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Minha língua parece uma lixa e tomo um pouco de chá gelado. Minha cabeça parece girar com tantos pensamentos e Peter me olha apreensivo, esperando uma resposta. Então ele percebe, antes mesmo de mim, e suspira. Ele encara o teto e remexe uma amora da calda de frutas vermelhas.

– Percebe que é ridículo você precisar perguntar tudo para as suas irmãs?

– Peter, eu...

– Não, eu não quero ouvir, Lara Jean. – Ele larga o garfo em cima do prato fazendo barulho e chamando a atenção do casal ao nosso lado. – Margot tem a vida dela e nunca precisa de autorização para nada. Ela te ligou para perguntar se podia namorar o Ravi? Se podia morar com ele? Não. Por que? Porque Margot tem uma vida!

– Você está exagerando, Peter.

– Exagerando?! – O casal olhou para nós de novo, assim como um garçom que passava. Peter estava me deixando envergonhada. – Kitty é mais independente que você.

– Você está indo longe demais...

– É mesmo? Por que, então, parece que eu estou pedindo às suas irmãs para morarem comigo? – Ele aperta a ponte do nariz e suspira. – Eu quero começar uma vida junto com você. Isso inclui suas irmãs? Sim, ocasionalmente, mas eu queria muito ter uma resposta espontânea sua, não a permissão, a benção delas para fazermos qualquer coisa.

Peter joga o guardanapo em cima da mesa e se levanta.

– Quer saber? Aproveita e pergunta isso também para elas. – Ele colocou uma caixinha de veludo preta na minha frente. – Vê qual vestido vocês vão usar e onde será a lua de mel de vocês.

- Peter, o que...

Mas é tarde demais, Peter foi embora, me deixando sozinha no restaurante.

Minha mão está tremendo e meu rosto arde de vergonha. O que foi aquilo? Meu corpo parece anestesiado. O casal da mesa ao lado me olha. A mulher sorri com um olhar de pena para mim e volta a volta a comer, me poupando do constrangimento.

Sem conseguir pensar direito, estico minha mão e pego a caixinha de veludo que ele deixou. A ponta dos meus dedos parece formigar em contato com o veludo. Meus batimentos estão acelerados, parece que meu coração não está mais no peito, mas sim na minha garganta, quase me sufocando. Eu sei o que tem na caixinha. Queria que ela estivesse vazia, que a noite não tivesse sido desse jeito, mas quando eu abro, lá está: um lindo anel de noivado com armação dourada.

Eu já pensei inúmeras vezes em me casar com Peter e no pedido que ele faria. Nem no meu pior pesadelo seria assim. O curioso é que eu nunca consegui imaginar como seria o anel de noivado. Peter soube o que eu queria antes mesmo que eu soubesse.

O anel dentro da caixinha é perfeito, digno de uma estrela do cinema dos anos 1920. A pedra central é redonda e vermelha, cercada de outras seis padras brancas, formando uma flor, bem vintage. Sophia Loren usaria um anel assim. Pensando bem, é romântico demais para ele. Ele é mais a cara de Grace Kelly. Ou a minha.

Quando dou por mim, estou chorando. Por que Peter agiu daquele jeito? Me levantei sem nem tocar na sobremesa e me dirigi ao caixa, porém Peter já havia pago o jantar, então peguei um taxi e fui para o dormitório. Ele só poderia estar lá.

O que eu falaria para Peter? Ele tinha razão? Claro que não, Peter só não entende como é a relação entre irmãs. Obviamente ele tem Owen, no entanto a relação entre meninos é diferente, não é tão especial quanto a minha relação com minhas irmãs. Pode ser que isso aconteça porque eles são apenas em dois, talvez se Peter tivesse um irmão mais velho, as coisas seriam diferentes e ele entendesse.

Ou não também, porque, sendo presente ou não, Peter Kavinsky tem pai. Ele não precisa desempenhar esse papel para Owen porque o pai está vivo, basta Owen ligar para ele ou ir até a nova casa do pai. Margot, por outro lado, precisou ser responsável e cuidar de mim e de Kitty depois que mamãe se foi.

Kitty era tão pequena que precisava de cuidados e precisava de uma imagem para se espelhar. Margot foi isso para ela. Para mim também, cuidando sempre de nós duas e do papai, sempre cheia de responsabilidades que criança nenhuma precisava ter. Porém Margot pegou essas responsabilidades para si, para que eu e Kitty pudéssemos ser crianças e nos preocuparmos apenas em brincar e com as lições de casa.

Além disso, Gogo e Kitty são o meu Norte. São para elas a quem eu recorro quando algo dá errado, então por que não pedir a opinião delas de tomar uma grande decisão? Peter foi tão mesquinho! Ele nem ao menos deixou eu me explicar.

E o anel? Como ele pôde me deixar o anel e ir embora logo em seguida?! Isso foi um pedido de casamento? Não dá para tirar muitas dúvidas quando se vai embora.

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Quando chego no dormitório, Peter não está. Não há mais nada dele, Peter pegou todas as roupas do chão, sua mala... até o carregador do celular ele levou. Segundo Kitty, quando uma pessoa leva embora o carregador do celular, ela não pretende voltar. Espero que Kitty esteja enganada.

Imediatamente pego o celular de dentro da minha bolsa e ligo para Peter, mas, como já era de esperar, cai direto na caixa postal. Tendo mais três, cinco, dez vezes. Ele não atende. Só me resta enviar uma mensagem de texto e rezar para ele me responda.

Me atende, por favor, Peter. Precisamos conversar.

Porém Peter me ignora. O que eu esperava? Que ele me respondesse depois de ignorar meus telefonemas?

Meu instinto é ligar imediatamente para Margot, explicar tudo o que aconteceu e perguntar se Peter está certo e se eu devo ir atrás dele, porém não quero dar o braço a torcer. Peter Kavinsky não está certo, eu não dependo das minhas irmãs para tomar decisões importantes. Elas têm a própria vida, eu também tenho a minha.

E agora parece que Peter tem a dele. Sem mim. O que eu fiz?

Me jogo na cama e me desmancho em lágrimas. Choro tanto que soluço compulsivamente e não ligo se alguém ouvir do corredor. Eu estraguei tudo. O restaurante, a comida... até minha maquiagem, tudo estava perfeito para um pedido de casamento. Mas eu consegui estragar tudo com minha insegurança. Como eu sou idiota!

E essa idiotice pode ter me custado um apartamento perfeito em Nova Iorque, um lindo anel de noivado e um pedido de casamento. Mas, principalmente, eu posso ter perdido Peter para sempre.