrou no quarto com uma expressão sombria, dizendo que Catarine estava ordenando que ele e Romelle descessem para jantar. Pedro agradece o amigo, que até tinha tentando ajudar Pedro a levar comida para Romelle, mas depois de quase ter sido pego, Pedro decidiu que não valia a pena arriscar que Bernardo fosse punido também.

Quando Pedro chegou a mesa, não suportou ver Romelle daquele jeito, estava tão fraca e abatida, tinha que ajudá-la imediatamente. Com um sorriso de vitória, Catarine se levanta de sua cadeira.

— Já é conhecido por todos o motivo da ausência dos nossos companheiros delinquentes! Mas hoje vou lhes oferecer um segunda chance, para se redimir e respeitar seus superiores daqui em diante!

Ninguém fala nada, todos mantinham as cabeças baixas.

— Pios bem, podem se servir!

Quando Catarine abriu a tampa da Penela e o cheiro se espalhou, era óbvio que a refeição mais uma vez era sopa de animais do mar.

A reação de Romelle ao ver a panela foi imediata. De início assombro, e em seguida nojo. Ela não se aguentou e saiu correndo.

— Romelle!? — Pedro chama e se levanta para ir atrás dela, mas Catarine o impede.

— Fique quieto aí Pedro! Não se atreva a levantar!

Encarando Catarine com ódio o jantar inteiro, Pedro não comeu. Quando foram mandados para cama, Pedro e foi o último a ir, e olhando pela janela da cozinha, ele viu que Catarine havia trancado com correntes a porta do celeiro.

Ele então foi para o quarto, e esperou todos pegarem no sono para começar a se preparar para o que estava planejando. Ele se levanta em silêncio e com cuidado para não acordar Bernardo. Ele pega a bolsa do amigo que estava pendurada na porta e sai do quarto, indo em direção ao quarto de Catarine.

A mulher dormia como pedra, mas mesmo assim ele tomou cuidado para não fazer barulho. Procurou o molho de chaves, que achou em cima da cômoda, e pegou todo o dinheiro dentro as carteira da mulher.

Ao sair do quarto foi direto para a dispensa, e encheu a mochila com o máximo de comida possível. Finalmente indo para o quarto de Romelle, que dormia virada para a janela. Caminhou silencioso até ela, e quando chegou ao pé da cama se abaixo e sacudiu Romelle de leve. Ela se vira lentamente e ao ver Pedro se espanta. Ele faz sinal para que ela ficasse quieta e viesse com ele, mas Romelle estava muito fraca e não estava aguentando andar sozinha, então Pedro a ajudou a escorar nele e assim desceram até os fundos e seguiram para o celeiro.

— O que está fazendo, Pedro? — Ela pergunta ao ver ele pegar o molho de chaves e destrancar o cadeado que segurava as correntes.

Ele abre a porta e a empurra para dentro com cuidado.

— Entre no tonel rápido!

— Mas e se alguém vier?

Pedro entra logo em seguida, e tranca a porta atrás de si.

— Ninguém virá, agora entre no tonel, que vou explicar tudo!

Mesmo com medo, ela não podia recusar, estava muito fraca. Ela precisava daquela água. Romelle se despe e entra no tonel, mergulhando até seu fundo, ficando assim por algum tempo. Ela volta a emergir já com uma aparência mais saudável.

Pedro se sente mais leve ao vê-la bem, mas ainda tinha que dizer a ela o motivo de tudo isso. Ele se ajoelha ao lado do tonel e segura a mão de Romelle com firmeza. Ela o olhava assutada.

— Você tem que me escutar com muita atenção e tem que me prometer que vai fazer exatamente o que eu mandar!

— Pedro...

— Você não pode mais ficar aqui, se ficar, morrerá! Eu peguei comida e dinheiro o suficiente para você chegar ao litoral! Quando sair daqui você vai pegar um dos cavalos e irá até a cidade mais próxima, onde embarcará em um trem que a leve de volta para casa!

— Não! — Romelle rapidamente nega.

— O que!?

— Eu não vou!

— Você está louca?! Você vai morrer se ficar aqui!

— Eu não me importo!

Pedro olha para ela espantado.

— Por que você quer ficar!? O que te prende!? O que!?

Se erguendo do tonel, Romelle se inclina, beijando Pedro repentinamente. Ele fica surpreso no início, mas logo se acalma e a envolve em seus braços, aprofundando o beijo. Quando finalmente se afastam, se olhara em silêncio por uns instante, mas Pedro então fala, parecendo mais nervoso do que nunca ao perceber que segurava uma garota pelada em seus braços.

— Bo... bom... talvez isso seja um bom motivo para não querer ir.

Romelle sorri feliz por seu amor ser retribuído, mas a alegria dura pouco, já que alguém começa a bater na porta do celeiro, tentando entrar.

Pedro se desespera. Ele tinha que esconder Romelle, não podia deixar verem ela em sua forma natural de sereia! Então ele procura por algo grande o suficiente para cobrir o tonel, e vê uma lona perto de um dos cavalos. Ele a pega e a joga sobre o tonel, e Romelle submerge na água..

— Não faça nenhum barulho! — ele pede a ela.

— Mas ela vai te machucar de novo! — Romelle sussurra de volta.

— Eu ficarei bem!

Pedro termina de cobrir o tonel a tempo, já que ao se virar para a porta do celeiro as correntes que seguravam a porta caem no chão quando alguém do lado de fora dá um tiro no cadeado.

Jonney entra segurando uma espingarda, e logo em seguida entra Catarine, e apenas pela sua expressão Pedro sabia que a estava atrás de sangue.

— Deixei Jonney de vigia caso você se atrevesse a voltar aqui depois que eu o proibi, mas sinceramente não achei que você séria tão idiota! — Catarine diz com veneno na voz — Você tem planos, não é? Quer fugir daqui, roubou minha comida e meu dinheiro! Onde está a garota!?

— Que garota? — Pedro pergunta.

— Você acha que eu sou estúpida? Jonney viu você e Romelle vir juntos pra cá, então nem tente fingir!

— Romelle não está aqui! — ele insiste na mentira.

— É o que veremos! Jonney, procure ela em cada canto desce celeiro!

O nervosismo de Pedro aumentava cada vez mais, mas ele tinha que se controlar, tinha que acrediar que não a achariam. Jonney já havia olhado cada canto, e quando se dirigia ao tonel, Pedro reagiu.

Ele sabia que era estúpido, mas eles não tinham chance, tinham? Jonney estava armado, e Catarine não deixaria barato.

— Espara! Dona Catarine você tem razão, eu roubei de você para que Romelle fugisse, e vimos Jonney indo te avisar que estávamos aqui, então mandei ela seguir sem mim. Romelle já está longe!

Catarine sorri para Pedro com deboche.

— Você acha que sou tola, não é? Jonney, descubra esse tonel!

— Não!

Pedro o bloqueia o caminho, e não o deixando passar. Catarine bufa e arrancou da mão de Jonney a espingarda, mirando em Pedro.

— Dona Catarine, o que está fazendo!? — pergunta o velho Jonney assustado com a repentina ação.

— Cale a boca, Jonney! Descubra agora esse tonel! E você, seu verme delinquente, não vai mexer um músculo se não quiser levar chumbo!

— Então atire! — Pedro diz, sem pensar.

— Não! — Romelle grita puxando a lona e se revelando.

Catarine e Jonney quase caem no chão de espanto.

— O que você é?! — Catarine exclama, e quase deixa a arma cair.

— Catarine, não machuque Pedro, ele só estava tentando me ajudar! — Romelle implora, tentando se colocar de pé no tonel, mesmo com sua cauda.

— Você podia falar esse tempo todo!?

— Sim!

Catarine olhava para cauda de Romelle com uma expressão louca, e ela parecia estar com os pensamentos a mil. Até que ela volta a se mover, e pega as roupas de Romelle no chão e as joga para a garota.

— Vista isso. E Jonney!

— Si...sim?!

— Tire ela daí e a leve para dentro de casa!

— O que a senhora vai fazer!? — o home pergunta, e Pedro faz menção de falar alguma coisa, mas Catarine o corta.

— Para o seu bem, Pedro, é melhor não abrir a boca! Agora vá andando!

Catarine o cutucava com a ponta da espingarda, fazendo ele seguir para a casa. Olhando por cima do ombro, Pedro viu Jonney carregando Romelle com dificuldade. Quando chegam na cozinha, Jonney não aguenta mais e deixa Romelle cair, e Pedro corre até ela.

— Romelle, você está bem!? Ele te machucou!?

— Estou bem. — a garota diz com uma careta.

— Bem, está noite está sendo bem surpreendente! — Catarine fala com falsa alegria.

— Senhora, o que vai fazer com ela?

Catarine caminhou calmamente até Romelle e se abaixou, lhe lançando um sorriso cruel.

— Eu acabo de descobrir o maior ser místico da terra... — ela diz acariciando o rosto assustado de Romelle. — Você, meu bem, vai me deixar rica!

— Não se atreva a encostar um dedo nela!

Pedro agarra o braço de Catarine com força, mas ela o golpeia com a espingarda, e Romelle grita ao ver a cena. Pedro cai para trás e seu nariz começa a sangrar. Catarine se levanta calmamente e aponta a espingarda para Pedro.

— Eu avisei para ficar calado!

Nesse momento os outros moradores da casa entram na cozinha com um estardalhaço.

— Que gritos são esses?!

— O que tá acontecendo gente?!

— Me deus o que é aquilo!?

Catarine vê aquilo como uma oportunidade.

— Já que todos levantaram, terei de esclarecer. Esse tempo todo estávamos abrigando esse demônio aquático em nossa casa! Mas não se preocupem, irei garantir que essa coisa seja eliminada de nossas vidas!

— Vo... você... não vai tocar nela! —Pedro diz e tenta se levantar, deixando manchas de sangue em todo canto.

— O demônio mexeu com a cabeça de Pedro e tentou atacá-lo, mas por sorte eu estava lá para impedir! — Catarine exclama apontando a espingarda para Romelle, que se encolhe de medo.

— Isso é mentira! — a garota tenta se defender, mas Catarine não deixa.

— Calada demônio!

O tapa que Catarine dá em Romelle ecoa por toda a cozinha, e as gêmeas soltam um grito em coro.

— Bernardo, leve Pedro para o quarto e certifique-se que ele fique lá! — Catarine ordena.

— Mas... — Bernardo parece incerto, olhando entre Romelle, a sereia, e Pedro, seu melhor amigo ensanguentado.

— Me obedeça! — Catarine grita, e todos na sala se assustam.

— Sim senhora. — Bernardo diz e começa a puxar Pedro, que não estava exatamente em condições de resistência.

— Jonney, me ajude a colocar essa coisa na caminhonete!

— Es... está bem!

Ainda desnorteado e apoiado em Bernardo, Pedro vê de relance Romelle ser levada para fora. Sua cabeça girava para todos os lados, e quando Pedro abriu os olhos de novo – quando ele os tinha fechado – ele estava no quarto, e ainda estava de noite.

Ele havia desmaiado.

Mas ainda estava escuro, e isso significava que ele não havia apagado por muito tempo.

Ele precisava ir atrás de Romelle.

Pedro corre para porta, mas a encontra trancada. Ele bate freneticamente na madeira.

— Abram essa portar! Por favor!

— Desculpe Pedro, mas Catarine nos deu ordem pra não deixá-lo sair! — ele ouve a voz de seu amigo do outro lado.

— Bernardo, por favor! Catarine está mentindo, ela vai matar Romelle!!

— Desculpe Pedro, mas isso é pro seu próprio bem!

— Não! POR FAVOR!

Em desesper Pedro procura outra solução no quarto. Ele corre até a janela, mas era muito alto alta para se pular. E então ele tem outra ideia.

Do outro lado da porta, Bernardo estava confuso. O que realmente estava acontecendo? Pedro estava falando a verdade?

Ele estava tão concentrado em seus próprios pensamentos que ele quase não ouve quando algo se quebra no quarto. Ele destrancar porta e entra, se deparando com a janela quebrada.

— Não acredito que ele pulou!

— Não, não pulei!

Pedro sai de detrás da porta e soca a cara de Bernardo, e ela vai pro chão.

Pedro corre para fora da casa, mas a caminhonete não estava mais lá. Então ele correu para o celeiro e montou em um dos cavalos de Catarine e galopou para fora do celeiro, galopando em alta velocidade na escuridão da noite.

Quando Bernardo, ainda um pouco desnorteado, finalmente consegue seguir o amigo para fora da casa, ele o vê sumindo na escuridão. Sentindo que não podia deixar Pedro sozinho nisso tudo – o que quer que isso tudo fosse – ele pega o segundo cavalo e o segue.

Não dava para ver quase nada na estrada, e Pedro já estava começando a perder a esperança de que ele conseguiria alcançar a caminhonete quando ele avistou duas luzes distantes. Ele forçou ainda mais o cavalo, não podendo se preocupar se estava ou não exaurindo o pobre animal. Ele reconhece a caminhonete e quando ele se aproxima mais, ele vê Romelle, já de volta a sua forma humana, acorrentada na traseira.

— Romelle! — ele grita.

Erguendo a cabeça incrédula, a garota sorri de alívio. Mas ela ainda tinha que se livrar das correntes, e como estavam enferrujadas, se ela as forçasse contra alguma coisa talvez conseguisse quebrar elas. Então usando a própria lataria da caminhonete ela começa a bater com toda a sua força os seus pulsos presos. A dor era enorme, mas com muito esforço ela conseguiu se libertar.

Infelizmente, o barulho chamou a atenção de Catarine, que viu Pedro através do retrovisor. Ela pisa no acelerador, mas a caminhonete não tinha muita potência. Mesmo assim, isso fez a distância entre eles aumentar um pouco.

Romelle tinha que tentar parar Catarine, e então ela pega as correntes e as usa para quebrar a janela traseira da cabine. Ela então usa as correntes para tentar enforcar a mulher, mas Catarine não desistia fácil, e Jonney estava logo ali do lado.

— Pare o carro! — Romelle grita.

— JONNEY, FAÇA ALGUMA COISA!! — Catarine grita.

— Senhora, a árvore! — Jonney grita.

O carro se choca com tudo na árvore, e com o impacto Catarine e Jonney voam para a frente da caminhonete. Romelle também é arremessada para frente, e ela se machuca com os estilhaços do vidro da janela quebrada. Mas além disso ela estava bem.

Um pouco desnorteada Romelle sai da traseira e caminha pela estrada, a procura de Pedro. Catarina desperta nesse momento, pega a espingarda e sai mancando da caminhonete.

Pedro surge mais uma vez em seu cavalo, e vê Catarine apontando a arma para as costas de Romelle. Ele grita mas é em vão. Catarine dispara, e o rosto de Romelle se contorce de dor, e ela colapsa no chão.

Pedro desce do cavalo e corre até Romelle, que voltava a sua forma natural. O sangue marchava a cauda da sereia, que gemia em agonia.

— Não, não, não!

— Pedro... — ela tenta dizer.

— Por favor não morra, você é a melhor coisa que me aconteceu!

— Pedro...eu te amo...

— Que lindo, o monstro pode amar! — Catarine diz se aproximando com dificuldade.

— Você atirou nela. Você é o monstro!!

— E vou atirar em você também! — Catarine ergue a espingarda.

— Não vai não!

Surgindo na escuridão, Bernardo cavalga direto para Catarine, a acertando em cheio. A surpresa faz com que Catarine não tenha tempo de desviar, e ela é atropelada pelo cavalo, e acaba sendo pisoteada. Ela cai no chão agonizando. Jonney decide sair da caminhonete nesse momento, e ao ver Catarine no chão ele se assusta. Catarine tenta rastejar até ele, mas com os ferimentos recém adquiridos, era quase impossível para ela.

— Jo... Jo... Jonney me aju... ajude!

Jonney a ignora. Ele desvia seu olhar para os três jovens no meio da estrada, e vai até eles.

Pedro chorava em desespero.

— Ela está perdendo muito sangue!

— Jonney! Quanto tempo leva pra chegar ao litoral mais próximo?!

— Eu diria que umas 14 horas. Mas se corremos talvez chegamos em 10! — o homem diz.

— Não sei se ela resiste todo esse tempo! — Pedro chora sem esperanças.

— Temos que tentar! — Jonney diz —Vão vocês dois, eu cuido dessa psicopata! Você sabe dirigir, não é Bernardo!?

— Sei o básico!

— Serve!

Então Pedro fica com Romelle na traseira da caminhonete, e durante o percurso todo ele a abraçava forte, estancado da melhor forma possível o ferimento com um pedaço de sua blusa, e ele não a deixava fechar os olhos. Pedro rezava para que chegassem a tempo, que ele não a perdesse. Ele não suportaria essa dor.

O sol já havia nascido fazia duas horas quando finalmente eles chegaram ao litoral. As ondas se quebravam na praia com força, como se sentissem a dor que Romelle sentia.

— Romelle veja! Você conseguiu, voltou pra casa!

Ela estava fraca e pálida, mas conseguiu sorrir.

Bernardo ajuda Pedro a descer com Romelle, mas Pedro insiste em levar ela até o mar sozinho. Pedro anda na areia até água cobrir boa parte de suas pernas. Ele a solta na água com cuidado, mas Romelle não deixa de se segurar nele. Ela abraça o pescoço dele com força.

— Eu tenho medo de nunca mais poder te ver!

— O importante agora é que você fique bem e volte pra casa!

As últimas lágrimas de Romelle escorrem pelo seu rosto, e ela se inclina e o beija com todo o seu amor. Ela já sentia duas forças voltarem, só de estar na água do mar de novo, mas mesmo assim o ferimento, a dor ainda eram demais. Ela precisava voltar. Ela tinha que continuar, não podia desistir agora.

Se ela não voltasse para casa, suas chances de ficar com Pedro seriam nulas.

— Eu sempre vou te amar!

Dito isso, Romelle sorri uma última vez para Pedro e mergulha no mar, sumindo em sua imensidão. Pedro contempla as ondas por muito tempo, até se sentir forte o bastante para poder voltar para a caminhonete. Bernardo tenta consolar o amigo, mas ele sabia que a dor de um coração partido não se esvai rápido.

Quando eles retornaram, perceberam que muita coisa havia acontecido, e ainda aconteceria.

Jonney havia chamado a emergência para Catarina, que é claro, conseguiu sobreviver. Ela apenas conseguiu um braço e uma perna quebradas, e vários pequenos machucados. Depois de passar meses internada, foi diagnosticada como doente mental, e altamente perigosa. Para a polícia, o que eles haviam dito foi que Bernardo atacou em legítima defesa – e isso não era longe da verdade – e ele foi inocentado de todas as acusações.

Jonney se tornou o novo proprietário da fazenda, e também o responsável pelas crianças. Foi uma boa surpresa quando todos descobriram que por debaixo de toda aquela atitude ranzinza, havia um bom coração.

Sobre os acontecimentos daquela noite, mais especificamente, sobre Romelle, todos haviam concordado em permanecer em silêncio.

Mas é claro, Romelle sempre ficaria em suas lembranças. Era impossível se esquecer algo assim.

E era ainda mais difícil para Pedro. Ele nunca conseguiria esquecer a garota, e ainda tinha esperanças de que algum dia, ele retornaria a encontra o amor de sua vida. Mas depois que Bernardo foi embora, ele não tinha com quem conversar. Ele tinha tantas dúvidas. Será que Romelle realmente conseguiu sobreviver? Ele tinha que acreditar que sim.

Seu último ano naquele lugar foi uma tortura, um inferno de incertezas e dúvidas. Não era como antes, quando Catarine governava. Era só que a dor dentro de seu peito era demais.

Quando finalmente completou seu seus dezoito anos, ele não fazia a menor ideia do que fazer ou aonde ir. Mas por sua sorte, uma surpresa veio ao seu encontro no dia de seu aniversário.

Bernardo voltou para seu antigo lar, dizendo que não podia deixar seu melhor amigo sozinho num momento desses. Ele usava um paletó feito sob medida, e parecia feliz. Pedro sorriu ao ver o amigo tão bem. E ele também tinha um carro!

Pedro se questionava, tentando pensar com o que exatamente Bernardo trabalhava para poder bancar tudo isso, mas ele decidiu que seria melhor não se preocupar. Bernardo era extremamente inteligente, por mais que não demonstrasse muito. Ele com certeza havia se dado bem na cidade grande.

E também, ele não conseguia pensar direito sendo enquanto estava sendo esmagado em um abraço por Bernardo.

— Você não existe, cara! — Pedro diz rindo, feliz por pelo menos ter o amigo ao seu lado de novo.

— Eu não ia perder seu grande dia, velho amigo!

— Não é tão especial assim!

Bernardo dá um soco no ombro de Pedro, e lança um olhar reprovador para o amigo.

— Por que diz isso? — Bernardo pergunta incrédulo.

— Eu sou só um cara confuso que não sabe nem para onde ir. Ou oque fazer.

O sorriso de Bernardo só aumenta.

— E é exatamente por isso que estou aqui, eu vou te ajudar! Se você quiser, é claro.

— E por que recusaria?

— Esse é meu Pedro! Venha logo, eu explico tudo no carro.

Após várias despedidas e um longo caminho na estrada, Bernardo finalmente começou a explicar tudo.

— Olha, quando eu saí da fazenda, fui para Nova York tentar a vida como assistente e olha como são as coisas... Eu fui ser assistente logo de um dos mais famosos advogados da cidade!

— Que incrível!

— Sim! Mas está não é ponto. O que importa é que meu chefe tem muita influência e conseguiu uma entrevista de emprego pra você em um atelier de arte!

— O que!? — Pedro pergunta chocado — Bernardo eu nem sei o que dizer!

— Não diga nada pois não acabei ainda!

Bernardo faz uma curva, entrando em uma trilha com árvores formando uma espécie de túnel.

— Bernardo, o que está fazendo? A estrada para Nova York não era aquela?

Bernardo olha de soslaio para Pedro, e sorri.

— Eu só pensei que podíamos pela estrada do litoral.

A expressão de Pedro cai.

— Bernardo, não faça isso, sabe que me sinto mal.

— Talvez dessa vez seja bom. — Bernardo diz, e Pedro decide não discutir.

Após um longo momento de silêncio, Pedro finalmente volta a falar.

— Chegamos!

— Mas não têm nada aqui.

— O resto do caminho é a pé!

Pedro olha para Bernardo com confusão.

— Resto do caminho? O que está armando?

— Vem logo! — Bernardo sai do carro e Pedro é obrigado a segui-lo.

Logo a mata da lugar para a areia branca, e Pedro sente seu coração apertar. Tudo ali lembrava Romelle. O cheiro, a areia, o som das ondas. Tudo.

— Já vimos o mar, agora podemos ir!? — ele pergunta para Bernardo, que o encarava com uma expressão estranha.

O que ele queria com tudo isso? Tentar a sorte e encontrar Romelle sentada numa pedra com ondas se quebrando ao redor dela? Tudo isso era muito dolorido.

— Não, vamos caminhar pela praia agora. — Bernardo diz, e puxa Pedro com ele.

Revirando os olhos exasperado, Pedro o segue até chegarem a uma espécie de rochedo, onde havia uma simples casa de madeira.

— Tchãram! O que acha? —Bernardo pergunta fazendo gestos na direção da casa.

Pedro olha para Bernardo confuso.

— A casa? É bonitinha, eu acho.

— Bonitinha!? — Bernardo exclama ofendido. Ele começa a murmurar alguma coisa e então começa a marchar até a casa.

Pedro fica mais uma vez sem entender, mas segue o amigo de qualquer jeito. Chegando na casa Bernardo já foi entrando, surpreendendo Pedro.

— Bernardo o que está fazendo!? E se a casa for de alguém!?

Bernardo finalmente se vira para encarar Pedro, e olha para ele como se ele fosse a pessoa mais idiota desse mundo.

— Mas é de alguém! — Bernardo diz e põe um dedo no peito de Pedro — É Sua!

Pedro fica embasbacado.

— O...que?!

— Nas minha horas livres eu vinha pra cá! — Bernardo diz como se isso explicasse tudo.

— Você construiu isso tudo sozinho?

— Sabe que sou bom em constituir coisas! E esse meu projeto aqui é ótimo, se me permite dizer. Não é distante de Nova York, eu o posso te dar carona sem problema até você comprar um carro!

— Bernardo...

— O que?

— Por que tudo isso? O emprego, a praia, a casa? Qual o motivo?

Bernardo lhe lançou um sorriso contente, contente por seu amigo estar finalmente fazendo as perguntas certas.

— Sua resposta está na varanda!

Intrigado, Pedro atravessa a casa até o fim, onde havia uma grade porta de correr de vidro que permitia uma visão da varanda e do mar lá em baixo.

Mas o que faz Pedro perder a respiração não é a vista para o mar, mas sim a visão de uma moça de costas para ele, está usando um vestido leve verde. Pedro caminha lentamente até estar centímetros de tocá-la. Ele podia sentir seu perfume intoxicante.

— Romelle? — ele sussurra.

Pedro vê a pele dela se arrepiar quando ele a chama. Ela se vira sorrindo e lhe lançando um olhar cheio de amor.

— Olá Pedro! — ela diz suavemente.

Voltando a respirar agora, Pedro a envolve em seus braços, lágrimas escorrendo livremente por suas bochechas. Ele segura o rosto dela em suas mãos, e a beija intensamente.

E ali naquele momento, ele sentia seu coração bater tão forte quanto as ondas batiam nas rochas. O amor dos dois era tão intenso quanto o mar.

E nada nesse mundo podia conter essa força inabalável.