Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome de Quinn Wilder, que foi publicado na série de romances "Sabrina", da editora Nova Cultural.


Capítulo 2

Lucy voltou a entrar na casa pela porta principal e bateu-a com força. Afinal, uma travessura só tem graça quando é notada por alguém.

Até onde pôde perceber, seu desaparecimento, ao contrário de provocar um divertido alvoroço, passou completamente despercebido. Parou perto da entrada, cheia de expectativa. A qualquer momento alguém, com sorte o próprio Dragneel, apareceria assustado e perguntaria onde diabos ela estivera. Então poderia anunciar num tom casual que saíra para um passeio.

Os segundos foram passando, e ficou evidente que não havia ninguém assustado naquela casa. Lucy sentiu uma onda de raiva súbita e ridícula.

- Os tolos incompetentes - resmungou - A porta principal não foi sequer trancada !

Os sinais de incompetência deveriam fazê-la sentir-se aliviada, uma vez que indicavam o quanto seria fácil escapar quando chegasse o momento.

Por um instante, ela pensou em apanhar uma valise, as chaves do carro e desaparecer alguns dias antes do planejado. Serviria para esvaziar o ego inflado do sr. Dragneel.

Sorriu, pensando melhor. Por que fazer as coisas em pequena escala ? O estrago seria ainda maior se ela esperasse mais um pouco e ganhasse sua confiança, tornando-o quase cúmplice do plano que arquitetava. Não havia razões para mudar os rumos de sua vida só por causa de uma pequena crise temporária. Seria o mesmo que dar a vitória ao adversário. E acabava de notar o quanto seria fácil partir, assim que fosse conveniente.

Ouviu a porta da biblioteca sendo aberta e, em seguida, um murmúrio de vozes masculinas. Talvez fosse uma invasão de terroristas, pensou com ironia, movendo-se naquela direção.

Ela entrou na biblioteca... e parou de imediato. Dois homens desconhecidos estavam sentados em lados opostos da mesa, falando em voz baixa. No sofá de couro, do outro lado da sala, bem em frente à lareira, estava o seu protetor. Adormecido. Inexplicavelmente o aborrecimento que sentia tornou-se mais intenso.

Os outros dois homens se levantaram.

- Bons rapazes, imagino - disse Lucy, cruzando os braços sobre o peito e obrigando-se a manter os olhos longe do sofá. Já tinha visto o bastante. Por exemplo, Dragneel parecia mais jovem quando relaxado. A dureza e o excesso de precaução desapareciam do rosto bronzeado.

- Sou Jellal Fernandes, senhorita.

- E eu sou Romeo Conbolt.

Ela divertiu-se com a maneira como a olhavam, especialmente o mais novo, Romeo Conbolt. Costumava ter esse efeito sobre os homens por ser uma típica garota californiana: alta, loira, bronzeada e esguia. Imaginou que desta vez sentia-se ainda mais satisfeita , pois era exatamente o tipo de reação que não conseguira com... ele.

Apesar de todo o esforço, seus olhos voltaram ao sofá. Enquanto dormia, todos os sinais de perigo desapareciam do rosto de Dragneel.

- Natsu ! - chamou Conbolt, aproximando-se do encosto do sofá e cutucando o companheiro com insistência.

Lucy estava apenas registrando o nome Natsu na memória, pensando no quanto combinava com ele, quando viu Romeo Conbolt passar por cima do sofá e cair de costas no chão, do outro lado.

No segundo seguinte, Natsu Dragneel já estava com o joelho sobre a garganta de Conbolt.

Lucy notou o medo no rosto de Romeo, assustada com a rapidez da mudança que se operou nos traços de Natsu. Ele era um verdadeiro líder, veloz e brutal, e naquele instante todos os ocupantes da sala tomaram consciência disso. Nem mesmo um suspiro interrompia o silêncio reinante.

Natsu olhou para o rosto do jovem e relaxou, erguendo-se. Estendeu uma das mãos e ajudou Conbolt a levantar-se também.

- Desculpe - pediu, balançando a cabeça - Eu acabei de voltar de uma missão violenta na América Central e ainda não recuperei meu equilíbrio normal. Está tudo bem ?

- Sim, eu estou inteiro - respondeu Conbolt, com a voz um pouco trêmula.

E então os olhos de Natsu Dragneel pousaram em Lucy.

- Boa tarde, senhorita - cumprimentou ele, sem demonstrar preocupação ou embaraço pela cena que acabava de protagonizar - Já descansou o bastante ?

Teria percebido um tom estranho na palavra descanso ou seria apenas imaginação ? Sentia-se um pouco abalada pelo incidente que testemunhara, e também pelo fato de perceber uma capacidade de adaptação incomum naquele homem. Em poucos instantes, passou da atitude quase homicida a uma cortesia inesperada, sem nenhum esforço aparente.

- Não tanto quanto você, eu acho - respondeu ela. Natsu virou-se para Fernandes e perguntou algo com os olhos.

O outro concordou com a cabeça, e ele voltou a fitá-la.

- Este é Jellal Fernandes - explicou – Você vai vê-lo por aqui com freqüência. Ele faz parte da equipe de segurança. E este aqui é...

- Já nos conhecemos - foi a resposta fria - Felizmente o sr. Fernandes e o sr. Conbolt não são terroristas e possuem boa aparência. Portanto, não quebrei nenhum vaso na cabeça deles para tentar me defender... enquanto você cochilava.

- Foi a sua necessidade de descanso, não a minha, que impediu uma apresentação anterior. E, de agora em diante, não confie tanto nas aparências. Os terroristas costumam ter um excelente aspecto, se é que não sabe.

- Ah ! E o que eu devo fazer ? Perguntar pela identidade dos desconhecidos ? Ou esperar que o segurança acorde, de forma que eles possam apresentar suas credenciais ?

Natsu Dragneel suspirou.

- Só estou sugerindo que você tenha um pouco de precaução e que nem pense em resolver um problema desses sozinha. E Jellal estava no controle, enquanto eu tirava um cochilo.

Lucy sentiu-se tentada a dizer que poderia ter ido até a China e voltado enquanto Jellal estava no controle, mas não queria causar problemas ao agente ou fazer qualquer coisa que pudesse colocar a equipe de segurança em estado de alerta.

Voltou a atenção para Dragneel e viu que ele ajeitava alguma coisa sob a jaqueta.

Estava armado ! Não era à toa que Romeo Conbolt ainda estava pálido de medo.

As mãos dele caíram ao lado do corpo, e os olhos cravaram-se nela.

- Isso não é um jogo criado para incomodá-la. É bom que se lembre disso.

Só então ela percebeu que em nenhum momento levara aquela situação a sério. No entanto, a simples visão daquela arma introduziu a horrível possibilidade de estar mesmo correndo algum tipo de perigo. Não que pretendesse dar a ele a satisfação de saber que uma sombra de dúvida povoava seus pensamentos. Não que pretendesse mudar alguma coisa em seu ritmo de vida. Afinal, o pai tentava torná-la uma prisioneira do medo há anos e nunca obtivera sucesso. Não seria agora...

- E agora, por que não me leva para conhecer a casa ? - sugeriu Natsu Dragneel.

Lucy limitou-se a afirmar com a cabeça, o que parecia causar um certo divertimento ao segurança. Ou, então, os minutos de sono tinham servido para melhorar seu humor, porque ele chegou a sorrir para ela. Um sorriso simplesmente encantador. Dentes perfeitos e brilhantes, contrastando com o tom bronzeado da pele, tornavam o gesto ainda mais estonteante.

- O que gostaria de ver primeiro, sr. Dragneel ?

- Pode me chamar de Natsu - sugeriu ele. Cruzou as mãos atrás da cabeça e expandiu o peito, espreguiçando-se da forma mais sensual que ela já havia presenciado.

- Natsu - ela concordou, encarando-o com desconfiança, imaginando se todo aquele carisma não era algo construído e usado como uma arma. Talvez essa fosse a maneira com a qual lidava com mulheres difíceis. O convencido !

Bem, ela podia fazer o jogo enquanto fosse conveniente. E depois, com que satisfação acabaria com toda aquela segurança, com toda a confiança que ele fazia questão de demonstrar ! Ele agia como se fosse um homem acostumado a ter o mundo sob os pés, absolutamente sob controle. Precisava mesmo de uma boa lição.

- Por que não vamos ao último andar ? - sugeriu Natsu - Ao sótão, quero dizer. Começamos por lá e terminamos no porão.

- Eu não vou ao porão. Aquilo está cheio de teias de aranha - ela avisou. As teias de aranha sempre participaram de suas brincadeiras de criança e não sentia nenhum medo delas - E é melhor esquecer o sótão também, pois está povoado de morcegos - mentiu. Jamais vira morcegos na vida, muito menos no sótão, outro local bastante freqüentado durante a infância.

- Alguma outra área à qual você seja sensível ? - perguntou Dragneel em tom seco. - Talvez não queira ir à cozinha. A cera do chão pode estragar sua blusa de seda. E é melhor tomar cuidado com o jardim, pois as violetas costumam causar alergia e acho que vi alguns vasos na sala de visitas, também.

Por um momento, Lucy perguntou se como um homem tão rude e violento podia saber a diferença entre algodão e seda. Talvez também fosse sensível o bastante para perceber que o medo de morcegos e de teias de aranha era uma grande mentira.

Natsu entrou no porão sozinho e, depois, conheceu o resto da casa acompanhado por Lucy.

- Esse escoadouro de leite é usado ? - ele perguntou.

- Eu nem sabia que isso existia - respondeu ela, encolhendo os ombros.

- E essa varanda, fica iluminada à noite ? Você costuma vir a este quarto com freqüência ? Quando ? O que faz aqui ? Quais lâmpadas são usadas com maior regularidade ? - e continuou fazendo perguntas o tempo todo, julgando, observando, averiguando. De vez em quando ele apanhava o caderno de notas e registrava a localização de uma fechadura com defeito, um trinco quebrado, antecipando as providências que devia tomar depois. Se já não tivesse sido tão hostil com aquele homem, talvez agora pudesse até confiar na capacidade dele para mantê-la protegida.

Natsu testava todas as portas, todas as janelas, abrindo e fechando cada aposento, com a cabeça inclinada, como se quisesse memorizar os sons das maçanetas e dobradiças. Inspecionou o sistema de alarme e as trancas.

Lucy começou a irritar se com tanta cautela.

- Pelo amor de Deus, você está decorando o conteúdo de cada aposento da casa ? - perguntou.

Sem encará-la, Dragneel respondeu:

- É exatamente o que estou fazendo: decorando entradas, saídas, janelas, fechaduras, locais escondidos, interruptores de luz, obstáculos... perigos.

- Pensei que a vida de um agente secreto fosse bem mais excitante.

- Eu não sou um agente secreto - disse ele. O tom de voz era amargo, como se estivesse confessando algo doloroso para si mesmo - E não estou aborrecido com esse trabalho.

- Bem, essa é a diferença entre nós. Eu estou.

- Desculpe-me por tomar meia hora do seu precioso tempo numa atividade que pode me ajudar a salvar sua vida. O que é que está perdendo de tão importante ? Um banho de Sol à beira da piscina ?

E olhou com interesse, como se fosse muito importante ter uma forma de vida tão superficial à disposição, para estudo e observação.

Por um instante, Lucy sentiu-se furiosa. Seria muito fácil dizer toda a verdade e contar de uma vez que arruinara todos os sonhos do pai ao tornar-se uma professora primária. Por que não dizia que não passava os dias à beira da piscina, e sim em uma classe quente de uma escola pobre de Los Angeles ?

Infelizmente, a satisfação momentânea que ela teria com a surpresa do respeito que conquistaria com as declarações se tornariam pouco importantes diante de um fato mais sério. Não teria mais nenhuma possibilidade de escapar. E sabe-se lá que novos planos o pai traçaria, depois de receber uma informação como essa ? Um belo dia chegaria à escola e descobriria que ela havia sido invadida pelo exército particular do grande sr. Heartfilia... ou coisa pior. Afinal ele possuía influência para fazer tudo o que quisesse, onde e com quem quisesse.

Lucy mordeu o lábio e controlou-se.

- Bem, agora vou lhe mostrar o que estou fazendo e por que é tão importante - disse ele, pegando-a de surpresa por usar um tom de voz carregado de resignação e paciência.

Ele esticou o braço e apagou a luz. Só então Lucy notou que já era noite, assustando-se com a escuridão total.

- Acenda a luz - ela ordenou - Não estou interessada na demonstração.

- Tem medo do escuro ? - a voz soou mais próxima dela.

Lucy não tinha medo do escuro. Simplesmente sentia-se perturbada por ter de dividi-lo com um estranho.

- Vamos, acenda a luz - ela insistiu.

- Vamos imaginar que nós dois estamos sentados aqui, tomando chá, numa noite qualquer.

- Um cenário bastante improvável - ela interrompeu-o, movendo-se em direção à parede e tateando em busca do interruptor.

- E então as luzes são apagadas. Pare de tatear a parede e escute o que estou dizendo. Mesmo porque o interruptor não fica desse lado.

- Eu já disse que não estou interessada.

Como ele podia saber que estava procurando pelo interruptor, se nem ela mesma sabia ao certo onde estava ?

- Sugiro que trate de fazer um esforço e prestar mais atenção. Só vou precisar de três ou quatro minutos. E essa informação pode salvar a sua vida.

- Que dramático ! - ela ironizou, cruzando os braços sobre o peito e interrompendo a procura. Talvez ele estivesse certo: o interruptor devia estar do outro lado. E onde ele estava ?

Houve uma pausa prolongada.

- Está escutando ? - insistiu ele.

- Não tenho escolha.

- Se as luzes forem apagadas, você deve atirar-se ao chão. Se eu estiver por perto, vou tentar lembrá-la. Direi qualquer coisa, como por exemplo, abaixe-se. Entendeu ?

- Entendi. Só que a reação vai depender da roupa que eu estiver usando - ela respondeu com petulância.

E então sentiu que ele a tocava. Não ouvira os passos dele se aproximando, mas as mãos estavam pousadas em sua nuca. Podia sentir a força e o poder daquele homem no toque suave de suas mãos.

- Agora sei que você não escuta muito bem. Portanto, acho que vou ter de ajudá-la a jogar-se ao chão.

- Por que acha que eu não escuto ? - perguntou. Ele estava tão perto que ela podia sentir o cheiro da pele bronzeada, um aroma quente e forte, como sabonete perfumado. Um perfume que trazia lembranças de uma noite de verão.

- A segunda coisa que vou dizer é para fechar a boca, e não vou ser nada educado ou gentil.

- Ora, mas que surpresa ! - ela exclamou com tom sarcástico. O coração batia disparado, acelerado pela proximidade. Não tinha a menor intenção de deixá-lo perceber o quanto a experiência era perturbadora - Além do mais, as luzes estarão apagadas e eu estarei estendida no chão. Não é o momento mais adequado para se pensar em etiqueta ou... - a mão dele impediu que continuasse, cobrindo sua boca. No mesmo instante, a outra mão encontrou suas costas com firmeza, empurrando-a para a frente.

Pouco depois, ele retirou a mão que cobria os lábios de Lucy.

- Eu devia ter mordido você - explodiu ela, dominada pela adrenalina que corria pelas veias e pela agitação causada por tanta proximidade. Na verdade, o jogo até que era excitante.

- É, podia ter feito isso. Mas não temos tempo para discutir os seus fetiches agora. Se você tem mania de morder, podemos conversar sobre isso depois.

- Fetiches ! Ora, seu...

Então a mão voltou a cobrir-lhe a boca.

- Isso aqui é trabalho, Lucy, e é importante. Quer fazer o favor de prestar atenção ? - e afastou a mão.

Ela podia imaginar a expressão daquele rosto bronzeado, totalmente desprovido de humor, absolutamente formidável na escuridão aveludada e assustadora. Mais uma vez ele encarnava o líder, cujo único objetivo era a sobrevivência. Pensou em dizer alguma coisa, mas compreendeu que não seria capaz. Ouviu o barulho dos dedos batendo sobre a mesa, bem na frente de seu rosto.

- Um obstáculo natural. Não gostaria de ter de bater sua cabeça em algo tão duro, quando tiver de empurrá-la para a frente. Mas poderia utilizar o móvel como uma espécie de escudo - agora ele estava sentado no chão, com as pernas dobradas e cruzadas, como um chefe apache em conferência de guerra. Apesar de ser apenas um exercício, o tom de voz era sério e profissional - E, se tivesse de sair daqui rapidamente, que caminho você escolheria ?

Ela apontou para a porta mais próxima.

- Por ali - disse.

- Esse é o caminho óbvio... óbvio para todo mundo, infelizmente. Quero que tente pensar em termos de luz e sombras. Gostaria de ser atirada pela janela, por exemplo ?

- Não, acho que não - ela respondeu. De repente compreendeu que ele a ensinava regras de sobrevivência para o caso de um ataque. Devia ser enervante, mas, por alguma razão, sentia-se animada, como se participasse de algum jogo divertido. Seria por isso que Natsu havia escolhido esse tipo de trabalho ? Por causa do fluxo de adrenalina que sentia correr pelas veias, despertando todos os sentidos e causando sensações estranhas, muito próximas ao prazer ? - Bem, eu tentaria por ali - disse, apontando para a região de sombras formadas por dois sofás - Correria para o banheiro e escaparia pela janela.

- Boa garota - sorriu Dragneel - É exatamente a rota que eu mesmo escolheria !

Apesar de sentir-se feliz com a aprovação, ela não pôde deixar de dizer:

- Não me chame de garota, a menos que queira ser chamado de menino.

Ele ignorou o comentário.

- Sabe como um tigre rasteja ?

- É claro que sei. Eu praticava esse movimento todos os dias na escola - disse ela, com tom sarcástico.

- Eu vou demonstrar - e deitou-se no chão, apoiando se sobre o estômago e usando os cotovelos para dar impulso, até alcançar os dois sofás - Muito bem, agora é a sua vez.

- Você está brincando ?

- Não.

- Mas eu estou de saia.

- Isso não é desculpa.

- Eu não sou uma recruta do seu exército particular, sr. Dragneel, e não vou rastejar pelo quarto com a saia levantada até os quadris para o seu divertimento.

- Prometo que não vou olhar.

- Se não olhar, como vai saber que estou fazendo os movimentos corretos ?

- Alguém já lhe disse que você é terrível ?

- Que eu me lembre, não.

Natsu aproximou-se e parou diante dela, causando-lhe um estranho arrepio, apesar do tom de voz refletir apenas preocupações profissionais.

- Lucy, você tem sorte de poder ir trocar de roupa. Mas, se alguma coisa acontecer, vai ter de seguir minhas instruções, esteja de saia, calça ou o que for. Tem um diploma de professora, não é ? Pois bem, como é que as pessoas aprendem ? Escutando os outros falando ou tentando por si próprias ?

Compreendendo que ele estava certo, Lucy tratou de deixar a hostilidade de lado e começou a rastejar pelo aposento, conforme ele ensinara. Era mais difícil do que parecia, mas ela conseguiu percorrer o mesmo caminho que ele com a dignidade e a saia intactas. Então Natsu levantou-se e acendeu a luz, Podia ver o líder novamente. Frio, racional e decidido.

- Às vezes eu utilizo sinais de mão. Isso é para baixo - e abaixou o braço direito, curvando o corpo e espalmando a mão - E isso significa que deve ficar quieta - e pôs a mão na própria garganta - Se tivermos de enfrentar um problema real, você vai ter de se lembrar de algumas coisas Eu sou o chefe. E essa é a mais importante. Sem perguntas, sem discussão. Para baixo e quieta. Entendeu ?

- Como sabe que tenho um diploma de professora ? - ela perguntou, cruzando os braços sobre o peito.

- Vamos organizar isso. O que é mais importante ?

- Saber como descobriu sobre o meu diploma - fitou-o, notando que ele começava a perder a paciência - Tudo bem, tudo bem. Para baixo e quieta.

- Quem é o chefe, Lucy ? - perguntou Natsu em voz baixa, porém ameaçadora.

- Certo. No caso improvável de um ataque terrorista, de uma invasão ou coisa parecida, o sr. Dragneel é o chefe. Isso o deixa satisfeito ? Ou quer que eu abra a janela e grite para que todos os vizinhos também ouçam ? Isso satisfaria o seu ego doente ?

- Vamos deixar uma coisa bem clara, Lucy. Esse exercício não tem nada a ver com o meu ego, mas tem tudo a ver com a sua segurança.

- Ah, por favor ! Quais as chances de que isso tudo venha a se tornar realidade, apesar das cartas bobas escritas por um doido ou um desocupado ? Uma em um milhão ?

- Não interessa quais são as chances. O importante é que ataques dessa natureza, apesar de pouco freqüentes, costumam ser mortais. Ou nós prevenimos ou ficamos sentados, à espera da tragédia.

- Humm. Você viu as cartas ?

- Não.

- E por que não ?

- Porque eu só procuro as informações realmente necessárias. E você também não precisa saber o que está escrito nelas.

- Eu gostaria de poder avaliar a extensão do problema por minha conta.

- Pessoas mais qualificadas que você já avaliaram o problema. Ele existe... e isso é tudo o que precisa saber.

- Como você soube do meu diploma de professora ? - e o que mais saberia? Certamente não poderia obter informações que nem o pai possuía.

- Eu pratico telepatia. E também tenho uma ficha com o seu nome. Nasceu no Hospital Mount of Angels e passou os primeiros cinco anos de sua vida num chalé modesto em Glendale Road. Sua mãe morreu quando você tinha três anos. Seu pai começou a realizar bons negócios pouco depois e, portanto, você estudou em escolas particulares. Mudaram de casa diversas vezes, cada uma delas refletindo o novo status adquirido pelo sr. Heartfilia. Redwoods foi a última. Você foi para uma universidade para moças e concluiu o curso de Pedagogia com louvor. Fala francês, muito mal; o nome de sua melhor amiga é Erza Scarlet e - fez uma pausa, antes de concluir - nunca teve um namorado.

- O meu francês não é ruim ! - ela informou com frieza, desanimada por descobrir o quanto ele sabia sobre a sua vida - E eu já tive um namorado.

- É, talvez. Os dois últimos anos da sua vida são obscuros, encobertos, um fato que pretendo retificar nos próximos dias. De qualquer forma, não posso esperar para ouvir tudo sobre o seu namorado. Mesmo porque, dentro de alguns dias todas as pessoas que tiveram qualquer tipo de relacionamento com você estarão na nossa lista.

Lucy sorriu. A possibilidade era assustadora, mas não estaria ali nos próximos dias para suportar as conseqüências.

- Espero que não fique chocado com o que vai descobrir.

- Eu não costumo me chocar com facilidade, senhorita.

Na verdade não havia nada de chocante a ser descoberto, mas era divertido levantar hipóteses falsas quando não se tem de revelar a verdade em seguida. E a verdade é que ela já havia tido muitos amigos, de todos os tipos, mas nunca um namorado.


O sr. Heartflia convidou a equipe de segurança para o jantar, e Romeo Conbolt e Natsu aceitaram. O mais jovem, Conbolt, olhava para Lucy com adoração, e ela decidiu encorajá-lo, só para divertir-se.

O jantar transcorreu num clima agradável e tranqüilo. Conbolt parecia disposto a jogar-se ao chão para que Lucy passasse por cima, um fato que Natsu notava com desprazer.

- Srta. Heartfilia, eu preciso de sua agenda para amanhã - disse ele ao levantar-se, depois de olhar para o companheiro com ar de censura

- Vou fazer compras.

- Compras ? Não vai cavalgar comigo pela manhã, conforme combinamos ? - perguntou o pai.

Por um momento ela pensou em dizer não, mas percebeu que Dragneel estremeceu ao ouvir sobre a cavalgada e mudou de idéia.

Então ele possuía um ponto fraco ! Medo de cavalos ! Imagine um homem como aquele tremendo de pavor. Não a obrigara a rastejar pelo quarto como uma tola ? Pois bem, essa era a hora da revanche !

- É claro que vamos cavalgar, papai ! E você, Natsu, vem conosco, não é ?

- Não, se eu puder evitar - disse ele, e afastou-se da mesa - Você sabe cavalgar, não sabe, Conbolt ?

- Está brincando, Natsu ? Eu cresci em Chicago !

- Ótimo ! - ele exclamou, suspirando aliviado - Vá ver onde está Fernandes e pergunte se ele sabe cavalgar.

Conbolt voltou poucos minutos depois.

- Ele disse que não sabe nem distinguir a cabeça do rabo.

- Inferno !

- Quer que eu diga à srta. Heartfilia que não poderão cavalgar ?

- Está procurando por desculpas para ficar perto de Luc... da srta. Heartfilia ? Não misture as coisas, Conbolt. Não quero que esse tipo de problema atrapalhe o nosso trabalho.

- Mas eu não estou misturando nada !

- E é melhor que não comece agora.

- E sobre os cavalos ?

- Eu vou...

- Mas não gosta muito da idéia, não é ?

- Eu odeio cavalos.

- É mesmo?

- Uma vez eu passei duas semanas numa prisão da Rússia... e preferia repetir a dose a ter de subir num bicho desses.

- Mas pelo menos sabe cavalgar ?

- Sei, mas não gosto.

- Tenho certeza que se explicar à srta. Heartfilia...

- Conbolt, proteger as pessoas envolve psicologia, sabe ? Não devemos perturbar a rotina mais que o absolutamente necessário. Devemos permitir que sigam suas vidas dentro da normalidade, causando o menor incômodo possível. Nós fomos treinados para isso e somos pagos para isso. Eles, não. O velho pensa que tudo isso é um jogo, e a moça não acredita que exista perigo. E é melhor assim. Isso serve para manter a calma e a tranqüilidade. Se houver pânico, nosso trabalho se tornará quase impossível. E, além do mais, eu já tenho problemas demais com o coronel sem que ele saiba que não fui cavalgar por que não gosto do esporte.

- Problemas com o coronel ? Eu devia ter imaginado. Esse não é o tipo de trabalho que costuma fazer, é ?

- Não, não é.

- Mas não é ruim - comentou Conbolt - Ou é ?

- Não - concordou Natsu - Sofás macios, café quente... o que mais um homem pode querer ? - fazer do mundo um lugar melhor. Mas ele não disse o que estava pensando nem demonstrou que ainda era um idealista, depois de todos aqueles anos. Que vivia para aqueles raros momentos de satisfação dados pelo trabalho. Sensações que, desta vez, certamente não poderia experimentar. Lucy estava certa: aquilo não era um problema de verdade. Nunca aconteceria um ataque... pelo menos, as chances eram mínimas.

- Não vejo por que montar num cavalo, se não gosta dos animais - disse Conbolt, mostrando a ingenuidade dos jovens.

- Você é tão inocente, Conbolt... gosta de pular de aviões ?

- Não muito - admitiu ele.

- Mas salta se for necessário, não é ?

- Não tenho escolha. Faz parte do treinamento.

- Esse é o nosso trabalho, Conbolt. Nós temos de agir, mesmo que estejamos mortos de medo. Mas não temos de gostar, não é ? Pois então, eu odeio cavalos !


P. S.: Nos vemos no Capítulo 3.