A série tinha estreado com um estrondoso sucesso.
A audiência tinha sido altíssima.
A estreia ocorrera no sábado; e no domingo não se falava em mais nada.
Cheguei a ouvir alguns comentários quando liguei rapidamente a televisão pela tarde. Mas não aguentei ouvir por muito tempo; sempre odiei que as pessoas ficassem falando de mim, opinando sobre minha vida e, de repente, parecia que todos tinham direito a falar de mim o que quisessem. Havia comentários positivos e negativos, na verdade, em sua maioria o que se via era curiosidade com o desenrolar da série, como seria e coisas assim. O frenesi era geral. E mal tinha começado, eu já me sentia sufocado.
Eu precisava sair, respirar um pouco.
Havia uma praia ali perto, talvez levasse uns 20 minutos de caminhada para chegar lá.
Estava decidido. Eu iria dar uma volta.
Era uma tarde quente, até um pouco abafada.
Normalmente, sempre tenho preferência por usar as roupas que os gêmeos rotulam como sendo características do Ikki. Mas isso não quer dizer que eu seja assim tão preso a um estereótipo.
Fazia calor, então optei por uma camiseta branca e uma bermuda clara, pertencentes ao guarda-roupa do Ikky.
Coloquei um par de óculos escuros e saí.
Felizmente, as ruas estavam bem vazias. Provavelmente, devido ao calor, as pessoas não estavam muito animadas a saírem para fora de suas casas.
Eu deveria estar já na metade do caminho... ia andando com calma, tranquilo, quando fui surpreendido por uma chuva rápida, que veio de surpresa e foi embora logo em seguida. Serviu para me molhar razoavelmente, mas continuava tão quente que foi até bom para me refrescar.
Cheguei à praia e respirei satisfeito. Realmente gosto de me sentir ao ar livre. Parece que me sinto mais à vontade comigo mesmo.
Estava andando à beira do mar, apreciando o cenário, quando ouvi alguns gritos. Inicialmente, por estarem razoavelmente distantes, não dei muita atenção a eles, mas logo eles foram se tornando mais audíveis e, ao olhar na direção de onde vinham, percebi um aglomerado de pessoas seguindo na minha direção. Apontavam para mim e foi quando entendi o que diziam:
- É o Ikky? É o Ikky!
Certo; haviam me reconhecido. Certo; eu sabia perfeitamente da possibilidade de isso acontecer. Mas a sensação que me acometeu ao ver aquelas pessoas caminhando na minha direção foi pior do que eu imaginava que seria.
Comecei a andar apressado, para me afastar dessas pessoas. Saí da praia, na esperança de me misturar às pessoas que começavam a aparecer no comércio local que ficava ali perto. Eu andava olhando para baixo, tentando chamar o mínimo possível de atenção.
Por isso, eu esbarrei em uma pessoa na porta de uma livraria.
- Ei! Olha por onde anda...
Hyoga começou a dizer e interrompeu a frase assim que percebeu que era eu quem o havia quase atropelado.
- Ikky? – ele olhou para mim, de cima a baixo, e abriu um sorriso – O que está fazendo aqui?
- Agora? Bom, neste exato momento, estou tentando fugir de um grupo que me viu na praia e me reconheceu.
- Ah. – Hyoga olhou na direção que apontei – É, eles estão vindo para cá.
- Droga. – não escondi minha frustração. Realmente eu não estava no meu modo amável, não queria ter que ser simpático com ninguém agora.
- Olha... se quiser um esconderijo... Eu moro aqui perto. – Hyoga sugeriu.
Não pensei duas vezes e acenei positivamente com a cabeça. Seguimos então por uma rua mais estreita e logo chegamos diante de um edifício antigo, não muito grande, com apenas três andares, que ficava em uma rua fechada e, por isso mesmo, pouco movimentada.
O prédio não possuía porteiro, então Hyoga destrancou a porta de entrada com sua chave e logo entramos. O prédio tinha essa arquitetura antiga, muito bonita e preservada. Estava apreciando o hall de entrada quando ouvi o loiro dizer:
- O prédio não tem elevador, mas eu moro no segundo andar. As escadas são por aqui. – ele sinalizou para mim e eu silenciosamente apenas o segui.
Quando chegamos diante do apartamento de número 6, Hyoga retirou outra chave do bolso e abriu a porta, fazendo um sinal com a cabeça para que eu entrasse.
Lá dentro, observei o lugar e me senti bem. Era um apartamento bastante acolhedor, com muitas plantas. A sala era bastante agradável e razoavelmente espaçosa. E havia livros por toda a parte.
- Não repare a bagunça. Onde moram um estudante de Letras e um jornalista, os livros brotam de todos os lugares.
- Não se preocupe. Está ótimo assim. – eu falei, enquanto andava pela sala, investigando um pouco mais do espaço. Eu era movido por uma curiosidade que nem sabia que sentia. Parei diante de uma estante, quando me deparei com um bonito porta-retrato.
- É minha mãe. Bonita, não acha? – Hyoga se colocou a meu lado e olhou para a foto da mulher loira, cujo olhar azul-celeste era muito parecido com o dele.
- Muito bonita. – olhei então para ele e encontrei os olhos azuis do loiro, que me envolveram de uma forma perigosa. Quebrei rapidamente o contato visual, olhando para o outro lado. Hyoga, talvez percebendo esse meu gesto, afastou-se de mim.
- É esquisito, não é? A série estreou ontem e já começamos a ser reconhecidos na rua. – o loiro começou a falar, enquanto ia retirando os livros do sofá.
- Também aconteceu com você?
- Sim. Eu gosto de ir àquela livraria, quando quero espairecer um pouco. Muitas vezes, vou sem intenção de comprar algo específico. Fico por lá, olhando os livros, sem pressa... Mas hoje não pude fazer isso. Estava folheando um livro quando alguns clientes da loja me reconheceram e vieram me cumprimentar. Eles nem foram tão invasivos, foram até educados, mas... eu não estava muito a fim de papo. Acho até que fui um pouco rude com eles.
- Acho que estamos no nosso direito. Ninguém precisa ser simpático o tempo inteiro. – eu respondi logo.
Hyoga sorriu e permanecemos alguns segundos em silêncio. De repente, ele recomeçou a falar, com os olhos presos aos livros que tinha nas mãos:
- Foi seu irmão que te falou dessa praia?
Eu não respondi nada. Nem precisei.
- Foi ele, não é mesmo? Eu falei para o seu irmão dessa praia, quando saímos e conversamos sobre os melhores lugares dessa cidade. Ele ficou surpreso em ver como eu conhecia bem esses arredores.
De fato, eu soube dessa praia pelo Hyoga. Naquela noite, no barzinho, ele me falou de vários lugares que me pareceram encantadores, que eu certamente gostaria de conhecer.
- Isso quer dizer que vocês estão conversando normalmente. – Hyoga suspirou, ainda olhando para os livros – Que bom. Eu não queria que a situação ficasse estranha entre vocês.
Comecei a caminhar na direção dele. Era incrível como a simples presença dele me parecia tão magnética.
- Ele... comentou algo? Quando você contou a ele sobre o que fizemos no meu camarim?
Sentei-me a seu lado no sofá. Hyoga mantinha os olhos nos livros em suas mãos.
Impulsivamente, eu levei minha mão às mãos dele, surpreendendo-o.
E consegui que ele olhasse para mim.
- Hyoga, não precisa ficar preocupado. O Ikki, ele... Ele entende que coisas assim acontecem... Ele não está chateado com você, pode ficar despreocupado quanto a isso.
Eu queria tranquilizar o loiro, mas acho que consegui o efeito contrário. Ele sorriu triste e baixou os olhos, um pouco melancólico.
- Suas roupas estão molhadas. – ele disse, ao perceber meu estado.
- É verdade! Me desculpe; eu não queria molhar seu sofá.
- Não estou preocupado com meu sofá! Mas não deve ser nada agradável ficar com essa roupa molhada...
- Nem estão tão molhadas. Daqui a pouco estarão secas.
- Mesmo assim... – os olhos de Hyoga agora estavam fixos no meu peito, com a camiseta molhada colada ao meu corpo – Você não prefere tirar...?
Quando se deu conta do que havia acabado de falar, ele levantou os olhos, como se tentasse se corrigir:
- Quero dizer... trocar! Você não quer trocar por uma seca? Eu posso te emprestar... – ele emendou, levando uma madeixa loira para trás da orelha.
O olhar lascivo do loiro, que rapidamente se tornou confuso e constrangido, mexeu comigo de uma forma que eu não estava interessado em entender.
E me deixei levar apenas pelo que estava sentindo.
Puxei Hyoga para mim, para um beijo tão cheio de desejo quanto da outra vez, no camarim.
E fui, mais uma vez, prontamente retribuído nesse beijo.
Hyoga me beijou com voracidade, enquanto seus dedos mergulhavam nos meus cabelos.
Subitamente, quando nos aprofundávamos em um beijo cada vez mais permeado de desejo, ele se afastou um pouco de mim.
Olhei confuso para Hyoga, com receio de que ele novamente interrompesse tudo, como da outra vez.
Porém, em vez disso, ele tratou de tirar minha camiseta molhada, com urgência em suas mãos.
Assim que me vi livre da peça, senti os olhos famintos de Hyoga percorrerem meu corpo.
Sorri malicioso e convidativo para o jornalista.
Hyoga, compreendendo o convite, levou suas mãos ao meu peito, tocando-me com suavidade. Suas mãos deslizaram pelo meu corpo e me senti arrepiar com aquele toque tão íntimo e sutil ao mesmo tempo.
Fechei os olhos para sentir mais intensamente o toque quente de suas mãos sobre mim e acabei soltando um gemido de prazer. E imediatamente senti a boca do loiro cobrir a minha, em um beijo devorador, apaixonado, excitante.
Eu estava sentado no sofá e Hyoga então sentou sobre mim, sem deixar de me beijar. Seu quadril se movia sensualmente e eu sentia que estava enlouquecendo de tesão ao sentir meu baixo ventre roçando no corpo dele daquela forma.
Ele começou a desabotoar minha bermuda, enquanto beijava meu pescoço. Minhas mãos passeavam por todo o corpo dele, sentindo o desespero por senti-lo inteiramente. Eu precisava senti-lo, eu desesperadamente sentia o desejo de um toque mais íntimo.
Hyoga movia seu corpo contra o meu com mais vigor e eu sentia que era capaz de atingir o clímax ali mesmo, sem necessitar de mais nada, ainda parcialmente vestido, tamanho o prazer que eu sentia naquele momento.
Nunca algo parecido havia acontecido comigo antes.
Eu estava tão perto de alcançar o êxtase, quando... de repente...
O barulho de batidas na porta.
- Hyoga? Hyoga, abre aqui...
Era a voz de Shun. No mesmo instante, tanto eu quanto Hyoga nos afastamos um do outro.
- Hyoga? Eu estou sem minha chave... Abre aqui, vai...
A voz dele estava um pouco estranha. Mas agora não era momento de fazer perguntas para o loiro. Enquanto eu abotoava de volta minha bermuda, Hyoga procurava minha camiseta molhada, que ele tinha jogado em algum lugar da sala.
- Hyoga! Por favor! Você ainda está bravo comigo por causa do que falei sobre você e o Rikki ontem...?
Ao ouvir isso, olhei para Hyoga. Nesse instante, o loiro tinha acabado de encontrar minha camiseta e jogou-a para mim. Percebi que ele estava completamente vestido e me surpreendi. Eu nunca antes havia sentido tanto prazer e desejo com uma pessoa que nem sequer havia se despido ainda.
Hyoga então correu até a porta, ajeitou rapidamente os cabelos dourados e destrancou a porta.
Do lado de fora, estava Shun, um pouco mais pálido que o normal.
A essa altura, eu já tinha vestido minha camiseta.
- Hyoga... – Shun abriu um sorriso de leve e entrou no apartamento. Ele ainda vestia o smoking do coquetel de ontem à noite – Que bom ver você...
Assim que deu dois passos dentro do apartamento, ele finalmente me viu. Claramente, ficou confuso. Olhou para mim, para minhas roupas, depois para Hyoga... com um olhar confuso e interrogativo.
- Estava chovendo! – Hyoga começou a falar de supetão – E aí nos encontramos... na rua... eu o convidei para se abrigar da chuva... – o loiro falou, sem conseguir manter sua característica frieza.
- Sei. – Shun entrou, ainda com um olhar desconfiado para mim – Ikky, não é mesmo? – ele me estendeu a mão.
- Sim. – cumprimentei-o de volta.
- Bem... fique à vontade. Eu preciso tomar um banho. – ele disse, encaminhando-se para um corredor.
- Onde você passou a noite, Shun? – Hyoga, que ia voltando a si, apressou o passo para alcançar o amigo.
Eles, obviamente, precisavam de privacidade. Fiquei onde estava. Mas, mesmo assim, pude ouvir a conversa exaltada entre os dois:
- Shun, onde você passou a noite? – as vozes vinham um pouco abafadas, porque haviam encostado a porta do quarto de Shun, onde estavam agora.
- Na casa do Aioria.
- Do... Aioria? Como assim? Por quê?
- Você sabe por quê, Hyoga!
- Não; eu realmente não sei! E não sei porque você não quis me contar ontem!
- Eu não tinha nada para contar.
- Tinha sim! Fiquei atrás de você a festa inteira, para que você me contasse qual era o problema...
- A festa inteira, não. Afinal, você ficou boa parte dela com o Rikki, lá fora!
- Shun, eu já disse que nós estávamos apenas conversando! Eu não estou interessado no Rikki, já te falei isso!
- Eu não sei, Hyoga! Fica difícil acompanhar! Você tinha me dito que estava se interessando pelo Ikki e de repente eu chego aqui e encontro você com o gêmeo do cara em que você estava a fim? Sei lá, você muda rápido de ideia! Como posso confiar?
Fez-se um silêncio absoluto e fiquei sem saber se deveria fazer algo. Felizmente, algum tempo depois, ouvi a voz do Shun:
- Me desculpe. Me desculpe, isso foi cruel, eu sei. É só que... Eu te falei, Hyoga... O Rikki, ele é tão... incrível... Eu estou encantado por ele... Mas não consigo me aproximar dele. Ele é tão fechado, reservado... E aí, encontro você não uma, mas duas vezes tendo conversas particulares com ele? Isso me deixou com ciúmes, poxa...
- Só estávamos conversando, Shun... – Hyoga respondeu, mas senti sua voz mais fraca.
- Foi o que Aioria me disse. Eu desabafei com ele ontem. Ele percebeu que eu não estava legal e se ofereceu para me ouvir. Ele me disse que vocês dois só estavam conversando e que eu não deveria deixar uma paixão como essa se colocar entre nós dois, que temos uma amizade antiga. Ele... me falou umas coisas bem legais, tanto que vim disposto a fazer as pazes com você, além de pedir desculpas por ter sumido ontem sem te avisar para onde...
- E nem atendeu o celular...
- Mas, pelo menos, eu te mandei uma mensagem dizendo que estava bem, para você não se preocupar.
- Então... você estava com o Aioria? Vocês...?
- Não! Não fizemos nada! Eu apenas dormi na casa dele. Bem, na verdade, conversamos a noite inteira. Fui pegar no sono quando o dia já estava amanhecendo. Acordei tem pouco tempo. Aioria ainda estava dormindo. Não quis acordá-lo, deixei um bilhete agradecendo e vim para casa.
Senti que já estava invadindo demais a privacidade do Shun. Resolvi sair por conta própria. Fui até a porta, mas quando fui abri-la, acabei fazendo mais barulho do que gostaria com a chave.
Ouvi um rumor de vozes vindas do quarto, sem entender exatamente o que foi dito, e logo Hyoga apareceu na sala:
- Está saindo?
- É, eu... acho que vocês precisam conversar. – falei, um pouco sem-graça.
- Me desculpe. – foi tudo o que Hyoga disse, baixando o rosto.
- Pelo quê? – falei, levantando delicadamente o rosto dele, para que meus olhos pudessem encontrar os dele.
- Por tudo.
- Você se arrepende?
Hyoga me olhou inicialmente confuso. Entretanto, depois, seu rosto suavizou.
- Não. – ele sorriu, ainda que um pouco triste.
- Nem eu. Nem um pouco. – sorri de volta para ele – Mas agora é melhor você voltar para conversar com Shun. Acho que ele está precisando de você.
- É, ele está tomando um banho agora. Mas acho que ainda temos algumas coisas para conversar...
- Claro. E... obrigado por me trazer aqui.
- Disponha.
Eu ia me retirar nesse momento, mas senti Hyoga segurar minha mão.
- O que...?
Nem pude terminar minha pergunta. Senti mais uma vez aqueles lábios fogosos sobre os meus. Foi um beijo rápido, mas tão intenso que minhas pernas ficaram bambas por alguns segundos.
- Tchau, Ikky. – ele falou, após finalizar esse beijo.
- Tchau... Hyoga.
O loiro fechou a porta e eu fiquei ali ainda alguns segundo processando em minha mente tudo o que tinha acabado de acontecer.
Quando finalmente recobrei minha consciência, tomei meu caminho e fui para casa.
Acordei cedo naquela segunda-feira porque, a bem da verdade, eu mal havia dormindo.
Fiquei pensando em Hyoga e em tudo o que estava acontecendo.
Eu realmente não conseguia me arrepender de estar me envolvendo daquele jeito com ele.
Porém, eu tinha plena consciência de que estava criando uma confusão que não seria fácil de se resolver depois.
Entretanto, eu não conseguia encontrar uma solução... E, definitivamente, não queria me afastar dele.
Levantei-me, fui tomar um banho, saí e me vesti. As gravações do dia começariam com Rikki. Saga tinha me enviado uma mensagem e disse que tentariam fazer pelo menos gravações com dois irmãos por dia, sempre que possível. O sucesso que a série parecia destinada a alcançar exigia isso.
Eu me vesti de acordo e saí para o estúdio.
Lá fora, encontrei Shun, conversando com Aioria, Aioros, Camus e Milo.
- É que ele realmente não está muito bem, Camus.
- Eu não acredito nisso! Ele sabia que tentaríamos fazer alguma gravação com ele e Ikki hoje!
- Sim, mas... ele realmente não está legal para gravar hoje, Camus. – Shun repetiu, tentando ser mais enfático.
- Camus, dá uma folga para o garoto. – Milo tentou interceder.
- É, Camus... o Hyoga não está fazendo por mal. Acho que ele pegou uma virose. – Shun acrescentou.
- Bom... o Shaka não tem como vir hoje gravar. Ele já tinha me antecipado que hoje não tinha a menor chance de ele vir aqui. Está com a agenda lotada de reuniões. – disse Aioros, consultando sua própria agenda.
- Então eu fico para gravar o dia todo! Sem problemas! – disse Shun.
- Tem certeza, Shun? – Aioria perguntou, em um tom preocupado.
- Claro que sim. Eu posso adiantar bastante a minha parte. Assim as gravações não ficam atrasadas.
- Mas... você não tinha um trabalho de faculdade para fazer hoje? – Aioria tentou falar discretamente, mas não me foi difícil ouvir o que ele dizia.
- Tenho mesmo. Mas posso fazer hoje à noite. Vou ligar para a June e remarcar com ela para fazermos à noite. Ela vai aceitar; ela está me devendo! – Shun falou, num tom jovial, que pareceu tranquilizar Aioria.
- Então está tudo certo. – Aioria falou, finalizando toda aquela discussão. Então ele me viu – Ótimo! Rikki já está aqui! Vamos organizar tudo!
Todos foram tomar seus lugares e, enquanto o cenário terminava de ser preparado, Shun veio até mim, sorridente:
- Bom dia, Rikki.
- Bom dia, Shun. – sorri em retorno.
- Tudo bem?
- Tudo. – na verdade, eu estava querendo perguntar como estava Hyoga. Eu queria saber se ele estava realmente com alguma virose ou se isso era alguma desculpa para ele não vir hoje... Eu queria perguntar muitas coisas, mas me lembrei do que ouvi da conversa entre eles no apartamento e concluí que era melhor não criar mais motivos para desentendimentos entre os dois.
- Que bom. – Shun me sorria largamente. Ele parecia querer puxar conversa, mas estava sem jeito para falar qualquer coisa.
- Shun, olha... – comecei a falar, atraindo sua atenção por completo – Naquela noite, no coquetel... eu senti que você ficou um pouco chateado por me ver falando com Hyoga... Sei que estou devendo uma saída com você, para conversarmos um pouco mais... Mas quero que saiba que aquele encontro não foi planejado. Aconteceu de nos encontrarmos e... o Hyoga queria falar comigo sobre meus irmãos. Apenas isso. – achei que seria boa ideia dizer tudo isso. Talvez ajudasse os dois a se entenderem.
O rapazinho parecia refletir sobre minhas palavras. Depois, sorriu para mim:
- É, eu sei. Foi bobeira minha. Desculpe por fazer você presenciar uma cena daquelas. É que eu estava querendo muito passar um tempo com você... E não estava conseguindo... Aí de repente chego e vejo você conversando com Hyoga... Mas eu devia saber que não era nada de mais; o Hyoga só tem olhos para o seu irmão.
De tudo o que Shun disse, essa última frase foi a que mais me interessou.
- Meu irmão? Qual? – perguntei um pouco ansioso.
Por mais estúpido que possa parecer... Eu precisava que a resposta dele fosse uma só.
- O Ikki. Afinal, é com quem ele criou mais intimidade, já que gravam juntos...
Não consegui evitar um sorriso. Era exatamente isso o que eu queria ouvir.
E tenho plena consciência de que não estou fazendo o menor sentido.
Quero que ele goste de mim, ao mesmo tempo em que sinto ciúmes de outra parte de mim...
Isso é loucura, só pode ser.
- Muito bem, pessoal! Prontos? Vamos gravar! – chamou Aioros.
Gravamos o dia inteiro. Quando já estava anoitecendo, Aioros finalmente liberou a todos para um merecido descanso.
Tinha sido, de fato, um dia proveitoso. Gravamos muitas cenas e adiantamos bem a história de Rikki e Shun. As partes românticas estavam evoluindo lentamente, mas a trama seguia bem. Eu, mais uma vez, permaneci completamente dentro do roteiro. Minha cabeça estava longe; eu não conseguia parar de pensar em Hyoga.
Assim, quando terminamos de gravar, Shun veio falar comigo:
- Então... Quanto aquela nossa saída... – ele começou a perguntar, timidamente.
- Ah! Claro. Quer sair agora? – perguntei, demonstrando genuíno interesse. Quem sabe Shun não acabaria me falando sobre o real estado do Hyoga?
O rapazinho pareceu ficar feliz com meu convite tão espontâneo. Entretanto, ele recusou o convite:
- Vamos marcar para amanhã, pode ser? – ele me respondeu empolgado – Já combinei com a minha amiga June de fazer um trabalho da faculdade agora à noite. Estou indo para a casa dela agora. E não posso desmarcar, esse trabalho é para ser entregue amanhã pela manhã. Provavelmente, vamos ficar a madrugada inteira terminando isso...
- Ah, sim. Tudo bem. Marcamos para amanhã então.
- Ótimo! – Shun abriu um largo sorriso – Mal posso esperar! Mas agora preciso correr! Se eu atrasar, a June me mata! – ele riu e saiu correndo.
Assim que vi Shun deixando o estúdio, não pensei duas vezes. Saí também do estúdio e tomei o caminho da praia.
Mas eu não planejava ir para a praia.
Estava escuro, eu estava usando meu sobretudo, porque fazia algum frio naquela noite. As pessoas na rua não me reconheceram, pois procurei estar o mais discreto possível andando por aquelas calçadas.
Finalmente, estava diante do antigo prédio. Apertei o botão referente ao apartamento 6 no interfone.
- Sim...? – precisei esperar um pouco, mas finalmente fui atendido. E reconheci logo a voz de quem eu buscava.
- Hyoga? Aqui é o Rikki. Pode abrir para mim?
- Rikki? – um breve silêncio do outro lado – Olha, se está procurando o Shun, ele não está aqui.
- Não estou procurando o Shun. Vim atrás de você. Pode abrir para mim? – repeti.
Mais silêncio do outro lado. Por algum tempo, nenhuma palavra. Enfim, ouvi o barulho da porta de entrada do prédio sendo destrancada.
Entrei rápido e subi os lances de escadas até chegar ao segundo andar. Rumei para o apartamento 6 e bati na porta, de leve.
Nem precisou mais que isso.
Como se já estivesse esperando por mim do outro lado, Hyoga abriu a porta prontamente:
- Rikki. – ele tinha uma expressão de que ainda não entendia o que eu estava fazendo ali.
- Olá, Hyoga. – eu o cumprimentei com a voz tranquila – Posso entrar?
O loiro ainda olhava para mim como se tentasse entender algo, lendo minhas expressões. Mas, nada alcançando assim, abriu mais a porta, deixando que eu entrasse.
- Como sabia onde eu morava? Foi o Shun quem te falou?
- Não. Foi o meu irmão.
- O Ikky? – Hyoga enrubesceu.
- Sim. – respondi, olhando mais atentamente para o loiro. Ele tinha uma expressão cansada no rosto.
- Você deve estar achando que eu tenho algum problema, não é?
- Não.
- Pode falar a verdade. Você pensa isso e está certo. Eu tenho mesmo vários problemas! Eu sou desprezível!
- Hyoga, não fale assim.
- Mas é a verdade, Rikki! Eu... eu gosto do seu irmão, sabia? Do Ikki! Eu realmente comecei a gostar dele, de um jeito que... – suspirou – Nem eu entendo... É que quando ele canta, ele mexe comigo em um nível tão profundo, que... eu achei que tivéssemos alguma conexão... Ah, sei lá... Eu achei muitas coisas, e me enganei sobre todas elas.
- Quem disse que você se enganou?
- Ele! Por meio de gestos! Por recuar, quando achei que estávamos em sintonia! Por não se importar, quando soube do que aconteceu comigo e com o Ikky... E também... Ah, droga... eu sou um idiota... O Ikky deve achar que eu o estou usando para esquecer o Ikki...
- Não, ele não pensou isso...
- Tomara que não, porque não é verdade! Eu não sei explicar, Rikki! Mas... eu comecei a me sentir atraído pelo Ikky também. E é uma atração diferente da que sinto pelo Ikki. Acho que, com o Ikky, é uma coisa mais... física... Eu não sei... Ele despertou algo em mim... Físico mesmo! O jeito que eu me senti com o toque dele... Eu não sei explicar... É simplesmente muito forte... Eu perco o controle com ele...
Eu olhava fixamente para o loiro, tentando absorver tudo o que ele dizia. Dava para perceber que ele estava segurando tudo isso dentro de si com algum esforço, porque, assim que pôde, desaguou tudo em mim de uma só vez.
- Me desculpe. Céus, eu perdi completamente o bom senso. É claro que você não quer saber todos esses detalhes! São seus irmãos! Onde eu estou com a cabeça...?
- Hyoga, está tudo bem. Por favor, acalme-se.
- Não, não está tudo bem! E você não precisa ser tão legal assim comigo! Aliás, é melhor mesmo que pare de ser tão legal. Eu já me sinto muito à vontade para desabafar com você; se você se mostrar disponível para me ouvir, só vai piorar tudo!
- Você gosta de desabafar comigo? – de tudo o que ele me falava, eu talvez estivesse me apegando às informações mais irrelevantes... mas, no momento, era tudo o que me interessava.
- Gosto. Não sei explicar, simplesmente... é tão fácil falar com você.
Abro um grande sorriso de satisfação e não faço a menor questão de esconder.
Hyoga nota meu sorriso e sorri de volta, mais leve.
- Ei... Você está meio abatido. – pergunto com suavidade.
- É que não durmo desde ontem.
- Não dormiu? – agora pergunto preocupado – Hyoga!
- Eu cochilei um pouco, mas não consegui pegar no sono pra valer. Essa situação está literalmente me tirando o sono...
- E você se alimentou direito, pelo menos?
O loiro olha para o outro lado, com um aspecto de culpa.
- Não se alimentou direito então. Ok. Vamos ter que dar um jeito nisso. – tirou meu celular do bolso e começo a mexer em um aplicativo.
- O que está fazendo?
- Vou pedir algo para você comer.
- Eu não estou com fome.
- Está bem. Mas eu estou. Vou pedir comida para mim e você vai me ver comendo então.
- Você só pode estar de brincadeira...
- Não estou, não. Vai ser um programa bem chato. Ah, quem sabe assim você não fica entediado e acaba dormindo? – eu digo, irônico.
- Muito engraçado. – Hyoga, parecendo render-se, senta-se no sofá e pega o controle remoto da televisão.
- Aqui. Pronto. Comida chinesa, pode ser? – pergunto e ele faz que sim com a cabeça, enquanto liga a TV. Escolho alguns pratos e logo o pedido é confirmado – Feito. Vai chegar dentro de uns 30 a 40 minutos – informo e me sento a seu lado no sofá, sem cerimônias – O que está vendo?
- Nada. Estou mudando os canais aleatoriamente.
- É um bom passatempo. – respondo, tranquilo, mostrando-me à vontade para estar ali. Eu sabia que o loiro estava sendo um pouco rude para ver se conseguia fazer eu ir embora.
Mas eu não iria a lugar algum.
- Ei, espera! Volta um canal! – eu falo de repente.
- Por quê?
- Apenas volte para o canal anterior, pelo qual você acabou de passar.
Hyoga obedece, sem entender.
- Ah, eu sabia! Tinha reconhecido. É o filme que fizeram, adaptado do livro "O Conde de Monte Cristo".
- Esse é o filme que fizeram baseado no livro? – Hyoga finalmente mostrou aquele brilho no olhar do qual eu já sentia falta.
- Sim. Já terminou de ler o livro?
- Estou quase terminando. Falta bem pouco! Mas você já viu esse filme? A adaptação ficou boa? Vale a pena assistir?
Eu rio, achando graça da animação dele:
- Eu já vi, sim... Tenho uma ideia, por que você não assiste agora? Aí pode tirar suas próprias conclusões. O filme ainda está no início.
Hyoga ainda hesitou brevemente. Mas terminou acedendo.
Assim, assistimos ao filme tecendo diversos comentários a respeito, fazendo comparações com o livro, discutindo se a cena poderia ter ficado melhor ou não...
Estávamos indo fundo nessas discussões literárias quando o pedido da comida chinesa chegou.
Eu quis pagar, ele quis pagar, acabamos pagando metade cada um. E então voltamos ao filme, agora acompanhados de uma saborosa refeição.
Hyoga demonstrou apetite, o que me deixou feliz. Jantamos assistindo ao filme, em um programa improvisado que me parecia o melhor encontro possível que alguém poderia ter...
Quando o filme acabou, Hyoga estava indignado:
- Não acredito que acabou daquele jeito! Me pareceu um pouco... forçado. Não sei... Foi um final legal, um final até interessante, mas pelo modo como o livro está seguindo, achei que terminaria de uma forma diferente.
- E você não está errado. O final do livro é diferente.
- Sério? Agora eu preciso terminar de ler esse livro! Não vou conseguir me aquietar até saber o final criado pelo autor.
- Onde está o seu livro?
- Ali... – Hyoga apontou e bocejou um pouco – Mas estou cansado...droga... O sono finalmente veio cobrar algum descanso do meu corpo.
- Então é melhor você dormir, Hyoga. Está realmente precisando descansar...
- Não... Eu quero ler... Quero saber do final. – ele pega o livro que entrego a ele e abre na página em que parou. Percebo que ele se esforça para ler, pois os olhos estão muito cansados.
- Dá aqui esse livro. – eu falo, retirando a obra das mãos dele.
- Não, Rikki... Eu quero saber o final.
- Eu sei. Entendi. Por isso, vou ler para você.
Hyoga franziu o cenho.
- Está falando sério, Rikki?
- Estou. Assim, você pode descansar enquanto eu leio. – sorri para o loiro, demonstrando que não estava disposto a ceder.
Hyoga abriu um sorriso maravilhoso para mim, indicando que concordava. Satisfeito, eu me sentei a seu lado e abri o livro na página marcada. Comecei a ler de onde ele havia parado...
À medida que a leitura seguida, Hyoga foi se aconchegando no sofá, buscando uma posição mais confortável. Ele estava com os olhos fechados, mas ainda razoavelmente acordado. De vez em quando, ele resmungava algo a respeito do que eu tinha lido, mas eu nem conseguia entender o que ele dizia.
Em dado momento, ele começou a se aconchegar junto ao meu corpo. Não me afastei; aquele contato caloroso foi tão gostoso, que eu simplesmente não queria mais sair dali. Não me mexi, com medo que ele despertasse e se afastasse de mim. Porém, em vez disso, ele foi se aconchegando mais e mais a mim.
Continuei a leitura, desejando que aquele livro nunca terminasse.
Infelizmente, a última frase acabou chegando.
Quando terminei o livro, percebi que Hyoga dormia profundamente.
Embora eu estivesse adorando a sensação de tê-lo ali, daquele modo comigo, eu sabia que aquela posição não era muito confortável.
Optei por sair dali, para tentar ajeitá-lo melhor no sofá.
Cogitei a possibilidade de levá-lo para o quarto... Mas, além de eu não saber qual era o quarto dele... Corria o risco de acabar acordando o loiro no processo.
E ele dormia tão placidamente... Tinha uma expressão tão serena no rosto.
Achei melhor deixar que ele dormisse ali. Ajeitei-o no sofá, que era bastante confortável, e o cobri com uma manta que ficava sobre uma cadeira ali ao lado. Observei-o ainda por algum tempo, sentindo uma felicidade inexplicável em meu peito, pelo simples fato de olhar para ele e saber que ele estava descansando, bem alimentado, feliz...
Hyoga tinha um sorriso lindo desenhado no rosto.
Ver esse sorriso, saber que eu tinha participação nisso... Fazia-me bem. Muito bem.
Sem conseguir parar de sorrir, voltei a vestir meu sobretudo e resolvi que era hora de voltar para casa.
Saí sem fazer barulho, deixando o loiro dormindo tranquilamente.
As ruas estavam completamente vazias.
Pude caminhar para o estúdio com toda a calma do mundo, apreciando a lua e as estrelas.
E eu me sentia simplesmente bem.
Continua...
