CAPÍTULO 02

Hermione tivera três dias para imaginar o que Harry Potter poderia dizer quando enfim despertasse. Tinha pensado em várias possibilidades, das quais a mais provável era: "Quem diabo é você?"

Não teria sido uma pergunta sem sentido. Pois, a despeito do que acreditava o coronel Dumbledore – e todos os demais naquele hospital militar mal-aparelhado –, o nome dela não era Hermione Potter, e sim Hermione Granger, e ela não era nem de longe casada com o belo homem de cabelos escuros que jazia na cama ao lado dela.

E quanto à origem daquele mal-entendido… É possível que tivesse a ver com o fato de ter declarado, diante de dois soldados e do taifeiro, que era esposa de Harry.

Na hora, pareceu uma boa ideia.

Ela não tinha ido a Nova York por um motivo leviano. Sabia muito bem dos perigos de viajar para as colônias divididas pela guerra, para não mencionar a travessia do temperamental Atlântico Norte. Contudo, o pai dela havia morrido, e logo depois ela recebera a notícia de que Dan tinha se ferido, e então seu maldito primo aparecera em Marswell, como um abutre sobrevoando a carcaça…

Ela não podia permanecer em Derbyshire. E, no entanto, não tinha para onde ir. Assim, naquela que fora talvez a única decisão precipitada que tomara em toda a vida, Hermione trancará a casa, enterrou toda a prataria no quintal e comprou uma passagem de Liverpool para Nova York. Ao chegar, porém, não conseguira encontrar Dan de jeito nenhum.

Ela acho o regimento dele, mas ninguém tinha as respostas de que ela precisava. Ela insistia nas perguntas, mas era prontamente enxotada pelo oficialato como se fosse uma mosquinha impertinente.

Eles a ignoraram, trataram-na com condescendência e certamente mentiram para ela. Hermione já tinha exaurido a maior parte de seus fundos, fazia uma única refeição por dia e estava morando em um quarto de pensão vizinho ao de uma mulher que provavelmente era prostituta. (Era certo que ela mantinha relações com homens variados; a única pergunta era se recebia dinheiro por isso ou não. E, para ser sincera, Hermione torcia para que recebesse, pois, o que quer que a mulher estivesse fazendo, parecia dar muito trabalho.)

Mas então, depois de quase uma semana sem chegar a lugar nenhum, Hermione ouviu dois soldados comentando que, alguns dias antes, tinham levado ao hospital um homem que sofrera um golpe na cabeça e estava inconsciente. O nome dele era Potter.

Harry Potter. Só podia ser.

Na verdade, Hermione nunca tinha visto o sujeito pessoalmente, mas ele era o amigo mais próximo do irmão dela, de modo que sentia que já o conhecia. Sabia, por exemplo, que ele era de Kent, que era o segundo filho do conde de Manston, que um dos seus irmãos mais novos estava na marinha e outro em Eton.

A irmã dele era casada, mas não tinha filhos, e a coisa de que ele mais sentia saudade era do creme de groselha da cozinheira da casa da família. O irmão mais velho de Harry se chamava Neville, e Hermione ficara surpresa ao saber que ele não sentia a menor inveja do fato de o irmão ser o herdeiro.

Certa vez, ele escrevera que o título de conde vinha atrelado a uma aterradora falta de liberdade e que sabia que seu lugar era no exército, lutando pelo rei e pela pátria.

Hermione sabia que uma pessoa que olhasse de fora poderia ficar chocada com a intimidade na correspondência entre os dois, mas aprendera que a guerra transformava certos homens em filósofos. Talvez fosse por isso que Harry Potter começou a inserir algumas frases no final das cartas que Dan escrevia para ela. Compartilhar pensamentos com um estranho era de certa maneira reconfortante. Era fácil ser corajosa quando se dirigia a uma pessoa com quem ela jamais dividiria uma mesa de jantar ou uma sala de visitas.

Pelo menos era o que Hermione pensava. Talvez Harry estivesse escrevendo para ela as mesmíssimas coisas que escrevia para a família e os amigos em Kent.

O irmão dela lhe contara que o amigo estava "praticamente noivo" de uma vizinha. Harry certamente escrevia também àquela jovem. E não é que ele escrevesse, de fato, para Hermione. Tudo começara com pequenos trechos redigidos ainda por Dan: "Harry diz tal coisa", ou "o capitão Potter insiste para que eu diga..."

Desde o início, a troca fora incrivelmente divertida; presa em Marswell com um pai indiferente, vendo as contas se acumularem, Hermione sentia que precisava dos sorrisos inesperados que as palavras de Harry lhe provocavam. Assim, ela respondia à altura, acrescentando coisinhas aqui e ali nas próprias missivas. "Por favor, diga ao capitão Potter..." ou "Fico me perguntando se o capitão Potter apreciaria..."

Então, um dia, chegou uma carta de seu irmão com um parágrafo escrito na caligrafia de outra pessoa. Era uma breve saudação a ela, contendo uma mera descrição de flores silvestres, mas era de Harry. Ele chegou a assinar. "Estimadamente, Cap. Harry Potter" Estimadamente.

Estimadamente.

Seu rosto foi tomado por um sorriso bobo, e ela se sentira a mais tola das mulheres. Estava se derretendo toda por um homem que nem conhecia. Um homem que provavelmente jamais conheceria. No entanto, não conseguira evitar. Por mais que o sol de verão brilhasse na superfície dos lagos, a ausência do irmão, tornava cinzenta sua vida em Derbyshire. Um dia emendava no outro, quase sem variações.

Ela comandava a casa, administrava o orçamento e cuidava do pai, que não parecia notar sua dedicação. De vez em quando havia um evento social, porém mais da metade dos homens da idade dela haviam se alistado ou adquirido uma patente no exército, e o salão de dança tinha sempre muito mais mulheres do que homens.

Por isso, quando o filho de um conde lhe escreveu falando de flores silvestres…

O coração de Hermione bateu mais forte.

Para dizer a verdade, as pequenas trocas nas correspondências eram o mais próximo de um flerte a que Hermione chegara em anos.

Contudo, quando enfim decidiu viajar para Nova York, era no irmão que ela estava pensando, e não em Harry Potter. Aquele dia em que o mensageiro trouxera notícias do comandante de Dan…

Fora o pior dia de sua vida.

A carta obviamente tinha sido endereçada a Arthur Granger. Hermione agradeceu ao mensageiro e providenciou uma refeição para ele sem mencionar que o pai havia morrido de forma inesperada três dias antes. Ela levou o envelope dobrado para o quarto, trancou a porta atrás de si e, após um minuto de apreensão que lhe parecera infinito, conseguira reunir a coragem necessária para abrir o lacre de cera.

Sua primeira emoção fora alívio. Tinha certeza de que a carta ia dizer que Dan havia morrido, deixando-a sozinha no mundo, sem mais ninguém a quem amasse de verdade. Naquele momento, um ferimento de guerra mais parecia uma bênção.

Mas então, logo depois, chegou o primo Horace.

Hermione não ficou surpresa ao vê-lo no enterro do pai. Afinal, era assim que se devia proceder, mesmo no caso de parentes por quem não se nutrisse muita estima. Horace, contudo, não fora embora. E, por Deus, que sujeitinho insuportável. Não conversava: fazia sermões. Hermione não podia dar dois passos sem que ele surgisse atrás dela, expressando suas profundas preocupações com a prima.

O pior era que ele não parava de falar de Dan, comentando sobre os perigos a que se expunha um soldado nas colônias. Comentava que seria mesmo um imenso alívio quando ele enfim retornasse, são e salvo, ao seu lugar de direito como proprietário de Marswell.

Sendo que a mensagem velada por trás daquilo tudo era, é claro, a de que, caso Dan não voltasse, Horace seria o herdeiro de todos os bens.

A maldita, estúpida linha hereditária de Marswell. Hermione sabia que tinha o dever de honrar seus antepassados, mas, por Deus, sua vontade era a de voltar no tempo, encontrar seu tatara-tataravô e dar-lhe um belo safanão. Ele havia adquirido as terras e construído a propriedade e, em seus delírios de grandeza dinástica, estabeleceu rígidas condições para a herança. Marswell deveria passar de pai para filho. Se não fosse possível, então qualquer primo homem daria para o gasto. Não importava nem um pouco o fato de que Hermione havia morado lá a vida inteira, de que conhecia todos os pormenores da propriedade e de que os criados a respeitavam e confiavam nela. Se Dan morresse, o primo Horace sairia de Lancashire e se aboletaria ali, tomando tudo que era dela.

Hermione tentou esconder o ferimento de Dan do primo, mas aquele era o tipo de notícia que não ficava acobertada por muito tempo. Talvez algum vizinho bem-intencionado tivesse comentado com ele, pois

Horace não esperou passar nem um dia após o enterro do pai de Hermione para declarar que, como o parente homem mais próximo dela, ele deveria assumir a responsabilidade por seu bem-estar.

A solução óbvia, dissera ele, era que eles se casassem.

"Não", pensara ela, em meio a um silêncio estarrecido. "Não, de jeito nenhum."

– Precisa encarar os fatos, prima – insistira Horace, dando um passo na direção dela. – Está sozinha agora. Não pode permanecer aqui em Marswell sem um responsável.

– Então vou para a casa da minha tia-avó – dissera ela.

– Minerva? – retrucou ele, com escárnio. – Ela é praticamente uma inválida.

– Minha outra tia-avó. Cassandra.

Ele semicerrou os olhos.

– Não conheço nenhuma tia Cassandra.

– Lógico – disse Hermione. – Ela é tia da minha mãe.

– E onde mora essa tia Cassandra?

Considerando que isso não passava de fruto da imaginação de Hermione, Dorcas não morava em lugar nenhum, mas, como sua mãe era escocesa, Hermione respondeu:

– Edimburgo.

– E você deixaria o seu lar para trás?

Se fosse para evitar um casamento com Horace, sim.

– Eu vou fazer você enxergar a razão – rosnou Horace.

E, de repente, antes que ele se desse conta, ele a beijou. Quando ele a soltou, Hermione respirou fundo, e então deu-lhe um tapa na cara. Horace respondeu com outro tapa e, uma semana depois, Hermione partiu para Nova York.

A viagem levará cinco semanas – tempo mais que suficiente para que Hermione começasse a perder a confiança em sua decisão, mas ela não sabia o que mais poderia ter feito. Não entendia por que Horace estava tão determinado a se casar com ela, já que, mesmo sem isso, ele tinha uma boa chance de herdar Marswell. Hermione desconfiava de que ele devia estar com problemas financeiros, de modo

que precisava, com urgência, de um lugar para morar. Se ele se casasse com Hermione, poderia se mudar para a propriedade imediatamente, torcendo com todas as forças para que Dan nunca mais voltasse.

Hermione sabia que aquele casamento era a escolha mais sensata que ela poderia fazer. Se Dan morresse, ela conseguiria continuar vivendo no próprio lar.

Poderia passá-lo para seus filhos.

Mas, ó céus, isso significaria que seus filhos também seriam filhos de Horace, e só de pensar em ter que se deitar com aquele sujeito, em morar com aquele sujeito…

Ela não seria capaz. Marswell não valia tanto sacrifício.

Ainda assim, sua situação era delicada. Embora Horace não pudesse forçar Hermione a aceitar a proposta, ele ainda podia deixar a vida da prima muito desconfortável, e tinha razão a respeito de uma coisa: ela não poderia continuar sozinha em Marswell por tempo indeterminado. Ela era maior de idade – por pouco, já que tinha apenas 22 anos – e amigos e vizinhos até poderiam fazer vista grossa durante algum tempo, considerando as circunstâncias, mas uma moça vivendo sozinha era convite certo para as más línguas. Se Hermione se importasse com a própria reputação, logo teria que ir embora.

A ironia cruel da situação lhe dava vontade de gritar. Para preservar seu bom nome, ela teria que viajar sozinha para o outro lado do oceano. Só precisava se certificar de que ninguém em Derbyshire ficasse sabendo disso.

Dan era seu irmão mais velho, seu protetor e seu melhor amigo, e, por ele, ela seria capaz de embarcar naquela jornada, por mais que soubesse que se tratava de uma empreitada insensata – e possivelmente inútil. As infecções matavam muito mais do que os ferimentos de guerra. Sabia muito bem que, quando chegasse a Nova York, talvez não encontrasse mais o irmão.

Hermione só não havia esperado que a ausência de Dan se devesse a um desaparecimento. Foi durante esse turbilhão de frustração e derrota que ela ficará sabendo do ferimento de Harry. Compelida por uma necessidade urgente de ajudar alguém, ela marchou até o hospital. Se não podia cuidar do irmão, então, por Deus, ela cuidaria do melhor amigo dele. Sua ida ao Novo Mundo não poderia ter sido em vão.

Ao chegar ao hospital, Hermione viu-se, na verdade, em uma igreja tomada pelo exército inglês, algo que, em si, já era bastante peculiar. Para piorar, ao pedir para ver Harry, disseram-lhe com todas as letras que ela não era bem-vinda. O capitão Potter era um oficial, informará um guarda esnobe. Era filho de um conde, importante demais para ficar recebendo visitas da plebe.

Hermione ainda estava tentando entender do que o homem estava falando quando ele a olhou com desdém e afirmou que os únicos autorizados a ver o capitão Potter eram outros oficiais e a família. Foi então que Hermione disparou, sem hesitar:

– Sou a esposa dele!

Assim que as palavras saíram de sua boca, não pôde voltar atrás. Em retrospecto, era inacreditável que ela tivesse conseguido se safar com aquela mentira. Se não fosse pela presença do comandante de Harry, era muito provável que ela tivesse sido atirada na sarjeta. O coronel Dumbledore podia não ser o mais amável dos homens, mas sabia bem da amizade entre Harry e Dan e não desconfiou de nada ao ouvir que Harry tinha se casado com a irmã do amigo.

Antes que Hermione tivesse a chance de pensar duas vezes, já estava tecendo uma teia intrincada a respeito de uma corte epistolar e um casamento por procuração em um navio.

Surpreendentemente, todos acreditaram nela.

Ela não se arrependia de suas mentiras. Não havia dúvidas de que Harry estava melhorando sob seus cuidados. Quando ele tinha febre, ela molhava sua testa com uma esponja; sempre que podia, mudava a posição dele na cama para evitar escaras. Se por um lado ela já tinha visto o corpo dele muito mais do que seria apropriado para uma dama solteira, por outro as regras da sociedade deveriam ser suspensas em tempos de guerra.

E ninguém descobriria.

"Ninguém descobriria." Isso era o que ela repetia para si mesma, quase de hora em hora. Estava a mais de oito mil quilômetros de distância de Derbyshire.

Todas as pessoas que conhecia acreditavam que ela tinha ido visitar uma tia solteirona. Além disso, os Grangers e os Potters não frequentavam os mesmos círculos sociais. Hermione sabia que Harry devia ser um alvo interessante para as fofocas da sociedade, mas ela certamente não era, e parecia impossível que as histórias sobre o segundo filho do conde de Manston chegassem à minúscula vila de Matlock Bath.

Já sobre o que ela faria quando ele, enfim, despertasse…

Bem, falando francamente, ainda não tinha decidido. Contudo, logo isso se provaria irrelevante. Ela tinha imaginado centenas de cenários diferentes, mas nenhum deles envolvia a possibilidade de Harry reconhecê-la.

– Hermione? – chamou Harry.

Ele pestanejou, confuso, olhando para ela, e Hermione ficou atordoada por um instante, hipnotizada pelo verde de seus olhos.

Ela deveria estar preparada para isso. Mas logo percebeu que estava sendo ridícula. Não tinha nenhum motivo para saber de antemão qual era a cor dos olhos de Harry.

Ainda assim, de alguma maneira…

Sentia que aquela era uma informação que ela deveria ter.

– Você acordou – disse ela, uma constatação nada brilhante.

Tentou falar algo mais, mas a voz ficou presa na garganta. Tomada por emoções que nem sabia que tinha, precisou se concentrar na simples tarefa de continuar respirando. Inclinou-se sobre ele e levou a mão trêmula à testa de Harry. Não sabia por quê, já que ele tinha passado os dois dias anteriores sem febre.

Contudo, foi tomada pela necessidade de tocá-lo, de deixar as mãos sentirem o que seus olhos sentiam.

Ele estava acordado.

Estava vivo.

– Deixe o homem respirar – ordenou o coronel Dumbledore. – Vá buscar o médico.

– Vá você buscar o médico! – vociferou Hermione, retomando, enfim, a presença de espírito. – Ele é meu ma…

Sua voz morreu na garganta. Ela não conseguia proclamar aquela mentira. Não na frente de Harry.

O coronel Dumbledore, contudo, inferiu o que ela não tinha dito e, proferindo resmungos inaudíveis, saiu em disparada à procura do médico.

– Hermione? – repetiu Harry. – O que está fazendo aqui?

– Vou explicar tudo assim que possível, prometo – disse ela, em um sussurro apressado.

O coronel voltaria logo e ela preferia contar a verdade a Harry sem a presença de uma plateia. Mesmo assim, não podia arriscar que Harry a contradissesse, então acrescentou:

– Por enquanto, apenas…

– Onde estou? – interrompeu ele.

Ela pegou outro cobertor. Harry precisava mesmo era de um segundo travesseiro, mas, como não havia outro no local, o cobertor teria que bastar.

Hermione o ajudou a se sentar mais ereto na cama, escorando-o com o cobertor dobrado, e respondeu:

– Você está no hospital.

Ele olhou ao redor, desconfiado da arquitetura claramente eclesiástica do lugar.

– Um hospital com vitrais?

– Isto é uma igreja. Bom, era uma igreja. Agora é um hospital.

– Mas onde? – insistiu ele, com certa urgência.

As mãos dela se detiveram. Havia algo errado. Ela voltou o rosto para ele, apenas o suficiente para que seus olhos se encontrassem.

– Estamos na cidade de Nova York.

Ele franziu o cenho.

– Eu achei que estivesse…

Ela aguardou, mas ele não concluiu o raciocínio.

– Achou o quê?

O olhar vago de Harry mirou o nada durante um instante, e então ele disse:

– Não sei. Eu deveria…

As palavras morreram e ele contraiu o rosto quase como se estivesse sentindo dor de tanto pensar. Por fim, completou:

– Eu deveria ter ido para Connecticut.

Hermione se retesou discretamente.

– Mas você estava em Connecticut.

Harry ficou boquiaberto.

– Estava?

– Sim. Passou mais de um mês lá.

– O quê?

Uma sombra cruzou os olhos dele. Hermione achou que era medo.

– Não se lembra? – perguntou ela.

Ele começou a piscar muito mais rápido do que o normal.

– Você disse mais de um mês?

– Foi o que me disseram. Eu cheguei há pouco tempo.

– Mais de um mês – repetiu ele, balançando a cabeça. – Como pode...

– Fique calmo, não é hora de se sobrecarregar – disse Hermione, pegando a mão dele outra vez.

Achou que o gesto tranquilizaria Harry. Acabou sentindo-se, ela mesma, mais tranquila.

– Eu não me lembro... Eu estava mesmo em Connecticut? – Harry arregalou os olhos e apertou tanto a mão de Hermione que ela se sentiu

desconfortável. – Como voltei para Nova York?

Ela deu de ombros, incapaz de ajudar. Não tinha as respostas de que ele precisava.

– Não sei. Eu estava procurando Dan quando fiquei sabendo que você

estava aqui. Você foi encontrado perto de Kip's Bay, e sua cabeça sangrava muito.

– Você estava procurando Dan – repetiu Harry, e Hermione quase podia

ver as engrenagens da mente dele girando alucinadamente por trás dos olhos verdes. – Por que estava procurando por ele?

– Avisaram-nos que ele estava ferido, mas agora parece que está desaparecido, e...

A respiração de Harry ficou mais intensa.

– Quando foi que nos casamos?

Hermione abriu a boca e hesitou. Tentou responder, mas só conseguiu gaguejar alguns pronomes inúteis. Harry acreditava mesmo que eles tinham se casado? Antes daquele dia, eles nunca haviam sequer se visto.

– Eu não me lembro – retomou Harry.

Hermione escolheu as palavras com muito cuidado:

– Do que não se lembra?

Harry voltou-se para ela com um olhar atormentado.

– Eu não sei.

Hermione sabia que devia tentar confortá-lo, mas não conseguia fazer nada além de encará-lo. Os olhos dele, fundos, pareciam perdidos, e a pele, já lívida por conta da saúde debilitada, estava ficando cinzenta. Harry agarrava-se à cama como se fosse um bote salva-vidas, e ela queria poder fazer o mesmo. Tudo à volta deles parecia estar girando, comprimindo-os por todos os lados como um túnel apertado.

Ela mal conseguia respirar.

E ele parecia prestes a sucumbir ao desespero.

Ela se forçou a encará-lo, e fez a única pergunta possível:

– Você se lembra de alguma coisa?


# Espero que tenham gostado desse capítulo…

# Lembrando que toda a obra pertence a Julia Quinn e Personagens de J. K. Rowling