Incrédula, indignada e desesperada são os adjetivos que descrevem perfeitamente Rose Tico aquela noite. Toda a sua paz foi tirada, parecia estar presa no mais maluco e absurdo dos seus sonhos sem conseguir acordar. E não à toa que se beliscava, ansiosa para despertar, mas que tal esforço estava sendo em vão.
Ela não sabia dizer em que momento as coisas saíram do controle. Se quando Hux apareceu no lugar errado e na hora errada, ou se quando Eros surgiu em carne e osso e resolveu bancar o engraçadinho, ou mesmo antes, quando ela tomou a decisão horrorosa de abandonar o jantar e ir para o jardim no meio do labirinto de cercas vivas.
Devia ter enfrentado aquele noivado, teria poupado a si própria dessa dor de cabeça. Mas como ela podia saber? Novamente ela foi vítima da sua má sorte.
Como na lenda do loureiro, Rose fazia as vezes de Dafne ao escapar de Apolo. Nosso Apolo, no caso, é Armitage. Ele a seguia, louco por apenas a chance de falar com ela, olhar para ela, conhecê-la, tocá-la, amá-la... Mas Rose não queria e não aceitava e por isso não incentivava tal aproximação; ela estava ainda negação, na realidade. Não parava de se beliscar, dar tapas no próprio rosto, tudo na intenção de acordar, porque, para ela, aquilo não passava de um pesadelo. Em sua cabeça acordaria de novo no meio do jardim, descobrindo que havia batido a cabeça com força no chão, em algum momento antes da luz cor-de-rosa aparecer.
Ela corria para a saída do labirinto, novamente segurando a barra de seu vestido imundo. Ele era rosa claro, bem acinturado e de ombro só, de um tecido leve e de um modelo que ironicamente lembrava uma túnica grega, tão longo que se arrastava no chão quando ela andava. Armitage não pôde deixar de reparar o quão linda ela estava, mesmo que o vestido agora estivesse sujo. Mas ele já a tinha visto na festa com a peça, limpo e em uma iluminação melhor, e sabia que aquela mulher de um metro e cinquenta e sete centímetros era deslumbrante, encantadora e bela. O penteado dela havia se desfeito e seus longos cabelos estavam soltos, o lhe dava uma aparência selvagem. Para Armitage ela só estava mais linda. Ela se parecia com uma princesa, uma deusa, da qual ele queria ser súdito e devoto.
— Por favor, não fuja! — ele implorava. Rose ignorava seus clamores, concentrada em sair do labirinto da mesma forma como entrou. Não queria se atrapalhar por causa dele e errar uma esquina, e por isso acabar entrando num beco sem saída com ele atrás dela. — Por que está fugindo de mim, querida?
— Pare de me seguir! — ela gritou e apertou ainda mais o passo, puxando as saias do vestido mais alto para não tropeçar nelas.
— Eu só quero falar com você, meu amor. Você tem algo que me pertence: o meu coração.
E massageava o peito.
— Vai pro inferno! — revirou os olhos.
— Por favor, minha querida, não fuja de mim!
— Eu vou chamar a polícia, seu maluco pervertido!
— Não, meu amor...
— Para! — Virou-se para encará-lo. Tinham acabado de deixar o labirinto e agora estavam no gramado. — Por que está fazendo isso?
Ele sorriu, mesmo respirando pesadamente. Olhou-a com ternura e adoração, como se ela fosse a razão dele viver.
— Eu confesso que não sei — respondeu Armitage. Estava com a mão sobre o peito, fazendo uma pequena massagem. — Mas desde o momento em que te vi no jardim secreto, com seu belo rosto banhado pelo luar, eu soube que estava perdidamente apaixonado por você.
— Que? Não, Hux! Você está... Hã...? Enfeitiçado? Amaldiçoado? Não lembra do que aconteceu?
— Se isso for uma maldição eu questiono o conceito de benção então. — E sem mais nem menos, Armitage tentou beijá-la, mas Rose desviou o rosto e logo o empurrou.
— Seu nojento! Não toque em mim!
— Mas, meu bem...
— Fique longe de mim! — E Rose correu.
— Querida, por favor, não me abandone, não fuja de mim!
Para evitar um vexame, Rose entrou pelos fundos da casa. Os cachorros começaram a latir imediatamente e para sua sorte – a primeira da noite, por assim dizer – foi que os cachorros estivam presos. Entrou na cozinha, que nesse momento estava lotada de pessoas, a maioria contratada para servir no jantar de noivado. Dava para ver que a mãe do noivo não estava economizando para casar o filho, e isso era apenas um noivado, que dirá quando houvesse o casamento.
Deixou a cozinha. A propriedade de Rey, herdada pelo avô, era bastante grande, e Rose cresceu, por assim dizer, junto com Rey dentro daquela casa, mas elas costumavam passar a maior parte do seu tempo ou no quarto dela, ou na biblioteca, ou na sala, ou no gramado, ou no jardim secreto das estátuas de deuses. Por isso, ela precisou ir abrindo de porta em porta à procura de um banheiro, descobrindo só armários, dispensas ou quartos de empregados. Não havia ninguém por ali, felizmente, todos deviam estar na cozinha ou no salão.
Soltou um "até que enfim" quando finalmente encontrou um banheiro. Abriu a porta e empurrou Armitage, que continuava lhe seguindo, para dentro, e, olhando para os lados, fechou-se lá com ele.
Talvez Armitage tenha entendido mal a intenção dela, pois se aproximou querendo novamente beijá-la, mas Rose se esquivou.
— Você é tão linda e perfeita... — murmurou antes dela ter se afastado.
Ela segurou seus ombros com força e o empurrou para trás e depois para baixo, sobre o vaso sanitário tampado. — Você senta aqui!
— Querida...?
— Cala a boca! — gritou. Ela já tinha perdido completamente a paciência.
Rose não costumava ser grosseira daquele jeito com ninguém, era uma pessoa alegre, gentil e simpática na maior parte do tempo, mas ela estava no seu limite. Aquela situação já tinha extrapolado há muito as barreiras do tolerável.
— Escuta bem o que eu vou te falar e não me interrompe — mandou. Ele fechou a boca e ficou olhando para ela, obediente, de repente com medo do brilho que viu nos seus olhos; parecia um brilho assassino. Ela estava com raiva dele e se sentiu magoado com isso, e também decepcionado consigo mesmo por chateá-la. Então massageou o peito novamente. — Esse é a porra do pior dia da minha vida! Nunca, nem nos meus piores sonhos, eu imaginei uma situação como essa, e eu não desejo isso nem para o meu pior inimigo.
— Eu posso-
— Não, você não pode — cortou-o grosseiramente. — Eu estou cansada, descabelada, suja, nervosa e com ódio. Você estragou de vez a minha noite que já era por si só péssima! Aliás, estou sendo injusta com você. — Abrandou seu tom de voz. — Desculpe, você foi vítima do sadismo do Cupido tanto quanto eu. — Tencionou se aproximar dele, mas seu bom senso lhe disse para manter uma distância mínima de pelo menos dois metros dele. — Por favor, Hux, tente voltar à razão! Isso... — Apontou para ele mesmo, sem uma palavra melhor para descrevê-lo naquele estado. — Não é você! Só está atrás de mim porque está sob influência de... de... de um tipo de feitiço, encantamento, poder mágico proveniente da flechada, sei lá!
Hux sorriu galantemente, ergueu-se e deu um passo à frente. — Foi você quem me encantou, linda.
— Sente-se! — empurrou-o novamente contra o vaso e tornou a se afastar.
— Mas... — Ele franziu o cenho então e a fitou com uma cara, que, se Rose não estivesse quase espumando de raiva, teria achado engraçada. — Qual é o nome da minha adorada musa?
O queixo dela caiu. Era tão absurdo que a única reação que ela conseguiu ter foi rir nervosamente.
— Você nem sabe o meu nome — riu.
Colocou as mãos na cintura e deu as costas para ele, negando com a cabeça. Era inacreditável. Inacreditável! Ele não sabia seu nome e estava apaixonado por ela como ela fosse a única mulher na face da Terra, e tudo por causa de um Cupido atrapalhado, bobalhão, egoísta e salafrário.
Ela o ouviu mexer-se atrás de si e virou-se de volta para encontrá-lo em pé, mas ele sentou imediatamente, já prevendo um outro grito da parte dela.
— O meu nome é Rose Tico.
— Rose... — Experimentou o nome na boca e como soava. — Tenho que parabenizar seus pais pela escolha do seu nome, não tem outro mais adequado para você.
Ela revirou os olhos tão forte que pensou que não voltariam mais ao normal. Pessoas apaixonadas podem ser tão ridículas! Isso sempre foi assim ou ela só nunca tinha reparado antes porque a apaixonada era sempre ela?
Tinha que dar um jeito naquela situação, não aguentaria continuar ouvindo aquelas frases feitas e piegas sem enlouquecer. Por um lado era fofo, tinha que admitir, mas ficavam melhores em um mangá shoujo, do que ditas por um homem adulto na casa dos trinta.
— Hux... — Parou, respirou fundo e tentou novamente. — Hux, será que você não entende que nós dois estamos numa situação delicadíssima? Ou não lembra do Cupido e o que ele fez com você?
— Cupido?
— O Cupido, Hux! Aquele cara loiro com cara de otário, seminu que anda por aí com arco e flecha como um retardado. Você nos viu, lembra?
Ele pensou um pouco. Colocou a mão sobre o peito e o massageou brevemente, um gesto que vinha repetindo. Então disse:
— Sim, mas e daí?
Rose encarou-o de olhos e boca arregalados, sem acreditar no que tinha ouvido. — "E daí?" Você está brincando comigo?
— Por que você está tão zangada com isso, Rose?
— E ainda pergunta? — questionou como se fosse óbvio. — Cara, nós nunca tínhamos nos visto até hoje à noite. Eu não te conheço, tudo que eu sei sobre você é o que eu escutava a Rey comentar – muito de vez em quando, por sinal –, com o Ben na minha frente ou quando ela soltava uma frase ou outra sobre o "amigo chato do Ben" — fez sinal de aspas com os dedos — nas nossas conversas. — Respirou fundo e passou as mãos pelos cabelos revoltos.
Imaginava que sua aparência estava péssima e evitava deliberadamente o espelho do banheiro. Hux ficava repetindo que ela era linda, mas tinha certeza que era só por ter sido flechado pelo arco de Eros. Do contrário, ele nem olharia na cara dela, como não olhou durante do jantar, pelo pouco tempo em que ela esteve presente.
Tornou a se aproximar dele, ainda mantendo uma distância segura. Se ele tentasse agarrá-la, ela teria tempo para correr. — Você também não sabe nada sobre mim — ela disse. — Você nem repararia em mim se não tivesse sido flechado pelo Cupido. Isso é tão surreal!
— Rose... — tentou.
— Você... Você precisa...
— Rose, escute-me. — Tentou novamente.
— Vo-você tem que lutar contra isso — ela gaguejou. — Não pode aceitar isso, esse sentimento, foi contra a sua vontade e tenho certeza que você jamais ia querer uma coisa dessas, quem ia querer? Então... Então... — Olhava para as próprias mãos que gesticulava bastante enquanto falava. Não tinha ideia do que estava dizendo e sabia que não fazia sentido. Existia alguma lenda na mitologia grega que contava de um caso em que uma flechada de amor do Cupido tivesse sido anulada? Ela não conhecia. Faria uma pesquisa sobre isso depois. — Ai meu Deus, é claro! Calma Rose. — Fechou os olhos e dizia só consigo. — Isso é só um sonho... Só um sonho. Nada mais do que um sonho maluco e hiper-realista. Logo você vai acordar e tudo terá passado. Então não tem nenhum problema aqui.
Ficou parada, de olhos fechados, fazendo um exercício de respiração para se acalmar. Armitage a observou enquanto isso. Ela era tão fofa...
— Eu posso falar agora? — perguntou. Rose abriu os olhos. — Vejo que está abalada, e confesso que me deixei levar demais por isso, eu deveria ter sido mais controlado para não te assustar.
Rose prendeu a respiração. Seria agora que ele ia dizer que tudo aquilo era na realidade uma pegadinha e que estava tirando sarro da cara o tempo todo? Ela se viu desejando exatamente isso, mesmo que corresse risco de ter uma fúria assassina, ou um infarto.
— Mas eu só posso agradecer ao retardado do Cupido. Afinal, se eu não tivesse decidido ir fumar naquela hora, eu não teria me apaixonado por você, Rose Tico.
— Por favor, diz que está tirando com a minha cara, diz — implorou ela com a voz chorosa.
— Rose. — Armitage caiu de joelhos aos pés dela, agarrando seus tornozelos e assustando-a. — Rose, Rose, por favor, me escuta!
— Hux, me larga, por favor!
Ele largou, mas continuou perto, agora com as mãos entrelaçadas juntas na frente do rosto. — Rose, fique comigo!
— Não faça isso, você está passando vergonha.
— Eu faço qualquer coisa. Qualquer coisa que você quiser, meu amor. Mas fique comigo...
— Então comece se recompondo! — berrou ela. Tinha certeza que se alguém estivesse passando pelo corredor tinha escutado. — Pelo amor de Deus, você é um homem ou um cachorrinho?
— Rose...
— Eu não posso... — Fechou os olhos por um instante. Respirou fundo e recomeçou a frase usando um tom bem mais brando, mas ainda assim firme. — Eu não quero ficar com você. Vai ter que desculpar, Hux. Nós nem nos conhecemos, e embora você tenha sido flechado pelo Cupido, eu... Eu não posso te corresponder, sinto muito.
Ele se calou. Seus braços caíram inertes ao lado do corpo e lentamente ele se sentou no chão, onde juntou as mãos entre as coxas, de cabeça baixa. Ela aproveitou para se afastar, com o pensamento de que talvez tenha sido dura demais, porém, consolada com a ideia de que tinha sido necessária. Ele mereceu – e precisava – disso.
Mas quando ela o fitou de novo, seus olhares rapidamente se encontraram, antes que ela tornasse a virar o rosto. De esguelha pôde notar que ele ainda a encarava e que massageou outra vez o peito. Mas tentou ser forte e não ceder à vontade de olhar para ele ou mesmo sentir pena dele. Achava que ninguém merecia esse sentimento.
No entanto, ela estava com um bolo preso na garganta, sentindo o peito apertado com o jeito como ele olhara para si naqueles poucos instantes em que seus olhares se encontraram. Ele mirava-lhe com olhos suplicantes, úmidos, os lábios trêmulos e encurvados. Ela reconheceu aquele olhar e aquela feição, mas estava acostumada a vê-la em si mesma e não nos outros, muito menos por sua causa: coração partido.
Ela quis abraçá-lo, de repente, mas não fez porque teve medo de que novamente ele entendesse do jeito errado. Ele estava louco pelo seu toque, necessitado da sua atenção, sentindo-se desesperado para que pelo menos uma parte dela o amasse, e Rose sabia porque já tinha se apaixonado antes, e não uma única vez.
Armitage inclinou-se, encostando-se à parede do banheiro. Arrepiou-se quando sua bochecha esquerda entrou em contato com o azulejo frio da parede. Colocou a mão no peito e deixou ali, massageando-o. E então, bem baixinho, saindo apenas como um murmúrio de seus lábios, ele passou a cantar.
— Love is a rose... but you better not pick...
Rose voltou-se para ele de novo. Dessa vez ela não pôde evitar o sentimento de pena, principalmente porque sabia que o Hux de antes, o homem esquisito e que parecia não gostar de nada, de mais cedo no jantar, jamais se prestaria àquele papel, nunca olharia para ela, tampouco se interessaria.
Quem sabe ele fosse do tipo que Rose admirava: os que não se entregam a paixões assim tão fácil e que colocam outras prioridades acima dos relacionamentos. Pessoas que sabem que a paixão torna uma pessoa insensata e irracional, capaz de fazer loucuras das mais insanas, e de se humilharem por alguém que não vale a pena.
Quantas vezes foi ela a pessoa a se humilhar, a sofrer sozinha num canto por alguém que não lhe amava?
Agora tudo era diferente e estranho para Rose, que nunca esteve antes nessa posição. Estava acostumada a ser a que se apaixona, não é correspondida e sofre, e não o contrário.
Ela sabia que não gostava daquele homem, mas tinha obrigação de ter um pouco de respeito e consideração por ele. Por isso que sabia que não podia sair e voltar à festa com ele assim. Sem contar, é claro, com o fato de que os dois estão com as roupas sujas e os cabelos desarrumados, e que Armitage pode novamente envergonhar a si e a ela diante de todos.
— Não faz isso, cara... Pare de cantar assim. — Ela tomou coragem de sentar perto dele.
— Quero ficar triste... — Hux redarguiu em um sussurro, tirando a mão do peito.
— Não diz isso. Não é legal se sentir triste...
— Que escolha eu tenho? Achei que minha vida tinha finalmente começado a fazer sentido, mas eu estava enganado.
— Eu sinto muito, Armitage. Eu sei como você se sente, mas eu... eu não correspondo você...
Ele olhou para ela. Rose se deu conta de que os olhos dele eram claros, mas não conseguia definir ao certo a tonalidade, à luz da lâmpada do banheiro. Talvez azul ou verde. Reparou também que ele era um homem bonito. Mesmo assim, eles eram meros peões no jogo de um deus estúpido, vítimas da arrogância e egoísmo de Eros, que flechou apenas ele e ela não. Agora ele a ama e ela não.
Aquilo era realmente cruel.
Armitage virou o rosto. Dobrou as pernas para cima e apoiou os antebraços sobre os joelhos. Rose chegou mais perto, mesmo com receio.
— Olha, você é um cara bonitão, esse terno com certeza é bem caro, apesar de estar estragado, mas mostra que tem dinheiro, você deve ser interessante... para alguém. Tenho certeza que conseguirá encontrar alguém que te corresponda.
— Não, Rose — respondeu, tornando a encará-la. — Eu estou apaixonado por você. Por você! Não tenho olhos para mais ninguém.
— Isso é porque você não viu mais ninguém desde que saiu da festa! — replicou Rose. — Mas está tudo bem, Hux. Não precisamos nos preocupar, porque tudo isso é um sonho. Um sonho bem louco e hiper-realista! Mas não deixa de ser um sonho. E logo eu vou acordar e as coisas voltarão ao normal.
Ela sorria amavelmente para ele agora. Havia convencido a si mesma acerca de sua realidade, só precisava esperar que acordasse.
— Se isso é então um sonho... — Ele não terminou a frase.
Fechou a distância entre eles e a beijou pela primeira vez, segurando seu rosto com as duas mãos. Se era um sonho e logo tudo acabaria, então era melhor beijá-la enquanto tinha a chance.
Exceto que Rose não consentiu com isto e imediatamente reagiu. Mordeu-o e o empurrou. Armitage afastou-se gemendo de dor, com o lábio inchado e vermelho; um pouco mais forte, e estaria sangrando. Em seguida, ela acertou sua face esquerda com um tapa.
— Tarado!
Levantou-se segurando a saia de seu vestido e afastou-se chamando-o de todos os nomes.
— Rose, me desculpe! — Hux apressou-se em desculpar-se. Levantou-se um pouco atrapalhado, envergonhado de seu gesto impulsivo.
— Inferno! A gente não pode ser nem gentis com um cara que ele já acha que estamos dando mole para ele! — resmungou.
Rose abriu a porta, mas não saiu. Atrás dela, Armitage repetia seus pedidos de desculpas – ignorados por ela.
Rose expiou pelo lado de fora, olhando de lado para o outro. Avistou Rey passando pelo outro corredor que dava acesso à cozinha.
— Ei! Psiiiu! — chamou. — Rey! Reeey, olha para cá!
A outra finalmente a escutou e parou, vendo metade do corpo da sua amiga para fora de um lavabo.
— Vem aqui! — Rose acenava com a mão repetidas vezes até que Rey, sem entender nada, veio até ela.
— Rose, então você estava aqui o tempo todo? — perguntou Rey, retoricamente. — O que foi que aconteceu? Você sumiu. Paige e eu estávamos preocupadas.
— Bom que você perguntou, porque aconteceu uma coisa sim — confidenciou.
Rey arregalou os olhos, parecendo preocupada. — Você menstruou?
— Antes fosse, amiga! Eu estou com um problema muito pior.
— Como assim? — a outra questionou.
— Entra, por favor. — Rose afastou-se e abriu a porta.
A primeira coisa que Rey encontra ao entrar é um homem. Sua cabeça ruiva é facilmente reconhecida, mesmo que ele estivesse bagunçado e maltrapilho. O amigo esquisito de seu noivo.
— Hux? O que você... Rose?
— Rey?
— Por que ele...
— Longa história.
Rey puxou a amiga para um canto do banheiro, enquanto o ruivo observava as duas aparentemente nervoso e desconfortável e roendo a unha do polegar – gesto bastante intrigante na opinião da Palpatine.
— Você estava ficando com ele durante o tempo que sumiu, Rose? — Rey sussurrou.
— Não! — Rose sussurrou de volta.
— Então por que estão os dois juntos nesse banheiro?
— Eu posso te contar tudo, mas tem que me prometer que vai acreditar em mim.
— Rose, Rose... O que você andou aprontando?!
— Rey, eu não aprontei nada! Quem aprontou foi o Eros, aquele pulha filho da mãe!
— Eros? — Rey franziu o cenho. — Que história é essa?
— Primeiro promete que vai acreditar em mim. — Rey não respondeu, ao invés disso a fitou com uma careta, claramente estranhando seu jeito. — Rey, por favor!
— Está bem, eu prometo.
Rose relatou toda a história do que aconteceu desde que deixou o salão, preferindo não explicar muitos detalhes para não tornar o relato longo, e também optou por não contar seus motivos para deixar a festa. Falou de sua experiência estranha – porque ainda não conseguia nominar de outra maneira – com o deus grego do amor e da paixão, e do que ele fez com Armitage Hux, e como eles foram parar naquele banheiro e também de como ele estava agindo.
Ela respirou com dificuldade enquanto esperava pela reação da outra, tremendo e torcendo que sua amiga acreditasse realmente nela.
Rey colocou a mão em sua testa, de repente, olhando-a com olhos preocupados.
— Rose, você deve estar febril.
Rose afastou a mão dela com um leve tapa.
— Você prometeu! — disse magoada.
— Rose, você bebeu demais e...
— Eu estou sóbria! — gritou a outra. Armitage estava por perto, tão nervoso quando Rose e pronto para intervir para proteger sua musa. Massageava o peito várias vezes.
Ela de fato estava meio bêbada antes, mas depois de tudo o que aconteceu, qualquer sintoma de sua embriaguez desapareceu e estava bastante sóbria.
— Rose, você não pode estar sã, então. Olha a maluquice o que acabou de me contar.
— Não é maluquice! Quer dizer, é, mas é a verdade. Eu não estou louca! Você tem que acreditar em mim.
— Rose Tico, você acabou de me dizer que o Cupido em pessoa apareceu do nada e flechou o Armitage e agora ele está apaixonado por você! O que quer que eu pense? No mínimo que está tirando sarro da minha cara.
— Rey, esse vestido custou quatrocentas pratas — Rose disse. — E olha o estado em que ele se encontra. Eu estou imunda e estraguei meu vestido mais caro e mais bonito, você acha realmente que eu o estragaria desse jeito só para tirar com a tua cara?
Rey sentia sinceridade nas suas palavras, mas acreditava que havia algo errado. Talvez Rose não estivesse mentindo, porém, isso não significava que estava certa. Ela parecia confusa, fora de si.
Rose pegou o braço da amiga e apontou para Armitage então.
— Olha para ele! — ela disse. — Se você acha que eu estou louca, então não sou a única.
Francamente, Rose gostava muito da ideia de estar louca, e preferia isso. Ela ainda acreditava que tudo não passava de um sonho, que em breve acordaria. Estava em negação.
— Hux? — Rey dirigiu-se a ele. — Você... Está apaixonado pela Rose?
— Perdidamente! — declarou, colocando a mão no coração e tirando em seguida. Rey achou o gesto teatral.
— Ok... E confirma que foi flechado pelo Cupido?
Ele voltou a massagear o peito, fazendo uma careta estranha. Levemente assentiu.
— Por que você está fazendo isso? — Rose perguntou. A cara de Hux perguntava "o que?" e ela se explicou melhor. — Você fica massageando o peito. Está fazendo isso desde que saímos do labirinto de cercas vivas.
— É mesmo? Não tinha reparado.
— Está sentindo dor no peito? — Rey indagou.
— Não sei explicar... Não é bem uma dor, mas... ainda assim, dói. É como se ardesse, se pinicasse, e eu estou com um pouco de falta de ar — replicou.
Rey e Rose trocaram um rápido olhar. Movida por um instinto, a primeira pediu então para que Armitage abrisse os botões da camisa e mostrasse-lhes o peito nu.
Armitage pareceu ele mesmo pela primeira vez. Não gostou nem um pouco da ideia, e sua faceta de desagrado constante retorna desde que toda a loucura começou. Ele corou um pouco também, não se sabe se de vergonha ou de irritação. Ambos, talvez.
— Vamos, Hux. Mostre — Rose pediu.
Como uma nuvem cinza que vem e que passa, o semblante no rosto dele mudou com a voz dela dirigindo-se a ele. O olhar amoroso e admirador estava novamente sobre sua face.
Ele até parecia ter se esquecido que Rey estava ali, como ela mesma percebeu. Olhava ela de um para outro, de outro para um. Armitage a olhava apaixonado, enquanto Rose devolvia o olhar com nervosismo; e um pouco de vergonha, talvez?
Ele obedeceu. Tirou a gravata, desabotoou as primeiras casas da camisa e exibiu o peito.
— Isso... É o que eu estou pensando? — Rey indagou.
Armitage olhou para baixo. No lado esquerdo do peito, bem acima de onde está o coração, uma cicatriz bastante recente, pela coloração, ainda avermelhada. Mas o que mais estranhava era seu formato: um coração, fino e pequeno.
Memórias da cena no jardim secreto retornaram. Uma flecha cravada bem ali, bem fundo e que o acertou bem no coração. A dor que o fez desmaiar imediatamente.
— Isso não estava aí antes, não é? — Rey perguntou.
Rose saiu detrás dela, tomou coragem de se aproximar. Fitava a cicatriz com a lembrança da fecha desaparecendo numa fumaça rosada. De como, estranhamente, não havia nenhum sangue na ferida. Perguntou-se se estaria com uma cicatriz daquela também, se tivesse sido flechada por Eros também, e, involuntariamente, colocou a mão no peito esquerdo.
— Viu? — apontou, olhando para Rey. — Essa é a prova. Acredita em mim agora.
— Eu quero acreditar, Rose, mas...
— Eu entendo.
Rose compreendia, se fosse ela na posição de Rey, também se negaria a acreditar. Ainda estava ela em negação, vivendo o que acreditava ser um sonho na esperança de que ele acabasse em qualquer momento.
— Rey...
— O Ben o conhece melhor, talvez eu devesse chamá-lo — ela disse.
— É uma boa ideia — Rose concordou. Talvez Ben soubesse o que fazer.
Rose ficou a sós com Armitage de novo. O banheiro estranhamente ficou menor agora que Rey saiu. Talvez fosse pela tensão estranha entre os dois. Armitage deixava Rose nervosa. E o jeito como a olhava... Era demais. Ela não conseguia sustentar um olhar com ele.
Ela pediu que ele abotoasse a camisa de novo e assim ele fez.
— Rose, eu gostaria...
— Hux, por favor, não.
— É muito importante o que eu preciso te dizer.
— Eu imagino o que você vai falar. E eu não quero ter essa conversa.
Deu-lhe as costas. Não suportava olhá-lo. Armitage sentou-se no vaso sanitário, outra vez massageando o peito, dessa vez com mais força.
Dois minutos mais tarde, Rey volta acompanhada do noivo. Ben Solo, herdeiro da família Skywalker e Organa, um sujeito imponente tanto pela altura e porte física, quanto por sua presença. Era mais alto que Armitage, e ao contrário dele, era moreno.
Ele olhou para os dois de um jeito estranho, trocou um breve olhar com a noiva e então focou em Hux. Ao que parece, Rey já havia adiantado algumas coisas para ele.
— Hux, o que aconteceu com você? — ele perguntou.
— Ah, Solo... — Hux sorriu de um jeito bobo. — Você nem vai acreditar. Eu encontrei a flor mais linda do mundo. — E olhou para Rose, que quis cavar um buraco e enfiar a cabeça dentro de tanta vergonha.
— O que?
— É como se antes tudo fosse cinza e agora eu vejo o mundo finalmente colorido. E eu sinto meu peito arder como brasa de um jeito gostoso. — Suspirou, colocando a mão no peito. Olhou para Ben. — Eu nunca me senti assim antes.
— Agora você acredita em mim? — Rose perguntou para Rey, mas a outra não sabia o que dizer.
Ben olhou para Rose. — Pode me explicar?
— É complicado... — ela respondeu.
— Então descomplique!
— Ben, por favor! — Rey ralhou.
— Está bem. — Ele cruzou os braços. — Rey me disse algumas coisas no caminho até aqui, mas eu não consigo acreditar.
— É verdade, Ben! — Foi Hux que gritou. — É tudo verdade. Eu estou apaixonado pela Srta. Tico.
— Essa parte eu já percebi. Mas o que eu não entendo é essa história estúpida de Cupido.
— Mas foi exatamente o que aconteceu, Ben — disse Rose. Então repetiu de maneira mais resumida toda a história para ele. — E agora ele está assim...
— E você quer mesmo que eu acredite nessa história? Rose, quem você pensa que eu sou? Um idiota?
Ela sentiu vontade de responder que sim, mas nesse contexto não daria certo.
— Ben, eu acho que eles não estão exatamente mentindo.
— Eu também acho, sabe por que? — ele dizia. — Porque alucinaram isso, então acham que é real.
— Como assim? — Rey indagou.
— Eu sei o que aconteceu. Hux saiu dizendo que ia fumar, mas eu sei que às vezes ele fuma uns cigarros diferenciados, se é que me entendem. — Armitage olhou para Ben de um jeito engraçado, como se dissesse "Como ele sabe?" ou "Que porra você está falando?". Foi a vez de Rose roer a unha do polegar. — Então ele encontrou a Rose, que estava triste por sei lá qual motivo, ofereceu a ela um baseado e ela aceitou. Os dois fumaram e ficaram tão chapados que alucinaram.
— Não foi nada disso... — Rose tentou dizer.
— O que vocês precisam é ir para casa, tomar um banho e dormir. Chega de festa para os dois! — disse Ben como se falasse com duas crianças que aprontaram.
— Não! Rey, você acredita em mim, não é? — Recorreu à amiga.
— Rose, talvez o Ben esteja certo.
Rey tentou segurar sua mão, mas Rose se afastou magoada. Sua melhor amiga não acreditava nela, mesmo depois dela repetir a história várias vezes, sempre da mesma forma e das atitudes de Hux, até a cicatriz – a maior prova, em sua opinião.
— Eu vou levar o Hux para casa — Ben anunciou.
— Não vou a lugar nenhum! — Armitage replicou, levantando-se.
— Você não está bem, Hux! Vai para casa, é melhor para você.
— Eu não vou, quero ficar com a Rose...
— Hux... — Ben quase rosnou.
— É melhor nós irmos mesmo, Hux. — Rose foi até ele. Estava vendo uma chance de sair daquela situação. Mesmo que não acreditassem nela, era melhor do que nada.
— Mas, meu amor...
— Não. Já está bem tarde. Vá para casa.
— Mas e você?
— Vou ficar bem, eu posso ir.
— Eu vou pedir ao motorista que a leve para casa — Rey falou.
Hux olhou para Rose. Acalmou-se.
— Eu vou se você me prometer que nós nos veremos outra vez.
— Está bem, é claro. — Rose deu de ombros, confirmou apenas para acabar com aquilo de uma vez. Não tinha mais cabeça para nada.
— Promete?
— Prometo.
Ele sorriu e beijou sua testa. Ben o puxou para fora. Nem deixou ele se despedir.
As duas mulheres ficaram sozinhas, a olharem uma para outra. Lentamente Rose começou a caminhar para a saída.
— Espera, Rose.
— Eu quero ir embora — redarguiu. — Desculpe não aproveitar melhor sua festa.
— Depois a gente conversa sobre isso, agora você tem que descansar.
[...]
Rose encontrou sua casa quando chegou em completa escuridão e silêncio. Todos ainda estavam no noivado de Rey e Ben. Grata por esta solidão, ela subiu até o seu quarto no segundo andar.
Airou o vestido no cesto de roupa suja. Tomou um banho rápido e jogou-se na cama com o cabelo molhado e enrolada na toalha de banho. Logo caiu no sono.
Dormiu embalada na esperança de que quando acordaria, perceberá que tudo foi um sonho. Ao menos era isso que queria.
