7h35am.

Meu celular vibrava como uma mosca varejeira morrendo pela inseticida. A comparação podia ser repugnante, mas fazia total sentido.

Eu sabia que era Rosalie, e eu sabia que precisava olhar antes que ela viesse bater na minha porta.

Mas eu simplesmente sentia que havia algo errado. Talvez tenha sido pelo fato de Jake ter me ligado mais cedo, me questionando, - repentinamente - sobre o meu bem-estar. Por um segundo, eu pensei que fosse uma preocupação natural, até olhar minhas redes sociais.

Eu não sabia o porquê, mas meus leitores me mencionavam desejando… apoio? Alguns me julgavam severamente, mas eu os ignorei.

O toque padrão do iPhone iniciou e eu respirei fundo antes de atender:

— Oi, Rose.

— Finalmente! Só assim eu consigo me comunicar com vossa senhoria? — em sua voz, pude notar que ela mastigava alguma coisa, presumi que fosse o café da manhã.

— Eu me torno incomunicável em horário de trabalho. — zombei, mas em partes, não era mentira. — Apenas em situações emergenciais.

Ela riu por trás da linha. Era uma risada nervosa.

— Bom, isso claramente é uma emergência.

Me alarmei.

— Aconteceu alguma coisa? — pressionei mais o aparelho em meu ouvido, girando minha cadeira para ficar de costas para o monitor do iMac. — Rosalie, você brigou com alguém? — eu conhecia a melhor amiga que tinha.

Hale era conhecida por ser uma mulher de pavio curto. Eu reconhecia seu estresse, apesar de achar que a mesma exagerava em seus surtos.

— Hoje, não. — mesmo sem vê-la, a imagem clara da loira revirando seus olhos era totalmente comum. — Na verdade, não tem relação comigo.

— Como assim?

— Um segundo. — a linha tremeu, e o barulho de talheres batendo um no outro preencheu meu ouvido. Logo em seguida, a respiração frenética de Rose tomou o lugar. — Ok, agora sim. — ela falava com dificuldade.

— Respira, Hale. — dei risada.

— Você já olhou suas redes sociais hoje? — ela ignorou meu pedido, e ao lembrar que meu computador permanecia ausente, me virei novamente em sua direção.

— São sete horas da manhã, Rosalie. Quem olha as redes sociais assim que acorda? Só você, né?

Eu respondi a minha própria pergunta.

— É lógico. — pelo som dos seus passos abafados, constatei que ela andava por seu apartamento enquanto conversava comigo. — Isabella, não tenta me distrair!

— O que tem de tão interessante? — omiti a parte em que eu já tinha visto minhas menções. De fato, eu ainda não sabia o que tinha causado tanta discórdia entre os meus leitores.

Rosalie respirou fundo, e o chiado fez com que eu afastasse minimamente o celular do meu ouvido.

— Acho que seria interessante se você entrasse na página oficial do Cullen.

Cullen.

Por mais que eu detestasse admitir, o sobrenome me trouxe lembranças que eu havia enterrado em meu subconsciente. Elas se encontravam em um estado tão inerte, que quase não passavam mais por minha mente. Quase.

Era difícil ter sempre a mesma reação quando eu escutava qualquer coisa sobre ele. Eu não precisava saber de qual "Cullen" ela falava, só havia um que possivelmente poderia estar relacionado comigo.

— Isabella? — a preocupação de Rosalie me tirou do caminho errado pela qual minha imaginação me levava. — Oh, droga. Por favor, não tenha desmaiado.

Eu retomei a consciência.

— Por qual motivo eu desmaiaria? — apertei o celular entre os meus dedos. — O que aconteceu com ele, Rose?

O tom em minha voz me pegou de surpresa. E a preocupação que tomou meu coração também.

— Nada, mas eu não tenho dúvidas de que você vai querer que aconteça depois de saber o que ele fez. — e riu. — Eu, particularmente, já liguei pra funerária e marquei seu enterro.

— Rosalie, desembucha.

— Bella… — começou, mas parou de falar abruptamente e soltou um palavrão abafado após cinco segundos. — Amiga, eu realmente preciso atender a minha chefe, pelo bem do meu emprego!

— Não, Rosalie…

— Olha a página. Te amo e vejo você depois.

Eu ia contestar, mas a linha ficou muda antes que eu pudesse mencionar qualquer coisa.

Suspirei, ponderando se eu permanecia alheia à suposta atitude do Cullen – cuja eu ainda não fazia ideia de qual era, – ou domava minha curiosidade e digitava a bendita página oficial do rapaz nas pesquisas. Eu não precisava me aprofundar em buscas para descobrir sua fonte, eu conhecia bem.

Mesmo depois de toda a bagunça que ele havia deixado em minhas costas, eu sentia a necessidade de conhecer seu mundo novo, do qual ele fazia parte agora. Na esperança de um dia poder parabenizá-lo por tudo que o mesmo conquistou.

E talvez até lembrá-lo do que ele perdeu no processo.

Ele era tudo, no momento. E por mais que o meu coração se recusasse a aceitar, eu me sentia alegre. Um tanto melancólica, por tudo que passei às custas disso, mas feliz por ele estar subindo. Na verdade, por ele já estar lá em cima.

Assim que eu digitei o usuário da página tão bem-sucedida, a palavra podcast tomou a frente, e eu estremeci. Sabia que não seria tão fácil. Eu podia lidar – dificilmente, – com seu rosto estampado em todos os jornais e revistas digitais existentes na cidade de Nova York; com seu nome rondando empresas e conversas paralelas em estabelecimentos como restaurantes, shoppings, e até em meu local de trabalho. Eu resistia, era capaz de tolerar tudo isso, já com sacrifício. Só não sabia se surtiria o monótono efeito quando eu ouvisse sua voz.

Estava tão perdida em pensamentos, que nem senti quando meus dedos procuraram automaticamente o teclado e pesquisaram por algum artigo que explicasse tal notícia polêmica.

Covarde.

Revirei os olhos enquanto minha consciência me condenava por tal ato.

Sendo sincera, eu não queria precisar ouvir o podcast e ser atingida por um turbilhão de emoções. A voz dele, com certeza, me traria nostalgia, e eu não estava pronta pra isso. Não depois de 7 anos sem ouvi-la.

Eu não precisava saber mais do que já estava escrito em letras gordas no início, e mesmo assim, rolei o site.

"Escritora ganhadora do prêmio de 'Melhor obra literária de Romance' foi duramente criticada pelo modelo mundialmente conhecido: Edward Cullen."

Esse era só o título.

"...Após mencionar sobre sua incrível carreira - que está no auge, inclusive, - Jessica pergunta sobre sua influência literária favorita e o que ele recomendaria (ou não), aos seus admiradores. A princípio, ela não mencionou o livro "Entre canhões" de Isabella Marie, mas de alguma forma, ele entrou no assunto."

"...Entre outros, mas definitivamente, livros de romance não me prendem. São bobos, um tanto dramáticos, e eu não estou procurando por isso." disse Edward, e prosseguiu: "Tanya resolveu comprar um livro um tanto peculiar esses dias, acho que se baseava em um romance da segunda guerra mundial? Eu realmente não sei. No entanto, me desculpe pelo palavreado, mas é uma merda. A abordagem sobre os acontecimentos, os personagens serem apaixonados um pelo outro mas serem impedidos de ter um relacionamento por terceiras pessoas, o fato da garota observar ele se tornando um militar enaltecido e agir como uma mosca-morta. Ela nem toma uma atitude sobre isso… Eu tenho plena certeza de que a autora ou foi traída, ou tem a mesma personalidade boba da personagem." tanto ele, quando Jessica, deram risada. "Eu não a conheço, mas certamente seria o tipo de pessoal a qual eu manteria distância, e…"

Eu não consegui ler o resto da reportagem, e demorou um tempo até eu perceber que algumas lágrimas me impediam.

Eu estava chorando? Estava chorando por ele?

Sabia bem o que isso significava. Sabia que devia ter escutado a Rosalie e me arrependia. Sabia que aquilo ficaria guardado comigo, por dois motivos: Ele agiu como se não me conhecesse, como se não soubesse quem eu sou. Como se eu não tivesse dado todo o suporte para sua escolha de carreira, para sua fama, antes mesmo dela começar, enquanto eu o assistia indo embora, enquanto eu não conseguia pedi-lo pra ficar. E por último, mas não menos importante: Eu escrevi cada parágrafo, cada verso do livro, pensando em nós dois.

Indiretamente, o enredo era uma representação de época do que tínhamos passado. Do que eu passei. E ele não reconheceu, provavelmente nem lembrou.

Eu enxugava as lágrimas com agressão e tentava esquecer de suas palavras. Eu estava com raiva, com dor, com vontade de quebrar sua cara tonta. Será que ele ao menos lembra de como tudo havia começado? Será que ele lembrava da menina loira, sentada sozinha, encostada em um tronco de árvore no jardim do colégio, tentando escrever um rascunho do que futuramente saiu como meu primeiro livro? Será que ele conseguia se recordar das suas últimas palavras, após aquele dia?

Eu lembrava.

Eu leria todos os seus livros, Bella. E provavelmente gostaria deles.