HERMIONE – DIA 2
Durante o intervalo de almoço, Hermione continuava sentada na sua mesa de trabalho, no respeitável Setor de Proteção ao Direito das Criaturas Mágicas.
Enquanto o nome do setor lhe parecia excitante, o trabalho beirava a tortura. Era a combinação mundana de memorandos inúteis, burocracia e o fato de que parecia lhe custar a alma convencer Kingsley e Winzegamot da legitimidade dos Direitos mágicos tratados ali.
Era mais fácil argumentar (com os mesmos malditos puro-sangue de sempre) os diferentes modos que a promoção de um decreto de lei poderia beneficiar o ministério, as finanças do mundo bruxo e a estabilidade mágica do que fazê-los perceber que todos os seres mágicos, humanos ou não, mereciam ser tratados com dignidade e mereciam condições suficientemente boas para sobreviver no pós-guerra.
Mas ok. Quem era ela para apelar para um raciocínio tão "adolescente", "altruísta", "caridoso" e "ah-como-você-é-formidável-srta-Granger", "não-poderia-esperar-menos-da-NOSSA-Golden-Girl"... Ugh. Ela? Golden Girl do... Ministério, uma das instituições bruxas mais corruptas e preconceituosas da história? Não, obrigada..!, o pensamento revirava seu estômago.
Haviam mais pergaminhos, assinaturas e alianças a serem orquestradas que Direitos garantidos pelo seu setor. Passar dia após dia enfrentando aquela rotina deveras hipócrita era como matar um pouco dela mesma, arrancar um pedacinho de si diário e no ato sorrir ao entregar os pedacinhos da sua psique à política do mundo bruxo.
Significava sorrir falsamente a Harry, Ron, Ginny, todos os Weasleys, todos os setores, todo Winzegamot e todo o mundo mágico, por que Merlin a perdoe, ela estava cansada. E verbalizar isso era estúpido (e juvenil, por que não?), ela sequer sabia o porquê.
Sentir-se desse modo vazio era constrangedor, pelo menos depois do tanto que ela havia lutado na última guerra bruxa. Ela lutara tanto e agora o quê?
Suspirou, encarando a pilha de pergaminhos a sua frente. Sem esquecer os memorandos interdepartamentais, que voavam entre as pequenas sala do ministério, de modo caótico e quase cômico.
Quase tão caótico quanto fora seu aniversário. E beijar Draco Malfoy, sua mente completou, sarcástica.
Isso fez com que ela abrisse um sorriso involuntário, não que oh o beijo tivesse sido incrível per se, era mais um sorriso de lembrete sobre o quanto ela estava mais na merda do que imaginava. Porque pelo o que ela lembrava, Malfoy, miserável ou não, ainda era a representação corpórea de um mundo mágico que havia, em algum momento, rejeitado sua existência e que agora fingia respeitá-la.
Porque era bom pra assegurar a influência da imagem das famílias puro-sangue. E porque um bruxo louco chamado Lord Voldemort havia tentado erradicar nascidos trouxa e com isso quase arruinara o mundo bruxo britânico de modo geral.
E lá estava ela... Hã, "confraternizando com o inimigo", como diria Ron. Ainda que a confraternização em questão houvesse sido apenas um beijo. Ou dois. Ou quatro, dependendo da métrica de contagem utilizada.
Ela ainda lembrava da sensação embriagante dos lábios de Draco Malfoy contornando os seus. Da língua dele entrando na sua boca e da imprudência do ato, seguido pelo modo como a mão fria dele apertava com leveza a parte superior do seu braço esquerdo.
Depois o beijo ou "os beijos" acabaram. Por decisão de algum dos dois, mas dessa parte em diante suas lembranças estavam mais nubladas.
Apesar de ter sido um beijo exploratório inteiramente diferente do que ela já tivera experimentado até hoje, era um beijo marcado pela ausência das coisas.
Por exemplo, diferente de quando ela beijara Viktor Krum, o beijo não era destinado a marcar um novo território de conhecimento, não era lento demais, não era confuso, no sentido de exigir conversas e explicações e diversão e tantas outros elementos que compunham os amassos com o búlgaro no quarto ano.
Em segundo lugar, o beijo não fora medíocre como o de Maclagen. Não era um beijo que tentava provar a si mesmo e conquistar algo. Os lábios de Malfoy não se esforçavam, pareciam especialistas naquilo.
Por outro lado, o beijo não era terno como o de Harry. Sim, tudo bem, ainda era estranho pensar a respeito, mas H Potter havia a beijado uma vez (por conta de uma brincadeira estúpida dos gêmeos n'toca, que envolvera um visco de natal e ela e Harry presos abaixo do arranjo, só podendo sair depois de unir os lábios). Fora terno demais, quase desajeitado. Lembrava-lhe de provocar sensações doces, nada que valesse a pena investir em comparação à amizade que os dois possuíam. Se tinha uma coisa que o beijo de Malfoy não demonstrava era ternura. Graças a Merlin!
Então, houve o beijo de Ron. Que era tudo o que o beijo de Malfoy nunca poderia ser. Os beijos de Ron (no plural), para ser mais exata.
H pensou, com algum nervosismo, que talvez entendesse demais dos beijos do Weasley. Se o primeiro beijo deles fora desesperado e desajeitado, logo após o fim da guerra no mundo bruxo, o beijo-vigésimo ou qualquer que fosse o número razoável, fora tão intenso que a fazia esquecer do próprio nome e reduzia os dois a uma bagunça de roupas retiradas, gemidos e corpos em movimento. O beijo dele era sobre querer algo e finalmente possuir aquilo, sobre ser tolo e jovem, sobre ter vencido uma maldita guerra ao lado daquela mulher e ter desejado ela por tempo demais. Era um beijo que tinha o gosto cego de primeiro amor, e que, nos momentos em que o relacionamento deles começara a ficar sufocante, faziam-na ressentir o homem, porque tudo o que eles pareciam ser bons era em serem os primeiros amores um do outro e até mesmo o beijo deles a lembrava disso.
Diferente da estupidez dos beijos de Ron, o beijo de Malfoy era um beijo que não parecia celebrar coisa alguma entre os dois, não parecia tomar posse dela e não os reduzira ao sexo ou a algum amor ridiculamente proibido entre as normas sociais do mundo bruxo. Argh. Não, claro q-
"Hermione?" A voz de Harry a tirou do pequeno transe que ela estivera nos últimos minutos. "Tudo bem?"
"Hm?" Murmurou, sentindo o rosto esquentar. Diabos, ela passara tempo demais pensando em beijos e em Malfoy. Há. Que piada. Ajeitou-se na poltrona, limpando a garganta. "Sim, Harry. Aconteceu alguma coisa?"
"É intervalo de almoço" O moreno despejou, de forma entediada.
"...?"
"Combinamos de almoçar juntos, lembra?" Explicou, parecendo um pouco preocupado com a distração.
"Claro!" Mentiu, exasperada. "Só um segundo, preciso responder esse memorando" Falou, a procura de uma desculpa que desse a impressão de que ela estivera tão ocupada a ponto de esquecer encontros de almoço.
Respondeu o memorando com uma assinatura e um simples aceno de varinha, que fez com que o pergaminho seguisse voando pelos corredores do ministério.
Após aparatarem para a porta de um restaurante no beco diagonal e a recepcionista confirmar sua reserva, os dois sentaram em uma mesa redonda afastada das janelas de vidro, quase no centro do lugar.
Demorou pouco para que os dois percebessem que ideia de ir ali parecia ter sido compartilhada por muitos outros funcionários do ministério. Em outra mesa estavam cinco aurores, dentre os quais ela reconhecia Simas, Dino e Flint, envolvidos em uma conversa animada.
Ao perceberem a presença dos dois, os que os conheciam fizeram questão de reconhecer sua presença, acenando com a cabeça ou sorrindo de modo amplo na direção deles.
Logo em seguida, foi a vez de bruxos e bruxas que ela nunca tinha ouvido falar começarem o ridículo ritual de abordar os dois, ora cumprimentando e pedindo fotos, ora com elogios em relação ao seu heroísmo e admiração por seus trabalhos no ministério.
Merlin..., H pensou, evitando soltar um suspiro entediado. E lá vamos nós...
"Eu achei que ninguém fosse nos reconhecer aqui, o restaurante inaugurou faz pouco tempo" Seu amigo lhe esclareceu, como se tivesse lido seus pensamentos irritados. "Acho que me enganei..." Murmurou, mais para si mesmo que para ela, quando precisou se levantar da cadeira para apertar a mão de Kingsley.
"Tudo bem, Harry" H respondeu, depois que a sessão de reconhecimento parecia ter lhes oferecido uma pausa. "Na próxima vez deveríamos pedir um delivery e almoçar no meu apartamento..." Sugeriu, incerta se estava fazendo um convite ou uma constatação.
Ele fez que sim com a cabeça e exibiu uma expressão de curiosidade.
Pelo o que Hermione entendia do seu amigo, ele estava criando coragem para falar sobre algum assunto incomodo.
"Pode falar, Harry"
"Quê?"
"Eu o conheço..." Constatou, com uma expressão que o lembrava de quando ela o ajudava com os deveres em Hogwarts e claramente sabia mais que ele de todas as matérias.
"Hm, tudo bem" Ele concordou, não sem antes assumir uma feição séria. "Aconteceu alguma coisa que eu deva saber?"
"Não, por que a pergunta?" A mulher disse, antes de dar um gole na sua taça de vinho. Sua voz estava calma e segura. Por algum motivo, aquilo parecera perturbar o homem a sua frente.
"Nada envolvendo Draco Malfoy?" A menção do nome fora o suficiente para H enrijecer o rosto e encarar o amigo com intensidade.
"Nada que seja da sua conta, Harry" Respondeu, controlando-se para não revirar os olhos. Que diabos de conversa era essa?, pensou, confusa pelo rumo que aquele almoço parecia estar tomando.
"Sabe que eu não perguntaria se não fosse estritamente necessário, mas o relatório semanal do Auror encarregado da sua segurança mencionou qu-"
"Quê?" Ela soltou, um turbilhão de pensamentos tomando a sua cabeça.
RELATÓRIO SEMANAL? AUROR? ENCARREGADO DA MINHA SEGURANÇA? UM RELATÓRIO QUE TODOS TEM ACESSO? UM RELATÓRIO DO QUAL NINGUÉM NUNCA ME FALOU A RESPEITO? UM RELATÓRIO DE PROTEÇÃO? DE VIGILÂNCIA?..., a quantidade de perguntas que passavam pela cabeça dela só tinha começado e todas as possibilidades eram ridículas o suficiente para que ela começasse a sentir uma pequena onda de náusea.
"Harry" Ela murmurou, em um sinal de aviso.
"Não é exatamente confidencial, mas desde que o ministério foi restaurado, Wizengamot tem realizado essa operação de proteção padrão aos... por falta de um termo melhor "heróis de guerra", com o objetivo de assegurar a sua segurança, caso ainda exista alguma ameaça de seguidores do Voldemort dispostos a... Atacar" Completou, em desconforto.
"Do que estamos falando, então?"
"Vigilância vinte e quatro horas"
"Quando isso começou? Por que não me disse nada?" Quis saber, começando a se sentir apreensiva.
A sensação de sufocamento retornando à beira da sua garganta. Porque diabos, não bastava ela se sentir presa e miserável, o ministério da magia ainda fazia questão de monitorar seus passos dia e noite. A ponto de emitir um relatório. A ponto de tocar em cada aspecto da sua vida pessoal e retirar o último resquício de livre arbítrio que ela ainda sentia vivo dentro dela.
Merlin, Hermione, aqui não é lugar para chorar..., pediu a si mesma, quando sentiu que começava a se sentir traída pelos seus próprios amigos. Harry e Ron eram aurores E SUPOSTAMENTE SEUS MELHORES AMIGOS e o que custava lhes informar que dentro do mundo bruxo ela era apenas uma marionete diariamente monitorada?
Argh, também não é pra tanto, tentou refletir, antes de virar a taça de vinho por inteiro. Mas era pra tanto sim!, outra parte da sua consciência gritou, convencendo-a que o melhor era levantar da cadeira, sob protestos discretos de Harry, lançar mais um último olhar magoado e aparatar antes de ouvir suas explicações.
Ah é, e havia o acontecimento ridículo de que Harry propusera aquele almoço para questioná-la sobre uma coincidência geográfica que ela compartilhara com Malfoy apenas na noite anterior, como diabos sua vida conseguira ficar pior em vinte e quatro horas?!
O mais deprimente é que não havia uma pessoa no mundo com quem ela pudesse (ou quisesse) falar sobre isso. Sobre como a sensação de sufocamento só parecia aumentar e como a política de controle do ministério a tornava cada vez mais descartável, uma sombra de uma nascida trouxa heroína de guerra que o mundo bruxo insistia em utilizar para seus próprios interesses de manter todas as coisas como sempre foram.
DRACO – DIA 2
A sala de chá da Malfoy Manor, que antes lhe inspirava tanto poder, hoje parecia um símbolo ruim de tudo ao que ele precisava fazer jus. Lá estava o luxo da tapeçaria do século XIII, as poltronas de couro colocadas próximas da lareira, a iluminação quase precária, porque lugares iluminados demais irritavam seu pai, Lucius e os porta-retratos do seu avô Abraxas e por fim estava a figura perfeita dos corpos dos seus pais, sentados um ao lado do outro, com postura aristocrática impecável e com expressões frias expostas no rosto.
"Pai, Mãe" Acenou, enquanto adentrava a sala e procurava seu lugar ao lado dos dois. Serviu as xícaras de chá, ciente de que o ato mundano irritaria Lucius, que preferia sempre o uso da magia acima de qualquer coisa.
Quando terminou de preencher a terceira xícara, levantou os olhos na direção do homem e sorriu de canto de lábio. Porque se havia alguém no mundo que ele sabia infernizar com a menor quantidade de gestos possíveis, esse alguém era seu próprio pai.
Lucius contraiu os lábios em desgosto, consciente do esforço que o garoto estava fazendo para afetar seu humor.
Draco sorriu dessa vez da forma mais aberta que pode, sem motivo. Outra coisa na lista enormemente ridícula de coisas que Lucius Malfoy costumava desprezar. Demonstração de emoções frágeis.
Ele tinha dúvidas se sorrir era, de fato, uma emoção frágil. Mas não iria entrar nesse assunto, por razões de: desejava sair vivo (e não deserdado) daquela tarde de chá com a "família", ainda que ele não considerasse que necessariamente os três juntos formavam uma.
"A razão pela qual o chamamos aqui, Draco..." Narcisa iniciou, quebrando a atmosfera de censura que parecia os cercar. "Diz respeito ao seu lugar nas Indústrias Malfoy" Continuou, para em seguida dar um gole elegante no seu chá.
E o que isso quer dizer?, ele sentiu vontade de falar, exasperado. Ele já não era a droga do presidente? Ele já não fazia todas as coisas que o conselho de negócios exigia? Ele já não tinha construído uma imagem perfeita capaz de limpar qualquer suspeita de associação negativa ao nome da Família Malfoy no pós-guerra? Ele já não tratava todo maldito ser humano irritante do mundo bruxo com devido respeito e fazia lobby suficiente para as leis que beneficiassem os interesses da família? Ele já não havia se destituído de qualquer liberdade de sequer gastar pensamentos perguntando-se sobre o que ele esperava da sua própria vida? Ele já não era um homem que mais parecia a sombra perfeita do que seu pai fora na juventude?
Naquele momento, ele se arrependeu de pensar tantas coisas na frente dos seus pais, porque bem, o olhar de Narcisa era penetrante e ela sabia ler as pessoas com talento. Talvez ela tivesse notado a minúscula faísca de frustração que cruzara o seu rosto.
"Consideramos esse momento adequado para providenciar os arranjos do seu casamento" Ela explicou, com a voz doce e delicada, esticando-se para apertar com afeto seu pulso no braço da poltrona.
Em vez de tranquiliza-lo, o gesto o fez sentir mais perturbado que o normal. Lucius sorria.
"Estamos iniciando os primeiros acordos com a família das Greengrass" Ela continuou, como se a notícia não tivesse abalado e como se estivesse lhe comunicando o briefing de algum assunto discutido exaustivamente. "Eu particularmente considero Daphne uma candidata adorável, ainda que eu aprecie a srta Astoria: é claro que a decisão final é sua, querido..." Concluiu, com um tipo de sorriso que sua mãe usava quando determinava um ponto final no assunto.
A única coisa que ele sentiu que tinha coragem suficiente para fazer foi levantar-se da poltrona, antes de dar as costas as duas figuras com um último olhar de desprezo e indiferença.
E ele pensou, ironicamente, que não havia nada mais Malfoy que isso.
