We've seen our share of ups and downs

Oh how quickly life can turn around

In an instant

It feels so good to reunite

Within yourself and within your mind

Let's find peace there

(My Sacrifice - Creed)

.oOo.

Era uma estratégia comum no Quartel General que Harry ficasse responsável pela distração enquanto os outros aurores trabalhavam sem ser percebidos. Os criminosos costumavam esperar qualquer ato heroico de Harry Potter e se esquecer dos outros agentes. Eles também costumavam se esquecer das entradas de serviço dos estabelecimentos, que fora por onde Ron entrara.

Em casos como aquele, a prioridade era manter o sequestrador calmo e o risco mínimo. Assim que Harry entrou no Três Vassouras pela porta principal, Ron procurou a entrada de serviços e lançou sobre si mesmo um feitiço de desilusão. Não era nada tão efetivo quanto a Capa da Invisibilidade de Harry, mas fazia parte do treinamento dos aurores aperfeiçoar o feitiço e Ron fora o melhor da turma. Enquanto ele removia os alunos do local seguramente, Harry ficara responsável por desviar o foco de Crabbe até que os aurores chegassem.

Ambos conheciam muito bem os procedimentos do QG e sabiam que a ajuda demoraria. O quadro de funcionários nos finais de semana e feriados era reduzido e a burocracia sempre atrapalhava, naqueles momentos. Mas Harry estava certo de que conseguiria distrair Crabbe até que os aurores chegassem. Pelo menos até Calloway Devens se manifestar.

"As consequências do que vocês fizeram poderiam ter sido catastróficas," Harry tentava demonstrar a seriedade da situação para Calloway Devens e Brick Gibbon, que tinham fechado a cara assim que perceberam que Harry não se aproximara para parabenizá-los pela bravura e ousadia.

"Mas não foram," Devens teimou. "Se não fosse por mim, você não teria..."

"Se não fosse por você, a ajuda teria chegado de pessoas treinadas e preparadas para correr riscos. Você poderia ter se machucado seriamente. Ou pior..."

"Mas eu já disse que Gibbon estava a postos. Ele lançou um escudo bem na hora..."

"O melhor escudo de Gibbon não poderia ter impedido uma Maldição da Morte," Harry cortou-o. "Se algo tivesse acontecido com você, eu seria responsabilizado, bem como a escola. Não importa que a iniciativa tenha partido de você," Harry emendou, quando o garoto fez menção de argumentar. "Você é menor de idade e está sob a guarda da escola. Além do mais, você disse que gostaria de ser um auror, um dia."

"Sim, senhor." O garoto tornou a estufar o peito.

"Sabe quais são as principais qualidades de um auror? Disciplina e obediência. Você tem que saber seguir ordens, antes de ser destemido, porque existe uma linha muito tênue entre coragem e estupidez."

Aquilo finalmente fez com que os ombros de Devens caíssem.

"Sinto muito, professor."

Harry olhou para Gibbon, que se mantivera calado durante todo o sermão, o olhar voltado para o local em que Hannah examinava Scorpius, assistida de perto pelos pais do garoto. Harry olhou para a varinha que Gibbon mantinha segura na mão.

"Aliás, Gibbon, como é que você recuperou sua varinha sem que ninguém percebesse?"

"Eu nunca a entreguei," o garoto encolheu os ombros. "Fingi que colocava no chão, quando na verdade apenas enfiei-a dentro da manga. Devens foi o único que notou."

"O que você fez também foi muito perigoso, Gibbon. Além de se arriscarem, vocês também arriscaram a vida de Scorpius!"

Os dois garotos permaneceram cabisbaixos até que Harry pôs as mãos nos ombros de ambos.

"Apesar de tudo isso, agradeço pelo que vocês fizeram." Eles se entreolharam antes de encararem Harry nos olhos. "Gibbon, seu escudo foi perfeito. Não quero nem imaginar o que teria acontecido, caso tivesse falhado. Devens, você se arriscou desnecessariamente, provocando Crabbe daquele jeito. Mas funcionou e Scorpius está vivo. Tenho certeza que você será um bom auror, se realmente se empenhar."

"Obrigado, senhor," Devens falou, mais animado, enquanto Gibbon se limitava a assentir.

"Agora sigam o Prof. Ryan para a escola. A Sra. Longbottom deverá examiná-los lá."

"Mas eu já disse que estou bem..." Devens reclamou.

"Tenho certeza que sim," disse o professor de Vôo enquanto guiava os dois alunos para fora do pub. "Mas a Sra. Longbottom pediu para examiná-los, de qualquer forma... Assim como às Srtas. Devens e Matlock, que já devem estar esperando na enfermaria. Além do mais, seus pais devem estar a caminho. McGonagall disse que entraria em contato com eles..."

"Bem, acho que terminamos por aqui." Harry voltou-se para Proudfoot, que havia ficado responsável pelo departamento na ausência de Gawain Robards. Ele estendeu a mão para que Harry apertasse. "Bem, não que tenhamos feito muita coisa, já que você e Weasley cuidaram de tudo. Se todos os chamados que recebêssemos fossem assim, eu não me aposentaria tão cedo," ele piscou um olho.

"Fico feliz por ter ajudado." Harry acenou para os colegas que levavam Crabbe, ainda imobilizado. Felizmente, Amabel Webb também tirara o dia de folga, por isso Harry se sentira mais à vontade diante dos colegas de departamento. "Eu o acompanho."

Harry seguiu-o para o lado de fora, estreitando os olhos diante da claridade.

"Espero que Leonie não esteja dando muito trabalho," Proudfoot falou. Felizmente, Leonie Proudfoof havia optado por passar o feriado junto com a família, por isso escapara do incidente.

"Claro que não. Ela é uma ótima aluna. Muito esforçada e educada. Será uma bruxa talentosa."

"Ela fala muito sobre você," o auror assentiu. "E escreve, também. Aliás, todo mundo adora sua aula, pelo que ela diz. Ela mencionou um abaixo-assinado ou algo do tipo, para que você continuasse em Hogwarts. Tentei dizer a ela que é perda de tempo... Quero dizer, é óbvio que você nasceu para a ação, Harry. Se hoje não é uma prova disso, não sei o que mais poderia ser."

Harry encolheu os ombros, mas manteve-se calado, ao que Proudfoot suspirou.

"Bem, eu realmente espero vê-lo de volta à ativa em breve, Harry. Estamos sentindo sua falta no QG. E não estou me referindo apenas à auror Webb."

"Também sinto falta de vocês," Harry admitiu com um sorriso que não atingiu seus olhos.

Prodfoot respirou fundo e deu um passo para trás, curvando-se numa mesura.

"Até mais, Auror Potter. Diga ao Weasley que mandei lembranças."

"Direi," Harry garantiu, devolvendo o cumprimento. Ron e Hermione haviam voltado para casa assim que os aurores chegaram, preocupados em tranquilizar os filhos.

Harry virou-se para a entrada do pub ao perceber um movimento e assistiu enquanto os três Malfoy saíam. Scorpius estava adormecido no colo da mãe, provavelmente sedado. Astoria insistia para Hannah que não, não precisava de ajuda para carregá-lo, era perfeitamente capaz de levar o filho até Hogwarts. Draco seguia ao seu lado, com um braço ao redor dos ombros da ex-esposa e os olhos fixos na expressão tranquila do filho.

Harry manteve distância e já estava prestes a voltar para dentro do pub quando Malfoy olhou ao redor, até encontrá-lo. Ele fez um gesto curto de cabeça, que Harry retribuiu, sentindo um peso ser tirado das suas costas.

"Eles são mais fortes do que parecem, não?" Neville havia se juntado a Harry, as mãos enfiadas nos bolsos enquanto acompanhava com os olhos o pequeno grupo se distanciar. "Se recusaram a ser carregados ou sedados. Proudfoot sugeriu que eles fossem para St. Mungo's, mas Malfoy insistiu que os três ficassem em Hogwarts. Na verdade, ele chegou a mencionar que não poderiam estar em melhores mãos!"

"Ele e Hannah parecem se dar bem, não?" Harry mais comentou que perguntou.

"Parece que sim." Neville encolheu os ombros. "Mas não acredito que Hannah tenha se dado conta disso, pelo menos até hoje. Quero dizer, ele não é muito de demonstrar o que sente ou o que acha das pessoas, se você ainda não reparou."

Harry sorriu em resposta.

"Mas você é," Neville falou e Harry o encarou, confuso.

"O quê?"

Neville suspirou e meneou a cabeça.

"Nada. Vamos?"

Harry seguiu com o amigo para o castelo, ignorando a dor no quadril. E a fome, que começava a se manifestar agora que passara o perigo.

.oOo.

Harry foi recebido no castelo por Teddy, que o abraçou com força e o bombardeou com perguntas logo em seguida. Ciente do quanto Teddy temia pelo bem-estar do padrinho, Harry passou o restante da tarde com o garoto, que o acompanhou até a cozinha para fazer um lanche. Também falou com Ron e Hermione via Flu, assegurando-os de que tudo estava bem.

Assim que ficou sabendo da chegada dos pais dos alunos que presenciaram o atentado, Harry pediu que Teddy fosse se preparar para o jantar e rumou para a enfermaria, onde as famílias entravam em turnos, para ver os filhos e se certificar de que estavam bem. Harry sabia que Gibbon não tinha família e fez questão de estar ao seu lado naquele momento. Infelizmente, aquilo também significava ter que lidar com as atenções dos visitantes. Principalmente da mãe de Sarah Matlock, que Harry logo descobriu atender por Srta. Friar.

Gibbon se mostrara relutante em aceitar a companhia de Harry, dizendo que sequer havia se machucado, mas acabou se divertindo à custa do embaraço do professor e de Sarah Matlock. A garota parecia mortificada diante das investidas da mãe, que Harry tentava desencorajar sem ser mal-educado.

O Sr. Devens passou um sermão no filho depois que Franny o pôs a par dos acontecimentos. Em seguida, ele e a esposa se desdobraram em agradecimentos a Harry, que logo esclareceu que fora Gibbon quem salvara a vida do filho deles. Então foi a vez de Harry de se divertir diante do embaraço do aluno, ao receber os agradecimentos dos possíveis futuros sogros.

Harry também aproveitou para agradecer a ajuda de Verena Edinger por ter guiado os demais alunos para a segurança do castelo, ou certamente a enfermaria estaria ainda mais lotada. A garota pareceu envergonhada, mas recebeu os cumprimentos da avó com agradecida satisfação.

Por fim, os pais e responsáveis foram despachados por Hannah e os alunos dispensados para seus respectivos dormitórios. Só então, Harry pôde perguntar livremente à Enfermeira Chefe sobre os Malfoy, mantendo a voz baixa.

"Achei melhor separá-los, para dar maior privacidade a eles," Hannah explicou, apontando para uma cortina que separava uma das alas. "Não há mais nada que eu possa fazer por Scorpius e Narcisa agora. Fisicamente, eles estão bem. Vou mantê-los aqui até amanhã, pois seria desumano ter que separá-los tão cedo. Mas já os encaminhei para um tratamento com uma bruxoterapeuta muito competente."

"E quanto a Draco?" Harry perguntou, tendo notado como Hannah o deixara de fora.

A enfermeira suspirou.

"Receio que terei que mantê-lo aqui durante a próxima semana. Mas estou adiando o momento de dar a notícia. Acabei de conseguir o consentimento dele para começar a ministrar algumas poções antidepressivas e estou com medo de abusar da sorte." Ela esfregou os olhos, cansada.

"Ele concordou em se tratar?" Harry perguntou, admirado.

"Oh, acho que falei demais," Hannah pareceu arrependida. "Por favor, não comente com ninguém..."

"Não vou dizer, não se preocupe, Hannah."

"Obrigada." Ela respirou aliviada, então o encarou com desconfiança. "Você já sabia que ele sofre de depressão?"

"Molly e George tiveram depressão após a morte de Fred," Harry explicou. "Acho que aprendi a reconhecer os sinais."

Não apenas ele, como todos os Weasley haviam aprendido sobre a doença da pior forma possível, nos três anos que se seguiram à perda de Fred. Molly chorou durante meses sem que ninguém suspeitasse. Foi apenas quando George tentou se matar que ambos foram diagnosticados. Desde então, Hermione havia recomendado alguns livros para que todos lessem, além de voluntariar informações sempre que achava pertinente, como era do seu feitio.

"Ah, claro... Agora me lembro de Nev ter comentado algo a respeito," disse Hannah. "Bem, de qualquer forma, acho melhor mantê-lo aqui por algum tempo, por segurança. Ele precisa descansar e se alimentar propriamente. Além disso, esses tratamentos demoram a fazer efeito."

"Tem razão," Harry concordou. "Além do mais, as aulas só começam na outra semana. Acredito que ele não vá se opor," falou, apesar de não ter tanta certeza quanto tentava passar.

"Espero que não..." Ela tentou disfarçar um bocejo.

"Se precisar de ajuda, sabe que pode contar comigo, certo?"

"Certo." Hanna sorriu. "Obrigada, Harry. Ah! Espere! Eu ainda não examinei você!"

Apesar dos protestos de Harry, Hannah fez questão de receitar uma Poção para Dormir sem Sonhar e outra para aliviar a dor em seu quadril, onde a pele começava a ficar escura e dolorida. Só então, ela o liberou. Lançando um último olhar para a cortina fechada, do outro lado da enfermaria, Harry saiu.

.oOo.

No domingo, após o jantar, Harry estava pensando seriamente em vestir o pijama e ficar à vontade quando alguém bateu suavemente à sua porta.

"Oh!" Harry exclamou ao abri-la e encontrar Astoria e Scorpius.

"Sr. Potter," Astoria cumprimentou, enquanto Scorpius sorria, segurando a mão da mãe comportadamente. "Espero não estarmos atrapalhando..."

"De maneira alguma! Gostariam de entrar?"

"Não, obrigada. Já estamos indo para casa, mas Scorpius fez questão de agradecê-lo pessoalmente."

"Muito obrigado por salvar a minha vida, Sr. Harry," o garoto falou cerimoniosamente.

"Ora, não há de quê." Harry se abaixou até nivelar seus olhos com os de Scorpius. "Só espero não ter que salvá-lo novamente tão cedo."

Scorpius sacudiu a cabeça em negação.

"Que tal me dar um abraço agora?" Harry abriu os braços e esperou enquanto o menino lançava um olhar especulativo à mãe antes de se jogar em seus braços.

"Você vai cuidar do meu pai, enquanto ele não melhorar?" Scorpius perguntou inocentemente e Harry sorriu, encarando-o nos olhos e segurando seus ombros.

"Pode ter certeza que sim. Mas ajudaria se você escrevesse todos os dias."

O garoto franziu a testa.

"Mas ainda não sei escrever."

"Então que tal fazer desenhos e deixar que sua mãe escreva por você? O que acha?" Harry sugeriu e Scorpius assentiu rapidamente. "Combinado. Tenho certeza que ele vai melhorar logo, está bem?"

"Está bem."

Harry se levantou e fingiu não ter visto Astoria limpar uma lágrima do rosto.

"Sr. Potter, aceite meus agradecimentos em meu nome e em nome de Draco. Gostaríamos de poder retribuir de alguma forma..."

"Não se preocupe. Abro mão de qualquer débito mágico que possa ter surgido. Ver que vocês todos estão bem já é recompensa suficiente."

Astoria abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas limitou-se a sorrir e assentir, piscando rapidamente para conter mais lágrimas.

"Adeus, Sr. Potter."

"Até logo, Sr. Harry!"

Harry esperou até que ambos sumissem no corredor, dando um último aceno para Scorpius antes de fechar a porta.

.oOo.

Os dias que se seguiram transcorreram sem maiores acontecimentos. Harry continuou se colocando à disposição dos alunos para sanar suas dúvidas, fingindo não reparar todas as vezes que eles escondiam o que parecia ser um rolo de pergaminhos cheio de assinaturas.

Ao contrário do que Harry e Hannah temiam, Malfoy aceitou permanecer aos cuidados da Enfermeira Chefe durante a semana, com a única condição de poder ler alguns livros de Alquimia, que Harry se ofereceu para pegar na biblioteca. Harry visitou-o por três vezes, porém não encontrou Malfoy acordado em nenhuma delas. Em sua última visita, achou ter visto um leve tremular das pálpebras fechadas do loiro, mas acreditou ser melhor não forçar sua presença sobre o outro professor, já que ele tinha todo o direito de não querer ser incomodado. Depois disso, não apareceu mais na Ala Hospitalar, contentando-se com os relatórios que Neville fornecia sobre a recuperação do professor de Poções.

Na quinta-feira, Harry se dirigiu ao escritório de McGonagall resolutamente.

"Entre, Sr. Potter." McGonagall tirou os óculos quadrados e pousou-os sobre uma pilha de papel. "Em que posso ajudá-lo?"

"Gostaria de saber se a senhora já fez algum progresso quanto ao professor de Defesa para o próximo ano letivo."

"E por que o senhor gostaria de saber, exatamente?" A diretora perguntou, parecendo escolher as palavras com cuidado.

Harry respirou profundamente antes de responder.

"Estou pensando em voltar para o Quartel General em agosto."

"Ah, entendo..." McGonagall desviou os olhos, por isso Harry não soube precisar se ela estava aliviada ou preocupada com aquela declaração. "Tem certeza que não está cedo para tomar uma decisão dessas? Quero dizer, depois da provação pela qual passou no último sábado..."

"Tenho certeza absoluta," Harry falou com convicção. "Sinceramente, queria agradecer pela senhora ter insistido que eu viesse. Este ano foi... Tem sido uma experiência maravilhosa. Eu realmente não imaginava que pudesse gostar tanto! Mas..." Harry passou uma mão pelos cabelos nervosamente. "Não nasci para isso. Nasci para estar lá fora, fazendo aquilo que faço melhor, entende? Eu..."

"Está tudo bem, Potter," McGonagall o interrompeu, daquela vez sem conter um pequeno sorriso. "Já me convenceu. Aliás, devo dizer que você convenceu a maior parte da escola." Ela pareceu contrariada. "Não sei se progredi muito com os alunos na Orientação Vocacional, este ano. Você não sabe como é difícil fazer essas crianças pensarem seriamente nas carreiras que querem seguir quando todas parecem deslumbradas com uma, em particular." Ela rolou os olhos.

"Ah, sinto muito... Se a senhora quiser, posso ter uma conversa com eles a respeito..."

"Não se incomode." McGonagall fez um gesto displicente com a mão. "Pelo menos eles estarão motivados para estudar para os exames. Na pior das hipóteses, eles verão que não é tão fácil se tornar um auror quanto parece assim que entrarem para o treinamento preparatório. De qualquer forma, eu já estava preparada para sua saída, ao contrário da saída de... Bem, não importa." Ela suspirou. "Respondendo à sua pergunta, sim, já fiz algum progresso com seu substituto. Estava apenas esperando a sua manifestação antes de formalizar o contrato, pois você teria prioridade para o cargo, caso preferisse. Além do mais, estou cansada de receber alunos me implorando para que você continue nos próximos anos." Ela rolou os olhos novamente. "Boa sorte explicando isso para eles. Mais alguma coisa?"

"Errr... Não. Era só isso."

"Muito bem. Então, se não se importa... Tenho problemas mais urgentes para resolver." Ela tornou a colocar os óculos e baixou os olhos para os papéis a sua frente. "Honestamente, não sei por que ainda me submeto a isso. Estou pensando seriamente em não renovar o meu contrato para o próximo ano..."

Harry saiu sem fazer barulho.

.oOo.

No domingo que antecedia a volta às aulas, Harry perambulou pelo castelo após o jantar, parando para jogar conversa fora com Sir Cadogan por algum tempo. Em seu caminho de volta, encontrou-se com Barry Ryan, parado no alto das escadas do quinto andar, parecendo imerso em pensamentos. Ele estava voltado para o lado do corredor que o levaria até a sala de Estudo dos Trouxas - e de Penelope -, mas tinha a testa vincada.

"Barry?" Harry chamou, fazendo com que ele se sobressaltasse.

"Harry!" Ryan virou-se para encará-lo, parecendo um tanto culpado. "Eu estava só... Bem... dando uma volta, você sabe..."

"Sim, também tive a mesma ideia," Harry falou, tentando dissipar o constrangimento do professor, cujos aposentos ficavam no primeiro andar. "Está uma bela noite, não acha?"

"Sim, sim, foi o que pensei, exatamente..." Ele lançou um último olhar em direção ao corredor antes de gesticular em direção à escada. "Você primeiro."

Harry agradeceu a gentileza, já pensando num assunto leve para conversar, quando Ryan falou primeiro.

"Harry, você já sentiu como se não estivesse se dando o devido valor? Quero dizer, você já se sentiu mal por algo que fez e, ainda assim, persistiu no erro?"

"Sim, conheço o sentimento," Harry falou, solidário. "Mas acredito que o fato de sentirmos remorso demonstra que ainda temos salvação. Pior seria se nossa consciência não acusasse, não acha?"

Ryan suspirou.

"Talvez você tenha razão. Ah, mas como é difícil resistir à tentação..."

"Difícil é dar o primeiro passo," Harry ponderou. "É como fazer exercícios. No início, demanda uma grande quantidade de esforço e é doloroso. Mas melhora com a prática. E vale muito a pena. Afinal, se não cuidarmos de nós mesmos, quem é que vai cuidar?"

"Muito bem, Harry, muito bem..." Ryan assentiu. "Melhor dar um passo de cada vez, então. Começando hoje!"

"É assim que se fala!"

Eles falaram sobre coisas mais amenas até se separarem ao atingirem o segundo andar. Harry estava com o humor leve ao se aproximar de seus aposentos, quando avistou uma pessoa encostada à parede ao lado da sua porta.

"Malfoy?" Harry perguntou, como para se assegurar de que não estava imaginando coisas.

"Potter." Malfoy se desencostou da parede, esperando até que Harry se aproximasse.

Eles se encararam por algum tempo e Harry reparou em como aquela semana de descanso fizera bem ao loiro. Sua pele continuava pálida, mas tinha uma aparência mais saudável e as bolsas escuras sob seus olhos também haviam desaparecido. Em consequência, seus olhos cinzentos pareciam mais claros e límpidos, o que suavizava um pouco sua expressão séria. Ele continuava muito magro, por isso Harry não soube precisar se havia alguma diferença além daquelas.

"Há quanto tempo está aqui?" Harry perguntou, quebrando o contato visual para abrir a porta. "Venha, entre."

"Não, obrigado. Acabei de chegar. Só queria..."

"Eu insisto," Harry interrompeu-o, mantendo a porta aberta até que Malfoy soltou o ar dos pulmões antes pedir licença e entrar. "Sente-se, por favor," Harry indicou uma das poltronas em frente à lareira. "Aceita chá?"

"Sim, obrigado."

Enquanto a água fervia num fogo mágico, Harry foi até seu malão e resgatou a caixa com a antiga varinha de Malfoy.

"Foi bom você ter vindo. Já faz algum tempo que eu queria devolver isso..." Ele entregou a caixa a Malfoy, cujas sobrancelhas se levantaram em surpresa ao conferir seu conteúdo.

"Potter, não precisa. Ela é sua agora..."

"Eu insisto," Harry falou pela segunda vez àquela noite.

Malfoy assentiu, passando a ponta do dedo ao longo da varinha com visível saudosismo.

Depois de servir o chá para ambos, Harry se sentou na segunda poltrona. Malfoy havia fechado novamente a caixa com a varinha e a colocara sobre a mesinha de centro. Seus olhos agora percorriam as fotos diante da lareira.

"É bom vê-lo," Harry puxou conversa.

Malfoy bebericou seu chá ao invés de responder, encarando sua xícara em seguida. Harry deu tempo para que ele encontrasse as palavras.

"Não vou renovar meu contrato para o próximo ano," disse Malfoy, por fim, ainda sem encará-lo. "Vou para casa."

"Oh," Harry exclamou, surpreso. "Sério?" Bem, aquilo explicava a reação estranha de McGonagall. Ela provavelmente também havia sido pega de surpresa pela notícia.

"Astoria está se mudando da mansão, mas estamos pensando em dividir a guarda de Scorpius."

"Ah, isso é... Isso é ótimo." Harry deixou a xícara vazia, se inclinando em direção ao loiro.

Malfoy ficou em silêncio por mais algum tempo e Harry aguardou pacientemente até que ele continuasse, depois de terminar seu chá.

"Scorpius queria torta de caramelo. Por isso, fomos ao Três Vassouras," disse Malfoy. Seus olhos nunca permaneciam nos de Harry por muito tempo. "Lembro que ele já tinha acabado de comer quando pediu para ir ao banheiro, mas acho que não chegou a ir. Não sei, às vezes minhas lembranças são confusas... Só consigo me lembrar dos olhos de Scorpius me encarando enquanto Crabbe o segurava, como se ele implorasse para que eu fizesse alguma coisa e eu..." Ele engoliu em seco. "Pensei em tudo que deixei de fazer ao longo da vida dele, todas as vezes que fugi das minhas responsabilidades, paralisado de medo pelo que poderia acontecer... Jamais me perdoaria se..."

"Ei, está tudo bem," Harry interrompeu, diante da emoção na voz do outro. "Você tem uma segunda chance, agora. Pode fazer diferente e está no caminho certo."

"Mas se não fosse por você..."

"Seria por outra pessoa," Harry o interrompeu. "Scorpius está vivo, exatamente como deveria. Se eu não estivesse lá, outra pessoa teria feito o mesmo..."

"Potter, agora sou eu quem insiste." Malfoy o encarou com intensidade e Harry se calou. "Você não tinha porque me ajudar. Eu disse que não precisava da sua ajuda quando você só estava querendo abrir meus olhos. Ainda assim, você estava lá. E sei que você teria feito isso por qualquer outra pessoa, mas você fez pelo meu filho, por isso aceite meus malditos agradecimentos!"

"Está bem. Eu aceito," Harry concedeu, mantendo a voz baixa.

"Você já se sentiu paralisado de medo?" Malfoy perguntou assim que recuperou a calma. Porém continuou, sem dar tempo que Harry respondesse. "A simples ideia de ficar a sós com Scorpius me deixava paralisado, quase sem conseguir respirar. Ainda me sinto assim, na verdade, mas..."

"Vai melhorar com o tempo," Harry falou com confiança, lembrando-se do desespero de Malfoy no dia em que Astoria deixara Scorpius forçosamente aos seus cuidados. "Acredite, os medicamentos demoram a fazer efeito, mas você logo vai sentir a diferença."

"Como você...? Você já teve...?" O loiro começou a perguntar, mas Harry o interrompeu novamente.

"Não. Eu não."

"É claro que não," Malfoy falou com um breve fungar, como se a mera sugestão fosse uma tolice.

"Ei, mas não acredito que seja um sinal de fraqueza nem nada do tipo," Harry atalhou com seriedade. "É só que já li muito a respeito. E conheço pessoas que passaram por isso e hoje estão bem. Por isso sei o que digo."

Malfoy assentiu.

"Você chegou a... Chegou a tentar se matar?" Harry perguntou, antes que se arrependesse.

Malfoy hesitou por um momento antes de menear a cabeça. "Não." Ele desviou os olhos, parecendo quase aflito. Após outra pausa, ele continuou, ainda sem encará-lo. "Eu cheguei a cogitar, uma vez. Cheguei a ponto de separar os ingredientes para uma poção, mas nunca reuni coragem para prepará-la. Tive receio de que meus pais pudessem conseguir a guarda de Scorpius se eu viesse a faltar."

Harry ficou profundamente consternado com a declaração, mas fez questão de não demonstrar.

"Fico feliz que tenha mudado de ideia," acabou dizendo.

Malfoy assentiu novamente.

"Às vezes sonho que estou morrendo e é tão... libertador," ele admitiu, encarando a própria mão. "Me sinto leve e tranquilo por um momento até acordar e tudo voltar mil vezes pior que antes."

"Sabe, talvez você devesse continuar na enfermaria..." Dessa vez Harry não conseguiu se conter.

"Não se preocupe, Potter." Ele fez uma careta. "Longbottom já me fez prometer procurá-la imediatamente, caso me sentisse tentado, ainda que minimamente."

"Ótimo," Harry concordou, aliviado. "É bom ter uma rede de apoio."

"Ela também me convenceu a tomar algumas poções para dormir enquanto o tratamento não faz efeito." Malfoy soou bastante cético.

"Você não acredita no tratamento," Harry mais afirmou do que perguntou.

O professor de Poções soltou o ar pelo nariz.

"Eu mesmo faço as poções, Potter. Se não acreditasse no seu potencial, por que faria?"

Harry achou melhor não contestar. As pessoas costumavam associar depressão com deficiência no preparo emocional ou fraqueza, ao invés de uma patologia. Podia imaginar o quanto devia ter custado a Malfoy admitir que estava doente, em primeiro lugar. Mas estava feliz por ele finalmente ter cedido, apesar das circunstâncias que levaram àquela decisão.

"Scorpius pediu que eu entregasse algo a você." Malfoy remexeu no bolso da capa, retirando um papel dobrado e entregando-o ao moreno, que sorriu. Era um desenho magicamente animado de um homem-palito com um garotinho-palito sorridente sobre os ombros, acenando.

"Também estou de partida," Harry anunciou depois de agradecer e deixar o desenho dobrado na mesa de centro. "Pretendo voltar para o Quartel General em alguns meses."

Malfoy fez um sinal afirmativo com a cabeça, parecendo pouco surpreso com a notícia.

"Bem, acho melhor ir," Malfoy falou já se levantando e Harry acompanhou-o até a porta, onde eles pararam para se encarar novamente, sem palavras.

Por duas vezes, Malfoy ensaiou dizer algo, mas acabou desistindo. Ao mesmo tempo, Harry tentava conter tudo aquilo que fervilhava em sua mente. Tinha tanto a dizer, mas não se atreveria. Não naquele momento. Sabia o quanto aquele breve desabafo devia ter custado ao loiro e não desejava pressioná-lo ainda mais.

"Boa noite, Potter," Malfoy acabou dizendo antes de se afastar.

Com um sentimento pesado dentro do peito, Harry fechou a porta, apoiando-se nela e suspirando. Seu olhar vagou por um momento pelo escritório vazio até cair sobre a caixa da varinha, que Malfoy se esquecera de levar. Cogitou a possibilidade de ir atrás dele, porém, antes que fizesse qualquer movimento naquele sentido, soaram novas batidas em sua porta.

"Que bom que você se lembrou," Harry falou ao abrir a porta, voltando a encarar os olhos cinzentos de Malfoy. "Estava prestes a ir ao seu encon..." Harry foi interrompido pelos lábios de Malfoy sobre os seus.

Surpreendido pela intensidade do gesto, Harry se deixou ser empurrado até a parede do hall de entrada do seu escritório, onde foi prensado firmemente pelo corpo de Malfoy. Tão logo recuperou as faculdades mentais, Harry correspondeu ao beijo, suas mãos deslizando por conta própria ao longo das costas do outro e trazendo-o para mais perto. Harry finalmente admitiu para si mesmo o quanto ansiara por aquilo e o alívio por ser correspondido fez com que segurasse o loiro firmemente, quando este fez menção de se afastar.

"Não," Harry sussurrou contra os lábios de Malfoy, a respiração tão alterada quanto a dele. "Por favor... fique."

Eles se olharam nos olhos por alguns segundos eternos antes de voltarem a se beijar. Daquela vez, Malfoy segurou sua cintura com força e Harry empurrou a porta para fechá-la antes de embrenhar as mãos pelos cabelos loiros. Malfoy se afastou por um momento, tentando desabotoar a camisa do moreno, que tratou de ajudá-lo. Em seguida, ambos se empenharam em despir a capa e a camisa de Malfoy e Harry deslizou as mãos sobre os esparsos pelos do peito pálido, respirando aliviado ao não encontrar nenhuma marca no lugar em que o havia cortado profundamente com o Sectumsempra, havia mais de uma década.

O caminho até o quarto de Harry foi demorado, deixando um rastro de roupas e sapatos pelo corredor. Malfoy guiou-o até que Harry se sentasse na beirada da cama, agora completamente nu, e ajoelhou à sua frente, beijando-o com gula enquanto suas mãos exploravam o corpo do moreno nada delicadamente, as unhas curtas e arredondadas deixando rastros em sua pele. Em seguida, Malfoy substituiu aos mãos pela boca, beijando e arranhando seus peitorais, seus mamilos, seu abdômen... Quando ele finalmente alcançou sua ereção, foi para segurá-la no lugar enquanto o abocanhava, chupando-o lenta e torturantemente ao mesmo tempo em que acariciava seus testículos com a mão livre. Harry não conseguia tirar os olhos dos lábios rosados de Malfoy esticados ao redor do seu membro, segurando os cabelos loiros num encorajamento mudo até ser obrigado puxá-los suavemente.

"Venha aqui," Harry chamou, puxando-o para um beijo.

Malfoy obedeceu prontamente, forçando Harry a se inclinar para trás enquanto engatinhava sobre ele e tirava seus óculos, depositando-os na cama a uma distância segura.

Ele encostou a testa na sua por um momento, enquanto recuperava o fôlego. O único item que Malfoy usava no momento era o colar que Luna lhe dera, a presa de animal pendendo do cordão rústico e tocando a bochecha de Harry suavemente, da mesma maneira que seu pênis ereto tocava o estômago do moreno.

"Você não tem ideia do que faz comigo, tem?" Draco sussurrou, ofegante.

"Estou começando a ter." Harry trouxe seu rosto para outro beijo enquanto puxava seu quadril para mais perto com a outra mão, invertendo as posições num movimento rápido para poder retribuir um pouco das atenções de Malfoy.

Recebeu um gemido de aprovação ao espalhar um pouco de lubrificante entre eles para facilitar o deslizar dos dois corpos, empurrando o quadril contra o do sonserino enquanto beijava e mordiscava sua clavícula. Teria facilmente se perdido nas sensações se Malfoy não tivesse pedido por mais.

"Quero que você me foda," o loiro sussurrou roucamente em seu ouvido, abraçando-o com uma das pernas.

Harry respondeu com um curto aceno de cabeça, seu membro se contraindo em antecipação. Preparou-o tão lentamente quanto a urgência de ambos permitiu, deslizando um, depois dois dedos lubrificados para dentro dele e abrindo-os, os olhos fixos no entrar e sair dos seus dedos.

"Já chega," Malfoy falou, segurando o pulso com que Harry se apoiava no colchão, fazendo com que levantasse os olhos para o rosto dele. Ele tinha a franja grudada na testa suada, a boca entreaberta em busca de ar e as pupilas dilatadas.

Harry posicionou-se melhor sobre o loiro, usando uma das mãos para se empurrar para dentro dele lentamente. Precisou de toda concentração que conseguiu reunir para conter a vontade de se empurrar com força diante da exclamação de puro deleite de Draco, que fechou os olhos e jogou a cabeça para trás.

"Isso..." Malfoy gemeu, incentivando-o a se mover com um balançar dos seus quadris. "Vamos..."

Harry iniciou um vaivém que foi aumentando de intensidade conforme a tensão crescia em suas entranhas, ameaçando engolfá-lo. Ficou encantado com as palavras sujas e de encorajamento que saíam da boca do loiro, que se segurou na cabeceira da cama com força conforme Harry investia. E ele ainda pedia mais.

"Maldição, Draco," Harry ofegou, apoiando o peso do corpo com uma das mãos, as pontas dos seus dedos da outra se enterrando nas coxa do sonserino com mais força conforme segurava o próprio orgasmo.

Draco soltou a cabeceira e tocou a si mesmo no mesmo ritmo frenético, encarando-o fixamente com olhos semicerrados e mordendo o lábio inferior. Harry susteve o olhar o quanto pode até que Draco fechou os olhos com um gemido. Harry baixou o rosto para assistir enquanto ele se derramava, sentindo os espasmos ao redor do seu pênis. Aquilo acabou com o autocontrole de Harry e o sangue rugiu em seus ouvidos conforme ele gozava, investindo mais algumas vezes para prolongar o prazer ao máximo. Seu braço ameaçou ceder antes que Harry se jogasse ao lado do loiro, arfando.

Harry devia ter cochilado por alguns minutos, pois assim que reuniu forças para se mover novamente, percebeu que Malfoy havia se virado de bruços, o rosto voltado para o lado oposto ao que Harry estava, a respiração lenta e profunda. Harry ficou ainda um tempo encarando as marcas avermelhadas nos ombros e na coxa do loiro antes de jogar um cobertor sobre ambos e alcançar a varinha mais próxima, limpando-os e apagando as luzes com acenos curtos e eficientes. Só então reparou que usara a varinha atual de Malfoy e sorriu, meneando a cabeça para si mesmo, depositando-a com cuidado no criado.

Dormiu com a sensação quente e reconfortante que irradiava do corpo ao seu lado.

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Nota da Autora: ufa! Eu avisei que era slowburn hahaha! Esse é o fim da primeira parte. Tem mais duas partes por vir. Devo postar a segunda parte nos próximos dias, então até lá!