I think you're already leaving
Feels like your hand is on the door
(If You're Gone - Matchbox 20)
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Os alunos estavam exaltados com a proximidade dos exames e Neville vivia dizendo o quanto Hannah estava sobrecarregada ultimamente com a quantidade de alunos que passavam pelos seus cuidados. Mas aquilo não era novidade para Harry já que, como responsável por suprir o estoque de poções da enfermaria, Malfoy também se queixava da mesma coisa.
Certa manhã de sábado, Harry passara na Ala Hospitalar para oferecer ajuda aos amigos quando quase trombou em Malfoy, que saía segurando alguns frascos de poção vazios.
"Sinto muito," Harry falou, ajudando-o a segurar os frascos antes que eles caíssem, o tilintar do vidro chamando a atenção de Neville, que viera ver o que acontecia. "Quer ajuda para levar isso...?"
"Está tudo bem, Potter." Malfoy soou irritado, voltando a arrumar os frascos no colo antes de sair sem olhar para trás.
"Harry?" chamou Neville, ao que Harry se assustou.
Esquecera-se do amigo e perdera algum tempo assistindo Malfoy se afastar pelo corredor. Passou uma mão pelos cabelos nervosamente.
"Ei, Nev. Tudo bem? Vim saber se vocês estão precisando de alguma ajuda por aqui."
"Obrigado, mas hoje está bem tranquilo." Neville apontou para as camas vazias. "Mas... Já que você está oferecendo ajuda, o que acha de me acompanhar até as estufas?"
"Sem problemas." Harry gesticulou para que o amigo fosse em frente.
"Então... Você não tem mais acompanhado o pessoal a Hogsmeade às sextas-feiras?" Neville puxou assunto enquanto caminhavam.
"Não, não tenho." Harry encolheu os ombros. "Parei quando você parou."
"Entendo..." Neville falou e Harry desconfiou do seu tom forçosamente casual. "Acabei indo, ontem. Sabe como é, estava precisando de alguma distração e Hannah me encorajou a ir. Chamei você via Flu para me acompanhar, mas não o encontrei..."
"Ah, sim... Bem, eu... Saí para uma caminhada."
"Claro, claro... Imaginei..." Neville assentiu e ficou calado até que eles saíssem do castelo antes de continuar. "Já ficou sabendo da Penélope?"
"O quê?"
"Você não vai acreditar... Ela se declarou para ninguém menos que Barry Ryan!"
"Sério?" Harry exclamou, genuinamente surpreso, mas provavelmente não pelos motivos que Neville esperava.
"Sério! Ninguém estava acreditando..."
Neville contou como Penélope implorara, no meio de todos os outros professores, para que Ryan desse outra chance a ela, garantindo que daquela vez havia realmente terminado com Myron. Aparentemente, Ryan só cedera depois de muita humilhação por parte da professora de Estudo dos Trouxas. Harry desejou sinceramente que Penélope não estragasse sua chance e que eles fossem felizes.
"Então, o que você quer que eu faça?" Harry perguntou assim que chegaram às estufas.
"Sente-se, Harry." Neville apontou para um banquinho e sentou-se em outro. "Na verdade, eu só gostaria de conversar com você."
"Sobre?" Harry perguntou, desconfiado.
"Sobre ontem à noite," Neville disse e apontou novamente para o banquinho.
Harry suspirou antes de se sentar, sabendo que não teria como escapar, agora que caíra na armadilha do amigo.
"Já disse que estava..."
"Caminhando, sim. Ouvi sua explicação. Acontece que tentei falar com você novamente, quando chegamos, porque fiquei preocupado com você. Queria saber por que você tem me evitado ultimamente..."
"Não tenho evitado você," Harry protestou, mas Neville o ignorou.
"Você não tem mais aparecido nem para o chá com Hagrid e..."
"Estive ocupado com as aulas extras, você sabe disso."
"E pensei que talvez você estivesse precisando conversar com alguém," Neville continuou, sem se abalar. "Quando não encontrei você novamente, pedi que um elfo me avisasse assim que você voltasse, não importando qual fosse o horário. Confesso que já nem me lembrava mais disso esta manhã, passando das sete horas, quando o elfo veio me avisar que você tinha acabado de chegar..."
Harry esfregou os olhos por trás dos óculos antes de suspirar, resignado.
"Está bem, o que você quer saber?"
"O que exatamente está acontecendo entre você e Malfoy?"
"O quê...? Como...? Como você...?" Harry gaguejou ao que Neville meneou a cabeça.
"Harry, Harry... Desde que você chegou em Hogwarts, você está obcecado com ele. E agora... Você está diferente, nas últimas semanas. Não fica mais tentando chamar a atenção dele na mesa de jantar, como se já não precisasse mais disso. E ele está diferente também, está melhorando... Até Hannah reparou nisso. Então, hoje, quando vocês se encontraram na enfermaria, eu sabia que tinha algo estranho e então percebi que faltava aquela tensão característica entre vocês. Como se vocês estivessem mais à vontade um com o outro. Eu sinceramente esperava que você voluntariasse alguma informação para mim quando se sentisse à vontade, mas cansei de esperar, sabe?"
Harry levou algum tempo para digerir todo aquele discurso.
"Está tão óbvio assim?" Acabou perguntando, inconformado.
Neville rolou os olhos.
"Não, não se preocupe. Hannah nem desconfia do motivo para Malfoy ter melhorado tanto em tão pouco tempo."
"Mas não tenho nada a ver com a melhora dele," Harry se defendeu. "Ele tem tomado seus medicamentos certinho. Além do mais, faz apenas duas semanas que nós... Quero dizer..."
"Tudo bem, Harry." Neville pareceu divertido com seu embaraço. "Não quero tirar satisfações suas e nem me importo tanto assim com Malfoy. Só me interessa saber se você está feliz."
Harry refletiu por um momento, olhando para as próprias mãos. Havia se encontrado com Malfoy quase todas as noites, nos seus aposentos ou nos dele. Eles não conversavam muito e, mesmo quando o faziam, era sobre Scorpius. Afinal, não tinham muito em comum além do garoto. Mas, durante a maior parte do tempo que passava com Draco Harry se sentia em casa.
"Acho que sim," concluiu.
"Ótimo." Neville acenou. "E isso é sério?"
"Não sei," Harry admitiu, tornando bagunçar os cabelos. "Estamos apenas deixando as coisas acontecerem. Não chegamos a conversar sobre como vai ser quando deixarmos Hogwarts. Se é que vai ser..." A mera possibilidade de se afastarem fez com que Harry se sentisse desconfortável.
"Tem certeza que está fazendo isso pelos motivos certos, Harry?" Neville soou preocupado e esclareceu melhor, diante da confusão de Harry. "Você não se aproximou dele apenas porque ele está doente, precisando de ajuda? Quero dizer, ele vai ficar bom logo e então...?"
O primeiro impulso de Harry foi o de partir para a defensiva, mas se conteve a tempo.
"Não sei, Neville. Talvez eu realmente tenha me aproximado dele por esse motivo, mas acho que alguma coisa mudou no meio do caminho. Ou talvez isso sempre esteve lá, eu só não conseguia ver antes. Eu realmente não sei... Tem horas que sinto como se conhecesse tudo a respeito dele e, no momento seguinte, é como se fôssemos completos estranhos..."
"Você já contou para Ron ou Hermione?"
"Não. Ainda não."
"Você deveria."
"Eu sei..."
.oOo.
No domingo, Harry chamou por Malfoy pela lareira e encontrou-o de pé em frente a estante de livros atrás da sua mesa. O loiro olhou para ele assim que ouviu o rugir das chamas, mas desviou os olhos em seguida, tirando um dos títulos da estante e abrindo-o.
"Ocupado?" Harry perguntou.
"Um pouco." Draco passou os dedos pelo que parecia ser o índice do livro antes de folheá-lo.
"Ok. Se quiser companhia mais tarde..."
"Você não ia ajudar não sei quem com não sei o quê?" Malfoy guardou o livro novamente e continuou passando os olhos pelos títulos dos livros.
"Hagrid teve um pequeno imprevisto," Harry esclareceu.
"Aceita um chá, então?"
Harry não teria desconfiado da pergunta, não fosse o olhar furtivo que Malfoy lhe lançou antes de tirar outro livro da estante com um meio sorriso no rosto. Desde o Memorial Day, aquela oferta inocente passara a ter outro significado para ambos.
"Claro." Harry afastou a cabeça da lareira apenas para entrar nela em seguida, chegando ao escritório de Malfoy após uma rápida e desconfortável viagem. Preferia evitar se deslocar via Flu sempre que podia, mas tinha que admitir que era a maneira mais discreta que tinham de se encontrar.
"Só um instante," Malfoy falou, continuando com sua busca.
"Sem problemas." Harry limpou a poeira das vestes antes de se aproximar pelo lado oposto da mesa, passando o indicador sobre os títulos. Hermione costumava perguntar se Harry lia pelo tato. "O que você está procurando?"
"Uma receita que terei que fazer até amanhã." Malfoy suspirou ao descartar outro livro. "É uma poção bastante comum, mas tem várias maneiras de se fazer. Estou procurando por uma em especial."
"Quer ajuda?"
"Você pode ferver água para o chá, se quiser," Malfoy continuou com a provocação velada, que Harry resolveu seguir literalmente.
Já estava bastante familiarizado com os aposentos de Malfoy, por isso sabia onde encontrar a chaleira e o serviço de chá. Serviu duas xícaras e levou uma até Draco, que agradeceu. Com uma das mãos ocupada, ele teve que apoiar o livro na mesa para poder folheá-lo, enquanto bebericava.
Harry postou-se às costas de Draco, olhando por cima do seu ombro com a desculpa de espiar o livro. Passou uma das mãos pela cintura de Malfoy enquanto levava a própria xícara aos lábios com a outra.
"Atrapalho?" Harry perguntou inocentemente, deslizando a ponta do nariz pela nuca do loiro e observando-o se arrepiar.
"Sim." Draco soou irritado, porém inclinou a cabeça para o lado para dar mais espaço a Harry.
O moreno pousou a xícara de chá pela metade na mesa para poder enfiar ambas as mãos por dentro da camisa do loiro enquanto se pressionava mais ao seu encontro, encaixando sua semi-ereção entre as nádegas dele.
"Potter, aqui não..." Malfoy tentou protestar, mas Harry acariciou-o por sobre a frente das calças, fazendo com que ele também desistisse de segurar a xícara, tão afetado pelas provocações quanto Harry.
"Nome errado," Harry sussurrou, desafivelando o cinto do loiro e enfiando a mão por dentro da calça dele, segurando seu membro com firmeza. Malfoy ofegou, apoiando-se de encontro ao moreno e virando a cabeça para beijá-lo. Harry segurou-lhe o queixo com a mão livre, o braço encaixado por baixo da axila dele enquanto empurrava a língua para dentro da boca receptiva de Draco.
"Hmm..." Draco murmurou o que poderia ser tanto uma reclamação quanto um encorajamento.
Harry optou pela segunda opção e fez com que Malfoy se virasse de frente, voltando a beijá-lo ao mesmo tempo em que desabotoava sua camisa, revelando o colar de Luna. Descobrira que Malfoy o usava desde o incidente com Scorpius, talvez como uma maneira de reunir coragem para enfrentar seus próprios medos.
Conforme abria-lhe a camisa, Harry tomou algum tempo para beijar-lhe o peito, mordiscando um mamilo enquanto esfregava o dedão no outro até que eles endurecessem. Empurrou-o de encontro à mesa forçando Malfoy a se sentar sobre ela e continuou sua descida, olhando para cima vez ou outra para obter aprovação. Assistiu quando o pomo-de-adão do loiro subiu e desceu, seus lábios se partindo em antecipação ao perceber o que Harry pretendia fazer.
Harry finalmente quebrou o contato visual para beijar a virilha de Draco, aspirando seu cheiro enquanto estimulava seu pênis e testículos sem nenhuma pressa. Já fazia algum tempo que queria provar seu gosto ali, por isso tomou seu tempo lambendo todo o seu comprimento, desde a base até a ponta, envolvendo a glande em seus lábios e sugando, a ponta da língua provando da umidade amarga que escapava do pequeno orifício. Malfoy inclinou o corpo para trás e Harry arriscou um olhar para o alto, surpreendendo seu olhar atento.
"Ah... Harry," Draco gemeu e Harry também gemeu sua aprovação, deslizando os lábios para baixo o máximo que conseguiu sem ter ânsia, fazendo com que Malfoy xingasse com a vibração, enfiando uma das mãos pelos cabelos de Harry para encorajá-lo.
Naquele momento, ouviu-se um ruído que fez o sangue de Harry gelar, largando-o com um barulho úmido. Malfoy praguejou, Harry cambaleou para trás e...
"Dra- Oh meu Deus!" Disse Astoria da lareira, cobrindo a boca com uma das mãos. Em seguida, descobriu a boca para cobrir os olhos. "Oh meu Deus!" Ela repetiu.
Malfoy continuava praguejando, de costas para a lareira, tentando se recompor.
"Sra. Malfoy..." Harry começou assim que encontrou a voz, limpando a saliva que se acumulara nos cantos da sua boca, porém não saberia o que dizer em seguida mesmo se não tivesse sido interrompido.
"Sr. Potter... Draco... Sinto muito... Eu não..."
"Astoria, podemos conversar depois, por favor?" Malfoy falou por entre os dentes cerrados, olhando por cima do ombro enquanto ainda lutava com os botões da camisa.
"Claro... Eu vou... Com licença." Astoria sumiu, sem tirar a mão dos olhos.
"Sinto muito," Harry falou assim que ela saiu, se antecipando à explosão de Draco, que não tardou a vir.
"Seu idiota, o que você estava pensando? E se fosse um dos meus pais? E... E se fosse Scorpius, pelo amor de Deus!" Ele percebeu que os botões estavam desencontrados e tornou a abri-los. "Merda."
"Eu não... Não estava..."
"É claro que você não estava pensando! Você nunca pensa! A pergunta certa é: o que eu estava pensando?"
"Sinto muito, Draco. Você quer que eu converse com ela? Invente alguma coisa...?"
Malfoy riu sem humor.
"O quê? Você vai dizer que minha calça pegou fogo e você estava apagando com a língua? Mesmo se você fosse um bom mentiroso, coisa que não é, não seria nada fácil explicar isso, Potter."
"Tudo bem, então... Melhor eu ir embora, certo?" Harry já se preparava para voltar pela lareira quando Malfoy o segurou.
"Ah, não, não. E me deixar assim?" Ele apontou para a própria calça, sua ereção ainda visível. "Você vai me esperar lá no quarto enquanto eu converso com Astoria e não vai dar nenhum pio. Depois você vai terminar o que começou e só então poderá ir embora, entendeu?"
Harry piscou algumas vezes antes de concordar com a cabeça. Malfoy finalmente conseguira abotoar a camisa e passava as mãos sobre ela para tentar desamassá-la. Harry alcançou a varinha e lançou um feitiço que fez com que o tecido alisasse.
"Agora suma daqui!"
Harry aguardou no quarto enquanto Draco falava com a ex-esposa. Ficou esperando pelo momento em que haveria gritos ou choro, mas nada daquilo aconteceu. Eles pareceram conversar tranquilamente, embora Harry não conseguisse ouvir o que diziam. Pouco tempo depois, Malfoy voltou parecendo mais calmo, embora ainda claramente irritado.
"E então?" Harry perguntou, ansioso.
"Está tudo bem," Malfoy falou, se jogando na cama, fechando os olhos com força e pressionando a ponte do nariz.
"Está tudo bem? Como assim, está tudo bem?"
"Ela já sabia."
"Sério?" Harry se sentou ao lado de Draco. "Você contou para ela?"
"Não precisei. Ela suspeitava desde muito antes de acontecer. Desde o Dia de São Valentim, na verdade."
"Oh..." Harry franziu o cenho. "Então ela já sabia que você é gay?"
"É claro que ela sabia, Potter."
"Ei, você nunca me disse isso!" Harry finalmente se sentiu aliviado o bastante para se aborrecer com a reação do outro. "Achei que ela fosse surtar! Ir para a imprensa ou algo do tipo..."
Malfoy suspirou.
"Ela não é esse tipo de pessoa" ele falou, então sorriu ironicamente. "Eu devia ter desconfiado que você teria sorte até para isso, Potter. De todas as pessoas que poderiam ter nos visto, ela é a mais segura."
"Se você diz..."
Eles ficaram em silêncio por algum tempo antes que Harry se deitasse ao lado do loiro, encarando o teto.
"Há quanto tempo ela sabe sobre você?" Harry perguntou, genuinamente curioso.
"Ela suspeitava antes de Scorpius nascer, mas só me confrontou um ano depois. Não que tenha sido muito difícil perceber, já que eu precisava estar bêbado para que alguma coisa acontecesse entre nós. E, como eu dificilmente estava em casa, a probabilidade de estar em casa e bêbado era ainda menor," disse Draco, sarcástico. "A pessoa não precisa ser muito esperta para desconfiar. E garanto que Astoria não é nada boba. Mas ela nunca se fez de vítima nem ameaçou contar para ninguém."
"E você saía com outros caras enquanto vocês..."
"Não, não, claro que não!" O loiro ergueu o corpo para encará-lo, incrédulo. "Que tipo de pessoa você acha que sou, Potter?"
Harry se desculpou e Malfoy tornou a se deitar.
"Ela se tornou minha melhor amiga," Draco admitiu. "Então começamos a planejar nosso divórcio." Ele soltou o ar pelo nariz.
"E como ela suspeitou sobre nós dois desde tão cedo?"
"Bem, vejamos. Você passou o Dia de São Valentim comigo e com meu filho, depois passou a noite na minha sala. Seminu, segundo ela. Não, não posso imaginar o motivo," ele ironizou.
"Eu não estava seminu," Harry se defendeu. "Seu pijama ficou um pouco apertado, só isso."
"Bem, não importa. O fato é que ela desconfiava desde então. E, como recentemente parei de me defender das acusações dela, ela simplesmente soube que era verdade."
Harry repassou a conversa que tivera com Astoria naquela noite e as coisas começaram a fazer mais sentido.
"Você namorou Pansy, no sexto ano, não namorou?"
"As pessoas estavam começando a desconfiar," Draco falou. "Todos os meus colegas tinham namoradas ou rolos, eu não poderia ser a exceção sem levantar suspeitas."
"Pansy não sabia, então?"
"Não."
"Mas você nunca ficou com nenhum garoto, na época?"
"Não confiava em ninguém para manter segredo. Nas outras Casas, se assumir não deve ser nada extraordinário, mas para famílias de sangue puro como a minha..." Draco suspirou.
"Seus pais não sabem, então?"
Malfoy encolheu os ombros.
"Se suspeitam, nunca me perguntaram. Afinal, não é como se eu tivesse me recusado a cumprir minhas obrigações."
Harry não concordava que 'casar e ter filhos' pudesse ser enquadrado em 'obrigações', mas achou melhor não comentar. Entretanto, Malfoy interpretou erroneamente seu silêncio.
"Se você está se perguntando se eu já me relacionei com outros caras, a resposta é sim. Depois que deixei Hogwarts e antes de me casar, viajei bastante pela Europa. Meu sobrenome não é tão conhecido fora da Grã Bretanha. Exceto, talvez, na França, de onde vieram as antigas gerações da minha família. Lá fora, eu podia ser qualquer um, fazer qualquer coisa, sair com quem quisesse... Foi como tirar um peso das costas. Eu realmente achava que poderia viver o resto da minha vida como um pai de família, depois disso." Ele riu da própria ingenuidade.
"E agora?" Harry perguntou, virando-se de bruços para encará-lo. Na pressa de se vestir, Draco havia deixado o colar de Luna para fora da camisa. "Você se sente livre para ser você mesmo?"
"Como assim?"
"Bem, você mesmo disse que já cumpriu suas obrigações. Não acha que está na hora de viver sua própria vida? Correr atrás daquilo que faz você feliz?"
"Não é tão simples quanto parece, Potter." Malfoy franziu o cenho.
"Draco..." Harry falou, com seriedade. "Você aceita sair comigo? Quando o ano letivo acabar?
"Sair...? Num encontro, você diz?" Malfoy levantou a cabeça, incrédulo.
"Sim."
"Você ficou maluco?" Malfoy se sentou e Harry fez o mesmo.
"O quê? Não é loucura nenhuma..."
"Olhe para nós! Você não pode estar falando sério."
"E por que não?"
"Potter..." Draco abriu a boca e tornou a fechá-la antes de menear a cabeça. "Isso nunca daria certo. Nós nunca daríamos certo!"
"Não, Draco! Eu é que digo: olhe para nós! Nós temos dado certo!"
"Na cama! Só na cama! Um relacionamento é muito mais do que isso, Potter."
"Por isso estou fazendo o convite! Quero que seja muito mais que isso... Você não quer?"
"Se eu quero...?" Malfoy passou uma mão pelos cabelos. "E quanto à imprensa? Você não está pensando que nós dois passaríamos despercebidos em Londres, está? E não estou falando só de um artiguinho da Skeeter, estou falando de um verdadeiro escândalo!"
"Não me importo com a isso. Se quiser, posso dar uma declaração hoje mesmo para Rita Skeeter."
"E quanto aos seus amigos? E minha família?" Ele meneou a cabeça. "E quanto a Scorpius?"
"O que é que tem Scorpius? Ele ama você e vai ficar feliz se você também estiver. Além do mais, não é como se ele não gostasse de mim ou muito menos o contrário."
"Meu Deus, você soa exatamente como Astoria..." Malfoy falou e Harry abriu a boca para dizer que aquilo só poderia significar que estava certo, porém foi interrompido com firmeza. "Não, Potter, pare! Não diga mais nada. Nós realmente estávamos nos dando certo até você abrir a boca e estragar tudo!"
"Tudo bem, não está mais aqui quem falou. De novo, não quero pressionar você. Prometo não tocar mais no assunto, por enquanto. Vou manter minha boca bem fechada." Ele fez uma pausa. "Ou bem aberta, se você preferir."
Eles se encararam por alguns longos segundos antes que Malfoy o trouxesse para um beijo feroz. Harry fez com que ele se deitasse e se empenhou em terminar aquilo que começara na mesa do escritório.
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No domingo, Malfoy decidiu ir para casa via Flu, passar algum tempo com Scorpius. Por isso Harry não teve desculpas para não aceitar o pedido de Ron para ajudá-lo com alguma coisa na loja, que Harry não prestara muita atenção sobre o que se tratava. Eles haviam se falado algumas vezes durante as últimas semanas, mas Harry fora bastante evasivo quanto às perguntas dos amigos, colocando a culpa na correria de final de ano. Ron e Hermione haviam se mostrado bastante compreensivos, mas Harry sabia que cedo ou tarde eles acabariam desconfiando que ele estava escondendo algo. Afinal, como Malfoy dissera, Harry não era um bom mentiroso.
A loja estava fechada, como a maioria dos estabelecimentos do vilarejo. Porém, assim que Harry bateu na porta, ela se abriu e a cabeça ruiva de Ron logo apareceu pela fresta.
"Ei, Harry! Entre, entre..."
Harry aceitou o convite e logo percebeu que a loja estava bastante movimentada, com caixas e objetos flutuando por todos os lados.
"Desculpe a bagunça, estamos fazendo levantamento de estoque," Ron se desculpou. "Ei, Tate, cuidado com isso! Se derrubar, vou descontar do seu salário!"
"Quer ajuda?" Harry se prontificou, já buscando pela varinha. Porém Ron dispensou sua oferta com um aceno.
"Não se preocupe. Eles estão dando conta. Só estou aqui para supervisionar, na verdade. Mas ficaria feliz em fazer uma pausa para o lanche. O que acha de irmos ao Três Vassouras?"
Ciente de que acabara de cair em outra armadilha, por mais bem-intencionada que pudesse ser, Harry aceitou o convite e eles seguiram para o pub enquanto Ron o atualizava sobre as mais recentes peripécias dos seus afilhados com uma empolgação um tanto exacerbada. O assunto rendeu até a chegada dos seus pedidos - Ron pedira algumas porções bastante generosas de petiscos para acompanhar suas doses de cerveja amanteigada. Depois, foi a vez de Harry contar sobre os acontecimentos de Hogwarts e ele logo descobriu que não havia muito a dizer.
"Parece entediante," Ron falou com a boca cheia de batatas. "Mas falta pouco para você voltar para a ativa. E para Amabel, claro..." Ron agitou as sobrancelhas sugestivamente.
Harry suspirou e bagunçou os cabelos.
"Ron... Tem uma coisa que preciso contar para você..."
"Até que enfim!" Ron finalmente pareceu mais interessado no que Harry tinha a dizer do que na comida. "Pensei que você não ia contar a parte mais interessante nunca!"
"Como assim?" Harry franziu o cenho e Ron rolou os olhos.
"Harry, conheço você muito bem. Sei que você não ficaria todo esse tempo em Hogwarts sem arrumar alguma coisa interessante para fazer, além de ficar de babá para adolescentes. E você tem estado muito quieto ultimamente."
"Você andou conversando com Neville?" Harry desconfiou.
"Claro que andei! Você não tem falado mais com a gente! Mas não precisa fazer essa cara, ele não quis contar o que está acontecendo. Pediu para eu perguntar para você. E então? Quem é?"
"Errr..." Harry piscou algumas vezes, completamente perdido com a reação do amigo, que segurou seu braço por sobre a mesa, suas maneiras subitamente sérias.
"Cara, você sabe que não precisa esconder nada de mim, certo? Somos melhores amigos! Pode contar comigo para o que for!"
"Ron..." Harry estreitou os olhos, desconfiado, encarando atentamente as íris azuis de Ron e percebendo que elas estavam mais escuras que o normal. Ele também estava mais corado e inquieto, só agora Harry reparava. "Você andou bebendo?"
"Não, claro que não!" Ele riu nervosamente, mas acabou encolhendo os ombros diante da incredulidade de Harry. "Está bem, talvez eu tenha tomado umas duas doses de Uísque de Fogo. Mas você está fugindo do assunto."
"Ron... Não sei se é uma boa ideia..." Harry olhou ao redor, cogitando a possibilidade de pedir para embrulharem a comida para que pudessem sair logo dali.
"Harry, qual é! Você realmente acha que me importo que você saia com outros caras?"
"Merda, Ron..." Harry alcançou a varinha rapidamente e lançou um Feitiço de Confusão ao redor deles, apesar de o pub estar pouco movimentado e eles estarem a uma distância segura de qualquer ouvinte indesejado.
"É sério, não me importo," Ron continuou, um tanto enfaticamente. "Quero que você seja feliz, com quem quer que seja. Mas... Por favor, me diga que é com Barry Ryan que você está saindo. Porque senão a única outra opção..."
"Ryan? Não, claro que não!" Harry se indignou, visualizando o rosto sardento do ex-jogador de quadribol, ao que Ron gemeu e segurou a cabeça nas mãos.
"Ah, cara..."
"Espere um momento, se Neville não contou nada, então como..."
"Bem..." Ron passou as mãos pelos cabelos, parecendo mais sóbrio e também bem menos empolgado. "Depois daquele artigo da Skeeter, percebi que você evitou responder à minha pergunta diretamente e então comecei a me lembrar de algumas... evidências, digamos assim. Lembra de Hilliard?"
"Ah... sim." Harry ajeitou os óculos no rosto, um tanto sem graça. "Achei que você não tinha notado aquilo..."
Robert Hilliard fora um dos instrutores do Treinamento preparatório que haviam feito para se tornarem aurores. Ele era responsável pelo preparo físico dos candidatos e Harry costumava surpreender a si mesmo admirando o corpo do homem nos momentos mais inoportunos. Hilliard jamais demonstrara qualquer sinal de corresponder aos olhares de Harry, mas nem por isso Harry deixava de perder a concentração toda vez que ele se aproximava.
"Na verdade, naquela época não parei muito para analisar a situação," Ron continuou. "Afinal, não tinha nenhum motivo para desconfiar. Você estava namorando minha irmã, pelo amor de Deus! Mas não foi apenas Hilliard. Teve também aquele barman em Dublin que ficou flertando com você - e agora me pergunto se você não estava flertando de volta. E o primo distante de Fleur que eu esqueci o nome..."
"Leroy," Harry falou, antes que se controlasse. O primo em segundo grau de Fleur se mostrara bastante interessado em Harry, mas era muito jovem e estava empolgado demais com sua fama para que Harry o levasse a sério.
"Ah, e claro, teve Malfoy durante todo o sexto ano..."
"Ei, não acredito que o meu interesse por ele naquela época tivesse alguma conotação desse tipo..."
"Talvez não conscientemente?"
Aquilo soou tão estranho vindo da boca de Ron, que Harry estreitou os olhos.
"Foi Hermione quem descobriu, não foi?"
"Não, não, eu... Bem..." Ron encolheu os ombros. "Talvez ela tenha feito com que eu chegasse mais rápido às conclusões. E talvez eu tenha surtado um pouco quando isso aconteceu, mas... Isso é passado agora." Ele deu um sorriso amarelo, suas orelhas mais vermelhas que nunca. "Bem, eu ainda tinha esperanças de que fosse Barry. Quero dizer, não sei o que você pode ver de atraente num cara, mas ele não é feio."
"Para quem gosta de irlandeses, talvez," Harry falou.
"E Malfoy talvez seja bonito para quem gosta de doninhas albinas," Ron ironizou, tomando um ruidoso gole de sua cerveja amanteigada e limpando a boca na manga da blusa. "Sério, o que foi que você viu nele, afinal?"
"Não sei, Ron," Harry falou, ainda sem ter assimilado totalmente o fato de que estava tendo aquela conversa com o melhor amigo e que ele não estava surtando. "Mas a verdade é que nunca consegui ignorá-lo. Ele mexe comigo de uma maneira que não sei explicar."
"Gahh! Melhor nem tentar explicar então," Ron falou, tomando mais um gole da sua cerveja. Ele parecia ter perdido o apetite, a julgar pela careta que fez para a comida, empurrando o prato de batatas fritas para longe. "Cara, não vou negar que estou com certa dificuldade de acreditar nisso. Vocês dois, sabe? Não é como se tivessem muita coisa em comum, se é que têm alguma coisa..."
"Eu sei. Às vezes também não acredito."
"E o que vocês têm... É sério?"
Harry suspirou, ainda sem ter uma resposta para aquela pergunta.
"Não sei... Ele não quer que as pessoas fiquem sabendo. Principalmente Scorpius e os pais dele. E não sei se quero um relacionamento secreto."
"Talvez você devesse conversar com Hermione." Ron fez uma careta. "Não sou muito bom em conselhos amorosos. Ou qualquer tipo de conselho, na verdade. Sinceramente, não sei o que poderia dizer para ajudar, cara..."
"Você já está fazendo muito apenas por compreender, Ron," Harry assegurou.
"Sou seu melhor amigo, Harry." Ron tornou a encolher os ombros. "Ou era, até Malfoy entrar em cena novamente..."
Harry sorriu.
"Malfoy não está competindo com você por esse posto, Ron."
"Nem eu estou competindo com o dele," Ron espalmou as mãos e então suspirou também. "Neville disse que ele está lidando bem com tudo o que aconteceu," ele comentou. "Com Scorpius, quero dizer."
"Sim. Ele é mais forte do que parece."
"Bem, melhor comermos logo isso!" Ron se animou novamente esfregando as mãos para os petiscos e Harry o ajudou a acabar com a comida. Não que o ruivo precisasse de muita ajuda...
Naquela mesma noite, Hermione procurou por Harry via Flu e eles conversaram por um longo tempo sem que Harry conseguisse chegar a nenhuma conclusão sobre o que deveria fazer. Hermione também achou prudente não pressionar Malfoy, já que ele estava passando por uma fase difícil e precisaria de todas as suas forças para se recuperar. E precisaria, principalmente, do apoio da família, por isso Harry não poderia correr o risco de prejudicá-lo naquele sentido.
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A rotina de Harry continuou sem muitas alterações até o final de maio, quando os exames finalmente começaram. Os examinadores chegaram para uma estadia de duas semanas e os quintanistas e setimanistas lotavam os corredores das salas das provas enquanto aguardavam sua vez, apresentando diversos estágios de nervosismo e ansiedade. Entre os examinadores estava Griselda Marchbanks, mãe do já idoso professor de Transfiguração, Cosmo Marchbanks. Apesar da idade avançada, ela parecia estar em melhores condições que o filho.
Além dos N.O.M.s e N.I.E.M.s, havia ainda os exames regulares dos demais alunos, por isso Harry mal via o tempo passar. Quando deu por si, a primeira semana de junho já havia terminado e a próxima seria a última do ano escolar. Várias turmas haviam feito arrecadações para comprar presentes de despedida para Harry, por isso seu quarto estava repleto de cestas e embrulhos que Harry não tivera tempo de guardar antes que Malfoy aparecesse sem nenhum aviso prévio.
"E o que diabos é aquilo?" Draco falou, com um lado do rosto acomodado no ombro nu de Harry enquanto este deslizava a mão por suas costas numa carícia preguiçosa.
"Não tenho muita certeza," Harry admitiu. "Eles disseram que é um massageador mágico para os pés, mas ainda não tive coragem de testá-lo." O aparelho emborrachado lembrava uma boca monstruosa e emitia um zumbido assustador, de tempos em tempos.
"Primeiranistas?"
"Não. Terceiranistas sonserinos."
A risada de Malfoy balançou o colchão.
"Por que você ainda não se livrou disso?" O loiro perguntou, ainda se divertindo.
"Porque seria falta de consideração?" Harry se defendeu, apesar de também estar se divertindo. "Está bem." Ele alcançou a varinha de Malfoy no criado tomando o cuidado de não desalojar o outro e agitou-a, fazendo com que o objeto sumisse. "Não conseguiria dormir com isso no quarto, de qualquer maneira."
Draco suspirou e fez pequenos círculos com a mão que repousava no estômago de Harry. Debaixo das cobertas, suas pernas estavam emboladas de uma maneira surpreendentemente confortável. Desde que recuperara sua antiga varinha, Draco havia aposentado a nova. Quando Harry perguntou o motivo daquilo, o loiro disse que não via diferença na performance das duas e que, de qualquer modo, não se acostumara totalmente com a varinha substituta.
"Você ganhou algum presente dos alunos?" Harry perguntou, curioso.
Além de não ser o único a estar deixando Hogwarts naquele ano, Harry descobrira por acaso que o professor de Poções fazia aniversário naquele sábado, por isso ficara surpreso quando este apareceu no seu quarto à noite. Imaginava que Draco preferiria não deixar seus aposentos para o caso de alguém aparecer de última hora para parabenizá-lo.
"Alguns," Malfoy falou, sem dar muita importância ao assunto. "Chocolates, em sua maioria. Pensei em dar para Scorpius, mas preciso checá-los primeiro para ter certeza de que são seguros. Segurança nunca é demais, quando se trata de sonserinos."
"Imagino... Também estou pensando em distribuir os meus entre meus afilhados."
"Imagino que não vá sobrar muito para cada um deles," Malfoy ironizou e Harry cutucou sua cintura.
"Ei, são apenas três, está bem?"
"Apenas três? Hnf... Já estou imaginando o que espera por Scorpius em Hogwarts. Ainda bem que estou saindo antes que a escola fique coalhada de ruivos sardentos..." Draco fingiu um arrepio.
"E está saindo bem a tempo! Victorie começa no próximo ano... Aliás, aposto que você já sabia disso e inventou um monte de desculpas sobre querer se aproximar de Scorpius, quando na verdade você só está saindo para fugir de ter que dar aulas para um Weasley."
"Na verdade, estou fugindo dos 'Harry's," Draco falou e Harry o encarou, questionador. "Honestamente, você não reparou na quantidade de 'Harry's entre os primeiranistas?"
"Ah, sim," Harry sorriu. Malfoy se referia à quantidade de bebês batizados de Harry em sua homenagem logo após o final da guerra.
"Sério, em alguns anos, se alguém gritar 'Harry' no salão comunal, metade de Hogwarts vai atender."
"Não exagere..." Harry riu. "Pensando por esse lado, então talvez eu é que esteja fugindo desse pesadelo."
"Claro, claro," Draco concordou, sarcástico. "Porque não temos problemas maiores para nos preocuparmos do que os nomes e sobrenomes dos alunos."
"E, por falar nisso, como vai o tratamento?"
"Ainda funcionando."
Draco grunhiu e fechou os olhos quando Harry começou a acariciar os cabelos curtos da sua nuca. Harry sorriu ao comparar aquela reação com um gato preguiçoso ronronando. Havia algo diferente nele que era difícil não notar. Ele continuava sério e rabugento a maior parte do tempo em que não estavam sozinhos, mas sua postura estava mais relaxada, sua aparência mais saudável e até seu humor estava menos irritadiço. Seu corpo já não estava mais tão anguloso, com apenas um ou outro osso ressaltado através da pele pálida dos seus quadris, ombros e costelas. Seus olhos se acendiam quando ele falava de Scorpius, ao contrário de antes. Além disso, nas primeiras noites era comum Draco acordar de algum pesadelo durante a madrugada, ofegante e angustiado. Porém já fazia algumas semanas que aquilo não acontecia. Hannah também havia notado a melhora do seu paciente e estava bastante confiante de que não havia mais motivo para preocupação, contanto que ele continuasse com o tratamento pelo tempo que fosse necessário.
Harry já estava se perguntando se Draco havia adormecido quando ele voltou a falar numa voz sonolenta.
"Eu devia ir embora..."
"Você deveria ficar..." Harry sussurrou de volta. "Amanhã é domingo. Não temos mais muito tempo..."
Draco ficou em silêncio por algum tempo antes de levantar a cabeça para encará-lo. Harry sentiu as próprias entranhas se contraírem diante daquela visão do rosto de Draco tão próximo do seu. Queria puxá-lo para si e beijá-lo até esquecer todas as próprias preocupações a respeito da separação, cada vez mais próxima.
Felizmente, não precisou tomar nenhuma providência quanto àquilo, já que foi Draco quem o beijou. Primeiro lentamente, depois com mais vigor, até que ambos estivessem ofegantes novamente, o cobertor descartado ao lado da cama, a ereção de Draco pressionada contra sua coxa.
"Pensei que você estivesse com sono," Harry falou virando-se para ficar de frente para o loiro, empurrando o próprio membro ao longo do dele.
"Eu estava," Draco respondeu beijando o maxilar e o pescoço de Harry e trazendo-o para mais perto, os dedos enterrando-se na base da sua coluna.
Harry se afastou apenas para alcançar o lubrificante e espalhá-lo entre seus corpos, tornando a fricção mais prazerosa. Eles se balançavam enquanto se beijavam, as mãos explorando o corpo um do outro com familiaridade, sabendo exatamente onde tocar e antecipando cada uma das reações. Nenhum dos dois parecia ter pressa, rolando na cama e trocando de posição a todo o momento, adiando o inevitável. Harry beijou cada pedaço de pele que conseguiu alcançar antes de ceder o controle para Draco, apenas para tomá-lo novamente em seguida, estimulando a ambos com uma só mão.
"Agora," Draco pediu, ofegante. "Vamos."
Harry segurou a base do próprio pênis com força para aliviar um pouco do aperto em suas bolas. Já ia alcançar o lubrificante quando Draco bateu em sua mão, meneando a cabeça.
"Ande logo com isso," o sonserino disse, alcançando sua ereção e guiando-o para dentro dele com firmeza. Ele ainda estava um pouco relaxado e lubrificado, mas Harry grunhiu diante do aperto e do calor que o envolveram, incapaz de conter os movimentos do próprio quadril.
Harry mudou de ângulo de novo e de novo até encontrar o lugar certo, assistindo conforme a respiração de Draco falhava antes de ele soltar um palavrão, alcançando o próprio pênis e começando a se estimular no mesmo ritmo com que Harry atingia sua próstata.
Quando enfim terminou, Harry não sabia precisar se durara horas ou alguns breves segundos, mas aquela angústia permanecia em suas entranhas, mesmo enquanto adormecia nos braços de Draco. E ainda estava lá pela manhã, quando acordaram lado a lado.
.oOo.
Terminado o último dia de aula, Harry aproveitou o tempo antes do banquete de encerramento do ano para arrumar suas coisas. Teve que encolher alguns itens, já que estava levando muito mais coisas do que trouxera, com todos os presentes que ganhara. Limpou uma poeira inexistente do Mapa do Maroto antes de guardá-lo cuidadosamente na lateral do malão. Não precisara dele nas últimas semanas, já que mantivera contato com Malfoy regularmente. Mas teria que se acostumar com a ideia de não poder mais confiar no Mapa para encontrá-lo sempre que quisesse. Aliás, teria que se acostumar com muitas coisas...
Continuou guardando seus livros no malão até que um papel caiu do meio deles. Abaixou-se para pegar. Era um cartão de despedida com a imagem de uma coruja voando com um bilhete no bico, onde se lia 'Até breve!'. Não se lembrava de ter visto o cartão anexado a nenhum dos presentes que recebera. Abriu-o para ler a curta mensagem em seu interior.
'Boa sorte.
Brick Gibbon.'
Harry sorriu para o cartão, meneando a cabeça. Antes que tivesse tempo de pensar melhor em todo o significado contido naquelas poucas palavras, alguém bateu em sua porta. Teddy o aguardava do lado de fora com um embrulho nas mãos.
"É para você," ele disse um tanto incerto assim que Harry o convidou para entrar.
"Para mim?" Harry se admirou. "E qual é a ocasião?"
"Sua despedida, ora essa," o garoto soou impaciente e irritado ao mesmo tempo. Ele já ia se sentar na poltrona em frente à lareira quando algo chamou sua atenção e ele se aproximou dos porta-retratos que Harry havia encaixotado, porém não tivera tempo de fechar a caixa. "O que ele está fazendo aqui?" Teddy apontou para um porta-retrato com um recorde de jornal em preto e branco onde Harry aparecia com Scorpius sobre os ombros.
"Ele se chama Scorpius e é filho de um amigo meu," Harry falou desaprovando o tom ciumento do afilhado. "Não tenho que dar satisfações sobre isso para você, mas acontece que me importo com ele, como tantos outros que estão aí. E, não sei se você reparou, mas existem mais fotos suas nessa caixa que de todos os outros juntos."
Teddy se sentou na poltrona, cruzando os braços.
"Não vai abrir logo seu presente?" O garoto perguntou e Harry suspirou, ajeitando os óculos.
"Está bem, está bem..." Harry sorriu ao abrir o embrulho. Dentro dele, havia uma xícara de chá personalizada. De um lado, lia-se 'Melhor professor do ano!', do outro 'Melhor padrinho do mundo!', as palavras decoradas com confetes coloridos que caíam magicamente.
"Você gostou?" Teddy perguntou, incapaz de esconder a expectativa na voz.
"É claro que gostei!" Harry assistiu enquanto o garoto relaxava. "Mas você não precisava se incomodar, Teddy..."
"É claro que precisava! Você acha que é fácil competir com o resto da escola?" Teddy cruzou os braços, novamente emburrado.
Harry teve que conter a vontade de rir. Depositou a xícara na mesa e foi se sentar no braço da poltrona que Teddy ocupava.
"Ei, você está certo. Seria uma competição injusta. Mas não pelos motivos que você pensa. Eles foram meus alunos durante este ano, mas já não haverá mais nenhum vínculo entre nós a partir de hoje. Eles se esforçaram bastante para não serem esquecidos. Enquanto isso, você será sempre meu afilhado."
Aquilo desarmou Teddy, que se jogou contra o encosto da poltrona.
"É, acho que você tem razão... Não tenho mesmo com quê me preocupar. Quero dizer, pelo menos até você resolver casar e ter filhos."
Harry piscou algumas vezes, momentaneamente sem reação.
"E por que você teria que se preocupar caso eu resolvesse casar e ter filhos, Teddy?"
"Porquê então você vai ter a sua própria família." Teddy encolheu os ombros. "E eu serei só mais um dos seus afilhados."
"Teddy..." Harry meneou a cabeça e então se sentou na mesinha de centro ao lado da caixa com seus pertences para encará-lo nos olhos. "Você nunca será 'só um dos meus afilhados'. Nós dois compartilhamos algo que ninguém mais entende nem nunca vai entender. Ninguém sabe como é crescer sem os pais. Se bem que, na sua idade, eu teria dado tudo para ter uma avó e um padrinho que cuidassem de mim."
Aquilo fez com que Teddy baixasse a cabeça, envergonhado.
"Você é especial para mim, Teddy. E vai continuar sendo especial mesmo se eu tiver meia dúzia de filhos. Você é minha família, independente de qualquer vínculo sanguíneo. Assim como os Weasley. Nada nem ninguém vai mudar isso, entendeu?"
Teddy parecia bastante interessado numa pequena mancha em sua calça, mas acabou assentindo.
"Ok. Vamos combinar uma coisa desde já," Harry continuou. "Pode ser que eu nunca me case ou tenha filhos. Mas, se eu tiver, então você será como um irmão mais velho para ele ou ela. Tudo bem?"
"Tudo bem, eu acho." Teddy tentou parecer desinteressado, mas havia uma centelha de esperança em seus olhos que Harry não falhou em reconhecer.
"Você gostaria de ter um irmãozinho?"
"Bebês são chatos," Teddy desdenhou.
"Bebês crescem." Harry apertou o nariz do afilhado. "Tenho certeza que você se sairia um ótimo irmão mais velho. Mas agora pare de se preocupar com isso, está bem?"
"Ok."
Harry tornou a examinar sua caneca nova, percebendo que as letras mudavam de cor gradualmente.
"Seu pai foi o melhor professor que já tive, sabe? Fico feliz em poder ter retribuído para o filho dele."
"Ah, Harry," Teddy gemeu. "Ano que vem vai ser um saco..."
"Olha a língua," Harry falou em tom de aviso.
"Mas é verdade! Você não vai estar aqui, provavelmente vão colocar algum velho chato no seu lugar como o Prof. Marchbanks e a Prof.ª Vielmond ou a velha Baths..."
"Teddy..." Harry repreendeu, mas o garoto não lhe deu ouvidos.
"Com Poções também não será muito diferente. Quero dizer, Mal... o Prof. Malfoy não era o mais simpático dos professores, mas ele sabia nos deixar motivados, nem que fosse por medo do que aconteceria se não entregássemos nossos deveres..."
Naquele ponto Harry riu.
"Está bem, já entendi. Ano que vem será mesmo um martírio, pelo jeito. Mas não sofra por antecipação. Teremos o verão inteiro antes de você passar por qualquer uma dessas provações novamente. Pelo menos você poderá se inscrever para o time de quadribol da Corvinal no próximo ano. Haverá dois lugares para artilheiro e um para batedor, certo?"
"Acho que sim," Teddy concedeu, de má vontade.
"Além disso, você sabe que pode contar comigo para o que for, não sabe?"
"Você sempre diz isso, mas quando precisei de uma ajuda para o teste de História da Magia, você se negou a ajudar."
"Pegar o rascunho da prova da mesa da professora dificilmente se qualificaria como ajuda, Teddy." Harry meneou a cabeça, divertido. "Além do mais, você se saiu muito bem sem precisar trapacear."
"Mas poderia ter me saído melhor, ora!" Teddy fez bico.
"Claro, claro..." Harry bagunçou carinhosamente os cabelos do afilhado. "Ei, eu convidaria você para um chá para estrear minha caneca nova, mas temos um banquete para atender e estou ansioso por isso, apesar de a decoração não ser de muito bom gosto..."
Teddy se indignou com aquilo, dizendo que Harry só estava com inveja pela Corvinal ter ganhado a Taça das Casas. Depois daquilo, eles desceram juntos para o jantar.
.oOo.
"Isso, Harry... Isso... Mais rápido," Draco instigou, a voz abafada contra o colchão e Harry obedeceu, apoiando as mãos ao lado do tronco do loiro e investindo contra ele num ritmo mais acelerado.
Draco estava deitado com as costas voltadas para Harry e o quadril suspenso da cama por um travesseiro. Harry aproveitou para distribuir beijos na nuca e no pescoço do loiro, sentindo o sal em sua pele suada.
"Estou quase lá, Draco..." Harry avisou, mas sabia que não era o único, a julgar pela maneira como Draco se movia ao seu encontro e pelas palavras sujas que escapavam da sua boca cada vez que Harry atingia sua próstata.
Logo Draco jogou a cabeça para trás com um gemido, seus músculos se contraindo quase dolorosamente conforme ele gozava. Então foi a vez de Harry xingar, seu membro pulsando a cada jato de sêmen. Moveu-se mais algumas vezes antes de se largar sobre Draco, respirando pesadamente contra sua nuca.
"Vou sentir falta disso," Harry admitiu depositando um último beijo no pescoço de Draco antes de rolar para o lado, arrancando outro gemido do loiro, que mantinha os olhos fechados e a testa vincada.
Harry jogou um braço por cima dos olhos e suspirou. Eles ficaram em silêncio durante algum tempo até Draco se virar de lado alcançando a varinha para um rápido feitiço de limpeza e apoiar a cabeça na curva do pescoço de Harry. Ele ensaiou algumas vezes antes de finalmente murmurar:
"Nós poderíamos continuar nos encontrando... Se você quiser, claro."
Harry suspirou. Estivera ansiando e temendo por aquele momento durante os últimos dias.
"E quanto a Scorpius?" Harry perguntou, retirando o braço de sobre os olhos para encará-lo. "Ele estará morando com você a maior parte do tempo, não?"
"Semana sim, semana não," Draco assentiu. "Você poderia ir quando ele não estiver. Ele não precisa ficar sabendo..."
Relutante, Harry se sentou na cama, desalojando-o no processo. Esfregou a mão nos olhos.
"Sinto muito, Draco. Não consigo mais fazer isso..."
"Fazer o quê?" Malfoy também se sentou, confuso.
"Esses encontros escondidos. Não é o que eu quero para mim. Talvez... talvez seja melhor nós nos separarmos de uma vez." Aquelas palavras foram tão difíceis de serem ditas que Harry demorou a perceber a expressão traída de Draco, que se levantou, praguejando. "Draco..." começou, mas foi interrompido pelo tom ríspido do outro.
"Esqueça que eu sequer sugeri isso, Potter."
"Certo," Harry murmurou, meneando a cabeça. "Voltei a ser 'Potter' novamente."
Mas Draco não pareceu escutar aquilo, procurando pelas próprias roupas.
"Não sei por que me dei ao trabalho, na verdade. É óbvio que sua decisão já estava tomada."
"E por que é tão óbvio assim?" Harry perguntou, antes que conseguisse se conter.
"Porque você sabe que não pode ser de outro jeito!" Draco elevou o tom de voz. "Você sabe que não posso... Maldição!" Ele quase se desequilibrou ao se levantar para terminar de vestir a calça. "E agora você tem uma desculpa para terminar com tudo, quando na verdade..."
"Quando na verdade o quê?" Harry instigou, já perdendo a paciência. Começou a procurar pelas próprias roupas também. "Vamos, complete o pensamento já que você me conhece tão bem!"
"Você sabe que estou melhorando!" Draco completou, vestindo a camisa. "Sabe que não preciso mais de você para cuidar de mim mesmo! E agora vai procurar outra pessoa quebrada para poder consertar!"
"Não acredito...!" Harry se indignou, assim que recuperou a voz. "Você consegue ouvir a si mesmo?"
"É isso mesmo, Potter. Fique tranquilo, não preciso mais de você. Estou fora de perigo, agora."
"Ora, cale a boca!" Harry explodiu. "Não sei se você chegou a cogitar essa hipótese, mas nem tudo é sobre você, Malfoy," ele devolveu as palavras que o loiro havia jogado na sua cara não muito tempo atrás. "Não posso forçar você a querer o mesmo que eu, mas também não sou obrigado a sacrificar o que quero para que você continue se escondendo atrás da própria sombra! Quero um relacionamento de verdade, quero construir minha própria família, assim como você tem a sua. E, como você mesmo tão sabiamente disse, isso que temos não passa de uma foda casual, certo?"
"Não coloque palavras na minha boca, Potter..."
"Não, claro que não, Malfoy. Você prefere que eu coloque meu pau na sua boca e depois me esconda debaixo da cama até você precisar de mim novamente, longe dos olhos da sua família ou de qualquer outra pessoa..."
"Ora, seu..." Draco fechou as mãos em punhos.
"Mas, sabe de uma coisa?" Harry se aproximou, apesar da pose ameaçadora do outro. Não tivera tempo de vestir nada além da cueca enquanto Malfoy estava quase totalmente vestido, mas pouco se importava com aquilo. "Também estou gastando meus argumentos à toa. No fundo, você também já sabia que eu não aceitaria isso. Afinal, nós dois nunca daríamos certo, não é mesmo? Mas, se você acha que vou carregar a culpa pela nossa separação, está muito enganado. É você quem está sabotando isso sem nem mesmo me dar uma chance..."
"Como você ousa...!" Draco partiu para cima dele, mas Harry segurou seus punhos antes que ele o acertasse, mantendo-o perto de si.
"Você sabe que estou certo, Draco. Custou para que eu derrubasse suas barreiras, mas você nunca me deixou derrubar a última. Esta aqui." Harry colocou as mãos dele sobre o próprio coração. "Esperei até agora, mas não consigo mais."
Draco se libertou do seu aperto, afastando-se e segurando os sapatos e as meias na mão antes de se afastar. Harry ouviu o barulho da lareira sendo acionada e se deixou cair sentado na beirada da cama, segurando a cabeça nas mãos.
If you're gone, maybe it's time to come home
There's an awful lot of breathing room
But I can hardly move
If you're gone, baby you need to come home
There's a little bit of something me
In everything in you
.oOo.
Nota da Autora: e aqui acaba a segunda parte. Se tudo correr bem, devo postar a terceira e última parte até domingo. Até lá, adoraria saber se vocês estão gostando e se estão bem nesses tempos de COVID-19! Imagino que muitos de vocês, assim como eu, estejam em casa, então espero contribuir um pouquinho para entretê-los... Abraços e até breve!
