Primeiro Capítulo aqui!
Um Novo Mundo
Dia 1
- PARTE UM -
"Hm?"
Hirata Satoshi abriu os olhos.
Ele optou por fazer o logout faltando um segundo para o encerramento definitivo do jogo, ele ia usar mais um pouco o Dive hoje para fazer o trabalho pendente do dia seguinte.
Se ficasse até o encerramento sofreria um logout forçado e acordaria deitado na cama do seu quarto no mundo real, mas como saiu por si seu destino ia ser seu ambiente virtual de trabalho, onde teria acesso aos programas de desenvolvimento.
Hirata Satoshi era um programador responsável.
Gastar esta noite para se despedir de seu personagem Famicom em Yggdrasil e de seus velhos amigos foi um luxo que ele se deu, para compensar esse luxo ele planejava passar as próximas duas horas da madrugada programando.
Mas que porra é essa?!
Este planejamento, no entanto, nunca viraria realidade.
Apesar de ter certeza que seria enviado para seu ambiente virtual de desenvolvimento, o lugar onde se encontrava agora era totalmente diferente de sua expectativa.
Satoshi estava de pé em uma grande planície gramada sob um limpo céu noturno.
"O que é isso?! Todos estes cheiros… Ah?! Minha voz também está diferente…"
Satoshi recebeu uma explosão de novas sensações. Eram cheiros, sons e mesmo cores que nunca viu antes.
Normalmente os sentidos, com exceção da visão e audição, são completamente bloqueados quando se usa o Dive. Mesmo a visão e audição apesar de serem mantidos precisam ser limitados pela tecnologia.
Esse é um requisito jurídico importante na indústria de Dive. Nenhuma empresa que se preze quebraria essas normas, sob o risco de receber multas exorbitantes e sofrer sanções pesadas.
"Isso é tão estranho, posso sentir tanta coisa… será que isso é um sequestro virtual?!"
Com um pouco de pânico ele percebeu que não tinha nenhum menu disponível para interação a vista. Não ter um meio de fuga e ser capaz de sentir sentidos restritos poderia configurar um sequestro virtual.
Sequestros virtuais não eram uma lenda urbana. Eles realmente aconteciam. E geralmente não terminavam bem para os sequestrados, que eram sujeitos às piores experiências pelos sequestradores.
Satoshi conhecia o caso de um hacker americano que foi condenado a morte. Ele tinha torturado dezenas de pessoas e levado outras seis a morte cerebral em três países diferentes.
Ao lembrar disso, Hirata Satoshi sentiu pavor com a possibilidade de ter sido sequestrado, mas depois que fez uma melhor análise percebeu que no seu caso um sequestro virtual não era plausível.
Seu Dive pessoal era um dos aparelhos mais seguros em sua faixa de preço e não tinha falhas sensoriais exploráveis. Era um modelo para usuários cautelosos e por segurança apenas permitia alguma pequena sensação de peso.
Mas o que Satoshi sentia agora estava além de qualquer experiência virtual possível para este aparelho ou até mesmo para os de tecnologia de ponta.
Hirata Satoshi podia sentir o mundo de uma forma ainda mais vívida do que com o corpo real dele.
"Cara… isso muito mais realista que a realidade!"
A conclusão que chegou após poucos minutos de pensamentos foi que não havia como isto ser um ambiente virtual.
Hirata Satoshi podia não ser um programador de alto desempenho, mas ele conhecia os limites da tecnologia humana moderna.
Tal grau de realismo era impossível, mesmo em laboratórios.
Ele olhou para sua mão esquerda enquanto abria e fechava os dedos repletos de anéis, sentia as suas unhas grandes tocando o pulso sempre que fazia isso.
Quando tinha 9 anos de idade Satoshi teve sua mão esquerda amputada como consequência de um acidente em um veículo público. O fato de poder mover seus dedos melhor do que com qualquer prótese lhe dava ainda mais certeza da impossibilidade de estar em uma virtualização.
Quando somava a sensação clara do seu membro amputado ao seu campo de visão melhorado e a miríade de cheiros que sentia, a hipótese deste fenômeno estranho estar relacionado de qualquer forma ao Dive era risível.
"Mas então o que diabos é isso…?"
Por vários minutos ele ficou apenas olhando para si mesmo enquanto se concentrava na sua forma monstruosa, conforme se estudava informações surgiam em sua mente.
Novas informações saltando em sua mente foi uma experiência que nunca teve antes e de que nunca ouviu falar.
"Entendi... mesmo sem um menu ainda tenho acesso as minhas habilidades e magias..."
Quando se concentrou no item em sua mão direita, o item mundial Ginnungagap que tomou da criação de Tabula, novamente uma série de informações de como usá-lo inundou sua cabeça.
"Isso ser um ambiente virtual está totalmente fora de questão... mas então porque tenho os itens e esse corpo de Yggdrasil…? Será que o jogo virou realidade?!"
Isso desafiaria qualquer lógica se fosse verdade.
Durante uma dezena de minutos várias ideias loucas para explicar esta situação surgiram na sua cabeça, chegou a pensar até mesmo em coisas como sua morte e ressurreição, mas ele jogou todas elas de lado por enquanto.
Tinha algo o incomodando já a um tempo.
Naquela planície gramada ele era completamente visível mesmo a quilômetros de distância e tinha um sentimento instintivo de vulnerabilidade por causa disso.
"Deixa eu tentar usar uma magia, se não me engano acho que devo apenas... [Fly]"
Quando desejou seguramente usar a magia [Fly], Satoshi sentiu uma energia deixar seu corpo e viu um círculo de luz repleto de símbolos estranhos piscar brevemente. Informações de uso surgiram na sua cabeça e tão logo o círculo de luz se foi ele pôde sentir o efeito da mais básica magia de vôo de 3° Nível.
Ele havia lançado uma magia.
Para testar a eficiência da magia, Satoshi se ergueu vinte centímetros do chão e foi flutuando de um lado para o outro.
"Parece funcionar direito, então agora é melhor me ocultar por segurança... [Extend Magic: Perfect Unknowable]"
A segunda magia que Satoshi lançou foi uma magia de ocultação de 9° Nível que ele aprimorou com um talento metamágico para que durasse mais tempo. Satoshi reparou que lançar esta magia demorou mais tempo do que lançar a primeira, mesmo que todo processo não passasse de um segundo.
Quando sentiu que estava totalmente no controle das duas magias, ele alçou voo verticalmente.
Conforme subia ficou mais animado com o que via e com a sensação do vento na pele.
De forma imprudente subiu centenas de metros de altura.
"Voar aqui é surpreendentemente agradável! Nunca me senti tão livre!"
No jogo quando um avatar estava sob efeito de voo um menu direcional aparecia para que o jogador guiasse seu avatar. Mas agora Satoshi podia se mover em qualquer direção apenas pela sua vontade.
Voar agora parecia tão natural quanto andar e girar sobre os pés, mesmo estar tão alto no céu sequer era assustador.
"Olha essa vista… cara isso é incrível! Que lugar deve ser esse?"
A centenas de metros de altura, Satoshi olhou cuidadosamente a paisagem ao redor.
Apesar de estar de noite e não ter as luzes artificiais da Grande Tóquio para fornecer iluminação, os olhos de Satoshi podiam enxergar perfeitamente apenas com a luz das estrelas e da lua cheia.
O que ele via quando olhava ao redor era um mar de natureza e um limpo céu noturno, totalmente diferente da terra poluída do século 22.
Muito distante de si, Satoshi viu no solo mais de uma dúzia de pontos luminosos, eles estavam dispostos de forma espaçada, talvez fossem pequenas povoações ou acampamentos. Também viu um grande mar verde escuro que era uma floresta e além dela uma linha branca de uma cordilheira de montanhas nevadas.
"Aquelas luzes podem ser acampamentos. E agora… não sei nada sobre a índole dos habitantes... também não sei se foi só eu que terminei com meu avatar aqui… por segurança vou evitar entrar em contato com outros até entender meus limites."
Satoshi era precavido e não queria se pôr em perigo.
Ele não sabia quanto tempo ficaria neste lugar estranho, mas o fato de sentir tantas sensações indicava que também podia sentir dor e morrer, portanto julgava que ser cauteloso era a melhor escolha aqui.
"Vou para bem longe daquelas luzes!"
Após dizer isso em voz alta e decidir uma direção, Hirata Satoshi rumou para a extensão verde escura distante que acreditava ser uma floresta.
Seu plano era passar a noite oculto na floresta testando suas capacidades e durante o dia tentar entrar em contato com alguns dos acampamentos que viu do céu.
Ele precisou voar apenas algumas dezenas de minutos para chegar a borda da floresta.
Mesmo sob efeito de uma magia de ocultação de alto nível ele tomou o cuidado de não ficar em grande altitude ou viajar em grande velocidade.
Quando pousou a alguns metros da margem da floresta, deu atenção a uma coisa o estava incomodando um pouquinho.
"Essa minha língua é bem longa, não é?"
Satoshi segurou a língua longa e fina. Ela saia da monstruosa boca circular dele que era cheia de dentes de tubarão. Sua língua longa era tão inconveniente que falar sem salivar era um desafio para ele.
Ele ergueu a língua na altura dos olhos com a ajuda de dois de seus dedos secos de unhas enormes. Notou que também era difícil manipular coisas com unhas tão grandes.
Olhando para sua língua viu que era realmente longa como uma grande minhoca.
Era estranho pensar que aquilo era parte dele.
A raça original do avatar de Satoshi era Vampire e Satoshi usou seu corpo personalizado de Vampire quando começou no jogo. Ele tinha modelado o corpo inicial de seu avatar como um lindo garotinho europeu de cabelos dourados e olhos vermelhos que aparentava ter uns dez anos de idade.
Conforme nivelou ele escolheu outras classes raciais para seu avatar. Elas foram True Vampire, Blood Progenitor e, finalmente, Greater One.
Essas classes raciais lhe conferiam muitas stats e habilidades. E cada uma delas também lhe dava uma forma física adicional.
Mesmo tendo quatro opções de corpo, Satoshi sempre usava apenas seu repulsivo corpo atual, o dado pelos níveis de True Vampire.
O motivo era simples.
Diferente das outras, a forma de True Vampire era horrivelmente monstruosa e não ficava atrás da maioria das aparências aberrativas dos seus amigos membros da Ainz Ooal Gown.
"Talvez devesse tentar usar aquele corpo…"
A fala de Satoshi não se referia a sua forma infantil de Vampire, mas a sua última forma, o corpo racial de Greater One.
Os Greater One eram, junto com Nosferatu e Dracula, uma das três raças supremas de Vampiros em Yggdrasil. Eles eram Senhores das Massas, Lordes da Vida e da Não-Vida.
Em termos de jogo tinham habilidades raciais que poderiam ser consideradas no máximo medianas, focadas principalmente em encantamentos e controle de multidões, mas em contrapartida possuíam os melhores estatísticas de todas as raças de vampiros do jogo, comparáveis aos das raças superiores dracônicas.
Depois de decidir por tomar sua forma de Greater One, Satoshi se concentrou mais uma vez, como tinha feito antes para usar magia.
Ao fazer isso sua transformação se iniciou quase imediatamente.
Notou que estava coberto por uma luz vermelha e foi um pouco doloroso quando ele sentiu todos seus músculos se contraírem e sua pele arder.
Para seu alívio a coisa toda durou apenas alguns segundos e no fim deste processo já não havia sinal do decrépito True Vampire.
De pé na borda da floresta, estava um homem de 1,80m com a pele pálida, longos cabelos brancos que chegavam as costas e olhos desumanamente vermelhos.
Ele ainda vestia os mesmos itens de antes mas seu manto propositalmente esfarrapado que antes tocava o chão agora chegava apenas aos joelhos.
"Pensando bem acho que eu nunca personalizei esse corpo..."
De fato, Satoshi nunca modificou seu corpo padrão de Greater One. Ele preferiu investir seu dinheiro personalizando itens e sua forma de True Vampire, que era a única que ele usava.
Ele tateou o rosto por um momento e sentiu os músculos dos braços e tórax.
Seu novo corpo era, bem, bonito?
"Isso não é ruim, me sinto quase como um modelo… estou pelo menos mais apresentável que antes."
Um pouco satisfeito com sua aparência ele olhou para a floresta na sua frente.
Seu plano era se esconder por um tempo, encontrar um lugar tranquilo e testar suas convocações especiais.
Seu avatar, Famicom, era um summoner, um convocador. Tão logo ele confirmasse que suas convocações eram seguras ele já não estaria mais sozinho nesta situação estranha em que se meteu.
"Me pergunto o que foi feito de Herohero e Momonga…"
Enquanto voava até aqui ele tentou conjurar a magia de 2° Nível[Message] diversas vezes, mas nenhum dos destinatários que visava deu resposta.
"Um dos Nove Mundos de Yggdrasil pode ter virado realidade... esse lugar não é desagradável como Helheim, talvez seja Midgard ou Asgard?"
Suspirou pensativo antes de sacudir a cabeça e dar um passo para entrar na floresta.
Ele sinceramente esperava que não houvesse nada perigoso na floresta.
Satoshi andou oculto por magia pela floresta por uma hora inteira e ficou surpreso com a quantidade de cheiros, sons e vida que encontrou.
Se ainda fosse humano tudo aqui seria um breu já que a luz do luar mal passava pelas folhas das árvores. Mas agora Satoshi era um vampiro então tudo era claro como se fosse dia.
Atualmente, Satoshi estava andando sorrateiramente na ponta dos pés.
Isso por que ele encontrou uma vila rústica com dezenas de cabanas e decidiu entrar nela.
Mesmo sob efeito de uma magia de ocultação de alto nível, caminhar na ponta dos pés assim parecia a coisa certa a se fazer numa infiltração.
Enquanto caminhava olhando as cabanas feitas de vegetação, ele se lembrou que muitos anos atrás viu um documentário underground que mostrava imagens de vilas primitivas. Claro que se tratava de gravações de época, tais comunidades só existiram até a primeira metade do século XXI.
O motivo que levou Satoshi a sair do seu caminho pela floresta e fazer o percurso até o ponto central desta vila foi que ele ouviu vozes fazendo um som familiar.
"Ype, Zakada deve comer isso antes de fazer. É mais fácil dela pegar criança se Zakada comer as duas."
"Isso certo? Irmão Velho? Comer bola de javali?"
"Ype! Ype! Truque antigo! Muito certo!"
No centro da vila havia um grupo de quatro homenzinhos verdes sentados em círculo. Satoshi não tinha ideia precisa da hora, mas parecia ser tarde da noite já que quase todos os moradores estavam dormindo dentro das quase trinta cabanas de vegetação.
Talvez estes quatro homenzinhos verdes fossem responsáveis pela segurança da comunidade pois ainda estavam do lado de fora conversando. Além deles Satoshi sentia que havia alguns outros que estavam escondidos nas árvores ao redor da aldeia.
Se Satoshi tivesse que apostar ele diria que esta era uma vila de goblins.
Goblins eram uma das raças mais ineficientes para jogadores em Yggdrasil, ao ponto de serem quase ignorados em conversas sobre builds. Eles estavam facilmente entre as dez piores raças para alguém escolher.
Apesar disso alguns jogadores de destaque escolhiam eles apenas por diversão, como se quisessem dizer "mesmo com uma raça fraca sou um bom jogador".
Mas mesmo estes narcisistas não gastavam muitos níveis nessa raça, pois ela era um coletivo de desvantagens.
Para Satoshi o fato de estar em uma vila de goblins não era lá muito importante, mas a língua que estes quatro estavam usando na conversa deles que era o real negócio.
Esses caras estavam falando japonês.
Quando a audição privilegiada de Satoshi ouviu isso ao longe ele teve que vir aqui imediatamente confirmar.
"Zakada tem sorte que nós caçamos javali hoje!"
"Família está pequena! Capataz está irritado!"
"Isso porque ele comeu crianças de Zuzuru!"
Os goblins conversavam em um japonês compreensível sobre seus assuntos tribais.
Isso é impossível! Como eles podem falar japonês?!
Um Satoshi pasmo prestou atenção na conversa deles por vários minutos e nesse tempo percebeu que a boca deles se movia diferente do som que era emitido.
Eles não falavam japonês de verdade. Era como se o que falassem fosse traduzido para os ouvidos de Satoshi.
Talvez isso seja algo mágico… eu não tenho nenhuma magia assim, nem mesmo um item, muito menos uma habilidade...
O Avatar de Satoshi, Famicom, não tinha nenhuma habilidade lixo como as passivas roleplay das raças angelicais que garantiam compreensão de idiomas. Até onde sabia goblins também não tinham isso.
Isso pode ser algo que recebi quando cheguei aqui...
Satoshi não sabia se isso estava de algum jeito ligado a forma que chegou neste mundo já que as circunstâncias que o trouxeram aqui eram desconhecidas para ele. Mas poder entender os nativos desta terra seria algo que ajudaria ele muito caso ele ficasse aqui por um longo tempo.
Ele se sentou no chão e ouviu a conversa dos goblins.
Pelo que ele pode entender esta aldeia era subordinada a um tal Capataz do Gigante do Leste chamado Ba Fuu. Pelo que eles diziam, Ba Fuu exigia uma cota de caça e coleta que deveria ser repassada a cada fase da lua.
Apenas essa cota consumia metade dos recursos da aldeia.
Este Gigante do Leste deve ser o boss dessa área e fez um sistema de tributação arcaico para os mobs...
Satoshi ficou tentado a se revelar aqui e fazer alguns testes.
Apesar de poder entender o que falavam, ele gostaria de testar se a comunicação ia funcionar no outro sentido e se ele seria entendido pelos goblins.
Graças a sua habilidade passiva {Level Evaluation}, Satoshi podia dizer o nível de alguém apenas ao encará-los por um tempo e avaliando esses goblins seus níveis iam apenas do 1 a 2, muito abaixo do padrão em Yggdrasil.
Se as coisas funcionassem como no jogo seria fácil eliminá-los caso o encontro terminasse em confronto. Mesmo que fossem dezenas de milhares de goblins de nível tão baixo, Satoshi estava seguro que poderia liquidá-los com poucas magias de alto nível.
Porém Satoshi decidiu por se retirar e não confrontar estes carinhas.
Não era certo se as coisas ocorreriam exatamente como no jogo então era melhor evitar entrar em brigas e procurar uma situação ideal para um primeiro contato.
Outra coisa que pesou na decisão de Satoshi foi que a ideia de arrasar uma vila de selvagens inocentes era estranha para ele. Seria diferente se fossem inimigos ou monstros desagradáveis, mas esses goblins não pareciam merecer morrer.
Eram praticamente pessoas.
Ele até simpatizava com o goblin Zakada que encontrou uma parceira de vida a seis meses mas ainda não teve filhos e que agora mastigava duas bolas de javali cruas.
Optando pelo caminho seguro, Satoshi deixou a vila.
Hirata Satoshi então vagou pela floresta escura por várias horas.
- PARTE DOIS -
Depois daquela primeira vila goblin, Satoshi passou por outra vila demi-humana um pouco maior que além de goblins tinha quatro ogres fedorentos.
Na ocasião, Satoshi também preferiu se manter oculto.
Nas várias horas que caminhou pela floresta, ele teve que renovar sua magia de ocultação duas vezes. Gradualmente os seres da floresta começavam a se agitar dando indícios que ia amanhecer em breve.
Neste momento Satoshi adentrava em uma pequena clareira.
Ele passou a última hora circulando um raio de uma centena de metros deste lugar. E depois de ter certeza que não havia ameaças próximas ele decidiu iniciar seus testes aqui.
Satoshi se sentou na grande pedra no centro da clareira.
"O que devo testar primeiro…?"
Além de suas quatro classes raciais seu avatar Famicom tinha nove classes de trabalho. Quase todas elas eram classes focadas em convocação de aliados.
Como alguém especializado em chamar minions, Satoshi tinha muitas opções e variedades de lacaios. Ele podia convocar minions por magia, por habilidades raciais, por habilidades de classe e por inúmeros itens que colecionou durante seu tempo de jogo.
Depois de pensar um pouco Satoshi decidiu começar os experimentos convocando com magia aliados de nível muito baixo. Assim, caso eles se rebelassem ou se mostrassem hostis, ele provavelmente conseguiria se defender.
"[Summon Monster I]"
Ele usou a magia mais fraca da árvore de convocação mais genérica.
Esta magia de 1° Nível lhe dava uma ampla lista de possibilidades de criaturas para convocar, todas indo do nível 1 ao 7.
O Avatar de Satoshi, o Vampiro Famicom, tinha algumas habilidades dadas pelas classes de trabalho Summoner e Master Summoner que davam níveis adicionais às suas convocações, mas ele não quis usar isso desta vez.
O objetivo dele aqui era convocar uma criatura frágil, já que quanto mais fraca fosse a criatura mais seguro ele estaria se algo desse errado.
Pouco antes do pequeno círculo de luz que apareceu no chão se apagar uma criatura se materializou acima dele.
Era uma Formiga Gigante de nível 5.
Ela tinha o tamanho de um cachorro muito grande, sua carapaça era vermelha e resistente, com cerdas aqui e ali para melhorar seus sentidos. Suas duas mandíbulas eram enormes e pareciam perigosas. Ela moveu a cabeça de um lado para o outro até achar Satoshi, quando achou ele, ela ficou parada como se ela esperasse algo.
Satoshi podia sentir que tinha um vínculo com esta criatura, o que foi a coisa mais estranha que sentiu desde que tudo isso começou. Era como se ambos compartilhassem algo.
O mais importante para ele, porém, foi que este vínculo era hierárquico e lhe dava autoridade sobre a criatura.
"Ande até ali."
Satoshi apontou para um lugar distante e ordenou algo a Formiga Gigante.
Ela obedeceu quase imediatamente indo com suas seis patas para onde ele ordenou.
A formiga não devia ter inteligência suficiente para entender suas palavras, mas ele soube de imediato que era o vínculo que tinha com a criatura que permitia a ela realizar suas vontades.
De seu lado, o vínculo também permitia que Satoshi entesse o inseto até certo ponto.
A estranha linha de consciência que unia os dois ficava mais fina a cada segundo. Indicando que o tempo de duração da convocação diminuía lentamente.
Satoshi deu mais alguns comandos para a Formiga Gigante tentando entender as limitações da magia, quando ficou satisfeito decidiu usar uma convocação mais forte.
"[Summon Undead V]"
Novamente um círculo de luz se formou no chão e, pouco antes dele desaparecer, uma figura morta-viva de mais de dois metros estava acima do círculo.
A figura vestia uma armadura negra com esporas, uma de suas mãos equipava um escudo de torre e a outra uma grande espada ondulada.
Era um Death Knight de nível 35.
Este morto-vivo intimidante tinha uma aura de realismo sinistra sobre ele que assustaria qualquer trabalhador japonês, mas assim como com a Formiga Gigante, Satoshi sentiu um vínculo de autoridade sobre a criatura, sendo este o único motivo de não ter recuado diante da sua imponência.
Death Knights eram mortos-vivos intermediários com uma habilidade única que os permitia sobreviver ao primeiro dano mortal recebido. Isso fazia deles excelentes escudos de carne.
Assim como com a Formiga Gigante, Satoshi deu alguns comandos para este Death Knight tentando explorar as possibilidades da magia de convocação.
Durante toda a próxima hora, Satoshi testou magias de convocação. Ele usou magias de quase todas as árvores de convocação e de variados níveis de complexidade.
No fim desta hora, Satoshi tinha dezenas de convocações aguardando suas ordens.
Raios de sol já passavam entre as folhas das árvores anunciando que já havia amanhecido a algum tempo.
Ele percebeu um pouco triste que a luz do sol era desagradável para sua pele, embora não parecesse machucar a ponto de causar dano.
Satoshi lamentou por isso, mas isso era esperado, afinal seu avatar Famicom era um vampiro.
Vou ter que andar coberto durante o dia...
Depois de se conformar com este novo fato ele subiu na pedra no centro da clareira onde fazia seus testes e olhou em volta com um pouco de satisfação.
Ele tinha gasto um quinto de seu MP nos testes e agora cerca de trinta criaturas convocadas estavam a sua volta, com níveis que iam do 35 ao 75.
Eram 1 elemental, 3 anjos, 6 demônios, 9 mortos-vivos e 12 bestas mágicas. Além das convocações presentes aqui, Satoshi também tinha convocado várias Formigas Gigantes para patrulhar os arredores.
Seu avatar Famicom tinha classes de trabalho que fortalecem e prolongam suas convocações por magia.
Quando estava Yggdrasil se Satoshi desejasse podia manter uma convocação por até duas horas enquanto um mago normal de nível 100 tinha suas convocações durando apenas 15 minutos.
Com um bom suprimento de poções de mana, Satoshi podia alimentar o campo de batalha com verdadeiros exércitos duráveis, isso sempre o fez ser mais visado pelos inimigos que o healer do grupo em que estivesse.
Apesar de poder encher o campo com números, suas criaturas convocadas por magia tinham limite de nível. Quando usando magias de até 10° nível as criaturas mais forte que podia convocar eram de nível 75.
Esta era a principal desvantagem dos summoners.
Multidões neste nível podem ser um difícil adversário para jogadores comuns, mas eram fáceis de serem derrotadas por um top player de nível 100. De fato, muitos poucos summoners eram destacados e eficientes o suficiente para estarem nas listas de top players.
Para tentar compensar a desvantagem de limite de nível, Satoshi precisava de pequenos trunfos, como por exemplo, usar habilidades de classe ao invés de magias para convocar criaturas.
Nesta realidade estranha em que foi jogado, estava claro que não havia perigo para ele convocar criaturas através de magia. Mas seria o mesmo se convocasse com habilidades de classe?
Satoshi queria testar isso e para sua segurança ele montou este pequeno exército para protegê-lo antes de fazer este novo teste.
Ele ia testar convocações com habilidade de classe usando uma interessante habilidade da classe Split Soul Summoner.
O lore da classe Split Soul Summoner dizia que o personagem fragmentava sua própria alma a fim de criar com estes fragmentos servos especiais mais fortes que o acompanhariam para sempre como convocações.
Satoshi se concentrou para usar a habilidade {Call Eidolon}.
Esta era a principal habilidade da classe Split Soul Summoner. Usando esta habilidade ele poderia chamar um dos três eidolons que criou quando jogava.
Eidolons eram criações personalizadas e não meros monstros.
De forma bem resumida, Eidolons eram monstros convocados por uma habilidade de classe que tinham sua aparência e background personalizáveis, como os de NPCs de guilda, mas que mantinham as estatísticas de monstros mercenários.
Uma completa bagunça de mecânicas...
Quando se convocava um Eidolon, não havia limite de tempo para a convocação, mas enquanto o Eidolon estivesse convocado, seu avatar Famicom perderia acesso a dez por cento de seu MP máximo.
Eidolons também não perdiam níveis ao morrer e não tinham custo de ressurreição, podendo ser chamados novamente 72 horas após sua morte.
Para Satoshi a principal vantagem de um Eidolon era que esta criatura podia fazer convocações por si própria, tal coisa era proibida para quase todas as outras convocações.
Satoshi tinha optado em ter três Eidolons de nível 85, ao invés de ter um único de nível 90.
Seus Eidolons criados no jogo eram um Demônio, um Anjo e um Couatl.
"{Call Eidolon: Miyaoaxochitl}"
Quando ele finalmente usou sua habilidade sentiu algo precioso começar a deixar seu peito. Era bastante doloroso e ele sentiu como se estivesse perdendo temporariamente algo importante.
Satoshi então foi tomado por uma dor tão intensa e arqueou o corpo imediatamente.
Satoshi caiu de joelhos agarrando o tórax e arfando.
Ele ficou assim alguns segundos até a dor passar, enquanto sentia os seus minions se reposicionando a sua volta para defendê-lo enquanto estava em fragilidade.
Satoshi ainda estava abaixado se recuperando da dor que foi embora quando finalmente sentiu um novo link de convocação. Imediatamente levantou a cabeça e olhou para frente.
Não pôde deixar de ficar surpreso com a majestade da criatura que viu.
Ele precisou inclinar o pescoço completamente ao olhar para cima tentando ver a totalidade do corpo da criatura.
Na sua frente havia uma grande serpente com pelo menos cinquenta metros de comprimento da cauda a cabeça. Seu corpo enrolado era fino como o de uma cobra e ela flutuava dançando sem tocar o chão enquanto olhava fixamente para Satoshi.
As escamas da grande serpente eram das cores do arco-íris e ela tinha um gigantesco par de asas coloridas. Em sua cabeça havia uma coroa natural de penas e cada um de seus dois olhos viperinos eram maiores que a cabeça de Satoshi, um de seus olhos era violeta e o outro vermelho.
Suas grandes asas eram tão colossais que mesmo entreabertas se estendiam por cima das árvores além da pequena clareira. As penas das asas tinham várias cores e mesmo sob aquele sol de manhãzinha emitiam luzes fracas.
Se suas asas fossem abertas a envergadura delas seria ainda maior que o comprimento do seu corpo serpentino.
Esta era Miyaoaxochitl, uma Aztlán Couatl que Satoshi criou a muito tempo para ser sua scouter e também uma buffer para seus exércitos de criaturas convocadas.
"Ela é quase uma Shen Long com asas!"
Ele disse lembrando de um anime centenário que tinha ganho um remake a duas décadas.
Em seguida, Satoshi se sentou um pouco no chão para ajustar a respiração e se recuperar da dor colossal que sentiu pouco tempo atrás.
Acho que isso foi quase um parto…
Por causa desta dor, ele pensaria duas vezes antes de usar {Call Eidolon} de agora em diante.
Pelos vínculos mágicos Satoshi reparou que as suas convocações por magia estavam preocupadas com ele, mas não tinham hostilidades com Miyaoaxochitl, o que o deixou um pouco mais tranquilo.
Em verdade, ele sentia que sua ligação com seu Eidolon era ainda mais forte do que as com suas convocações por magia, o que fazia dela uma convocação segura.
No final de tudo, felizmente, os preparativos de segurança dele ao montar esta trupe para se proteger-se foram completamente desnecessários.
"Aqui estou, como solicitado por Meu Tudo!"
Uma voz voz feminina sibilante e entusiasmada foi ouvida na cabeça de Satoshi.
Isso assustou ele bastante e demorou alguns segundos até que ele percebesse que a voz que ouvia dentro de sua cabeça pertencia a Miyaoaxochitl.
Satoshi chegou a trocar palavras com alguns anjos, demônios e mortos-vivos que convocou. Mas não se aprofundou nisso, era muito estranho para ele, um programador japonês, conversar com seres de fantasia.
No entanto, diferente de suas convocações por magia, Miyaoaxochitl tomou a iniciativa de se comunicar com ele por telepatia ao invés de por voz.
Miyaoaxochitl… posso te chamar de Miya a partir da agora?
"Miyaoaxochitl é uma das partes de Meu Tudo! Se Meu Tudo deseja isso, então apenas chame esta de Miya!"
Era muito estranho conversar por telepatia.
Satoshi tinha feito alguns testes com criaturas convocadas e sempre ficava com um pequeno receio que pensamentos ou intenções vazassem junto com as palavras pretendidas. Ele não estava confiante na segurança deste tipo de conversa e por isso era melhor dedicar atenção redobrada quando em conversas telepáticas.
Eh? Você é uma parte de mim?
"Esta Miya tem estado junto de Meu Tudo a muito tempo! É uma honra para esta ser chamada por Meu Tudo logo após Meu Tudo desabrochar!"
Satoshi se espantou com o que ela disse.
Desabrochar? O que você quer dizer com isso?
"Meu Tudo sempre teve sua mente fechada para esta, mas agora esta vê que Meu Tudo liberou sua verdadeira natureza. A mente de Meu Tudo é confusa e estranha… esta Miya não consegue entender nada de Meu Tudo!"
Satoshi também não entendeu nada daquilo que foi dito e ficou completamente confuso com as palavras de Miya. Só depois de quase dois minutos de silêncio incômodo ele julgou entender o que ela quis dizer.
Aparentemente ela lembrava de Famicom da época do jogo e agora também tinha acesso a sua mente de Hirata Satoshi.
Ei…! Você pode ler minha mente?!
Satoshi perguntou espantado.
"Esta Miya é parte de Meu Tudo, então é natural que possa ler..."
Isso era perigoso.
Não apenas perigoso.
Era assustador.
Pare! Pare de ler minha mente agora!
"Miya vai tentar, mas... é muito difícil não ler! É como ter que escolher qual gota beber em um copo d'água!"
Pois se esforce então! E nunca comente sobre o que leu na minha cabeça com outros!
Depois de deixar claro que não queria ter sua mente espiada por ela, Satoshi subitamente ficou consciente que o corpo serpentino de Miya era colossal e ela devia ser facilmente vista por qualquer um com uma linha de visão acima das árvores em volta.
De fato, a luz colorida que emanava das penas de suas asas penetrava na floresta junto com a luz do sol e fazia dela um holofote mesmo abaixo da copa das árvores.
Miya… reduza seu tamanho.
"Esta fará isso, Meu Tudo!"
Os Couatl eram monstros que possuíam a capacidade natural de ampliar e reduzir o tamanho de seu corpo verdadeiro. A raça de Miya, os Aztlán Couatl, eram a realeza dos Couatl e além de alterar seu tamanho também tinham uma forma humana. Satoshi deu a Miya a aparência humana de uma Indígena Asteca do século XVI, pois até onde ele sabia os Aztecas eram os povos de onde saíram os mitos sobre Couatl.
Mas a forma humana dela não era necessária agora, já que como humana a maioria das habilidades de Couatl deixavam de funcionar tornando esta forma ineficiente em combate.
Conforme o corpo colossal de Miya brilhava levemente ele foi reduzindo seu tamanho até que depois de um minuto onde antes havia uma enorme serpente emplumada de dezenas de metros de comprimento, agora apenas uma cobrinha de trinta centímetros com asas era visível.
A cobrinha de escamas arco-íris voou alegremente até a frente de Satoshi e ficou pairando ondulante na altura de seus olhos.
"Esta Miya está bem assim? Meu Tudo?"
Sim Miya, assim serve. Por curiosidade, esse é seu menor tamanho?
"Esta pode diminuir a um terço disso, Meu Tudo."
Um terço? Isso é bem pequeno, não? Como ficam seus stats?
"Alguns baixam, outros aumentam, a maioria não muda."
Aquela foi uma resposta muito imprecisa de Miya, mas Satoshi não insistiu e mudou o tópico.
Ok, entendo. Se prepare para buffar as convocações em volta, eu vou testar outro tipo de habilidade agora e preciso de proteção. Então...
Satoshi tinha muitas coisas para testar ainda e passou as duas horas seguintes à convocação de Miya fazendo estes testes.
"Certo! Vamos até as pessoas!"
Quando ele se deu por satisfeito com a compreensão de suas habilidades neste mundo estranho ele estava um pouco mais seguro de si.
Satoshi alçou voo a procura de civilização.
- PARTE TRÊS -
A Cidade de E-Rantel é uma cidade pertencente a um país chamado Reino de Re-Estize.
Trata-se de uma cidade de fronteira, relativamente distante da capital, com imponentes muralhas que lhe renderam o título de cidade fortaleza. A cidade pertence ao domínio pessoal da realeza de Re-Estize, a linhagem dos Vaiself, e é administrada por um prefeito pessoalmente indicado pelo rei.
Esta cidade também é objeto de litígio diplomático e de confrontos militares entre o Reino de Re-Estize e um país vizinho chamado Império de Baharuth. Cerca de duzentos anos atrás Re-Estize e Baharuth eram um único país, mas conflitos internos levaram a uma secessão e desde esta época ambas as nações resultantes reclamam E-Rantel como sua.
Apenas nos últimos dez anos houve nove pequenas guerras entre estes dois países pelo controle da cidade. A cidade fortaleza tem três grandes camadas de muralhas e uma população que excede em muito cem mil habitantes. Durante a época dos conflitos a população da cidade mais do que dobra com a chegada de soldados de várias partes do Reino de Re-Estize, que se amontoam dentro de seus muros.
Esta cidade é muito importante para Re-Estize tanto geográfica quanto economicamente, pois é o caminho comercial mais seguro entre o reino e as três outras nações humanas da área: Teocracia de Slane, Império Baharuth e Reino do Dragão.
"Essa cidade, bem… como posso dizer, é feia e suja."
Estando acostumado às cidades medievais de jogos de DMMO-RPG foi um choque para Satoshi estar em uma cidade medieval real.
Todo o cheiro do esgoto nas ruelas de terra, o lixo abandonado ao acaso em pontos da cidade, as pessoas que pareciam que se banhavam uma vez na semana se muito e que vestiam panos de tecidos mal-feitos… era realmente excruciante caminhar em alguns setores da cidade.
"Felizmente nesta forma posso suprimir meu olfato... senão seria uma tragédia."
Satoshi comentou isso em voz baixa para si mesmo enquanto saía de um beco com três pequenos saco de moedas e alguns itens.
Antes de sair do beco ele olhou de soslaio para os três corpos estirados inconscientes no chão, eram os homens que tentaram roubá-lo alguns minutos atrás.
Sua forma atual não era a sua forma vampírica de Greater One, mas a de um homem humano de cabelo e olhos pretos, muito parecida com seu corpo real na terra, só que melhorada. Na terra ele era um amputado, aqui ele tinha os dois braços como uma pessoa completa.
Ele tomou esta forma graças a um item chamado "Ring of Doppelganger" que lhe permitia substituir temporariamente três de seus níveis raciais por um da raça Doppelganger. Embora ainda fosse possivel dissipar sua forma falsa, isso exigiria magias e habilidades específicas, o que fazia de seu disfarce algo quase perfeito.
"Bem… vamos retornar ao caminho original."
Antes de ser interrompido por estes ladrões ele rumava para o prédio de uma das guildas da cidade.
Satoshi tinha chegado a esta cidade vindo da floresta por volta do meio-dia.
Na floresta, ele deixou sua Eidolon, a Aztlán Couatl Miya com a tarefa de estabelecer uma posição naquela área selvagem, ele queria que ela estabelecesse uma pequena base para que ele tivesse onde retornar caso algo desse errado aqui.
Assim que chegou na cidade, ele voou oculto por sobre as muralhas e depois de constatar que era uma cidade de humanos ele usou seu "Ring of Doppelganger" para se misturar entre eles.
Ele estava a três horas vagando para obter informações.
Nesse meio tempo ele foi abordado duas vezes por bandidos.
"Bom, pelo menos isso me rendeu recursos..."
Uma das primeiras coisas que percebeu aqui foi que a moeda de Yggdrasill não tinha valor de face aqui. Quando mostrou a um comerciante uma moeda de ouro do jogo o homem disse nunca ter visto uma dessas, mas ficou muito interessado em obtê-la de Satoshi, pois ela tinha o dobro do ouro que uma moeda local.
Satoshi acabou por não trocá-la com o comerciante, já que tinha medo de ser rastreado.
Não fosse os dois grupos de bandidos que o abordaram ele talvez não tivesse dinheiro nenhum agora.
"Eu ia vender alguns itens para ter dinheiro, esses caras me pouparam este trabalho."
Em sua mente animada ele pensou que se não desse certo em nada poderia fazer do combate ao crime (e confisco dos espólios) seu ganha pão a partir de agora.
Honestamente ele não tinha remorso nenhum de ter roubado estes bandidos.
"Loot é loot… Ah! Aqui está! É um bonito prédio..."
Depois de caminhar por vários minutos Satoshi chegou onde queria. Em suas conversas com os locais ele descobriu muitas coisas sobre esta cidade, mas dentre todas as coisas o que mais o animou foi descobrir sobre este prédio.
"Haha! Uma Guilda de Aventureiros!"
Isso era como um clichê de jogos de fantasia. Embora não houvesse nada parecido em Yggdrasil, em muitos jogos do século 22 a temática de Guildas de Aventureiros era comum.
Quando cruzou as portas do grande prédio Satoshi ficou maravilhado com o interior.
Não por beleza ou opulência, mas pelo ar realista que passava.
"Estou em um mundo real afinal..."
Ele cruzou lentamente o grande salão repleto de pessoas de aparência diversa enquanto procurava por algo como um balcão de informações. Nos curtos minutos que levou para chegar ao balcão de atendimento sua animação inicial já estava muito reduzida.
Cara… o que é isso? Esses noobs são Aventureiros?!
Ele tinha aprendido com os locais que os aventureiros usavam tags metálicas que lhe indicavam o posto. Embora ele não soubesse detalhes sobre isso ele ficou espantado com o quão fracos eram os muitos aventureiros reunidos naquele salão.
Graças a sua habilidade passiva {Level Evaluation}, Satoshi podia dizer o nível de alguém apenas ao encará-los por um tempo e avaliando estes aventureiros apenas um punhado estava acima do nível 10 e ninguém chegava sequer perto do 20.
Os equipamentos eram igualmente lixosos, couro, aço, até mesmo madeira, quase tudo itens mundanos.
"... Bem-vindo senhor, me chamo Catelina, como posso ajudá-lo? O senhor deseja estabelecer uma missão em nossa guilda?"
Do outro lado do balcão, uma moça loira em um uniforme conservador lhe trouxe de volta a realidade com uma pergunta.
"Ah... oh… bem, na verdade não. O que eu quero mesmo é obter informações sobre os aventureiros. Ver se vale a pena para min virar um... ""
A moça uniformizada levantou uma sobrancelha por um instante antes de responder Satoshi com um sorriso cansado.
"Certo, senhor. A Guilda de Aventureiros existe a mais de duzentos anos e é referendada tanto por nosso país quanto pelos vizinhos. Os aventureiros devem seguir as normas da guilda em troca do status provisionado pela guilda. As normas incluem a observância da lei local, a não interferência em assuntos nacionais, no caso de clérigos a não..."
A moça falou mecanicamente pelo que pareceu vários minutos.
Parece que os aventureiros são basicamente defensores da terras humanas contra monstros e prestadores de serviços para ricos. Eles devem seguir o código da guilda para receberem a proteção dela.
Eles também tem um sistema de classificação em oito níveis que vai do mais baixo, o Cobre, seguido por Ferro, Prata, Ouro, Platina, Mithril, Oricalco e, o mais alto, Adamantina. Pelo que ela mencionou o nível Adamantina é muito raro e o nível Mithril é o maior encontrado na cidade.
"Interessante… agora não há como pular cadeiras?"
"Acho que não entendo o que o senhor quer dizer..."
"... o que quero saber é: existe algum teste que me poupe de ter que começar com essas placas de metal barato?"
A recepcionista olhou de cima a baixo avaliando Satoshi.
Satoshi estava vestido melhor que todos os aventureiros daqui. Em realidade, desconsiderando a moda estrangeira que trajava, sua roupa de mago tinha uma aparência fina e cara, totalmente acima do alto-padrão.
Suas roupas gritavam riqueza.
Depois de parecer considerar isso, a moça da recepção falou.
"O Senhor talvez seja um conjurador arcano de 2° Nível?"
Satoshi pensou um pouco antes de responder.
Eu posso conjurar os dez níveis básicos de magia, mas o mago de nível mais alto que vi aqui era nível 13… se aqui funcionar como Yggdrasil então 2° Nível é o limite para aquele cara e ele era uma placa prateada acho?
Depois de considerar um pouco, Satoshi pensou em uma resposta que acreditava que o qualificaria para ser um aventureiro de Mithril, o colocando a par com os maiores aventureiros da cidade.
"4° Nível."
Ele disse confiante.
Para sua resposta a moça da recepção arqueou uma sobrancelha e sorriu divertida.
"Por favor, Senhor. Não faça brincadeiras, o 4° Nível arcano é um domínio muito restrito, conta-se nos dedos da mão os magos que chegam em tal nível em nosso país..."
"Oh! Então isso é raro por aqui …"
"... sim. Não só aqui, mesmo em outras nações com maior tradição arcana este é um feito grande. Bom… eu diria que se este fosse realmente o caso seria uma das poucas situações em que um ingresso privilegiado na guilda seria possível. Heh, isso claro… após uma apuração e uma correta demonstração de habilidade..."
"Ótimo! Se é possível um ingresso privilegiado então, por favor, vamos adiante com meu registro..."
"... Realmente?"
Depois de confirmar a sua intenção de aderir a guilda, Satoshi teve que responder um formulário com assistência de Catelina, se encontrar com o Mestre da Guilda e fazer uma demonstração de magia.
Já era tarde da noite quando ele conseguiu sair da guilda.
Com uma Placa de Platina pendurada no pescoço.
Depois disso Satoshi, ou melhor, o aventureiro de platina recém chegado na cidade de nome Atari, procurou uma pousada para passar a noite.
"... muito simples, não é?"
O quarto que foi indicado pela dona da pousada tinha pouca mobília: uma cama de solteiro, um armário, uma escrivaninha com cadeira e um criado mudo com uma bacia de água.
Essas coisas eram tudo a vista.
O custo do quarto junto com a refeição diária foi de dez moedas de cobre.
Em Yggdrasil existiam apenas moedas de ouro, mas neste país também existem moedas de cobre e prata, sendo uma moeda de prata igual ao valor de treze moedas de cobres.
Satoshi alugou o quarto por sete dias pagando menos de seis moedas de pratas.
Depois de se sentar na cadeira em frente a escrivaninha, Satoshi gastou alguns minutos contando com cuidado sua atual riqueza.
"Uhm… trinta e seis moedas de cobres e seis moedas de pratas. Acho que vou ter que caprichar amanhã em missões..."
Durante a conversa com o Mestre da Guilda da cidade, Satoshi ficou sabendo que havia apenas quatro equipes de Platina baseadas em E-Rantel.
O Mestre da Guilda, um homem espirituoso chamado Pluton Ainzach, se ofereceu para organizar um encontro entre Atari e uma destas equipes que no momento carecia de um mago.
Não era a intenção de Satoshi se filiar a uma equipe, mas seria bom entender como é o trabalho de um aventureiro sob orientação de senpais mais experientes.
"Aventureiro, heim..."
Satoshi colocou as duas mãos na nuca pensativo.
Ainda era estranho para ele ter ambas as mãos, mas ele sempre quis fazer aquela pose reflexiva.
Ele ainda não entendia o que ocorreu com ele e se perguntava porque logo ele acabou nesta situação.
"Por que estou neste mundo ainda é uma incógnita para mim… mas já que estou aqui vou aproveitar."
Isso dito, tudo que ele podia fazer no momento era se aprender sobre este mundo, se preparando para eventuais problemas e ameaças a vida dele.
"E talvez um dia voltar..."
Ele olhou para as moedas em cima da escrivaninha e se lembrou de como obteve elas.
"Já é tarde… mas talvez ainda haja tempo para um serviço noturno?"
Um dos anéis que usava por baixo da luva era um anel de sustento que lhe permitia ficar sem comer e dormir mesmo em um corpo humano.
Satoshi estava inseguro em ter que dormir, era perigoso, o sono é um estado vulnerável depois de tudo.
"Certo vamos fazer alguma atividade durante a madrugada!"
Depois de abrir a janela e se ocultar por magia, Satoshi voou pelo céu de E-Rantel para fazer algum dinheiro com bandidos.
- FIM DO CAPÍTULO -
NOTA DO AUTOR:
Vou tentar atualizar sempre que possível a fanfic e quanto a estrutura da fanfic vou usar esta metodologia de "1 Capítulo = 1 Dia".
Meu plano inicial é uma história de 31 dias. Espero conseguir fazer isso!
Bom, a língua original é português, mas se estiverem curiosos sintam-se livres para traduzir com alguma ferramenta, o importante é que vocês leiam!
E se possível façam alguns comentários para que eu possa ficar produtivo!
Quanto a história, vocês vão reparar que o maior protagonismo está nos OCs. O Novo Mundo em si aqui vai ter muito mais destaque que os personagens da série.
A história basicamente é um "Eu soltei OCs no Novo Mundo, olha no que deu...".
Famicom (Hirata Satoshi)
Níveis Totais: 100
Níveis Raciais: 30
Vampire (10)
True Vampire (10)
Blood Progenitor (5)
Greater One (5)
Níveis de Trabalho: 70
Summoner (10)
Planar Trader (10)
Blood Drinker (5)
Master Summoner (10)
Split Soul Summoner (10)
Divine Summoner (10)
Counter-Summoner (5)
Claimant Summoner (5)
Soul Collector (5)
Status aproximado: 685
HP (85)
MP (100)
Phy. Atk. (35)
Phy. Def. (95)
Agility (40)
Mag. Atk. (45)
Mag. Def. (95)
Resistance (90)
Special (100)
Valor de Karma: 0 Neutro
