ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome de Patricia Wilson, que foi publicado na série de romances "Julia Cartão-Postal", da editora Nova Cultural.


Capítulo 2

O discurso terminou com a informação de que o último membro da equipe se reuniria a eles no dia seguinte.

- O dr. Ortega chegará bem cedo - Gray Fullbuster acrescentou, com um olhar significativo em direção a Juvia. - Meu conselho, portanto, é darmos por encerrada a reunião e nos recolhermos para estarmos bem dispostos pela manhã.

Juvia foi a primeira a se retirar da sala. Quanto mais longe ficasse do líder, mais segura estaria.

O tio alcançou-a no elevador. Nunca lhe parecera tão confiante e capacitado. Naquele instante ela se perguntou o que estava fazendo ali, quando poderia estar se divertindo com seus amigos na Floresta Negra e praticando seu esporte favorito, o ciclismo.

Fora uma péssima idéia passar suas últimas férias antes da residência hospitalar naquele lugar, e ainda por cima disfarçada de homem !

A calma e satisfação de seu tio estavam irritando-a. E de Lyon também. Os dois exibiam largos sorrisos. Quem não soubesse, pensaria que haviam ganho na loteria e não recebido ordens para se recolherem a seus aposentos como se fossem duas crianças.

Eles se afastaram pelo corredor depois de deixá-la em sua porta. Ela os acompanhou com os olhos, pensando que as próximas ordens seriam dadas pela manhã, para que tomasse o avião de volta.

No quarto, Juvia se olhou criticamente ao espelho. Teria conseguido enganá-lo ? Gray Fullbuster não lhe parecera uma pessoa susceptível. A roupa escondia suas formas e o boné resolvia o problema dos cabelos, mas nada poderia esconder suas feições.

Droga ! O que havia de errado com ela ? Por que estava tão apreensiva ? Passara no teste, não ?

Com um suspiro, ela soltou os cabelos e jogou-os para trás. Seria bom dormir e relaxar, mas tinha certeza de que não conseguiria. A noite estava enluarada e não havia nenhuma nuvem no céu. Resolveu abrir a porta e sair para a varanda.

Ficou deslumbrada com a proximidade e com o brilho das estrelas que a Lua não conseguia ofuscar. Deveria ser por causa da altitude e do ar rarefeito.

Andes ! Quantas vezes ouvira seu tio falar sobre a cadeia de montanhas que se estendia por vários países da América do Sul, sobre a vida selvagem e sobre o lago Titicaca, o maior e mais alto do mundo. Conhecia histórias sobre o Chile e sobre o Peru e sobre o condor, que era chamado o espírito dos Andes.

Uma brisa soprou sobre Juvia naquele momento. Ela se abraçou para se proteger contra o frio. Estava calma. De repente estava se sentindo maravilhosamente bem. Queria estar ali ! Queria ver os lugares sobre os quais seu tio lhe falara desde criança. Era como se o destino a tivesse levado. Estava feliz, como há muito não se sentia, e ansiosa por partir.

O terraço de seu quarto dava para o jardim e ela resolveu explorá-lo após uma rápida verificação de que não havia ninguém por perto.

Voltou a prender os cabelos e a colocar o boné, fechou a porta do quarto, guardou a chave no bolso da calça e desceu os degraus.

O jardim era iluminado. Ela percorreu-o na mais absoluta tranqüilidade, aproveitando para aspirar o perfume delicioso de uma flor que lhe era desconhecida.

Tinha certeza de que não teria mais problemas para dormir quando voltasse para o quarto, o que pretendia fazer assim que desse uma última volta pelo caminho entre as árvores e arbustos.

Ela nunca ficara tão preocupada por causa de alguém. Havia algo com aquele homem que despertava sua ansiedade. Ainda bem que não havia perigo de cruzar com ele. A essa hora, Gray Fullbuster devia estar no segundo sono.

- Não é prudente perambular sozinho num lugar estranho - uma voz advertiu-a. Ela se virou e quase morreu de susto ao deparar com o único homem que não poderia encontrar naquele momento - Como faz parte de minha expedição, exijo que tenha mais cuidado e que volte imediatamente para seu quarto e tranque a porta.

- Eu estava sem sono e decidi fazer uma caminhada - Juvia gaguejou.

- Parece assustado por eu tê-lo surpreendido - Gray estranhou - Essa reação não combina com a decisão que tomou de sair do quarto e andar sozinho pelo jardim do hotel no meio da noite.

Gray Fullbuster havia se aproximado enquanto falava e Juvia ficou imóvel de pavor. Ao menor gesto, ele ficaria ainda mais desconfiado.

- Está com medo de mim ? - Gray insistiu.

- Claro que não ! - ela se apressou a responder - Sou perfeitamente capaz de cuidar de mim.

- É ? - Gray estendeu a mão e agarrou-lhe o pulso - Está me dizendo, Matthew Lockser, que consegue enfrentar dois ou três assaltantes determinados a lhe roubar esse lindo relógio ?

Juvia baixou os olhos. Havia escolhido aquele relógio como símbolo de masculinidade. Agora estava pensando se não havia exagerado. A peça realmente estava grande e pesada demais para o seu pulso.

- Segundo meu tio, o povo da Bolívia é amigável e prestativo - ela tentou se justificar.

- Obrigado - Gray agradeceu. - Entretanto, nem todas as pessoas são iguais. Umas são mais perigosas do que as outras.

Juvia sabia disso. Ele, por exemplo, era um dos perigosos. E ela precisava fugir de sua presença o mais depressa que pudesse.

Disse boa-noite e começou a se afastar. Não havia dado três passos, porém, quando as mãos dele a seguraram pelos ombros.

Ela se virou e prendeu a respiração. Gray Fullbuster havia sentido a delicadeza de sua estrutura e estava deslizando os dedos por seu pescoço.

- Como se atreve ? - ela protestou com a respiração subitamente acelerada e os músculos do estômago contraindo de uma maneira peculiar.

- Sua reação não poderia ser mais feminina. Mas, afinal, você é toda feminina, não, señorita Lockser ?

Antes que ela pudesse se defender, o boné foi arrancado de sua cabeça e jogado ao chão. Foi fácil para ele subjugá-la. Ainda a prendia com uma das mãos. Com a outra, pôs-se a livrar seus cabelos dos grampos.

Os cabelos caíram em cascata sobre os ombros e a lua os fez brilhar como seda e prata. Gray Fullbuster encarou-a por um instante e ela sentiu que empalidecia.

- Eu posso explicar !

Não foi possível prosseguir. Os olhos escuros a fitaram de modo proibitivo.

- Amanhã você estará no primeiro vôo de volta para a Inglaterra.

- Mas meu tio...

- Seu tio é um velho amigo meu, mas trata sua sobrinha com demasiada indulgência. Não faz muito tempo, ele me mostrou uma foto sua, cheio de orgulho. Tenho uma ótima memória. Seu tio não disse que a sobrinha tinha um irmão gêmeo. Imagino o quanto você insistiu e atormentou-o para que ele acabasse concordando com essa loucura. Em todo caso, foi pura perda de tempo. Você deixará a expedição pela manhã.

- Você precisa entender ! - Juvia implorou - Tio Robert não é capaz de cuidar de si mesmo.

Foi a pior explicação que ela poderia ter encontrado. Ele ficou ainda mais zangado.

- Eu é quem pergunto agora, como você se atreve ? Conheço seu tio há anos, e a idade não afetou seu vigor nem sua inteligência brilhante. Você, no entanto, não tem juízo nem sequer para ficar em seu quarto numa noite fria. Não adianta insistir. Não a quero em minha expedição ! Agora, volte para o seu quarto !

Ele não deveria ter gritado a última ordem. A insolência a fez reagir de imediato.

- Se não faço parte de sua expedição, você não tem nada a ver comigo ! Só voltarei para meu quarto porque estou farta de sua arrogância. Se meu tio é seu amigo, isso prova que ele não é capaz de julgar as pessoas. Eu irei embora, sr. Fullbuster, mas se alguma coisa acontecer com meu tio nessa viagem, juro que tornará a me ver !

Ele a encarou com frieza.

- Fique aqui ou volte para o quarto. A escolha é sua. O que me interessa, apenas, é vê-la fora da Bolívia. Se nesse meio tempo você for roubada ou agredida, providenciarei para que uma enfermeira a acompanhe até o aeroporto. Nada impedirá sua partida. Entendeu, señorita Lockser ?

Gray Fullbuster se afastou em seguida deixando-a ainda mais furiosa. Se pudesse, voaria para cima dele, mas como a prudência era a única saída, permaneceu onde estava.

De repente, Juvia sentiu medo. Estava muito quieto. Depois que Gray Fullbuster se fora, o silêncio se tornara insuportável.

Ela colocou novamente o boné, olhou ao seu redor e correu de volta para o quarto, onde se trancou.

Já havia experimentado a maçaneta quatro vezes, para se certificar de que a porta estava realmente trancada, quando se deu conta do quanto ele a assustara.

O homem era um monstro de frieza e arrogância. Ele a havia vencido, ela tinha de reconhecer. Dessa vez não adiantaria recorrer ao tio. Se ele havia mostrado sua foto ao amigo, sabia que ela seria desmascarada mais cedo ou mais tarde. Das duas, uma. Ou seu tio estava sofrendo de lapsos de memória, ou fizera aquilo de propósito.

Estava mais inclinada a acreditar na segunda hipótese.

A reação de seu tio fora de riso quando o ameaçara em sua sala na universidade. No entanto, cedera facilmente à pressão logo em seguida. Seu tio Robert resolvera humilhá-la. Essa era a única explicação, e Lyon devia estar mancomunado com ele. Afinal, ele teria feito qualquer coisa para participar da expedição, e seu tio jamais o teria convidado, se não fosse por causa de sua intervenção.

Juvia se deitou com a mente povoada de pensamentos maquiavélicos, todos dirigidos ao homem chamado Gray Fullbuster.

Precisava encontrar um meio de atingi-lo. Mas como ? Seus poderes eram absolutos !

No dia seguinte, seria colocada num avião mesmo contra a sua vontade. Seu tio balançaria a cabeça e mostraria tristeza, mas no instante em que o avião decolasse, voltaria para seus negócios e a esqueceria por completo.


Pela manhã, Robert Lockser e Lyon encontraram Juvia pronta quando foram chamá-la para tomarem café. Ela estava usando um vestido bege com minúsculas flores. Os cabelos estavam soltos. Para completar, calçara sandálias e aplicara uma maquilagem suave que a tornava ainda mais feminina e atraente.

Apesar de irritada, Juvia sentiu uma onda de satisfação quando viu o tio fitá-la boquiaberto.

- Juvia ! O que está fazendo ? Se Gray a vir desse jeito, mandará que arrume suas malas.

- Seu amigo já fez isso - ela respondeu, zangada. - Eu o encontrei no jardim, ontem à noite, enquanto vocês dormiam.

- O quê ? Você saiu sozinha ? Não pensou no perigo ? Não pensou no risco que corria em permitir que ele a visse de perto ?

- Eu não precisei pensar. O perigo estava à minha espera. Gray Fullbuster não se deixou enganar nem por um minuto. Ele só estava aguardando uma boa oportunidade para me humilhar. Sabia quem eu era, assim que você nos apresentou. Você lhe mostrou uma foto minha da última vez em que esteve aqui.

- Eu fiz isso ? - o tio estreitou os olhos, tentando recordar - Não me lembro.

- Oh, pare com a encenação ! - Juvia exclamou - Estou começando a perceber que não há nada de errado com sua cabeça. Estou muito aborrecida com você. Fez com que eu parecesse uma idiota aos olhos de Gray Fullbuster. Ele fez questão de frisar que você é muito mais capaz do que eu. Na opinião de seu amigo, você enfrentará a viagem sem o menor problema, enquanto eu serei jogada sob um arbusto qualquer pelo primeiro assaltante que cruzar o meu caminho !

Era óbvio que seu tio era culpado, a julgar pela sua expressão, mas Lyon era totalmente inocente. Ele parecia cada vez mais perplexo a cada palavra que ela dizia.

Por fim, o tio teve a dignidade de confessar.

- Por que fez isso comigo ? - Juvia indagou - Para se divertir às minhas custas ?

- Claro que não, Juvia, minha querida. Mas você é uma garota tão voluntariosa e autoritária que eu me vi no dever de tentar acordá-la. Sei que suas intenções são boas, mas a verdade é que você não está preparada para esse tipo de viagem. Não que ela seja exatamente perigosa, mas é exaustiva demais. Eu fiquei preocupado.

- Mas eu lhe disse que agüentaria ! Sou dura como aço ! - o tio deu o seu costumeiro sorriso de indulgência.

- Você é muito delicada. Às vezes chega a parecer frágil. Melanie e eu vivíamos preocupados com você.

Juvia olhou para Lyon, e ele parecia prestes a concordar com seu tio.

- Não diga nada ! - ordenou - Isto é uma discussão de família - mas, ao deparar novamente com o sorriso do tio, ela acabou desistindo de brigar e lhe deu um abraço - Tudo bem. Ao menos consegui ver os Andes. Seu estimado amigo insiste que eu vá embora e parece que não tenho alternativa. Você deveria ter me contado antes, tio Robert.

- Se você tivesse me dado uma chance, por pequena que fosse...

- Está bem. Você conseguiu provar o que queria. Foi uma lição que não esquecerei - ela se deteve e olhou com firmeza para o tio - Cuide-se. Não pode se machucar nem ficar doente durante a jornada. O tal Fullbuster não terá dó nem piedade. Por falar nele, espero que não esteja na sala de café.

- Não o julgue mal, Juvia - o tio murmurou - Gray Fullbuster é um homem extraordinário. Está doando seu tempo e dinheiro por uma causa que também é minha. Ele ajuda muito o seu país e não o faz para sua glória pessoal nem por interesses escusos. Ele é riquíssimo.

- Aposto que fez fortuna por meio de contrabando de armas e de tráfico de drogas !

- Mineração, gado e café - o professor corrigiu - Ele é um homem honesto e importante.

A simples menção a enfurecia. Gray Fullbuster não precisaria ter feito o que fez. Poderia ter se aproximado e dito que sabia quem ela era. Não precisaria tê-la tocado. Esperava nunca mais vê-lo.

Ele estava terminando de tomar seu café quando eles entraram na sala. Seus olhos se encontraram de imediato. Ela só teve tempo de notar o modo com que ele a examinou da cabeça aos pés antes de virar para o outro lado. Sentiu que corava. Pela primeira vez, estava contente em ir embora. Ele que desse ordens aos outros !


Juvia mal havia recuperado a cor normal quando Gray se aproximou de sua mesa, obviamente para tratar de algum assunto com seu tio.

- O dr. Ortega já deveria ter chegado. Se ele não aparecer logo, a expedição sairá atrasada.

Gray ignorou a presença de Juvia e ela se ressentiu com tanta indelicadeza. Não bastava ele tê-la expulso da equipe ? Não que precisasse de seu cumprimento, é claro.

- Nós não podemos partir sem ele ? - indagou o tio, ao que Gray Fullbuster negou com um movimento de cabeça.

- Não, não podemos arriscar. Não espero ter problemas durante a viagem, mas seria imprudente subir as montanhas sem assistência médica. Teremos de esperar por Ortega, por mais que ele se atrase.

- O tempo é o fator mais importante da expedição - Robert Lockser lembrou.

- Eu concordo com você, mas o risco seria grande demais. O que faremos se alguém se ferir ? Contamos com suprimentos médicos, mas não sabemos como usá-los.

Ao término do desjejum, ainda não haviam recebido notícias do médico. Robert Lockser olhava constantemente para seu relógio de pulso. Lyon estava calado e aborrecido porque se sentia culpado com relação a Juvia. Ela apoiou a mão na curva de seu braço enquanto se dirigiam ao elevador, tentando mostrar que não o considerava culpado de nada. Ele não se chamava Gray Fullbuster, afinal.

- Eu sobreviverei. Foi um golpe duro sobre meu ego, mas nada que comprometa minha vida. Por sorte não existem muitos homens iguais ao seu líder.

- Mas você queria participar da expedição, Juvia.

- Sim, no fim eu acabei realmente querendo - ela confessou -, não apenas para cuidar de tio Robert, mas para conhecer o lugar sobre o qual ouço meu tio falar desde minha infância.

- Oh, Juvia - Lyon lamentou - Quer que eu desista e volte com você ?

- Nem pense nisso ! Conto com você para vigiar meu tio. Por mais que Gray afirme que ele continua o mesmo, sei que vive nas nuvens e que é capaz de cair num abismo enquanto consulta suas anotações.

- Eu cuidarei dele, prometo.

Ela sorriu e deu um beijo no rosto de Lyon, mas o sorriso morreu em seus lábios quando percebeu que estavam sendo observados por Gray.

Primeiro ela se sentiu constrangida com o olhar atento e insolente sobre sua figura, depois ficou zangada.

Ele notou a mudança e sorriu, zombeteiro. Ela se despediu de Lyon, que queria trocar uma palavra com o professor, e procurou imediatamente o refúgio do elevador.

Faltavam duas horas para o seu vôo. Isso lhe dava tempo para arrumar as malas com calma e aproveitar a vista. Viu-se diversas vezes no terraço, olhando para as montanhas cobertas de neve. Sabia que nunca mais chegaria tão perto de algo com que havia sonhado durante grande parte de sua vida. Tão perto, mas não perto o bastante.

Os outros subiriam as montanhas sob o Sol e se abrigariam durante as noites frias. Talvez vissem o condor.

Antes de chegar ali, seu único pensamento fora enganar o líder que não permitia mulheres em sua equipe. Agora queria realmente fazer parte da expedição.

Além disso, havia seu tio. Amava-o. Não tinha mais ninguém a quem amar. Ele lhe dera um lar. Por mais que Gray Fullbuster acreditasse o contrário, ela sentia uma forte necessidade de proteger seu tio.

Juvia foi arrancada de seus devaneios por uma batida à porta. Deveria ser seu tio, e ela não queria que ele notasse sua angústia. Seria melhor que partisse e fizesse seu trabalho, acreditando que ela era tão forte quanto fingia ser.

Abriu a porta, sorridente, mas franziu o cenho ao ver Gray Fullbuster à sua frente.

- O que você quer ? Não precisa me lembrar do horário do vôo. Se eu perdê-lo, o problema é meu.

- Quero falar com você - ele respondeu com calma, sem se importar com suas maneiras - Concordo que você é livre para fazer o que desejar, mas não é esse o motivo que me traz aqui.

Juvia percebeu que ele estava mais gentil do que das outras vezes e isso a perturbou.

- O que houve ? Aconteceu alguma coisa com meu tio ?

- No hotel ? Claro que não. O que poderia ter acontecido ? Você se preocupa demais com a saúde de Robert.

- Tenho razões para isso - ela respondeu - Eu só tenho a ele, e o adoro mais do que tudo na vida. E se não é a respeito dele que você quer falar, de que se trata ? Não deve ter vindo para me desejar uma boa viagem.

- Se permitir que eu entre, poderei lhe explicar o porquê de minha visita.

- Diga o que tem a dizer, da porta. Você não é o tipo de pessoa com quem eu queira conversar.

Ele fitou-a de um modo que lhe causou surpresa. Seus olhos se estreitaram e ele moveu a cabeça de um lado para outro.

- Você não é como as mulheres de meu país. É agressiva e hostil. Nossas mulheres são educadas. Essa necessidade de disputa deve ser controlada. Já é hora de algum homem domá-la - ele se calou por um instante - Estou aqui para lhe pedir um favor.

Ela encarou-o, desconfiada.

- A menos que queira pedir que eu lhe dê um tiro, esqueça ! Acha que estou interessada em lhe prestar um favor, depois do que fez comigo na noite passada ?

- Fui precipitado - ele admitiu - Ontem à noite eu não sabia o que sei agora. Nós precisamos de seus serviços. Espero que não se recuse a nos ajudar.

- De que serviços ? Você não afirmou que eu era uma imprestável, embora não dissesse exatamente essa palavra ?

- Agora você não está disfarçada, ao menos.

- Foi o único jeito que me ocorreu de participar da expedição.

- Você pode participar da expedição e será bem-vinda, desde que troque esse vestido por uma roupa adequada e desça o mais rápido possível para nos colocarmos a caminho.

- Por quê ? - ela quis saber.

- O dr. Ortega está doente e nós precisamos de um médico. Sem você, não poderemos partir. Ainda não é formada, mas serve aos nossos propósitos.

- Ah, então agora eu tenho condições de acompanhá-los. Agora não importa que eu seja mulher e que não tenha bom senso e possa ser agredida e roubada. Agora você mudou de idéia a meu respeito. Pois procure outra, porque eu resolvi obedecer a sua ordem e irei para casa. Mas, se precisa realmente que eu me junte ao grupo, aponte outro líder. Não quero ser obrigada a me dirigir a você em momento algum !

Juvia deu um passo para trás e bateu a porta. Ninguém, jamais, a fizera sentir-se tão insignificante.

Ele não dava valor às mulheres e a ela, em particular. Humilhara-a na noite anterior e agora, por lhe ser conveniente, aceitara sua presença. Porque ela "servia". Oh, sim. Ele permitiria que ela carregasse a caixa de medicamentos e ministrasse aspirinas. Talvez lhe permitisse, inclusive, imobilizar uma perna quebrada. Mas, provavelmente, a faria seguir atrás dos outros porque não a considerava à altura dos demais.

Não ! Ela não iria nem que ele implorasse ! Preferia desistir da viagem a tornar a olhar para aquele homem odioso !


P. S.: Nos vemos no Capítulo 3.