Domingo – Cena 2
Aquele domingo tinha sido realmente cansativo. Entretanto, ele não conseguia explicar, mas conversar com Richard e Georgiana sobre os acontecimentos entre ele e Elizabeth o fizeram mais... esperançoso. Ele sabia que na realidade nada tinha mudado. Sabia que ainda teria que descobrir uma forma de conversar com ela e de tentar mudar o que ela pensava e principalmente, o que ela sentia por ele.
Lembrando que seu celular ainda estava caído no chão de seu carro, ele fez o caminho para a garagem vagarosamente. Geralmente nos domingos ele não recebia ligações importantes, mesmo assim, ele sabia que no outro dia seu celular tocaria incessantemente.
Ele estendeu a mão e pegou o aparelho, notando que tinha mais de cem chamadas perdidas. "Richard e Georgiana estavam mesmo preocupados...", ele murmurou, verificando se dentre as muitas ligações, alguma era de outra pessoa... foi quando, sem acreditar, o nome Elizabeth Bennet se destacou como um raio de sol em um dia nublado. Seu coração perdeu uma batida, e ele olhava para a tela como se o nome fosse desaparecer se ele desviasse os olhos. Sua mão, como que em modo automático, se moveu para retornar a chamada, mas ele não queria falar com ela por telefone, ele queria olhar nos olhos dela.
Paralisado com o celular na mão e mal respirando, ele escutava as batidas de seu coração ecoarem em seus ouvidos. A ligação tinha sido realizada um pouco mais de quarenta minutos antes. Olhando para a chave do carro que estava em sua mão, sentindo-se vivo e aterrorizado ao mesmo tempo, Darcy tomou algumas respirações profundas e chegou a uma decisão. Ele praticamente pulou no banco do motorista e com coragem, dirigiu até o apartamento dela.
Com uma taça de vinho na mão e seu celular na outra, Elizabeth estava sentada na sala de sua casa sozinha, e seus pensamentos faziam sua cabeça latejar. Jane estava em Longbourn e voltaria somente no outro dia. O fim de semana tinha sido longo e cheio de pensamentos conflituosos, mas o domingo... este domingo tinha atormentado ela. Jane era um anjo, mas quando queria, sabia mexer com a mente da irmã. Elizabeth lembrava toda a sua história com Darcy e fechava os olhos com força, envergonhada de suas atitudes. Como ela tinha mal interpretado o homem! Ela se sentia péssima e constrangida como nunca tinha se sentido antes. Inconscientemente, ela olhou para o laptop e estava prestes a se levantar para pegá-lo e ler o e-mail de Darcy novamente quando a campainha tocou. Surpresa por receber um visitante em um domingo naquele horário, ela abriu a porta com sua testa franzida em confusão e curiosidade.
Ela nunca pensou que abriria a porta e encontraria Darcy parecendo mais nervoso do que nunca. Nem mesmo no dia da fatídica declaração ele estava naquele estado.
"Eu vi sua ligação." Ele disse depois de um silencio estranho apontando para o celular que ainda estava na mão de Elizabeth. "Eu tinha esquecido o celular no carro..." Ele explicava desajeitadamente segurando as próprias mãos trêmulas.
Elizabeth ficou sem reação por um instante. Ela ensaiou muitas vezes o que falar, mas naquele momento, com ele em sua frente, as palavras simplesmente sumiram. Lembrando que eles estavam parados na porta, ela piscou algumas vezes como se para voltar a realidade e se afastou da entrada.
"Entre, por favor. Eu preciso conversar com você." Sua voz era baixa e ela não conseguia olhá-lo nos olhos.
Darcy entrou em silêncio e parou no meio da sala, sem saber exatamente se sentava no sofá ou se esperava ela lhe indicar o que fazer. Percebendo, Elizabeth quase conseguiu achar a situação engraçada.
"Sente-se, Darcy. Você quer uma taça de vinho ou qualquer outra coisa?" Ela perguntou, tentando se lembrar o que tinha para oferecer. Vinho ela sabia que tinha... o final de semana foi longo e regado a muita bebida entre sua confusão e a lamentação de Jane.
"Não, obrigado." Ele respondeu lentamente e mesmo enquanto as palavras eram pronunciadas, ele queria se chutar. Se Elizabeth oferece qualquer coisa para você, simplesmente aceite, idiota.
Ele sentou-se no sofá indicado e Elizabeth na poltrona ao lado. Ambos estavam olhando para os próprios pés, indecisos sobre como começar a conversa, incertos sobre as palavras que deveriam usar e desconfortáveis com o quão espesso estava o ar entre eles. Elizabeth, reunindo toda a sua coragem, estava prestes a começar, mas Darcy quebrou o silencio primeiro.
"Eu sinto que meu e-mail foi insuficiente e gostaria de pedir desculpas pessoalmente. Por tudo o que eu falei e fiz com você e sua irmã. Eu... eu conversei com Bingley e contei tudo. Eu estou tão, tão envergonhado, Elizabeth. Eu realmente sinto muito." Ele dizia se forçando a olhar nos olhos dela com tanta intensidade que a fez corar.
Elizabeth umedeceu os lábios com a língua, seus olhos cautelosos forçados a permanecer no rosto dele. "Eu não sou totalmente isenta de culpas. Eu falei tantas coisas aquele dia que eu não queria ter falado... principalmente em relação à Wickham... eu tenho vergonha de lembrar que eu acreditei nas histórias dele, que eu dei crédito ao que ele disse sobre você..."
Darcy balançou a cabeça rejeitando qualquer culpa que ela poderia sentir. "Você não precisa pedir desculpas por isso... Wickham é hábil em ser agradável e é um enganador experiente... é muito fácil acreditar no que ele diz e gostar das maneiras dele..." Diferente de mim, ele queria acrescentar.
"Eu não gostava. Eu não gostava dele. Nem um pouco." Elizabeth respondeu rapidamente querendo desesperadamente que ele acreditasse sem saber o porquê era tão importante.
"Não?" Ele perguntou com minúsculo sorriso.
"Não. Eu fui... tão tola. E cega. Eu achava que você me odiava... que olhava para mim e via uma bagunça de defeitos... Era muito mais fácil, muito mais conveniente acreditar em coisas ruins sobre você do que em coisas boas..." Elizabeth esfregou ambas as mãos no rosto, decepcionada consigo mesma. "Você deve adicionar meu orgulho ferido e minha vaidade à lista de defeitos..."
Darcy novamente a olhou com intensidade. "Ambos sabemos que aos meus olhos você não tem defeitos, Elizabeth." Suas palavras eram suaves, as fazendo parecer muito mais profundas.
Ele viu o rosto dela empalidecer, e em seguida corar de uma maneira bem rara para Elizabeth. Muito cedo, ele pensou. Darcy desviou os olhos do rosto dela e fitou o chão por alguns segundos, piscando rapidamente enquanto pensava. Eu tenho que mostrar para ela como eu realmente sou. Que eu mudei e que eu faço qualquer coisa para merecê-la.
Ele era experiente em reuniões tensas, mas aquela conversa era totalmente diferente de qualquer outra. Aquilo não era sobre negócios, era sobre sentimentos. Muitos sentimentos. E Darcy não era experiente em demonstrá-los. Decidido rapidamente por um curso de ação, ele pôs sua decisão em prática. "Elizabeth, eu sinto que nós não nos conhecemos realmente. Eu não fiz nada para me recomendar e você tinha toda a razão em pensar o pior de mim. Eu nunca vou deixar de me sentir mal por tudo o que eu fiz e falei, mas eu preciso saber que eu tentei consertar." Ele parou de falar por um instante e respirou fundo. Era naquele momento que ele lançaria sua sorte. "Tudo o que eu quero... tudo o que eu peço... é que você nos permita um recomeço. Você aceitaria reiniciar nossa amizade, Elizabeth?" Assim que terminou de falar, ele prendeu a respiração. Ele sentia, realmente sentia o significado daquele momento. Aquela tinha sido a proposta mais importante que ele tinha feito, e dependendo da resposta dela, ele sentia que outras propostas se originariam daquela.
Elizabeth olhou para o homem diante dela. Toda a arrogância e o orgulho desaparecidos. Apenas vulnerabilidade, insegurança e uma fragilidade inocente. Ela sentiu uma vontade quase incontrolável de tocar no rosto dele e lhe dar conforto, e precisou segurar as próprias mãos se impedindo no último segundo. "Eu gostaria muito disso." Ela respondeu com um pequeno sorriso.
Darcy soltou ar que estava segurando, exalando lentamente. Alivio inundando cada célula do seu corpo. Por um momento ele queria rir e pular, como uma criança tendo um sonho realizado. Naquele instante ele sentiu uma alegria profunda e pôde sentir fisicamente seu corpo suavizar. Para surpresa dela, ele estendeu a mão direita em um gesto bastante formal.
"Muito prazer em conhece-la. Meu nome é Fitzwilliam Darcy, mas todos me chamam de William... e eu sou terrível em conhecer novas pessoas e causo péssimas primeiras impressões."
Darcy viu surgir no rosto de Elizabeth, da forma mais linda e deliciosa que ele já tinha visto, o sorriso que ele tanto amava. No momento que ela tocou a mão dele, devolvendo o cumprimento, ambos sentiram a já conhecida sensação de calor passar por todo o braço e se espalhar pelo corpo.
"O prazer é meu, William. Eu sou Elizabeth Bennet, mas meus amigos me chamam de Lizzie. Descobri há pouco tempo e da pior forma que ao contrário do que eu pensava, sou uma péssima juíza de caráter."
Darcy riu, deliciado, fazendo o coração de Elizabeth acelerar. Ele deveria rir mais vezes, se ele me perturbava sério, minha saúde está em risco com ele rindo assim.
O momento infelizmente foi quebrado quando o celular de Elizabeth tocou. Franzindo a testa, ela olhou no visor e viu que era Jane.
"Desculpe, William. É Jane. Eu não esperava uma ligação dela... só um momento, por favor." Elizabeth dizia enquanto se levantava para atender a irmã.
Darcy esperou Elizabeth na sala com um sorriso de contentamento nos lábios. Ela tinha respondido sim para ele. Ainda não era o sim que ele queria, mas ele faria de tudo para que se tornasse o sim que ele desejava mais do que qualquer outra coisa. Ele olhou para o relógio e eram nove da noite. Ele estava nervoso, sem conseguir determinar o que fazer em seguida. Ele queria desesperadamente ficar mais tempo com ela, mas não queria impor sua presença. Ele sabia que era muito cedo para Elizabeth e estava determinado a ir devagar. Valeria a pena esperar pelo tempo que fosse necessário. Decidiu, então, perguntar se ela sairia com ele algum dia e em seguida se despedir. Era o melhor curso de ação. Dessa forma, ele daria a ela o espaço necessário para formar uma opinião muito melhor sobre ele, e futuramente, mudar seus sentimentos.
Seu fluxo de pensamentos foi interrompido com a agitação de Elizabeth, que entrou na sala apressadamente e olhava todas as superfícies em desespero. Ela olhou para ele com o rosto aterrorizado se desculpando e dizendo que ela precisava ir. Preocupado, ele perguntava se poderia ser de ajuda, mas ela continuava a correr pela sala procurando as chaves do carro em um frenesi.
"Droga, onde estão as chaves do carro quando se precisa?" Elizabeth tinha lágrimas escorrendo pelo rosto.
Sem conseguir se conter, Darcy se colocou no caminho dela e segurou seus ombros. "Elizabeth, por favor, fale o que aconteceu que eu mesmo te levo em qualquer lugar."
Notando a preocupação nos olhos dele, ela se permitiu chorar, encostando a cabeça no peito dele. "A polícia ligou para Longbourn dizendo que encontraram Lydia espancada... ela está no hospital. Minha família está em Longbourn e eles acabaram de receber a ligação... eles só vão conseguir chegar daqui duas horas e ela está sozinha... ninguém sabe exatamente o que aconteceu, mas falaram que é muito grave. Eu preciso chegar lá."
Ele passou os braços ao redor dela e apertou em conforto. "Eu levo você." Ele disse contra os cabelos dela.
"Obrigada." A voz dela era frágil e naquela simples palavra, Darcy conseguiu detectar um medo que não combinava com ela. Determinado, ele segurou a mão dela e a guiou para fora enquanto perguntava qual era o hospital. Ele estaria com ela pelo tempo que ela quisesse, e ele sabia que seria capaz de mover o próprio mundo se significasse a felicidade dela.
