O prateado fechou os olhos, ao mesmo tempo que soltou um suspiro profundo. O estrondo que ouviu — da porta do seu pequeno escritório contra a parede da sala — incomodou seus ouvidos.

Ele era um ótimo chefe, considerava-se até de líder nato, boa pessoa, porém o Hozuki também sabia que havia implementado limites para evitar tais situações como essa. Tudo tinha limites, e dar ousadia aos seus funcionários era extrapolar os limites os limites.

Apenas duas pessoas na sua vida fariam tal ato irritante. A primeira estava furiosa consigo e disse que nunca mais pisaria os pés no seu escritório, nem para uma visita sexual — uma rapidinha para concretizar um dos vários fetiches da ruiva — o que era uma pena. Seu filho também possuía esse péssimo hábito que herdou da mãe, mas depois de três puxões de orelha aquietou. Só restava uma opção, seu querido, extremamente irritante e inoportuno irmão mais velho Mangetsu Hōzuki.

Por regra, irmãos mais velhos deveriam ser responsáveis, um ponto de ajuda e conselhos, porém o seu irmão era a exceção. O prateado era rebelde, às vezes infantil, mulherengo, imaturo, numa só palavra irresponsável. Seu pai pressentiu a falência do seu negócio de família nas mãos do seu primogênito, por isso, em vez de dividir as ações em 50-50, deu a maior parte das ações ao menor para que ele liderasse.

Fez diferença? Não. Mangetsu reclamou? Não. Porque Hōzuki Mangetsu sabia o quanto seu irmãozinho era facilmente influenciado por ele. Todo mundo sabia disso, e era o único motivo das brigas do casal.

Nesse momento o proprietário de 40% das ações da "Hozuki family" estava zangado, os lábios comprimidos, e os músculos tensos. Suigetsu já tinha notado a sua presença na sala, mas o Hozuki sentiu que deveria chamar ainda mais a atenção, batendo na sua mesa com toda força antes de gritar.

— Mas que merda é essa de que o gato foi levado a um abrigo de animais.

— Ao que parece leste a minha décima mensagem.

— Suigetsu onde está a porra do gato? — vociferou — O gato tem uma dona.

— E o peixe que ele comeu também tinha uma dona. — retribuiu o grito.

Pela primeira vez Mangetsu achou melhor acalmar os ânimos. Normalmente ele era sempre o único a gritar e espernear nas suas discussões, mas Suigetsu tinha reagido. Significava que a vaca, louca da sua mulher tinha aquecido a sua cabeça mais do que o normal.

— Não vale a pena argumentar. — encostou o corpo a cadeira giratória — Karin deu o gato a um abrigo, e só ela sabe onde ele fica.

— Investigue seus passos. Segue-a!

— Como se ela visitasse o gato "da tua namorada" que comeu "o peixe dela, presente de sua mãe do nosso casamento"

— Pergunta no rapaz. Ele deve saber dos disparates da mãe.

— Mitsuki estava na escola.

— Force-a a falar.

— Como assim? — ergueu a sobrancelha desconfiado com a sugestão. Não demorou muito e suas suspeitas foram confirmadas quando o prateado levantou os punhos e começou a socar o ar. Imediatamente fez uma cara de nojo. Como ele podia sugerir aquilo depois de ter presenciado durante 18 anos o sofrimento da mãe. — Estás a sugerir bater na minha esposa? O demônio que dorme ao meu lado e que facilmente pode matar-me durante o sono.

Além de estragar ainda mais a sua relação com Karin, corria o risco de dar um péssimo exemplo ao filho, seguir os passos do seu pai, e no final ser morto por uma esposa descendente de guerreiros chineses.

Ele estava nessa situação porque não viu mal nenhum em abrigar o gato da terceira namorada do mês do seu irmão em casa. Suigetsu pensou que ela seria a tal que corrigiria o irresponsável. Contudo, estava enganado, o namoro acabou, e a dona decidiu pedir o animal de volta — coitada caiu na birra de sua família.

Karin como sempre discordou da sua ideia. Ameaçou tomar medidas drásticas se algo de mau acontecesse com o seu filho — arranhões, alergias, pulgas. A ex-Uzumaki só não contava que o gato comesse um dos seus peixinhos.

Quando recebeu a notícia de Mitsuki, saiu a correr para casa, a tempo de segurar as mãos assassinas de sua esposa. Depois de salvar o couro do gato, toda raiva passou para ele. E agora estavam brigados.

Voltar a tocar naquele assunto, tirava-o do sério.

— Suigetsu aquela maluca não para de me ligar pedindo o estúpido do gato.

— Que se dane o gato da tua terceira namorada desse mês. — bateu na mesa e levantou exasperado — compre um igual e entregue. O peixe tinha um significado na sua cultura, foi um presente de casamento da minha sogra. O que vou explicar para ela na próxima visita?

— Compra outro, problema resolvido. — deu de ombros. — Segue o teu próprio conselho.

Suigetsu sabia que o irmão queria devolver a sua alfinetada, e não porque queria reparar o seu erro.

— O peixe custa 300 mil no mercado. Ficaríamos um ano sem pagar os salários dos funcionários. A minha esposa está abatida, todos os dias pensa como vai contar a notícia para a mãe. Ela até decretou greve de fome. — e a ele greve de sexo, mas ocultaria aquilo só para ele.

— Pronto. Acalma-te! — óbvio que dessa vez, não tinha como influenciar o irmão — Teu irmão vai dar um jeito de acalmar o fogo da cunhada. Sente.

Quando viu o seu pequeno príncipe correndo na sua direção, Karin correu como louca pela estrada — que separa a escola do parque de estacionamento. O semáforo estava vermelho e os carros parados, mas sabe-se lá que passe um maluco de motorizada e bate no corpo frágil do seu filho.

Suigetsu às vezes dizia que ela era pessimista demais, e pensava coisas que talvez nunca aconteceria, mas Karin preferia prevenir do que remediar. E tinha a certeza de que aquele conselho saiu do seu cunhado — uma péssima influência para todo mundo.

A Hozuki agachou na altura do menino, e o apertou num abraço carinhoso.

— Céus! Meu tesouro, peço a Deus todos os dias que te proteja deste mundo depravado. Como foi o último dia de aulas?

— Divertido. A professora Anko quase que dançava em cima da secretária.

— Pois…— Karin tinha muitas opiniões formadas sobre essa professora. — Vamos para casa? Temos que preparar o quarto da vovó.

— Sim.

Karin não estava preparada para a visita da mãe. Amava muito a sua mãe — era a primeira cadelinha da mulher trabalhadora que sua mãe representava — e por esse motivo, não estava pronta para partir o coração da rainha.

Aqueles peixes estavam na sua família a gerações, e representavam união estável, harmonia e todas as bênçãos matrimoniais que precisava. Sua mãe entregou nas suas mãos, e ela deixou que um estúpido gato comesse um deles.

— Chegamos!

A Hozuki contorceu o rosto numa expressão curiosa. Os únicos que possuíam a chave da sua casa era ela e seu marido, porém ela sempre chegava primeiro que o companheiro. Então quem seu filho saudava de modo tão animado?

Atirou as chaves em cima da mesa, e caminhou até a sala de estar.

— Mãe. — não era uma miragem. Sua mãe estava sentada no sofá cama a sua frente com Mitsuki numa das pernas. — Quando chegaste? O vôo não foi adiado para as 8 horas da tarde?

— Resolveram o problema e decidi apanhar o primeiro avião até aqui. Não encontrei ninguém, por isso liguei para os dois, e só o meu cunhado atendeu.

— Droga! — retirou o aparelho do bolso para confirmar que ainda permanecia no modo de vôo — Eu estava numa reunião da empresa.

— Tudo bem. Suigetsu explicou tudo.

— Explicou?

— Sim.

— Está bem. — a ruiva virou o rosto e encarou a outra face familiar e agradável ao lado de sua mãe, sua sogra. — Senhora Hozuki, boa tarde. Como está?

— Bem.

Seria indelicado perguntar o porquê daquela pequena reunião, mas sentia-se tentada.

— Querido! — pousou as mãos nos ombros largos do prateado. Karin queria saber o que passava, mas não podia perguntar na cara dura, tinha que contar com a pouca inteligência do marido para ele perceber o que ela queria. Iniciou uma massagem relaxante nos músculos tensos — Como foi o dia?

— Cansativo — o safado fechou os olhos para apreciar a massagem — estava mesmo precisando.

— Aie. Então continuamos logo a noite, agora preciso dar atenção às minhas duas mães.

A ex-Uzumaki evitou o contato visual com a mãe durante toda narração do seu filho dinâmico sobre o seu último dia de aulas.

— Acho que acabaram-se as novidades do Mitsuki, então podemos continuar com a conversa de antes. — o Hozuki apertou a mão da esposa, não só para chamar sua atenção, mas para dar apoio e coragem.

— Que conversa? — indagou Karin.

— Suigetsu contou-me o que aconteceu com o presente de casamento que eu vos dei...e como tens se martirizado com isso. Recusas-te a comer...

— Não era preciso exagerar querido. — baixou o tom de voz e concluiu — Eu como no refeitório da empresa, e em segredo no meio da noite. Se levantasses para ver a tua esposa descobririas.

— Safada. Falaremos sobre isso mais tarde. — por respeito ao filho, sua sogra e sua mãe — Eu trouxe a minha mãe para pedirmos desculpas, se com esse ato mostramos desrespeito pela tradição.

— Ficam descansados. É algo que gira a família do meu falecido marido há anos, mas também nunca acreditei que fosse o mesmo peixe que o seu bisavô comprou pela primeira vez. — reparou no rosto surpreso, depois indignado da filha — o gesto é que importa filha.

— Sim! É por isso que a família Hozuki planejou umas férias em família para fortalecer os nossos laços, e criar boas e novas memórias juntos.

— Boa! — Mitsuki pulou do sofá alegre.

— É uma boa ideia.

Todo mundo amou a ideia de umas merecidas férias longe do país, menos a Uzumaki que tinha sido apanhada desprevenida.

Se Suigetsu pensou que repreenderia a esposa quando estivessem a sós, estava muito enganado. Karin pulou para cima do prateado, bombardeando-o com duras críticas.

O casal discutia no carro da família para salvaguardar a infância do filho.

— O problema é que eu tenho TRABALHO, eu não sou a CHEFE da minha empresa para escolher o mês que vou ficar de férias. Segundo, o teu filho não tem passaporte, sabes o trabalho e o tempo que dá para tratar um. Queres o enfiar de modo clandestino no avião? Nem por cima do meu cadáver. Terceiro, não podes decidir isso tão rápido e esperar que todos estejam de acordos. — jogou o corpo no banco do carro esgotada, sua garganta implorava por líquidos. Graças a Deus que sua mãe estava em casa com Mitsuki, não queria que o filho presencia-se a briga — Meu amor, eu te amo, és lindo, és amável e absurdamente gostoso para dar cabo da minha insanidade, também sei que também és mais inteligente que isso...seja sincero comigo. Foi ideia do teu irmão?

O silêncio foi resposta suficiente. A Hozuki revirou os olhos antes de virar o rosto para a direção contrária. A culpa era sempre do irmão. Suigetsu era um anjo de pessoa, mas era o perfeito baka quando o assunto se tratava do irmão mais velho.

— O teu irmão não tem que comandar a nossa vida.

— Ele está arrependido, e quer remediar as coisas.

— E a solução que ele encontrou foi "umas férias em família"?

— Sim.

— Mas levando ele junto. — a fonte de todos os nossos problemas.

— É família.

— Mais tua do que minha graças a Deus. — cruzou os braços. — Ele pode ter roubado esses bilhetes, ou falsificado.

— Dê uma oportunidade. Eu posso tratar do passaporte do Mitsuki, da nossa estadia, de tudo.

— E o meu trabalho? Também queres tratar disso? Se não for liberada, passo a ser a má da fita por atrapalhar as férias de todos? — na verdade ela poderia negociar com Tayuya, e trocar os meses, visto que a sua colega desejava fazer a mesma coisa devido o casamento, mas ela queria que o Suigetsu sentisse o peso de tomar decisões em cima da hora, e ainda por cima aceitar todas as decisões do irmão — Eu vou ver o que posso fazer no trabalho, mas não prometo nada.

— Posso tentar fazer alguma coisa. Mangetsu conhece muitos empresários…

— Não te atrevas. Eu vou resolver sozinha. Preocupe-se com o passaporte do Mitsuki. Eu não saio daqui sem o meu filho.

— Nem eu deixaria vocês. — meio caminho estava andado. — E agora com relação ao gato?

— Se a dona estivesse realmente interessada em reaver o gato, viria pessoalmente aqui. Onde já se viu entregar o animal no primeiro homem irresponsável que conhece. O gato está mais seguro no abrigo, do que nas mãos dessa irresponsável.