Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome de Yvonne Whittal, que foi publicado na série de romances "Julia Especial de Férias", da editora Nova Cultural.


Capítulo 2

Katniss não se encontrava no melhor dos humores quando entrou no consultório do dr. Peeta Mellark, pouco antes das seis horas da tarde. Fora um dia nublado, úmido e frio, e ela passara quase quatro horas no laboratório de análises clínicas, indo de sala em sala. Deixara-se ser picada, radiografada e ligada por incontáveis fios a aparelhos que apitavam monotonamente, rabiscando dados e gráficos indecifráveis em folhas de papel. Chegara ao escritório na hora do almoço, encontrando uma pilha de correspondência em sua mesa, e no período da tarde ocupara-se com tantos compromissos e reuniões que mal tivera tempo de conversar com o padrinho.

Peeta achava-se de pé, atrás de sua mesa, quando a srta. Rogers introduziu-a no consultório. Tinha uma das mãos enfiada no bolso do jaleco e com a outra folheava o que Katniss presumiu serem os resultados de seus exames. Ele levantou o rosto e seus olhares se encontraram, antes que ele arriscasse um rápido olhar para o corpo esguio de Katniss. Ela sentiu-se incômoda dentro do elegante conjunto de lã cinza de calça comprida e casaco longo. Por uma fração de segundo, uma quase imperceptível brecha na máscara profissional do dr. Mellark permitiu que se notasse um brilho de admiração em seu olhar. Mas ele logo se recompôs e indicou-lhe a cadeira.

- Eu estava começando a pensar que a senhorita não viria - comentou ele.

Katniss sentou-se, evitando encará-lo.

- Fiquei presa no trânsito - explicou com uma frieza involuntária.

Ao vê-la olhar interessada para os papéis sobre a mesa, ele declarou:

- Os exames foram todos negativos.

- Quer dizer que não tenho nada ?

- Eu não disse isso - ele retrucou.

A sensação de alívio que começava a tomar conta de Katniss esvaneceu-se. Ela franziu a testa, entre confusa e incrédula, mas não disse nada, esperando que Peeta continuasse.

Ele recostou-se na cadeira giratória e cruzou os braços.

- Quando foi à última vez que tirou férias ?

- O... o que isso tem a ver com a minha saúde ? - reagiu ela, na defensiva.

- Tudo. Tem tudo a ver - afirmou Peeta, com firmeza. Fitou-a por um momento e de repente ela teve consciência de que estava terrivelmente abatida - É imperativo que você faça uma pausa no trabalho e tire pelo menos seis semanas de férias. E sugiro que faça isso, não em breve, mas imediatamente.

- Mas isso está absolutamente fora de questão ! Eu não posso simplesmente largar tudo de repente e sair de férias. Estarei extremamente ocupada nas próximas semanas e...

- Acho que a senhorita não me entendeu - interrompeu Peeta, autoritário, pondo-se de pé e afastando o jaleco para enfiar as mãos nos bolsos da calça de veludo cinza - Vou lhe dar duas opções. Pode tirar essas férias agora ou pode continuar se matando de trabalhar além dos limites e acabar tendo de ser internada numa clínica de repouso por um período de, no mínimo, dois meses.

Katniss ouvia boquiaberta, e cada palavra do dr. Mellark atingia-a como um soco no estômago.

- Em termos leigos, srta. Everdeen, você tem dado demais de si mesma por tempo demais e está à beira de um colapso total.

Aquilo era um absurdo ! Era verdade que se sentia esgotada, mas aquele homem estava, no mínimo, exagerando. Seis semanas ! Como se ela pudesse simplesmente ignorar suas responsabilidades e desaparecer por um mês e meio ! Mordeu o lábio inferior, mais uma vez fugindo ao olhar do homem à sua frente. Não contestaria mais a ordem do médico, mas ele podia esperar sentado que ela obedecesse. Aquela não era, nem de longe, a ocasião ideal para tirar férias.

Ela suspirou e levantou-se, sem dizer uma palavra, dando a consulta por encerrada. Peeta Mellark nada fez para detê-la; acompanhou-a até a porta e Katniss estendeu-lhe a mão.

- Obrigada por tudo, dr. Mellark - murmurou ela, com uma polidez fria e rígida.

- Não despreze meu conselho, srta. Everdeen - advertiu ele, sério, apesar dos olhos levemente sorridentes - A senhorita precisa urgentemente tirar férias.

Katniss limitou-se a inclinar a cabeça. Decidiria ela mesma se tiraria férias ou não, e quando faria isso. No momento, férias eram o último item em sua lista de prioridades.

A irritação dela diminuíra consideravelmente quando chegou ao seu apartamento, quase uma hora mais tarde. Tomou um banho quente de imersão e vestiu um conjunto de moletom bastante amaciado pelo uso, seu preferido para ficar em casa. Em seguida, foi até a cozinha e preparou um ovo estrelado no forno microondas, ao qual adicionou uma fatia de presunto e uma porção de salada. Depois de duas garfadas, no entanto, sentiu que não conseguiria engolir mais nada. Esvaziou o prato na lixeira, colocou-o dentro da pia e preparou um cappuccino, antes de voltar para a sala, onde afundou no sofá, munida da xícara de café e de vários documentos importantes que trouxera do escritório para examinar em casa. Sua concentração, entretanto, encontrava-se na mais baixa das marés.

"Quando foi a última vez que você tirou férias?...". As palavras do dr. Mellark não lhe saíam da cabeça e forçavam a tranca de uma porta para o passado. Katniss não queria pensar, não queria lembrar, mas era impossível conter o fluxo das recordações.

Ela tinha catorze anos quando seu pai, Frederick Everdeen, abrira a primeira loja, numa rua estreita no centro de Cape Town. Com a valiosa ajuda de alguns colaboradores, trabalhando mais por amor do que por dinheiro, a Everdeen's iniciara a sua lenta e firme escalada em direção ao sucesso. O principal objetivo de Frederick Everdeen fora proporcionar uma coleção de roupas exclusivas a um preço acessível ao público de classe média e seu sonho era de que o negócio se expandisse até que existisse uma Everdeen's em cada uma das principais cidades da África do Sul. Cinco anos depois, com a badalada inauguração da filial de Johannesburgo, o sonho de Frederick começara a tornar-se realidade.

Katniss crescera sentindo-se sozinha e insegura. Perdera a mãe aos oito anos de idade e aos dezenove ainda fazia tentativas frustradas de aproximar-se do pai autocrático e dominador, esforçando-se para conquistar a sua aprovação. Talvez por esse motivo não se opusera quando Frederick decidira que ela não prestaria vestibular para a faculdade de Economia, quando concluíra o curso colegial.

"O lugar da mulher é em casa", insistira ele, e Katniss aceitara seu destino com resignação. Era importante para ela agradar ao pai, e tomar conta da casa e receber as visitas de Frederick não fora uma tarefa fácil. Ainda assim, até nisso ele conseguira apontar-lhe falhas.

Fora por essa época que ela conhecera Gale Hawthorne, um recém-formado administrador de empresas que acabara de ser contratado pela Everdeen's.

Gale !

Katniss deixou escapar um suspiro entrecortado e os documentos escorregaram de seu colo para o chão. Ela levou a xícara aos lábios, com mãos trêmulas. Não queria recordar além desse ponto; as lembranças eram dolorosas demais, mas sua mente estava fora de controle, parecendo um veículo desenfreado numa descida.

Gale Hawthorne era um rapaz bonito e arrogante, oito anos mais velho que ela. Era também ambicioso, uma qualidade que Frederick admirava, e logo se tornou de conhecimento geral que Gale estava sendo treinado para assumir um cargo importante na Everdeen's.

As ambições do jovem Gale, entretanto, haviam ido bem além disso. Ele já se via como a pessoa mais provável para herdar o negócio de Frederick Everdeen, e a filha única do empresário fora a chave para o seu sucesso.

Katniss, por sua vez, era ingênua e crédula, na época, e carente demais de amor e atenção para perceber o verdadeiro motivo por trás daquele súbito interesse de Gale Hawthorne. Sempre se considerara sem graça e desprovida de atrativos, mas Gale, com astúcia e charme, conseguira incutir-lhe autoconfiança. Frederick Everdeen tinha um alto conceito de Gale e encorajara o relacionamento dele com Katniss que, iludida, acreditara estar perdidamente apaixonada.

Casaram-se menos de dois meses depois de terem se conhecido, e ela acreditava ser a mulher mais feliz do mundo. O casamento, no entanto, foi um desastre completo desde o primeiro dia. Se sua vida já não era das mais felizes, depois do casamento transformou-se num verdadeiro inferno.

Com um estremecimento, ela lembrou-se das brigas e discussões como se tivessem acabado de ocorrer naquele instante. Levantou-se e aproximou-se da janela, contemplando sem enxergar os arranha-céus e as luzes da cidade, sob o céu escuro e nublado. A sensação de desmaio começou a invadi-la e ela deu um passo para trás, apoiando a cabeça sobre os braços. Um suor gelado formava-se em sua nuca e ela sentia dificuldade para respirar. Era como se estivesse vivendo um pesadelo.

Dois anos depois do casamento, quando estava com vinte e um anos, fora surpreendida por mais uma terrível armadilha do destino. Frederick e Gale perderam a vida quando o iate em que viajavam fora destruído no meio de uma tempestade, na traiçoeira costa de Cape Town.

Um mês depois, recebera a visita do padrinho em sua casa. Haymitch Abernathy encontrara-a caminhando sem rumo pelos jardins que circundavam a residência onde vivera com o pai e o marido. Mal sabia ela, então, que aquele encontro com o padrinho mudaria o rumo de sua vida.

Haymitch explicara-lhe que ela poderia vender a cadeia de lojas ou, exercendo seu direito como filha de Frederick Everdeen, assumir a direção da Everdeen's.

Não agradava a Katniss a idéia de vender tudo aquilo que o pai empenhara-se tanto em conseguir. Tampouco se considerava capaz de substituí-lo, mas Haymitch soubera ser persuasivo.

- Está na hora de sair da casca e tocar sua vida para frente, bem como a Everdeen's não é nenhum bicho de sete cabeças - assegurara ele, prometendo que a ajudaria em tudo que estivesse ao seu alcance, desde que Katniss estivesse disposta a aprender e a trabalhar.

E foi o que ela fez. Tudo isso acontecera há seis anos e, desde então, ela não sabia o que era tirar férias.

Afastou-se da janela com um suspiro e sentou-se no carpete, de frente para o aquecedor elétrico. Sentia-se bem melhor. Era imensa a gratidão que sentia com relação ao padrinho, que a fizera renascer para a vida.

Os primeiros meses na Everdeen's haviam sido os mais difíceis de sua carreira. Katniss iniciou sua educação profissional na fábrica, visitando todos os departamentos; falou com cada funcionário e funcionária, desde o almoxarifado até a diretoria, passando pelos cortadores de tecido, costureiras, figurinistas, office-boys... nem mesmo o pessoal da limpeza foi esquecido. E repetiu o ritual na loja, das balconistas aos setores administrativos.

Trabalhava dia e noite, estudando técnica comercial com um professor particular muito especial - seu padrinho, que trabalhava na Everdeen's desde a fundação, como chefe da contabilidade. Participava das reuniões, como ouvinte, a princípio, com Haymitch na cabeceira da mesa. Durante o processo de aprendizagem, descobriu algo sobre si mesma que até então desconhecia: herdara do pai um aguçado tino para os negócios, pelo que só tinha que agradecer.

Tomou sua primeira grande decisão oito meses depois de ingressar na Everdeen's: vendeu a casa do pai, fechando literal e figurativamente as portas do passado, e deixou Cape Town para estabelecer-se em Johannesburgo. O padrinho lhe deu todo o apoio e orientação. Assim como ela, Haymitch não tinha vínculos familiares e acompanhou a afilhada a Johannesburgo, transformando-se em seu consultor financeiro e pessoal. Nenhum dos dois se arrependeria da decisão.

O relógio sobre a lareira anunciou as horas, tirando Katniss do devaneio. Eram dez da noite, Ela pôs-se de pé e recolheu os documentos espalhados sobre o carpete, perto do sofá. Subitamente, a sala inteira começou a rodar e ela se apressou a sentar-se. Respirou profundamente, até que seus batimentos cardíacos voltaram ao normal, embora ainda pudesse senti-los. Um torpor doloroso tomou conta de seus membros, deixando em seu rastro uma estranha sensação de fadiga. Katniss fechou os olhos e recostou a cabeça.

Ela viu-se obrigada a encarar a realidade. Vinha trabalhando demais, durante multo tempo e, se por um lado o trabalho fora sua salvação, por outro erguera uma redoma à sua volta, isolando-se de tudo o mais. Dedicara-se de corpo e alma, na ânsia de tornar o sonho do pai realidade, e em seis anos, conseguira: havia uma filial da Everdeen's em praticamente todas as principais cidades do país. E mesmo assim ela ainda sentia dentro de si uma energia, uma força propulsora que a mantinha sempre em busca de novas conquistas e realizações.

"Não despreze meu conselho, srta. Everdeen". As palavras de Peeta Mellark voltaram-lhe ao pensamento. "A senhorita precisa urgentemente tirar férias".

Katniss fez uma careta e guardou os documentos dentro da pasta sem lê-los. Aquela era uma ocasião totalmente inadequada para tirar férias, ela refletiu, apagando a luz e caminhando ao longo do corredor, até o seu quarto. "Pode tirar essas férias agora, ou pode continuar trabalhando além dos limites e acabar internada numa clínica de repouso por, no mínimo, dois meses..."

Um calafrio involuntário percorreu-lhe o corpo, ao lembrar-se da advertência de Peeta Mellark. Talvez fosse o caso de pensar melhor no assunto. Uma estada de seis semanas em algum hotel tranqüilo era infinitamente preferível a dois meses numa clínica de repouso.


Ela examinava os relatórios mensais quando a campainha do telefone interno soou sobre sua mesa. Consultou automaticamente o relógio de pulso. Faltavam quinze minutos para as cinco horas, quase hora de ir embora, pensou, ao retirar o fone do gancho e pressionar o botão no painel de controle.

- O sr. Abernathy está aqui, srta. Everdeen - anunciou Effie Trinket.

- Mande-o entrar, Effie.

Katniss desligou o telefone e levantou-se vagarosamente. Sentiu uma súbita instabilidade nas pernas, mas já estava se habituando àquela estranha sensação de tontura e fraqueza sempre que se levantava após ter passado um longo período de tempo sentada. Saiu de trás da escrivaninha para receber o padrinho, que fechou a porta atrás de si.

- Olá, Haymitch - ela sorriu, beijando-o no rosto e segurando o paletó de lã que ele trazia pendurado no braço, antes de dirigir-se para a estante de mogno que cobria uma das paredes - Quer tomar alguma coisa ?

Haymitch sorriu e aceitou com um aceno de cabeça.

- Um uísque vai bem, obrigado.

- Quais são as novidades de Bloemfontein ? - quis saber Katniss. Colocou dois cubos de gelo em um copo alto e adicionou o uísque, antes de servir-se de um cálice de licor.

- As vendas estão aumentando dia após dia. Finnick Odair lhe entregará um relatório completo, amanhã de manhã.

Ela virou-se para entregar o copo ao padrinho e uma ruga surgiu na testa de Haymitch ao contemplar o rosto pálido da afilhada, marcado pelo cansaço.

- Você ainda não me parece bem - observou ele, tomando um longo gole de seu drinque.

- Tive um dia cheio... - Katniss riu, tentando encerrar o assunto antes que ele começasse. Sentou-se ao lado do padrinho no confortável sofá de couro.

- Faz mais de quinze dias que você esteve no consultório de Peeta, Katniss - lembrou ele, sério - Quando vai criar juízo e tirar as férias que ele recomendou ?

- Não posso simplesmente largar tudo e sair de férias ! - ela protestou, com veemência, embora admitisse para si mesma que estava a ponto de rachar em duas.

- Katniss - começou Haymitch, pausadamente, como se estivesse reunindo a pouca paciência que lhe restava - Nestes últimos seis anos, você provou ter ainda mais capacidade que seu pai, para os negócios. Está na hora de dar a Finnick a chance de provar o seu valor, se não quiser arriscar-se a perdê-lo para outra companhia !

Ela não podia ignorar a advertência que Haymitch incluíra em seu elogio. Era verdade, pensou, observando-o tomar mais um generoso gole de uísque. Não estava sendo inteiramente justa com Finnick, desde que ele entrara na firma, e poderia perdê-lo, se não lhe concedesse uma dose maior de responsabilidade.

- Puxa vida, Katniss, por que contratou os serviços de um assistente altamente qualificado, se não permite que ele lhe alivie parte da carga que você carrega nos ombros ?

- Conversarei com Finnick amanhã - prometeu ela, tomando uma decisão instantânea - Você conhece algum lugar onde uma pessoa exausta possa encontrar paz e tranqüilidade por seis semanas ?

Katniss sorriu da expressão de surpresa e incredulidade do padrinho.

- Por acaso, conheço - afirmou ele, inclinando-se para frente, animado - Ouvi falar de um lugarzinho simpático chamado Rosslee, na costa sul da província de KwaZulu-Natal. Parece que é um verdadeiro paraíso para os estafados.

- Será ? - Katniss tomou um gole de licor.

- Peeta me garantiu que sim.

Sem qualquer razão aparente, um espasmo nervoso contraiu as entranhas de Katniss.

- Você falou sobre isso com o dr. Mellark e ele lhe indicou Rosslee ?

- Comentamos sobre você, quando nos encontramos por acaso no clube, um dia desses, e ele disse que Rosslee é o lugar ideal para quem está precisando descansar e recuperar a vitalidade - explicou Haymitch, alheio à estranha tensão que provocara em Katniss - Parece que o próprio Peeta já esteve lá uma ou duas vezes.

- Ah... - ela tomou mais um gole de licor, forçando-se a relaxar - Bem, deve ser um lugar maravilhoso para o dr. Mellark fazer tanta propaganda. Eu posso pensar no assunto.

- Fico contente, minha querida, que você tenha finalmente concordado. Começarei a tomar as providências amanhã de manhã, para que você possa viajar o mais breve possível - Haymitch pôs-se de pé - Agora, só falta você conversar com Finnick e arrumar as malas.

- Não acha que está apressando um pouco as coisas ? - Katniss levantou-se também, observando o padrinho vestir o paletó.

- Por que esperar mais ? Prefiro saber que você está em Rosslee do que internada por aí em alguma clínica, fazendo sonoterapia - ele beijou o rosto da afilhada - Você merece essas férias, Katniss, e posso lhe garantir que a Everdeen's sobreviverá e estará aqui, sã e salva, quando você voltar !


Rosslee era um balneário pequeno e isolado, situado a poucos quilômetros de distância ao sul de Scottburgh. Além do hotel, havia uma oficina mecânica, um posto de correio e um mercadinho que vendia também roupas e artigos de praia. Entre o hotel e a formação rochosa que demarcava o limite da praia, haviam sido construídos doze chalés particulares, e Katniss viu-se forçada a concordar que, localizada no meio de árvores nativas e da luxuriante vegetação subtropical da costa sul de KwaZulu-Natal, Rosslee oferecia uma paisagem paradisíaca.

O Rosslee Hotel era uma construção de dois andares, com um jardim cujo gramado se estendia até o início da faixa de areia. Embora classificado na categoria duas estrelas, era extremamente confortável e oferecia aos hóspedes três refeições completas por dia. O quarto de Katniss, no andar superior, era espaçoso e arejado, proporcionando uma vista magnífica do Oceano Índico.

O hotel pertencia a Andrew e Jessica Riley, um simpático casal na faixa dos quarenta anos, que também eram encarregados da manutenção dos chalés. Receberam Katniss com um calor e amabilidade que a fizeram sentir-se imediatamente à vontade, dissipando todas as suas dúvidas anteriores.

- Terão de ser férias completas, sem qualquer tipo de comunicação exterior que possa perturbá-las. Você vai para Rosslee e esquecer que a Everdeen's existe - insistira o padrinho, ao despedir-se no aeroporto.

- Está me pedindo o impossível, Haymitch.

- Prometa que vai, pelo menos, tentar.

Ela prometera, mas isso fora antes de chegar a Rosslee. Era baixa temporada, o hotel estava praticamente vazio, com apenas um ou outro casal de hóspedes, e a transição do tipo de vida normalmente ativa que levava para aquela existência pacífica fora tão drástica que ela ficou imaginando o que faria para que o tempo passasse mais depressa.

Os primeiros dias foram os piores. Ela sentava-se na cama e não tirava os olhos do telefone, sobre a mesinha de cabeceira, imaginando que enlouqueceria se não telefonasse para saber como iam as coisas na empresa. À noite, assistia à TV até a programação sair do ar, e depois ficava deitada, fitando o teto, até que o desespero a invadia e ela corria para o banheiro e engolia um dos comprimidos que o dr. Mellark receitara.

Era o mês de novembro e logo seria verão na África do Sul. O clima no litoral era temperado durante os meses de inverno, como se o verão estivesse logo ali, à espreita. No auge do verão, entretanto, o calor e a umidade tornavam-se insuportáveis.

Katniss não demorou a descobrir que toda a vida do hotel era dirigida para o ar livre, sempre que o tempo permitisse. Além do restaurante, havia uma varanda com mesas e cadeiras onde, normalmente, era servido o café da manhã e também as outras refeições. A varanda abria-se para o gramado lateral do hotel, onde ficavam a piscina e as espreguiçadeiras, protegidas por guarda-sóis coloridos.

Katniss estava tomando um suco gelado, na varanda, no final da tarde do sexto dia de sua estada em Rosslee, quando percebeu que era alvo do olhar curioso de uma mulher, que a observava atentamente. Era um mulher de idade, com os cabelos brancos elegantemente penteados numa trança à volta da cabeça. Katniss estava habituada a ser observada, mas, naquele ambiente descontraído, a atitude da mulher deixava-a constrangida. Retribuiu o olhar, encontrando um par de olhinhos escuros e atentos e, por alguma inexplicável razão, sentiu-se na obrigação de sorrir, inclinando levemente a cabeça num cumprimento silencioso.

A mulher pôs-se de pé no mesmo instante, como se o sorriso de Katniss a tivesse estimulado e, trazendo sua xícara de chá para a mesa de Katniss, apresentou-se.

- Meu nome é Lucy Adler - ela começou, sem esperar ser convidada para sentar-se - Eu sei quem é a senhorita. É Katniss Everdeen, que recebeu, no ano passado, o prêmio de "Empresária do Ano".

- A senhora é bem informada - Katniss sorriu.

- Leio muito, desde que meu marido morreu, há cinco anos - explicou Lucy Adler - Assino dois jornais e compro todas as revistas de moda e atualidades.

- Está passando férias em Rosslee ? - perguntou Katniss, procurando sair da berlinda.

- Oh, não ! – Lucy Adler tomou um gole de chá - Eu moro aqui no hotel. Não tenho filhos, nem parentes próximos, portanto, depois que meu marido morreu, decidi vender minha casa em Scottburgh e mudar-me para cá.

Katniss sentiu pena da mulher. Lucy Adler era uma pessoa solitária, e Katniss sabia o que era sentir-se assim.

- Desculpe minha indiscrição, srta. Everdeen, mas tenho observado a senhorita desde que chegou aqui e fiquei com a impressão de que alguma coisa a está perturbando - Lucy Adler inclinou-se para frente e cruzou os braços sobre a mesa, estudando o rosto de Katniss com seus olhinhos negros e astutos - Está com algum problema de saúde ?

- De certa forma, sim - respondeu ela, relutante em falar de si mesma com uma pessoa que mal acabara de conhecer.

- Talvez você esteja trabalhando demais - deduziu Lucy Adler, perspicaz - Se seu problema é estafa, minha filha, não podia ter escolhido um lugar melhor para se refazer.

- Assim espero, sra. Adler - ela retribuiu o sorriso da mulher.

- Chame-me de Lucy, por favor.

- Só se me chamar de Katniss.

- Suas mãos são muito bonitas, Katniss - observou Lucy inesperadamente, estendendo o braço e segurando a mão dela com a palma virada para cima - Posso ler a sua sorte ?

Ela interpretou a oferta de Rose como uma brincadeira e aceitou prontamente, entrando no espírito do que considerou ser uma brincadeira ingênua.

- Já sei o que vai dizer - exclamou ela bem-humorada, enquanto a mulher mais velha olhava fixamente para a palma de sua mão - Vou conhecer um homem alto, loiro e bonito, num futuro não muito distante.

- Você está brincando, mas eu vejo um homem - retrucou Lucy, com uma seriedade que fez o sorriso desaparecer instantaneamente do rosto de Katniss - E é alto e loiro. O rosto não está muito nítido, mas eu diria que as feições dele são mais másculas e marcantes do que propriamente bonitas.

- Vou me apaixonar e viver feliz para sempre ? - arriscou ela, hesitante, ainda tentando não levar a sério.

- Isso depende... se você conseguir enterrar o passado - o rosto de Katniss ficou lívido, mas Lucy estava concentrada demais em sua leitura para notar - Vejo muita infelicidade em seu passado e, embora você tenha superado grande parte, algumas sombras ainda persistem - prosseguiu Lucy.

Ela estava perplexa. Seria aquela mulher realmente paranormal, ou arriscara aqueles palpites, acertando por coincidência ?

- Eu... preciso subir para trocar de roupa para o jantar - desculpou-se, levantando-se da cadeira.

Lucy Adler ergueu o rosto, ligeiramente surpresa.

- Espero não tê-la ofendido com minhas observações...

- Claro que não - Katniss tranqüilizou-a com um sorriso - Não gostaria de sentar-se em minha mesa, esta noite, na hora do jantar ?

O rosto de Lucy se iluminou.

- Eu gostaria muito, obrigada.

Deixando a mulher mais velha sozinha na varanda, Katniss entrou no hotel. A melhor coisa a fazer era esquecer os comentários de Lucy, refletiu, enquanto atravessava o saguão de piso de cerâmica enfeitado com vasos de palmeiras.

- Srta. Everdeen ?

Katniss parou no primeiro degrau da escada e virou-se para ver Jessica Riley caminhando em sua direção com um sorriso no rosto anguloso.

- Desculpe-me, mas vi Lucy Adler sentar-se em sua mesa, lá fora - declarou, indo diretamente ao assunto - Gostaria de explicar que, embora Lucy às vezes possa ser um pouco maçante, é uma pessoa bondosa e inofensiva.

- Não tenho nenhuma dúvida - retrucou ela, soando menos convincente do que se sentia.

- Nós a apelidamos de "Madame Lucy", devido a esse hábito de praticar a quiromancia com os hóspedes do hotel - Jessica sacudiu os ombros, com uma expressão condescendente - Coitada... ela diz uma porção de bobagens, mas foi à forma que encontrou de se distrair e passar o tempo. Não custa darmos um pouco de atenção.

- Eu não diria que são bobagens - interveio uma voz masculina, e Jessica virou-se para ver o marido ao lado delas como se tivesse surgido do nada.

- Ora, Andrew...

- Você sabe tão bem quanto eu, Jessica, que Lucy acerta na maioria das vezes.

- Bem...

Katniss não esperou para ouvir o que Jessica ia dizer. Desculpou-se e subiu a escada para o seu quarto, sentindo uma estranha agitação interior. Se Lucy Adler acertava na maioria das previsões que fazia, só rezava para que dessa vez ela estivesse enganada. As sombras do passado ficariam melhor se permanecessem inexploradas e a última coisa que ela queria, no presente ou no futuro, era um homem em sua vida.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 3.