Quando Tashigi ligou novamente, a missão em campo tinha sido complicado como de costume, mas com um resultado diferente. Ela tinha vencido, tinha sido capaz de proteger civis com sucesso e o orgulho que sentiu de si mesmo encheu o peito a ponto de transbordar. Nesses dias, ela até costuma sair para comemorar com a tripulação.

Mas ficou estupidamente surpresa e furiosa que um certo homem de cabelos verdes foi a primeira coisa que veio em mente.

Surpresa porque foi Roronoa Zoro. Furiosa porque foi Roronoa Zoro.

Mas… eu queria contar para ele que venci.

Então, em vez de sair para celebrar a vitória, ela resolveu voltar para base, tomar um banho relaxante e… quem sabe, não se irritar com o infame pirata.

Entretanto, quando finalmente atenderam do outro lado da linha, ela não esperava a voz de Nico Robin.

- Olá, capitã Tashigi. O que posso fazer por você?

A voz calma da pirata ainda provocava um frio em sua espinha desde o confronto em Alabasta.

- N-nico R-robin! E-e-eu só liguei para-

- Falar com nosso espadachim?

A capitã calou a boca subitamente.

Ótimo. Dê seus sentimentos de bandeja para a esperta Nico Robin, Tashigi.

- Tomarei o silêncio como um sim. Ele não está no momento. O den den mushi fica sempre na cabeceira da cama dele, então quando ele voltar do banho, ele pode ligar de volta. Quer deixar um recado?

Tashigi não ouviu malícia na voz da arqueóloga e ela parecia genuinamente solícita. Mas Tashigi se espantou de se sentir genuinamente incomodada.

- V-v-você e-está na c-cama d-dele?

- Se você gaguejar mais que isso, eu não vou conseguir te entender, capitã. Mas sim, estou. Algum problema?

- N-n-não! - Tashigi se exaltou um pouco mais do que deveria.

Não sei.

- Fufufu. De qualquer forma, terei que desligar agora, capitã-san, mas avisarei para ele. Tenha uma boa noite!

Talvez eu não tenha mais.

- C-c-claro! B-Boa n-noite!

Tashigi desligou, mas continuou a olhar fixamente para o den den mushi como se ele pudesse, milagrosamente, explicar o que ela estava sentindo. Porque a capitã em si não fazia ideia.

Nico Robin no quarto dos rapazes.

Nico Robin perto do den den mushi que ficou nas mãos de Roronoa.

Na cama de Roronoa.

O que… isso pode significar?

Tashigi convenceu-se de que Zoro não iria retornar a ligação, pois durante esses últimos meses, a garota tinha sido a que iniciava qualquer interação, uma vez que toda semana ela entrava em contato com o bando a fim de pegar o den den mushi de volta. Mas no fundo… o caramujo não era mais o principal motivo.

Nas primeiras semanas, ela conseguia facilmente recitar, sem gaguejar ou pensar duas vezes, os motivos pelo qual ligava incansavelmente. Mas com o tempo, o tom de voz barítono de Roronoa passou a ser uma doce canção de ninar toda vez que se falavam e Tashigi sempre dormia muito bem nessas noites, mas até então não conseguia entender o porquê.

A única coisa que Tashigi conseguiu perceber era o fato de que, na grande maioria das situações, ela era capaz de se manter calma da mesma forma que ondas pacíficas quebravam no oceano num dia ensolarado. Mas quando a voz dele atendia do outro lado, por algum motivo, as ondas pareciam ficar incontroláveis e imprevisíveis.

Ela continuava confusa.

A capitã também já tinha conversado com a maioria da tripulação do Sunny - Nami, Sanji, a rena mais fofa de todos os mares, até mesmo Luffy (ela lembra que foi uma das conversas mais engraçadas que já teve na vida já que o rapaz não tinha um pingo de seriedade em si) e em todas as vezes, as ondas mantiveram-se tranquilas.

Talvez a água tenha estado estática porque em todas essas vezes, essas pessoas do outro lado da linha nunca estavam na cama dele.

Isso não é da sua conta, Tashigi. Deixe para lá.

Mas ela não conseguia porque ficava repassando todas as conversas que teve com Zoro pelo den den mushi até então. Não foram muitas a ponto de Tashigi afirmar que o conhece muito bem como se fossem amigos de longa data, mas no geral foram… boas. Ocasionalmente, Zoro oferecia pedaços dos seus pensamentos e Tashigi sempre imaginou que essas conversas eram como pequenos papéis embrulhados espalhados em uma mesa. Dependendo do assunto ou do humor, ele abriria um aleatório e compartilharia com ela.

Entretanto, nem sempre foi assim. Inicialmente, os dois ficavam apenas brigando um com o outro pelo caramujo…

- "Como diabos você tem um senso de direção tão ruim, Roronoa? Você é muito sem noção!"

- "Haaaa? E você é um pé no saco, mulher!",

Ou se chamando por nomes idiotas…

- "Sua louca das espadas!"

- "Marimo."

- "HAAA? REPETE ISSO, QUATRO-OLHOS!"

…ou competindo pelas coisas mais insensatas possíveis.

- "Tenho certeza que se eu te jogar num labirinto, você vai morrer lá porque nunca vai conseguir escapar!"

- "Queee? Sua insuportável, você tá me desafiando?"

- "Meu Deus, como você é tapado."

Até que um dia, ao passar pelo cartaz de procurado de Zoro, ela teve uma vontade enorme de saber por onde ele andava e o que podia estar fazendo. A vontade foi tão incrivelmente repentina que Tashigi achou que tinha sido acertada por um raio por conta do choque que percorreu até o último fio de cabelo.

Ela parou de andar subitamente. O coração acelerou sem aviso nenhum.

Talvez ele estivesse… chutando Sanji? Chamando Nami de bruxa? Dando atenção para Chopper? Treinando? Bebendo saquê? Dormindo?

Pensando nela?

Não. Impossível. Ele já falou várias e várias vezes que me odeia.

Mesmo sabendo disso, ligou para ele à noite com o pretexto de, mais uma vez, tentar persuadi-los a devolver o caramujo. Zoro só riu de forma presunçosa e disse que não, Tashigi bufou, mas depois de um certo silêncio, o espadachim perguntou como andavam as caçadas pelas Meito. Ela se espantou porque a julgar pela relação complicada que eles tem, a capitã achou que o espadachim já teria apagado qualquer informação relevante sobre ela de sua mente. Especialmente uma memória perdida em uma loja de espadas em Loguetown.

Embora ele tenha percebido que minha patente mudou.

Mas depois que o espanto passou, ela, alegremente, contou sobre algumas operações bem sucedidas.

Nesse dia, eles conversaram até meia-noite. Nesse dia, ela percebeu que algo nela mudou.

Desde então, Tashigi parecia estar sempre morando dentro da própria mente, sempre reprisando essa noite. A conversa, a voz dele calma e baixa, uma risada quase silenciosa que não parecia nada pretensiosa. Estava pensando sempre sobre como, pelo menos por aquele curto espaço de tempo, a relação dos dois pareceu ser mais amigável.

E como ela tinha gostado disso.

プルルル purururu

Ela quase jogou o den den mushi no chão quando tocou.

- A-a-lô?

- Oe, madame capitã. Robin disse que você ligou…

Ela achou que ou estava imaginando coisas ou ele estava falando com alguém próximo porque ouviu um sussurro que parecia "depois de dois meses...".

Dois meses. Sessenta e um dias e vinte e duas horas (estava chegando em sessenta e dois dias agora). Ela sabia que foram dois meses porque contou todos os dias e lutou contra si mesma para não ligar. É impossível que Roronoa Zoro tivesse se dado o trabalho de contar também.

Impossível. Ele deve estar falando com outra pessoa.

- A-a-ah s-s-sim. P-p-pois é.

- Por que diabos você tá gaguejando tanto?

- P-Por n-nada!

- Aconteceu algo porque você tá gaguejando sim.

- Já disse que não é nada, caramba!

- Ótimo, você parou. Então, o que você quer?

Ela não iria mentir que ficou surpresa com o fato que ele a irritou somente para que ela parasse de gaguejar. Irritar um ao outro é algo que vinha naturalmente devido a excentricidade da relação dos dois. Mas saber que fazer isso também podia ser usado para outra finalidade como fazê-la parar de gaguejar?

E por que diabos ela gaguejou tanto?

Tashigi ficou alguns segundos atordoada e pensando sobre isso em silêncio.

- Quatro-olhos?

A voz pareceu despertá-la de qualquer espiral de pensamentos que estava tendo e ela lembrou o porquê de ter ligado. E, só por enquanto, ela se deixaria levar mais uma vez pela ilusão de um companheirismo entre eles.

- Eu venci hoje.

- Parabéns. - Zoro respondeu simplesmente.

- Você nem sabe do que estou falando, seu besta.

- Sei sim.

Como? Como você sabe?

Por algum motivo, os dois tinham essa estranha conexão que era completamente inexplicável e Zoro geralmente conseguia, de alguma forma, entendê-la. Tashigi sempre achou isso muito curioso porque… o que isso podia significar? Talvez eles sempre estiveram fadados a se conhecer? Uma conexão entre rivais? Uma conexão de amigos de outra vida?

Ou talvez… uma conexão na forma de uma linha vermelha bem imperceptível amarrada no mindinho dela?

Até parece. Deixe de ser idiota, Tashigi, ela pensou.

De qualquer forma, sempre forçou-se a nunca pensar sobre porque com toda certeza ele não pensava.

- Por que você ligou naquela noite?

Mais uma vez. A conexão inexplicável. Ela sabia de que noite ele estava se referindo porque ela pensava nisso todos os dias e, por um segundo, pensou em negar e dizer que não sabia do que ele estava falando. Mas como ela não conseguia explicar a tal conexão e ela sabia que ele seria capaz de apontar a mentira no momento que saísse de sua boca, então não existia nenhum motivo para fugir. Se ela vai viver essa falsa afinidade só por hoje, então que mal tem em falar a verdade?

Uma ilusão. Só por hoje. Não gagueje.

- Porque eu perdi e queria conversar com alguém.

- E você ligou pra mim. - Zoro não indagou, apenas falou falou um fato.

- Sim. Eu normalmente… não tenho muito com quem conversar, então achei que você poderia me escutar. Pelo menos uma vez… sem se importar com a questão de marinha e piratas. Mas… é completamente errado e bobo da minha parte. Quer dizer, eu sou da marinha e não deveria-

- Você não ligou mais por dois meses. - Zoro ignorou totalmente as últimas palavras de Tashigi.

Então ele realmente tinha sussurrado isso, mas… ou ele leu os pensamentos dela ou o caramujo tinha alguma forma de ver a última ligação. Não é possível que ele tivesse contado os dias e as semanas. Como ele sabia então?

Minta. Minta. Minta.

Não diga que foi por causa dele.

- Ah sim. Eu estive cheia de trabalho no G-5 e depois que Smoker-san descobriu, acabou que resolveu deixar o den den mushi com vocês de uma vez por todas, então não tive mais necessidade de ligar-

- Mentira. - Mais uma vez Zoro a cortou.

- Mentira?! Eu não sou mentirosa, seu desmiolado! - Tashigi já tinha começado a bufar com a audácia do pirata. Era incrível quão facilmente ele conseguia deixá-la agitada.

- Mentira.

- Roronoa-!

- Se você vai continuar mentindo, eu vou desligar.

- Então desliga! Eu não me importo!

- Tá bom.

- Tá bom!

Por que ela não conseguia ser sincera com ele? Por que ela não conseguia agir direito perto dele? Talvez… porque ela não queria que ele a achasse mais fraca do que já acha? Porque não quer que ele tenha vantagem sobre ela de forma alguma? Porque não quer que ele descubra que a opinião dele passou a ser importante para ela?

Dê o braço a torcer uma vez, Tashigi.

Então, ela engoliu a vergonha e o orgulho e respondeu com uma voz quase inaudível.

- Eu não gosto de ser um incômodo. Nunca gostei. Mas de qualquer forma… que diferença faz se liguei ou não?

- Haa? Não foi você que disse que seria minha consciência desde quando eu contei sobre minha luta contra o Mihawk?

- Sim, mas porque aquilo foi estupidamente estúpido! Ainda não acredito que você foi estúpido a esse ponto. Eu sinceramente não consigo entender como sua tripulação deixa você fazer essas burrices. - Tashigi se exaltou mais uma vez. É, parece que Zoro era realmente perito em fazê-la agir dessa forma.

- Oee, teve muitos estúpidos aí!

- Enfim. Não é como se você precisasse de mim para algo, então não faz diferença.

- Mas você ligou hoje. Então… quer dizer que você que precisa de mim? - Zoro respondeu num piscar de olhos, atordoando Tashigi momentaneamente.

Silêncio.

Ela quase conseguia ver o sorriso sarcástico dele como se ele mesmo estivesse na frente dela. Ela conseguia ouvir seu próprio coração batendo freneticamente.

Talvez.

- Q-q-que? D-do q-que v-v-você tá falando?!

Tashigi sabia que ele não tinha como vê-la pelo den den mushi, mas a ação de esconder o rosto totalmente vermelho com os braços foi totalmente involuntário. Zoro limitou-se a rir alto e ela conseguiu ouvir a voz de Sanji no fundo ("Oe marimo de merda, cala a boca! Ei… você tá falando com a Tashigi-chan?! Seu maldito, deixa eu falar com ela!").

- Você é sempre tão nervosa. Eu só tô brincando, quatro-olhos.

Mas de alguma forma… acertou em cheio.

Ela não conseguiu falar mais nada porque, aparentemente, Sanji tinha decidido pegar o den den mushi da mão de Zoro e agora os dois estavam brigando. No meio de tanto insulto, Tashigi conseguia distinguir apenas algumas frases - o cozinheiro perguntava como ela estava, como estavam as crianças e o espadachim gritava com ele mandando-o ir embora porque "ela ligou pra falar comigo e não com o pervertido dessa tripulação!". Logo, Luffy, Chopper e Usopp juntaram-se ao coro e tudo tornou-se uma confusão só.

Ela limitou-se a rir e calmamente, chamou o cozinheiro.

- Sanji-san.

- Siim, Tashigi-chaaan!?

- Eu vou desligar em breve. Posso falar uma última coisa com Roronoa?

Ela ouviu Zoro zombar de Sanji, mas não conseguiu entender o que era. Tashigi deu uma risada baixinha porque sempre achava engraçada a relação dos dois e ficava sempre impressionada de ver Zoro tão livre quando discutiam. Nami sempre falou que o cozinheiro era um dos poucos capazes de tirar o espadachim do sério, mas que Tashigi não ficava muito atrás.

No fim, Sanji aceitou, xingou Zoro mais uma vez e se despediu dela. Aparentemente, os outros fizeram o mesmo - todos dando boa noite a capitã. E com a saída do cozinheiro, o silêncio voltou. Era um amigo conhecido dos dois - às vezes era sufocante e insuportável, mas às vezes era acolhedor.

Muitas vezes, acolhedor demais.

- Foi mal pela bagunça.

- Tudo bem.

Uma batida do coração. Tashigi resolveu criar coragem. Ela não conseguiria dormir com aquela pergunta entalada na garganta.

- Roronoa.

- Hm?

- Por que Robin-san estava na sua cama mais cedo? - Ela perguntou num impulso, mas se arrependeu logo em seguida. Que tipo de pergunta foi essa, Tashigi?

- Que? Que tipo de pergunta é essa?

- Eu só queria saber.

- Não acha que quer saber demais? - Zoro parecia verdadeiramente incomodado.

- Certo. Desculpe.

Ela sabia que não devia ter perguntado isso porque não era da conta dela, mas não conseguiu se segurar. A voz de Robin e cama de Zoro ficaram ecoando na sua cabeça várias e várias vezes até ele ligar. As ondas ficaram muito violentas nesse curto espaço de tempo.

Então, forçou-se a lembrar o motivo da ligação.

- Roronoa.

- Que.

- Eu vou ficar mais forte. - Tashigi falou com determinação porque desistir não era da natureza dela.

- Estou esperando por isso. - E Zoro respondeu como se tivesse entendido o que ela quis transmitir com sua voz séria.

- Obrigada e… boa noite.

- É. Você também.

Tashigi não ligou nas duas semanas seguintes porque só agora ela começou a ter uma vaga ideia do que mudou desde o dia em que conversaram até meia noite.

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A lenda da linha vermelha ("The Red Thread of Fate") afirma que todos nascem com uma linha vermelha atada a seu dedo que estaria ligada a outra pessoa.

Eu realmente acho que se aplica a Zoro e Tashigi - uma coisa que pode ter a ver com destino, eles acreditando nisso ou não. :)