Assim que eu cheguei no saguão movimentado da Prefeitura, observei as pessoas andarem de um lado para o outro, carregando mochilas, computadores e conversando sobre reuniões e compromissos de rotina. As vozes estavam nevoadas, longas e grossas demais para assimilação. Continuei parada no meio do saguão de frente para a fila de elevadores que transportavam a massa de servidores em alta velocidade. Meu estômago embrulhou e pude sentir o suor descendo pelas minhas costas. Eu sabia qual era a sensação. Essa sensação prévia de que o surto emocional vai me engolir e o chão, em algum momento, iria se abrir em meus pés. Crise de pânico.
Engoli em seco. Por que eu tinha que ter encontrado com o Haymitch logo agora? Por que? Ele me lembrava do passado que eu queria enterrar. A vergonha de querer ser a parte mais obscura da essência humana. A reprodução de uma sociedade que parecia ser tão confortável e cruel para minha visão limitada.
-Effie? – ouvi uma voz feminina aguda me chamar ao longe e, logo depois, estalando os dedos no meu rosto para chamar minha atenção – Effie? O que houve?
Eu estava paralisada em frente do elevador. Escutei burburinhos ao meu redor e rapidamente alguém me puxou pelo braço. A pessoa parecia nervosa. Senti meus pés sendo levados de forma instintiva. Minha cabeça rodava, vultos e o gosto metálico no fundo da boca. Eu estava em pânico novamente. Após 3 anos de tratamento psicológico e inúmeras recaídas. Lá estava eu voltando ao meu estado primitivo de desequilíbrio.
Pisquei os olhos e parei bruscamente, fazendo a pessoa cair no chão.
-Effie! O que está acontecendo com você? Eu estou preocupada... –olhei pra baixo. Era Nathy, minha assistente pessoal. Engoli em seco. Olhei para os lados. As pessoas nos olhavam curiosas e até mesmo amedrontadas com a comoção. O padrão de violência ainda era algo a ser seguido por medo na Capital.
Fechei os olhos. Meu estômago estava contorcido pela ansiedade, adrenalina e receio.
- N-nathy... –minha voz falhou na primeira tentativa. A jovem assistente já estava em pé novamente, curvando-se sobre meu corpo com semblante pálido. Ela estava com medo por mim. Aquilo me fazia mal. Não gostava de ver pessoas sofrerem. Não de novo. – E- eu estou bem. Só preciso comer algo. Minha pressão abaixou.
A minha assistente balançou a cabeça concordando e me guiou até a refeitório da prefeitura aonde centenas de servidores ainda estavam apreciando o desjejum. Passei a mão no rosto e notei que tremiam involuntariamente. Assim que chegamos no refeitório, o cheiro de comida adentrou os meus sentidos e senti-me ligeiramente reconfortada pela sensação.
-Vou pegar um café para você! Acho que isso vai te ajudar... – Nathy deu um sorriso fraco e foi até o balcão de pedidos. Eu consenti e procurei um lugar naquele lugar tão barulhento e gorduroso.
Ao sentar, pude ver uma servidora rindo numa mesinha ao lado. Ela era mais nova que eu e no seu colar estava o símbolo do Distrito 7. Após o fim do regime, muitas pessoas imigraram para a Capital e vice e versa. O orgulho de ser dos demais distritos era evidente. Era símbolo da resistência e da força por mudanças sociais e políticas. Vivia-se em um momento democrático em que a liberdade parecia ser tocada no ar pelos mais jovens. Para mim, era como se o novo sistema jogasse a podridão na minha cara e o quão eu era inadequada naquela nova realidade.
-Effie, você quer com açúcar ou adoçante? – perguntou minha assistente sentando-se a minha frente. Ela ainda falava como se eu fosse uma criança assustada que estava dando os primeiros passos de vida. Eu sorri de lado e tentei me recompor. Nathy era uma das jovens deste novo sistema. A nova geração que me fazia sentir fora da caixa. Não era maldosa ou desrespeitosa. Pelo contrário! Nathy era uma moça curiosa e extremamente vivaz. Parecia ter um grande respeito pela minha figura, apesar de todo meu histórico. Eu gostava de pensar que nós éramos amigas, já que eu não tinha ninguém na Capital e em lugar algum. A solidão faz a gente mendigar por depositar expectativas demais nas pessoas.
-Querida, eu prefiro puro mesmo. – peguei a caneca de café de suas mãos e dei um gole. O gosto amago do café se misturou ao metálico do fundo da boca e o meu corpo se arrepiou. Alguns gostos vinham com lembranças mais amargas. – Eu tive um problema matinal com um antigo colega de trabalho.
A minha assistente ficou de boca aberta e eu quase rolei os olhos, pois já sabia a pergunta que viria a seguir.
- Katniss?
-Não. – respondi bem seca. Ela percebeu o tom da minha voz e olhou para o topo da mesa encabulada. Sua face ficando rubra. Eu suspirei cansada. Não era culpa dela. Eu que não tinha superado tudo isso. – Desculpa. É que eu não gosto de falar muito sobre...você sabe.
Ela balançou a cabeça em afirmativo e me voltou a me olhar novamente com respeito. Seus olhos curiosos e cheios de vivacidade. Uma característica bem peculiar dessa nova geração de cidadãos. Eu estava morta por dentro.
- Mas presumo que deu tudo certo, não é?– ela questionou preocupada. Eu concordei devagar e beberiquei novamente o café. Ela sorriu feliz e meus lábios fizeram o esforço de sorrir junto.
- Bom, o que temos de trabalho para hoje? – perguntei, mudando de assunto. Ela deu um pulo de excitação e tirou da bolsa uma agenda cheia de canetas e marcadores de texto. Enquanto Nathy desatava a falar sobre todo meu itinerário com os líderes do Parlamento, olhei para fora da janela envidraçada do refeitório de onde se podia apreciar uma vista linda da Capital. Dei mais um gole do café amargo e respirei fundo. Eu não poderia deixar Haymitch me dominar. Não neste momento da minha vida.
-Senhor? – Alguém me sacudiu pelo ombro esquerdo. Eu queria dormir. Só isso. Era tão difícil assim?
-Acho que ele está morto. Olha as mãos dele ensanguentadas. – Escutei uma voz fina esguichando do meu lado e senti um dedo me cutucando no braço. –Não parece duro igual a um defunto, mas certamente aparenta estar morto.
-Ele está respirando. – uma voz masculina repreendeu a mulher. – Pelo cheiro de álcool, ele está bêbado. Deveriam proibir esse tipo de gentinha entrar dentro do trem. Deve ser de algum distrito pobre...um vagabundo qualquer!
-Que nada! Ele embarcou da Capital. Eu vi! – a voz feminina respondeu prontamente.
Eu já estava acordado. A verdade é que eu gostava de ouvir as pessoas falando sobre o desconhecido. Era intensamente reconfortante perceber como as pessoas não me reconheciam mais. Será que eu envelheci? Ou será que eles só viam a minha carcaça? Meu corpo apodrecendo neste novo mundo. Eu poderia estar desaparecendo. Tornando-me descartável.
Minha garganta estava seca, lambi a parte interna da boca e arregalei os olhos a fim de assustar a mulher que estava ao meu lado. Touché! Ela deu um gritinho e se afastou do meu corpo como se eu tivesse uma praga. Soltei uma risadinha pelo nariz e levantei os olhos para o verificador de passagens. O rapaz era gorducho e tinha os olhos castanhos caídos. Parecia mais cansado que eu.
-Já chegamos no distrito 12? – perguntei mal humorado. Todos pareciam fingir voltar a cuidar da própria vida. O passageiro que me intitulou como vagabundo me observava com nojo descarado. Vestia um terno cinza muito alinhado e parecia ter o rei na barriga. Seus olhos pretos me julgavam em silêncio.
-Ainda não, Senhor. Preciso de sua passagem para verificação no sistema. – o servente me olhou incomodado, balançado uma máquina a laser na minha frente. – É protocolo da empresa.
Eu rolei os olhos e procurei o bilhete no meu bolso. Não me lembrava se eu tinha ou não comprado a passagem. Ainda estava sob o efeito das bebidas da noite anterior, a única coisa que eu me lembrava era dos olhos da Effie marejados. Parei a minha busca pelo maldito papel. Era óbvio que eu não tinha comprado nenhuma passagem. Eu estava sem dinheiro e tinha negado receber os trocados da Madame Trinket. Maldita ruiva!
A única coisa que me fazia voltar lá era ela. Aquela maldita ruiva!
O bilheteiro do trem estreitou os olhos de forma ameaçadora e apontou a máquina em minha direção com uma atitude impaciente.
-Merda... – murmurei baixinho. Olhando para o lado em busca de alguma solução. A mulher do meu lado era, na verdade, uma senhora cheia de rugas e com cara de poucos amigos. Sorri debochado e levantei-me. –Bom, eu acho que devo descer no próximo ponto. Acabo de me esquecer que tenho que comprar algumas coisinhas no distrito...
Fiz uma pausa. Não sabia aonde o trem estava passando. O bilheteiro deu um sorriso maldoso e obstou minha visão do monitor que indicava a localização.
-Qual distrito, Senhor? - eu rolei os olhos e suspirei. - Acho melhor o senhor me acompanhar...
Eu dei um sorriso debochado e me levantei para acompanhar o servente do trem até uma salinha. Sentia uma dor aguda nas costas e na cabeça que me lembrou de um momento em que eu caí de um prédio durante a revolução. Meu cheiro não deveria ser um dos melhores, pois aonde eu passava as pessoas seguravam o nariz ou faziam careta. Chegamos numa salinha ao fina do último vagão do trem. O rapaz passou o crachá de identificação e as portas rodaram. Ele indicou para que eu entrasse.
-É a sala para saída de infratores. – explicou o rapaz apontando para as cadeiras de ferro. – No próximo ponto, você vai descer e receberá uma multa por entrar no vagão sem a passagem.
-Olha, cara. Eu preciso chegar no distrito 12... – eu comecei a falar e me curvei para cima dele. O rapaz recuou para o lado com certo ar de enojado – Eu tenho que ir no aniversário da minha amiga. É hoje à noite...
Ele pigarreou e sorriu forçosamente.
-Infelizmente, Senhor...não tenho como fazer com que você continue a viagem. – disse com uma voz de falsa piedade. Odiava piedade, porém a falsa piedade parecia ser bem pior.
-Olha aqui, rapaz. Você sabe quem eu sou? – perguntei rispidamente em tom baixo. A expressão do bilheteiro passou de calmo para debochado. Ele cruzou os braços e inclinou a cabeça em gozação.
- Deveria? Você não me parece ser uma pessoa importante assim, né? – ele me olhou dos pés à cabeça com ar de superioridade. Minha cabeça doía demais. Aquilo tudo estava me irritando profundamente. Como explicar esse tipo de comportamento? Após tudo que eu fiz por estes merdas. Eu dei a chance deste idiota ser um cidadão e o que eu levo em troca? Anos de tortura, maus tratos e preconceito para, no fim, receber o desdém.
Dei uma risada e bati palmas com escárnio. Meu ódio veio à tona como um vulcão em erupção. Minhas mãos já banhadas por sangue seco tremiam e pulsavam. Estiquei o pescoço e fitei o rapaz com raiva. Ele engoliu em seco e deu um passo para trás com medo de mim. Sem pensar, agarrei seu pescoço e o ergui no ar. Seus pés balançavam. O rosto gorducho e roxo pela falta de ar do rapaz me fitavam em desespero. Meus dedos cravaram sua pele. Ódio destas pessoas.
-Haymitch! –Alguém me agarrou pelo pescoço, puxando-me para trás com todo impulso. Deixei o bilheteiro cair no chão de joelhos segurando a garganta. –Para com isso, seu maluco! Você vai machucar esse menino!
Dois braços fortes se fecharam no meu pescoço. Andei para trás e empurrei as costas da pessoa contra a parede do trem com toda a minha força. Senti o vagão tremer, mas quem me atacou não se deixou abalar com o impacto, apertando ainda mais o golpe na minha garganta. Faltava-me o ar e eu tive que sucumbir. Bati no braço como rendição e eu e ele caímos no chão ofegantes. Minha cabeça estava a ponto de explodir. Voltei meu olhar para figura que se debatia para levantar e só pude enxergar os cabelos loiros no ar.
-Que droga é essa, Haymitch?! –Era Peeta.
