O silêncio dentro do carro era sepulcral. Os dois dourados estavam imersos em seus pensamentos. O alívio por finalmente terem encontrado a Amazona de Apus era visível em seus semblantes, assim como a preocupação sobre como ela poderia estar. Assim que o carro parou no estacionamento, Milo saltou do veículo sendo seguido por Aldebaran.
Os dois dourados corriam rapidamente e quando adentraram na recepção, se dirigiram ao balcão de atendimento perguntando informações da Amazona. A recepcionista pediu para eles aguardarem e chamou o médico responsável pelo tratamento da prateada.
– Olá! Eu sou o Dr. Heitor - apresentou-se um homem aparentando 40 anos, cabelos castanhos e olhos azuis escuros, que se aproximou dos dois Cavaleiros - Eu estou cuidando da paciente e gostaria de conversar com vocês antes de levá-los até ela.
Milo e Aldebaran se olharam e o escorpiano engoliu em seco já esperando revelações dolorosas. Os três caminharam por um corredor até chegar no consultório do médico. Depois que entraram na sala, os dois dourados apresentaram-se e sentaram-se para que Heitor começasse.
– Devo confessar que eu admiro a capacidade de vocês. - o médico retirou os óculos e massageou as têmporas em um sinal de nervosismo - Porque uma pessoa comum não teria aguentado o que com certeza ela passou.
– Como assim? O que aconteceu exatamente doutor? Por favor, não nos esconda nada. - Aldebaran questionou enquanto olhava de soslaio para o amigo ao seu lado.
– Agora ela está bem, na medida do possível. Mas, quando chegou aqui pela manhã, estava totalmente desorientada e tivemos que sedá-la para podermos examiná-la melhor e…- o médico hesitou - Ela foi torturada.
– O quê???? - Milo perguntou, incrédulo. Aldebaran colocou a mão no ombro do amigo como se assim pudesse acalmá-lo.
– Ela tem várias fraturas, hematomas, cortes por todo o corpo, alguns cicatrizados e outros novos, alguns mais superficiais, outros mais profundos. Está desidratada e provavelmente sem comer há dias. Com certeza sofreu tortura física e psicológica. E céus, como essa menina deve ter sofrido… sinceramente não sei como sobreviveu.
Conforme o médico relatava, Milo sentiu o chão sob seus pés desaparecer e sua cabeça girar só de imaginar tudo que sua esposa deve ter passado nesse tempo todo.
– Algumas pessoas do hospital sabem que vocês, guerreiros de Athena, são capazes de fazer coisas inimagináveis, mas sobreviver a tudo o que ela passou é surpreendente. Ela poderia ter contraído uma infecção, ter tido algum órgão perfurado, uma hemorragia interna, mas felizmente nada disso ocorreu, o que é bom.
Milo e Aldebaran suspiraram aliviados com a última informação, apesar da preocupação com o estado dela.
– E abuso sexual? – perguntou o escorpiano.
– Não há como ter certeza. Quando a sedamos, fizemos todos os exames, inclusive o ginecológico. É um procedimento padrão, mas não encontramos nenhum indício de que sofreu abuso sexual nos últimos dias. Então só podemos ter certeza quando ela acordar.
– Entendo! – Milo murmurou, mas sentindo a raiva crescer dentro de si, cada vez mais.
– Enfim… – o médico continuou – Apesar de tudo isso, aparentemente ela está bem. Está dormindo, administramos medicamentos para infecção e dor, algumas vitaminas e assim que ela acordar, iremos realizar outros procedimentos para ver se não ficou nenhum tipo de sequela.
– Temos certeza que Luísa irá se recuperar. Ela é forte e já passou por muitas situações parecidas como essa. – Aldebaran falou. Sua voz era branda, mas por dentro, ele não estava muito diferente do escorpiano. Todavia, precisava manter a calma para ajudar sua irmã do coração. – Podemos vê-la?
– Claro! Eu vou levá-los até o quarto dela, mas caso ela acorde, chamem uma das enfermeiras. E não dêem nada, pois devido ao estado de fraqueza, a água e alimento devem ser consumidos aos poucos. E também não a forcem a dizer nada, esperem o tempo dela.
– Está bem - Milo disse. - faremos como nos pediu. Queremos que ela se recupere o mais breve possível.
Os três saíram do consultório e durante a caminhada até o leito, o médico deu mais algumas recomendações. Quando pararam diante do mesmo, uma funcionária do hospital pediu para que um deles a acompanhasse para preencher os documentos de internação de Luísa.
– Eu vou, Milo. - o brasileiro falou, resignado já sabendo que o amigo estava mais ansioso para ver Luísa. - Assim que terminar eu venho aqui e - ele colocou a mão no ombro do amigo - Força. Ela precisa de nós mais do que nunca.
Milo apenas assentiu levemente e, quando o taurino se afastou, suspirou fundo e abriu a porta. Pelo relato do médico, ele tinha consciência da gravidade da situação envolvendo sua esposa, mas nada o preparou para o que estava por vir. Quando avistou a Amazona deitada na cama, sente como se milhares de facas atravessassem seu coração. No rosto e braços, que descansavam ao lado de seu corpo, haviam vários hematomas e ferimentos. Exatamente como o médico havia dito.
A pele dela estava mais pálida que o normal e apesar do corpo estar coberto, o escorpiano sabia que ela estava mais magra. Em seu braço esquerdo estava o soro. Milo sentiu um nó se formar em sua garganta e vontade de chorar, mas se conteve porque apesar da situação crítica, Luísa estava de volta e ele faria de tudo para que ela se recuperasse rapidamente. Depois de um bom tempo olhando-a, puxou a cadeira que tinha próximo do leito, sentou ao lado da cama pegando em seguida e com cuidado, a mão direita da Amazona, depositando um beijo. Ela está tão vulnerável e frágil como ele nunca havia visto.
– O que fizeram com você? – perguntou num sussurro enquanto fazia carinho na mão dela. Ele tinha vontade era de abraçá-la e tocar em todo o seu corpo. Se dependesse dele, faria sumir todos aqueles ferimentos, mas não podia fazer isso. Então, novamente levou a mão da esposa aos seus lábios e fecha os olhos quando sente ela apertar sua mão.
O grego levantou a cabeça e seu coração acelerou novamente, mas dessa vez, de felicidade. Os olhos dela piscavam demonstrando o esforço em deixá-los abertos e, quando finalmente consegue, olha ao redor tentando perceber onde estava.
– Pelos Deuses, Lu! - tocou o rosto feminino - Você não imagina como desejei encontrá-la. Bem-vinda de volta, meu amor. Senti tanto sua falta. Está sentindo alguma dor?
Então a Amazona volta sua atenção novamente para o dourado. Os olhos azuis dela percorreram o rosto de Milo até descer e se fixarem em suas mãos, que ainda estavam entrelaçadas, e o seu semblante se torna mais sério e confuso. Tal fato não passou despercebido por Milo, mas ele nada diz.
– Lu… – o dourado volta a falar – Quer alguma coisa? Está com sede? - ela assentiu que sim, onde o dourado já estava prestes a servi-la quando se lembrou das palavras do médico e foi chamar as enfermeiras. Luísa acompanha atentamente com os olhos todos os passos do marido.
Não demora muito para o Cavaleiro voltar acompanhado de uma mulher, que aproximou-se da cama e sorriu para a paciente perguntando em seguida se ela estava sentindo alguma dor no qual Luisa nega com um movimento de cabeça. A Amazona segue em silêncio, apenas observando o movimento à sua volta. Depois de aferir os sinais vitais da prateada, a enfermeira coloca um pouco de água no copo e dá para ela beber. No mesmo instante o Dr. Heitor entra no quarto acompanhado de Aldebaran, que assim que viu sua irmã do coração, abriu um largo sorriso, mas como o médico se pôs a examiná-la, conteve mais um pouco sua saudade.
– Luísa, vou fazer algumas perguntas, okay!? – ela assentiu – Você lembra como chegou aqui no hospital?
– Não. – a Amazona respondeu num sussurro. Sua voz estava rouca.
– Lembra do que aconteceu com você?
Luísa apenas fechou os olhos. É claro que ela lembrava de cada segundo que passou naquele maldito lugar. As coisas que fizeram consigo dia após dia, estavam marcadas em sua memória tal qual uma marca feita por ferro em brasa. Com as lembranças, ela se agitou e lágrimas começaram a sair de seus olhos, o médico percebendo a agitação, tratou logo de acalmar sua paciente.
– Calma. Você não precisa responder se não quiser. Saiba que agora você está segura aqui com as pessoas que te amam.
Milo e Aldebaran se aproximaram para tentar acalmá-la. O escorpiano tentou segurar a mão da esposa, mas ela o repeliu num gesto bruto. Todavia, não impediu o abraço que o taurino lhe ofertou, deixando assim que sua emoção terminasse de extravasar.
– Pronto pequena. – ele alisava os cabelos castanhos – Nós estamos aqui agora e não deixaremos que nada aconteça com você.
Demorou um pouco, mas Luísa finalmente se acalmou. O médico realizou mais alguns procedimentos padrões, principalmente de reflexos, para averiguar se ela estava com alguma sequela. E, para alívio de todos, estava tudo normal.
– Aparentemente você está bem. Porém, irei te manter internada até que você se recupere da desidratação e desnutrição. – o médico disse fazendo algumas anotações na ficha médica da paciente.
– Eu quero ir pra casa. – Luísa falou com um semblante sério, surpreendendo a todos.
– Mas você… – o médico começou a dizer, mas foi cortado por ela que voltou a repetir que queria ir para casa.
– Bem… pelo menos você terá que passar a noite aqui para ver se terá algum problema, aí amanhã lhe dou a alta.
– Doutor, eu sou uma Amazona, já passei por coisas piores que essa. Acho que estando em casa irei me recuperar mais rápido, pois estarei junto dos meus amigos e família.
– Acho que ela tem razão. – Milo resolveu intervir, afinal achou ótima a idéia da esposa. – Eu mesmo farei de tudo para ela se recuperar.
– Bem… mesmo sendo algo atípico, irei dar a alta. Mas vou fazer umas recomendações e passar uma dieta para que ela se recupere o mais rápido possível e, se qualquer coisa acontecer, me procurem imediatamente.
Algumas horas depois, Luísa voltava para casa acompanhada de Milo e Aldebaran. Todos estavam ansiosos à espera da escorpiana. Com certeza ela encontraria muitas pessoas dispostas a ajudá-la a se recuperar desse horror que ela passou. Dentro do carro, que seguia rumo ao Santuário, Aldebaran dirigia e Milo ia no banco de trás com a esposa. A Amazona permanecia sem falar nada, seu rosto estava voltado para o vidro e, através do reflexo, o dourado via que o olhar dela estava parado e seu semblante sério. Com certeza seria um processo demorado para ela voltar a ser o que era e outra coisa que não passou despercebido por si é que a esposa estava indiretamente o evitando, mas como o médico havia pedido, ele não iria pressioná-la.
