- Hyoga! Espera! – eu não poderia deixá-lo sair assim, ainda mais por causa de um problema que, na verdade, não era um problema! – Preciso te contar algo! – eu gritei, alcançando a porta do camarim e a abrindo de uma vez – Hyoga!
Olhei pelo estúdio, mas Hyoga já tinha saído para o estacionamento. Se eu corresse, talvez conseguisse alcançá-lo.
Entretanto, nem tive a oportunidade de fazê-lo.
Consegui dar, no máximo, uns três passos... e senti meu braço sendo interceptado:
- Ikky. Podemos ter uma palavrinha com você?
Vi Saga obstruindo meu caminho e Kanon segurando meu braço.
Mas eu não estava com cabeça para conversar com esses dois agora.
- Agora não.
- É importante.
- O que eu tenho para fazer agora também é! – respondi demonstrando claramente minha angústia.
Saga e Kanon se entreolharam sérios.
- Está querendo ir atrás do Hyoga? – indagou Saga.
- Sim. – nem me preocupei em inventar outra resposta.
- Não. Você vem conosco. Agora. – Kanon falou num misto se seriedade e ameaça. Os olhos dele transmitiam uma urgência que me vi obrigado a acatar.
Não respondi verbalmente. Apenas cruzei os braços, em um gesto de que me disponibilizava a ouvi-los ali.
- Não vamos conversar aqui. – disse Saga – Precisamos de privacidade.
Os dois então se encaminharam para seu escritório. Segui os dois, não sem antes lançar um triste olhar na direção em que Hyoga havia seguido. Bufei. Prometi a mim mesmo ir atrás do loiro depois dessa conversa com os gêmeos.
Assim que entramos, Kanon trancou a porta.
- Está bem. Sobre o que querem falar? – não sou tão ingênuo. Eu sabia muito bem que se tratava do quase beijo que eu e Hyoga trocamos em cena.
- O que existe entre você e Hyoga, Ikki? – Saga perguntou, indo direto ao ponto.
- Bem... por culpa de vocês... Nada. Por enquanto. – respondi, deixando claro em minhas feições que não gostava que estivessem se intrometendo em assuntos particulares.
- O que estava fazendo no camarim com ele? – quis saber Kanon.
- É sério isso? Vão invadir minha privacidade desse jeito?
- Ikki. Isso é sério? Você e Hyoga estão juntos? – falou Saga.
- Não. Ainda não.
- Mas estavam se pegando no camarim dele? – Kanon falou de forma tão debochada que senti vontade de dar um murro nele. Mas me contive.
- Se querem tanto saber, estávamos nos beijando. Está bem? Terminou o interrogatório?
- Ikki, Camus nos contou que você tentou beijar Hyoga em cena hoje.
- Ah, eu sabia que Camus estava envolvido nessa história. – bufei, zangado.
- E não havia cena de beijo no roteiro. O que pensa que está fazendo, Ikki? – Saga elevou um pouco o tom de voz.
- E nem tente nos fazer de bobos, dizendo que estava improvisando! Sabemos muito bem que não é isso! – exasperou-se Kanon.
- Se sabem, então por que estão me perguntando? – falei, cínico. Odiava quando me encurralavam assim.
- Ikki, soubemos que você e Hyoga saíram ontem à noite. Algumas pessoas viram quando vocês voltaram... – Saga continuou.
- Nossa. Não sabia que estava sendo vigiado. – fechei a expressão, demonstrando o quanto não estava gostando disso.
- Esse é o ponto, Ikki! Não entendeu ainda? Você está prestes a se tornar uma pessoa pública! A série vai estrear amanhã! Você será um rosto conhecido! E, se tudo ocorrer conforme esperamos, você será tão conhecido que os paparazzi irão te perseguir em todos os lugares! Está entendendo aonde queremos chegar com isso? – Kanon mostrou-se enervado.
- Que eu não vou ter privacidade. É isso o que querem me dizer?
- Basicamente, sim.
- Está bem. Isso eu já imaginava. Concordei com isso. Agora, o problema é que vocês parecem querer tirar até o meu direito a uma vida privada! Aí já é demais!
- Não é isso, Ikki. Óbvio que você tem direito a uma vida privada. O problema é outro. – pontuou Saga – Se você se envolver com alguém... Conseguirá manter o segredo acerca da não existência dos três irmãos?
Engoli em seco. Afinal, eu já estava disposto a ir atrás de Hyoga e revelar esse segredo para ele.
- Você já revelou a verdade para o Hyoga? – Kanon foi direto ao ponto.
- Não. Mas... não sei por que não poderia contar para ele. Hyoga faz parte do elenco...
- Ikki, qual parte de "sigilo absoluto" você não entendeu? Você não pode falar para ninguém! Olha, não é como se estivéssemos pedindo para você levar esse segredo para o túmulo! Nós planejamos revelar tudo isso no tempo certo. Mas precisamos que essa história dos 3 irmãos dê audiência. Aliás, pelo que já conseguimos levar para a mídia, isso chamou a atenção e tem grandes chances de atrair ainda mais. Até lá, precisamos que você cumpra sua parte e fique quieto sobre isso.
- Kanon tem razão, Ikki. Você só precisa aguentar por um tempo. E... não esqueça que você assinou um contrato com a gente. Lá, você concorda com esse sigilo absoluto. Nós não queremos criar problemas para você. Mas, em troca, você não pode criar problemas para a gente. – Saga sabia ser bastante ameaçador sem alterar o tom de voz – Estamos entendidos?
- Sim. – respondi de má vontade.
- Ótimo. Agora pode ir resolver seus problemas. – Kanon falou, tirando o celular do bolso do seu blazer e já dando maior atenção a outros assuntos.
Eu estava prestes a sair, quando Saga me chamou mais uma vez:
- Só um conselho, Ikki. Nós não vamos proibi-lo de ter uma vida privada; é claro que não. Mas considerando que você não pode ser uma pessoa transparente agora... tem certeza de que esse é o melhor momento para se envolver com alguém? Se está necessitado de algum contato mais íntimo, vá atrás de pessoas que possam lhe oferecer diversão por uma noite e pronto, sem compromissos. Agora... um colega de elenco? Uma pessoa com quem você trabalha e com quem terá de conviver no dia a dia? Não acha complicado? Especialmente porque você não poderá ser completamente sincero com ele agora. Será que isso só não trará complicações?
- Olha, Saga... Da minha vida, cuido eu. Tá bem?
- Claro. Tudo bem. Mas foi você quem disse que precisava muito do dinheiro que essa série pode trazer a você. Você também precisa que isso tudo dê muito certo. Então, se eu fosse você, tratava de me concentrar em fazer esse trabalho bem feito. Depois que isso aqui tudo já estiver mais estabilizado, depois que tivermos alcançado o sucesso, aí eu acho que seria o momento de você se preocupar com outras questões. Prioridades, Ikki.
Não disse nada. Apenas dei as costas para Saga e me retirei do escritório deles.
Porém, tudo o que disseram tinha ficado na minha cabeça.
Eu realmente não podia arriscar minha participação nessa série. Preciso desse dinheiro para ajudar minha vila.
Isso quer dizer que não posso contrariar os gêmeos... nem quebrar qualquer cláusula daquele contrato.
Em outras palavras... não posso contar nada para Hyoga. E talvez eles tenham razão; talvez não seja mesmo boa ideia me envolver com alguém do elenco, na posição em que me encontro hoje.
Essa atração que estou sentindo por ele deve ser coisa de momento. Não foi sempre assim?
Odeio admitir, mas Saga tem razão. Preciso estabelecer quais são minhas prioridades.
Pensando assim, desisto de ir atrás do Hyoga. Volto para casa, a fim de estudar mais os meus roteiros.
Sábado.
Dia da grande estreia.
Depois que o episódio-piloto for ao ar, haverá um luxuoso coquetel na mansão Kido.
Saga e Kanon não me deixaram qualquer brecha para faltar. Eu precisava comparecer, afinal era um dos protagonistas.
Haverá larga cobertura da mídia. Preciso me acostumar; isso faz parte do pacote.
Olho para o smoking preto que os gêmeos deixaram para mim. Dessa vez, eles não querem que eu erre na escolha do traje.
Visto-me de acordo e, ao olhar para o espelho, percebo que só existe uma opção de irmão a ser incorporado hoje.
- Rikki. – falo em voz alta – É mais o estilo dele.
Visto-me de acordo. Olho minha elegante imagem no espelho e confirmo que a caracterização está bem feita.
De repente, ouço baterem à porta e estranho. Quem poderia ser?
Ao abrir a porta, me deparo com um homem que se identifica como meu motorista para aquela noite.
Os gêmeos pensaram em tudo mesmo. Até arranjaram um carro para me levar à mansão Kido. Agradeço e, como já estava pronto, deixo minha casa e sigo o homem até seu carro lá fora.
Como eu imaginava, marcar presença nesse coquetel não era nada agradável. Os gêmeos me apresentaram para muitas pessoas, mas não me recordo do nome de nenhuma delas. Eu definitivamente não era a pessoa mais simpática que esses convidados já viram. Eu nunca fui bom com essas coisas, nem tenho vontade de ser.
Entretanto, meu jeito mais isolado não parece incomodar ninguém. Todos ali tinham visto o primeiro episódio, então acho que compreenderam que esse é meu jeito de ser mesmo.
Depois de cumprimentar um monte de gente que não me interessava e de tirar algumas tantas fotos com pessoas que são aparentemente importantes... fui enfim liberado para ficar mais à vontade na festa. Os gêmeos só me deixaram claro que ainda não podia ir embora.
Então, assim que pude, saí da mansão e me dirigi ao enorme jardim que ficava lá fora. Me disseram que eu não podia ir embora, mas não falaram nada sobre ficar na parte externa. Como o coquetel se concentrava lá dentro, do lado de fora estava vazio.
Assim que consegui ficar a sós, capaz de ouvir meus próprios pensamento, respirei fundo. Já tinha decidido que era ali que eu ficaria até o momento em que me liberassem para ir embora.
Tinha trazido uma taça de champagne comigo e aproveitei para caminhar pelo imenso e imponente jardim da mansão. Cheguei a uma parte bastante reservada, o que me agradou muito, e me sentei em um daqueles bancos de jardim, feitos de pedra. Sentei ali, satisfeito por perceber que naquele lugar o barulho proveniente da festa era um ruído distante...
- Posso acompanhar você?
Olho surpreso para o lado.
Não esperava vê-lo ali.
- Hyoga.
O loiro não esperou uma permissão da minha parte. Sentou-se a meu lado, sem fazer qualquer tipo de cerimônia.
- Noite bonita. – ele disse, apreciando a noite estrelada.
Não respondi. Não estava preparado para isso.
Havia tanta gente lá dentro e tantas pessoas a serem cumprimentadas, que não tinha visto ninguém do elenco. E tinha achado isso ótimo. A verdade é que, depois daquela conversa com os gêmeos, eu tinha me decidido por me afastar, dentro do possível, de Hyoga. Não ter encontrado com ele lá dentro tinha sido uma coisa boa.
Até agora.
Bebi um gole da minha champagne, na tentativa de ignorá-lo. Rikki não tem muita intimidade com Hyoga, então posso agir assim sem gerar desconfianças.
- Você viu o episódio que foi ao ar hoje? – ele perguntou, claramente tentando engatar uma conversa, apesar de eu não me mostrar aberto a isso.
- Não, não vi. – limitei-me em responder.
- Nem eu. Ainda não me acostumei com a ideia de aparecer em um programa na televisão. – ele riu de leve.
Eu não olhava para ele. Evitava. Terminei de beber a champagne em um gole e me levantei, dando a entender que voltaria lá para dentro.
- Seus irmãos falaram com você. Não falaram?
Eu parei onde estava. Olho para trás e, pela primeira vez, vejo Hyoga apropriadamente.
Ele vestia um smoking azul-marinho. Estava... realmente incrível.
- Eu sei que vocês conversam. O Ikki já me contou isso. – Hyoga prosseguiu, parecendo muito chateado – Na verdade, você já deve saber disso, porque ele deve ter te contado. Vocês contam tudo um para o outro, não é?
As palavras de Saga ficavam ecoando na minha cabeça... E eu sabia que não deveria dar corda para essa conversa. Se fizer isso, vou acabar me traindo e falando o que não devo...
- Certo. Seu silêncio diz muito. Seus irmãos te contaram tudo, é óbvio... E agora você deve achar que eu sou um idiota. – Hyoga falou, deixando de me encarar e fitando o horizonte.
O silêncio dele depois disso e sua postura corporal indicavam que ele não iria mais forçar uma conversa entre nós.
Eu poderia então sair dali e cumprir com o que prometi a mim mesmo que faria.
Afastar-me dele.
Cheguei a dar um passo.
Mas eu não conseguiria ir além disso.
- Eu não acho você um idiota.
- Ah, não? – ele riu sarcástico – Pois deveria.
- Por quê? – perguntei, voltando a me sentar no banco ao lado dele.
- Seus irmãos não te contaram o que aconteceu?
Ponderei que o melhor agora era responder afirmativamente:
- Sim. Eles me contaram.
Hyoga suspirou pesadamente.
- E... o que eles te disseram?
Olhei nos olhos de Hyoga e pude perceber alguma aflição ali.
- Você quer saber de quem especificamente?
Hyoga ficou ainda mais pálido diante da minha pergunta. Ele hesitou um pouco, mas terminou dizendo:
- Quero saber do... Ikki, meu parceiro de gravação. Ele... sabe do que aconteceu ontem no meu camarim? Entre mim... e o Ikky?
- Sim, ele sabe.
- Claro que ele sabe. Não sei por que fiquei pensando que talvez o Ikky não fosse contar. – falou Hyoga, mais para si mesmo. Então respirou fundo antes de prosseguir – Como ele ficou quando seu irmão contou para ele do ocorrido?
- Ele ficou... surpreso.
De fato, fiquei surpreso. Não tinha sido planejado invadir o camarim dele daquele jeito... nem beijá-lo daquele jeito...
- Surpreso? – Hyoga pareceu confuso – Ele não ficou chateado... ou zangado?
- Não. Por que ficaria?
- Porque... – Hyoga sorriu triste – Por nada. Eu sou um idiota mesmo. Achei que ele fosse se importar...
Eu não poderia deixar Hyoga preocupado assim. Conversar com ele não significava nada de mais. Dava perfeitamente para manter o foco nas minhas prioridades e conversar civilizadamente com ele. Até porque ainda vou precisar encenar com ele. Nada melhor que tentar resolver essa situação da melhor maneira possível.
- Não é que ele não se importou. É só que... – eu precisava dosar minhas palavras. – Hyoga, é o seguinte: meus irmãos se sentem atraídos por você. De verdade. Mas... isso não quer dizer que eles estejam pensando em compromisso ou algo assim.
- Mas quem disse que eu estou atrás de compromisso?! – respondeu Hyoga, algo ofendido.
- Eu não estou julgando você, Hyoga. Estou explicando como são os meus irmãos, justamente para você entender que o problema está neles; não em você.
- Que problema é esse?
- Eles... são imaturos para relacionamentos. Quando se sentem atraídos por alguém, eles costumam ir atrás da pessoa para viver essa paixão. Mas acaba sempre sendo apenas isso; uma paixão que queima... e depois se apaga.
Hyoga ficou em silêncio, absorvendo o que eu disse. Parecia refletir sobre muitas coisas.
E eu não estava mentindo. Esse comportamento já fez parte de mim. Durante muito tempo, vivi de paixões passageiras e nunca pensei que um dia fosse me cansar dessas aventuras.
Mas a vida tem dessas coisas... e as coisas mudam...
- Você concorda com essa visão... de viver aventuras... paixões efêmeras? – Hyoga perguntou subitamente.
- Não. Quero dizer, já pensei assim também, é claro. Mas... acho que o tempo faz a gente enxergar o mundo por novas perspectivas. Se antes, o fato de nunca me ver comprometido com alguém representava minha liberdade... Hoje eu vejo que muitas relações vazias acabam sendo apenas isso: um grande número de relações vazias, que não agregam qualquer coisa... e aí... acabam sendo sinônimo de perda de tempo...
- Você realmente parece ser o mais racional dos três irmãos.
- Não sou tão racional assim. – sorri melancólico – Mas a vida ensina muita coisa pra gente...
Notei que Hyoga me ouvia com atenção. Então ele perguntou:
- E você já encontrou? Uma relação que não pareça perda de tempo?
- Não, eu não encontrei. – abro um sorriso maior, achando graça da pergunta dele.
O loiro continuou olhando tão intensamente para mim, que pigarreei e olhei para o lado.
- E também não estou atrás de algo assim.
- Por que não? – o semblante do loiro ficou mais sério.
- Porque... – rio um pouco agora, principalmente de nervosismo. Senti que Hyoga estava me encurralando – Porque... eu não preciso disso.
- Ah, você não precisa? – o jornalista pareceu se surpreender – Então você é uma espécie de ser superior que não precisa de amor como o resto dos mortais?
- Quem está falando de amor aqui? – respondi, me sentindo desconfortável.
- Achei que esse fosse o assunto.
- Não; estávamos falando de relações...
- Relações que tenham algum significado.
- Sim. Mas isso não tem a ver com amor. – acho que minha voz já demonstrava que eu não estava tão seguro de mim.
- Você me surpreende. – o loiro sorria, enquanto mexia de leve nos cabelos dourados – Você é um professor de literatura... E pensa assim?
- Assim como? Pode ser mais específico? – senti meu orgulho ser ferido.
- Rikki, o que é uma relação com significado para você? – Hyoga perguntou e os olhos dele pareciam ter um brilho diferente.
- Ora... é um relacionamento que traga algo a mais... que me faça crescer, que possa agregar algo à minha vida.
- Certo... e, se isso acontecer... você não chamaria isso de amor?
- Não. – fui categórico – Eu chamaria isso de um bom relacionamento.
Hyoga franziu o cenho, olhando para mim. Parecia querer ver além do que eu apresentava a ele.
E ele era bom nisso...
- Está bem, Rikki. Vou perguntar de outra forma então. O que é amor para você?
- O quê? Olha, loirinho... eu acho que não te dei liberdade para me perguntar essas coisas.
- Ei, tudo bem. Se você não sabe me responder, não tem problema.
- Quem disse que eu não sei responder? A questão é que eu não quero responder; é diferente.
Hyoga abriu um grande sorriso e voltou a olhar para o céu:
- É engraçado... Sempre que conversamos, você fica muito na defensiva.
- Eu não fico na defensiva. Você é que pergunta o que não deve.
Hyoga ri, divertido. Acabo sorrindo também.
- Eu já sei que você não gosta muito de mim... Ikki me contou que, dos três, você é o que teve a pior impressão de mim...
- Também não é tão ruim assim.
Ele me olhou com uma expressão de que não acreditava em mim... mas de forma tão graciosa, que...
- Sabe, Rikki... Eu também gosto muito de ler. Sempre gostei. E, para mim, os livros que li já me ensinaram muito sobre o amor. Aprendi, por exemplo, que todos estão em busca dele, de alguma forma, mesmo que não percebam. Afinal, existem diversos tipos de amor, não apenas o amor romântico. Existe amor fraternal... amor filial... Enfim, são muitas formas de se amar. No fundo, é o que todos queremos. Amar. Ser amados. – o loiro e disse e ficou com uma expressão pensativa ao final.
- E você... ama alguém? – perguntei antes que pudesse me conter.
- Claro. Amo minha mãe... meu tio... o Shun...
- O Shun? – não consigo esconder meu espanto.
- Calma... pode ficar tranquilo – Hyoga fala com tanta naturalidade, que até me tranquiliza – O Shun está livre e desimpedido. Eu o amo sim, mas como amigo. Na verdade, Shun é praticamente o irmão que nunca tive.
- Ah... certo.
Hyoga analisava minhas feições, curioso.
- O que foi? – indaguei, incomodado. Esse loiro conseguia mexer demais comigo.
- Nada. É só que... Shun vai gostar de saber que teve essa reação. – e sorriu largamente, como se tivesse a imagem do amigo diante de si.
Mas não era no Shun que eu estava interessado no momento.
- E em relação a esse amor romântico... Você já experimentou?...
- Não. – suspirou suavemente – Não é porque queremos que necessariamente vá acontecer, não é mesmo?
- E você quer que aconteça com você?
- Como eu disse... todo mundo quer, embora não saiba.
- Mas eu estou falando do amor romântico, Hyoga. Você já tem amor na sua vida. Estou perguntando se deseja esse tipo de amor, especificamente.
- É claro que sim. – ele respondeu sem pestanejar – Quem não gostaria de viver um grande amor, não é mesmo?
Silencio, pensativo.
- Ah, sim. Eu me esqueci. "Você não precisa disso". – ele fala brincando, tentando imitar meu jeito de falar.
- Não é bem que eu não precise... É mais... não saber se vale a pena.
- Como pode não valer a pena, Rikki?
- Esse amor que vemos nos livros... esse sentimento, quando vivenciado plenamente... O que ele faz? Deixa a pessoa sem controle... perdida... Ela se perde dela mesma... Eu não gosto disso. – finalizo, um pouco amargo.
- Bom... talvez você tenha um pouco de razão no que diz. Mas eu acho que tudo depende de como você escolher enxergar. Eu concordo que, quando amamos, perdemos um pouco do controle. Porém, quem disse que é bom termos tanto controle sobre nós mesmos? Aliás, as pessoas têm tanto medo de sentir, porque acham que estão com pleno controle da situação quando estão sendo guiadas pela razão. Ledo engano. Nós nunca temos controle total sobre nada. Existem muitas variáveis na vida... E nós, definitivamente, não temos controle sobre todas elas. Não me entenda mal, não estou dizendo que devamos viver num completo caos! Planejar, tentar nos organizar ao máximo para lidar com possíveis eventualidades... isso é bom. Mas acredito que não deveríamos perder a humildade em reconhecer que, na vida, há muito mais mistérios que certezas. E que reconhecer que não sabemos de tudo não nos torna fracos. Apenas... nos faz humanos.
Engoli em seco. Cada uma daquelas palavras mexeu muito profundamente comigo.
- E eu... eu gostaria de experimentar esse sentimento em sua plenitude. Sabe? Amar de uma forma que novos horizontes se abririam para mim. Eu realmente acredito que, quando amamos para valer... a gente não se perde de quem é, como você disse. Eu penso que, na verdade, descobrimos novas partes, dentro de nós mesmo, que ainda não conhecíamos.
- Você é bem romântico.
- Nem tanto... Eu quero viver um grande amor, sim. Mas não faço questão daquele amor de contos de fadas... acho isso muito irreal. Também não acho que o amor seja feito de grandes gestos e grandes declarações o tempo todo. Sempre achei que o amor se esconde em pequenos gestos... dando verdadeiro brilho a eles. Eu quero a tranquilidade de um amor sereno... arrebatador, quando necessário, porque todo sentimento tem seus momentos de explosão, e isso é importante. Mas, de maneira geral... eu quero um amor que se sinta quando, ao final do dia... a gente se encontre em casa para jantar... pode ser uma pizza, ou o resto da comida chinesa que ficou do almoço na geladeira... e, mesmo em meio à correria normal do dia a dia... que a gente se olhe e encontre nos olhos do outro cumplicidade... carinho... a sensação de amar e de se saber amado.
Eu não soube o que responder. Fiquei apenas olhando para aquele loiro, perplexo. Como ele conseguia dizer tudo isso de uma forma tão... tão... certeira?
- Mas... como eu disse, querer não é poder, não é? – ele tentou rir.
- Você é mesmo muito bom com as palavras.
- É, foi o que o Ikki disse... – e o semblante de Hyoga tornou-se melancólico.
- Você disse que gosta muito de ler. Está lendo algum livro agora? – achei melhor mudar de assunto. E não queria terminar aquela conversa, que ia se tornando cada vez mais agradável.
- Estou sim. "O Conde de Monte Cristo".
- De Alexandre Dumas. – eu complementei – Adoro esse livro.
- Ele é ótimo! Eu já havia lido "Os três mosqueteiros" e "O homem da máscara de ferro", que também são obras-primas dele... Mas "O Conde de Monte Cristo" está definitivamente se tornando meu livro preferido dele!
Sorri ao ver a forma como esse jornalista demonstrava tanta paixão ao falar de um livro.
- Eu fico impressionado... não só com a narrativa, mas com o trabalho psicológico incrível do autor ao construir esses personagens! É uma história que, à primeira vista, parece surreal! Como pode ser possível que o personagem, Edmond Dantes, retorne ao convívio de pessoas que eram tão próximas dele, e não ser reconhecido? Tudo bem, passaram-se mais de 10 anos e ele se veste de uma forma inteiramente diferente... mas... mesmo assim... Ele é a mesma pessoa! Como os outros poderiam não reconhecê-lo? E esse é o grande ponto em questão! Por mais absurda que essa situação possa parecer, lendo o livro somos tão completamente absorvidos pela narrativa, que não questionamos isso. Simplesmente... aceitamos como uma verdade.
- Você... acha quer seria assim tão impossível?
- O quê? Não reconhecer uma pessoa?
- Não reconhecer uma pessoa que não deseja ser reconhecida. Edmond Dantes, no livro, faz questão de se tornar irreconhecível para essas pessoas. Isso era crucial para ele concluir sua vingança...
- É... não sei... Talvez seja possível. Mas o que pode levar uma pessoa a fazer isso? Quero dizer, no livro, Edmond teve seus motivos... ele desejava ardentemente a vingança contra todos que lhe fizeram mal... Para tanto, esteve disposto a encarnar um personagem diante de toda uma sociedade... praticamente anulando quem ele realmente era... E para quê? Para cumprir sua vingança? Será que esse é um motivo forte o bastante? Não me parece...
- Bom... ele teve seus motivos. E você ainda não terminou de ler o livro, não é? Então não vou lhe dar spoilers.
- Isso, não me conte o final, por favor! Estou ansioso para terminar essa leitura... E espero que ele perceba no fim que, ao enganar os outros, ele está enganando a si mesmo. Por mais que ele tenha motivos... Ele precisa tomar cuidado. A linha que separa o certo do errado é muito tênue...
Sinto um aperto no peito ao ouvir essas palavras.
Será que...
Será que eu deveria...?
Será que eu poderia...?
Eu estava prestes a dizer algo... quando fomos interrompidos.
- Hyoga? Então é aqui que você estava todo esse tempo?
- Shun! – o loiro olha para o amigo, que tem uma expressão confusa no rosto – Eu... vim para fora. Estava me sentindo um pouco sufocado lá dentro.
- É. – Shun olha para mim – Está mesmo cheio lá dentro. Bem, me desculpe, eu não queria atrapalhar vocês.
- Não, Shun! Você não está nos atrapalhando. – Hyoga falou logo, parecendo preocupado.
- Não é o que parece. Já é a segunda vez que encontro vocês conversando assim, isolados de todo mundo. – Shun falou com pressa, um pouco mais agitado que o normal.
- Shun, eu já te falei... Naquela vez, a gente só estava conversando. – Hyoga levantou-se e se aproximou do amigo, falando em tom mais baixo.
- Eu sei, Hyoga. Está tudo bem. Olha só, eu vou voltar lá para a festa, está bem? Saga e Kanon pediram que a gente ficasse circulando pelo ambiente... para promover a série, essas coisas. Eu vou para lá. – Shun falava já se afastando dali.
- Espera, Shun! Eu vou com você! – o loiro deu um passo à frente, mas parou subitamente e voltou aquele olhar azul-celeste para mim – Rikki, me desculpe. Eu preciso...
- Claro. Vá lá. – eu digo com um sorriso gentil.
O loiro me responde com um sorriso bonito e então parte atrás do amigo.
Suspiro profundamente e me deixo estar ali, sentado e com o olhar perdido nas estrelas e na imensidão daquele céu...
Continua...
