Nunca temeu tanto em sua vida quanto naquele exato momento. Estava indo para um local que não conhecia com duas pessoas que não sabia nada além de seus nomes e que eram a cara um do outro. Kanon o de cabelos mais claros, alegava que era assim porque ela queria, pois também não contava nada de si. E o que contaria? Mais do que já sabia e acreditava que era tudo que tinha para saber, era sozinha e moradora de rua.
- está com fome? – Saga perguntou a olhando pelo espelho retrovisor do carro. – pode falar, não tem problema.
- sim. – ela precisou admitir, ainda sentia fome, mesmo tendo tomado café no hospital antes de receber alta.
- vou te levar a um lugar bem legal. – Saga criou uma grande simpatia pela morena, mesmo ela respondeu muito pouco e quase sempre monossilábica.
- tudo bem. – ela olhava para fora da janela do carro, quase tão calada quanto Kanon.
- casa de panquecas. – Kanon disse olhando para a tela do celular. – já que é para tomarmos café, lá é o lugar. – disse sem olhar para a menina, estavam brigados como duas crianças, pois precisou segura-la outra vez em sua última tentativa de fuga, iria gritar com ela e dizer que não era mais problema dele se ela queria voltar para a rua, mas quando viu o medo estampado em seus olhos, se limitou a brigar com ela, apenas. Teve que se colocar no lugar dela, ainda tinha medo de algo lhe acontecer.
- até quando vai ficar nesse humor? – Saga indagou ao gêmeo, mas não obteve resposta, pois o outro digitava a uma velocidade quase assustadora, provavelmente delegava tarefas a sua assistente e alguns estagiários, já que não ainda não tinha ido ao escritório aquele dia.
Nos dias em que ficou internada, Saga conversou algumas vezes com Aiolos sobre o caso dela, mas não houve avanços, visto que já tinham se passado dezesseis anos e ninguém tinha dado a jovem por desaparecida, ou seja, fora realmente abandonada a própria sorte ainda bebê.
Mas teve uma boa notícia, conseguiu com um juiz a guarda temporária da menina. No entanto, o magistrado determinou que fosse regularizada a situação dela quanto ao registro de nascimento, carteira de identidade e outras pendências. No qual o geminiano mais novo ficou responsável.
- o que é panqueca? – ela perguntou.
Os gêmeos se entreolharam, como explicar? Era tão simples, só que naquele instante parecia complexo.
- é uma massa frita que pode ser tanto doce quanto salgada. – Kanon explicou ainda sem olhar para ela.
- o que é massa? – ela indagou.
Kanon parou o que estava fazendo, encarando o nada, pela primeira vez percebeu que a menina não tinha conhecimento algum sobre as coisas. Piscou algumas vezes, tentando entender. A olhou pelo espelho retrovisor, a viu como realmente era. Uma menina, ingênua em vários sentidos. Se perguntou como deveria ser a vida dela. Ao que pode constar, solitária. Porque sequer nome tinha, ele lhe deu um. Sentiu pena dela, uma vida solitária na rua, minimamente cruel. Não ter com quem conversar, em quem se apoiar ou ter algum conforto.
- aí você nos pegou, nem tudo é tão fácil de explicar. – Saga respondeu divertido, estacionando o carro. – chegamos.
Serenity olhava tudo com curiosidade de uma criança, em suas andanças pela cidade nunca chegou perto de um lugar desses. Já tinha passado por "bandejões", lugares que serviam aos sem tento um prato de comida. Mas tinha preferência por frutas, poderia carregar e sair de perto.
Entrou depois dos gêmeos, ninguém olhou para si, talvez pelo fato de estar de banho tomado, roupas limpas e usando calçados. Tinha que admitir que era a única parte que não gostava.
Kanon sentou em uma mesa perto da janela, pegando o cardápio e lendo as opções.
O irmão olhou e depois para a morena a sua frente que retribuiu o olhar.
- quer que eu leia? – ele perguntou e ela respondeu timidamente um sim.
O outro apenas ouvia e fazendo notas mentais. Visto que ela moraria com ele, precisaria criar paciência para o jeito explosivo dela. Talvez pelos anos de solidão, foi forçada a aprender a se defender sozinha, e foi na agressividade que encontrou.
- o querem comer? – a garçonete apareceu com seu bloquinho para anotar os pedidos. Quase impossível de não flertar com os gêmeos, sendo tão bonito como eram. Olhou para a morena por alguns instantes, mas Kanon respondeu por ela.
Olhava tudo com calma, mas seu olhar pairava nas famílias. Se perguntando como seria sua vida se tivesse uma. Evitava o máximo que podia esses pensamentos, pois acabava chorando, ali não seria exceção. Uma lágrima solitária correu por seu rosto, sem perceber que era assistida pelos gêmeos.
Saga olhou na direção em que ela encava. Pais com filhos. Entendeu o que se passava na cabecinha dela. Mesmo que negasse, bem no fundo da alma, queria o conforto de uma família como todos. Sendo também o suficiente para acabar com o mau humor de Kanon com ela.
- então... antes de irmos para casa, temos um outro lugar para ir. – Saga disse atraindo a atenção dela.
- que lugar? – perguntou.
- loja de roupas, não pode usar a mesma dias seguidos. – o mais velho respondeu.
- por que não? – ela perguntou ingenuamente, pois só trocava as roupas quando estavam puídas, ou quando encontrava algum lugar doando. – eu sempre fico com a mesma roupa por muito tempo.
- agora não precisa mais. – Kanon disse voltando a sua atenção para o celular.
- problemas no escritório? – o irmão perguntou.
- é o caso que escritório pegou... – respondeu enquanto digitava.
- precisa ir para lá? – querendo se situar.
- sim. – terminando de digitar. – comer e trabalhar, Lune é o advogado da outra parte.
- entendo, realmente, melhor você ir para o escritório. – Saga comentou com o irmão. – eu levo Serenity para comprar roupas e deixo você no escritório antes.
- tudo bem. – Kanon guardou o celular e a olhou. – parece que não vai ter o prazer da minha companhia durante o dia.
Os olhos azuis apenas lhe deram atenção por alguns segundos, pois a garçonete voltou com os pedidos.
- bom apetite. – disse se retirando.
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No outro lado da cidade, um outro geminiano andava de um lado para o outro, preocupado. Há dias seus filhos apresentavam um comportamento diferente do usual. Esquivando de alguns compromissos em família, sem falar nos gastos deles. Uma conta alta em um hospital em Atenas. O que eles escondiam? Estavam doentes e não contaram nada a ninguém?
- o que esses meninos estão aprontando? – Aspros se perguntava olhando os gastos dos dois, sabia que não deveria, mas sua preocupação de pai o ganhava.
- que se passa nessa cabeça azulada? – sua esposa perguntou entrando.
Aspros guardou os papeis, não havia razão para alarmar a esposa.
- coisas do trabalho, amor. – a beijou carinhosamente. – nada com que se preocupar.
- tem notícias dos meninos? – ela perguntou. – liguei para o escritório e disseram que Kanon estava fora.
- eles tem se esquivados de nós, estava pensando em fazer uma visita surpresa. – Aspros comentou com a esposa que sorriu com a ideia.
- quando você quiser, minha vida. – ela sorria, pois tinha passado em sua mente algo semelhante. – a comida está quase pronta, tudo feito por mim.
Os olhos do marido brilharam de alegria, pois era o maior fã da culinária da esposa, depois vinham os filhos. Atalanta agradecia que os três praticavam esportes, ou então seriam três bolinhas, felizes pela comida caseira, mas bolinhas.
Esperou a esposa sair do escritório para voltar a análise dos gastos financeiros dos gêmeos. Um detalhe chamou mais atenção que os demais, "departamento de vestuário feminino", algo estava muito errado. Será que alguma mulher estava usando seus filhos para subir na vida? Alguma golpista? Não era raro mulheres se jogarem nos braços dos dois querendo um pedaço da fortuna que ele construiu ao longo dos anos.
Sacou o telefone, ligou para seu amigo de longa data e investigador particular, Kardia Nikola, lhe explicando toda a sua preocupação.
"- tudo bem, vou começar já! – Kardia disse do outro da linha. – até porque é um pouco suspeito, digo mais pela conta do hospital que você mencionou, afinal esses meninos tem a saúde de ferro."
- isso me preocupa muito, tenho muito medo do que podemos encontrar. – se sentou para continuar a conversa. – eu e minha esposa estávamos pensando em visita-los esse fim de semana.
"- uma ideia boa, afinal... não estarão preparados para esconder o que estão aprontando. – Kardia riu. – esses meninos... tenho certeza que não é nada grave, meu amigo."
- não sei não... mas acho que tem mulher no meio e uma golpista. – ele desabafou com o amigo.
"- eles são mais espertos que isso, os criou bem, mas tendo mulher no meio... vou procurar por mais detalhes. – Kardia ponderou sobre as palavras do amigo."
- tenho que ir, Atalanta está batendo na porta, a comida está pronta. – disse e ouviu uma risada do outro lado, se despedindo do amigo.
Ao chegar na sala, teve uma agradável surpresa, seus filhotes apareceram.
- quem é vivo sempre aparece! – Aspros disse abraçando os gêmeos. – agora só falta o saco sem fundo do seu tio dar as caras.
- ah, que isso pai, só tivemos muito trabalho esses dias. – Saga se justificou e deu uma cotovelada no irmão que ainda não tinha largado o celular.
- desculpe, o caso que o escritório pegou é grande e complicado, estou ficando louco... – Kanon disse guardando o aparelho. – tem consumido todo meu tempo.
- desta vez passa. – Atalanta disse servindo os filhos primeiro. – mas não terá próxima!
- ao menos nos avisem com alguma antecedência. – Aspros disse se sentando a cabeceira da mesa. – mas estou feliz que vieram.
O jantar correu tranquilamente, apesar de o mais velho analisar os filhotes tentando pescar alguma informação.
- e as namoradas? – o mais velho perguntou desinteressadamente.
- nenhuma. – Kanon respondeu bebericando o suco, não daria brecha para o pai que estava vivendo com uma mulher, mesmo ainda sendo uma menina.
- despistando todas que posso. – Saga respondeu. – parece quem tem algo no ar que as deixa loucas.
- em que sentido? – Aspros perguntou.
- loucas, pai, acham que podem sair agarrando o primeiro que veem. – Saga respondeu.
- em outros tempos, seu pai iria adorar... – Atalanta comentou em tom de ciúme.
- mulher, só tenho olhos para você há trinta anos. – Aspros disse divertido.
- aham... – Atalanta ainda estava enciumada, pois na época do namoro deles, o geminiano era disputado no tapa pelas mulheres, mesmo comprometido.
O azulado mais velho gargalhou com gosto e beijou a mão dela. Não poderia reclamar nada, pois ele era o mais ciumento do dois.
- só não se beijem! – os gêmeos disseram ao mesmo tempo, mesmo depois de tantos anos, não conseguiam ver a cena.
- hora, vocês fazem com as namoradas de vocês. – Aspros disse divertido e beijou a esposa. – você continua tão linda quanto no dia que nos vimos a primeira vez.
- galanteador, depois se pergunta a quem esses meninos puxaram. – ela riu.
Depois de muitas risadas, sobremesas e barrigas cheias, os gêmeos se despediram dos pais, prometendo não se ausentarem mais por tanto tempo.
No caminho de volta, a conversa entre eles não era tão amistosa assim.
- você a deixou sozinha e trancada? – Saga perguntava incrédulo.
- eu tinha que trancar a porta, né Saga? Ela não vai fugir nem nada, quando eu sai ela estava dormindo como pedra. – Kanon respondeu. – além do mais, só saí depois que ela jantou.
- menos mal. – o mais velho se sentiu mais aliviado. – só espero que ela não tenha acordado nesse meio tempo. Afinal ela pode só ter tirado uma soneca.
- passe dois dias lá em casa e verá que tenho razão. – Kanon retrucou. – achei que ela fosse me dar mais trabalho, mas tem sido boazinha.
- ela não estranha? – perguntou. – afinal é novidade para ela.
- um pouco, na primeira noite ela não dormiu, nem eu... – respondeu em tom cansado.
Chegaram no apartamento pouco tempo depois, as luzes da sala acesas e o som da televisão se fez presente. Foram a passos cautelosos até o recinto onde encontraram a morena com os olhos vidrados na televisão em um filme infantil.
- já está tarde. – Kanon disse sendo ignorado. – Serenity!
A moça dos olhos azuis como o Egeu desviou a atenção do aparelho para a pessoa que lhe dirigia a palavra.
- é tarde, o que faz de pé? – ele perguntou novamente.
- não durmo muito. – respondeu.
Kanon se sentou ao lado dela, tinha que ser paciente. A adaptação não era fácil para todos como era para ele.
- precisa descansar ou amanhã sentirá sono durante o dia. – ele disse, enfim reparando no pijama que ela usava, lilás com ovelhinhas desenhadas, olhou imediatamente para o gêmeo, pois só poderia ser coisa dele.
- que? Ela gostou, não pude dizer não. – Saga deu os ombros, foi divertido leva-la para fazer compras, era literalmente uma criança em uma loja de doces. – deveria ter ido, foi divertido.
O mais novo se levantou e foi em direção a cozinha, faria um chá de camomila para ela. Não poderia passar outra noite em claro, precisava trabalhar amanhã o dia inteiro.
- Sery, tem que dormir! – Saga disse firme com ela.
- mas... – ela o olhou um tanto indignada, queria ver o final do filme.
- mas nada, chá, escovar os dentes e cama. – disse com a autoridade de irmão mais velho que tinha.
- não tenho sono... – ela retrucou cruzando os braços. – é difícil...
- é para o seu bem. – Kanon estendeu para ela a xícara com o chá não muito quente. – é camomila, você gostou desse.
Pegou a xícara com cuidado e bebericou aos poucos. A mudança estava sendo muito difícil para ela, acostumada a dormir pouquíssimas horas, como forma de se proteger de possíveis ataques. Sabia que eles só queriam seu bem, depois de dias convivendo com eles.
- aqui ninguém vai te atacar ou te fazer mal. – Kanon disse com a voz mais suave, o lado bom daquela convivência entre eles era o exercício de paciência que se mostrou.
- está bem, vou tentar. – ela se deu por vencida quando olhou bem para os dois e reparou no cansaço nos olhos deles.
- que bom. – disse se levantando e olhou para o irmão. – já sabe onde é tudo, então boa noite a todos. – indo para o seu quarto.
Saga voltou sua atenção a morena que bebia o chá sem pressa. Também tinha que trabalhar no dia seguinte, mas poderia se levantar um pouco mais tarde que o irmão, faria companhia a ela.
- ele não gosta muito de mim, né? – ela perguntou desviando os olhos da tela.
- de onde tirou essa ideia? – perguntou. – ele te disse isso?
- não, ele não disse. – respondeu. – é que... não sei... parece.
- meu irmão não morou com ninguém desde que saiu da casa dos meus pais, também está se readaptando a ter mais alguém na casa. – explicou a observando, seus olhos vagarem em outra direção. – tudo bem?
- não sei... não sou boa em identificar emoções que não sejam desprezo, nojo e repulsa... – ela disse, não sabia explicar porque com um era tão fácil conversar e o outro não.
- deve ter tido uma vida muito difícil, não é? – disse enquanto tirava o calçado. – você já fugiu de algum orfanato?
- ofa... o que? – ela perguntou. – o que é isso?
Saga piscou diversas vezes os olhos, não acreditando no que ouvia. Era possível alguém não saber nada de nada? Como alguém nunca tinha ouvido ou visto nada?
- Sery, o que você conhece da cidade? – ele perguntou.
- só a parte feia, pobre. – respondeu. – sou muito burra, né? Não conheço nada... não sei nada...
- alguém deve ter cuidado de você quando bebê, se lembra dessa pessoa? – perguntou.
- não. – respondeu. – é difícil você saber de alguma coisa quando ninguém quer ficar perto de você... a pessoa que "cuidou" de mim, se teve, acho que me mandou embora ou morreu, não lembro...
O geminiano mais velho explicou algumas coisas para a mais nova, tirando dúvidas. Seria um trabalho bem árduo educa-la, ajuda-la. Mal sabiam que tinha um espectador que permaneceu quieto ouvindo tudo.
Kanon teve algumas dúvidas sanadas sobre a moça. Viveu literalmente à margem da sociedade, como um fantasma, alguém morto em vida. Era ela por ela mesma. Assim que o caso terminasse daria mais atenção a ela. Precisaria arrumar uma professora particular para ensina-la.
Deitou em sua cama e ficou a fitar o teto. Era realmente um choque de realidades. Por tudo que pescou da conversa, a moça sempre fora rejeitada e por isso se tornou solitária, não tinha quem lhe ensinasse nada, isso ainda criança. Se perguntava como ninguém reparava em uma criança sozinha pelas ruas. Sua mente começou a rever seus conceitos e também quantas crianças e adultos também ele mesmo ignorou durante a vida.
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A delegacia estava um caos. Parecia que iria explodir a qualquer momento e ainda tinha o caso que os gêmeos tinham pedido que se encarregasse. O que não estava sendo nenhum um pouco fácil, não que esperasse diferente, mas dezesseis anos era muito tempo para procurar por provas ou pessoas. Ou se perdiam ou eram esquecidas e pessoas se mudavam de um lugar para o outro. Pensou que talvez fosse melhor dar a investigação por encerrada e aconselhar os amigos a ajudarem a moça a começar uma vida realmente nova.
O som estridente do telefone o tirou de seus devaneios.
- Stefano falando. – Aiolos atendeu. – o que? COMO ASSIM? – perguntou furioso, aquela semana não estava sendo nada fácil.
Desligou o aparelho com raiva, era muito difícil que lhe tirassem do sério, mas quando acontecia, era melhor que ninguém ficasse em seu caminho. Quando o ranger da porta foi captado pelos seus ouvidos, se preparou para xingar o intruso, mas quando viu quem era, mudou de ideia.
- Shura! – Aiolos ficou surpreso ao vê-lo. – pensei que só o veria de novo no mês que vem.
- no, mi amigo. – seu forte sotaque denunciava que não nascera no país helênico. – achei algo que possa lhe interessar.
- o que seria? – ele perguntou curiosos.
- uma descrição da mulher que procura. – respondeu. – não foi fácil.
- obrigado, já tinha até me esquecido desse caso com tantos outros correndo e mais o caso que os gêmeos me passaram. – falou no assunto na maior naturalidade.
- que caso que os gêmeos passaram? – aquilo lhe atraiu a atenção.
- tranque a porta, não quero ouvidos curiosos nesta conversa. – seria melhor contar logo ao amigo, quem sabe ele não lhe daria alguma pista valiosa, começou o relato de tudo que os geminianos contaram e pediram.
Shura ouviu tudo calado, absorvendo as informações. Achou em primeiro momento que os dois eram loucos, pois levaram uma completa estranha para dentro de casa, poderia ser uma psicopata se passando de vítima, mas ao final do relato esse pensamento se dissipou, ficou comovido, como já acontecera antes. Apesar de nunca ter feito um gesto nobre como o dos amigos gêmeos, não significava que nunca tinha feito nada.
O espanhol ia regularmente a alguns orfanatos levar comida, roupas e remédios. Abraçara a causa depois de um caso complicado em seus anos como policial, quando o filho de um casal assassinado fora jogado no sistema antes mesmo do caso ser julgado. Acompanhou o jovem até o processo de adoção, que fora longo e complicado, mas nesse meio tempo conheceu tantas outras crianças e jovens com histórias diversificadas.
- me dê uma foto dessa menina, verei o que eu posso fazer sobre o assunto. – Shura pediu. – sempre há uma pista.
- sinceramente? Não sei quanto a este caso, a menina sequer foi registrada quando nasceu. – ele explicava. – pelo que Kanon me contou nesses dias, sequer nome ela tinha.
- como não deram um nome para ela? – o espanhol incrédulo.
A discussão continuou até ser interrompida por um dos inspetores trazendo notícias de outro caso que também precisava da atenção do delegado Stefano.
