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Capítulo 2
— Você está preocupada com ela. — Robin pontuou quando ele e a morena entraram no quarto.
— É minha culpa. — Regina respondeu ao ser enlaçada pela cintura, e recostou o rosto no ombro dele em um abraço reconfortante. Era a primeira vez que dizia aquilo em voz alta.
— Não é, amor. Mas encontraremos um jeito de salvá-la. — Regina quis acreditar nas palavras do namorado, mas não era tão simples. Não havia no mundo maldição mais poderosa do que a de um Dark One.
— Eu preciso de um banho para pensar claramente. — Murmurou, esforçando-se para sorrir, e se afastou depois de beijá-lo gentilmente nos lábios. Regina sabia que precisavam de Merlim, mas a sensação de impotência a enlouquecia. Não havia uma magia ou uma poção capaz de trazer Emma de volta. Talvez nem mesmo o amor verdadeiro (em suas três formas: os pais, o filho, o amado) fosse o suficiente. Então como poderia se sentir confiante ao buscar por um lendário mago desaparecido há séculos?
A morena se demorou o quanto pôde no banho, deliciando-se com a água tão quente que quase queimava a pele, e voltou para o quarto enrolada em uma toalha. Robin ocupou seu lugar no banho e ela observou a adaga em cima da cama, ao lado de seu vestido. Emma Swan. Até mesmo o nome parecia uma maldição agora. Vestiu uma meia-calça e prendeu e conjurou algumas cordas finas e as transfigurou para que se tornassem uma espécie de coldre na coxa esquerda, onde prendeu o objeto. Por fim, colocou o vestido até a cintura e passou as mãos pela longa e pesada saia vermelha. O volume da roupa escondia bem o que levava por baixo, e estava decidida a manter a adaga segura. A única maneira era levá-la consigo o tempo todo. Mal tinha ajustado o vestido à cintura, quando ouviu a porta ser aberta.
— Regina? — Por instinto, virou-se de costas ao ouvir a voz de Emma, e subiu a parte de cima do vestido, passando os braços pelas mangas que iam até os cotovelos, formando um decote na parte frontal.
Emma ignorou qualquer noção de espaço e sequer sentiu as bochechas enrubescerem ao vê-la parcialmente vestida. Entrou no quarto sem cerimônias, e as palavras que escaparam de sua boca tampouco foram planejadas.
— Quanto tempo levou para seu coração escurecer depois de usar magia negra pela primeira vez? — A pergunta fez o estômago da morena revirar. Ela se voltou para Emma, e seus olhos caíram pelo vestido que delineava seu corpo. Estava acostumada a vê-la em seus jeans, botas e jaqueta de couro, mas as vestes de época lhe caiam… Bem.
— Você só precisa se preocupar em não usá-la. — Respondeu, fitando-a. Sabia que Swan não iria se satisfazer com uma resposta como aquela. — Não funciona da mesma maneira para todos, Emma. O meu coração já estava tomado pelas trevas quando usei magia negra pela primeira vez. Eu estava tomada pela dor de perder um amor, pelo rancor, pela raiva de Snow White. — Falar sobre aquilo era… Estranho. Como falar sobre outra vida e, ao mesmo tempo, sobre algo tão próximo. Seu coração ainda pulsava como o da Rainha Má, e muitas vezes era quase impossível controlá-lo.
Regina se aproximou e a loura sentiu o pesar em suas palavras, a verdade nua e crua que ela se dispôs a compartilhar, como se a época de segredos entre elas tivesse acabado. Sabia que toda essa sinceridade (inclusive da própria Emma) era fruto do sentimento de culpa que as rondava desde que a loura decidira tomar as trevas para si. Não saberia dizer o verdadeiro motivo: supôs, em um primeiro momento, que era altruísmo. Tomou a frente de Regina porque era isso que deveria ser, a Salvadora. Depois, considerou que fora a arrogância que a fizera acreditar ser a única capaz de domar as trevas. Agora, ao escutar a rainha falar, notou que havia outro tipo de sentimento em jogo: o medo. Regina continuava lutando contra suas próprias trevas, e deixa-la assumir o peso da maldição do Dark One seria condenar a todos eles. A constatação saiu em forma de um suspiro.
— O seu é muito diferente do meu. O seu coração, Emma, veio do amor verdadeiro dos seus pais. É o coração de uma Salvadora. Por isso, imagino que deve ser mais difícil para as trevas tomarem conta dele. É nisso que você deve pensar. — Regina continuou e abriu um sorriso, porque estava sendo sincera naquelas palavras. No fundo, sabia que elas não ajudariam muito.
— Agora… — Acrescentou, girando para ficar de costas para ela, e empurrou o cabelo por cima de um dos ombros. — Faça algo útil e me ajude a fechar o zíper desse vestido. — Seu tom de voz era mandão, como sempre, porém descontraído, e Regina não percebeu de primeira que acionou o poder que tinha ao portar a adaga em seu corpo, obrigando a loura a cumprir sua ordem.
O corpo de Emma se moveu de modo involuntário, como se puxado por uma força invisível, e esta demorou meio segundo para perceber o que acabara de acontecer. Uma ordem. A adaga. Pôde senti-la pulsar sob o vestido de Regina e seus pensamentos fugiram pra outro lugar. Emma se aproximou o suficiente para que seu corpo roçasse no da morena, e experimentou resistir à ordem, mas tudo que conseguiu foi fechar o zíper de forma lenta e mecânica. Os dedos de Emma mal tocaram sua pele enquanto subiam o zíper, mas Regina sentiu um arrepio suave e inesperado descer pela coluna.
– O propósito de entregar-lhe a adaga foi para que você evitasse que eu fizesse alguma coisa estúpida, Regina. – Murmurou em tom de quem reclama, e ergueu os olhos para o espelho, observando seus reflexos. Sentiu-se no ímpeto de provoca-la, como se a proximidade aguçasse seus sentidos. Regina se amaldiçoou em pensamentos quando entendeu o que aconteceu, mas não deixou de sentir uma pontada de satisfação ao constatar que podia, de fato, controla-la. – Se quiser que eu satisfaça seus desejos, majestade, você precisa pedir. –
Emma continuou, sustentando o olhar da rainha através do espelho, sua boca muito próxima do ouvido dela. A voz dela soou como um sussurro, e por um instante Regina teve a percepção de que nunca estivera tão próxima da loira quanto naquele instante, sentindo o corpo dela quase tocar o seu, e seu perfume suave confundiu o pensamento da morena, junto com aquela frase de inúmeros significados. As trevas dançaram na mente de Emma Swan e um tipo diferente de desejo surgiu em seu âmago. Ela o afastou, no entanto, assim que percebeu quão fundo havia chegado.
– O vermelho combina com você. – Emma murmurou, desta vez utilizando o tom de voz de quem se desculpa, mas os olhos de Regina encontraram os seus através do espelho, e foi quase impossível desviar o olhar. Havia algo diferente naquelas írises esverdeadas. Algo intenso e quente. Não eram (talvez) as trevas que agora habitavam aquele corpo. Era algo mais. Emma tratou de se afastar para a porta, percebendo que as mãos voltaram a tremer. – Vou voltar, Snow deve estar me procurando. Nos vemos no baile. –
A porta do quarto mal havia se fechado quando a do banheiro se abriu. Robin ergueu as sobrancelhas.
— Está tudo bem baby? Você parece pálida. — Regina não respondeu. No lugar disso, enlaçou-o pelo pescoço e o beijou nos lábios com intensidade e paixão, arranhando sua nuca com as unhas vermelhas, e pressionando seu corpo contra o dele. Precisava senti-lo, abraçá-lo, apertá-lo, tomá-lo para si, com uma urgência gigantesca. Robin se entregou ao beijo de bom grado, suas mãos quentes desceram pela coluna da namorada e a empurrou contra o dossel da cama, mas se afastou para respirar pouco tempo depois.
— Regina… Precisamos descer… — A mente de Regina pareceu voltar ao lugar diante daquelas palavras. Ela repousou os lábios no pescoço dele, mas foi o cheiro de Emma que sentiu, e aquele pensamento a fez estremecer. No que é que você está pensando, Mills?
— Tem razão. Podemos aproveitar todo este quarto mais tarde. — Disse, a voz carregada de malícia para disfarçar seus pensamentos inoportunos. Os dois terminaram de se arrumar, Regina usou uma pitada de mágica para arrumar o cabelo, a maquiagem, e trocou a cor do vestido para um tom neutro. O vermelho a incomodou.
Quando desceram para o baile, todos já estavam lá. A atmosfera de Camelot era envolvente e calorosa, atraindo a todos para sua energia mágica. Era quase fácil esquecer os problemas que os levaram até lá.
— Senhoras e senhores… A salvadora! — A morena foi recebida por muitas palmas, e abriu um sorriso constrangido, olhando de relance para Emma. Não pôde deixar de apreciar aquela recepção. Nunca era recebida daquela maneira quando as pessoas sabiam quem era realmente. Emma viu receio nos olhos castanhos, mas também satisfação, e abriu um ligeiro sorriso. Talvez tivesse subestimado aquele poder no começo, o poder de simplesmente ser a Salvadora, porque glória nunca fora o que buscara. Seu único desejo no aniversário de 28 anos fora não ter mais que ficar sozinha, e de repente viu-se arrastada para um mundo de conto de fadas, onde realmente existiam heróis e vilões. A mudança de cenário foi assustadora, porém excitante, e ela imaginou que fosse exatamente a maneira como Regina se sentia agora. Não podia culpa-la. O Rei Arthur deu início ao baile e Emma desviou a atenção da morena para Hook, que lhe estendia a mão boa.
– Dance comigo, amor. – Ela aceitou. Snow White tinha completado o traje da filha com uma coroa de flores emoldurando os longos cabelos dourados, e ela parecia realmente brilhar no salão lotado, o tom prateado do vestido e os detalhes em branco fazendo com que parecesse a mais inocente dos seres, e a ironia daquilo era gritante. Hook parecia convicto de que resolveriam o problema das trevas em pouco tempo, e que poderiam voltar à vida normal logo. A risadinha maldosa de Rumplestilskin ecoou em seus ouvidos e ela o procurou pelo salão de festas, quase tropeçando nos próprios pés.
– Você está bem, Emma? – A maldita pergunta. Antes que pudesse responder de mau-humor, captou o olhar furtivo de Regina pelo salão, e a curiosidade aguçou seus sentidos. Percebeu que a morena não estava mais de vermelho e sentiu as bochechas queimarem de um jeito novo. Hook parou de dançar e tocou o queixo dela com as mãos. – Fale comigo, Swan. – Ele pediu e Emma quase cedeu. Quase.
– Não comi nada o dia inteiro, e as trevas não preenchem meu estômago. – Foi a pior piada que ela já soltara na vida, mas viu os lábios comprimidos do pirata sorrirem de forma breve. – Veja onde o Henry foi parar, ele estava com uma menina e eu o perdi de vista. – Emma se afastou antes que ele pudesse protestar e andou até a mesa mais próxima com o máximo de elegância que conseguiu, pois saltos nunca foram seu forte.
— Swan. — Regina a interpelou no meio do caminho. — Me desculpe por antes. Eu não pretendia controlá-la com a adaga. Não vai acontecer de novo. — A morena se aproximou mais um passo e, aproveitando um garçom que passava, pegou duas taças de champanhe. Estendeu uma para a loura, como um pedido de desculpas. — Da próxima vez, pedirei educadamente para que atenda aos meus desejos. — A última frase não foi totalmente intencional, em uma referência ao que a loura havia dito antes, assim como não foi proposital o sorriso malicioso que delineou seus lábios, ou o olhar intenso que aguardava o aceite ao convite para dividirem uma taça de bebida. No entanto, a risada escapou de Emma antes que pudesse controla-la. As trevas se agitaram com a clara provocação, mas o riso era totalmente Emma, que aceitou a taça com uma mesura.
– Não, não vai. Foi estúpido da minha parte dizer aquilo. Você não é do tipo que pede as coisas, Regina. – A loura tomou um longo gole do champagne, sentindo o estômago revirar pela ausência de comida. Pensou em conjurar a mesa para seu lado, mas descartou a ideia. Não devia chamar a atenção, e muito menos queria ser repreendida por usar magia.
Regina riu. Ela nunca sabia exatamente o que esperar de Emma. Às vezes, devido a toda a história com Henry e aos inúmeros desafios superados pelo bem de Storybrooke, pensava que eram amigas. Nunca tinham sido exatamente próximas, mas havia alguma sinceridade única na relação singular construída no decorrer dos anos. Em outros momentos, não podiam evitar a troca de olhares desafiadores e farpas em forma de palavras, como havia acontecido no começo de tudo. Regina nunca parou para racionalizar sobre o motivo de continuarem a agir daquela maneira mesmo sem necessidade, em um silencioso cabo de guerra em que nenhuma das duas nunca vencia, e naquele momento percebeu que era melhor não tentar pensar.
– Me acompanha? – Emma apontou para o outro extremo do salão, onde havia duas portas que levavam à uma das sacadas do castelo, e pegou um pão recheado no caminho, devorando-o sem lembrar em momento algum da etiqueta.
— Parece que você não come há semanas, miss Swan. — Regina provocou, mas ela mesma pegou um pão para comer. Aproximaram-se da beirada da sacada e a loura lançou um olhar demorado para a rainha.
– Você sabe muito bem que as trevas podem ser manipuladoras. – Fez uma pausa e desviou o olhar para o céu, onde uma lua crescente despontava. – Mas o que eu disse sobre o vestido era genuíno. Vermelho é a sua cor, não a minha. Talvez eu deva comprar uma jaqueta nova quando voltarmos à StoryBrooke. – Emma imaginou-se usando uma jaqueta de couro preta, e a ideia lhe trouxe um prazer momentâneo, que compartilhou com um sorriso. O comentário pegou a morena de surpresa de uma maneira incomum. Repousou a taça vazia sobre o parapeito e apoiou as mãos ali.
— Algumas horas tomada pelas forças sombrias e já está planejando uma mudança de visual? — Brincou, virando-se de frente para Emma, e quase sem querer buscou os olhos dela. — O seu visual costumeiro parece lhe cair melhor. — Foi apenas uma pitada de provocação, mas Regina podia quase sentir a presença maligna dentro de Emma, ver as sombras brincando em seus olhos. Era algo perigoso de se fazer, principalmente ao pensar no fato de que buscavam livrá-la das trevas, mas Regina não pôde deixar de se sentir tentada. Em algum nível talvez inconsciente, era divertido brincar com aquela energia.
Emma desviou o olhar das estrelas e virou o corpo para a morena, erguendo uma das sobrancelhas. Tomou o comentário como um elogio discreto, embora o tom de Regina dissesse algo mais, e olhou para as próprias vestes pela terceira vez naquela noite.
— Ele está dentro da sua mente, não é? — A pergunta foi retórica, porque Regina sabia que sim. Estava brincando com ela, provocando-a, demandando liberdade. Era assim que as trevas sempre funcionavam. Emma tampouco respondeu, tomando o restante do champagne. Rumplestilskin não estava somente na sua mente, a sombra já aparecera duas vezes como se fosse as trevas se materializando. E como que para acalentar sua curiosidade, Regina se aproximou um passo para ver as trevas mais de perto, quase sem perceber, quase fascinada pelos olhos esverdeados.
— O que ele está te dizendo agora, Emma? — A aproximação de Regina e a pergunta fizeram acender um alerta de perigo na mente da loura, e todo o resto pareceu ser vaporizado para longe dali para que pudesse se concentrar inteiramente naquela voz, que saiu suave como um sussurro. Um arrepio percorreu toda a coluna da loura, que não soube dizer se ocasionado pela mão invisível do antigo Dark One em seu ombro, ou pelo fato de que Regina sabia exatamente o que estava fazendo com ela. O monstro dentro de si se agigantou, querendo sair para brincar com a Rainha Má, sentindo a proximidade perturbá-lo. O que ele dizia agora?
– Para dar um passo à frente. – E Emma deu, tombando a cabeça ligeiramente para o lado direito, seu nariz quase tocando o da rainha. Os olhos esverdeados brincaram com as írises escuras de Regina, e baixaram para sua boca. Ali ainda havia vermelho e a cor a atiçou mais do que qualquer coisa.
— Emma… — Quantas vezes nas últimas horas Regina já havia repetido aquele nome, sem saber o que dizer em seguida? A loura estava tão próxima que bastaria um piscar de olhos para alcançar os lábios dela com os seus, e a morena se sentiu curiosa, tentada. Seu corpo pareceu ser magnetizado para frente por uma tensão invisível e precisou usar todo o autocontrole que possuía para não se deixar levar por aquela energia. — O que você está… —
Antes que a frase fosse finalizada, e sem total controle dos seus movimentos, a mão esquerda de Emma tocou a cintura de Regina, descendo suavemente até que pudesse sentir o contorno da adaga preso na coxa, sob o vestido. O objeto não era visível, mas Emma podia senti-lo vibrar com sua presença tanto quanto a respiração acelerada da outra mulher. Pegou-se entre o desejo de provar aqueles lábios e o desejo de recuperar a adaga para si. Algum deles era da verdadeira Emma? Sentiu uma momentânea dificuldade de respirar.
Nesse meio tempo, um arrepio indesejado e incontrolável desceu pela coluna de Regina enquanto ela contornava a curva de sua cintura, até sua coxa. Não. Até a adaga. Repentinamente, uma clareza tomou conta da mente de Regina, e ela percebeu que Emma estava sendo tentada pela adaga.
– Mas se eu o escutar, nós duas estaremos perdidas. – Emma se afastou como se tivesse levado um choque e se voltou para a beirada da sacada, fazendo a taça de champagne se encher com um líquido um pouco mais forte, a vodka.
Regina soltou a respiração que nem tinha percebido segurar e se recostou no parapeito da sacada. De costas para o lado de fora, olhou para as sombras que dançavam por trás das cortinas e pensou nas sombras que dançavam nos olhos de Emma. Quis brincar com elas (e ainda queria), mas eram elas quem brincavam. Quis tentá-las, mas acabou sendo tentada, e um sopro de frustração (pela distância de Emma) por perceber que as trevas tentavam manipulá-la pela adaga a fez suspirar, irritada.
A loura evitou pensar demais, e para prevenir que suas mãos voltassem a tremer, lembrou-se do que fazia na prisão quando ficava ansiosa: fumava. Um pacote de cigarros se materializou nos seus dedos.
– Eu aprendi a fumar quando estive presa, um dos guardas sempre trazia cigarros contrabandeados de canela e me oferecia um. – Disse, tentando evitar o bolo que se formara em sua garganta. Tirou um cigarro e o acendeu com a ponta do dedo, sem perceber que usara magia três vezes no último minuto, o que denunciava seu descontrole. Tragou fundo, desejando que a fumaça fosse suficiente para afastar certas imagens da mente, e o ofereceu para Regina, sem realmente conseguir encará-la novamente.
Regina voltou o olhar para Emma, mas dessa vez apenas uma das sobrancelhas se curvou para cima lentamente enquanto ela falava, observando-a colocar o cigarro na boca como se sempre fizesse aquilo.
— Você perdeu a cabeça de vez, Swan? — A ironia típica soou junto de sua voz. — Cigarros, sério?! — Regina torceu os lábios e, antes que Emma pudesse levá-lo aos lábios novamente, voltou a se aproximar, tirou o cigarro da mão dela, apagou-o no parapeito e o jogou pela sacada. A loura reclamou com um sonoro ''Ei!''.
— Escute aqui… Por favor. — Regina acrescentou o "por favor" para não tornar a frase uma ordem da adaga, e voltou a mão que tinha usado para pegar o cigarro para Emma, tocando seu pulso com a ponta dos dedos. Ao perceber o contato, recuou um passo, e o constrangimento tomou conta das duas outra vez. Mas Regina manteve a voz firme. — As trevas estão tentando você. Querem que você ceda, para que possam tomar controle. Se você sentir vontade de usar magia só porque PODE, tente não usar. Se sente vontade de acender um maldito cigarro, tente não acender. —
Regina tomou cuidado com as palavras para não tornar nada daquilo uma ordem. Sabia que as trevas dentro dela tentariam se rebelar contra aquele conselho, sabia que aquilo talvez a deixasse irritada, mas o que poderia fazer? Tinha feito uma promessa. Ajudá-la ou destruí-la. Por esse motivo, por mais que parte de si quisesse jogar aquele jogo da DarkOne, não podia.
O discurso fez Emma se sentir outra vez como a criança rebelde que fora um dia, levando bronca após bronca de suas famílias adotivas por agir de modo impulsivo, por destruir as próprias coisas e revoltar-se com aqueles que a acolheram. E ela sempre parecia fazer a escolha errada, como agora. Sabia que Regina só estava cumprindo com sua palavra quando prometeu ajudá-la a se livrar das trevas, mas o monstro não estava satisfeito. De que adianta ser a pessoa mais poderosa do mundo mágico se não pode fazer o que quer? Emma girou o líquido transparente na taça, mas não o tomou. Decerto que abusar do álcool naquelas condições era besteira, e sua cota havia acabado.
— Qualquer desejo ou impulso que você tenha e que não pareça só seu, Emma… — A última frase saiu rouca, difícil. Regina tinha certeza que ela entenderia as entrelinhas do recado. — Você não pode ceder. — Um meio sorriso ousou delinear os lábios de Regina, um sorriso de apoio e cumplicidade, mas com certo quê de tristeza que nem ela mesma entendeu cem por cento.
A mudança clara no tom de voz da outra fez Emma voltar o corpo para encará-la, e o que viu desarmou todas as suas defesas. Ela era a Salvadora novamente, com a obrigação de conseguir os finais felizes de todo mundo, e reconhecia um coração machucado quando via um.
– Regina, eu sinto muito. – Murmurou com pesar, estendendo a mão para alcançar a da rainha sob o parapeito, desta vez sem hesitar diante do toque, e a apertou entre os dedos. – Não foi minha intenção manipulá-la pela adaga. Confio em seu juízo, e eu não deixarei que as trevas assumam outra vez. – Emma fez uma promessa silenciosa, ainda que tivesse dúvidas acerca da última parte. Quisera a adaga, sim, porque queria senti-la entre seus dedos e assegurar-se de que nunca seria controlada pelo objeto. No entanto, confiava em Regina o suficiente para saber que sua liberdade estava garantida, então por que a urgência em chegar tão perto? O pensamento a deixava levemente tonta.
– Mães, estava procurando vocês! – Emma se assustou quando Henry adentrou a sacada correndo, soltou a mão de Regina e empurrou o pacote de cigarros parapeito abaixo, assim como a vodka. Ambas se voltaram para o menino. – Hook me deu dicas para conquistar uma garota. – Emma deixou escapar um suspiro aliviado, abraçou o filho por alguns segundos e deixou que o cheiro dele a confortasse por um instante.
– Tenho certeza que ele deu. Mas você pode me contar amanhã. – Disse, encerrando a noite e a voltando a erguer as barreiras em volta de si. Antes, trocou um último olhar com Regina. – Se eu voltar a chegar tão perto assim, você pode me parar com um soco. – Confidenciou, meio brincando, meio alertando. Se era perto das trevas ou da própria Regina, a loura não sabia dizer. Regina apoiou a mão no ombro do filho, guiando-o para dentro do castelo, e sorriu para Emma, ciente de que ela estaria os acompanhando.
— Eu vou manter esse soco em mente. Direcionado para o seu pirata, se ele continuar dando dicas indecentes para o nosso filho. — O tom era divertido, mas era impossível saber se a rainha estava brincando ou não. Provavelmente não.
— Mas mãe, eram dicas boas! Violet… — Regina ergueu uma sobrancelha.
— Quem é Violet, Henry? — O menino corou e olhou para Emma, buscando por ajuda. Ela era sempre a mais compreensível das duas.
— Errrr… É melhor deixar pra amanhã né? Está tarde. — Ele também era tão evasivo quanto sua mãe biológica.
— Está bem. Cama, já! — Henry sorriu feliz e Regina lançou um último olhar para Emma. — É sério. Ele é novo demais para começar a namorar. — Resmungou. — Boa noite, Swan. E com aquele retorno à uma realidade segura, a de compartilharem a criação do menino, a morena se afastou.
A festa ainda ocorria, como o de costume nos reinos encantados, em que as danças e cantos se estendiam até o amanhecer, mas algo naquela noite a deixara exausta, e Regina subiu direto para o quarto que dividia com Robin. Não se surpreendeu ao encontrá-lo já deitado, com Roland enrolado ao seu lado, ambos dormindo. E apesar de suas intenções anteriores, Regina sorriu para aquela cena, sentindo-se quase aliviada por poder presenciá-la.
Foi até o banheiro, despiu-se e tirou a adaga que estava presa em sua coxa, observando-a por um momento, pensativa. Era perigoso mantê-la consigo o tempo todo, mas também era perigoso tentar escondê-la. Apesar da recepção, ainda não confiava nos estranhos daquela terra, e ainda havia o problema de Emma. Por fim, decidiu guardá-la em uma caixinha dentro da pia do banheiro, atrás de algumas toalhas, e lançou um encantamento para que fosse a única pessoa a conseguir abri-la ou tirá-la do local. Se mais alguém tentasse, a pessoa cairia de imediato em um breve sono, e ela sentiria na mesma hora. Assim, teria tempo de voltar e encontrar o invasor. Por algum motivo, sentiu-se mais leve depois de tirá-la, conjurou uma taça de vinho forte e a bebeu durante um segundo banho.
Quando se deitou, demorou vinte segundos para adormecer. Foi um sono agitado, leve e cheio de sonhos confusos, o que a levou a despertar junto com os primeiros raios de sol que atravessavam as cortinas brancas do cômodo. A morena se vestiu (de volta ao vestido de vermelho, dessa vez mais discreto e confortável do que um de festa) e desceu para tomar um café da manhã rápido na cozinha do castelo, no intuito de ouvir qualquer conversa que pudesse confirmar alguma suspeita sobre os habitantes daquele lugar, mas não obteve sucesso. Apenas vários serviçais oferecendo os mais diversos tipos de alimentos, até que não pudesse mais aguentar de tanto comer.
Com algum tempo livre para gastar, perguntou onde era a biblioteca do castelo e buscou por livros locais que falavam sobre Merlim, tentando achar alguma novidade. Novamente, não teve sucesso. Apenas as mesmas histórias que eram contadas ao redor do mundo sobre sua vida, seu poder e seu desaparecimento, e uma dor de cabeça irritante. Frustrada e mau humorada, desistiu perto das dez horas e seguiu as instruções recebidas no dia anterior para chegar ao local da reunião entre os heróis recém-chegados e o Rei Arthur: Um amplo jardim de inverno.
— Lugar esquisito para uma reunião, hein? — Snow comentou ao vê-la se aproximar, e Regina apenas encolheu os ombros e cruzou os braços. Em quinze minutos, todos estavam reunidos.
— Senhoras e senhores…! — O rei anunciou teatralmente. — Merlim! — Concluiu, sorridente, de braços abertos, diante de uma gigante árvore de raízes e galhos grossos como braços de um gigante.
— Eu espero não estar cega, mas só estou vendo uma árvore. — Regina ergueu as sobrancelhas, cética, recebendo em resposta um olhar reprovador de Snow. Você é a salvadora, Regina. Quase pôde ouvir a voz dela. Ah é. O rei Arthur, entretanto, pareceu achar graça.
— Exato, Salvadora. É uma árvore, e é Merlim. Este é o local de sua prisão, e é de dentro desta árvore que você irá tirá-lo. — Ele explicou, sem nunca se desfazer do sorriso.
— E exatamente como eu irei fazer isso? — Regina pensou ter visto uma sombra nos olhos do Rei, quando seu sorriso se desfez por um instante e ele pareceu genuinamente confuso, mas ele recuperou a compostura rápido.
— Bem, nós esperávamos que vocês nos contassem como. — Ah, ótimo. Teve que se controlar para não rolar os olhos, e sua cabeça latejou. Aquilo era uma completa perda de tempo. Regina olhou ao redor rapidamente para assistir à reação dos outros, e foi só então que percebeu que o grupo não estava completo. Uma ruga surgiu em sua testa. Onde diabos estava Emma?
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