Parte II
I'm thinkin' bout how
People fall in love in mysterious ways
Maybe it's all part of a plan
I'll just keep on making the same mistakes
Hoping that you'll understand
(Thinking out loud - Ed Sheeran)
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Na manhã seguinte, Harry acordou sozinho na cama. No criado, a varinha de Malfoy havia sido substituída pela sua própria, junto dos seus óculos. Harry se sentou na cama, colocou os óculos e olhou ao redor. Suas roupas estavam dobradas em cima da cômoda, seus sapatos estavam aos pés do móvel e as únicas evidências de que tudo não passara de um sonho eram o lençol amarrotado do outro lado da cama e o fato de Harry ainda estar nu.
Harry suspirou, resignado. Devia ter esperado por aquilo. Levantou-se e tomou um banho antes de descer para o café da manhã. Ao sair, notou que a antiga varinha de Malfoy havia sumido da mesinha em frente à lareira.
Com a volta às aulas, o Salão Principal estava novamente lotado e movimentado quando Harry tomou seu lugar ao lado de Neville.
"Até que enfim!" O professor de Herbologia exclamou bem-humorado. "Já estava considerando mandar um elfo acordá-lo."
"Acho que fiquei mal-acostumado," Harry falou depois de verificar que o lugar de Malfoy estava vazio.
"Ele já está de alta," Neville informou, seguindo seu olhar.
"Hm!" Harry fingiu surpresa, se servindo de ovos e salsicha e evitando o olhar do amigo.
"Hannah estava um pouco preocupada em deixá-lo ir, mas acho que não há mais nada que ela possa fazer por ele além do que já fez. Cabe a ele continuar o tratamento, agora."
Harry acenou afirmativamente enquanto empurrava a comida com um grande gole de suco com a desculpa de estar atrasado.
"Mas não acho que ele vá fazer alguma besteira. Não depois de tudo que aconteceu. Você não acha?"
"Hm-hum," Harry concordou.
"Olha, você não ficou sabendo disso por mim, está bem?" Neville olhou ao redor, conspirador. "Hannah disse que ele pediu demissão."
Harry levantou as sobrancelhas.
"Sério," Neville continuou. "Quero dizer, ele vai continuar este ano até terminar o contrato. Mas não vai renovar para o próximo. McGonagall está mais estressada que nunca."
Harry seguiu o olhar do amigo. A diretora cortava um pedaço de bacon com mais força que o necessário enquanto franzia o cenho para algo que o Prof. Flitwick dizia ao seu lado. A porta do lado oposto se abriu e Harry ficou alerta novamente, porém logo perdeu o interesse ao ver Trelawney entrar sozinha.
"Ele já tomou café," Neville falou, encarando-o atentamente. "Na verdade, ele saiu bem na hora que você entrou."
Harry se concentrou em sua comida novamente, tentando disfarçar a própria decepção. Neville largou os próprios talheres.
"Harry, o que está acontecendo? E nem tente negar que tem algo de errado." Ele emendou antes que Harry pudesse se manifestar. "Você está todo esquisito, hoje. E não parece muito impressionado com nada do que falei."
"Sinto muito, Neville." Harry também largou os próprios talheres e esfregou os olhos por baixo dos óculos. "Eu já sabia. Encontrei com Malfoy ontem à noite," confessou, evitando encará-lo. "Tem uma coisa que não contei ainda..."
"O quê?" Neville soou preocupado. "Cara, você sabe que pode contar comigo para o que for, não sabe?"
Harry suspirou.
"Também falei com McGonagall na semana passada. Resolvi voltar para o Quartel General."
"Ah..." Neville pareceu confuso, então a compreensão finalmente o atingiu. "Oh! Sério? Então não é de se admirar que a diretora esteja tão rabugenta ultimamente. Ei." Ele esperou que Harry o encarasse. "Fico feliz por você, Harry. No fundo, sabia que você não ficaria muito tempo fora da ativa. Mas vou sentir sua falta por aqui. E garanto que não serei o único."
"Também vou sentir falta de vocês..." Harry admitiu, pesaroso. "Nunca achei que seria tão difícil deixar Hogwarts novamente."
"Ei, quem sabe um dia você não volta?" Neville tentou animá-lo. "Quando estiver velho e barrigudo, reclamando de dor nas juntas, colocando touca para dormir, para não pegar friagem, sabe como é... Ah, e começando frases com 'Quando eu era jovem...' ou 'No meu tempo...' e assim por diante."
Harry riu.
"Pois é... Quem sabe..."
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Na segunda aula daquela manhã, Harry foi surpreendido por Leonie Proudfoot, que colocou um rolo de pergaminho de aparência pesada sobre sua mesa. A lufa-lufa e Lilou Stammel, uma corvinal, haviam se dirigido até sua mesa assim que todos os alunos se acomodaram antes que Harry tivesse oportunidade de dar início à aula.
"Professor," Leonie chamou, solenemente, ao mesmo tempo em que os demais quintanistas lufa-lufas e corvinais se calavam. "Esse é um abaixo-assinado para que o senhor permaneça em Hogwarts no ano que vem."
"Conseguimos duzentas e vinte e seis assinaturas, dos cerca de duzentos e oitenta estudantes de Hogwarts," declarou Lilou, também com seriedade. "O que representa oitenta por cento do corpo discente."
"Até mesmo os setimanistas fizeram questão de assinar," Leonie continuou. "Mesmo não estando mais aqui no ano que vem."
"E alguns professores também," Lilou completou.
"Tivemos que emendar algumas folhas, porque algumas pessoas deixaram mensagens bastante grandes e emocionadas, principalmente depois do incidente no Três Vassouras," disse Leonie. "Eu não estava aqui, mas Lilou disse que algumas pessoas assinaram mais de uma vez na última semana."
"Exatamente," Lilou confirmou. "E alguns pais também fizeram questão de escrever." Ela estendeu um pacote de correspondências que trazia debaixo do braço, que Harry aceitou automaticamente. "Pensamos que o senhor gostaria de dar uma olhada antes que entregássemos para a Prof.ª McGonagall."
"Ah..." Harry exclamou, embasbacado. Limpou a garganta e ajeitou os óculos no rosto. "Uau... Vocês se empenharam bastante nisso, pelo que vejo..."
As duas garotas estufaram o peito.
"Na verdade, tivemos ajuda das outras casas também," Leonie explicou. "Sarah Matlock representou a Grifinória e Saskia Davis representou a Sonserina."
"Saskia Davis, hã?" Harry acenou com a cabeça, surpreso. A garota nunca demonstrara nenhum sinal de apreço por Harry, porém tampouco de desprezo. "Isso é... Isso é ótimo! Fico feliz que vocês tenham se unido por uma causa."
Pena que fora por uma causa perdida, Harry pensou cheio de remorso. Respirou fundo antes de depositar o calhamaço de cartas sobre a mesa, ao lado do rolo de pergaminho.
"Garotas... Eu realmente agradeço pelo que vocês fizeram. Isso significa muito para mim, muito mesmo." Elas se entreolharam, sorridentes, antes que Harry completasse. "Mas, infelizmente não poderei ficar no próximo ano."
Houve um momento de silêncio antes que os alunos exclamassem, desapontados.
"P-por quê?" gaguejou Lilou, enquanto Leonie parecia chocada demais para reagir. "Se for por causa de McGonagall, tenho certeza que..."
"Ela não pode fazer isso!" Exclamou um corvinal.
"A diretora tem que respeitar a vontade da maioria dos alunos! Deve ter uma lei que assegure isso..." disse outra garota.
"Não, não é nada disso," Harry interrompeu. "Foi uma decisão minha. Pessoal, acalmem-se, por favor," Harry pediu silêncio, uma vez que os alunos começaram a falar todos juntos. "Orçam..." Suspirou. Não queria que sua decisão se tornasse pública tão cedo e sabia que não devia satisfações de sua vida pessoal aos alunos, mas achou justo compartilhar aquilo com eles depois de todo o trabalho que tiveram. "Quando concordei em vir para Hogwarts, minha condição inicial era de que ficaria por apenas um ano, nada mais que isso. Eu nem queria vir, para dizer a verdade. Nunca imaginei que ficaria tentado a ficar, mas em algum momento eu realmente fiquei. Entretanto... por mais que goste de vocês, de Hogwarts e das aulas... minha vocação não é esta. Quando deixei meu posto no Quartel General, eu realmente acreditava que nunca mais voltaria. Não queria mais aquela responsabilidade sobre meus ombros todos os dias durante o resto da minha vida. Mas descobri que me sinto melhor tendo tentado, ainda que falhando algumas vezes, do que me sentiria se não tivesse feito nada.
"Por isso," ele continuou, depois de uma pausa em que todos olhavam para ele com um misto de admiração e decepção, "espero que vocês entendam. De qualquer forma, gostaria de ficar com isto," ele apontou para as cartas e o pergaminho. "Se vocês não se importarem, é claro."
As duas garotas se entreolharam antes que Leonie encolhesse os ombros, resignada.
"Bem, por que vocês não se sentam então, para que possamos começar a aula? Afinal, temos menos de dois meses até os N.O.M.s!"
Aquilo encerrou a conversa pelo resto da aula. Quando o sinal tocou, entretanto, Leonie foi até sua mesa novamente, tristonha.
"Professor..." ela falou, arrumando a mochila sobre o ombro. "Só queria dizer que entendo o que você disse. Meu pai estava certo o tempo todo, eu só não queria enxergar isso..."
"Obrigado por compreender, Leonie. Realmente sinto muito pelo tempo que vocês perderam com tudo isso..."
"Tudo bem." A garota ofereceu-lhe um sorriso tentativo. "Até que não foi ruim, na verdade. Acabei fazendo algumas amizades com essa história toda. As garotas das outras casas são bem legais. Até mesmo Davis, apesar de ela não ser de muitas palavras. E assim você pode guardar uma recordação nossa." Ela pareceu mais animada ao final do seu próprio discurso.
"Claro, claro. Prometo que vou guardar tudo com carinho."
Quando Leonie saiu, a sala já estava cheia de sextanistas, por isso Harry não teve muito mais tempo para pensar no assunto.
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O dia passou rapidamente e, quando deu por si, Harry estava sentado na mesa do jantar encarando Malfoy na outra ponta da mesa enquanto Neville conversava com Hagrid sobre algum acontecimento envolvendo o pomar do meio-gigante. Porém, Harry logo se conformou com o fato que seria ignorado e tentou participar da conversa com os amigos, sem muito sucesso.
Quando o loiro se retirou, Harry pensou em segui-lo, mas acabou descartando a ideia. Sabia que seria um esforço inútil. Se Malfoy estava tão disposto a evitá-lo quanto parecia, Harry teria que ser paciente e aguardar o momento certo.
No entanto, Malfoy parecia decidido a evitar se arriscar e sequer se aventurava para fora dos seus aposentos após o jantar, deixando seus monitores encarregados da ronda pelos corredores após o toque de recolher. Na quarta-feira, cansado de ficar olhando para o Mapa do Maroto e esperando, Harry resolveu agir. Desceu até as masmorras e bateu à porta do antigo escritório de Severus Snape.
Precisou bater novamente antes de a porta se abrir. A expressão de Malfoy passou do aborrecimento para a surpresa e Harry já estava pronto para enfiar o pé no vão da porta caso ele ameaçasse fechá-la, porém Malfoy pareceu entender que aquilo não era uma opção e tornou a fechar o cenho, deixando claro que não estava disposto a deixá-lo entrar.
"Aconteceu alguma coisa, Potter?" O loiro perguntou, rabugento, e Harry conteve a vontade de rolar os olhos.
"Na verdade, sim. Gostaria de saber se você tem alguma poção para alucinações, já que eu poderia jurar que você esteve nos meus aposentos no último domingo e fez..."
"Cala essa boca, Potter!" Malfoy se adiantou para espiar ambos os lados do corredor no intuito de confirmar se estavam sozinhos e Harry achou ter visto um leve rubor nas suas faces.
"Se você está preocupado em não sermos ouvidos, melhor me deixar entrar, porque não vou sair daqui antes de terminar de falar."
Malfoy murmurou algo que soou como 'idiota' antes de lhe dar as costas e se afastar, deixando a porta aberta. Harry entrou fechando a porta atrás de si mesmo, percebendo como o loiro parecia disposto a colocar o máximo de distância entre eles, sentando-se atrás da sua escrivaninha no extremo oposto do aposento.
"Diga logo o que tem a dizer. Não tenho a noite toda," ele falou de pena na mão, fingindo corrigir algo.
Harry suspirou, mas não fez nenhuma menção de se aproximar.
"Como você está?" Harry perguntou, fazendo questão de demonstrar que não se tratava apenas de cortesia. Estava realmente preocupado.
"Ótimo, como sempre," Malfoy falou, sem levantar os olhos.
Daquela vez, Harry realmente rolou os olhos.
"E Scorpius? Como está?"
"Esplêndido."
"Você realmente acha que pode me evitar para sempre?" Harry se irritou.
"Não sei se você chegou a cogitar essa hipótese, mas nem tudo é sobre você, Potter."
"Claro, claro," Harry falou, sarcástico. Passou uma mão pelos cabelos bagunçando-os ainda mais que o normal e tentou recuperar a calma. "Ouça, não quero pressionar você. Sei que você está passando por muita coisa no momento. Só queria dizer que estarei aqui, quando você precisar. Se você precisar," Harry se corrigiu e aguardou por uma resposta que não veio. Meneou a cabeça para si mesmo e abriu a porta para sair. "Boa noite, Draco."
"Potter," veio a voz de Malfoy antes que Harry desse mais um passo.
"Sim?" Harry perguntou, encontrando o olhar do loiro, porém mantendo a porta aberta.
Foi a vez de Malfoy suspirar, fechando os olhos com força e pressionando a ponte do nariz.
"Scorpius está bem. Tem tido pesadelos, mas a bruxoterapeuta prescreveu algumas poções para ajudar. Ele sempre manda um abraço para você."
"Ah..." Harry exclamou, feliz por perceber como Malfoy parecia ter progredido com o filho, se aquela frase era algum indicativo da regularidade com que se falavam agora. Imaginou se Malfoy ainda usava o colar de Luna sob a camisa abotoada até o colarinho, mas era difícil dizer.
Harry aguardou até que Malfoy o encarasse novamente antes de fazer a próxima pergunta.
"E quanto a você?"
"Tenho sido um paciente exemplar, tomando minhas poções no horário certo e sem fazer manha." Ele pareceu não ser capaz de conter a ironia. "Tenho comparecido às minhas sessões de terapia, feito minhas refeições regularmente, dormido pelo menos oito horas por noite... De fato, perdi a hora esta manhã, por isso tenho que correr com essas dissertações se quiser terminar até a hora de dormir."
"Ok." Harry sorriu, agradecido. "Não vou mais atrapalhá-lo. Afinal, você sabe onde me encontrar." Ele saiu sem esperar pela reação do loiro e ficou ainda algum tempo parado em frente à porta, como se no fundo ainda tivesse esperanças de ser chamado de volta. Quando ficou claro que aquilo não aconteceria, Harry se afastou, decidido a cumprir sua palavra de não pressioná-lo e cuidar da própria vida.
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Sexta-feira foi aniversário de Teddy. Harry preparou uma pequena festa surpresa para o afilhado em seu escritório, após o jantar, com direito a presentes, bolo e parabéns. Ele também tomou o cuidado de decorar seu escritório em azul e bronze em comemoração à vitória recente da Corvinal no quadribol. O garoto se mostrou particularmente satisfeito com aquele detalhe, gabando-se sobre sua Casa estar liderando a competição daquele ano.
Neville, Hannah e até Hagrid fizeram questão de participar da festa, enchendo a pequena sala de risadas e vivas. Quando os convidados foram embora, Harry deixou que Teddy usasse a lareira para falar com a avó. Adromeda Tonks mal disfarçou a emoção ao falar com o neto. Harry podia imaginar como a distância era difícil para ela depois de todos aqueles anos cuidando do garoto como um filho. Não pela primeira vez, Harry se sentiu grato a McGonagall por tê-lo convencido a aceitar o emprego. Assim, Harry pôde fazer parte da história do afilhado em Hogwarts da mesma maneira que Remus fizera parte da sua própria.
"... e obedeça ao seu padrinho, está bem?"
"Claro, vovó." Teddy rolou os olhos. "Até mais."
"Boa noite, querido. E obrigada, Harry..." Andromeda se despediu e as chamas verdes morreram.
"Bem, acho que já está na hora..." Harry começou a se levantar, mas foi impedido pelo afilhado.
"Harry, é verdade que você não deixou que levassem o abaixo-assinado até McGonagall?"
"Mais respeito, Teddy..." Harry admoestou.
"Prof.ª McGonagall," Teddy corrigiu, contrariado. "É verdade?"
Harry contou para o afilhado sobre sua decisão de deixar Hogwarts e estranhou quando não houve nenhum protesto.
"Você não parece surpreso."
Teddy encolheu os ombros.
"Imaginei que isso aconteceria, depois do sequestro do filho do M... Prof. Malfoy," Teddy se corrigiu em tempo.
"E você não se importa?"
Teddy refletiu um pouco antes de responder.
"Não muito. Claro que vou sentir sua falta. E qualquer pessoa que colocarem no seu lugar não vai chegar aos seus pés, mas..."
"Ei, não diga isso. Você pode se surpreender," Harry ponderou, mas foi ignorado pelo afilhado.
"Mas pelo menos não vou ter que dividir você com centenas de outros adolescentes."
"Espertinho." Harry fez cócegas no garoto, que gargalhou, porém logo voltou a ficar sério.
"Só me prometa que vai tomar cuidado."
"Só se você prometer ficar longe de encrencas," Harry devolveu.
"É justo," Teddy ponderou. "Eu prometo."
"Também prometo." Harry bagunçou os cabelos do afilhado. "Agora pegue seus presentes e dê o fora daqui, antes que eu tenha que escoltá-lo até sua torre como uma donzela em perigo."
"Ui!" Teddy deixou os cílios crescerem e as bochechas corarem, fazendo biquinho, ao que Harry ameaçou atirar-lhe um sapato.
Eles se despediram bem humorados e Harry observou enquanto o afilhado se afastava. Não acreditava que Teddy cumpriria sua promessa, mas não estava preocupado. Tinha certeza de que Teddy se sairia muito bem com ou sem o padrinho por perto.
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Tradicionalmente, desde que Hogwarts voltara a funcionar, todo dia dois de maio acontecia o Memorial Day. Nesse dia, os alunos eram dispensados das aulas e convidados a comparecerem aos terrenos da escola, às margens do lago, para uma homenagem aos mortos na Segunda Guerra Bruxa. Naquele ano não foi diferente, apesar de o dia cair num domingo.
Harry já participara da cerimônia anteriormente junto com Neville, Ron e vários outros membros da Armada de Dumbledore, embora tivesse sempre se recusado a palestrar para os alunos, deixando a tarefa para os demais colegas. Naquele ano, porém, Harry aceitou o convite de McGonagall e subiu no palanque diante de tantos rostos conhecidos. Falou sobre coisas tristes e felizes, lembranças de pessoas muito amadas, de arrependimentos e saudades. Falou sobre a Armada de Dumbledore e como coisas tão simples podiam fazer toda diferença para aqueles que sabiam dar valor às amizades. Foi com muito carinho que contou a todos sobre o próprio Prof. Dumbledore, cuja Tumba Branca se destacava na paisagem, sobre Snape, Charity Burbage, a antiga professora de Estudo dos Trouxas, sobre Remus e Ninphadora Lupin, assistindo aos olhos do afilhado brilharem com lágrimas não derramadas; sobre Sirius, Fred, Colin, Dobby, Vincent Crabbe e tantos outros...
Foi com um nó na garganta que Harry agradeceu pelos aplausos e cedeu a palavra novamente a McGonagall, que teve que limpar algumas lágrimas antes de continuar com o evento. Harry se juntou aos demais membros da Armada nas arquibancadas e fingiu não perceber os olhos vermelhos de Hermione nem as orelhas vermelhas de Ron. Até mesmo Luna e Rolf Scamander fizeram questão de participar daquela vez, cada um com um bebê nos braços. Ginny também viera acompanhada pelo noivo e parecia muito feliz, pelo que Harry se sentiu satisfeito.
Naquele ano, o Ministro da Magia não pudera comparecer, mas alguns representantes dos aurores e dos demais departamentos estavam presentes, portanto Harry teve ainda que cumprimentar várias pessoas antes de poder conversar com os amigos ao final do evento, o que acabou deixando muito pouco tempo para isso. Ron e Hermione tiveram que ir embora cedo por causa das crianças e os demais visitantes também se despediram logo.
"Harry, onde está Draco?" Luna perguntou, ao se despedir. "Não o encontrei durante todo o evento!"
"Não sei, Luna. Também não o vi..." Harry admitiu, sem esconder o pesar da própria voz.
Aliás, Harry não se lembrava de ter visto Malfoy em nenhum dos eventos dos quais participara anteriormente. Estava preocupado, na verdade. Aquele era um dia difícil para a maioria das pessoas que participaram da Guerra ou foram de alguma maneira afetadas por ela. Para Malfoy não devia ser diferente.
"Bem, diga a ele que mandei lembranças, está bem?" Luna e Rolf também se afastaram e logo Harry se viu sozinho nos terrenos do castelo, uma vez que as arquibancadas já haviam sido desmontadas pelos demais professores. O sol se punha no horizonte e Harry logo teria que entrar para o jantar, mas não sentia fome.
Aproximou-se da Tumba Branca e contemplou-a por um momento, sentindo uma brisa suave acariciando seus cabelos e criando pequenas ondulações na superfície do lago. A Lula Gigante esticou um tentáculo preguiçoso para fora em dado momento, despertando-o de um breve devaneio. Harry olhou para trás ao ouvir passos e largou a varinha que alcançara no bolso assim que reconheceu Malfoy caminhando em sua direção.
Sentiu uma onda de alívio percorrê-lo ao ver que ele estava bem. Três semanas haviam se passado desde seu último encontro e Harry cumprira sua palavra com determinação, evitando até mesmo espiar o Mapa do Maroto a todo momento. Pelo menos Harry tivera bastante material para se distrair, lendo centenas de metros de pergaminho escritos pelos estudantes em seu favor e até mesmo algumas cartas dos pais em sua recomendação.
"Ei," Harry cumprimentou, contendo a vontade de ir até ele. Malfoy pareceu hesitar no meio do caminho, encarando o túmulo com o cenho franzido, mas acabou se aproximando, mantendo apenas uma distância respeitável entre eles. Apesar de hesitante, o loiro parecia saudável, com uma expressão quase suave no rosto anguloso.
Eles permaneceram em silêncio por um momento, encarando o túmulo e a paisagem além dele. Malfoy suspirou e levantou o rosto quando a brisa soprou novamente e Harry se permitiu admirá-lo por um momento antes de desviar os olhos.
"Foi um belo discurso," Malfoy falou, por fim.
"Você ouviu?" Harry se surpreendeu. "Não o vi em lugar nenhum."
"Eu estava ali." Malfoy apontou para uma das janelas do castelo, que Harry não soube precisar exatamente.
"Luna mandou lembranças."
Malfoy acenou com a cabeça ainda sem encará-lo. O silêncio entre eles se prolongou por um momento até que o loiro soltou o ar pelo nariz.
"Não vou surtar se você perguntar, Potter."
Harry sorriu.
"Então... Como você está?" Harry perguntou, encarando-o.
"Melhor. Bem melhor." Malfoy susteve seu olhar por um momento. "Scorpius também. Esta semana conseguimos dormir sem ajuda das poções. Os pesadelos têm sido menos frequentes também. Nada de ataques de pânico... da minha parte." Ele desviou os olhos e suspirou. "Tenho falado com Scorpius todos os dias. Ele sempre escreve, com a ajuda de Astoria. E sempre dá um jeito de enfiar você na conversa."
Harry riu da contrariedade mal disfarçada na voz do outro, se sentindo mais leve.
"Sinto falta dele." Surpreendentemente, fora Malfoy quem dissera aquilo, apesar de ele parecer ter tirado as palavras diretamente do pensamento de Harry.
"Maio vai passar num piscar de olhos," Harry assegurou. "Você vai ver."
Aquelas palavras, entretanto, lhe trouxeram sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que Harry estava feliz por Malfoy, sentia também um aperto no peito em antecipação pela separação. Em Hogwarts eles eram forçados a conviverem, ainda que tudo que Harry pudesse fazer ultimamente fosse admirá-lo à distância. Do lado de fora, sabia que seria privado até mesmo daquilo. Procurava não analisar muito o que sentia, com medo do que poderia descobrir, mas talvez fosse tarde demais para aquilo.
"Imagino que sim," disse Draco. "Acho que já é hora do jantar..."
A luz do final da tarde havia se extinguido quase completamente enquanto conversavam e era possível ouvir a algazarra dos alunos no Salão Principal, mas Harry estivera relutante em quebrar o momento.
"Não estou exatamente faminto no momento, mas..." Harry encolheu os ombros, por fim, e os dois caminharam em silêncio até o castelo.
Malfoy hesitou quando estavam a meio caminho da porta para o Salão Principal.
"Acho que vou comer mais tarde," o loiro informou e então pensou por mais um momento antes de acrescentar. "Gostaria de um chá, Potter?"
Surpreendido pelo convite, Harry demorou algum tempo para assentir e os dois caminharam em silêncio até as masmorras. Um silêncio carregado de expectativa. Harry tentava não elevar muito suas expectativas para não se decepcionar, pois achava difícil desvendar a expressão de Malfoy.
Tão logo chegaram ao escritório de Malfoy, porém, Harry se viu novamente prensado contra a parede num beijo desesperado.
Sem nenhuma palavra, eles lutaram com as roupas no caminho até o quarto de Malfoy entre beijos e carícias. Harry deixou que Malfoy retirasse seus óculos e o guiasse até a cama, deitando-se de costas e esperando enquanto o loiro alcançava o lubrificante antes de se sentar sobre seu quadril, uma perna de cada lado do seu corpo.
Harry observou-o se preparar, umedecendo os lábios em antecipação, deslizando as mãos pelas coxas do loiro e apertando-as. Malfoy visivelmente ganhara alguma massa corporal naquelas três semanas, apesar de ainda permanecer bastante magro. Seus ombros e clavícula já não estavam mais tão ossudos e o osso do seu quadril ainda era visível, mas não saltava mais da pele dele como antes. Seu pênis estava ereto e orgulhoso, a cabeça brilhando e úmida conforme Draco enfiava os dedos em si mesmo, já ofegante. Harry segurou ambos os seus membros juntos com uma mão e deslizou a outra pelo braço esquerdo de Draco, passando pela marca negra, até o pescoço, alcançando o colar, que se destacava na brancura da pele dele. Contornou a presa de animal com a ponta do dedo e, em seguida, puxou-o para outro beijo.
Malfoy quebrou o beijo para segurar o pênis de Harry, espalhando lubrificante sobre ele antes de abaixar-se lentamente. Harry ergueu o tronco, apoiando-se nos cotovelos para assistir enquanto sua ereção era engolida pouco a pouco. Conforme Malfoy se movia para cima e para baixo, eles trocaram beijos, toques e olhares intensos. Vez ou outra, Draco soltava alguma exclamação ou palavra suja, jogando a cabeça para trás e aumentava o ritmo, apenas para diminuí-lo novamente, recuperando o fôlego. Harry percebeu as pernas dele tremendo pelo esforço e segurou-lhe o quadril no lugar, indo de encontro a ele com o seu próprio num ritmo cada vez mais alucinado.
"Porra!" Draco ofegou, levando a mão até o próprio membro e se estimulando furiosamente.
Com um último grunhido, Draco gozou, seu sêmen quente acumulando-se no abdômen de Harry. O moreno mordeu o lábio inferior e manteve-se imóvel por um momento enquanto Draco cavalgava seu orgasmo até parar, arfando.
"Venha aqui," Malfoy chamou, retirando-se de cima dele e deitando-se de costas na cama.
Harry rolou por cima dele e posicionou-se para penetrá-lo novamente, buscando o olhar de Draco num pedido de permissão silencioso. O loiro assentiu curtamente, dobrando as pernas para facilitar seu acesso. Harry empurrou-se para dentro dele e enfiou o rosto na curva do seu pescoço, segurando-o com força pelos ombros enquanto se movia. Draco soltava pequenos sons de encorajamento, sua garganta vibrando contra a bochecha de Harry até que o moreno também gozou, pulsando vigorosamente.
Harry deitou-se ao lado de Draco e concentrou-se em tentar recuperar o fôlego.
"Por que você está fazendo isso?" Draco perguntou, a voz arrastada.
"Fazendo o quê?" Harry perguntou, confuso. Não fora Draco quem tomara todas as iniciativas novamente?
"Correspondendo." Draco afastou-se para encará-lo nos olhos. "Quando o beijei pela primeira vez, esperava que você me empurrasse, me xingasse e até me socasse, mas não que correspondesse."
"Sinto desapontá-lo?" Harry falou, ainda incerto.
"Por acaso isso é até onde vai o seu complexo de herói, Potter? Você faz as pessoas se sentirem melhor dormindo com elas?"
"Claro que não," Harry falou, indignado. "Eu queria isso tanto quanto você!"
"Você é bissexual, então?"
Harry encolheu os ombros.
"Acho que sim. O quê?" Harry perguntou, diante da expressão desconfiada do outro. "Nunca achei que fosse tão importante definir o que sou."
"Mas você já se relacionou com outros homens antes?"
"Não. Já me senti atraído antes, mas não achei que valeria o risco. Quero dizer, não tenho medo do que as outras pessoas diriam, mas também não queria causar um rebuliço na mídia por algo que não iria durar."
"E o que mudou?"
"Além do fato de já ter causado um rebuliço na mídia?" Harry falou, sarcástico.
"Aquele artigo de Skeeter? E as pessoas ainda levam a sério o que ela diz?"
"Você ficaria surpreso." Harry suspirou. "Na verdade, não tem nada a ver com o artigo. Eu teria feito do mesmo jeito. Sem arrependimentos."
Malfoy franziu o cenho, mas não disse nada. Harry limpou a garganta.
"E você? É bissexual também?" Harry perguntou, mudando de assunto.
"Eu bem que gostaria," Malfoy falou, sarcástico. "Quem sabe assim não teria conseguido manter minha família?"
Harry pensou em dizer que ele não tinha culpa, mas se conteve a tempo. Se Draco não era capaz de se relacionar com uma mulher, não deveria ter se casado, para início de conversa. Mas Harry tampouco poderia fingir saber o que se passava na cabeça do outro ao tomar aquela decisão.
"Scorpius é a melhor coisa que poderia ter me acontecido..." Draco murmurou, como se mal pudesse acreditar na própria sorte. Como se não a merecesse. Harry pensou se era aquilo que Malfoy realmente pensava e que o corroía por dentro. Por um momento, também duvidou da possibilidade de alguma poção poder curar aquele sentimento, mas sacudiu aqueles pensamentos para longe.
Depois de algum tempo perdido em pensamentos, Harry se ergueu para olhar para o lado, constatando que Draco havia adormecido. Havia algumas marcas avermelhadas no ombro e nos quadris do loiro, onde Harry o segurara com mais força que o necessário. Cogitou a possibilidade de ficar, mas sabia que não conseguiria dormir tão cedo, por isso se levantou, vestiu-se e jogou um cobertor sobre o loiro antes de sair.
No caminho para seus aposentos, passou pela cozinha para lanchar e pediu que os elfos deixassem uma refeição fria para que Draco comesse quando acordasse.
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