Cap.2
No local marcado o irmão de Marin estava me esperando, era um rapaz jovem bem mais novo que o irmão. Com certeza não era o tipo que levantaria suspeitas, vestia roupas comuns com o brasão da sua corte amarrado no pescoço. Sorria muito mais que o irmão também. As sombras não me falaram nada.
"Eu não tenho essas asas, então vamos ter que ir a cavalo" puxou o cavalo marrom na minha direção enquanto ele montava no malhado. "Imagino que já passaram as instruções, mas quero avisar se você ver ela ou qualquer um deles, eu sou o primeiro a falar. Estou a meses a procura dessa criatura e não quero que fuja".
Fiz um sinal de entendimento e subi no meu cavalo "Instrução recebida. ". O caminho foi mais longo do que eu imaginei, Sila era calado e bastante silencioso nos seus gestos, mas disse tudo o que ele sabia sobre Vheela e como foi o tal encontro entre Ruven e a fêmea. Pouco me perguntou sobre Prythian o que foi um alívio, menos preocupação em filtrar informações. Toda vez que pensava sobre o meu lar, sentimentos ambíguos borbulhavam. Senti a habitual culpa por deixar Rhys e Cassian resolvendo sozinhos os problemas da corte noturna. Uma vez que eu tinha coisas importantes para resolver com as outras cortes e ainda precisava recolher as informações da parte dos humanos! E mesmo assim aqui eu estava, afinal esse era o comando do meu grão senhor.
Rhys foi categórico dizendo que éramos maiores agora e que precisávamos de toda ou qualquer aliança mesmo que vinda do continente e se minha ajuda fosse bem recebida essa aliança seria reforçada. Senti alivio também, pois, antes de ir embora, Nesta estava insuportável e Elian parecia finalmente ter aceitado Lucien, contudo o sentimento de solidão perpetuava quando não ouvia a voz de Mor ou a via sorrir, sentimento esse que as vezes carregava mesmo quando estávamos próximos. Uma situação que eu já estava acostumado, essa era a casa e família que eu escolhi. E assim eu esperava que um dia ela me daria a oportunidade. Certas coisas tinham seu tempo e eu sabia esperar. Eu respeitava o seu espaço, mas fazia muitos, muitos anos… e eu me perguntava se esse dia viria, se eu estava deixando alguma coisa passar, ou se simplesmente amava incondicionalmente. Sentimentos amorosos eram confusos, e só provava que eu era azarado de me apaixonar pela filha renegada de um lorde da Legião da Escuridão, uma verdadeira herdeira da corte noturna, e eu somente um bastardo, mas com o tempo eu reconheci que tinha gente mais azarada que eu, como o Ruven. Apaixonado por uma feérica perigosa, que provavelmente estava fugindo dele, com artefatos e espadas que até Cassian ficaria apreensivo, ou pensando bem talvez não, ele era meio inconsequente quando queria.
Fazia alguns dias que deixamos as terras de Neldor, continuamos o trajeto a pé, ainda para não levantar suspeitas fomos por dentro da floresta. Algo muito estranho nos observava pelo nosso caminho, as sombras me alertaram, mas nem era necessário.
"Aqui sempre é mais perigoso, já passei por esta floresta 3 vezes e todas às vezes me deparei com criaturas estranhas, uma vez foi uma Naga! Meu irmão não acredita até hoje que eu escapei. Às vezes nem eu acredito! " Sila cortava caminho por umas plantas carnívoras, e carregava o brasão da corte como se fosse um amuleto. Não consegui ver nada a frente devido a nevoa, mas ele fez o sinal para parar.
Meu pelo da nuca arrepiou, algo estava alguns metros na nossa frente eu podia sentir a presença. Uma fêmea deu um passo e saiu da escuridão da floresta, era ela. Que sorte a nossa. Cabelos roxos claros, orelhas pontudas, sem nenhuma asa aparente, roupas de caça comum entre os humanos e nenhuma arma. Não parecia aquela figura perigosa dos livros, mas eu conhecia aquele andar calculado. Ela está sozinha disse a sombra.
Neste mesmo momento eu ouvi Sila dizendo "Me desculpe" antes de colocar o brasão na boca e assoprar uma zarabatana em direção a feérica, o sopro foi surpreendentemente forte e acertou onde a segundos ela estava, mas também estupido, pois se não acertasse ela certamente ia fugir.
Corri em direção a ela antes que pudesse repreender a idiotice de Sila, minhas pernas podiam correr rápido, mas as minhas asas podiam ser mais velozes, ela seguiu na direção em que a floresta era mais aberta com menos arvores. Ela era muito rápida, minhas asas batiam contra arvores, arbustos, paredes de pedras, e dores incomodas vinham como flechas a cada impacto, mas não perdi ela de vista, ora ela sumia e eu seguia pelo cheiro, ora as sombras me diziam a direção.
Eu consegui me aproximar mais quando ela virou abruptamente a esquerda dentro da floresta e saiu numa clareira. Era minha oportunidade, com o meu sifão, projetei um escudo a frente dela, precisava de qualquer barreira para que ela parasse de correr. O suor descia em minhas costas e eu não soube dizer se Sila nos acompanhou, mas minha mente estava focada e eu não iria perde-la. "Eu só quero conversar" disse recuperando minha respiração. "A intenção não era te assustar".
Ela se virou esvoaçando os cabelos parcialmente soltos e semicerrou os olhos para mim. O que eu não queria, aconteceu, ela gritou "Homens de Neldor! "
Meu coração parou um batimento quando atrás dela, na clareira, eu vi a camuflagem esvaecer e uma feérica apareceu, ela estava ajoelhada passando a mão sobre a terra batida. Essa não era como a feérica na minha frente, apesar dos cabelos da mesma cor ela estava totalmente vestida com uma armadura grandiosa preta e roxa. Meu coração deu outro batimento, eu realmente estava enrascado. A armadura de guerra era diferente da minha habitual armadura Illyriana, maior e com mais presença. Os pássaros, o vento, os seus movimentos, tudo estava devagar talvez estivesse sob efeito de magia. Engoli em seco.
A fêmea se levantou e seus olhos em fendas estavam cravados em mim. Senti meu coração bater acelerado. Ela radiava uma beleza que eu não tinha visto em toda minha existência. Droga, era como uma deusa Vheela! A pele clara reluzia ao sol, o corpo delineado por uma armadura feminina e sensual, mas nada podia me fazer desviar daqueles olhos. Meu corpo reagiu instantaneamente como um animal no cio. Mortal e linda, um sentimento de pânico me atingiu em cheio. Pelo caldeirão, não podia ser! Não ela, não aqui, não assim, senti a magia dentro de mim, revertendo, borbulhando em todos os poros como seu eu não tivesse controle nenhum sobre mim mesmo, senti um leve puxão no peito me conectando imediatamente a ela. Eu sabia, sabia o que estava acontecendo, reconheci o sentimento que Rhys descrevera quando reconheceu Feyre. Minha parceira. Mas como? Essa total desconhecida e justamente agora? Achei que isso nunca ia acontecer e agora? O que eu ia fazer? Você a encontrou. Não sei qual delas a sombra estava se referindo.
Feroz era o sentimento que urrava dentro de mim, uma parte de mim rodopiava de alegria como a primeira vez que consegui voar e outra sorrateira sussurrava algo quente e perigoso. Não havia mais nenhuma outra parte, nem sombras, nem a parte que carregava as dúvidas, mas também nem a parte da lucidez.
