Nova Orleans, 24 de setembro de 1999.
O barco em que estávamos era quase um submarino de tão baixo e oferecia mais conforto às nossas bagagens que a nós. Fred, Daphne e Velma vestiam-se como militares e até contemplavam o horizonte feito os generais e os descobridores do passado, de modo que até interromper aquelas poses me dava receio. Mesmo assim interrompi, falando pela milésima vez:
— Sei que entendo de tática tanto quanto a Britney Spears, mas nem por isso me falta senso comum. Estamos pondo tudo a perder, gente!
Fred me disse com uma careta:
— Não deixe o medo interferir nos nossos planos.
— Quem está na ilha já deve imaginar que estamos chegando. Isso é muito óbvio se sobrevivemos e não fomos embora de Nova Orleans. O que podemos fazer contra duas ou mais criaturas-gato alertas antes da noite do dia 25?
— Contê-las até a passagem da lua pelo relógio se forem poucas e bater em retirada para pedir reforços se não.
— Vamos pedir reforços agora! Nossas chances de sucesso sozinhos são mínimas e se as desperdiçarmos levamos junto no mínimo dois inocentes.
— Tenho sondado a polícia nestes dias e ela fez o favor de nos reconhecer. Já não nos dão credibilidade. O tempo que perderiam nos sondando para decidir se somos dignos de confiança e o outro tempo que levariam com burocracia também poria fim às vidas de Fitzgerald e Hugo. Hoje temos de nos focar apenas em sermos como relâmpagos.
— E se nos notarem?
— Fugimos como na última vez.
— E Hugo e Fitzgerald, como ficam? Não confio neles para serem normais o suficiente para não os prejudicarem por nossa causa.
Daphne interveio:
— O prejuízo sobre aqueles dois significa a morte deles, e são egoístas demais para deixarem isso acontecer.
Deitei-me sob a sombra de um caixote junto de Scooby e resignei-me a tremer junto dele. O silêncio perturbado de Velma consolava-me, pois validava minhas preocupações. Pelo menos eu não morreria como o palhaço da classe, quem diria!
Sim, eu ainda achava que meus amigos estavam sendo arrogantes por pensarem que havia uma possibilidade de enganarmos criaturas para as quais a Ilha Moonscar era um lar, entrando nesta sem aquelas perceberem. Não importava o quanto Velma havia pesquisado por mapas nos arquivos da cidade e até nos jornais que nos difamaram para ter uma ideia precisa o suficiente do território que nos permitisse a definição de um ponto fraco onde atracarmos.
Velma aproximou-se e pronunciou-se, não sei se para consolar ela mesma ou a mim:
— Calma. Eles saberem de nossa vinda é nossa maior arma.
— Está de brincadeira comigo?
— Eles agora estão crentes de que desembarcaremos no mesmo ponto a que Jacques nos trouxe pela proximidade da casa e facilidade de mobilidade.
— Nem temos certeza de que estávamos sendo assistidos enquanto simulávamos os planos.
— Você se queixava de arrepios na nuca sempre que entrávamos no elevador do hotel.
— Desde quando você acredita nessas coisas?
— É clichê superarmos a coerência da natureza em situações de aflição.
— E com base numa esperança arriscamos nossa pele?
Ela falava com uma calma livre de rancor e tingida ocasionalmente de riso, como nesta vez:
— Foi você quem começou tudo. Eles não podem ser tantos para serem capazes de fechar todas as entradas da ilha ao mesmo tempo.
Nosso verdadeiro local de desembarque era um ponto minúsculo e plano de areia nos fundos da ilha, tão distante quanto possível do antigo covil de Lena e Simone. A distribuição de árvores nas proximidades era tão aberta que seria impossível não vermos alguém à nossa espera e darmos a volta de imediato, o que não foi necessário, entretanto, a pesquisa de Velma não nos livrava sequer do risco de crocodilos, única razão de havermos vindo ainda durante o dia. Passamos a remar procurando constantemente narinas e asquerosos olhos abertos ou cerrados, não desembarcamos propriamente até checarmos, ainda no barco, se algum trecho de vegetação rasteira não seria na verdade outro tipo de fera ansiosa por nos matar.
De frente para a água de modo a não termos surpresas desagradáveis, distribuímos nossos suprimentos e instrumentos por nossas mochilas e as colocamos. Tampouco falamos enquanto escondíamos o barco, ainda esperando escutar silvos de ameaça.
Fred liderou o grupo não apenas por costume ou por convenção, mas porque trouxera uma bengala com a qual não parava de tatear o chão adiante e ao lado, o que se provou uma medida genial: não caminhamos nem um quilômetro ilha adentro até Fred enfiar a bengala em uma cobertura leve sobre um buraco cravado de estacas fedorentas.
Surpreso, eu perguntei a Fred:
— Você previu isto?
Ele encolheu os ombros de forma modesta e declarou:
— Não comece a se sentir tranquilo. Haverá outros deste. O lado bom é que talvez não tenhamos trabalho montando os nossos.
Novamente, ele estava certo. No quilômetro dois, deparamo-nos com um buraco cheio de cobras e Velma teve de tapar minha boca enquanto eu tapava a de Scooby para não gritarmos.
Na quinta ou sexta vez, eu finalmente disse a Velma:
— Seu melhor caminho está cheio de armadilhas.
Ela respondeu ofegante, mas obstinada:
— Melhor armadilhas que podemos evitar que crocodilos ou uma correria em terreno aberto.
— Não sabemos se somos capazes de evitar todas. Elas pioram a cada metro.
Até Fred admitiu:
— A capacidade de quem arma estas coisas pode estar acima da nossa.
Velma previu o que ele queria dizer com aquilo e sacudiu a cabeça:
— Nós nos planejamos para esta rota e só esta, Fred. Precisamos do máximo de garantias possíveis neste plano tão incerto.
— Mas Salsicha está certo, e pior seria nos separarmos por intenção ou acidente. Tentaremos nos desviar o mínimo daqui.
Fred então cruzou alguns arbustos até entrarmos em uma nova trilha. Nunca deixamos de olhar para o caminho antigo a fim de nos orientarmos na direção correta. A proximidade crescente da casa me fritava de ansiedade, de modo que não pude me calar:
— Quantos acham que haverá lá?
Daphne ficou ainda mais pálida e murmurou:
— Não sabemos nem se estarão lá.
O rabo de Scooby balançou pela primeira vez em dias conforme ele questionava:
— E, se não, iremos embora?
Eu próprio arruinei as esperanças dele:
— Não. Vamos sondar a ilha até darmos um jeito, qualquer jeito, de nos metermos em encrenca pior que a do ano passado, nem que seja por meios totalmente naturais, como nossos amiguinhos do pântano.
— A areia movediça?
— Eu não pensava nela quando falei, mas obrigado por lembrar.
Scooby colou-se às minhas pernas e eu quase tropecei. Ele fixou os olhos em mim, deixando de atentar até ao caminho que percorríamos. Eu acariciei seu pescoço, mas não me dei ao luxo de concentrar-me nele tanto quanto ele a mim, afinal, a falta de coordenação animal me levaria ao chão em poucos segundos caso eu o negligenciasse.
Enquanto a distração de Scooby era proposital, Velma distraía-se sem querer, ficando conosco para trás ao andar mais lentamente que Fred e Daphne, olhando para baixo sem parecer ver a areia.
Eu perguntei a ela quando fiquei a seu lado:
— No que está pensando?
Ela riu amargamente:
— Será que minha família e meus colegas vão acreditar nas cartas que mandei nesta vez?
— Que cartas?
— Eu tive de explicar no que me meti, afinal, não sei se voltarei a Ohio.
— Não fale uma coisa dessas tão tranquilamente!
— Mas é provável que não voltemos. Pelo menos, se assim ocorrer, nosso desaparecimento perpétuo dará mais credibilidade a nós.
— Nem vem. Não tem nenhum lado positivo em falhar, em morrer e em virar zumbi depois.
Ela pareceu decepcionada consigo mesma, mas ressentiu-se de um jeito tão manso e impotente quanto suspirou e admitiu:
— Tem razão. Estou aqui me preocupando em morrer com a imagem de louca quando a realidade é que já estou um pouco. A maledicência será mera constatação de fato.
Quis dizer que não porque não. Eu argumentaria sem argumentos para tirar aquelas ideias da cabeça dela, entretanto, Velma voltou a caminhar rápido a fim de ficar sozinha consigo mesma.
Com o distanciamento de Velma, percebi que Daphne estava de cabeça baixa; a princípio pensei que ela se preocupava pela mencionada possibilidade de areia movediça, porém, vim a notar que observava, com paixão ansiosa, a própria mão entrelaçada da ne Fred, cujas veias ressaltadas ela percorria usando as pontas do dedo indicador e da unha.
Fred, por sua vez, soltou a mão da dela e desabotoou os três primeiros botões da camisa, pois muito suava e ofegava. Ele balançou os braços como se precisasse ter certeza de que podia movê-los, flexionou bem os dedos e estalou o pescoço, praticando respirações profundas sem jamais tirar a atenção de adiante e, mais ocasionalmente, da arma no coldre.
Após trocar um olhar com Scooby, eu corri na direção de Fred e me interpus entre ele e nossa rota, agarrando-lhe os ombros e desabafando:
— Parem de agir como se um ou todos nós já estivéssemos mortos! Eu me sinto um sacrifício cerimonial! Sim, eu sei que é exatamente isso o que podemos virar daqui poucas horas, mas não sou capaz de continuar me movendo com essa chance como a única na minha cabeça!
Fred arregalou os olhos e defendeu-se:
— Ninguém falou de nos sacrificarmos.
— Está subentendido nessas caras de velório. Eu duvidava no barco mais por ignorância que por discernimento. Há esperanças neste plano ou não?
— Claro. Eu nunca traria meus amigos e minha noiva para cá caso contrário.
Daphne acrescentou:
— Ele viria sozinho, como naquela noite, e nós só poderíamos segui-lo.
Havia algumas coisas na humanidade que não podiam passar despercebidas nem a mim, como a mania das pessoas de lidarem melhor com uma situação ruim quando outras estavam tão mal quanto elas; na maioria das vezes, quem se sentia daquele consolado pela companhia na desgraçada era um invejoso corrupto cuja mera existência me dava calafrios, mas a ironia da vida me fez entrar na mesma pele naquele momento. Eu definitivamente não queria morrer nem ser sugado por criaturas-gato nem ver algum dos meus amigos sucumbindo àquilo, mas fazer tolices junto deles diminuía o absurdo da tolice, então acreditei sinceramente em Fred e em Daphne, admitindo:
— É, teríamos.
Abracei Fred pela frente e Scooby abraçou-o por trás, o que o incomodou no estado alerta em que ele estava, mas nem assim nos impediu.
Eu decidi:
— Se escaparmos daqui, eu acho que vou me demitir daquele parque. Já tive o bastante de selva para uma vida inteira e sinto saudades da cidade.
Daphne mostrou-se contente com a tentativa de tornar as esperanças mais realistas e falou do futuro também:
— Voltaremos a sair juntos.
— Mas só restaurantes, lanchonetes e bares por um tempo, certo? – virei-me para Velma – Ou as palestras tediosas da amiga universitária.
Ela balançou a cabeça, cheia de dúvidas:
— Se eu ainda puder passar pelos corredores...
— Você dirá que suas cartas foram uma pegadinha. Chega de insistir com quem não quer acreditar. Somos investigadores malucos tentando salvar umas vidinhas, não missionários religiosos. E aceite os nomes de charlatã, se vierem.
Velma assentiu.
— São, sem dúvida, melhores do que os de louca.
Daphne também anuiu:
— Eu posso garantir.
Velma assustou-se como se só naquele momento lembrasse de algo e tapou a própria boca, tocando o braço de Daphne:
— Desculpe...
Daphne sorriu para ela e ergueu as mãos despreocupadamente:
— Melhor charlatã que louca para você e melhor louca que morta para mim. Há sempre um terapeuta superior ao outro em toda esquina enquanto eu estiver viva para procurá-lo.
— Eu vou te ajudar desta vez. Tenho contatos. Acharei alguém mais capaz e merecedor da fortuna dos Blake.
— Não. Eu mesma pagarei o próximo, mas nunca informarei meus pais de que eles precisam parar de falirem com Francis.
Fred voltou-se para nós, beijou a testa de Daphne e apertou meu ombro e o de Velma, chegando até a se abaixar para coçar o espaço entre as orelhas de Scooby, mas fez tudo aquilo com um automatismo urgente, preocupado só em cumprir a obrigação exigida pelo momento para logo depois apontar na direção do covil Lenoir e anunciar:
— Talvez já possam nos ouvir a esta altura. Estamos bem perto da casa. Temos de continuar abaixados.
Ainda absorvidos na tranquilidade de nossa interação mais recente, demoramos a nos sintonizar novamente com a ameaça tensa no tom de Fred, mas, no final das contas, não tivemos escolha.
