Parte I

Just give me a reason

Just a little bit's enough

Just a second we're not broken just bent

And we can learn to love again

(Just Give Me A Reason- Pink feat. Nate Ruess)

.oOo.

"Algum conselho de última hora?" Harry perguntou quando finalmente se sentou para tomar café da manhã no Salão Principal de Hogwarts.

Havia chegado ao castelo na manhã do dia anterior, porém mal tivera tempo de fazer suas refeições ou se acomodar propriamente no quarto que seria seu durante todo aquele ano letivo. A maioria dos seus pertences ainda estava nas malas, esperando para serem acomodados no aposento abaixo da sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, a mesma sala que Remus Lupin e tantos outros professores ocuparam havia mais de uma década.

Harry imaginara que se sentiria incomodado no castelo, assombrado por recordações dolorosas em cada canto, mas se surpreendeu ao sentir-se tranquilo e levemente nostálgico. Era como voltar para casa depois de um longo período fora. As lembranças que lhe vinham em mente traziam mais sorrisos do que dor. Havia a saudade também, de pessoas que nunca mais veria e do garoto que nunca mais seria, mas o sentimento não era opressivo.

Havia comparecido ao jantar e à Cerimônia de Abertura do ano letivo na noite anterior, como McGonagall fizera questão que participasse. Quando apresentado para a escola como o mais novo membro do corpo docente, Harry fora recebido com aplausos e assobios de rostos curiosos e ansiosos, porém nada surpresos. Pelo visto, a notícia já se espalhara com antecedência, como não era de se estranhar que aconteceria. A algazarra teve que ser contida pela diretora e, assim que possível, Harry afundou na cadeira, recebendo alguns tapas nas costas por parte de Hagrid que quase fizeram com que desabasse sobre o próprio prato.

Passada a irritação inicial, Harry acabou se divertindo fazendo comentários com Neville sobre como era engraçado observar os novos alunos tentando não aparentar medo, os intermediários reafirmando velhas amizades com risadas e brincadeiras – muitas vezes reprováveis – e os mais velhos já formando pares e tentando se passar por adultos. Juntos, eles recordaram cada uma daquelas fases pelas quais haviam passado e riram de si mesmos.

"Deixe-me ver..." Neville pensou, enquanto mastigava seus ovos mexidos. "Bem, os primeiro e segundanistas são mais tranquilos, mais preocupados em causar boas impressões e se misturar do que qualquer outra coisa. Na verdade, na maior parte do tempo eles fazem de tudo para não serem notados. Você não terá grandes problemas com eles. Os sexto e setimanistas também não dão muito trabalho, por incrível que pareça. Normalmente, depois dos NOM's eles começam a perceber que isso aqui não é brincadeira e que boa parte do futuro deles será decidida nos próximos anos. Agora... do terceiro ao quinto ano..." ele fez uma pausa quase dolorosa. "Com esses, você deve tomar cuidado. Eles fazem de tudo para chamar atenção, querem provar que são os donos da razão e são capazes de acabar com você ao menor sinal de fraqueza, acredite."

"Animador," Harry falou, olhando já sem muito apetite para as salsichas e o bacon que havia acabado de colocar no prato.

"Mas tenho certeza que você vai tirar de letra, Harry," Neville se apressou em emendar, quando percebeu a expressão do amigo. "Tudo que tem que fazer é ser você mesmo".

'Ótimo, grande ajuda,' Harry pensou consigo mesmo. Preferia algum conselho prático, mas imaginou que teria que aprender por si mesmo.

"E quanto às desavenças entre as casas?" Harry perguntou e Neville suspirou.

"Infelizmente elas continuam, principalmente entre a Sonserina e a Grifinória. Com as demais casas, não têm ocorrido grandes problemas. Mas você logo vai perceber alguns desafetos. Se quiser, posso citar alguns nomes..."

"Melhor não," Harry falou, rapidamente. Preferia tirar suas próprias conclusões a aceitar pré-conceitos antes mesmo de conhecer seus alunos.

"Uma escolha sábia, acredito. De qualquer forma, eles não são nada sutis. Mas isso já é de se esperar na idade deles, como nós bem sabemos..."

Neville continuou falando algo sobre psicologia reversa e detenções, mas Harry não estava mais prestando atenção. Um movimento em sua visão periférica fez com que se voltasse para uma das portas de acesso dos professores ao Salão Principal, mas Harry perdeu o interesse assim que viu que era apenas a Prof.ª Vector. Não que ela fosse uma pessoa desinteressante. Porém, como não fizera Aritmancia em sua época de Hogwarts, Harry tivera pouco contato com ela e suas interações até o momento não haviam passado de breves cumprimentos.

Um estrondo na porta lateral oposta informou a todos da chegada de Hagrid, que desabou na cadeira do outro lado de Neville, reforçada especialmente para o meio-gigante.

"Dia, garotos," Hagrid vociferou, atacando as travessas de torradas, ovos, bacon e salsicha. "Como foi a primeira noite, Harry? Você ficou como Chefe da Grifinória no lugar da Florence também?"

"É claro que não," Harry falou, indignado com a mera possibilidade. Já seria desafio suficiente sem mais essa. Harry voltou-se mais uma vez para a esquerda quando pensou que mais alguém entrava no Salão, porém era apenas o Prof. Flitwick saindo. "McGonagall disse que a Prof.ª Vielmond assumiria a função."

Finola Vielmond, a atual professora de História da Magia, havia assumido a matéria logo após a reabertura da escola. Com a destruição de boa parte do castelo, muitos fantasmas residentes haviam desaparecido sem deixar rastro. Fosse pelos danos aparentemente irreparáveis daquilo que fora seu lar durante incontáveis anos ou pela guerra em si, o fato era que Cuthbert Binns nunca mais fora visto em Hogwarts.

"Ah, já estou até vendo o comentário que isso vai gerar," Neville pareceu divertido. "Os alunos vivem dizendo que o sonho de Finola é morrer em Hogwarts e continuar dando aula, exatamente como Binns. Afinal, ela não é nenhuma jovenzinha. Agora, como Chefe da Grifinória, as probabilidades disso se concretizar ficam ainda maiores!"

"Ora essa, Finola é uma mulher muito forte, eu diria," Hagrid defendeu, seu punho descendo com estrondo sobre a mesa e fazendo a louça tilintar. Aparentemente aquilo era bastante comum, pois ninguém na mesa pareceu se incomodar.

"Sim, sem dúvida!" Neville concordou apressadamente. "Ela é bastante enérgica e ouvi dizer que as aulas dela são bastante interessantes, mas você sabe como são os alunos. Além disso, eles nunca tiveram aula com o Binns, então não sabem como são sortudos. Não é mesmo, Harry?"

Harry concordou com um gesto de cabeça, enquanto bebia seu suco de abóbora.

"Lá está Teddy!" Hagrid rugiu, fazendo algumas cabeças se voltarem para as portas principais do saguão, onde um pequeno grupo de primeiranistas acabava de entrar. Obviamente, Teddy Lupin se destacava dos demais, com os cabelos azuis e o porte extremamente magro e ligeiramente mais alto que os colegas primeiranistas. "Ele está cada vez mais parecido com o pai, não é?"

"Sim," Harry concordou, sorrindo, enquanto observava o afilhado se dirigir para a mesa da Corvinal. "Mas herdou a vivacidade e o bom-humor da mãe..."

"Além dos cabelos," Harry e Neville disseram ao mesmo tempo e então riram.

"Pelo menos ele não parece ser desastrado como ela," Neville ponderou, ao que Harry teve que concordar.

Naquele momento, Harry reparou que a porta lateral se abria novamente e voltou-se para ver Malfoy entrar discretamente, tomando seu lugar ao lado de Septima Vector sem olhar para os lados ou para as mesas dos alunos, exatamente como no jantar da noite anterior. Malfoy não havia mudado muito fisicamente, mas a maturidade lhe emprestara um ar de seriedade que antagonizava com sua antiga arrogância.

Ele respondeu com cortesia ao cumprimento da Prof.ª de Aritmancia e se serviu de suco. O movimento fez com que o brilho de sua aliança captasse a atenção de Harry por um momento e ele ficou quase chocado ao se lembrar que Malfoy havia se casado algum tempo atrás com a irmã mais nova de Daphne Greengrass. Lembrava-se de Ron ter comentado quando a notícia se espalhou e como aquilo provocara uma discussão sobre o caráter de Astoria ser igual ou não ao de Daphne. Porém, desde então, nunca mais havia pensado no assunto, tanto que chegara a se esquecer.

Era estranho pensar que até Malfoy havia se casado e ele não, porém não era tão surpreendente quanto se podia imaginar. Apesar de não terem mais a pompa de antigamente, os Malfoy ainda eram respeitados pelas famílias tradicionais e não era de se admirar que estivessem preocupados em continuar sua linhagem. Como filho único, obviamente todas as chances daquilo acontecer caíam sobre Draco. Talvez, se os pais de Harry ainda estivessem vivos, Harry também teria a mesma responsabilidade pesando sobre os ombros, mas era difícil – além de inútil – até mesmo imaginar como teria sido.

"Harry?"

Harry voltou-se para Neville e logo se deu conta de que aquela não devia ser a primeira vez que este o chamava.

"Desculpa, acho que me distraí. O que você disse?"

"Eu disse que parece que Teddy já está bem enturmado, olha só!"

Harry observou enquanto os companheiros de mesa de Teddy riam de algo que ele dissera ou fizera. O garoto estava de costas para eles, mas Harry poderia apostar que estava fazendo algumas demonstrações hilárias de sua metamorfomagia.

"Seria de se admirar se fosse o contrário," Harry disse, tranquilamente. Jamais tivera preocupações quanto à adaptação de Teddy em Hogwarts. Conhecia muito bem seu afilhado e sabia que ele era um garoto cativante e comunicativo.

"Você ficou surpreso por ele ter ido para a Corvinal?" Neville perguntou e Harry franziu o cenho.

"Um pouco, eu acho," Harry admitiu, reprovando a própria preconcepção de que o afilhado iria para a Grifinória, como o pai. Por mais que repetisse seu discurso sobre igualdade entre as casas, no fundo agira como um preconceituoso qualquer. "Mas devia ter imaginado. Ele é mesmo muito inteligente."

"Tonks era da Corvinal?"

"Não." Foi Hagrid quem respondeu, fazendo com que algumas migalhas de torrada saltassem da sua boca. "Lufa-Lufa."

"Bem, não faz diferença," Neville deu de ombros. "Na verdade, acho que Teddy teria se dado bem em qualquer uma das casas. Até mesmo na Sonserina."

Aquilo fez com que o olhar de Harry caísse sobre Malfoy novamente. O loiro continuava bastante concentrado em sua refeição, sem parecer se dar conta de que o cotovelo de Vector estava quase esbarrando em seu copo de suco.

Eles já haviam se encontrado na noite anterior, durante o jantar, porém Harry estivera mais preocupado com a Cerimônia de Abertura do que em observar os demais professores. Naturalmente, Harry havia sido apresentado aos que ainda não conhecia: a nova professora de História, Finola Vielmond; Barry Ryan, de quem Ron encomendara um autógrafo; e Cosmo Marchbanks, que assumira o lugar de McGonagall em Transfiguração. Harry também tinha cumprimentado aqueles que já conhecia e acabara por apertar a mão de Malfoy. Porém, apesar de uma leve sensação de estranheza, não houvera nada fora do comum naquele cumprimento. Malfoy fora educado e o encarara nos olhos, ainda que brevemente, e então Harry foi envolvido pela animação e ansiedade do momento, esquecendo-o quase que instantaneamente.

Fora apenas tarde da noite, enquanto Harry terminava de organizar seus pertences antes de dormir, que voltara a pensar sobre o assunto. Algo na banalidade daquele cumprimento o inquietava e, quando tentava se lembrar de mais algum detalhe sobre Malfoy durante o jantar, simplesmente não conseguia. Talvez fosse porque, no passado, tivesse sido rara a ocasião em que não prestara muita atenção ao que Malfoy pudesse estar fazendo ou maquinando, ou talvez Harry simplesmente não conseguisse ligar aquele adulto apático ao adolescente que conhecera. Mas a resposta que lhe ocorreu naquele momento, enquanto o observava atentamente, foi quase chocante.

Harry estava diante de um estranho. Apesar de saber alguma coisa ou outra sobre os Malfoy, já não conhecia mais Draco. Não fazia ideia do que ele passara durante todos aqueles anos, que tipo de pessoa havia se tornado, quais suas convicções, suas ambições... E o que Neville disse em seguida apenas serviu para ilustrar ainda mais o tamanho do abismo que se formara entre eles.

"Difícil imaginá-lo como pai, não acha?"

"O quê?" Harry voltou-se para Neville, as sobrancelhas franzidas em confusão. "De quem você está falando?"

"De Teddy," Neville zombou, rolando os olhos. "De Malfoy, é claro! Não é para lá que você está olhando desde que ele colocou os pés no Salão?"

Harry piscou, aturdido.

"Malfoy é pai?"

Neville o encarou por alguns segundos.

"Você continua evitando ler o Profeta, não é mesmo Harry?"

Harry suspirou.

"Sim." Ele tornou a olhar para Malfoy como se esperasse reparar em alguma mudança física gritante depois daquela revelação. "Tem mais alguma coisa que eu deveria saber a respeito dele?"

"Bem, você sabe que ele é casado, certo?"

"Sim, com Astoria Greengrass. Pule essa parte."

Neville assentiu.

"Malfoy começou a lecionar aqui em Hogwarts pouco tempo depois de se casar, então já faz cerca de seis anos. Eles têm um menino, Scorpius. Ele deve ter uns três anos agora." Neville pensou por um momento. "Na verdade, não sei muita coisa além disso. Ele não conversa muito e também não participa das confraternizações dos outros professores. É claro que isso só dá mais asas para a imaginação de quem gosta de uma fofoca – e posso garantir que existem muitos por aqui, como em qualquer lugar –, mas muito do que se ouve não passa de especulação, mesmo."

Harry já estava prestes a perguntar a que ele se referia quando Neville fez menção de se levantar.

"Cara, acho que é melhor eu ir andando. Tenho que terminar de colocar a estufa em ordem. Você se surpreenderia com a quantidade de ervas daninhas que crescem em tão pouco tempo durante as férias. E a maioria delas é bastante melindrosa. A gente se fala mais tarde."

Com a desculpa de terminar de arrumar sua própria sala antes do início das aulas, Harry também se despediu de Hagrid.

.oOo.

Quando o sinal finalmente soou, marcando o início da primeira aula, o silêncio se alastrou pela sala de aula já cheia. Se aquela não fosse uma turma de terceiranistas grifinórios e corvinais, talvez Harry tivesse tomado aquilo como um bom sinal. Porém, se o que Neville dissera fosse verdade, a única maneira de o ano letivo ter começado pior para Harry seria se a turma fosse de terceiranistas grifinórios e sonserinos.

Os alunos haviam começado a chegar quinze minutos atrás e as carteiras da frente foram as primeiras a serem ocupadas. Apesar da visível animação do começo de ano, havia uma expectativa quase palpável por parte dos alunos. Eles cochichavam e lançavam seus olhares arregalados sobre Harry, disfarçando sempre que ele levantava a cabeça. E, caso alguma risada saísse mais alta que o planejado, ela terminava tão subitamente quanto começara. Cinco minutos antes das nove horas, a turma já estava completa. Harry contou três vezes somente para se certificar de que não contara ninguém duas vezes.

Aqueles pareceram os mais longos cinco minutos da sua vida. Harry limpou a garganta.

"Bom dia a todos." Harry esperou pela resposta antes de prosseguir, se movimentando na frente da classe para dissipar um pouco do seu nervosismo, porém procurando não deixá-lo transparecer. "Meu nome é Harry Potter e, como vocês já sabem, serei o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas durante este ano. Vou começar fazendo a chamada e gostaria que vocês levantassem a mão para que eu saiba os nomes de vocês."

Havia um ou outro sobrenome familiar, porém a maior parte era desconhecida para ele. Harry logo percebeu que pequenas coisas, como a maneira de responder à chamada, já diziam muito sobre o caráter de alguns deles.

"Muito bem," Harry recomeçou a andar a passos contidos. "Como estou em desvantagem numérica, farei o possível para lembrar os nomes de vocês, mas posso precisar perguntar novamente, ao que peço a compreensão de vocês. Como já havia sido programado pela Prof.ª Wigmore, tentarei acompanhar o livro de Quintino Trimble, mas não vou me restringir a ele. A cada aula, vou pedir que vocês leiam a matéria antes, para que possamos discutir em sala de aula, caso haja alguma dúvida, antes de partir para a prática." Naquele ponto, houve um leve burburinho de excitação por parte dos alunos e Harry se perguntou que tipo de professora era Wigmore. "Alguém tem alguma dúvida?"

Duas dúzias de mãos se levantaram e nem todas elas eram da Corvinal, o que não poderia ser bom sinal.

"Srta. Abercrombie," Harry chamou uma garota loira com o rosto coberto de sardas que havia levantado a mão ligeiramente à frente dos colegas.

"É verdade que você fez seu primeiro patrono no primeiro ano de Hogwarts?"

"Não, eu estava no terceiro ano, como vocês." Harry franziu a sobrancelha e, percebendo que ela já se preparava para outra pergunta, continuou. "Mas foi por uma questão de necessidade. É um feitiço complicado para se aprender fora do tempo e receio que está previsto apenas na grade do sétimo ano."

"Mas o Prof. Longbotton disse que você ensinou a todos os integrantes da Armada de Dumbledore!" um garoto de rosto largo e bigodes precoces respondeu, petulante, e Harry fez uma anotação mental para ter uma conversa com Neville mais tarde.

"Como eu já disse, foi por uma questão de necessidade. Estávamos em meio a uma guerra. E, da próxima vez que quiser fazer uma pergunta, levante a mão, por favor, Sr. Stammel."

Outra dezena de mãos se levantou e as narinas de Harry se alargaram.

"Sr. Welter."

"Você realmente é um ofidioglota?"

Harry o encarou por um momento.

"Você tem alguma outra pergunta mais relevante, Sr. Welter?"

"É verdade que você matou Voldemort com as próprias mãos?" o garoto perguntou, sem nem mesmo piscar e Harry se recusou a lhe dirigir uma resposta, olhado para as demais mãos estendidas para alto.

"Alguma dessas perguntas diz respeito à matéria?"

Algumas mãos se abaixaram timidamente e outras se seguiram alguns segundos depois, diante do olhar penetrante de Harry.

"Srta. Harper."

"Você pretende fazer algum Clube de Duelos, como os que você participava?"

"E quem disse..." Harry começou, porém foi interrompido por outro aluno ávido.

"Você realmente consegue fazer feitiços sem usar a varinha?"

"Você já usou alguma Imperdoável além da que matou Voldemort?"

"Você é mesmo imune à Maldição da Morte?"

"Chega!" Harry falou com um pouco mais de energia do que planejava. Dezenas de pares de olhos se esbugalharam e algumas garotas se encolheram, assustadas. "Deixe-me esclarecer algumas coisas antes de começarmos a aula. Número um, qualquer um que desejar fazer uma pergunta ou comentário deverá levantar a mão e aguardar meu convite para falar. Número dois, qualquer pergunta ou comentário será bem-vindo, desde que se atenha aos assuntos relacionados à matéria e que venham a contribuir para a aula. E, caso ainda não tenha ficado claro, número três, perguntas de ordem pessoal não serão toleradas. Fui claro?" Harry aguardou alguns segundos, olhando de um rosto potencialmente problemático para outro e, quando não houve resposta, insistiu. "Fui claro?"

Um coro fraco de aquiescência se seguiu, mas Harry pôde identificar alguns rebeldes. Porém, por hora, teria que se contentar com aquilo.

"Agora, alguém tem alguma pergunta?" O silêncio se prolongou por um momento. "Ótimo, vamos dar início à aula."

Só então, Harry se permitiu suavizar sua expressão, ainda que levemente. Pelo jeito, teria que manter sempre em mente o conselho de Neville sobre não demonstrar fraqueza.

.oOo.

As demais turmas não foram muito diferentes da primeira. Porém o alvoroço não fora tão grande, pois Harry estava melhor preparado para a chuva de perguntas - desde sua entrada precoce para o time de quadribol até o rumor de que havia criado uma sociedade secreta de bruxos mestiços -, mas o conselho de Neville se mostrara verdadeiro até então, no que se dizia às faixas etárias mais e menos problemáticas. Harry se mostrava firme e irredutível até que, eventualmente, os alunos se acalmavam e a aula corria sem maiores dificuldades.

Harry decidira aceitar todos os alunos que tiraram acima de Excede as Expectativas nos NOM's nas suas turmas de sextanistas. Como Neville previra, a turma não dera tanto trabalho quanto os outros, apesar de Harry ter notado uma quantidade preocupante de meninas suspirantes nas primeiras fileiras. Desconfiava que a maioria delas não houvesse prestado tanta atenção no que dissera quanto em quem dissera. Neville provavelmente se esquecera de mencionar aquele aspecto das turmas mais velhas em seus comentários e Harry provavelmente precisaria de algum conselho sobre como lidar com aquilo de forma a evitar constrangimentos. Mas, o mais surpreendente de tudo fora ver quão poucos sonserinos havia nas classes - e talvez na escola como um todo.

Lembrava-se de McGonagall ter comentado sobre aquilo algum tempo atrás, como os novos alunos pareciam cada vez menos propensos a serem sorteados para a Sonserina, porém fazia mais de oito anos que a escola fora reaberta e as coisas já deveriam ter melhorado desde então, embora claramente ainda não tivessem se normalizado. Durante a última aula do dia, os sonserinos não causaram problemas, apesar de terem evitado os lugares mais à frente e se agrupado no fundo da classe como se num ato de autopreservação. Era perturbador pensar em qual poderia ser o motivo para o agrupamento: se para se proteger dos demais alunos, compensando a grande desvantagem numérica, ou do Professor ex-Grifinório e Exterminador de Lordes das Trevas que havia sido responsável por mandar parentes de pelo menos dois deles para Azkaban.

De qualquer modo, o dia fora tão corrido que Harry sequer se lembrara de confrontar Neville sobre algumas coisas que havia ouvido dos alunos. Pediu que seu jantar fosse servido em seu quarto e passou boa parte da noite em claro, preparando as aulas do dia seguinte.

.oOo.

Não demorou para que Harry percebesse que as terças-feiras seriam seu dia da semana favorito. O dia seria dividido entre duas turmas de segundanistas, uma de primeiranista e outra de setimanistas, não necessariamente nessa ordem, culminando com dois períodos livres que Harry poderia aproveitar para se preparar para as aulas do dia seguinte. Harry logo desejou que todos os seus alunos fossem tão ávidos em aprender quanto os setimanistas. Pela primeira vez, se sentiu mais à vontade numa aula e teve esperanças de poder tirar algum proveito daquele ano em Hogwarts.

Depois do almoço - um sanduíche trazido pelos elfos do castelo -, foi a vez da turma de Teddy, que dividiria a sala de aula com os lufa-lufas. Deslumbrados com a decoração da sala de aula – cabeças encolhidas, esqueletos de diversas criaturas, incluindo o de um dragão, pendendo do lustre - os primeiranistas corvinais ocuparam rapidamente as primeiras carteiras, exceto por um pequeno grupo que se alojou próximo à porta da sala, seu afilhado entre eles. Harry teve a impressão de que Teddy já havia estabelecido certa liderança, pela maneira como seus companheiros pareciam se agrupar ao redor dele.

Após uma breve apresentação de sua matéria e seu método, Harry fez a chamada.

"Isolde Lerner."

"Presente," disse uma garota miúda cujos óculos pareciam pertencer a alguém muito maior.

"Edward Lupin," Harry chamou e esperou por uma resposta que não veio. Ao levantar a cabeça, viu que Teddy sorria para ele, com as sobrancelhas levantadas. "Edward Lupin," Harry repetiu com a voz firme e o sorriso de Teddy vacilou.

"P-presente," o garoto gaguejou e Harry teve a impressão de que ele afundou um pouco na cadeira, enquanto seus colegas disfarçavam risinhos.

"Amias Neumann," Harry continuou, como se nada de extraordinário tivesse acontecido.

Ao final da chamada, Harry se levantou da sua cadeira e pôs-se a andar pela sala, como logo descobriu que fazia com que se sentisse mais à vontade. No entanto, começava a perceber que boa parte do nervosismo do dia anterior já havia se dissipado.

"Muito bem, primeiramente eu gostaria de saber quantos de vocês nunca tiveram contato com o mundo mágico antes de receber a carta de Hogwarts." Ele observou enquanto alguns alunos se remexiam na carteira e outros olhavam de um lado para o outro. "Vamos lá, não se acanhem. Levantem as mãos," Harry falou, levantando a própria mão para o alto. "Eu mesmo me enquadro nessa categoria, não tenho vergonha de admitir isso." Ele observou enquanto algumas mãos se levantavam timidamente. "Onze. Excelente. Vocês serão meus auxiliares na aula de hoje. Eu gostaria de saber o que vocês sabem a respeito de vampiros. Algum voluntário? Sr. Ruschel," ele chamou um garoto negro de olhos cor de mel que levantara a mão hesitantemente.

"Eles mordem as pessoas?" o garoto falou, acrescentando rapidamente um "Professor?" ao final, ao perceber sua falta de respeito.

Harry conteve o sorriso enquanto alguns alunos riam.

"Na verdade, eles se alimentam de sangue. Depois vamos esclarecer melhor essa história de morder pessoas, mas o que acontece com uma pessoa que é mordida por um vampiro?"

"Hmm... Ela vira um vampiro também?" Ruschel falou, se encolhendo com a perspectiva de novas risadas, que nunca vieram.

"Sim! O que mais?"

"Eles não gostam de alho," o garoto falou, com mais confiança.

"Correto. Mais alguma coisa?"

"Eles brilham no sol."

Houve uma explosão de risadas, que Harry teve que repreender rapidamente. Mas não sem antes notar que Teddy estava se acabando de rir com os amigos.

"Pessoal, não é motivo para rir. Vocês viram que a noção que os trouxas têm sobre os vampiros é bem próxima da realidade?"

"Professor, eles existem mesmo?" perguntou uma garotinha de olhos arregalados.

"Sim, eles existem. Mas são inofensivos, na maior parte do tempo. Os trouxas temem aquilo que desconhecem, por isso os vampiros são associados a histórias de terror entre eles, mas também são considerados personagens fictícios ou folclóricos. Então eles se sentem livres para inventarem coisas a respeito, como a questão de brilhar ao sol. Na verdade, eles são criaturas noturnas e não sobrevivem ao sol. Mais alguém gostaria de falar o que sabe? Não tenham medo de errar, todos vocês estão aqui para aprender. Srta Horn?" Ele passou a palavra para a garotinha que se manifestara anteriormente, tentando ignorar a pequena comoção que se formava no lugar em que Teddy estava.

"Eles têm presas como animais e... são pálidos como cadáveres, senhor?"

"Sim, eles... Sr. Lupin," Harry franziu o cenho, incapaz de ignorar o afilhado por mais tempo. Teddy havia mudado a própria aparência de acordo com a descrição da garota, fazendo com que vários alunos se voltassem para assistir sua performance. "O senhor gostaria de vir aqui na frente para fazer sua demonstração para a sala toda?"

Teddy recolheu os dentes pontudos, a cor voltando lentamente às suas bochechas enquanto seu cabelo passava rapidamente do preto para o costumeiro azul.

"Não," Teddy falou rapidamente e, diante do olhar estreito do padrasto, se corrigiu. "Não, senhor."

"Muito bem, então guarde suas brincadeiras para o final da aula, ou vou começar a deduzir pontos." Ele voltou-se novamente para Horn. "Como eu dizia, estas são características físicas pelas quais você pode reconhecer um vampiro. Por mais que afirmem se tratar de mera superstição, os trouxas se lembram dessas características desde antes do Estatuto Internacional do Sigilo em Magia, quando os vampiros não disfarçavam sua natureza mágica dos trouxas, como nós bruxos também não disfarçávamos. Mas vocês provavelmente aprenderão mais sobre isso na aula de História da Magia..."

Harry continuou sua aula sem maiores interrupções, notando com pesar como Teddy passara a ignorar os olhares dos amigos, brincando com sua pena, de cara amarrada. Esperava poder falar com ele ao final da aula, mas, assim que o sinal soou, Teddy foi um dos primeiros a sair.

.oOo.

Harry levantou os olhos do livro As Forças das Trevas – Um Guia para a Sua Proteção quando ouviu o rugir da lareira e avistou a cabeça flutuante de Neville.

"Aí está você. Pretende aparecer para o jantar, hoje?"

Harry suspirou e esfregou os olhos por trás dos óculos.

"Acho que sim."

"Bom. Se você perder mais uma refeição, vão achar que você está concorrendo com Finola Vielmond como sucessor do Prof. Bins. A gente se vê no Grande Salão." Ele sumiu antes que Harry pudesse dizer mais alguma coisa.

Depois de um último olhar resignado para a pilha de pergaminhos que se acumulara em sua mesa, Harry resolveu jogar água no rosto antes de descer para o Salão Principal.

"Ei, Harry!" Hagrid cumprimentou quando Harry passou pelo meio-gigante para se sentar ao lado de Neville. Sem que percebesse, seu olhar viajou até a outra ponta da mesa dos professores, onde era possível ver um pedaço do cabelo loiro de Malfoy. Cosmo Marchbanks, que se sentava ao lado do lugar sempre vazio de Finola Vielmond acenou, provavelmente imaginando que Harry olhava em sua direção. Harry respondeu ao aceno, um pouco desconcertado.

"O que acha de ir tomar chá comigo e Neville amanhã à tarde?" Hagrid falou, olhando por cima de Neville com facilidade.

"Ah, sinto muito, acho que vai ficar corrido. Tenho uma turma no último período." Harry se serviu de purê de batata sem muita vontade. "Quintanistas grifinórios e sonserinos."

"Ouch... meus pêsames," Neville falou, solidário. "Podemos mudar o chá para outro dia, Hagrid. O que acha?"

"Por mim, tudo bem. Quando você pode, Harry?"

"Tenho o último período livre às terças e quintas," Harry falou, depois de se esforçar para lembrar de sua agenda.

"Melhor às quintas, então," Neville propôs, olhando para Hagrid questionadoramente.

"Fechado." A barba de Hagrid se mexeu conforme ele sorria. "Todas as quintas às cinco da tarde. Como nos velhos tempos, hein, Harry?"

Harry sorriu para o meio-gigante e se obrigou a comer alguma coisa.

"E então?" Neville levantou as sobrancelhas. "Muito ruim?"

"Hoje até que foi tranquilo," Harry admitiu. "Mas ontem... Ei, você andou soltando a língua sobre a Armada de Dumbledore, foi?"

Neville teve a decência de parecer envergonhado enquanto encolhia os ombros.

"Eles sabem ser insistentes, quando querem. Quando preciso chamar a atenção deles para algo importante, basta falar sobre a guerra ou a Armada que eles ficam todos em silêncio, os olhos brilhando de excitação. É infalível." Ele fez uma pausa para beber um gole do seu suco, ignorando a expressão de incredulidade de Harry. "Além do mais, às vezes você não pode evitar se aproximar deles. Nem todos são irritantes e intrometidos. Pelo menos não o tempo todo."

Harry franziu as sobrancelhas, tentando processar aquilo que ouvia. Era difícil se imaginar voluntariando informações que considerava pessoais para seus alunos. Mesmo os mais velhos.

"E como você lida com... hmmm... atenções indesejadas. Você sabe... Garotas," Harry elaborou, diante da expressão confusa do amigo.

Neville engasgou com a comida e só parou de tossir quando Hagrid ameaçou bater em suas costas.

"O que é tão engraçado?" Harry perguntou, olhando ao redor para checar se a reação de Neville não estava chamando mais atenção do que devia.

"Desculpa, cara... É que eu não esperava... Não imaginava que..." Neville mordeu o lábio inferior por um momento para controlar o riso. "Na verdade, nunca tive que me preocupar com isso. Não sou nem galã, nem celebridade," ele falou, deixando subentendido que Harry se enquadrava em ambas as categorias.

Harry resmungou algo sobre não se fazerem mais amigos como antigamente.

"Não se preocupe, Harry. Isso é natural," Neville continuou, um pouco mais sério. "Você está numa posição de destaque para eles. Mesmo se não fosse... bem, se não fosse você... acho que seria inevitável que atraísse esse tipo de atenção. Quero dizer, olhe pelo lado positivo. Meus alunos sentem admiração de mim por saberem da minha participação na Guerra e isso é bom, eu acho. Faz com que eles me respeitem mais, sintam orgulho por me terem como professor. Além do mais, todo mundo sabe que sou casado." Neville sacudiu a mão esquerda, com sua aliança larga e brilhante, em frente a Harry.

"E todo mundo sabe que eu não sou," Harry completou, carrancudo.

"Exatamente! Mas, honestamente, no seu caso, não acredito que isso faria muita diferença. Ei! Estou brincando!" Neville riu, esfregando o braço no lugar em que Harry havia lhe dado uma cotovelada.

Mas Harry sabia que, no fundo, era a mais pura verdade. Mesmo na época em que namorava Ginny, tinha que lidar com as atenções e o assédio de mulheres de todas as idades. Estava apenas aborrecido por não ter considerado antes a possibilidade de ter que enfrentar aquilo também em Hogwarts.

"Escuta, você já deu aula para Teddy?" Harry perguntou ao ouvir uma explosão de risos na mesa da Corvinal. Previsivelmente, Teddy havia feito um pequeno show com seus talentos, ficando esverdeado diante da torta de rins.

"Ainda não. Você já?"

"Sim." Harry franziu ainda mais o cenho, empurrando a comida de um lado para outro do prato. "Talvez eu tenha sido um pouco duro com ele, mas não sei se agiria diferente se tivesse a oportunidade de voltar atrás."

"Não cobre tanto de si mesmo, Harry" Neville falou, em tom de aviso. "Mas também não cobre tanto dele. Teddy é um bom garoto."

"Eu sei!" Harry suspirou. "Eu sei..."

"Você devia conversar com ele, se isso o está preocupando tanto."

Harry assentiu, pensativo. Talvez devesse procurá-lo depois do jantar, antes de voltar a mergulhar em seu planejamento das aulas.

"Ah, já estava esquecendo," Neville exclamou. "Toda sexta-feira, após o jantar, os professores se reúnem para um passeio a Hogsmeade. Já confirmei sua presença."

"Todos os professores?" Harry perguntou, tentando imaginar o atarracado Cosmo Marchbanks, a trêmula Finola Vielmond e a frágil Bathsheba Babbling, professora de Runas Antigas, confraternizando com os demais professores. Não que os outros professores fossem muito mais novos, porém não pareciam tão debilitados.

Sem contar Malfoy, que não poderia parecer mais destoante do grupo.

"Nem todos. Afinal, McGonagall não permitiria que os alunos ficassem desassistidos enquanto vamos dar um passeio, mas a maioria vai."

"E Hannah não se importa que você vá?"

Neville deu de ombros. Como Curandeira Chefe, Hannah Longbottom dificilmente podia se ausentar da Ala Hospitalar, por isso era lá que Neville também passava a maior parte do seu tempo livre.

"Na verdade, é ela quem insiste para que eu vá, na maioria das vezes. Contanto que eu não fique de conversa com Penélope, é claro," ele rolou os olhos nas órbitas. "Como se Penélope fosse querer alguma coisa comigo, quando namora o vocalista d'As Esquisitonas. Enfim, não se esqueça. Sexta-feira à noite você já tem compromisso, está bem?"

Harry concordou, tentando soar animado com a perspectiva, quando tudo que conseguia pensar era no tempo que iria perder quando poderia estar preparando suas aulas.

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"Teddy?" Harry chamou assim que alcançou o grupo de primeiranistas que subiam em direção à Torre Oeste.

A conversa morreu no instante em que os alunos puseram os olhos em Harry. Os ombros de Teddy pareceram cair levemente e Harry se viu chateado pela reação pouco calorosa do afilhado.

"Que foi?"

Harry levantou a sobrancelha e Teddy rolou os olhos.

"Senhor," ele corrigiu, contrariado.

"Posso dar uma palavrinha com você?"

"Tá bem." Ele olhou para os colegas, fazendo pouco caso do assombro deles. "Podem ir. Eu já alcanço vocês."

"Por aqui," Harry acenou para que ele entrasse numa sala de aula, depois de se certificar de que Pirraça não estava escondido em algum canto.

Teddy lhe lançou um olhar entediado, cruzando os braços.

"Você está bravo comigo porque não fui para a Grifinória, não está?"

Harry disfarçou a própria surpresa pela conclusão a qual o garoto havia chegado.

"Não estou bravo com você, Teddy. E, mesmo se estivesse, não seria por isso. Não me importo com qual Casa você tenha sido sorteado, tenho bons amigos em todas elas."

"Então por que fica chamando minha atenção o tempo todo, como se eu fosse qualquer outro aluno?"

Harry suspirou, apoiando o peso do corpo na mesa em frente à lousa.

"Ouça, Teddy, eu considero você como um filho para mim. Mas, durante a aula, você é um aluno como qualquer outro. Não posso tratá-lo de maneira diferenciada por você ser meu afilhado. Não seria justo com os outros."

"Mas qual é a vantagem de ter você como professor, então?" Teddy empurrou o lábio inferior petulantemente.

"A questão é exatamente essa: não há vantagem nenhuma. Você terá que se esforçar como todo mundo para ganhar suas notas e, acredite, um dia você vai me agradecer por isso. Ou quer que seus amigos pensem que as pessoas estão sendo indulgentes com você? Que você tem privilégios por ser afilhado de Harry Potter?" Harry esperou por uma resposta que não veio. "Então?"

Teddy balançou a cabeça negativamente.

"Eu imaginei que não."

"As pessoas achavam isso de você?" Teddy perguntou, abandonando a pose de teimosia.

"O tempo todo." Harry se lembrou de uma voz em particular, acusando-o de ser o favorito de Dumbledore.

Teddy sentou-se à mesa ao seu lado e cutucou uma mancha de molho na parte da frente da sua veste.

"Eu poderia ter ido para a Grifinória, se quisesse," ele murmurou.

Harry levantou os olhos para o afilhado, porém este permaneceu cabisbaixo.

"Poderia?" Harry incentivou.

"O Chapéu Seletor achou que eu me daria bem lá. Mas eu não queria."

"E posso saber por quê?"

"Porque acho os grifinórios estúpidos e impulsivos. Sem ofensas," ele acrescentou rapidamente, fazendo com que Harry sorrisse.

"Tudo bem. Não me ofendi."

"Quero dizer, que tipo de pessoa arrisca a própria vida por qualquer coisa?" Teddy continuou, irritado. "Sem se importar com o que deixa para trás..." sua voz foi diminuindo de intensidade até quase sumir. "Ou com quem deixa para trás..."

"Ah, Teddy…" Harry passou um dos braços pelas costas do garoto, trazendo-o para junto de si. "Não diga uma coisa dessas. Seus pais se importavam muito com você, acredite! Assim como os meus pais se importavam comigo. Mas estávamos em uma guerra. Era pela nossa segurança que nossos pais se sacrificaram, para que pudéssemos viver num mundo em paz. Meus pais não me pouparam da guerra, infelizmente. Mas me ensinaram a ser corajoso e a lutar pelo que acredito, mesmo quando não há esperanças."

Teddy ergueu o rosto para o padrinho.

"Você pretende voltar a ser Auror?" ele perguntou e Harry sentiu o coração se contrair. Não pela primeira vez, Harry imaginou se seria possível amá-lo ainda mais, mesmo se ele fosse seu próprio filho. Se Teddy ao menos soubesse que tivera grande participação na decisão de Harry de abandonar seu posto no Quartel General...

"Eu honestamente não sei. Mas espero que você não pense que ando arriscando minha vida à toa. Ou será que pensa?"

"Não, acho que não." Teddy sorriu e o abraçou. "Estou feliz que você tenha vindo, Harry. Prometo que vou me comportar."

"Não prometa o que sabe que não vai cumprir." Harry fez cócegas nas costelas do afilhado, se deliciando com sua risada, tão parecida com a de Nimphadora Lupin. "Agora vá, antes que passe do toque de recolher e eu seja obrigado a dar umas detenções."

"Você não faria isso," Teddy meio afirmou, meio perguntou.

"Quer apostar?" Harry levantou uma sobrancelha e meneou a cabeça, divertido, quando Teddy saiu correndo.

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