Capítulo 10 - Divagar, Divagar

Sasuke estava parado no corredor da ala da UTI infantil onde Satoshi estava internado. Ele já havia entrado no quarto e visto o filho — alguns minutos depois de esperar pela esposa acordar, não deixando que ninguém mexesse com ela até ela acordar sozinha de sua síncope — e naquele exato momento, ele focava sua mente em lembrar-se de Satoshi antes do massacre, e não o menino deitado naquela cama hospitalar que ele vira na noite passada. A primeira vez que ele viu Satoshi, dentro daquela piscina vazia de baixo dos escombros, sua adrenalina em encontrar o filho era tanta que ele não havia notado os detalhes por ser corpo. Ele não havia notado o grande corte em sua bochecha que transpassava seu olho direito e subia até sua sobrancelha — que Tsunade prontamente já havia dito que o globo ocular não fora atingindo, sendo assim, sua visão não estava afetada. Ele não havia notado o grande corte em seu tórax, parecendo que anteriormente havia uma fratura exposta no local. E o pior, ele não tinha notado a perna esquerda do filho, que agora não existia mais, sendo que agora ele tinha apenas poucos milímetros do orgão abaixo do joelho — que Tsunade declarara em seguida que uma prótese apropriada estaria sendo feita e logo eles reimplantaria em Satoshi, para que ele pudesse começar sua fisioterapia o mais rápido possível quando acordasse. Sasuke pôde observar todos os mínimos detalhes enquanto ele via um grupo de enfermeiras trocando os curativos do menino que havia acabado de sair de uma cirurgia de quase 5 horas.

Aquilo havia sido ontem, e hoje era um novo dia.

Sasuke parecia um zumbi, pois ele não conseguira dormir na noite passada. Ele permanecia em pé enquanto prestava a atenção de vez em quando na televisão, onde as principais notícias ainda eram sobre o massacre do dia anterior. O mundo ninja inteiro estava em horror com tamanha covardia, e todos os Kages já haviam dado suas declarações e condolências a Konoha, deixando claro sua parceira e que juntos iriam encontrar os responsáveis e puni-los.

Naquela manhã, como não havia conseguido dormir mesmo, ele aproveitou que Sakura e Sarada estavam em um sono pesado depois das 3 da manhã, e saiu para caminhar pelos arredores do hospital. No início, era para ser somente uma caminhada pelos arredores, mas quando ele percebeu, ele já estava completamente longe do perímetro do hospital, e seus pés o levaram novamente para a Academia Ninja — ou melhor, o que havia sobrado da Academia Ninja.

Mesmo com a escuridão, a lua naquela noite estava cheia, e iluminava bem os escombros e os que restava ainda da antiga escola ninja. Sasuke ficara parado ali, ao norte da antiga academia, não sabia quanto tempo havia passado, até que sentira um chakra conhecido surgindo por suas costas.

"Sasuke"

Naruto se pronunciara, mas não disse mais nada quando ficou lado a lado do amigo. Ele não conseguia imaginar o que ele poderia falar naquele momento — e ele sentia uma impotência tremenda. Ele era o Hokage, por céus, e ele entendia como Sasuke poderia estar se sentindo naquele momento, mas mesmo assim, ele não sabia como consolar o amigo.

Mas por incrível que pareça, fora Sasuke que iniciara a conversa.

"O que vocês já descobriram?"

Naruto não sabia com consolar o amigo, mas ele tinha informações, e se era aquilo que Sasuke queria se prender para ajudá-lo a lidar com seu sofrimento interno, Naruto iria ajudar.

"Não conseguimos encontrar ninguém responsável pelo massacre, nem mesmo um fio de chakra. Eles sabiam de nossas troca de guardas e até mesmo de como funciona nossa inteligência. Tudo foi planejado para que nem mesmo escutássemos por pedidos de ajuda, ou lutas ou explosões. Eles usaram uma espécie de jutsu de selamento aqui no perímetro, e descobrimos isso horas depois que Satoshi foi encontrado. Por conta disso, do lado de fora, não iriamos achar nada de estranho — iriamos ver a academia normal e inteira — mas por dentro, acontecia todo esse massacre. Não iriamos descobrir isso se não fosse pelas câmeras de segurança da rua, onde notamos que as 8:43AM a academia inteira estava sendo consumida por chamas e sua estrutura se desfazendo, enquanto que quando rebobinássemos a gravação, das 8:42AM para trás, a academia estava perfeita. Quando a inteligência notou isso, logo foi acionado toda a equipe de busca e resgate, e então ninjas médicos, bombeiros e a polícia foram levados para o local", algo naquela história não estava se encaixando, e não parecia um bom sinal, "o usuário do jutsu é responsável em manter o jutsu ainda funcionando. Se acontecer algo a esse usuário… o jutsu é desfeito. Com isso, nossa conclusão foi que o usuário foi morto durante o massacre, mas não há mais nenhuma informação além disso", Naruto parecia cansado e desgostoso com todos aqueles eventos acontecendo bem de baixo de seu nariz.

Aquela história não estava sendo contada direito. O que tinha acontecido ao usuário do jutsu durante o massacre? Se o jutsu havia sido desfeito, aquilo significava que eles planejavam fugir de Konoha depois de acabarem com tudo e com todos, e talvez, reportar seus feitos a quem quer que fosse seu líder. Mas dado as informações que ninguém havia sido encontrado, e nem mesmo a Anbu, uma organização de Konoha completamente ágil e hábil, havia conseguido pegadas, ou qualquer tipo de prova de uma fuga em massa — aquilo só podia significar uma coisa: os responsáveis estavam mortos, e o que era pior, era possível que o próprio líder havia planejado aquilo com os ninjas que ele ou ela mesmo havia mandado.

Apagando as provas.

Quem quer que fosse o líder, ele ou ela não precisava daqueles ninjas. Ele poderia usá-los para seus objetivos e matá-los em seguida. E Sasuke só conseguia pensar em uma pessoa com aquelas características para fazer tal feito.

Jigen.

"Jigen está por trás disso", Sasuke murmurou minutos depois de filtrar toda a informação dada por Naruto.

"Shikamaru também acredita nisso, mas…"

"Mas o quê?", Sasuke não estava com muita paciência para conversinhas.

"Eu não consigo acreditar que Jigen foi responsável por isso. Por qual motivo ele iria fazer algo que iria resultar em todo o mundo ninja em cima dele? Isso não é do feitio dele. O maior pavor dele é que nós encontremos Kawaki, e ele sabe que um dos nossos focos é encontrar o garoto. Ele não é do tipo que executa um plano com alguém em sua cola — ele atua sobre as sombras e não sobre atenção"

"Acredita que alguém quer culpar a Kara por esse atentado?", Sasuke acompanhou o raciocínio de Naruto e logo indagou.

"É possível, ainda mais com as informações que conseguimos nos últimos meses graças a Gaara — de que um membro da Kara abandonou o barco, e até mesmo a organização quer esse ex-membro morto"

Naruto tinha razão. Jigen não iria facilmente mostrar seus planos ao mundo. Ele iria agir pelas sombras, e quando eles descobrissem seu próximo passo, provavelmente seria tarde demais. E tinha também a informação sobre um ex-membro da Kara ter abandonado o grupo por motivos que eram completamente desconhecidos. Aquilo tudo piorava ainda mais a dor de cabeça que Sasuke estava tendo desde o dia anterior.

"Sasuke", Naruto o chamara quando ele deu as costas, planejando voltar para o hospital.

"Me desculpe", Sasuke parou no lugar com aquelas palavras. Naruto não tinha o direito de lhe dirigir aquelas palavras. Era ele o responsável, e somente ele, de descobrir qualquer que fosse o próximo passo da Organização Kara, de ficar de olho em Jigen, de saber do paradeiro de Kawaki, de descobrir quem era o verdadeiro traidor que abandonara a organização e onde ele ou ela estava. Era sua culpa e inteiramente sua. Ele não iria aceitar que Naruto se achasse no direito de se sentir culpado.

"Você é o Hokage, e é seu dever cuidar da vila por dentro. E o meu… de cuidar da vila por fora", Naruto podia ouvir a raiva com que aquelas palavras eram proferidas, "Sou eu quem deveria ter previsto os passos de quem quer que seja os canalhas que atacaram a Academia Ninja, que mataram todas aquelas crianças, que colocou o meu filho numa maca de hospital onde ninguém sabe nem mesmo se ele um dia irá acordar", ele então virara o rosto para encarar bem os olhos de Naruto, "Não ouse se desculpar por algo que não é sua culpa. Pare de sempre querer me proteger de erros cometidos por mim".

Naruto não conseguia encontrar argumentos para com àquilo. Ele ficara petrificado enquanto olhava Sasuke dar-lhe as costas novamente e sumir de sua vista.

Lembrar-se daquela conversa de madrugada fez o estômago de Sasuke se revirar. Não era sua intenção falar naquela maneira com seu melhor amigo, mas ele não imaginava ódio que estava sentido até Naruto conversar com ele naquela manhã. Ele não culpava o amigo por aquele atentado, muito pelo contrário, ele se culpava por não conseguir cumprir seu combinado feito há anos com Naruto — proteger a vila de outra maneira, se infiltrar nas sombras e nos piores lugares do mundo para saber qualquer informação suja que poderia colocar os cidadãos de Konoha em perigo. Seu dever era proteger Konoha e não ser agradecido por isso. Ele não queria glória em troca daquilo, ele só queria garantir um lugar seguro para sua família — um mundo seguro para o futuro de seus filhos.

A porta do quarto onde Satoshi se encontrava se abriu, revelando Sakura, que parecia surpresa em vê-lo ali no corredor.

"Eu acordei e não o vi", ela fechou a porta do quarto cuidadosamente e se aproximou do marido.

"Eu não consegui dormir… e não queria incomodar o sono de vocês, então eu fui dar uma volta", ele não precisava acrescentar mais nada, Sakura o entendia.

"Dormir não resolveu o meu problema, pois continuo cansada", ela murmurou, e em seguida, ela sentiu os dedos quentes do marido em seu rosto — seu polegar passando levemente por onde ela imaginava que havia uma olheira. Sentir aquele toque quente a fez suspirar.

"Como ele está?", Sasuke precisou de muita coragem de perguntar aquilo. Ele temia saber mais notícias ruins.

"Ele está se recuperando bem. Eu quis vir trocar eu mesma os curativos dele. Convenci Tsunade que pelo menos isso eu poderia fazer em meu filho, e eu to cansada de ser deixada para trás nesse hospital — eu quem sou a responsável por esse complexo inteiro e ainda me deixam de escanteio", apesar de seu tom baixo, Sasuke pôde notar a raiva enraizada em seu tom de voz.

"Sakura, a perna dele…"

"Não vamos nos preocupar com isso agora", ela também não queria falar sobre aquilo, "No momento, precisamos apenas ficar do lado dele, e esperar que ele acorde", ela olhou bem nos olhos do marido, "Ele precisa saber que nós estamos do seu lado o esperando"

Antes que Sasuke pudesse dizer alguma coisa, ele sentiu o chakra de Sarada atrás de si, e resolveu encerrar aquela conversa por hora.

"Mamãe, papai"

Sasuke esticou seu único braço em direção a Sarada, chamando-a para se juntar e eles.

"Vai ver Satoshi agora?", ela perguntou ao pai.

"Eu posso esperar se você quiser ir agora", mas Sarada logo negou com a cabeça.

"Eu o vi antes da mamãe entrar para trocar os curativos — na verdade eu vim procurar vocês… por que…"

Sakura deu um sorriso leve para a filha, sabendo o que ela queria. Eram quase 9h da manhã, e a última refeição deles tinha sido na noite passada. Mesmo com toda aquela preocupação e correria em relação a Satoshi, ela não poderia negligenciar Sarada — não que Sarada não podia se virar sozinha, alias, ela já tinha 17 anos. Mas naquele momento que eles estavam passando, Sarada não queria ficar sozinha, e nem mesmo Sakura.

"Eu estou faminta também", Sakura disse para a filha, e então se desaproximou do marido, mas não antes de perguntar, "Sasuke-kun?"

"Vão vocês", ele respondeu enigmaticamente, "Aproveitem, e tomem um banho, eu já sinto um cheirinho desagradável", aquela frase foi tão fora de contexto que Sarada, mesmo sem animo, acabou rindo. A tentativa de Sasuke não foi desapercebida por Sakura, que não segurou o riso fraco com aquela súbita tentativa de melhorar o humor que o marido tivera.

"Eu digo o mesmo de você, quando chegarmos é você quem tem que tomar um banho", ela respondeu já do lado de Sarada. Aquele momento foi essencial para que eles começassem bem o dia.

Olhando as costas de suas duas mulheres favoritas, ele aguardou até não as ver mais no corredor, e então, adentrou no quarto onde Satoshi estava.

˜˜˜•˜˜˜˜

O quarto estava bem claro e com uma energia um pouco melhor — diferente da noite passada, quando Satoshi havia sido trazido até ali, cheio de curativos ainda ensangüentados, naquela escuridão e com uma energia completamente negativa que fora trazido com as atualizações do estado de saúde do filho.

Parando para o encarar naquele momento, parecia que Satoshi estava apenas dormindo, e que a qualquer momento, ele iria abrir os olhos. Mas se Sasuke prestasse mais a atenção no filho, ele sabia que não seria fácil sua recuperação.

Satoshi estava respirando com a ajuda de aparelhos por conta da perfuração em um de seus pulmões. O cotoco abaixo de seu joelho esquerdo estava todo enfaixado, deixando claro a falta do restante do membro no local. Seu olho direito estava com faixas que passavam por toda a sua cabeça, devido ao corte que tinha da bochecha até sua sobrancelha. Seus pequenos bracinhos estavam cheios de cortes e arranhões, assim como sua perna direita.

E o pior, sua mente estava longe, pois segundo Tsunade, nunca se sabe o dano cerebral que alguém pode ter após ficar tanto tempo sem oxigênio, e eles não faziam ideia nem de quanto tempo Satoshi havia ficado sem oxigênio e nem quanto tempo ele iria ficar desacordado.

Se é que ele iria acordar — pois aquele seria o primeiro obstáculo.

Se Satoshi acordasse, ele teria que passar por um problema além do físico — além de uma fisioterapia com sua nova perna esquerda. Ele teria que lidar com a dor emocional, o trauma, a vivência de ter presenciado uma matança a sangue frio. Saber que fora o único sobrevivente — além de um garota de sua mesma idade — de todos os seus colegas da Academia Ninja.

Sentir-se que poderia estar morto ao invés de viver uma vida onde ele sabia que outras pessoa poderiam estar vivendo em seu lugar.

Sentir-se que seria melhor estar morto junto com todos do que sobreviver e aceitar o que tinha acontecido…

Sasuke sabia melhor do que ninguém o que era sentir tudo aquilo. O que era sentir a culpa de ser um sobrevivente.

Ele não conseguia mais se manter são naquele momento. Toda sua raiva, ódio, tristeza e frustração estavam secretamente sendo soltas através de suas lágrimas quentes. Sasuke aproximou seu rosto com o de Satoshi — tocando suas testas —, envolvendo o rosto do filho com sua única mão como se fosse feito de vidro, como se qualquer movimento pudesse quebrá-lo.

Eu vou entender, Satoshi…

…. eu vou entender…

Se você não quiser abrir os olhos.

Meu filho…

… eu vou entender, mesmo que isso me doa.

… eu vou entender.


Eu estou em lágrimas, e já peço perdão com antecedência. Até o capítulo 11!