Toyohisa cortou oponente por oponente, o mais rápido que pode. Não estava interessado em nenhuma cabeça em especial ali. Agora, sua prioridade era encontrar Sharm e rezar pra que ele estivesse vivo; ele e a criança.

Sim, ele sabia. Sabia de tudo.

Pela primeira vez na vida, Toyohisa se sentiu um verdadeiro monstro. Não por destroçar os inimigos, mas, por ignorar a vida de Sharm, justamente quando ele mais precisou.

Oda não era o único especialista em juntar os pontos e chegar a uma conclusão plausível. Além disso, uma das especialidades do drifter era espreitar. Sim, Toyohisa sempre mantinha os olhos e, principalmente, os ouvidos bem abertos. E foi assim, ouvindo comentários e conversas, aqui e ali, que encurralou Merith naquele dia, antes de partirem para o acampamento, fazendo a elfa abrir o jogo, mais uma vez.

Toyohisa descobriu que Sharm foi apaixonado pela garota no passado e o motivo que teria levado esse amor ao fim; a traição de Merith. Embora, agora a moça estivesse tentando se redimir de seus pecados, Toyohisa sabia perfeitamente que, "quem trai uma, trai duas" e estava certo. Não precisou ameaçar a moça mais que dois minutos pra ela começar a chorar, dizendo que Sharm carregava um filho seu.

Ficou abalado. Aquilo com certeza era bem pior que o inferno. Não sabia como reagir.

Durante a caminhada até o acampamento, ficou horas apenas remoendo aquela situação bizarra em que se meteu. Chegou a ter pensamentos perturbadores sobre o que fazer. A vergonha, o medo, o nojo que sentiu de si mesmo, a revolta por não ter sido alertado por Sharm do que poderia acontecer; tudo fez sua parte doente fluir pra fora. Sentiu vontade de fazer picadinho de Sharm e daquela criatura infame que ele carregava dentro de seu corpo. Mas o remorso por tais pensamentos acabava falando mais alto, e Toyohisa se arrependia amargamente de cada um deles.

Mas ainda estava inconformado, e faria Sharm sentir cada gota do sofrimento que ele sentia.

Começou então a ser um pouco cruel com o elfo. Reclamava, o insultava, desprezava a sua companhia, apenas para mostrar a Sharm o quanto estava irritado com ele. Queria que o elfo percebesse que algo o incomodava. Queria que Sharm falasse logo sem ele ter que implorar por isso. Mas também, começava a sentir falta da sua companhia. Sentia vontade de tocar Sharm, de beijá-lo e guardá-lo onde ninguém mais pudesse machucá-lo de novo. Mas era só se aproximar, que toda a raiva voltava. E ainda por cima, Sharm não parecia disposto a ceder. Então, começou a ser dissimulado, e, finalmente, jogou uma bomba sobre tudo. Contando a Sharm o desprezo que sentiria ao ter um filho bastardo, e o contentamento por não correr esse risco com um macho.

Mas aquilo se tornou tudo inútil, pois Sharm não cedeu de novo, e foi pior, ele partiu sem dar chance alguma para Toyohisa tentar se redimir. Embora, o próprio Toyohisa acreditasse que não faria isso tão cedo.

Partiu o último orc ao meio, antes de sair correndo em direção ao castelo abandonado, que era bem visível dali, ignorando a necessidade de montar em seu cavalo para chegar mais rápido. Agora só pensava em correr, como nunca correu na vida. Precisava encontrar seu pai e impedi-lo de matar Sharm e seu filho. Precisava abraçar seu velho e dizer que sentia muito por fazer ele passar por toda aquela humilhação, mas, que estava feliz assim. Precisava olhar nos olhos de Sharm e dizer que o amava, e que não se importava mais se seria um guerreiro honrado, mas, com certeza, seria um pai orgulhoso. Entrou apressado no castelo a procura de algum indício de vida por ali.

Quando encontrou o porão, teve que se escorar nas paredes para não cair. Uma familiar sensação de repulsa tomou conta de seu corpo.

Sharm se encontrava encolhido em um canto, bem ao lado de uma enorme pilha de cadáveres. O elfo estava sujo, havia bastante sangue em seu corpo e ele vestia apenas uma blusa; a mesma que usou no dia que Toyohisa o salvou. Parecia um cruel déjà vu da primeira vez que o encontrou; sozinho, amedrontado, machucado… destruído.

Se aproximou devagar, com medo do pior ter acontecido. Felizmente, pode ver os olhos verdes se abrirem lentamente, encarando-o. Parecia haver o dobro da dor que Toyohisa se lembrava de ter visto na outra ocasião. E ele sabia bem o por quê.

Segurou os braços de Sharm tentando levantar o elfo do chão.

Quando finalmente conseguiu ficar em pé, Sharm deu um forte soco no rosto de Toyohisa, e usou o resto de suas forças para se equilibrar sem ir ao chão junto com o drifter. Toyohisa ficou grato por Sharm estar debilitado, caso contrário, teria perdido a mandíbula; mas talvez merecesse.

– Você já notou que toda vez que tenta me salvar, algo ruim acaba acontecendo comigo? DEVIA TER DEIXADO AQUELES HOMENS ME VIOLENTAR ATÉ A MORTE! DEVIA TER ME DEIXADO EM PAZ NO ACAMPAMENTO E ESQUECIDO QUE EU EXISTIA! DEVIA TER ME DEIXADO AQUI PARA MORRER DE UMA VEZ, E NÃO SOFRER COM A DOR DE PERDER O MEU FILHO. - Sharm se ajoelhou chorando em frente ao drifter. Notou que Toyohisa permanecia travado, apenas com uma estranha expressão de culpa. Parecia que a palavra "meu filho", não o surpreendeu como o esperado. Foi ai que Sharm percebeu – Você sabia esse tempo todo. Você sabia e, mesmo assim, deixou tudo isso acontecer. - Sharm deslizou de volta ao chão, chorando sem parar – Todos tinham razão, drifters são amaldiçoados; você só trouxe sofrimento pra mim.

– Sharm…

– NÃO ME TOQUE! - Sharm deu um forte tapa na mão de Toyohisa, impedindo-o de se aproximar – Não me toque, nunca mais. A culpa é toda minha, não devia ter deixado você me beijar daquela vez…

– Sharm, não diga isso. Eu vou procurá-los, vou trazê-lo de volta, eu juro.

– Eu não quero mais a sua ajuda. Eu não quero nada que venha de você. - Sharm começou a chorar descontrolado – A única coisa que eu quero é que você suma, que volte pro inferno de onde você veio e nunca mais apareça na minha frente.

Toyohisa tentou se aproximar novamente, desta vez, sendo impedido por Oda e Yoichi. Shara e Olminu, ajudaram Sharm a se levantar e se vestir. Com muita dificuldade, o levaram até a carruagem, que já os aguardavam do lado de fora.

– É melhor deixá-lo em paz agora. - Shara se dirigiu ao drifter parecendo quase tão magoado quanto o irmão. – Eu reconheço as coisas boas que fez por nós, mas, Sharm tem razão… você só trouxe sofrimento pra ele.

Shara voltou à carruagem se reunindo a Olminu e ao irmão.

Toyohisa ficou parado no mesmo lugar, vendo os olhos verdes de Sharm se afastar estrada afora, imaginando que, talvez, nunca mais fosse vê-los brilhar novamente.