Nos dois dias seguintes não houve mais brigas e desavenças entre Reiner e Bertholdt. Ambos conversaram e mantiveram uma rotina bem normal. Bertholdt voltou a esperar por Reiner para que fizessem as refeições juntos.
Durante a manhã, quando se preparavam para tomar o café, Reiner podia ver Bertholdt mirando-o, através do espelho. Os olhares do amigo variavam entre desejo, admiração, tristeza e até mesmo um pouco de raiva. Só deus sabe o quanto Reiner queria ir lá e abraçá-lo, mas isso, só traria mais sofrimento aos dois. Trabalharam, patrulharam, e até riram um pouco durante o jantar naquela última noite.
Bertholdt ficou encarregado de lavar a louça e organizar a cozinha. Sorriu gentilmente aceitando de bom grado as tarefas. Não achava ruim colaborar com o preparo das refeições, com a limpeza, ou em cuidar dos doentes. Reiner sempre desdenhava tais obrigações dizendo que fazer patrulhas e cuidar dos arredores das muralhas eram mais úteis e dignas. Bertholdt, por ora, apenas concordava, mas, na verdade, preferia mil vezes lavar um banheiro que arriscar sua preciosa vida e a de Reiner, com tarefas suicidas.
Bertholdt pensava mais rápido do que agia e sabia que o trabalho extra e solitário naquela noite, só poderia ocultar um motivo muito óbvio; uma festa surpresa no dormitório.
Sorriu de novo agora ainda mais feliz. Há muito tempo já havia perdido as contas da sua idade, mas, sabia que estava entrando na idade adulta. Costumava se comparar a outros recrutas que provavelmente tinham a mesma faixa etária. Ainda assim, Bertholdt sempre se considerou mais maduro; até mais do que Reiner, que aparentava uns dois ou três anos a mais, embora, a mente ainda vagasse pelo tempo.
– Não sei como consegue ficar tão feliz fazendo serviços domésticos no dia do seu aniversário.
Bertholdt apertou com força o cabo da vassoura. Levantou os olhos e deu de cara com Reiner escorado na mesa da cozinha. O loiro exibia um sorriso um tanto arredio. Reiner não era burro, e sabia que Bertholdt voltou a tratá-lo bem apenas para manter uma boa convivência, mas, que não tinham mais a mesma proximidade de antes.
– Já mandaram você vir me buscar? - Bertholdt continuou a varrer o chão.
– Eu disse que não dava pra esconder nada de você, mas, eles me ignoram. - Reiner deu de ombros – Não, tá muito cedo pra festas ainda! Só vim te ajudar e desejar felicidades. - Bertholdt o olhou preocupado – Desculpe, não quero participar.
– Não preciso de ajuda. - Bertholdt encostou a vassoura em um canto e se aproximou de Reiner, que o olhou curioso. O moreno estendeu a mão como se pedisse algo.
– O quê?
– Achei que tivesse algo pra mim; foi o único que não me deu nada ainda.
– O Jean já deu? - Reiner não resistiu em tocar no assunto.
– Já.
– E eu deveria perguntar o quê?
– Não, não deveria, até porque não ia gostar de saber. - Reiner baixou os olhos sentindo uma onda de desespero crescer. – Ele queria me beijar; só isso.
– Só isso? - Reiner riu nervoso, com um tom de sarcasmo.
– Sim, só isso, mas, poderia ter sido mais… bem mais.
– Que feio Bertholdt, recusando presentes?
– Eu não recusei. - Bertholdt ficou olhando Reiner perder toda aquela pose de forte. – Mas não se preocupe, ele me beijou exatamente como você me beijava, lembra; quando a gente era pequeno?
– Verdade, eu te dava alguma coisa doida que eu achava por ai e beijava o seu rosto. - Reiner sorriu aliviado, esquecendo por ora que Jean voltou a se atrever a tocar Bertholdt – Você dizia que era o melhor presente de todos, mas, você falava isso todos os anos.
– E era! - os olhos de Bertholdt se encheram de lágrimas – Você podia me trazer um monte de lama que eu ia me sentir a pessoa mais feliz do mundo.
Reiner puxou Bertholdt que se deixou ser abraçado. Ficou por alguns minutos apenas fazendo carinho no cabelo liso e escuro, sentindo aquele leve cheirinho de essência que ele tanto amava.
– Reiner… - Bertholdt limpou as lágrimas que haviam sobrado, na manga da camisa. – E o meu presente?
– E… eu ainda não pensei no que te dar.
– Por que você não pergunta o que eu quero?
Reiner olhou meio preocupado, tinha um pouco de medo do que Bertholdt poderia querer.
– O que você quer, Berth?
– O de sempre, Reiner. - os dedos londos de Bertholdt tocaram delicadamente o rosto do loiro – Eu quero um beijo seu.
Reiner segurou o rosto do amigo. Mirou por alguns segundos as esmeraldas ainda um pouco carregadas de lágrimas, e acariciou o rosto que, aos poucos, se cobria de um tom carmim. Reiner achava aquela coloração avermelhada com o contraste da pele morena de Bertholdt a coisa mais maravilhosa que existia. Tocou de leve os lábios na bochecha de Bertholdt, que se aqueceu com o contato terno.
– O quê foi, você não gostou? - Reiner notou um pouco de decepção nos olhos de Bertholdt.
– Não é isso, é que, sabe quando você dá um carrinho de brinquedo para um homem ou uma bonequinha a uma mulher… é a mesma coisa que você fez comigo agora, Reiner.
Reiner estalou os olhos. Sim, ele havia entendido muito bem o que Bertholdt queria dizer com aquilo. Bertholdt era homem agora, e não queria mais os beijos afetuosos e carregados daquele sentimento fraterno de antes. Agora, o amigo desejava ser envolvido e jogado em cima daquela mesa, queria ter as roupas arrancadas e a pele marcada; exatamente como havia feito daquela vez.
E foi o que Reiner fez. Segurou a gola da blusa de Bertholdt o trazendo para outro beijo. Não aquele velho e seguro beijo na bochecha, mas sim, nos lábios, perigoso e molhado, como todo homem de verdade gostava. Sentiu a pressão do corpo de Bertholdt o esmagando contra a madeira da mesa. Bertholdt se livrou dos sapatos e começou a retirar a roupa. Arrancou o suéter bagunçando os cabelos, passando as mãos pelos fios rebeldes logo em seguida. Tentou sem muito sucesso, desabotoar a camisa fina de tecido branco, quase transparente, mas, acabou desistindo e a retirando da mesma forma que o suéter. Desabotoou o fecho e desceu o zíper, bem devagar. O elástico da roupa íntima se revelou, fazendo a garganta de Reiner secar um pouco. Já era possível avistar o caminho coberto por alguns pelos negros, da mesma cor do cabelo do moreno. Se aproximou de Reiner que permanecia sentado, apenas observando o corpo de Bertholdt se revelar aos poucos.
– Você quer que eu sente ai?
– Não, eu quero que você me ajude com isso. - Reiner esticou a ponta do cinto.
Bertholdt se ajoelhou entre as pernas de Reiner. Puxou a peça longa de couro jogando-a em um canto qualquer. Soltou o botão e abriu o zíper da calça. Reiner estava molhado e já era possível sentir o cheiro de sexo no ar. Os dedos do loiro se prenderem nos fios curtos da sua nuca. Bertholdt sabia o que Reiner queria. Passou de leve a ponta da língua pela glande, provando do gosto salgado que, como já esperava, não o agradou.
Ao contrário de Reiner, que sempre pareceu disposto a comer a própria perna – caso fosse realmente necessário – Bertholdt tinha um estômago frágil. Até mesmo o odor do esgoto que corria a céu aberto pela vila dos desabrigados, era muito mais que o suficiente para deixá-lo doente por uma semana inteira. Não que o cheiro do corpo de Reiner não o agradasse, muito pelo contrário, mas, provar os fluidos corporais de outra pessoa, parecia ser uma péssima ideia.
Berthold ficou por um bom tempo apenas o estimulando. Reiner não contestou, fechou os olhos e aproveitou os toques, até sentir a mão de Bertholdt deslizar com mais facilidade, molhada com seu pré-gozo.
– Acho que já é o bastante. Tire o resto. - Bertholdt se levantou levando as mãos ao cós de sua calça. – A sua não Berth; a minha.
Bertholdt paralisou. Ficou olhando sério para um Reiner absurdamente vermelho, esperando que ele dissesse que era só brincadeira. Bertholdt esperava sim ser completamente despido por Reiner, ser jogado de quatro naquela mesa, e fodido, até não poder mais se mover.
Não esperou ele pedir uma segunda vez. Grudou na roupa de Reiner a arrancando, quase levando as pernas do loiro junto. Se aproximou rápido descendo um pouco mais as próprias calças, apenas o suficiente para colocar o membro para fora. Reiner tremeu. Tinha que confessar, preferia tê-lo outra vez na boca em vez de imaginar aquilo em outro lugar.
Sentiu as mãos de Bertholdt se prenderem com força em seu quadril o incentivando a se aproximar mais.
Reiner sentiu o desespero chegar antecipado. O coração disparou e a respiração ficou descompassada. Deu uma espiada em Bertholdt. O rapaz parecia inseguro e assustado. Reiner sabia que, por mais que Bertholdt estivesse feliz e quisesse demonstrar iniciativa ali, ele ainda era o mesmo e velho Bertholdt de sempre; tímido e inexperiente. Mesmo assim, não podia colaborar muito. Estar do outro lado, também fazia com que Reiner ficasse assutado e apreensivo. Lutar contra a vergonha e o orgulho, o deixava tão vulnerável quanto Bertholdt.
– Quero ficar com a camisa. - Reiner segurou a peça assim que Bertholdt ameaçou tirá-la.
– Mas, Reiner… eu quero ver o seu corpo enquanto a gente faz.
– Meu deus, depois você fala que só lê romances, não é. - Reiner começou a desabotoar a roupa. – Só vou abrir, não vou tirar.
Reiner mal terminou de abrir a peça e Bertholdt passou a beijá-lo ali; no peito, descendo perigosamente pelo abdômen bem esculpido.
Reiner não soube dizer se Bertholdt estava com medo de machucá-lo, se era ansiedade, ou mesmo a falta de experiência, mas, a demora o estava matando. Tinha medo do que o esperava. Além das coisas que ocasionalmente ouvia de alguns soldados mais liberais que pareciam não se importar com quem se deitavam, havia também, aqueles que se importavam e muito com isso; o que para Reiner, parecia bem pior. Reiner temia, mais do que tudo, acabar sendo exposto e perder o respeito de todos a sua volta.
Só percebeu que era tarde demais para pesar os prós e contras da situação, quando sentiu Bertholdt ganhar espaço para dentro de seu corpo. Fechou os olhos com força e cravou as unhas curtas na palma das mãos, quase rasgando a carne ali. Ficou se perguntando se aquela invasão não seria ruim o suficiente para fazê-lo perder o controle e se transformar, mas, com um pouquinho de amargura, se lembrou que foi muito mais cruel com Bertholdt e nem por isso o amigo virou um monstro daquela vez.
Reiner abriu os olhos e fitou o rosto do amigo. Bertholdt permanecia com os olhos cerrados e seu corpo estava trêmulo. Parecia estar se concentrando para manter todo o autocontrole possível para não machucar Reiner; muito diferente do que o loiro fez da primeira vez. Impulsionou o quadril pra trás e, logo depois, fez o mesmo movimento para frente, sentindo Bertholdt sair e se enterrar novamente em seu corpo. Bastou uma vez como incentivo e Bertholdt se sentiu seguro o suficiente para começar a repeti-los. O problema, é que Bertholdt parecia não ter muita noção da força que possuía. Reiner jogou a cabeça para trás, segurando a vontade de gritar de dor.
Mas sua voz simplesmente sumiu.
Parado, ali, no mesmo lugar de onde antes observava Bertholdt varrer o chão, Jean olhava a cena com as mãos na boca, como se tivesse sido petrificado.
Os olhos de Reiner se encheram de lágrimas. Não havia forma pior de humilhação do que ser observado naquela situação tão comprometedora.
– Bertholdt, espera! - era possível quase tocar o desespero na voz de Reiner.
– O que foi, Reiner; achei que você estivesse gostando. - Bertholdt puxou o rosto do loiro que ainda observava Jean parado ali. – É pra mim que você tem que olhar, eu que estou fazendo amor com você e não o Jean.
Os olhos de Reiner se encheram ainda mais de lágrimas e agora elas desciam pela face pálida.
– Você sabia? Sabia que ele estava ali o tempo todo olhando a gente?
– Ele está sempre de olho em nós Reiner. Você não quer que eu chame ele pra participar quer? Você não gostaria de dividir a pessoa que você gosta com outro não é mesmo… ah, já ia me esquecendo, é da Christa que você gosta.
– MAS EU AMO VOCÊ! - Reiner começou a chorar descontrolado – Eu amo você… e agora não sei mais o que fazer. Eu queria sim me casar com uma boa moça. Chegar todos os dias em casa, jantar com ela e contar como foi o meu dia. Eu queria dormir abraçado a noite, e fazer amor quando sentíssemos vontade. Eu queria que minha mãe pudesse realizar o grande sonho dela… ela sempre quis ser avó e eu jurei que daria essa felicidade pra ela. E o meu pai. - Reiner chorou ainda mais – Eu só queria conquistar o amor dele. Queria que um dia ele visse o homem forte e respeitado que eu me tornei e assim, me aceitasse como filho; no fim, eu só queria uma vida normal. - Reiner começou a soluçar – Por que eu não posso ter uma vida normal?
Aos poucos, Reiner pode sentir Bertholdt deixar seu corpo. Ainda chorando muito viu o moreno, também aos prantos, se vestir. Manteve o silêncio enquanto Bertholdt ajeitava alguns objetos que foram derrubados da mesa. Bertholdt se dirigiu até a saída da cozinha onde Jean ainda permanecia estarrecido com a cena que acabou de presenciar. Olhou para Reiner mais uma vez antes de partir e sorriu.
– Obrigada Reiner, mais uma vez, você me fez a pessoa mais feliz do mundo.
