Iehisa sentiu o cérebro girar dentro do crânio. Moveu o rosto no amontoado de palha sobre a pedra, constatando que estava no chão. Levantou devagar e viu Olminu terminando de limpar, com cuidado, a pequena criatura que se debatia sobre as várias camadas de tecido. Viu Sharm deitado no mesmo lugar de antes, mas parecia inconsciente. O elfo tinha um semblante de quase morte. Iehisa se aproximou tentando sentir a respiração do rapaz; era apenas um fio, mas estava ali. Sorriu sentindo a consciência pesar menos.

– Eu acabei de fazer o parto. - Olminu se manifestou ao notar a preocupação do velho guerreiro. – Sou nova com esse tipo de coisa e não sei bem dizer qual é a situação dele.

– Elfos se curam muito rápido, ele ficará bem. E o bebe?

Olminu abriu as pequenas mantas deixando que Iehisa visse a criança. Era muito pequena e parecia mais frágil do que Iehisa conseguia se lembrar. Tinha a aparência de um humano comum, a não ser as enormes orelhas, que davam um aspecto fantasioso ao pequeno. Ao contrário de todos os outros elfos que Iehisa ouviu falar, o bebe possuía cabelos extremamente negros e brilhantes, e, em vez de verdes, um par de olhos cor de mel. A criança parou de se debater e fitou curiosa o rosto de Iehisa. O guerreiro quase caiu novamente quando o bebe lhe dirigiu seu primeiro sorriso.

– Olha, acho que ele já percebeu que você é da família.

– Claro que não, sua tonta. - Iehisa se virou de costas, disfarçando o pequeno resquício de felicidade que sentiu ao ser reconhecido pela criança. – Ele parece bastante saudável, acha que vai sobreviver?

– Que diferença faz pra você se ele vai viver ou não. - Sharm acabou acordando. Mesmo fraco, tentou se mover, sentindo a raiva ganhar força – Foi a única verdade que você me disse até agora, não é; já tinha mesmo tudo planejado. - Sharm começou a chorar – O Rei Negro vai matá-lo.

Iehisa, pegou o bebe que estava com Olminu. A maga até pensou em impedir que o homem se aproximasse da criança, mas estava em desvantagem. O velho Shimazu caminhou até Sharm e entregou o filho a ele. Ficou observando a alegria do primeiro contato entre pai e filho.

– Diga alguma coisa. - Sharm lançou um olhar preocupado a Iehisa.

– Não tem como negar, é a cara do Toyohisa; mas tem as suas orelhas. - Sharm ficou surpreso. Não esperava ouvir algo assim de Iehisa.

– Estou com medo, eu não sei o que ele vai fazer quando souber. - Sharm parecia a beira de um ataque de lágrimas.

– Ele vai dizer que é o homem mais sortudo do mundo, e que é pai da criatura mais bonita que já existiu. - dessa vez, Iehisa sorriu passando bem mais confiança, arrancando algumas lágrimas de Olminu também.

De repente, tudo ficou estranhamente mórbido e escuro. Era possível sentir o chão tremer de leve, e um distante som de cavalaria se aproximar do castelo em ruínas.

Uma pequena parte dos soldados dos Ends estava chegando. Iehisa sabia que estava sendo seguido todo esse tempo, e que o Rei Negro queria garantias de que ele cumpriria sua palavra, até o fim.

Iehisa foi até Sharm, que segurou o filho com força nos braços.

– Me entregue a criança. - Sharm apertou ainda mais o bebe contra o peito. – SHARM, ME DÁ LOGO O MEU NETO!

As palavras de Iehisa Shimazu junto as lágrimas que desciam de seus olhos, deixaram Sharm sem reação. Foi a primeira vez que o homem tratou o bebe como ele realmente era; seu neto. Também, foi a primeira vez que se lembrou de Toyohisa desde que todo aquele inferno começou. O velho tinha agora os mesmos olhos do filho, negros e profundos e, finalmente, lá estava ele… aquele brilho, carregado de bondade.

Sharm mal se mexeu quando o guerreiro se aproximou e envolveu a criança, a tomando de seus braços. Sharm chegou a estender a mão em direção ao bebe que era levado pelo guerreiro. Vendo a mão do elfo ainda no ar, Iehisa parou na porta com aquele gesto. Ficou olhando aflito para Sharm, que acabou recolhendo a mão, derrotado.

– Só me prometa…

– Eu juro… pela vida do meu filho; ele vai viver. Sharm, você é um bom rapaz e eu fico feliz que o Toyohisa tenha se apaixonado por você. - foram as últimas palavras ditas por Iehisa Shimazu antes de partir, levando um pedaço de Sharm.

Sharm ficou entorpecido pelo desespero. Queria gritar, correr atrás daquele homem e dizer que ficaria com seu filho até o último momento de sua vida. Mas aquilo seria cruel. Por mais que doesse ter o filho levado por um homem que o enganou e o desprezou, talvez, aquela fosse a única chance da criança sobreviver. Se insistisse em ficar com ela e tentasse fugir, provavelmente morreriam os dois de fome e de doença, se não fossem caçados e eliminados. Se insistisse em ficar até chegar ajuda, seriam encontrados e mortos sem piedade. Sharm sabia que, por mais que não parecesse, Iehisa amava Toyohisa mais do que tudo; naquele mundo e no outro. Essa era outra coisa que dava esperanças ao elfo, que não tinha muito mais em que se agarrar.

– Venha Sharm, temos que esconder você!

A maga outobrista ajudou Sharm caminhar até chegarem em um antigo porão onde haviam vários corpos empilhados, inclusive alguns elfos. Sharm não reconhecia ninguém dali, então, imaginou que fossem de outras aldeias. Seu medo agora, era acabar se juntando a eles, definitivamente.

– Desculpe por isso Sharm, mas vou ter que te machucar um pouco mais. - Olminu sabia que era impossível doer mais que ver seu filho partir. Rasgou com magia, um pequeno corte próximo ao pescoço de Sharm, e ajudou o elfo a espalhar o sangue pelo corpo – Agora você vai dormir um pouco, enquanto eu tento buscar alguma ajuda. Antes de partir, só quero pedir que me perdoe, Sharm, mas talvez, não dê tempo.

Com um leve sopro de magia, Sharm cerrou os olhos imediatamente, sentindo tudo ao seu redor se apagar.