O orfanato Wool era tudo aquilo que parecia ser por fora: frio e escuro; porém em compensação os funcionários eram amáveis. Pelo menos a maioria dos que conhecera até aquele momento, se não contasse a estranha Sra. Coole, que era esguia como um junco e ranzinza até os ossos, mas não exatamente má. Fora ela quem a encontrara desmaiada em frente aos portões do orfanato, com a testa sangrando pelo que só poderia ter sido uma pancada muito forte.

_Onde estão seus pais, senhorita? –Perguntou a Sra. Coole, com evidente preocupação e uma pontada de indignação. Ela ajudou a criança trêmula a se levantar enquanto esta fazia um esforço sobre-humano para parar de tremer e conseguir usar a voz. A viagem até aquela época fora tão turbulenta quanto um avião em queda livre. Sabia que um vira tempo com o poder de retornar anos seria de uso complicado e arriscado... sentia como se tivesse desafiado leis invisíveis ou transpassado para um lado sem volta. Com as pernas bamboleando como gelatina e um terrível gosto de terra seca na boca, a menina tentou uma resposta convincente, o cérebro e o corpo trabalhando rapidamente para se ajustar à nova realidade.

_E-Eu não me lembro...

_A senhorita tem pais vivos? Sabe onde eles estão? Podemos ajudá-la a encontra-los... –A voz era suave sem dúvida mas era inegável uma nota de suspeita por trás das palavras da mulher. Como ela não se lembrava dos próprios pais? A menina, de não mais de oito anos, estava vestida com roupas de qualidade, não ostensivas, mas boas o suficiente para fazê-la supor que era bem cuidada e possuía pais ou parentes próximos. Mal sabia ela que a menina devia isso à Alvo Dumbledore, que em sua vasta sabedoria antecipara o que poderia precisar em sua viagem ao passado.

A menina meneou com a cabeça, a expressão uma máscara de confusão e inocência perfeitamente criada para a situação. Suspirando, a mulher se permitiu baixar a guarda por alguns minutos. A criança estava visivelmente exausta e abatida, além é claro, de ter um ferimento feio na cabeça. Decidiu se preocupar com suas origens misteriosas depois e a levou para dentro do orfanato, aonde lhe serviu uma xícara de chá enquanto mandava chamar as enfermeiras e um médico.

O médico fora gentil e ouvira as poucas –mas muito bem escolhidas –palavras dela, antes de dar seu diagnóstico. A pancada na cabeça se devia ao choque contra o chão da calçada e apesar de aparentemente não ser tão fundo, poderia ter deixado sequelas na memória que só o tempo diria se eram permanentes ou não. Particularmente, ele acreditava que era um efeito temporário da pancada e que logo ela seria capaz de identificar seus pais. Decidindo que pareceria mais realista se demorasse um tempo para revelar seu nome, ela permaneceu descansando na enfermaria por quatro dias, antes de se virar pra enfermeira que tagarelava sobre qualquer coisa ao seu lado e dizer, com a voz fraca:

_Hermione.

A enfermeira estacou enquanto guardava as bandagens brancas no armário. Ela virou-se devagar.

_O-o que disse, senhorita?

_Meu nome...é Hermione.

Hermione Granger definitivamente merecia o Oscar de melhor atriz. Responder aos questionamentos que caíram sobre si como bombas com mentiras fora tão fácil que lhe assustava. A não ser pela Sra. Coole, que se mostrara uma pessoa muito cética, ela diria que conseguira convencer a todos rápido demais, com suas respostas inocentes, assustadas e seu rosto marcado por lágrimas falsas. A governanta ainda tentou por um tempo arrancar respostas da criança, sem sucesso.

Tinha nove anos, pois se lembrava vagamente de apagar nove velas de aniversário, cercada por pessoas cujos rostos não eram claros. Ela achava que seus pais moravam na Inglaterra... Todas essas respostas estavam bem guardadas e decoradas para que nunca desse um passo em falso. Sob hipótese alguma poderia ser expulsa daquele lugar, visto que o objetivo maior de sua missão suicida morava ali.

Tom Marvolo Riddle.